CRIANDO RAÍZES

PHILIP GULLEY

Histórias Para Aquecer o Coração 13

 

Quando eu era pequeno, tinha um velho vizinho chamado Dr. Gibbs. Ele não se parecia com nenhum médico que eu jamais houvesse conhecido. Todas as vezes em que eu o via, ele estava vestido com um macacão de zuarte e um chapéu de palha cuja aba da frente era de plástico verde transparente. Sorria muito, um sorriso que combinava com seu chapéu - velho, amarrotado e bastante gasto. Nunca gritava conosco por brincarmos em seu jardim. Lembro-me dele como alguém muito mais gentil do que as circunstâncias justificariam.

Quando o Dr. Gibbs não estava salvando vidas, estava plantando árvores. Sua casa localizava-se em um terreno de dez acres, e seu objetivo na vida era transformá-Io em uma floresta.

O bom doutor possuía algumas teorias interessantes a respeito de jardinagem. Ele era da escola do "sem sofrimento não há crescimento". Nunca regava as novas árvores, o que desafiava abertamente a sabedoria convencional. Uma vez perguntei-lhe por quê. Ele disse que molhar as plantas deixava-as mimadas e que, se nós as molhássemos, cada geração sucessiva de árvores cresceria cada vez mais fraca. Portanto, tínhamos que tornar as coisas difíceis para elas e eliminar as árvores fracas logo no início.

Ele falou sobre como regar as árvores fazia com que as raízes não se aprofundassem, e como as árvores que não eram regadas tinham que criar raízes mais profundas para procurar umidade. Achei que ele queria dizer que raízes profundas deveriam ser apreciadas.

Portanto, ele nunca regava suas árvores. Plantava um carvalho e, ao invés de regá-Io todas as manhãs, batia nele com um jornal enrolado. Smack! Slape! Pou! Perguntei-lhe por que fazia isso e ele disse que era para chamar a atenção da árvore.

O Dr. Gibbs faleceu alguns anos depois. Saí de casa. De vez em quando passo por sua casa e olho para as árvores que o vi plantar há cerca de vinte e cinco anos. Estão fortes como granito agora. Grandes e robustas. Aquelas árvores acordam pela manhã, batem no peito e bebem café sem açúcar.

Plantei algumas árvores há alguns anos. Carreguei água para elas durante um verão inteiro. Borrifei-as. Rezei por elas.

Todos os nove metros do meu jardim. Dois anos de mimos resultaram em árvores que querem ser servidas e paparicadas.

Sempre que sopra um vento frio, elas tremem e balançam os galhos. Árvores maricas.

Uma coisa engraçada a respeito das árvores do Dr. Gibbs: a adversidade e a privação pareciam beneficiá-Ias de um modo que o conforto e a tranquilidade nunca conseguiriam.

Todas as noites, antes de ir dormir, dou uma olhada em meus dois filhos. Olho-os de cima e observo seus corpinhos, o sobe e desce da vida dentro deles. Frequentemente rezo por eles.

Rezo principalmente para que tenham vidas fáceis. "Senhor, poupe-os do sofrimento." Mas, ultimamente, venho pensando que é hora de mudar minha oração.

Essa mudança tem a ver com a inevitabilidade dos ventos gelados que nos atingem em cheio. Sei que meus filhos irão encontrar dificuldades e minha oração para que isto não aconteça é ingênua. Sempre há um vento gelado soprando em algum lugar.

Portanto, estou mudando minha oração vespertina. Porque a vida é dura, quer o desejemos ou não. Em vez disso, vou rezar para que as raízes de meus filhos sejam profundas, para que eles possam retirar forças das fontes escondidas do Deus eterno.

Muitas vezes rezamos por tranquilidade, mas essa é uma graça difícil de alcançar. O que precisamos fazer é rezar por raízes que alcancem o fundo do Eterno, para que quando as chuvas caiam e os ventos soprem não sejamos varridos em direções diferentes.

Nossa força vem de nossas fraquezas.

RALPH WALDO EMERSON


O GRANDE DOM DE MINHA MÃE

MARIE RAGGHIANTI

Histórias Para Aquecer o Coração 16

 

Eu tinha dez anos de idade quando minha mãe teve paralisia, causada por um tumor na espinha dorsal. Antes disso ela havia sido uma mulher vibrante e vigorosa, de tal maneira ativa que a maioria das pessoas achava impressionante. Mesmo quando era pequena, eu ficava admirada com suas realizações e por sua beleza. Porém, quando tinha trinta e um anos, sua vida mudou.

Assim como a minha.

Do dia para a noite, parecia, ela passou a ficar deitada de costas em uma cama de hospital. Um tumor benigno a havia incapacitado, mas eu era jovem demais para compreender a ironia da palavra "benigno", pois ela nunca mais seria a mesma.

Ainda tenho imagens vívidas dela antes da paralisia. Ela sempre foi gregária e recebia muitas visitas. Com frequência passava horas preparando canapés e enchendo a casa de flores, que colhia frescas no jardim cultivado ao lado da casa. Selecionava as músicas populares da época e rearrumava a mobília a fim de abrir espaço para que os amigos pudessem se entregar à dança. Na realidade, era minha mãe quem mais gostava de dançar.

Hipnotizada, eu a observava se vestir para as festividades noturnas. Mesmo hoje em dia ainda me lembro de nosso vestido favorito, com sua saia preta e corpete de renda azul-marinho, o contraste perfeito para seu cabelo louro. Fiquei tão emocionada quanto ela no dia em que trouxe para casa sapatos de salto alto de renda preta e, naquela noite, minha mãe certamente era a mulher mais bonita do mundo.

Eu acreditava que ela podia fazer qualquer coisa, fosse jogar tênis (ganhara campeonatos na universidade), costurar (fazia todas as nossas roupas), tirar fotografias (ganhou um concurso nacional), escrever (era colunista de um jornal) ou cozinhar (especialmente pratos espanhóis para meu pai).

Agora, apesar de não poder fazer nenhuma dessas coisas, ela encarava sua doença com o mesmo entusiasmo que tinha em relação a tudo o mais.

Palavras como "deficiente" e "fisioterapia" tornaram-se parte de um estranho mundo novo no qual entramos juntas, e as bolas de borracha para crianças que ela se esforçava para apertar adquiriram um simbolismo que jamais haviam possuído.

Gradualmente, passei a ajudar nos cuidados com a mãe que sempre cuidara de mim. Aprendi a cuidar do meu próprio cabelo - e do dela. Eventualmente, tornou-se rotina levá-Ia na cadeira de rodas até a cozinha, onde ela me ensinava a arte de descascar cenouras e batatas e como esfregar alho e sal e pedaços de manteiga em uma boa carne assada.

Quando, pela primeira vez, ouvi falarem em uma bengala, opus-me:

- Não quero que a minha linda mãe use uma bengala.

Mas a única coisa que ela disse foi:

- Não é melhor você me ver andando com uma bengala do que não me ver andando de maneira alguma?

Cada conquista era um marco para nós duas: a máquina de escrever elétrica, o carro com câmbio e freio automáticos, sua volta à universidade, onde se diplomou em Educação Especial.

Ela aprendeu tudo o que podia sobre as pessoas com deficiências e acabou fundando um grupo ativista de apoio chamado Os Incapacitados. Certo dia, sem ter falado muito de antemão, ela me levou e a meus irmãos a uma reunião dos Incapacitados. Eu nunca vira tantas pessoas com tantas deficiências.

Voltei para casa, silenciosamente introspectiva, pensando em como nós realmente tínhamos sorte. Ela nos levou muitas vezes depois disso e, eventualmente, a visão de um homem ou uma mulher sem pernas ou braços não nos chocava mais. Minha mãe também nos apresentou a vítimas de paralisia cerebral, enfatizando que a maioria era tão inteligente quanto nós talvez mais. E nos ensinou a nos comunicarmos com os retardados mentais, mostrando como eles eram frequentemente mais afetuosos, comparados às pessoas normais. Durante tudo isso, meu pai continuou a amá-Ia e apoiá-Ia.

Quando eu estava com onze anos, minha mãe me contou que ela e papai iriam ter um bebê. Muito depois, eu soube que seus médicos tinham insistido para que ela fizesse um aborto (terapêutico) - uma opção à qual ela resistiu veementemente. Logo, éramos mães juntas, já que virei mãe adotiva de minha irmã, Mary Therese. Em pouquíssimo tempo aprendi a trocar fraldas, banhá-Ia e alimentá-Ia. Ainda que mamãe tenha mantido a disciplina maternal, para mim foi um passo gigantesco além da brincadeira com bonecas.

Um momento se destaca mesmo hoje em dia: o dia em que Mary Therese, na época com dois anos, caiu e esfolou o joelho, abriu-se em prantos e passou correndo pelos braços estendidos de minha mãe para os meus. Tarde demais, eu vislumbrei a faísca de dor no rosto de mamãe, mas tudo o que ela disse foi:

- É natural que ela corra para você, pois você toma conta dela tão bem...

Como minha mãe aceitava sua condição com tanto otimismo, raramente me senti triste ou ressentida. Mas nunca irei esquecer o dia em que minha complacência foi destruída.

Muito tempo depois da imagem de minha mãe em salto agulha ter se dissipado da minha consciência, houve uma festa em nossa casa. A essa altura eu era adolescente, e vi minha sorridente mãe sentada na lateral, olhando seus amigos dançarem, e fui atingida pela cruel ironia de suas limitações físicas. Subitamente, fui transportada de volta à época de minha primeira infância e a visão de minha mãe dançando radiante estava novamente diante de mim.

Imaginei se mamãe se lembraria também. Espontaneamente, andei em sua direção e então vi que, apesar de estar sorrindo, seus olhos estavam marejados de lágrimas. Corri para fora do aposento e para o meu quarto, enterrei meu rosto no travesseiro e chorei copiosamente - todas as lágrimas que ela jamais chorara. Pela primeira vez, eu me enraiveci contra Deus e contra a vida e suas injustiças para com a minha mãe.

A lembrança do sorriso brilhante de minha mãe permaneceu comigo. Daquele momento em diante, enxerguei sua habilidade de superar a perda de tantas batalhas anteriores e seu ímpeto em olhar para a frente - coisas que eu tomava por certas - como um grande mistério e uma poderosa inspiração.

Quando eu estava crescida e comecei a trabalhar com o sistema penal, mamãe se interessou em trabalhar com os prisioneiros. Ela telefonou para a penitenciária e pediu para dar aulas de Redação Criativa para os detentos. Lembro-me de como eles se amontoavam em volta dela sempre que ela chegava e pareciam se agarrar a cada palavra sua, como eu fizera na infância.

Mesmo quando não podia mais se deslocar até a prisão, ela frequentemente se correspondia com vários detentos.

Um dia pediu-me para enviar uma carta para um prisioneiro, Waymon. Perguntei se poderia lê-Ia antes e ela concordou, sem perceber, eu acho, o quanto aquilo seria revelador para mim.

Dizia: "Querido Waymon, quero que saiba que tenho pensado em você com frequência desde que recebi sua carta. Você mencionou como é difícil estar preso atrás das grades e meu coração se une ao seu. Mas quando você disse que eu não imagino o que é estar na prisão, senti-me compelida a dizer-lhe que estava errado.

Existem diferentes tipos de liberdade, Waymon, diferentes tipos de prisão. Às vezes, nossas prisões são autoimpostas.

Quando, com a idade de trinta e um anos, levantei-me um dia para descobrir que estava completamente paralisada, senti-me em uma armadilha - dominada pela sensação de estar presa dentro de um corpo que não mais me permitiria correr através de uma campina, dançar ou carregar minha filha nos braços.

Fiquei deitada ali durante muito tempo, lutando para chegar a um acordo com minha enfermidade, tentando não sucumbir à autopiedade. Perguntei-me se, na verdade, valeria a pena viver nessas condições, se não seria melhor morrer.

Pensei a respeito desse conceito de prisão, pois me parecia que havia perdido tudo o que importava na vida. Eu estava próxima do desespero.

Mas, então, um dia me ocorreu que, na realidade, ainda havia opções abertas para mim e que eu tinha a liberdade de escolher entre elas. Serd que eu iria sorrir quando visse meus filhos de novo, ou iria chorar? Iria zangar-me com Deus, ou iria pedir que Ele fortalecesse minha fé?

Em outras palavras, o que eu iria fazer com o livre-arbítrio que Ele havia me dado e que ainda era meu?

Tomei a decisão de lutar, enquanto estivesse viva, para viver o mais plenamente possível para procurar tornar minhas experiências aparentemente negativas em experiências positivas, procurar formas de transcender minhas limitações físicas expandindo minhas fronteiras mentais e espirituais. Eu podia escolher entre ser um exemplo positivo para meus filhos ou podia murchar e morrer emocional assim como fisicamente.

Existem muitos tipos de liberdade, Waymon. Quando perdemos um tipo de liberdade, temos que simplesmente procurar por outro.

Você e eu somos abençoados com a liberdade de escolher entre bons livros, que iremos ler, quais deixaremos de lado.

Você pode olhar para as suas grades ou pode olhar através delas.

Você pode ser um exemplo para prisioneiros mais jovens ou pode se misturar com os encrenqueiros. Você pode amar a Deus e buscar conhecê-Io ou pode virar as costas para Ele.

Até certo ponto, Waymon, estamos nisso juntos. "

Quando finalmente terminei de ler a carta, minha visão estava borrada pelas lágrimas. Ainda assim, pela primeira vez, eu enxerguei minha mãe com clareza.

E eu a entendi.

 

O otimismo é uma disposição alegre que permite que um bule de chá assovie apesar de estar com água quente até o nariz.

ANÔNIMO


 

BOAS MANEIRAS

PAUL KARRER

Histórias Para Aquecer o Coração 27

 

A cansada ex-professora se aproximou do balcão do supermercado. Sua perna esquerda doía e ela esperava ter tomado todos os comprimidos do dia: para pressão alta, tonteira e um grande número de outras enfermidades.

"Graças a Deus eu me aposentei há vários anos" - ela pensou. "Não tenho energia para ensinar hoje em dia." Imediatamente antes de se formar a fila para o balcão, ela viu um rapaz com quatro crianças e uma esposa, ou namorada, grávida. A professora não pôde deixar de notar a tatuagem em seu pescoço.

"EIe esteve preso - pensou.

Continuou a observá-lo. Sua camiseta branca, cabelo raspado e calças largas levaram-na a conjecturar:

"Ele é membro de uma gangue."

A professora tentou deixar o homem passar na sua frente.

- Você pode ir primeiro - ofereceu.

- Não, a senhora primeiro - ele insistiu.

- Não, você está com mais gente - disse a professora.

- Devemos respeitar os mais velhos - defendeu-se o homem.

E, com isto, fez um gesto largo indicando o caminho para a mulher.

Um breve sorriso adejou em seus lábios enquanto ela mancou na frente dele. A professora que existia dentro dela não pôde desperdiçar o momento e, virando-se para ele, perguntou:

- Quem lhe ensinou boas maneiras?

- A senhora, Sra. Simpson, na terceira série.


 

NÃO HÁ AMOR MAIOR

COL. JOHN W. MANSUR Extraído de The Missileer

Histórias Para Aquecer o Coração 29

 

Qualquer que fosse seu alvo inicial, os tiros de morteiros caíram em um orfanato dirigido por um grupo missionário na pequena aldeia vietnamita. Os missionários e uma ou duas crianças morreram imediatamente e várias outras crianças ficaram feridas, incluindo uma menininha de uns oito anos de idade.

As pessoas da aldeia pediram ajuda médica de uma cidade vizinha que possuía contato por rádio com as forças americanas.

Finalmente, um médico e uma enfermeira da Marinha americana chegaram em um jipe apenas com sua maleta médica.

Determinaram que a menina era a que estava mais gravemente ferida. Sem uma ação rápida, ela morreria por causa do choque e da perda de sangue.

Uma transfusão era imprescindível e era necessário um doador com o mesmo tipo sanguíneo. Um teste rápido revelou que nenhum dos americanos possuía o tipo correto, mas vários dos órfãos que não haviam sido atingidos tinham.

O médico falava um pouco de vietnamita simplificado e a enfermeira possuía uma leve noção de francês aprendido no colégio. Usando essa combinação, juntos e com muita linguagem de sinais improvisada, eles tentaram explicar para a jovem e assustada plateia que, a não ser que pudessem repor uma parte do sangue perdido da menina, ela com certeza morreria. Então perguntaram se alguém estaria disposto a doar um pouco de sangue para ajudar.

Seu pedido encontrou um silêncio estupefato. Após longos momentos, uma mãozinha lenta e hesitantemente levantou-se, abaixou-se e levantou-se novamente.

- Oh, obrigada - disse a enfermeira em francês. - Qual é o seu nome?

- Heng - veio a resposta.

Heng foi rapidamente colocado em um catre, os braços limpos com álcool e uma agulha inserida em sua veia. Durante toda a penosa experiência, Heng permaneceu tenso e em silêncio.

Depois de algum tempo, ele soltou um soluço trêmulo, cobrindo rapidamente seu rosto com a mão livre.

- Está doendo, Heng? - perguntou o médico.

Heng balançou a cabeça, mas, após alguns instantes, outro soluço escapou e mais uma vez ele tentou esconder o choro.

Novamente o médico perguntou se a agulha o estava machucando e novamente Heng balançou a cabeça.

Porém agora seus soluços ocasionais haviam dado lugar a um choro constante e silencioso, seus olhos apertados, o punho na boca para abafar seus soluços.

A equipe médica estava preocupada. Algo obviamente estava muito errado. Nesse momento, uma enfermeira vietnamita chegou para ajudar. Vendo o sofrimento do pequeno, ela falou rapidamente com ele em vietnamita, escutou sua resposta e respondeu-lhe com a voz reconfortante. Após um instante, o paciente parou de chorar e olhou interrogativamente para a enfermeira vietnamita. Quando ela assentiu, um ar de grande alívio se espalhou pelo rosto do menino.

Olhando para cima, a enfermeira contou calmamente para os americanos:

- Ele achou que estava morrendo. Entendeu errado. Achou que vocês haviam pedido que ele desse todo o seu sangue para que a menina pudesse viver.

- Mas por que ele estaria disposto a fazer isso? - perguntou a enfermeira da Marinha.

A enfermeira vietnamita repetiu a pergunta para o menino, que respondeu simplesmente:

- Ela é minha amiga.


 

O PODER DO PERDÃO

CHRIS CARRIER Entregue por Katy McNamara

Histórias Para Aquecer o Coração 36

 

Em 1974, voltando da escola para casa no último dia antes das férias de Natal, eu pensava animadamente sobre o feriado vindouro, como só os meninos de dez anos conseguem sonhar. A algumas portas de distância de minha casa em Coral Gables, Flórida, um homem se aproximou de mim e perguntou se eu poderia ajudá-lo com a decoração de uma festa que ele estava dando para meu pai. Achando que era amigo de meu pai, concordei em ir com ele.

O que eu não sabia era que este homem tinha ressentimentos contra a minha família. Trabalhara como enfermeiro para um parente idoso, mas fora despedido por causa da bebida.

Após eu ter concordado em acompanhá-Io, ele dirigiu seu trailer até uma área isolada ao norte de Miami, onde parou no acostamento da estrada e me golpeou várias vezes no peito com um furado de gelo. Então dirigiu para oeste, até Florida Everglades, levou-me até o meio dos arbustos, deu um tiro em minha cabeça e me deixou lá para morrer.

Felizmente a bala havia passado por trás de meus olhos e saído pela minha têmpora esquerda sem causar nenhum dano cerebral. Quando recobrei a consciência, seis dias depois, não tinha noção de que havia sido atingido por um tiro. Fiquei sentado no acostamento e fui encontrado por um homem que parou para me ajudar.

Duas semanas depois descrevi a pessoa que me atacara para o desenhista da polícia e meu tio reconheceu o retrato resultante como o homem que me atacara. Meu agressor foi preso, junto com outros suspeitos. Entretanto, o trauma e o estresse haviam cobrado seu preço e não pude identificá-lo. Infelizmente a polícia não conseguiu recolher nenhuma prova física que o ligasse ao crime. Portanto, ele nunca foi acusado.

O ataque me deixou cego do olho esquerdo, mas não causou nenhum outro dano e, com o amor e o apoio de minha família e amigos, voltei para a escola e dei continuidade à minha vida.

Durante os três anos seguintes, vivi com uma extrema ansiedade. A maioria das noites eu acordava assustado, imaginando que havia escutado alguém entrando pela porta dos fundos e acabava dormindo no pé da cama de meus pais.

Então, quando eu estava com treze anos, tudo isso mudou.

Uma noite, durante um estudo da Bíblia com o grupo jovem da igreja, percebi que a providência e o amor de Deus, tendo miraculosamente me mantido vivo, eram a base para a segurança de minha vida. Em Suas mãos eu podia viver sem medo ou rancor. E então eu o fiz. Terminei os estudos, recebendo o diploma de mestrado em Divindade. Casei-me com minha maravilhosa esposa, Leslie. Temos duas filhinhas maravilhosas, Amanda e Melodee.

Em setembro de 1996, o major Charles Scherer, do Departamento de Polícia de Coral Gables, que trabalhara na investigação original de meu caso, telefonou-me para me contar que o agressor, hoje com setenta e sete anos de idade, finalmente confessara. Cego por causa do glaucoma, com a saúde abalada, sem família ou amigos, ele estava em um asilo no norte de Miami Beach. Fui visitá-lo.

A primeira vez em que fui visitá-Io ele se desculpou pelo que havia feito a mim e eu lhe disse que o havia perdoado. Visitei-o muitas vezes depois disso, apresentando-o à minha esposa e filhas, oferecendo-lhe esperança e uma certa sensação de família nos dias anteriores à sua morte. Ele sempre ficava feliz quando eu aparecia. Acredito que nossa amizade tenha diminuído sua solidão e era um grande alívio para ele, após vinte e dois anos de arrependimento.

Sei que o mundo pode me ver como a vítima de uma horrível tragédia, mas eu me considero a "vítima” de muitos milagres. O fato de eu estar vivo e não . ter nenhuma deficiência mental desafia as probabilidades. Tenho uma esposa amorosa e uma família linda. Recebi tantas dádivas quanto qualquer outra pessoa - e amplas oportunidades. Fui abençoado de várias maneiras.

E enquanto muitas pessoas não conseguem entender como pude perdoá-Io, do meu ponto de vista eu não poderia deixar de fazê-lo. Se eu tivesse escolhido odiá-Io todos esses anos, ou passar a vida procurando vingança, então eu não seria o homem que sou hoje - o homem que minha mulher e filhas amam.

 

 

Se você for paciente em um momento de raiva,

irá escapar de cem anos de arrependimento.

PROVÉRBIO CHINÊS

 

 


 

O QUANTO PROGREDIMOS

PAT BONNEY SHEPHERD

Histórias Para Aquecer o Coração 40

 

Em 1996, a maioria de nós, mulheres, está solidamente engajada em formar grupos de apoio e ajudar umas às outras da mesma forma que os homens têm feito há décadas - uma situação muito mais amigável para as mulheres do que era há cinquenta anos. Sempre que fico complacente a esse respeito, penso em minha mãe - e imagino se eu teria sobrevivido ao que ela passou na época.

Por volta de 1946, quando minha mãe, Mary Silver, já estava casada com Walter Johnson por quase sete anos, ela era mãe de quatro crianças ativas e barulhentas.

Sei pouca coisa a respeito da vida dos meus pais nesta época, mas, tendo eu mesma criado duas crianças em alguns lugares remotos do país, posso imaginar como foi, especialmente para minha mãe. Com quatro crianças pequenas, um marido cujo senso de obrigação ia até trazer dinheiro para casa e cortar o gramado, sem vizinhos e praticamente nenhuma oportunidade de fazer amigos próprios, ela literalmente não tinha onde dar vazão às grandes pressões que deveriam se acumular dentro dela. Por algum motivo, meu pai decidiu que ela estava "se perdendo". É um mistério para mim imaginar como ela poderia ter conseguido tempo e alguém para encontrar, quanto mais para "se perder", já que nós quatro estávamos constantemente no meio do caminho. Mas meu pai já decidira, e ponto final.

Numa manhã de um dia de primavera em 1946, minha mãe saiu de casa para comprar leite para o bebê. Quando voltou, meu pai estava na janela do andar de cima com um revólver. Ele disse:

- Mary, se você tentar entrar nesta casa, vou atirar nos seus filhos.

Foi assim que ele lhe disse que estava entrando com um pedido de divórcio.

Foi a última vez que minha mãe viu aquela casa. Foi forçada a ir embora apenas com a roupa do corpo e o dinheiro que tinha na bolsa - e uma garrafa de leite. Hoje em dia, ela provavelmente teria opções: um abrigo local, um 0800 para o qual pudesse telefonar, um grupo de amigas que teria feito através de um emprego de meio expediente ou de tempo integral. Teria um talão de cheques e cartões de crédito no bolso. E poderia voltar sem constrangimento para sua família. Porém, em 1946, ela não tinha nada disso. As pessoas casadas simplesmente não se divorciavam.

Portanto, lá estava ela - completamente sozinha. Meu pai conseguiu até virar o pai dela contra ela. Agora meu avô proibira minha avó de falar com sua filha quando ela mais precisava.

Em algum momento antes de entrar com o processo no tribunal, meu pai a contactou e disse:

- Olhe, Mary, eu não quero realmente um divórcio. Só fiz isso para lhe ensinar uma lição.

Mas minha mãe podia ver que, por pior que fosse sua situação, era preferível a voltar para meu pai e deixar que ele nos criasse. Então respondeu:

- Nem pensar. Cheguei até aqui, não vou voltar atrás.

Para onde ela poderia ir? Não podia ir para casa. Não podia permanecer ali em Amherst: em primeiro lugar, porque, sabia que ninguém a hospedaria; em segundo, porque, com o retorno dos recrutas, não haveria esperança de trabalho para ela; e, finalmente e mais importante, porque meu pai estava lá. Então embarcou em um ônibus para o único lugar que reservava uma chance para ela - a cidade de Nova York.

Minha mãe tinha uma vantagem: era letrada e tinha um diploma de Matemática, da Universidade Mt. Holyoke. Porém, fizera o caminho habitual das mulheres nos anos 30 e 40: fora diretamente do segundo grau para a faculdade e daí para o casamento. Ela não fazia ideia de como arrumar um emprego e sustentar a si mesma.

A cidade de Nova York tinha várias coisas a seu favor: ficava a apenas 320 quilômetros; portanto, podia pagar a passagem de ônibus. E era uma cidade grande; portanto, tinha que haver um emprego escondido em algum lugar. Ela positivamente tinha que encontrar uma maneira de sustentar a nós quatro.

Assim que chegou a Nova York, localizou uma Associação Cristã de Moços, onde podia ficar por apenas um dólar e meio por noite. Havia uma loja perto, onde, por cerca de um dólar por dia, comia sanduíches de salada de ovo e café. Em seguida, começou a correr as ruas.

Durante vários dias, que se tornaram várias semanas, não 'encontrou nada: não havia empregos para diplomados em Matemática, homens ou mulheres, nenhum trabalho para mulheres. Todas as noites ela voltava para a Associação, lavava a roupa de baixo e a blusa branca, colocava-as para secar e de manhã usava o ferro e a tábua de passar da Associação para tirar as marcas da blusa. Esses itens, junto com uma saia de flanela cinza, constituíam todo o seu guarda-roupa. Cuidar deles ocupava uma parte das longas noites que enfrentava sozinha na Associação. Sem livros, nem uma moedinha a mais para comprar jornal, sem telefone (e ninguém para quem ligar, se tivesse um) e sem rádio, a não ser no andar de baixo (onde a lista dos convidados da Associação era de certa forma assustadora), as noites devem ter sido realmente horríveis.

Previsivelmente, seu dinheiro minguou, assim como a lista de agências de emprego. Finalmente, em uma quinta-feira, chegou a vez da última agência de empregos da cidade, com menos no bolso do que precisava para pagar o abrigo naquela noite. Ela fez muito esforço para não pensar em passar a noite nas ruas.

Subiu penosamente vários lances de escada para chegar à agência, preencheu os formulários obrigatórios e, quando chegou sua vez de ser entrevistada, preparou-se para as más notícias. "Sentimos muito, mas não temos nada para a senhora.

Quase não temos empregos suficientes para os homens que temos que colocar." Pois é claro que os homens tinham prioridade em relação a qualquer emprego disponível.

Minha mãe não sentiu nada quando se levantou da cadeira e se dirigiu para a porta. Entorpecida como estava, havia quase atravessado a porta quando percebeu que a mulher resmungara alguma outra coisa.

- Desculpe, não ouvi. O que a senhora disse? - perguntou.

- Bem, sempre há George B. Buck, mas ninguém quer esse emprego. Ninguém fica muito tempo - a mulher repetiu, apontando com a cabeça para uma caixa de fichas em cima de um arquivo próximo.

- O que é? Conte-me a respeito - disse minha mãe ansiosamente, sentando-se com as costas apoiadas no encosto da cadeira de madeira. - Faço qualquer coisa. Quando começo?

- Bem, é um emprego de contador, para o qual a senhora está qualificada, mas o salário não é bom e tenho certeza de que não gostaria - disse a agente, retirando a ficha relevante do fichário. Vamos ver, diz aqui que a senhora pode começar quando quiser.

Suponho que isto signifique que poderá ir lá agora. Ainda é cedo.

Minha mãe contou que literalmente arrancou o cartão das mãos da agente e correu escada abaixo. Nem mesmo parou para tomar fôlego enquanto corria os vários quarteirões até o endereço escrito no cartão. Quando se apresentou para o surpreso gerente de pessoal, ele decidiu que, sem dúvida, ela podia começar a trabalhar naquela manhã mesmo se quisesse, pois havia muito trabalho a ser feito. E era quinta-feira, dia de pagamento. Naquele tempo, a maioria das empresas pagava seus empregados em dinheiro vivo pelo tempo trabalhado, incluindo o próprio dia de pagamento - portanto, miraculosamente, quando eram cinco horas, ela recebeu dinheiro vivo pelas cinco horas que trabalhara naquele dia. Não era muito, mas deu para que ela chegasse até a quinta-feira seguinte, depois à outra e assim por diante.

Mary Silver Johnson permaneceu em George B. Buck & Companhia por 38 anos, subindo para um cargo de grande respeito dentro da firma. Lembro-me de que ela tinha um escritório de esquina - o que não é pouca coisa no centro de Manhattan. Depois de trabalhar lá por dez anos, ela foi capaz de nos comprar uma casa no subúrbio de Nova Jersey, a meia quadra de distância do ônibus para a cidade.

Hoje em dia, uma em cada duas casas parece ser comandada por uma mãe solteira e é fácil esquecer que já houve um tempo em que este tipo de vida era impensável. Sinto-me tão humilde ao refletir sobre as realizações de minha mãe quando orgulhosa o suficiente para estourar os botões da camisa! Se cheguei até aqui, meu bem, foi porque fui carregada em grande parte pelos esforços de muitas, muitas outras mulheres antes de mim - com esta mulher admirável, minha mãe, liderando o caminho.

 

 

As mulheres são como saquinhos de chá:

não se sabe sua força até serem jogadas em água quente.

ELEANOR ROOSEVELT

 


 

O BALÃO DE BENNY

MICHAEL CODY

Histórias Para Aquecer o Coração 46

 

Benny tinha setenta anos quando morreu subitamente de câncer, em Wilmerre, Illinois. Como sua neta de dez anos, Rachel, nunca teve a oportunidade de dizer adeus, ela chorou durante vários dias. Mas depois de receber um grande balão vermelho em uma festa de aniversário, voltou para casa com uma ideia - uma carta para o vovô Benny, enviada para o céu em seu balão.

A mãe de Rachel não teve coragem de dizer não e observou com lágrimas nos olhos o frágil balão subir por entre as árvores que cercavam o jardim e desaparecer.

Dois meses depois, Rachel recebeu esta carta com carimbo do correio de uma cidade a 900 quilômetros de distância, na Pensilvânia:

"Querida Rachel

Vovô Benny recebeu a sua carta. Ele realmente a adorou. Por favor, entenda que coisas materiais não podem ficar no céu, por isso tiveram que mandar o balão de volta para a Terra - eles só guardam os pensamentos, as lembranças, o amor e coisas desse tipo no céu.

Rachel sempre que você pensar no vovô Benny, ele saberá e estará muito perto, com um amor enorme por você.

Sinceramente, Bob Anderson (também um vovô)."


 

PRESENTES DO CORAÇÃO

SHERYL NICHOLSON

Histórias Para Aquecer o Coração 48

 

Neste mundo agitado em que vivemos é tão mais fácil pagar alguma coisa com cartão de crédito do que dar um presente vindo do coração.

E presentes do coração são especialmente necessários na época de Natal.

Há alguns anos, comecei a preparar meus filhos para o fato de que o Natal daquele ano seria modesto. A resposta deles foi:

"Tá, mãe, já ouvimos isso antes!" Eu havia perdido a credibilidade porque dissera a mesma coisa a eles no ano anterior, quando estava passando pelo divórcio. Mas daquela vez eu saíra e usara o limite de todos os cartões de crédito. Havia encontrado até mesmo algumas formas de financiamento criativas para pagar os presentes de Natal. Este ano, com certeza, seria diferente, mas eles não estavam acreditando.

Uma semana antes do Natal, perguntei a mim mesma: "O que eu tenho que pode tornar este Natal especial?" Em todas as casas em que havíamos morado antes do divórcio eu tinha arrumado tempo para ser decoradora. Tinha aprendido a colocar papel de parede, azulejos e placas de madeira, fazer cortinas a partir de lençóis e muito mais. Mas nesta casa alugada eu tinha pouco tempo para decorar e muito menos dinheiro. Além do mais, estava zangada com esse lugar feio, com seus carpetes vermelhos e abóbora e paredes verdes e azul-turquesa. Recusava-me a gastar dinheiro com ele. Dentro de mim a voz do orgulho ferido gritava: "Nós não vamos ficar aqui tanto tempo assim!" Ninguém mais parecia se incomodar com a casa a não ser minha filha Lisa, que sempre havia tentado transformar seu quarto em seu lugar especial.

Era hora de mostrar meus talentos. Liguei para meu ex-marido e pedi que comprasse uma colcha específica para a cama de Lisa. Em seguida, comprei os lençóis combinando. Na véspera de Natal, gastei quinze dólares com um galão de tinta.

Também comprei papel de carta, o mais bonito que jamais tinha visto. Meu objetivo era simples: iria pintar e costurar e me manter ocupada até a manhã de Natal, para não ter tempo de sentir pena de mim mesma em um feriado familiar tão especial.

Naquela noite, dei a cada uma das crianças três folhas de papel de carta com envelopes. No alto de cada página estavam as palavras: "O que eu amo a respeito de minha irmã Mia", "O que eu amo a respeito de meu irmão Kris", "O que eu amo a respeito de minha irmã Lisa”, "O que eu amo a respeito de meu irmão Erik". As crianças estavam com idades entre oito e dezesseis anos e tive que convencê-las de que bastava encontrar uma coisa só de que gostassem a respeito uns dos outros. Enquanto escreviam cada uma no seu canto, fui para o meu quarto e embrulhei os poucos presentes que havia comprado.

Quando voltei para a cozinha, meus filhos haviam terminado suas cartas uns para os outros. Cada nome estava escrito do lado de fora do envelope. Trocamos abraços e beijos de boa-noite e eles foram para a cama. Lisa recebeu permissão especial para dormir na minha cama, prometendo não espiar até a manhã de Natal.

Então comecei. Nas primeiras horas da manhã de Natal terminei as cortinas, pintei as paredes e dei um passo atrás para admirar minha obra-prima. "Espere, por que não colocar um arco-íris e nuvens nas paredes para combinar com os lençóis?". Aí entraram em ação minhas esponjas e pincéis de maquiagem e, às 5 horas da manhã, eu havia terminado. Exausta demais para pensar que o meu era "um lar desfeito", como diziam as estatísticas, fui para o quarto e encontrei Lisa esparramada na minha cama.

Decidi que não podia dormir com braços e pernas em cima de mim, então levantei-a delicadamente e levei-a, pé ante pé, até seu quarto. Enquanto colocava sua cabeça no travesseiro, ela disse:

- Mamãe, já é de manhã?

- Não, querida, fique de olhos fechados até o Papai Noel chegar.

Acordei naquela manhã com um alegre sussurro no meu ouvido.

- Uau, mamãe, é lindo!

Mais tarde, todos nós nos levantamos e nos sentamos em volta da árvore e abrimos os poucos presentes que eu havia comprado.

Depois, as crianças receberam seus três envelopes. Lemos as palavras com os olhos marejados e os narizes vermelhos. Até chegarmos aos bilhetes para o "bebê da família”. Erik, com oito anos, não esperava ouvir nada de bom. Seu irmão havia escrito:

 "O que eu gosto do meu irmão Erik é que ele não tem medo de nada." Mas havia escrito: "O que eu gosto do meu irmão Erik é que ele consegue falar com qualquer pessoa!" Lisa havia escrito:

"O que eu gosto do meu irmão Erik é que ele pode subir em árvores mais alto do que qualquer um!" Senti um leve puxão na manga da camisa, uma mãozinha fez uma concha em volta da minha orelha e Erik sussurrou:

- Puxa, mamãe, eu nem sabia que eles gostavam de mim!

Nos piores momentos, a criatividade e o engenho nos deram o melhor momento. Hoje estou recuperada financeiramente e já tivemos vários Natais "grandes", com muitos presentes embaixo da árvore. Mas quando nos perguntam qual é o nosso Natal favorito, todos nos lembramos daquele.

 

 

O amor que damos é o único amor que guardamos.

ELBERT HUBBARD


 

A GARDÊNIA BRANCA

MARSHA ARONS

Histórias Para Aquecer o Coração 52

 

Todos os anos, no dia do meu aniversário, desde que completei doze anos, uma gardênia branca me era entregue anonimamente em casa. Não havia nunca um cartão ou um bilhete e os telefonemas para o florista eram em vão, pois a compra era sempre feita em dinheiro vivo. Depois de algum tempo, parei de tentar descobrir a identidade do remetente. Apenas me deleitava com a beleza e o perfume estonteante daquela única flor, mágica e perfeita, aninhada em camadas de papel de seda cor-de-rosa.

Porém nunca parei de imaginar quem poderia ser o remetente. Alguns de meus momentos mais felizes eram passados sonhando acordada com alguém maravilhoso e excitante, mas tímido ou excêntrico demais para revelar sua identidade. Durante a adolescência foi divertido especular que o remetente seria um garoto por quem eu estivesse apaixonada, ou mesmo alguém que eu não conhecia e que havia me notado.

Minha mãe frequentemente alimentava as minhas especulações. Ela me perguntava se havia alguém a quem eu tivesse feito uma gentileza especial e que poderia estar demonstrando anonimamente seu apreço. Fez com que eu lembrasse das vezes em que estava andando de bicicleta e nossa vizinha chegara com o carro cheio de compras e crianças. Eu sempre a ajudava a descarregar o carro e cuidava que as crianças não corressem para a rua. Ou talvez o misterioso remetente fosse o senhor que morava do outro lado da rua. No inverno, muitas vezes eu lhe levava sua correspondência para que ele não tivesse que se aventurar nos degraus escorregadios.

Minha mãe fez o que pôde para estimular minha imaginação a respeito da gardênia. Ela queria que seus filhos fossem criativos. Também queria que nos sentíssemos amados e queridos, não apenas por ela, mas pelo mundo como um todo.

Quando estava com dezessete anos, um rapaz partiu meu coração. Na noite em que me ligou pela última vez, chorei até pegar no sono. Quando acordei de manhã havia uma mensagem escrita com batom vermelho no meu espelho: Alegre-se, quando semideuses se vão, os deuses vêm." Pensei a respeito daquela citação de Emerson durante muito tempo e a deixei onde minha mãe a havia escrito até meu coração sarar. Quando finalmente fui buscar o limpa-vidros, minha mãe soube que estava tudo bem novamente.

Mas houve certas feridas que minha mãe não pôde curar.

Um mês antes de minha formatura no segundo grau, meu pai morreu subitamente de enfarte. Meus sentimentos variavam de dor a abandono, medo, desconfiança e raiva avassaladora por meu pai estar perdendo alguns dos acontecimentos mais importantes da minha vida. Perdi totalmente o interesse em minha formatura que se aproximava, na peça de teatro da turma dos formandos e no baile de formatura - eventos para os quais eu havia trabalhado e que esperava com ansiedade. Pensei até mesmo em entrar em uma faculdade local, ao invés de ir para outro estado como havia planejado, pois me sentiria mais segura.

Minha mãe, em meio à sua própria dor, não queria de forma alguma que eu faltasse a nenhuma dessas coisas. Um dia antes de meu pai morrer, eu e ela tínhamos ido comprar um vestido para o baile e havíamos encontrado um, espetacular - metros e metros de musselina estampada em vermelho, branco e azul. Ao experimentá-Io, me senti-me como Scarlett O'Hara em O Vento Levou... Mas não era do tamanho certo e, quando meu pai morreu no dia seguinte, esqueci totalmente do vestido.

Minha mãe, não. Na véspera do baile, encontrei o vestido esperando por mim - no tamanho certo. Estava estendido majestosamente sobre o sofá da sala, apresentado para mim de maneira artística e amorosa. Eu podia não me importar em ter um vestido novo, mas minha mãe se importava.

Ela estava atenta à imagem que seus filhos tinham de si mesmos.

Imbuiu-nos com uma sensação de mágica do mundo e nos deu a habilidade de ver a beleza mesmo em meio à adversidade.

Na verdade, minha mãe queria que seus filhos se vissem como a gardênia - graciosos, fones, perfeitos, com uma aura de mágica e talvez um pouco de mistério.

Minha mãe morreu quando eu estava com vinte e dois anos, apenas dez dias depois de meu casamento. Este foi o ano em que parei de receber gardênias.


 

PALAVRAS DO CORAÇÃO

BOBBIE LIPPMAN

Histórias Para Aquecer o Coração 56

 

A maioria das pessoas precisa ouvir alguém dizer "eu te amo". E há vezes em que ouve bem a tempo.

Conheci Connie no dia em que foi admitida na ala do sanatório onde eu trabalhava como voluntária. Seu marido, Bill, ficou por peno, nervoso, enquanto ela era transferida da maca para o leito de hospital. Ainda que Connie estivesse no estágio final de sua luta contra o câncer, estava alerta e animada. Nós a acomodamos. Terminei de marcar seu nome em todos os suprimentos de hospital que ela usaria e perguntei se precisava de alguma coisa.

- Oh, sim - disse -, será que você poderia me mostrar como usar a televisão? Gosto tanto de novelas, que não quero perder o que está acontecendo.

Connie era uma romântica. Adorava novelas de TV; histórias românticas e filmes com uma boa história de amor.

Conforme fomos nos conhecendo, ela me confidenciou o quanto era frustrante ser casada há trinta e dois anos com um homem que frequentemente a chamava de "boba”.

- Ah, eu sei que o Bill me ama - disse -, mas ele nunca foi de me dizer que me ama, ou de mandar cartões.

Suspirou e olhou através da janela para as árvores no jardim.

- Faria qualquer coisa para ele falar "Eu te amo", mas simplesmente não é do seu feitio.

Bill visitava Connie todos os dias. No começo, sentava-se ao lado da cama enquanto ela assistia às novelas. Depois, quando ela começou a dormir mais, ele andava de um lado para o outro no corredor do lado de fora do quarto. Logo, quando ela não via mais televisão e passava períodos menores acordada, comecei a passar a maior parte do meu tempo como voluntária com Bill.

Ele falava de quando trabalhava como carpinteiro e de como gostava de pescar. Ele e Connie não tinham filhos, mas aproveitavam a aposentadoria viajando, até que Connie ficou doente. Bill não conseguia expressar o que sentia sobre o fato de sua esposa estar morrendo.

Um dia, depois de tomar café na lanchonete, puxei uma conversa com ele a respeito de mulheres e de como precisamos de romance em nossas vidas, como adoramos receber cartões sentimentais e cartas de amor.

- Você diz a Connie que a ama? - perguntei (sabendo a resposta), e ele me olhou como se eu fosse louca.

- Não preciso - disse. - Ela sabe que a amo!

- Tenho certeza de que ela sabe - falei inclinando-me e roçando suas mãos ásperas de carpinteiro que seguravam a xícara como se fosse a única coisa à qual ele pudesse se agarrar. Mas ela precisa ouvir, Bill. Ela precisa ouvir o que significou para você durante todos esses anos. Por favor, pense nisso.

Voltamos para o quarto de Connie. Bill desapareceu lá dentro e eu fui visitar outro paciente. Mais tarde, vi Bill sentado ao lado da cama. Ele segurava a mão de Connie enquanto ela dormia. Era o dia 12 de fevereiro.

Dois dias depois eu estava andando pela ala do sanatório ao meio-dia. Lá estava Bill, apoiado contra a parede do corredor, olhando para o chão. Eu já soubera, através da enfermeira chefe, que Connie morrera às 11 horas.

Quando Bill me viu, permitiu que eu o abraçasse por um longo tempo. Seu rosto estava molhado de lágrimas e ele estava tremendo. Finalmente encostou-se de novo na parede e respirou fundo.

- Tenho que dizer algo - falou. - Tenho que dizer como me sinto bem por ter dito a ela. - Ele parou para assoar o nariz. Pensei muito a respeito do que você me disse e, essa manhã, falei para ela o quanto a amava e como era maravilhoso estar casado com ela. Você deveria ter visto seu sorriso!

Entrei no quarto para me despedir pessoalmente de Connie. Lá, na mesa-de-cabeceira, estava um grande cartão de Dia dos Namorados que Bill dera. Você sabe, do tipo sentimental, que diz: "Para minha esposa maravilhosa... Eu te amo."

 

As lágrimas mais amargas derramadas sobre os túmulos são por palavras não ditas e atos não realizados. HARRIET BEECHER STOWE

ANDANDO DE TRENÓ

ROBIN L. SILVERMAN

Histórias Para Aquecer o Coração 59

 

Um dia, no começo de dezembro, acordamos para descobrir uma neve perfeita, recém-caída.

- Por favor, mamãe, podemos andar de trenó antes do café da manhã? - implorou minha filha Erica, de onze anos de idade.

Quem poderia resistir? Então vestimos os casacos e nos dirigimos para a represa no campo de golfe de Lincoln Park, o único morro em nossa cidade.

Quando chegamos, o morro estava formigando de gente.

Achamos um espaço perto de um homem alto e magro e de seu filho de três anos. O garoto já estava deitado de barriga para baixo, esperando para ser empurrado.

- Vamos lá, papai! Vamos lá!

- Por favor - eu disse. - Parece que seu filho já está pronto para ir.

Dito isto, ele deu um forte empurrão e lá se foi o menino!

Mas não foi apenas o garoto que voou - o pai saiu correndo atrás dele a toda velocidade.

- Ele deve estar com medo de que seu filho se choque contra alguém - eu disse para Erica. - É melhor nós também tomarmos cuidado.

Assim, lançamos nosso próprio trenó e descemos o morro zunindo, em grande velocidade, a neve solta voando em nossos rostos. Tivemos que nos arremessar para não batermos em uma grande pedra perto do rio e acabamos deitadas de costas, rindo.

- Ótima corrida! - eu disse.

- Mas temos que andar muito para voltar! - observou Erica.

Com certeza, era uma longa caminhada. Enquanto lutávamos para chegar ao topo, percebi que o homem magro estava empurrando seu filho, que ainda se encontrava no trenó, de volta ao topo.

- Isso é que é serviço! - disse Erica. - Será que você faria- o mesmo por mim?

Eu já estava sem ar.

- Nem pensar, garota! Continue andando!

Quando finalmente chegamos ao topo, o garotinho estava pronto para brincar novamente.

- Vai, vai, vai, papai! - ele gritou.

Mais uma vez o pai reuniu todas as suas energias para dar um grande empurrão no trenó, correu atrás dele morro abaixo e então puxou o trenó e o menino de volta para cima.

Isso se repetiu por mais de uma hora. Mesmo com Erica andando sozinha, eu estava exausta. A essa altura, a multidão no morro havia diminuído, pois as pessoas voltavam para casa para almoçar. Finalmente, restavam apenas o homem e seu filho, Erica e eu e um punhado de outras pessoas.

"Ele não pode continuar achando que o menino vai colidir com alguém. E, com certeza, apesar de ser um menino pequeno, ele poderia puxar seu próprio trenó morro acima de vez em quando" - pensei. Mas o homem nunca se cansava e seu comportamento era alegre e jovial.

Finalmente, não aguentei mais. Olhei de cima do morro para ele e gritei:

- Você tem uma tremenda energia!

O homem olhou para mim e sorriu.

- Ele tem paralisia cerebral - ele disse de forma natural. Não pode andar.

Fiquei atônita. Então percebi que não havia visto o menino descer do trenó durante todo o tempo que estivéramos no morro. Tudo parecia tão alegre, tão normal, que não me ocorrera que o menino poderia ser deficiente.

Ainda que eu não soubesse o nome do homem, contei a história em minha coluna no jornal na semana seguinte. Ele, ou alguém que o conhecia, deve ter reconhecido a história, pois, pouco tempo depois, recebi esta carta:

 

Cara Sra. Silverman A energia que gastei no morro naquele dia não é nada comparada ao que meu filho faz todos os dias. Para mim, ele é um verdadeiro herói e algum dia espero ser metade do homem que ele já se tornou. "


 

EU ME PERGUNTO POR QUE

AS COISAS SÃO COMO SÃO

CHRISTR CARTER KOSKI

Histórias Para Aquecer o Coração 63

 

Durante meu primeiro ano no segundo grau, o Sr. Reynolds, meu professor de Inglês, entregou a cada aluno uma lista de pensamentos e declarações escrita por outros alunos e, em seguida, nos passou um dever de redação baseado num daqueles pensamentos. Com dezessete anos, eu estava começando a pensar a respeito de muitas coisas, por isso escolhi a declaração: "Eu me pergunto por que as coisas são como são." Naquela noite, escrevi, em formato de narrativa, todas as perguntas que me deixavam confusa acerca da vida. Percebi que muitas delas eram difíceis de responder e que talvez outras não pudessem ser respondidas de forma alguma. Quando entreguei o trabalho, estava com medo de me sair mal porque não tinha dado uma resposta à questão "Eu me pergunto por que as coisas são como são". Eu não tinha resposta. Só tinha escrito perguntas.

 

No dia seguinte, o Sr. Reynolds me chamou junto ao quadro-negro e pediu que eu lesse minha declaração para os outros alunos. Entregou-me o trabalho e sentou-se no fundo da sala. A turma ficou em silêncio quando comecei a ler:

"Mamãe, papai... por que?

 

Mamãe, por que as rosas são vermelhas? Mamãe, por que a grama é verde e o céu é azul? Por que a aranha tem uma teia e não uma casa? Papai, por que eu não posso brincar com sua caixa de ferramentas? Professor, por que eu tenho que ler?

Mamãe, por que não posso usar batom para ir ao baile? Papai, por que não posso ficar na rua até meia-noite? Os outros garotos ficam. Mamãe, por que você me odeia? Papai, por que as outras crianças não gostam de mim? Por que tenho que ser tão magra? Por que tenho que usar óculos e aparelho nos dentes? Por que tenho que ter dezesseis anos?

Mãe, por que tenho que me formar? Papai, por que tenho que crescer? Mamãe, papai, por que tenho que ir embora?

Mamãe, por que você não escreve com mais frequência? Papai, por que tenho saudades dos meus velhos amigos? Papai, por que você me ama tanto? Papai, por que você me mima? Sua garotinha está crescendo. Mamãe, por que você não me visita? Mamãe, por que é tão difícil fazer novos amigos? Papai, por que tenho saudades de casa?

Papai, por que meu coração dispara quando ele olha nos meus olhos? Mamãe, por que minhas pernas tremem quando eu ouço a voz dele? Mamãe, por que "estar apaixonado é a melhor sensação do mundo"?

Papai, por que você não gosta de ser chamado de ''vovô''?

Mamãe, por que os dedinhos do meu bebê se agarram com tanta força aos meus?

Mamãe, por que eles têm que crescer? Papai, por que eles têm que ir embora? Por que eu tenho que ser chamada de "vovó"? Mamãe, papai, por que vocês tiveram que me deixar? Eu preciso de vocês.

Por que a minha juventude passou por mim? Por que meu rosto mostra todos os sorrisos que eu já dei a um amigo ou a um estranho? Por que meu cabelo brilha com um tom prateado? Por que minhas mãos tremem quando me abaixo para pegar uma flor? Por que, Deus, as rosas são vermelhas?"

 

Quando terminei minha história, meus olhos se encontraram com os olhos do Sr. Reynold e eu vi uma lágrima correndo lentamente no seu rosto. Foi então que percebi que a vida nem sempre é baseada nas respostas que recebemos, mas também nas perguntas que fazemos.


 

O presente de aniversário

MAVIS BURTON FERGUSON - escrita em 1969.

Histórias Para Aquecer o Coração 66

 

Uma semana depois de meu filho entrar para a primeira série, ele voltou para casa com a notícia de que Roger, o único menino negro na sala, era seu companheiro de playground. Engoli em seco e disse

- Que bom. Quanto tempo até que alguém mais também vire seu amigo.

- Ah eu não vou deixar de ser amigo dele - respondeu Bill.

Na outra semana recebi a notícia de que Bill perguntara se Roger poderia ser seu companheiro de carteira.

A não ser que fosse nascido e criado no interior do sul dos Estados Unidos como eu fora, não vai entender o que isso significa. Marquei uma reunião com a professora.

Ela vai me encontrar com olhos cínicos e cansados.

- Bem, suponho que a senhora também queira um novo companheiro de carteira para o seu filho - disse. - Será que poderia esperar alguns minutos? Há outra mãe chegando agora.

Virei-me e vi uma mulher da minha idade. Meu coração disparou quando percebi que deveria ser a mãe de Roger.

Possuía uma discreta dignidade e muita atitude, mas nenhuma das duas qualidades podia encobrir a ansiedade que ouvi em suas perguntas:

- Como Roger está se saindo? Espero que esteja acompanhando as outras crianças. Se não estiver, me avise.

Ela hesitou enquanto forçava-se a perguntar:

- Ele está criando qualquer tipo de problema? Quero dizer, por que ele tem que trocar tanto de carteira?

Percebi a terrível tensão que estava sentindo, pois ela sabia a resposta. Mas fiquei orgulhosa da resposta gentil daquela professora primária:

- Não, Roger não está causando problemas. Tento mudar todas as crianças de lugar durante as primeiras semanas até que encontrem o parceiro certo.

Eu me apresentei e disse que meu filho deveria ser o novo companheiro de Roger e que eu esperava que gostassem um do outro. Mesmo então eu sabia que era apenas um desejo superficial, não um desejo profundo. Mas isso a ajudou, eu pude ver.

Duas vezes Roger convidou Bill para ir até sua casa, mas eu encontrei desculpas. Então veio o arrependimento que sentirei para sempre.

No dia do meu aniversário, Bill voltou da escola com um pedaço encardido de papel dobrado em um quadradinho minúsculo. Desdobrando-o, encontrei três flores e "Feliz Aniversário" desenhados com lápis-cera no papel- e um centavo.

- Foi o Roger que mandou - disse Bill. - É o dinheiro do leite. Quando eu disse que hoje era o seu aniversário, ele me fez trazer isso para você. Disse que você é amiga dele, porque foi a única mãe que não o obrigou a mudar de companheiro de carteira.

 

 

Eu tive um sonho de que meus quatro filhos um dia irão viver em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, e sim pelo conteúdo de seu caráter...

MARTIN LUTHER KING JR.

 


 

LIGAÇÃO PROFUNDA

SUSAN B. WILSON

Histórias Para Aquecer o Coração71

 

Minha mãe e eu temos uma ligação profunda devido à nossa misteriosa habilidade para nos comunicarmos silenciosamente uma com a outra.

Quatorze anos atrás, eu estava morando em Evansville, Indiana, a 1.300 quilômetros de distância da minha mãe, minha confidente e minha melhor amiga. Uma manhã, enquanto estava num estado silencioso de contemplação, senti subitamente a necessidade urgente de telefonar para mamãe e perguntar se estava tudo bem. A princípio, hesitei. Já que minha mãe dava aulas para a quarta série primária, telefonar-lhe às 7h15min da manhã poderia interromper sua rotina e fazer com que se atrasasse para o trabalho. Mas algo me compeliu a ir em frente e telefonar. Conversamos durante três minutos e ela me assegurou que estava sã e salva.

Mais tarde, naquele dia, o telefone tocou. Era mamãe dizendo que meu telefonema matutino provavelmente lhe salvara a vida. Se ela tivesse saído de casa três minutos mais cedo provavelmente se veria envolvida num acidente interestadual que matara várias pessoas e ferira outras tantas.

Oito anos atrás, descobri que estava grávida de meu primeiro filho. A data prevista para o nascimento era 15 de março. Eu disse ao médico que era cedo demais. A data teria que cair entre 25 de março e 3 de abril, pois era quando minha mãe tinha férias de Páscoa na escola. E é claro que eu a queria comigo. O médico ainda insistiu que a data prevista era em meados de março. Eu apenas sorri. Reid chegou no dia 30 de março. Mamãe chegou no dia 31.

Seis anos atrás, eu estava grávida novamente. O médico falou que a data prevista era para final de março. Eu disse que teria que ser mais cedo desta vez porque - você adivinhou - as férias de mamãe eram no começo de março. Tanto o médico quando eu sorrimos. Breanne chegou no dia 8 de março.

Dois anos e meio atrás, mamãe estava lutando contra o câncer. Com o tempo, ela perdeu a energia, o apetite, a habilidade de falar. Após um fim de semana com ela na Carolina do Norte, eu tinha que me preparar para voar de volta para o Meio-Oeste.

Ajoelhei-me ao lado da cama de mamãe e peguei a mão dela.

- Mamãe, se eu puder, você quer que eu volte?

Seus olhos se arregalaram enquanto ela tentava concordar com a cabeça.

Dois dias depois, recebi um telefonema de meu padrasto.

Minha mãe estava morrendo. Membros da família estavam reunidos para os ritos finais. Eles me colocaram no viva-voz para ouvir o serviço religioso.

Naquela noite, tentei ao máximo mandar meu adeus para mamãe através dos quilômetros que nos separavam. Na manhã seguinte, porém, o telefone tocou: mamãe ainda estava viva, mas em coma e esperava-se que morresse a qualquer minuto.

Mamãe não morreu. Nem naquele dia, nem no dia seguinte.

Nem no outro. Todas as manhãs eu recebia o mesmo telefonema: ela podia morrer a qualquer minuto. Mas não morria. E todos os dias minha dor e minha tristeza eram expostas.

Depois de quatro semanas, finalmente entendi: mamãe estava me esperando. Ela me comunicara que gostaria que eu voltasse, se pudesse. Eu não tinha podido antes, mas agora podia. Fiz as reservas imediatamente.

Por volta das 17 horas daquela tarde, eu estava deitada na cama com os braços em volta dela. Ela ainda estava em coma, mas eu sussurrei:

- Estou aqui, mamãe. Você já pode ir. Obrigada por esperar. Você já pode ir.

Ela morreu apenas algumas horas depois.

Acho que quando uma ligação é tão profunda e poderosa, vive para sempre em algum lugar muito além das palavras e é de uma beleza indescritível. Com toda a agonia de minha perda, eu não trocaria a beleza e o poder dessa ligação por nada.


 

Estamos aqui para aprender

CHARLES SLACK Como contado para Bessie Pender

Histórias Para Aquecer o Coração 74

 

- Dezesseis - eu disse.

Esqueci a pergunta de Matemática que minha professora da segunda série, Joyce Cooper, me fez naquele dia, mas nunca me esquecerei da resposta. Assim que o número saiu da minha boca, a turma inteira começou a rir. Eu me sei como a pessoa mais burra do mundo.

A Sra. Cooper censurou meus colegas com um olhar severo.

E disse:

- Estamos rodos aqui para aprender.

Um outro dia, a Sra. Cooper nos pediu para escrever uma redação a respeito do que esperávamos fazer de nossas vidas.

Escrevi: "Quero ser professora como a Sra. Cooper." Ela escreveu na minha redação: "Você daria uma professora excepcional, pois é determinada e tema com afinco." Eu iria carregar estas palavras em meu coração durante os 27 anos seguintes.

Depois de me formar no segundo grau em 1976, casei-me com um homem maravilhoso, Ben, um mecânico. Logo, Latonya nasceu.

Precisávamos de cada centavo apenas para sobreviver.

Faculdade e magistério estavam fora de questão. Consegui, no entanto, arrumar um emprego em uma escola - como ajudante de servente. Limpava dezessete salas de aula na Escola Primária Larrymore todos os dias, incluindo a da Sra. Coopero.

Ela havia sido transferida para Larrymore depois que Smallwood fora fechada.

Eu dizia à Sra. Cooper que queria ensinar e ela me repetia as palavras que escrevera na minha redação anos antes. Mas as contas sempre pareciam estar no meio do caminho.

Até que um dia, em 1986, pensei em meu sonho, em como eu queria ajudar as crianças. Mas, para fazer isso, precisava chegar de manhã como professora - não de tarde, para limpar.

Conversei a respeito disso com Ben e Latonya e ficou decidido: eu me inscreveria na Universidade Old Dominion. Durante sete anos assisti às aulas de manhã, antes do trabalho.

Quando chegava em casa do trabalho, eu estudava. Nos dias em que não tinha aula, trabalhava como professora-assistente para a Sra. Cooper. Às vezes ficava pensando se teria forças para conseguir.

Quando recebi minha primeira nota baixa, falei em desistir.

Minha irmã mais nova, Helen, recusou-se a ouvir.

- Você quer ser professora - ela disse. - Se parar, nunca alcançará o seu sonho.

Helen sabia bem o que significava não desistir, pois ela lutava contra a diabetes. Quando uma das duas desanimava, ela dizia:

- Você vai conseguir. Nós vamos conseguir.

Em 1987 Helen, com apenas vinte e quatro anos, morreu de falência renal relacionada à diabetes. Estava nas minhas mãos conseguir por nós duas.

No dia 8 de maio de 1993 meu sonho se realizou a formatura. Receber meu diploma universitário e a licença estadual para ensinar me qualificavam oficialmente para ser professora. Fiz entrevistas em três escolas. Na Escola Primária Colemar Place, a diretora Jeanne Tomlinson disse:

- Seu rosto me parece familiar.

Ela trabalhara em Larrymore mais de dez anos antes. Eu limpava sua sala e ela se lembrou de mim.

Ainda assim eu não tinha propostas concretas. O telefonema veio quando eu acabara de assinar meu décimo oitavo contrato como ajudante de servente. Havia uma vaga para dar aulas para a quinta série em Coleman Place.

Pouco tempo depois que comecei aconteceu algo que trouxe o passado de volta. Eu escrevi uma sentença cheia de erros gramaticais no quadro-negro e pedi aos alunos que viessem até o quadro e a corrigissem.

Uma garota corrigiu até a metade, ficou confusa e parou.

Enquanto as outras crianças riam, as lágrimas escorriam nas bochechas dela. Dei-lhe um abraço e disse-lhe para ir tomar um pouco d'água. Então, lembrando-me da Sra. Cooper, censurei o resto da turma com um olhar firme.

- Estamos todos aqui para aprender - eu disse.

 

 

O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos.

ELEANOR ROOSEVELT

 


 

A GAROTINHA QUE OUSOU DESEJAR

ALAN D. SCHULTZ

Histórias Para Aquecer o Coração 78

 

Quando Am Hagadorn dobrou a esquina no final do corredor de sua sala de aula, colidiu com um garoto alto da quinta série correndo na direção oposta.

- Olhe por onde anda, coisinha - gritou o garoto enquanto se desviava da menina da terceira série. Então, com um sorriso afetado, o garoto segurou sua perna direita e imitou a maneira que Amy mancava quando estava andando. Am fechou os olhos por um instante. "Ignore-o", disse para si mesma enquanto se dirigia para a sala de aula. Mas, no final do dia, Aroy ainda estava pensando sobre a zombaria do garoto. E ele não era o único. Desde que Amy entrara para o terceiro ano, alguém zombava dela todo santo dia, a respeito de sua forma de falar ou de seu andar manco. Às vezes, mesmo em uma sala cheia de outros alunos, as zombarias a faziam sentir-se sozinha.

À mesa de jantar naquela noite, Amy ficou calada. Sabendo que as coisas não iam bem na escola, Patti Hagadorn ficou feliz por ter boas notícias para partilhar com sua filha.

- Há um concurso de desejos de Natal na estação de rádio local - anunciou. - Escreva uma carta para Papai Noel e você pode ganhar um prêmio. Acho que alguém de cabelos louros e cacheados nesta mesa deveria entrar.

Amy riu e um papel e uma caneta surgiram.

- Querido Papai Noel - ela começou.

Enquanto Amy caprichava na caligrafia, o resto da família tentava descobrir o que ela poderia pedir para Papai Noel.

Tanto a irmã de Amy, Jamie, quanto sua mãe pensaram que uma Barbie de um metro de altura estaria no topo da lista de desejos de Amy. O pai de Amy pensou em um livro com ilustrações. Mas Amy não revelou seu desejo secreto de Natal. Na estação de rádio WLT, em Fort Wayne, Indiana, as cartas para o Concurso de Desejo de Natal jorravam. Os funcionários se divertiam com todos os diferentes presentes que os meninos e meninas de toda a cidade queriam para o Natal.

Quando a carta de Amy chegou à estação de rádio, o diretor Lee Tobin a leu com atenção.

 

"Querido Papai Noel.

Meu nome é Amy. Tenho nove anos de idade. Tenho um problema na escola. Será que você pode me ajudar; Papai Noel? Os garotos riram de mim por causa da maneira que eu ando, corro e falo. Tenho paralisia cerebral. Só queria um dia em que ninguém risse ou zombasse de mim.

Com amor, Amy. "

 

O coração de Lee ficou apertado quando ele leu a carta. Ele sabia que paralisia cerebral era uma desordem muscular que podia deixar os colegas de Amy confusos. Ele pensou que seria bom para as pessoas de Fort Wayne ouvirem a respeito dessa menininha especial e seu pedido incomum. O Sr. Tobin ligou para o jornal local.

No dia seguinte, uma foto de Amy e sua carta para Papai Noel estavam na primeira página do The News Sentinel. A história se espalhou rapidamente. Por todo o país, jornais, rádio e televisão relatavam a história da garotinha em Fort Wayne Indiana, que pedira um presente de Natal tão simples e, ainda assim, notável - apenas um dia sem zombarias.

De repente, o carteiro passou a frequentar a casa dos Hagadorn. Envelopes de todos os tamanhos endereçados a Am chegavam diariamente, enviados por crianças e adultos do país inteiro, recheados de desejos de boas festas e palavras de encorajamento. Durante a época atribulada do Natal, mais duas duas mil pessoas do mundo todo enviaram a Amy cartas de amizade e apoio. Alguns dos remetentes tinham deficiências, mas cada um enviava uma mensagem especial para Amy. Através dos cartões e cartas vindas de estranhos, Amy teve um vislumbre de um mundo cheio de pessoas que realmente se importavam umas com as outras. Ela percebeu que nenhuma forma ou quantidade de zombarias poderia fazê-Ia se sentir solitária novamente. Muitas pessoas agradeceram a Amy por ser corajosa o suficiente para se abrir. Outras a encorajavam a ignorar as provocações e a andar de cabeça erguida. Lynn, uma menina da sexta série, do Texas, enviou esta mensagem:

 

"Gostaria de ser sua amiga e, se você quiser me visitar, poderíamos nos divertir. Ninguém irá zombar de nós porque, se o fizerem, não iremos nem ouvi-los."

 

Amy conseguiu seu desejo de um dia especial sem zombarias na Escola Primária South Wayne. Ademais, todos na escola receberam um bônus extra. Professores e alunos discutiram sobre como as zombarias podem fazer os outros se sentir. Naquele ano, o prefeito de Fort Wayne proclamou oficialmente o dia 21 de dezembro como o Dia de Amy Jo Hagadorn em toda a cidade. q prefeito explicou que, ao ousar fazer um pedido tão simples como aquele, Amy ensinou uma lição universal.

- Todos - disse o prefeito - querem e merecem ser tratados com respeito, dignidade e carinho.


 

O vento debaixo das minhas asas

JEAN HARPER

Histórias Para Aquecer o Coração 82

 

Em 1959, quando Jean Harper estava na terceira série, sua professora passou uma redação sobre o que eles queriam ser quando crescessem. O pai de Jean era piloto de um avião que pulverizava plantações na pequena comunidade rural no norte da Califórnia, onde ela foi criada, e Jean ficou totalmente fascinada por voar e por aviões. Ela colocou seu coração na redação e incluiu todos os seus sonhos: queria pulverizar inseticida nas lavouras, pular de paraquedas, ver as nuvens (algo que havia visto em um programa de TV) e ser piloto de avião. Sua redação voltou com uma nota zero. A professora lhe disse que aquilo era "um conto de fadas" e que nenhuma das ocupações que ela listara eram profissões para mulheres. Jean ficou arrasada e humilhada.

Mostrou a redação a seu pai e ele disse que é claro que ela podia se tornar piloto.

- Veja Amélia Earhart - ele disse. - Essa professora não sabe do que está falando.

Porém, conforme os anos se passavam, Jean foi massacrada pelo desencorajamento e negatividade que encontrava sempre que falava a respeito de sua carreira: "Garotas não podem se tornar pilotos de avião; nunca puderam, nunca irão poder.

Vocês não são inteligentes o bastante, são malucas. Impossível." Até que finalmente Jean desistiu.

Quando estava no último ano do segundo grau, sua professora de Inglês era a Sra. Dorothy Slaton. A Sra. Slaton era uma professora inflexível e exigente que possuía altos padrões e pouca tolerância para desculpas. Recusava-se a tratar seus alunos como crianças, esperando, ao invés, que se comportassem como adultos responsáveis para serem bem-sucedidos no mundo real após a formatura. No princípio, Jean teve medo dela, mas, com o tempo, passou a respeitar sua firmeza e senso de justiça.

Um dia, a Sra. Slaton passou um dever para a turma: "O que vocês acham que estarão fazendo daqui há dez anos?" Jean pensou a respeito. "Piloto? Nem pensar. Aeromoça? Não sou bonita o bastante - eles nunca me aceitariam. Esposa? Que rapaz poderia me querer? Garçonete? Posso fazer isso." Por segurança, foi isso o que ela escreveu.

A Sra. Slaton recolheu as redações e nada mais foi dito.

Duas semanas depois, a professora devolveu o dever, de cabeça para baixo em cima de cada carteira e fez esta pergunta: "Se você possuísse uma quantidade ilimitada de dinheiro, acesso ilimitado às melhores escolas, talento e habilidades ilimitados, o que, faria?" Jean sentiu uma onda do antigo entusiasmo e, animada, escreveu todos os seus antigos sonhos. Quando os alunos pararam de escrever, a professora perguntou:

- Quantos alunos escreveram a mesma coisa dos dois lados do papel?

Nenhuma mão se levantou.

A próxima coisa que a Sra. Slaton disse mudou o rumo da vida de Jean. A professora se inclinou por cima de sua carteira e disse:

- Tenho um segredo para vocês todos. Vocês têm talento e habilidades ilimitados. Vocês têm acesso a boas escolas e podem conseguir uma quantidade ilimitada de dinheiro se desejarem algo com fervor. Quando terminarem a escola, se não correrem atrás de seus sonhos, ninguém irá fazê-lo por vocês.

Vocês podem ter o que quiserem, se desejarem o bastante.

A mágoa e o medo de anos de desencorajamento desmoronaram frente à verdade do que a Sra. Slaton havia dito. Jean sentiu-se animada e um pouco amedrontada. Ficou depois da aula e dirigiu-se à mesa da professora. Jean agradeceu à Sra. Slaton e lhe contou sobre seu sonho de se tornar piloto. A Sra. Slaton levantou-se ligeiramente e bateu com as mãos no tampo da mesa:

- Então faça isso! - disse.

E Jean fez. Não aconteceu do dia para a noite. Levou dez anos de trabalho duro, encarando oposições que iam do ceticismo silencioso à hostilidade declarada. Não era da natureza de Jean manter sua posição quando também a rejeitava ou humilhava. Ao contrário, tentava tranquilamente encontrar outra solução.

Tornou-se piloto particular e então conseguiu graduação suficiente para transportar carga e até mesmo aviões de passageiros. Seus patrões hesitavam claramente em promovê-la porque era mulher. Até mesmo seu pai a aconselhou a tentar outra coisa.

- Impossível - ele disse. - Pare de bater com a cabeça na parede!

Mas Jean respondeu:

- Eu discordo, papai. Acredito que as coisas irão mudar e quero estar entre as primeiras quando isso acontecer.

Jean foi em frente...! e fez tudo o que a sua professora da terceira série considerava "um conto de fadas" – pulverizou plantações, pulou de paraquedas algumas centenas de vezes e até mesmo semeou nuvens, como modificação climática, durante um verão. Em 1978 tornou-se uma das primeiras três mulheres a serem aceitas como piloto pela United Airlines e uma entre apenas cinquenta pilotos comerciais mulheres no país naquela época. Hoje, Jean Harper é piloto de Boeing 737 na United.

Foi o poder de uma palavra positiva bem colocada, uma fagulha de encorajamento vindo de uma mulher que Jean' respeitava, que deu à insegura garota a força e a fé para perseguir seu sonho. Hoje, Jean diz:

- Eu escolhi acreditar nela.

 

 

Muito longe, no brilho do sol, estão minhas maiores aspirações.

Posso não alcançá-las, mas posso olhar para cima e ver sua beleza,

acreditar nelas e tentar segui-las.

LOUISA MAY ALCOTT

 


 

O PIRATA

MARJORIE WALLY

Histórias Para Aquecer o Coração 86

 

Um dia a Sra. Smith estava sentada na ante-sala do consultório médico quando um garotinho e sua mãe entraram. O menino chamou a atenção da Sra. Smith porque usava um tapa-olho.

Ela ficou maravilhada pelo fato de ele não parecer ter sido afetado pela perda de um olho e o observou enquanto acompanhava a mãe até uma cadeira próxima.

O consultório estava muito cheio naquele dia, de modo que a Sra. Smith pôde conversar com a mãe do menino enquanto ele brincava com seus soldadinhos. No começo, ficou sentado calmamente, brincando com os soldadinhos no braço da cadeira. Depois, sentou-se tranquilamente no chão, olhando para cima, para sua mãe.

Finalmente, a Sra. Smith teve a oportunidade de perguntar ao menino o que havia acontecido com seu olho. Ele analisou a pergunta durante um longo instante e, em seguida, respondeu, levantando o tapa-olho:

- Não há nada errado com meu olho. Sou um pirata!

E voltou para sua brincadeira.

A Sra. Smith estava ali porque havia perdido a perna, do joelho para baixo, em um acidente de carro. Sua consulta naquele dia era para determinar se o joelho já cicatrizara o suficiente para ser encaixado numa prótese. A perda fora devastadora para ela.

Mesmo tentando ao máximo ser corajosa, sentia-se uma inválida.

Intelectualmente sabia que a perda não deveria interferir com sua vida, mas, emocionalmente, não conseguia superar esse obstáculo. O médico sugerira visualização e ela experimentara, mas não fora capaz de visualizar uma imagem emocionalmente aceitável e duradoura. Em sua cabeça via-se como uma inválida.

A palavra "pirata" mudou sua vida. Foi instantaneamente transportada. Viu-se vestida como Long John Silver, de pé no convés de um navio pirata. Estava parada, com as pernas abertas, sendo que uma perna era de pau. As mãos seguravam os quadris, a cabeça estava levantada, os ombros para trás e ela sorria no meio da tempestade. Ventos com a força de um furacão chicoteavam o casaco e o cabelo. A espuma gelada era soprada por cima da balaustrada do convés e grandes ondas se quebravam contra o navio. O barco balançava e gemia sob a força da tempestade.

Ainda assim ela se mantinha firme, orgulhosa, impávida.

Naquele momento, a imagem de inválida foi substituída e sua coragem voltou. Olhou para o garotinho, ocupado com seus soldados.

Alguns minutos depois, a enfermeira a chamou. E, quando se balançou nas muletas, o garotinho percebeu sua amputação.

- Ei, moça - chamou-a. - O que há de errado com a sua perna?

A mãe do menino ficou petrificada.

A Sra. Smith olhou durante um instante para a perna diminuída. E respondeu com um sorriso:

- Nada. Também sou pirata.

 

 

Nós não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos.

ANAŸS NIN

 


 

Vencendo em terceiro lugar

BETTY B. YOUNGS

Histórias Para Aquecer o Coração 92

 

Com a cabeça baixa, um exausto, mas determinado rapaz repetia de novo e de novo para si mesmo:

- Você pode fazer isso. Você pode fazê-lo, você pode, você pode.

Essas palavras, ditas tanto como encorajamento quanto como confirmação, encontraram um coração atento. Sem falhar, elas levaram um pé na frente de outro, para o alto no ar e então para baixo - de novo e de novo e de novo. O rapaz observava intensamente enquanto, um a um, seus tênis novos batiam no asfalto que passava lentamente debaixo dele. Era um tropel muito cansado. Olhando para cima, o jovem esfregou a testa e procurou por um vislumbre da linha de chegada.

"É em algum lugar lá na frente" - disse para si mesmo.

Estava muito longe. Mesmo assim, Chris Burke estava decidido a alcançá-la.

Com grande esforço, ele também cruzou a linha de chegada. Quando chegou, fotógrafos e repórteres já haviam se reunido em volta do jovem que chegara em primeiro lugar. As primeiras davam doses e espocavam flashes, microfones se estilavam para à frente para captarem as palavras do vencedor.

Com um sorriso que se abria de orelha a orelha, Chris triunfantemente saltou e ficou orgulhosamente ao lado do vencedor.

Passou os braços em volta do rapaz de sua própria idade - alguém que ele nunca havia encontrado antes desse dia. Radiante, Chris esperou pacientemente que o repórter completasse sua entrevista com o vitorioso - tão pacientemente quanto podia em um momento que lhe era tão emocionante. Quando por fim o repórter virou-se para a câmera para suas observações finais, Chris instantaneamente deu um passo à frente e esticou a mão para receber um aperto de mão de congratulações.

- Nossa! - gritou Chris, incapaz de reprimir sua óbvia felicidade. - Só quero dizer como isso foi emocionante e como estou feliz de ter chegado em terceiro!

O repórter não teve saída a não ser responder ao carismático e entusiasmado atleta, querendo seu momento de reconhecimento.

- Sim, conte-nos a respeito - gaguejou de boa vontade o surpreso repórter.

- Uau! - disse Chris. - Obrigado por me entrevistar. Isso é ótimo! Simplesmente ótimo. Bem, eu apenas estou muito feliz por estar aqui. É uma honra. Claro que terminei em terceiro lugar. Terceiro lugar, que ótimo!

Ele não precisava de uma resposta para esta pergunta e não esperou por uma. Ao invés disso, virou seu rosto animado para que o mundo todo visse - isso foi em cadeia nacional - e, com mais alegria do que me lembro ter visto em alguém, disse:

- Obrigado a todos por compartilharem desse momento muito especial comigo. É hora de comemorar!

Dito isto, Chris se virou e correu para a fila para receber os abraços e os apertos de mão junto com o vencedor.

Chris tinha quatorze anos na época. Isso foi nas Olimpíadas Especiais.

Só havia três corredores na corrida.

 

Nota do editor: Para entender o significado total da história de Chris, deve-se saber que ele tem síndrome de Down, uma condição causada por um defeito genético.

Crianças com síndrome de Down possuem um cromossomo a mais, resultando em uma semelhança incomum na aparência, impedimentos no desenvolvimento e um limite de potencial. Como o QI chega no máximo a 75, as capacidades e as habilidades são severamente limitadas - ou assim se pensava. Quando Chris nasceu, em 1965, os médicos recomendavam que os pais de filhos com síndrome de Down colocassem seus filhos em sanatórios, a maioria dos quais fazia pouco mais do que oferecer cuidados físicos.

Grande parte do mundo hoje em dia conhece Chris Burke não apenas através de sua inesquecível entrevista anos atrás, mas também como o carismático e talentoso ator da série de televisão A Vida Continua.


 

O despertar

MELVA HAGGAR DYE

Histórias Para Aquecer o Coração 95

 

 

Você quer fazer o quê? - perguntei-lhe incredulamente, minha voz elevando-se ao tom agudo que alcança quando fico exasperada. - Diga isso de novo, por favor, acho que não o ouvi!

- Ah, você me ouviu, com certeza - Frank respondeu bruscamente, balançando os braços de maneira expressiva. - Quero dizer o meu velório agora, antes de morrer! Por que todo mundo, menos eu, deveria aproveitar?

Ele rastejou até a cozinha e eu podia ouví-Io resmungando para si mesmo enquanto vasculhava a geladeira. Voltou logo depois para o deque onde eu havia ficado para assistir ao pôr-do-sol de setembro cobrir as Montanhas Blue Ridge. Terminou de mastigar um pêssego maduro e então a voz que nunca conseguia permanecer áspera por muito tempo quebrou o silêncio:

- Querida, eu quero fazer isto.

Segurei um nó na garganta e tentei não chorar. Estava com quarenta e quatro anos e a ideia de ficar viúva - de novo - era devastadora. Tão devastadora, na verdade, que a negação facilmente se tornara o manto que eu vestia todos os dias.

- Mas você está mais forte agora. Você disse isso. E as injeções, elas ajudam...

- Melva - ele tocou meu ombro como se estivesse implorando. - Vamos dar uma festa e vamos fazer direito. Podíamos disfarçá-la como uma festa de aniversário de casamento. É claro que todos os que me conhecem muito bem saberão.

Olhei dentro daqueles olhos castanhos brilhantes, sua faísca agora turvada pela dor, pelos remédios, pelo medo. Eu sabia o que os últimos anos haviam tirado dele. Havíamos deixado de ser o casal dourado na pista de dança todos os fins de semana.

Sim, nós ainda íamos, pois ele insistia, mas agora passávamos a maior parte da noite sentados conversando com amigos.

Seu jogo de golfe, antes marcado por aqueles impulsos poderosos e exatos e pelas tacadas precisas - ele costumava marcar quatro buracos com uma tacada - haviam decaído.

As horas agradáveis que ele costumava passar jardinando e cortando lenha haviam diminuído para alguns poucos e preciosos minutos que o deixavam abatido e exausto.

Entretanto, a disposição de espírito nunca o abandonou.

Enquanto eu parecia lamentar constantemente as mudanças em nossa vida - em minha vida -, ele nunca reclamava. Subitamente, percebi que meus medos e incertezas empalideciam em comparação ao que ele devia estar passando. As mudanças pelas quais havíamos passado pareciam minúsculas em relação ao câncer que grassava dentro de seu corpo, competindo com a diabetes pela chance de determinar seu destino.

Engolindo minha vergonha, peguei a sua mão.

- Tudo bem. Se você quer uma festa, teremos uma festa!

Na manhã seguinte encomendei os 150 convites para nossa "festa de aniversário de casamento". Dezenove de outubro de 1991 caiu num sábado à noite e alugamos o Frank's Shrine Club para o evento.

Quase todos os que convidamos vieram para partilhar a noite conosco. No meio da festa, Frank subiu ao palco com o microfone na mão para fazer uma gloriosa interpretação da balada lt's Hard to Be Humble (É Difícil Ser Humilde). Meu marido adorou ser o centro das atenções e terminou sob os aplausos e as lágrimas de todos aqueles que o amavam.

Então fez um pequeno discurso, agradecendo a todos por terem vindo e proclamou-se o homem mais sortudo do mundo! Com estas palavras, ele disse adeus.

E então valsamos. Frank começara a perder o equilíbrio e não mais se sentia à vontade dançando com outras mulheres. Mas naquela noite ele dançou com todas. Mais tarde conversei com um de seus médicos enquanto dançávamos uma música lenta.

- Quanto tempo ele tem? - perguntei baixinho.

- É impossível prever isso, Melva, ele parece estar mais forte.

- Quanto tempo? - perguntei novamente e não obtive resposta. Terminamos nossa dança e ele me levou de volta à mesa.

- Seis meses, talvez mais - ele finalmente me respondeu.

- Obrigada - sussurrei.

O resto da noite passou como um sonho, com Frank mudando de um grupo para outro, conversando com todo mundo e deleitando-se com as várias histórias contadas às suas custas.

Politicagem, como ele o chamou certa vez. Quando a noite se aproximou do fim, ele ficou na porta para dar boa-noite a todos os convidados - de pé no começo, depois precisando sentar-se, mas sempre sorrindo. Três meses e três dias depois, eu estava sentada tremendo no frio enquanto seus irmãos da maçonaria realizavam rituais maçônicos. Eu segurava fortemente a bandeira dobrada com capricho, enquanto os braços fortes de um amigo me levavam até a limusine que aguardava.

Cerca de um ano depois, fui almoçar com uma nova amiga.

Ela falou do velório ao qual fora na noite anterior:

- Que linda forma de dizer adeus! - observou, obviamente desacostumada a tal evento.

Ouvi-a relatar a frivolidade e pensei em como era triste que o amado falecido tivesse perdido uma noite tão prazerosa. A culpa do "eu devia ter feito mais" e "por que eu não fui mais forte para ele", que eram minha mortalha, começaram a desaparecer. Minha mente voltou-se para a alegria de Frank em sua última festa.

- Então, você fez um velório para o Frank? - perguntou minha amiga.

- Ah, sim - respondi. - Foi uma festa maravilhosa e ele se divertiu como nunca!

 

Uma alegria destrói cem tristezas.


 

COM PRESSA

GINA BARRETT SCHLESINGER

Histórias Para Aquecer o Coração 99

 

Eu estava com pressa.

Passei correndo pela sala de jantar usando meu melhor vestido, concentrada em me preparar para um encontro de negócios noturno. Gillian, minha filha de quatro anos, estava dançando ao som de sua música favorita, Cool do filme Amor, Sublime Amor.

Eu estava com pressa, à beira de chegar atrasada. No entanto, uma vozinha dentro de mim disse: "Pare." Então parei. Olhei para ela. Aproximei-me, peguei sua mão e a rodopiei. Minha filha de sete anos, Caitlin, entrou em nossa órbita e eu também a peguei. Nós três dançamos alucinadamente pela sala de jantar até chegarmos à sala de estar. Ríamos.

Rodopiávamos. Será que os vizinhos podiam ver a loucura pelas janelas? Não tinha importância. A música chegou ao fim com um floreio dramático e nossa dança terminou com ela. Dei um tapinha em seus traseiros e mandei que fossem tomar banho.

Elas subiram as escadas, sem fôlego, seus risinhos ricocheteando pelas paredes. Voltei aos meus afazeres. Estava dobrada para à frente, enfiando papéis em uma pasta, quando ouvi a mais nova falar para a irmã:

- Caidin, você não acha que a mamãe é a mais melhor de todas?

Congelei. Eu quase correra pela vida, perdendo aquele momento. Meu pensamento foi para os prêmios e os diplomas que cobriam as paredes do meu escritório. Nenhum prêmio, nenhuma realização que eu jamais alcançara, poderia se comparar a isso: "Você não acha que a mamãe é a mais melhor?" Minha filha disse isso quando tinha quatro anos. Não espero que ela o diga com quatorze. Mas, aos quarenta, se ela se inclinar por cima daquela caixa de pinho para dizer adeus para o recipiente descartado da minha alma, quero que o diga.

"Mamãe não é a mais melhor?" Não combina com meu currículo. Mas quero isso gravado na minha lápide.

 

 

O trabalho irá esperar enquanto você mostra às crianças o arco-íris,

mas o arco-íris não espera enquanto você está trabalhando.

PATRICIA CLIFFORD

 


 

BEN

TERRY BOISOT

Histórias Para Aquecer o Coração 104

 

Ben nasceu no dia 20 de setembro de 1989. Pouco depois de seu nascimento, soubemos de sua cegueira e surdez. Quando estava com três anos, soubemos também que nunca andaria.

A partir do segundo dia de vida de Ben, nossa família percorreu um caminho que nunca havíamos imaginado. Centenas e centenas de quilômetros até os melhores médicos e os melhores hospitais. Centenas de agulhas e raios-X, tomografias computadorizadas e ressonâncias magnéticas. Depois disso vieram as lentes de contato, o aparelho nos dentes, aparelhos auditivos, cadeiras de rodas, andadores e macacões para engatinhar - junto com todos os terapeutas para nos mostrar como usar todas essas coisas. As operações nunca pararam.

A vida de Ben hoje em dia consiste de seu professor habitual, um professor para pessoas com deficiência visual, um professor para pessoas com deficiência auditiva, um terapeuta ocupacional, um fisioterapeuta, um patologista de fala e linguagem, um pediatra, um neurologista, ortopedistas, um oftalmologista pediátrico, um otorrino, um fonoaudiólogo, um dentista, um cirurgião dentista e um ortodontista - e ele só tem oito anos de idade.

Ainda assim, todas as manhãs meu homenzinho acorda com o maior sorriso no rosto, como se dissesse: "Ei, vocês, estou aqui para mais um dia, e estou tão feliz!"

Nossa filha nasceu três anos antes de Ben. Lembro-me de que seu pai e eu olhando para ela durante enormes períodos de tempo quando ela tinha cerca de dois anos, esperando que a próxima palavra ou som escapulisse. Sempre que isso acontecia um momento marcante na história - um tópico de orgulhosas conversas com quem quer que tivesse a paciência de escutar. Realmente tínhamos uma criança brilhante e notável.

Ainda temos.

Depois que Ben nasceu, nosso amor por ele mudou nossa visão sobre o que era realmente importante a respeito de nossos filhos. Não tinha mais importância quantas palavras falavam mm quantos anos, ou que desenvolvimento fenomenal acontecia antes da previsão feita em qualquer livro sobre bebês.

Nossos filhos se tornaram indivíduos, cada um possuindo qualidades maravilhosas, que não devem ser comparadas. Suas vidas não devem ser medidas pela falta de habilidade ou pela habilidade excepcional, mas pela força da perseverança.

Quando Ben estava com cerca de quatro anos, dirigia com bastante domínio sua cadeira de rodas, mas nunca havia dito uma palavra - apenas sons abertos de vogais. Então nossa família começou a botar um gravador na mesa durante o jantar para gravar os sons que Ben estava fazendo porque ele demonstrava claramente que queria participar das conversas. Pensamos que, talvez, se ele ouvisse sua voz gravada e as nossas, isso estimularia algo dentro dele.

Um dia, em setembro de 1993, a fita estava rodando enquanto eu alimentava Ben e fazia alguns sons, tentando estimular algum interesse nele. De repente, o tempo parou. Nunca esquecerei a expressão dos olhos de Ben, a concentração em seu rosto, a forma de sua boca, como ele olhava para mim de sua cadeira de rodas quando falou suas primeiras três palavras:

- Eu te amo.

Virei-me para meu marido e ele olhou para mim com os olhos cheios d'água e disse:

- Terry, eu o ouvi!

Ben disse aquelas palavras para mim e eu as tenho gravadas para ouvir sempre que precisar. Também fico grata, pois ele não disse outra palavra desde então.

Mas, vocês sabem, eu não ouço a fita com tanta frequência.

Não preciso. Sempre irei reconhecer a expressão de seus olhos mesmo que sejam cegos - quando ele procura o meu rosto para me dar um beijo. Isso é tudo o que eu preciso.

 

Um bebê é a opinião de Deus de que o mundo deve continuar.

CARL SANDBERG

 


 

PRIVAÇÃO DOS SENTIDOS

DEBORAH E. HILL

Histórias Para Aquecer o Coração 115

 

Quero sair para dançar, usar um vestido que rodopie e flutue em volta de mim e rir.

Quero sentir a luz trêmula da seda enquanto ela escorrega pelos meus braços e pelo meu corpo, a alegria de tocar com os dedos sua maciez.

Quero dormir na minha própria cama e regalar-me na frescura dos lençóis limpos e descansar minha cabeça em meu travesseiro macio. E ir dormir quando quiser, com todas as luzes apagadas e acordar quando estiver pronta.

Quero me esticar em meu sofá debaixo da minha manta de lã azul e ouvir minha música favorita escoar dos autofalantes para dentro do meu ser, regando a paisagem ressequida da minha alma.

Quero sentar-me na varanda, bebericar café quente de minha caneca de faiança, ler o jornal e ouvir o cachorro latir para as folhas que caem ou para esquilos invasores.

Quero atender o telefone e ligar para os meus amigos e família e conversar até termos colocado em dia todas as palavras que guardamos um para o outro, e rir.

Quero ouvir o trem apitar através de Loveland, o cascalho sendo esmagado na porta da garagem e portas de carros batendo quando os amigos vêm nos visitar. E o tilintar e tinir dos talheres contra a louça, o chiado e o gorgolejo da máquina de fazer café.

Quero sentir meus pés descalços na brancura fria do chão da minha cozinha e na maciez azul do tapete do meu quarto.

Quero ver as cores, todas elas, cada cor jamais fiada na existência. E branco, branco de verdade, puro e imaculado. E acres de árvores verdes e quilômetros de estradas com fitas amarelas e centenas de metros de luzes de Natal. E a Lua.

Quero sentir o cheiro de bacon fritando, um filé grelhando. Jantar de Ação de Graças e a plantação de tomates de meu pai. E roupa recém-lavada, asfalto novo em um estacionamento. E o oceano.

Porém, mais do que tudo isso, quero ficar de pé na porta do quarto do meu filho e vê-lo dormindo. Ouví-Io acordar pela manhã e vê-lo voltar para casa à noite. Tocar seu rosto e passar meus dedos por seus cabelos. Pegar uma carona em seu caminhão e comer seus sanduíches de queijo quente.

E vê-lo crescer, rir, brincar, comer, dirigir e viver. Acima de tudo, de tudo, viver. E passar meus braços à sua volta e segurá10 até ele rir e dizer:

- Já chega, mamãe!

E então ser livre para fazer tudo de novo.

 

 

Nota do editor: O texto a seguir nos foi enviado por uma prisioneira. Não sabemos qual o crime que ela cometeu.


 

CARRINHO VERMELHO

PATRICIA LORENZ

Histórias Para Aquecer o Coração 118

 

Para ser completamente honesta, o primeiro mês foi muito feliz.

Quando Jeannie, Julia, Michael- com as idades de seis, quatro e três anos - e eu nos mudamos de St. Louis para minha cidade natal no norte de Illinois exatamente no dia do meu divórcio, eu estava feliz apenas em encontrar um lugar onde não haveria brigas nem abusos.

Porém, depois do primeiro mês, comecei a sentir saudades de meus antigos vizinhos e amigos. Senti saudades de nossa adorável casa de tijolos no subúrbio de St. Louis, moderna, estilo rancho, especialmente depois que nos ajeitamos na casa de madeira branca de noventa e oito anos de idade que alugamos, que era tudo o que minha renda pós-divórcio podia pagar.

Em St. Louis tínhamos todos os confortos: uma lavadora, secadora, lava-louças, TV e carro. Agora não tínhamos nada disso. Depois do primeiro mês em nossa nova casa, parecia-me que tínhamos passado do conforto da classe média para o pânico no nível da pobreza.

Os quartos do andar de cima de nossa velha casa não possuíam nem aquecimento, mas, de alguma forma, as crianças não pareceram perceber. O chão de linóleo, frio, contra seus pezinhos, simplesmente os encorajava a se vestirem mais rápido pela manhã e a pular mais rápido para dentro da cama à noite.

Reclamei do frio enquanto o vento de dezembro assobiava por todas as janelas e portas daquela velha casa de madeira. Mas as crianças riam dos "lugares engraçados de ar" e simplesmente se aninhavam debaixo das pesadas mantas que tia Bernardine trouxera no dia em que nos mudamos.

Eu estava louca sem televisão.

- O que faremos à noite sem televisão? - perguntei.

Senti-me trapaceada pelo fato de as crianças perderem todos os especiais de Natal. Mas meus três filhinhos eram mais otimistas e muito mais criativos do que eu. Sacaram seus jogos e me imploraram para jogar Terra dos Doces e Três Marias com eles.

Nos aconchegamos juntos no esfarrapado sofá cinza que o senhorio fornecera e lemos um livro de ilustrações depois do outro retirados na biblioteca pública. Por insistência deles ouvimos discos, cantamos canções, fizemos pipoca, criamos magníficas torres de blocos e brincamos de esconde-esconde em nossa velha casa. As crianças me ensinaram como se divertir sem televisão. Numa fria manhã de dezembro, apenas uma semana. Antes do Natal, depois de andar mais de três quilômetros para casa de meu trabalho de meio expediente em uma loja de departamentos, lembrei-me de que tinha que lavar a roupa da semana naquela noite. Eu estava exausta de tanto levantar e selecionar os presentes de Natal dos outros e um tanto amarga, sabendo que eu mal poderia comprar algum presente para meus próprios filhos.

Assim que peguei as crianças na casa da babá, empilhei quatro cestas grandes cheias de roupa suja dentro de um carrinho vermelho e nós quatro nos dirigimos para a lavanderia, a três quadras de distância. Dentro, tivemos que esperar pelas máquinas de lavar e, depois, que as pessoas liberassem as mesas para dobrar as roupas. Selecionar, lavar, secar e dobrar levaram mais tempo do que o normal.

Jeanne perguntou:

- Você trouxe passas ou biscoitos, mamãe?

- Não, vamos jantar assim que chegarmos em casa - respondi asperamente.

O nariz de Michael estava pressionado contra a janela de vidro embaçada.

- Olhe, mamãe! Está nevando! Flocos grandes!

Julia acrescentou:

- A rua está toda molhada. Está nevando no ar, mas não está nevando no chão!

A animação deles apenas me deixou mais irritada. Como se o frio não fosse ruim o suficiente, agora tínhamos que lidar com a neve e a lama. Eu ainda nem abrira a caixa com as botas e luvas.

Finalmente, as roupas limpas e dobradas estavam empilhadas nas cestas, colocadas no carrinho vermelho. Lá fora estava escuro como breu. Já eram seis e meia? Por isso estavam com tanta fome. Normalmente jantávamos às cinco!

As crianças e eu abrimos caminho através do frio vento da noite e deslizamos pela calçada lamacenta. Nossa procissão de três crianças pequenas, uma mãe rabugenta e quatro cestas de roupa limpa em um velho carrinho vermelho movia-se lentamente, enquanto o vento gelado feria nossos rostos.

Atravessamos a tumultuada rua de quatro pistas na faixa de pedestres. Quando chegamos ao meio-fio, as rodas da frente escorregaram no gelo e viraram o carrinho de lado, derrubando todas as roupas em uma poça' de lama preta.

- Oh, não! - gemi. - Pegue as cestas, Jeanne! Julia, segure o carrinho! Volte para a calçada, Michael!

Joguei as roupas sujas e molhadas dentro das cestas.

- Eu odeio isso! - gritei. Lágrimas de raiva jorraram dos meus olhos. Eu odiava ser pobre, não ter um carro nem uma lavadora ou uma secadora. Odiava o tempo. Odiava ser o único dos pais responsável por meus três filhos. E, sem dúvida, realmente odiava toda a porcaria do Natal.

Quando chegamos em casa, eu destranquei a porta, arremessei minha bolsa através da sala e fui para o quarto chorar batendo com os pés no chão.

Solucei alto o suficiente para que as crianças pudessem ouvir. Egoistamente, queria que eles soubessem o quanto eu estava infeliz. A vida não podia ficar pior. A roupa ainda estava suja, estávamos todos cansados e com fome, não havia comida pronta e nenhuma perspectiva de um futuro melhor.

Quando as lágrimas finalmente pararam, sentei-me e fiquei olhando para uma placa de madeira com Jesus entalhado pendurada na parede ao pé da minha cama. Eu tinha aquela placa desde criança e a carregara comigo para todas as casas em que morara. Mostrava Jesus com os braços abertos sobre a Terra, obviamente resolvendo os problemas do mundo.

Fiquei olhando para seu rosto, esperando um milagre.

Olhei, esperei e finalmente disse em voz alta:

- Deus, será que não pode fazer alguma coisa para melhorar a minha vida?

Eu queria desesperadamente que um anjo, em uma nuvem, descesse e me resgatasse.

Mas não apareceu ninguém, a não ser Julia, que espiou pela porta do meu quarto e me disse com a sua melhor vozinha de quatro anos que tinha colocado a mesa para o jantar.

Eu podia ouvir Jeanne, de seis anos de idade, na sala de estar, separando a roupa em duas pilhas, "muito suja, meio limpa, muito suja, meio limpa”.

Michael, de três anos, apareceu no meu quarto e me deu um desenho da primeira neve que ele acabara de fazer.

E sabe o que mais? Naquele exato instante eu vi não um, mas três anjos diante de mim: três pequenos querubins eternamente otimistas e, mais uma vez, me puxando da tristeza e da melancolia para o mundo de "as coisas vão melhorar amanhã, mamãe".

 

O Natal naquele ano foi mágico, pois nos rodeávamos de um tipo especial de amor que se baseia na felicidade de fazermos juntos coisas simples. Uma coisa é certa: ser mãe solteira nunca mais foi tão amedrontado r ou deprimente quanto na noite em que a roupa limpa caiu do carrinho vermelho. Esses três anjos de Natal mantiveram meu espírito vivo; e, mesmo hoje em dia, mais de vinte anos depois, eles continuam a encher meu coração com a presença de Deus.


 

NUNCA DESISTA

JASON MORIN

Histórias Para Aquecer o Coração 130

 

- Você tem o prognóstico de alguém em uma cadeira de rodas, Jason - disse o médico com uma voz que sua profissão reserva para doenças graves. - Pode acabar perdendo sua visão, coordenação, até mesmo o controle da bexiga.

As palavras atingiram a mim e a minha mulher em cheio.

Eu estava com vinte e sete anos e tinha esclerose múltipla (EM).

Queria atracar-me com essa notícia, mas naquele momento só conseguia pensar em terminar aquela consulta. Esse médico não ofereceu esperanças e estava assustando minha mulher e a mim durante o processo. Olhei de esguelha para Tracy, que começou a chorar baixinho. Inclinei-me para reconfortá-Ia, minha alma gêmea. Balbuciamos rapidamente nossas despedidas e partimos.

Eu trabalhava no negócio de construções junto com meu pai, que era o dono da companhia. Levantávamos edifícios do nada e era um trabalho duro e exigente, com longas horas. Mas eu adorava. Andava pelas estreitas vigas de aço desde a tenra Idade de quatorze anos e provavelmente me sentia mais à vontade em um canteiro de obras do que em qualquer outro lugar.

Meu pai me ensinou os macetes.

Eu não aguentava a ideia de deixá-lo na mão agora.

Depois de deixar Tracy em casa, mencionei que tinha que passar no escritório para pegar algo. Porém, na verdade, queria uma visita a um lugar que conhecia há muito tempo.

Sentei-me no banco da igreja, sentindo memórias de infância me inundarem. Meus olhos estavam bem fechados enquanto eu rezava ansiosamente.

- Querido Deus - eu disse. - Não tenho medo por mim, mas sim de desapontar minha esposa e minha família - eles contam tanto comigo. Por favor, ajude-me.

Levantei-me, saí da igreja e esperei que minhas preces fossem atendidas. Se havia um momento para manter a força de minha fé era aquele.

Algumas semanas mais tarde, o jornal local apresentou lima matéria na seção de esportes sobre um home chamado Pat. Era como se um pequeno milagre cruzasse o meu caminho. Pat era professor de Educação Física na universidade estadual e vencera a esclerose múltipla com a ajuda de uma dieta rígida.

Finalmente eu encontrara um aliado, alguém com os meses os sintomas e provavelmente as mesmas dúvidas e medos. Pat e eu nos encontramos e conversamos durante horas sobre suplementos alimentares, vitaminas e exercícios. Mas essas seis palavras ecoavam no meu cérebro:

- Você pode fazê-lo, Jason. Nunca desista.

Comecei uma dieta especial e um programa de exercícios elaborados para pacientes de esclerose múltipla e mantive-me fiel a eles.

Houve muitos dias negros também. Dias em que eu tinha que pedir a Tracy que me ajudasse a terminar de me vestir. Durante tudo isso ela foi espetacular, dando-me o amor e o apoio de que eu precisava. Sentia-me tão abençoado! Gradualmente minha recuperação tomou forma. Depois de algum tempo, as palavras do médico pareciam estar longe.

Finalmente senti-me pronto para estabelecer um objetivo para mim mesmo.

O desafio veio sob a forma de fisiculturismo natural. Eu havia jogado futebol americano no ginásio e na faculdade e certamente não era um estranho à sala de musculação. Comecei a treinar diligentemente com um treinador seis dias por semana.

Ele me passou diferentes séries de exercícios com pesos. Meu objetivo era competir em um campeonato de fisiculturismo.

Alguns meses depois, todas as horas de suor e treinamento me levaram a uma competição que incluía uma sequência de três minutos. Encontrei-me em um auditório cheio de pessoas.

Completei minha sequência - flexionando, alongando, exibindo o corpo que havia lutado tanto para conseguir - e saí.

Enquanto esperava que os juízes calculassem a minha pontuação, vislumbrei minha família e amigos na quarta fileira. Quando os juízes anunciaram que ele. ficara em sexto lugar, senti uma onda de orgulho e alívio. Enquanto fazia uma reverência, dei uma olhada rápida para minha família, que estava toda de pé batendo palmas e gritando o mais que podiam.

Antes de sairmos para celebrar em um restaurante próximo, meu pai se aproximou e colocou as duas mãos diretamente nos meus ombros.

- Lason, estou muito orgulhoso de você. No que me diz respeito, você é número um! - disse.

Olhou-me dentro dos olhos.

- Construímos fundações em nosso ramo, mas deixe-me dizer-lhe: as verdadeiras fundações na vida são a família.

Dei um abraço apertado em meu pai então e vi, por cima de seu ombro, Tracy fazer o sinal de positivo com o polegar e me deslumbrar com um sorriso que eu nunca tinha visto.

Hoje, Tracy e eu somos os pais orgulhosos de duas meninas.

Elas são mais preciosas do que jamais poderíamos imaginar. E todos os dias lembro-me das palavras de meu pai: as verdadeiras fundações da vida são a família.

 

 

Oportunidade: frequentemente ela vem disfarçada

sob a forma de infortúnio ou derrota temporária.

NAPOLEON HILL

 


 

VOANDO LIVRE

Histórias Para Aquecer o Coração 134

 

Uma casa nova, uma piscina nos fundos, dois belos carros na garagem e meu primeiro filho a caminho. Faltavam apenas alguns dias para eu dar à luz o meu primeiro filho quando uma conversa com meu marido abalou o mundo em que eu vivia.

- Eu quero estar presente para o bebê, mas acho que não te amo mais - ele falou.

Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo! Ele se afastara de mim durante a gravidez, mas eu relacionara isso ao seu medo e preocupação em se tornar pai.

Enquanto eu o sondava em busca de explicações, ele me contou que tivera um caso cinco anos antes e desde então não sentia a mesma coisa por mim. Pensando apenas no meu bebê e querendo salvar meu casamento, disse-Ihe que o perdoaria e que queria consertar as coisas entre nós.

Aquela última semana antes do nascimento de meu filho foi um passeio emocional numa montanha-russa. Estava tão animada com o bebê, com tanto medo de estar perdendo meu marido e sentindo-me tão culpada às vezes, pois achava que era culpa do bebê isso tudo estar acontecendo.

John nasceu numa sexta-feira de julho. Era tão lindo e inocente. Não fazia ideia do que estava acontecendo no mundo de sua mãe. Estava com quatro semanas quando descobri o verdadeiro motivo do afastamento de seu pai. Não apenas ele tivera um caso cinco anos antes, mas começara a ter um caso durante minha gravidez, e continuava a ter. Então, quando ele estava com cinco semanas, John e eu abandonamos a casa nova, a piscina e todos os meus sonhos desfeitos para trás. Mudamos para um apartamento do outro lado da cidade.  Não sabia que existia depressão tão profunda quanto a que eu entrei. Nunca havia experimentado nada igual à solidão de passar uma hora depois da outra sozinha com uma criança recém-nascida. Alguns dias aquela responsabilidade toda me esmagava e eu tremia de medo. A família e os amigos estavam lá para ajudar, mas, ainda assim, havia muitas horas cheias de pensamentos a respeito de sonhos desfeitos e desespero. Eu chorava com frequência, mas me assegurei de que John nunca me visse chorando. Estava determinada a não deixar que isso o afetasse. De algum lugar dentro de mim eu sempre encontrava um sorriso para ele.

Os primeiros três meses da vida de John passaram num borrão de lágrimas. Voltei ao trabalho e tentei esconder de todo mundo o que estava acontecendo. Tinha vergonha, ainda que não soubesse por quê.

Cheguei ao fundo do poço num domingo de manhã, quando John estava com quatro meses. Acabara de ter outra discussão emocional com meu marido e ele saíra como um furacão do meu apartamento. John estava dormindo em seu berço e me peguei sentada no chão do banheiro, encolhida como uma bola, balançando para frente e para trás. Ouvi-me dizendo em voz alta: "Eu não quero mais viver." Depois de dizer isso, o silêncio foi arrebatador.

Acredito que Deus esteve comigo naquele dia. Após dizer aquilo, fiquei sentada em silêncio, deixando as lágrimas correrem pelo meu rosto. Não sei quanto tempo se passou, mas de algum lugar de dentro de mim surgiu uma força que não havia sentido antes. Decidi naquele tomar o controle da minha vida. Não iria mais dar ao meu marido o poder de afetar minha vida de uma forma tão negativa. Percebi que, ao prestar tanta atenção em suas fraquezas, estava permitindo que aquelas fraquezas arrumassem a minha vida.

Naquele mesmo dia, arrumei uma mala para mim e John e fui passar o fim de semana na casa do meu irmão. Era a primeira viagem que fazia sozinha com John e me senti tão forte e independente! Lembro-me de que durante a viagem de duas horas eu ri, conversei e cantei para  todo o caminho.

Foi durante esta viagem que percebi como meu filho fora meu salvador durante todos aqueles meses. Saber que ele estava lá todos os dias e que precisava de mim me mantivera viva e me dera uma razão para me levantar todas as manhãs. Que bênção ele era na minha vida!

Daquele dia em diante, decidi concentrar-me na confiança e na força que me fizeram levantar do chão do banheiro. Ter mudado minha atenção para pensamentos tão positivos transformou a minha vida. Senti vontade de rir novamente e de estar na companhia dos outros pela primeira vez em meses.

Iniciei o processo de descobrir o indivíduo que mantive escondido dentro de mim durante tanto tempo - um processo que ainda estou apreciando.

Comecei a fazer terapia logo depois de John e eu termos nos mudado da casa e continuei com ela durante vários meses depois do dia em que cheguei ao fundo do poço. Quando não senti mais necessidade de ter seu apoio e aconselhamento, lembrei-me da última pergunta que minha terapeuta me fez antes que eu saísse de seu consultório naquele dia:

- O que você aprendeu? - ela perguntou.

Não hesitei em responder:

- Aprendi que minha felicidade tem que vir de dentro. É esta lição de que me lembro todos os dias e que desejo partilhar com os outros. Cometi o erro, na minha vida, de basear minha identidade em meu casamento e em todas as coisas materiais que cercavam a relação. Aprendi que sou responsável por minha própria vida e felicidade. Quando centralizo minha vida em outra pessoa e tento construir minha vida e minha felicidade em volta daquela pessoa, não estou vivendo de verdade. Para viver de verdade preciso deixar que o espírito dentro de mim seja livre e regozije-se em sua singularidade. É neste estado de ser que o amor de outra pessoa se torna uma alegria e não algo que temos medo de perder. Que o seu espírito seja livre e voe alto. LAURIE WALDRON

 

Não é fácil encontrar a felicidade em nós mesmos e é impossível encontrá-la em outro lugar.

AGNES REPPLIER

 

 


 

O que você quer ser?

REV. TERI JOHNSON

Histórias Para Aquecer o Coração 148

 

Tive um daqueles momentos felizes e inesperados há algumas semanas. Estava no quarto trocando a fralda de um dos bebês, quando nossa filha de cinco anos, Alyssa, entrou e pulou na cama ao meu lado.

- Mamãe, o que você quer ser quando crescer? - perguntou.

Achei que ela estava fazendo algum jogo imaginário e, para entrar na brincadeira, respondi dizendo:

- Huum. Acho que gostaria de ser mãe quando crescer.

- Você não pode ser isso porque você já é mãe. O que você quer ser quando crescer?

- Está bem, talvez eu seja pastor de igreja quando crescer respondi a segunda vez.

- Mamãe, não, você já é isso!

- Desculpe-me, querida - eu disse. - Mas então não estou entendendo o que eu devo dizer.

- Mamãe, só responda o que você quer ser quando crescer.

Você pode ser qualquer coisa que quiser!

A esta altura eu estava tão enternecida com a experiência que não pude responder imediatamente. Alyssa desistiu e saiu do quarto.

Esta experiência - esta minúscula experiência de cinco minutos - tocou fundo dentro de mim. Fiquei emocionada porque, aos olhos jovens de minha filha, eu ainda podia ser qualquer coisa que quisesse ser! Minha idade, minha carreira atual, meus cinco filhos, meu marido, meu diploma, meu mestrado - nada disso tinha importância. Aos seus olhos jovens eu ainda podia sonhar e tentar alcançar as estrelas. Aos seus olhos jovens meu futuro não havia acabado. Aos seus olhos jovens eu ainda podia ser astronauta, pianista ou até mesmo cantora de ópera, talvez. Sob seu olhar jovem eu ainda tinha que crescer mais e tinha muito "ser" sobrando em minha vida.

A verdadeira beleza daquele encontro com minha filha foi quando eu percebi que, com toda sua honestidade e pureza, ela teria feito a mesma pergunta a seus avós ou a seus bisavós.

Já foi escrito: ''A mulher velha que irei me tornar será bastante diferente da mulher que sou agora. Outro eu está começando..." Então, o que você quer ser quando crescer?

 

 

A imaginação é a maior pipa que se pode empinar.

LAUREN BACALL

 


 

ENTÃO O QUE VOCÊ PLANTA?

PHILIP CHARD

Histórias Para Aquecer o Coração 150

 

Sandy mora em um apartamento tão pequeno que, quando chega do supermercado, tem que decidir o que pôr para fora a fim de abrir lugar para suas compras. Ela luta dia a dia para alimentar e vestir a si mesma e a sua filha de quatro anos com o dinheiro de trabalhos literários autônomos e de bicos.

Seu ex-marido desapareceu há muito por alguma autoestrada desconhecida, provavelmente para nunca mais reaparecer. Dia sim, dia não, seu carro decide que precisa de uma folga e recusa-se a andar. Isto significa ir de bicicleta (se o tempo permitir), andar ou pegar uma carona com amigos.

As coisas que a maioria dos norte-americanos considera essenciais para a sobrevivência - televisão, forno de micro-ondas, aparelho de som e tênis caros - estão lá embaixo na lista de "talvez algum dia” de Sandy.

Comida nutritiva, roupas quentes, um apartamento acolhedor, os pagamentos do empréstimo estudantil, livros para sua filha, consultas médicas absolutamente necessárias e uma ocasional matinê de cinema consomem todo o dinheiro que há.

Sandy bateu em mais portas do que pode se lembrar, tentando conseguir um emprego decente, mas sempre existe algo que não se encaixa perfeitamente - experiência insuficiente ou do tipo errado, ou horários que tornam impossível tomar conta de uma criança.

A história de Sandy não é incomum. Muitos pais e mães solteiras e pessoas idosas lutam com nossa estrutura econômica, caindo naquele espaço ambíguo que existe entre ser realmente autossuficiente e ser suficientemente pobre para receber ajuda do governo.

O que torna Sandy incomum é seu ponto de vista.

- Não possuo muito, no sentido de ter coisas ou do sonho americano - contou-me com um sorriso Sincero.

- Isso a incomoda? - perguntei.

- Às vezes. Quando vejo outra menina com uma idade próxima à da minha filha que tem roupas bonitas e brinquedos bons, ou que está andando num carro chique ou morando numa bela casa, me sinto mal. Todo mundo quer ser bem-sucedido para seus filhos - respondeu.

- Mas você não se amargura?

- Ficar amargurada com o quê? Não estamos passando fome ou frio e tenho o que realmente importa na vida - replicou.

- E o que é isso? - indaguei.

- Do meu ponto de vista, não importa quantas coisas você compre, não interessa quanto dinheiro ganhe, você só fica com três coisas na vida - falou.

- O que você quer dizer com "fica'?

- Quero dizer que ninguém pode tomar isso de você.

- E que três coisas são essas? - perguntei.

- Primeiro, as suas experiências. Segundo, seus amigos verdadeiros. Terceiro, aquilo que você planta dentro de si mesmo - ela respondeu sem hesitar.

Para Sandy, as "experiências" não estão em grandes acontecimentos. São momentos considerados comuns com sua filha, passeios no bosque, tirar um cochilo debaixo da sombra de uma árvore, ouvir música, tomar um banho de banheira ou assar pão.

Sua definição de amigos é mais extensa.

- Os amigos verdadeiros são aqueles que nunca saem do coração, mesmo que saiam da sua vida durante algum tempo.

Quanto ao que plantamos dentro de nós, Sandy disse:

- Isso cabe a cada um de nós, não é? Não planto amargura nem arrependimento. Poderia, se quisesse, mas prefiro não fazê-lo.

- Então, o que é que você planta? - perguntei.

Sandy olhou carinhosamente para a filha e então novamente para mim. Apontou para seus próprios olhos, que estavam iluminados de ternura, gratidão e um brilho de felicidade.

- Eu planto isso.

 

 

Nós somos ricos pelo que temos, mas sim pelo que não precisamos ter. EMMANUEL KANT

 


 

NENHUM ATO DE CARIDADE É PEQUENO

DONNA WICK

Histórias Para Aquecer o Coração 153

 

O dia era quinta-feira de Ação de Graças, nosso "dia designado" de trabalho, uma tradição semanal que eu e minhas duas filhas pequenas começamos há alguns anos. Quinta-feira é nosso dia de sair no mundo e fazer uma contribuição positiva. Nesta quinta-feira em especial não tínhamos ideia do que iríamos fazer, mas sabíamos que surgiria alguma coisa.

Dirigindo por uma estrada movimentada de Houston, rezando por um sinal na busca para realizarmos nosso ato de caridade semanal, o meio-dia adequadamente provocou pontadas de fome em minhas duas filhinhas. Elas não perderam tempo em me dizer, cantando "McDonald's, McDonald's, McDonald's" enquanto eu dirigia. Cedi e comecei a procurar seriamente pelo McDonald's mais próximo. De repente percebi que quase todos os cruzamentos pelos quais havíamos passado estavam ocupados por um pedinte. E então me dei conta! Se as duas pequenas estavam com fome, então todos aqueles pedintes também deviam estar. Perfeito! Nosso ato de caridade havia surgido. Iríamos comprar comida para os pedintes.

Após encontrar um McDonald's e pedir dois lanches para minhas filhas, pedi mais quinze almoços extras e partimos para entregá-Ios. Foi animador. Parávamos perto de um pedinte, fazíamos uma contribuição e dizíamos a ele ou a ela que esperávamos que as coisas melhorassem. Então dizíamos:

- Por falar nisso, aqui está o almoço.

E então partíamos zunindo para o próximo cruzamento.

Foi a melhor maneira de dar. Não havia tempo suficiente para nos apresentarmos ou explicarmos o que estávamos fazendo, nem havia tempo para que eles pudessem dizer nada para nós. O ato de caridade foi anônimo e fortaleceu cada um de nós. Adoramos o que vimos pelo retrovisor: uma pessoa surpresa e encantada, segurando a sacola com o almoço e olhando para nós enquanto nos afastávamos. Foi maravilhoso!

Chegamos ao fim do nosso "itinerário" e havia uma mulher pequena pedindo um trocado. Entregamos nossa última sacola com o almoço e imediatamente fizemos o contorno para irmos para casa.

Infelizmente o sinal fechou e paramos no mesmo cruzamento onde estava a mulher. Fiquei envergonhada e não sabia como me comportar. Não queria que se sentisse obrigada a dizer ou fazer nada.

Ela se aproximou do carro. Então baixei o vidro quando começou a falar.

- Ninguém jamais fez nada parecido com isso para mim disse, espantada. Respondi:

- Bem, fico feliz que tenhamos sido as primeiras.

Sentindo-me constrangida e querendo mudar de assunto, perguntei:

- Então, quando você acha que vai comer seu almoço?

Ela apenas olhou para mim com seus grandes e cansados olhos marrons e disse:

- Oh, querida, não vou comer este almoço.

Fiquei confusa, mas, antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela continuou:

- Você sabe, também tenho uma filhinha em casa e ela adora McDonald's, mas nunca posso comprar nada para ela porque não tenho dinheiro. Mas sabe o que mais? Esta noite ela vai comer no McDonald's!

Não seí se as crianças perceberam as lágrimas nos meus olhos. Tantas vezes eu questionara se nossos atos de caridade eram pequenos ou insignificantes demais para realmente fazer alguma diferença. Ainda assim, naquele momento, reconheci a verdade nas palavras de Madre Teresa:

- Não podemos fazer grandes coisas, apenas coisas pequenas com multo amor.

 

 

Se eu puder impedir que um coração se parta,

"Não terei vivido em vão;

Se eu puder aliviar o sofrimento de uma vida,

Ou diminuir a dor,

Ou ajudar um frágil rouxinol

A voltar novamente para seu ninho,

Não terei vivido em vão.

EMILY DICKINSON

 


 

A OUTRA MÃE

DIANE PAYNE

Histórias Para Aquecer o Coração 156

 

- Ei, Sra. Prins!

Grito enquanto aceno na direção da janela de sua cozinha.

Em cima do trepa-trepa, estico-me através da cerca que limita a escola em direção à sua casa, acenando freneticamente, mas ela parece não perceber. Seu marido, porém, percebe. Ele fecha as cortinas da cozinha.

A Sra. Prins é minha professora da terceira série, ainda que às vezes eu a chame acidentalmente de "mãe". Sei que ela não é minha mãe, mas não posso deixar de ter esperanças que ela me adote se minha mãe morrer de câncer. A Sra. Prins não sabe nada a respeito dessa esperança, mas sabe que eu gosto dela o suficiente para brigar depois da aula com os garotos que caçoam de sua boca virada para cima. Metade de sua boca está sempre sorrindo porque ela fez uma operação no nervo e as crianças sentam-se em suas cadeiras curvando metade da boca, caçoando da Sra. Prins pelas costas.

Enquanto me balanço no trepa-trepa, não consigo entender por que o Sr. Prins fechou as cortinas na minha cara. Isso faz tanto sentido quanto os meninos caçoarem da Sra. Prins.

Talvez ele não tenha me visto balançando nas barras, acenando há um metro e meio de distância de sua janela. Através das cortinas de sua sala de estar posso ver a Sra. Prins sentada no sofá lendo o jornal. Começo a acenar e a gritar olá novamente. O Sr. Prins se aproxima e fecha essas cortinas. Agora eu sei que ele me acha inconveniente.

Com todas as cortinas hermeticamente fechadas, permaneço no trepa-trepa do playground vazio, temendo ir para casa, desejando que o Sr. Prins não me considerasse uma peste. Se ele não 'estivesse lá, a Sra. Prins me convidaria para entrar. Só porque não há mais aulas naquele dia ela não pode começar a me considerar uma peste de repente.

No primeiro dia de aula, a Sra. Prins me perguntou:

- Você não é a garota que costumava ter aquele lindo cabelo longo?

Eu ainda não a conhecia e fiquei preocupada com o motivo de ela ter me notado. Antes das aulas começarem eu havia cortado meu cabelo para me assegurar de que não passaria mais um ano com uma professora cruel puxando meu cabelo cada vez que eu fizesse algo errado. Agora todo o meu cabelo está dentro de um saco de papel na gaveta da cômoda de minha mãe, a salvo de professoras cruéis. Parada no trepa-trepa com o cabelo curto, imagino como seria ter a Sra. Prins penteando meu cabelo longo enquanto sento-me a seu lado no sofá. Mas não há mais cabelo e as cortinas estão fechadas.

À medida que o céu escurece, a Sra. Prins entra em seu jardim e me oferece alguns biscoitos de manteiga de amendoim e um copo de leite. Ao invés de dar a volta no playground, pulo a cerca, esperando impressioná-Ia com minha força, mas ela parece preocupar-se quando rasgo minha camisa ao cair do outro lado da cerca. Dessa vez não há sangue, só uma camisa rasgada, não um corpo machucado.

- Você não tem que ir para casa depois da escola? - ela pergunta.

- Claro, mas não imediatamente.

Sentamo-nos nas espreguiçadeiras comendo nossos biscoitos.

Agora que estou finalmente em seu jardim, não sei o que dizer.

- A senhora acabou de fazer esses biscoitos?

- Depois da aula.

- São os melhores que já comi - eu disse, certa de que ela os fizera especialmente para mim.

Quando termino os biscoitos, sei que é hora de voltar andando para casa através da colina de cerca de oitocentos metros. Agradeço à Sra. Prins pelos biscoitos, deixando sua casa silenciosa para trás, cortando caminho lentamente através das aléias e olhando por cima das cercas para os cachorros, imaginando se meu pai estará em casa para o jantar ou em um bar, bebendo. Sinto-me culpada por não ter ido imediatamente para casa para preparar o jantar, fazendo mamãe cozinhar quando sei que ela não está se sentindo bem. Imagino o que a Sra. Prins está fazendo para o jantar e resolvo que será iscas de peixe congeladas e uma caixa de macarrão com queijo. É isso o que nós vamos comer.

À noite, escrevo uma história a respeito de Pepper, nosso cachorro. A Sra. Prins quer que a turma escreva histórias sobre pessoas que são importantes para nós, mas parece que todos os humanos importantes para mim dariam uma história triste.

Pepper é diferente. Está preso em casa, nem morrendo nem bebendo, apenas esperando alguém para brincar com ele.

Alguns dias depois de entregar minha história, a Sra. Prins me pergunta se pode falar comigo após a aula. Concordo e então passo o dia inteiro preocupando-me com o que devo ter escrito errado. Três vezes vou ao banheiro chorar, certa de que, de alguma forma, eu feri seus sentimentos. Porém, depois da aula, a Sra. Prins tira minha história de dentro da gaveta de sua escrivaninha e pergunta:

- Posso ficar com isso?

- Por quê?

- Porque quero guardá-Ia em uma gaveta especial em casa com todas as minhas histórias favoritas.

Ela parece estar prestes a chorar e quero pedir-lhe a história de volta, apenas para ler o que eu disse que poderia fazê-Ia se sentir assim. Mas não posso falar sem chorar. Então ela me abraça e meus olhos se enchem de lágrimas.

Voltando para casa, sei que mesmo que eu nunca durma em sua casa, minha história dorme e isso é suficiente para fazer com que a Sra. Prins pareça ser minha mãe. Esta será minha mãe com metade do rosto sorrindo enquanto seus olhos se enchem de lágrimas. A mãe para quem posso olhar enquanto subo no trepa-trepa. E, mais importante, a mãe que entende minhas histórias.


 

AS MARCAS DA VIDA

DIANA GOLDEN

Histórias Para Aquecer o Coração 161

 

Minhas companheiras na Equipe Americana de Esqui para Deficientes costumavam brincar comigo a respeito do tamanho dos meus seios, dizendo que minha grande deficiência não era a falta de uma perna, mas a falta de material para encher um decote. Mal sabiam o quanto isso se tornaria verdade. Neste último ano, descobri pela segunda vez na vida que tenho câncer, desta vez em ambos os seios. Fiz uma mastectomia bilateral. Quando ouvi que precisava da cirurgia, não pensei que seria um grande problema. Cheguei até a dizer, em tom de brincadeira, a minhas amigas: "Como amiga do peito, vou lhe manter a par da situação." Afinal de contas, eu havia perdido a perna em meu primeiro embate contra o câncer, quando tinha 12 anos de idade, e então fora em frente e me tornara campeã mundial de corrida de esquis. Todos nós na Equipe de Esqui para Deficientes não tínhamos uma ou outra parte do corpo. Vi que um homem em uma cadeira de rodas pode ser totalmente sexy.

Que uma mulher sem mãos pode não parecer estar perdendo nada. O conjunto não tem nada a ver com as partes que estão faltando e tudo a ver com o espírito. Ainda assim, mesmo que eu soubesse disso, fiquei surpresa ao descobrir como era difícil me adaptar às minhas novas cicatrizes.

Quando voltei à consciência, após a cirurgia, comece! a chorar e a hiperventilar. De repente, descobri que não queria enfrentar a perda de mais partes do meu corpo. Não queria fazer quimioterapia novamente. Não queria ser corajosa e forte e manter um perpétuo rosto sorridente. Não queria acordar nunca mais. Minha respiração ficou tão alterada que o anestesista me deu oxigênio e então, felizmente, colocou-me para dormir.

Quando eu estava correndo a fim de me preparar para minha competição de esqui - meu coração, pulmões e músculos da perna todos pegando fogo -, com frequência era atingida pela' sensação de que não havia sobrado recursos dentro de mim para continuar. Então eu pensava nas competições que viriam - o sonho de forçar o meu potencial até onde pudesse ir, a satisfação de ultrapassar minhas próprias barreiras - e isso me fazia terminar a corrida. A mesma tenacidade que me servia nas corridas de esqui me ajudou a sobreviver em um segundo combate contra o câncer.

Depois da mastectomia, eu sabia que a única maneira de continuar seria começar a me exercitar novamente, então dirigi-me para a piscina pública. No chuveiro comunitário, peguei-me observando os seios de outras mulheres pela primeira vez em minha vida. Seios grandes e seios pequenos, flácidos ou empinados. De repente, e pela primeira vez após todos esses anos sem uma perna, senti-me extremamente autoconsciente. Não conseguia me despir.

Resolvi que era hora de confrontar a mim mesma. Naquela noite, em casa, tirei toda a roupa e olhei longamente para a mulher no espelho. Ela era andrógina. Peguei o meu rosto sem maquiagem, era o belo rosto de um menino. Os músculos do meu ombro, braços e mãos eram poderosos e musculosos por causa das muletas. Eu não tinha seios. Ao invés disso, havia duas cicatrizes proeminentes em meu peito. Possuía uma barriga chata e sexy, uma bunda redonda e quadris bem desenvolvidos, por causa de anos de corridas de esqui. Minha perna direita terminava em outra longa cicatriz logo abaixo do joelho.

Descobri que gostava de meu corpo andrógino. Combinava com a minha personalidade: meu lado masculino agressivo que adora colocar um capacete, braçadeiras e protetor de queixo para lutar no slalom e meu lado feminino gentil que deseja ter filhos algum dia e quer colocar um lindo vestido de seda, sair para jantar com um amante e então deitar-se e ser lentamente despida por ele.

Descobri que as cicatrizes no meu peito e na minha perna eram um grande problema. Eram as marcas da minha vida.

Todos nós somos marcados pela vida. Apenas algumas dessas cicatrizes aparecem mais do que outras. Nossas cicatrizes têm importância. Elas nos dizem que vivemos, que não nos escondemos da vida. Quando vemos nossas cicatrizes claramente, podemos encontrar, como eu fiz naquele dia, nossa própria e única beleza. Na vez seguinte em que fui a piscina, tomei banho nua.

 

DIGA APENAS SIM

FRAN CAPO

Histórias Para Aquecer o Coração 165

 

Sou uma comediante de palco. Estava trabalhando em uma estação de rádio em Nova York, fazendo o boletim meteorológico como uma personagem chamada June East (irmã há muito desaparecida de Mae West). Certo dia, uma mulher do The Daily News telefonou e disse que queria fazer uma matéria comigo.

Quando terminou a entrevista para a matéria, ela me perguntou:

- Quais são os seus planos daqui para a frente?

Bem, na época eu não tinha plano nenhum. Então perguntei o que ela queria dizer, tentando arrumar tempo. Ela disse que realmente queria acompanhar a minha carreira. Ali estava uma mulher do The Daily News dizendo que estava interessada em mim! Então achei que seria melhor dizer qualquer coisa. O que saiu foi: "Estou pensando em quebrar o recorde do Guiness Book de mulher de fala mais rápida do mundo."

O artigo do jornal saiu no dia seguinte e o redator incluíra minhas últimas declarações a respeito de tentar quebrar o recorde mundial de mulher de fala mais rápida do mundo. Por volta das cinco horas daquela tarde eu recebi um telefonema do show de televisão "Larry King Live" chamando-me para participar. Eles queriam que eu tentasse bater o recorde e disseram que me pegariam às oito porque queriam que eu fizesse aquilo naquela noite!

Agora, eu nunca ouvira falar de "Larry King Live" e quando ouvi a mulher dizer que eles eram do canal Manhattan, pensei:

"Huum, isso é um canal pornô, certo?" Mas ela me assegurou pacientemente que o programa era em cadeia nacional e que a oferta era uma oportunidade única - e seria naquela noite ou nunca.

Fiquei olhando para o telefone. Eu tinha um show em Nova Jersey aquela noite, mas não foi difícil descobrir qual dos dois compromissos eu preferia cumprir. Tinha que encontrar um substituto para meu show às sete horas da noite e comecei a telefonar para todos os comediantes que conhecia. Pela graça de Deus, finalmente encontrei um que me substituiria e, cinco minutos antes do prazo final, disse à mulher que poderia participar do "Larry King Live".

Então sentei-me para tentar descobrir o que, diabos, eu iria fazer no show. Telefonei para o Guiness para descobrir como quebrar um recorde de fala rápida. Disseram que eu teria que recitar algo de Shakespeare ou da Bíblia.

De repente comecei a dizer o salmo dezenove, uma oração de proteção que minha mãe havia me ensinado. Shakespeare e eu nunca nos déramos bem, então achei que a Bíblia era a única esperança. Comecei a praticar e praticar, de novo e de novo.

Estava nervosa e animada ao mesmo tempo.

Às oito horas da noite, a limusine veio me pegar. Pratiquei durante todo o caminho e, quando cheguei ao estúdio em Nova York, estava com a língua presa. Perguntei à responsável:

- E se eu não quebrar o recorde?

- Larry não está preocupado se você vai ou não quebrar o recorde - ela disse. - Ele só quer que você tente primeiro em seu programa.

Então me perguntei: "Qual é a pior coisa que pode acontecer? Fazer papel de tola em cadeia nacional! Uma coisinha de nada", disse para mim mesma, achando que poderia sobreviver a isso. "E se eu quebrasse o recorde?" Então decidi apenas dar o melhor que podia, e assim fiz.

Quebrei o recorde, tornando-me a mulher de fala mais rápida do mundo por falar 585 palavras em um minuto diante de uma audiência em cadeia nacional de televisão. (Eu o quebrei novamente dois anos depois, com 603 palavras em um minuto.) Minha carreira decolou.

As pessoas frequentemente me perguntam como fiz aquilo.

Ou como consegui fazer as muitas outras coisas que fiz, como dar uma palestra pela primeira vez, ou subir num palco pela primeira vez, ou pular de bungee-jump pela primeira vez. Digo a elas que vivo minha vida seguindo esta simples filosofia: sempre ,digo sim primeiro. Então pergunto: "E agora, como é que eu vou fazer para conseguir isso?"

Depois me pergunto: "Qual é a pior coisa que pode acontecer se eu não conseguir?" A resposta é: "Simplesmente não consegui! E qual é a melhor coisa que pode acontecer?

Conseguir!" O que mais a vida pode lhe pedir? Seja você mesmo e divirta-se!

 

 

Ou a vida é uma aventura ousada, ou não é nada.

HELEN KELLER

 


 

OBSTÁCULOS ILUSÓRIOS

HEIDI MAROTZ

Histórias Para Aquecer o Coração 169

 

Pernas. Nós corremos, esquiamos, escalamos montanhas e nadamos sem pensar muito a seu respeito.

Meu marido Scott usara suas pernas para conseguir bolsas de estudo através de campeonatos de esqui na faculdade e para chegar ao topo do Grand Tetons, em Jackson Hole, Wyoming.

Então, sem nenhum aviso, durante um mês de abril atipicamente quente, descobriu-se um tumor na espinha dorsal de Scott. Disseram-nos que a morte, ou a paralisia, poderia ser o resultado final.

Nossos filhos - Chase, Jillian e Hayden - variam em idade de sete a dois anos. Eles não entenderam realmente todas as "coisas ruins" que estavam acontecendo - mas foram os maiores torcedores e os melhores professores quando Scott descobriu que continuaria vivo, mas que estava paralisado do tórax para baixo. Os adultos, às vezes, ficam presos à imagem de como as coisas eram. Eu pensava sobre os acampamentos que nunca faríamos, as montanhas que Scott nunca escalaria e a neve recém-caída que ele nunca esquiaria com seus filhos.

Chase, Jillian e Hayden estavam muito ocupados com as coisas da vida para ficarem atolados no que seu pai não podia fazer. Ficavam de pé nas rodas da cadeira e gritavam de prazer enquanto ele apostava corridas em calmos corredores de hospital.

Os médicos disseram para preparar Scott para uma vida na cadeira de rodas, pois, se ele pensasse que iria andar de novo - e não poderia -, ficaria deprimido. As crianças não deram ouvidos aos médicos. Insistiam para que seu pai "tentasse ficar de pé". Eu ficava com medo de que Scott caísse. As crianças riam com ele quando ele caía e rolava na grama. Eu gritei, mas eles insistiram para que ele "tentasse novamente".

No meio de todas essas mudanças em nossas vidas, entrei para um curso de Desenho numa faculdade local. Durante uma semana, o instrutor nos disse que não podíamos desenhar coisas, mas apenas o espaço entre as coisas. Um dia, enquanto eu estava sentada debaixo de um enorme pinheiro desenhando o espaço entre os galhos, comecei a ver o mundo como Scott e as crianças o viam. Não vi os galhos como obstáculos que podiam impedir uma cadeira de rodas de atravessar o gramado, vi todos os espaços que permitiam a passagem de cadeiras de rodas, pessoas e até mesmo animais pequenos. Quando eu não estava me concentrando nos galhos - ou nos obstáculos da vida - adquiria uma nova visão de todos os espaços. Estranhamente, quer você desenhe os espaços ou os galhos, o desenho parece ser basicamente o mesmo. É a forma como você o vê que é diferente.

Quando passei a olhar os "espaços" junto com minha família, um novo mundo se abriu. Não era o mesmo - às vezes ficávamos frustrados -, mas era sempre compensador, pois estávamos trabalhando juntos. Conforme experimentávamos todas essas novas aventuras, Scott começou a ficar de pé e a andar com a ajuda de uma bengala. Ele ainda não sente nada na parte inferior de seu corpo e nas pernas, não pode correr ou andar de bicicleta, mas desfruta de muitas experiências novas.

Aprendemos que você não precisa sentir as pernas para empinar uma pipa, jogar um jogo de tabuleiro, plantar uma árvore, boiar em um lago na montanha ou frequentar aulas. As pernas não são necessárias para abraçar, botar curativo em um corte ou acalmar alguém depois de um pesadelo.

Algumas pessoas vêem barreiras na estrada. Scott nos ensinou que barreiras são apenas desvios. Algumas pessoas vêem galhos: Scott e as crianças vêem espaços abertos, grandes o suficiente para que todo o amor e esperança que cabem no coração possam passar.

 

 

Nós apreciamos o calor porque já sentimos frio. Apreciamos a luz porque já estivemos no escuro. Como prova do que digo, podemos experimentar a felicidade porque já conhecemos a tristeza.

DAVID L. WEATHERFORD

 

OUSE IMAGINAR

MARILYN KING

Histórias Para Aquecer o Coração 172

 

Quando as pessoas descobrem que eu competi nas Olimpíadas, presumem que sempre fui atleta. Mas não é verdade. Eu não era a mais forte ou a mais rápida e não fui a mais rápida a aprender.

Para mim, tornar-me uma esportista olímpica não foi desenvolver um dom de habilidade atlética natural, mas foi, literal mente, um ato de vontade.

Nas Olimpíadas de 1972, em Munique, eu era um membro da equipe americana de pentatlo, mas a tragédia dos atletas israelenses e um ferimento em meu tornozelo, combinados, tornaram a experiência profundamente desencorajadora. Não desisti. Ao invés, continuei treinando, acabando por me qualificar para ir com a equipe americana para os jogos de 1976, em Montreal. A experiência foi muito mais prazerosa e fiquei emocionada por ficar em décimo terceiro lugar. Mas, ainda assim, sentia que podia fazer melhor.

Arranjei para tirar uma licença do meu emprego como professora de Educação Física na universidade um ano antes das Olimpíadas de 1980. Achei que doze meses de treinamento vinte e quatro horas por dia me dariam a vantagem que eu precisava para trazer uma medalha para casa desta vez. No verão de 1979 comecei a treinar intensivamente para as eliminatórias das Olimpíadas a serem realizadas em junho de 1980. Senti a satisfação que surge quando a mente está focalizada e sentimos um progresso contínuo em direção a um objetivo que nos é caro.

Mas então, em novembro, o que parecia ser um obstáculo intransponível aconteceu. Sofri um acidente de carro e machuquei a região lombar. Os médicos não tinham certeza do que estava errado, mas tive que parar de treinar porque não podia me mover sem sentir dores excruciantes. Parecia óbvio demais que eu teria que abrir mão do meu sonho de ir para as Olimpíadas se não pudesse continuar treinando. Todo mundo ficou com pena de mim. Menos eu.

Foi estranho, mas nunca acreditei que este contratempo iria me deter. Confiei que os médicos e fisioterapeutas resolveriam logo o problema e que eu voltaria ao treinamento. Agarrava-me à afirmação: estou ficando melhor a cada dia e ficarei entre os três primeiros nas eliminatórias para as Olimpíadas. Isso passava constantemente pela minha cabeça.

Mas meu progresso era lento e os médicos não conseguiam concordar quanto ao tratamento. O tempo estava passando e eu continuava sentindo dores, incapaz de me mover. Restando apenas alguns meses, eu sabia que teria que fazer alguma coisa ou nunca conseguiria competir. Então comecei a treinar da única maneira que podia - em minha cabeça.

Um pentatlo consiste de cinco eventos de corrida e campo: 100 metros com barreira, arremesso de peso, salto com vara, salto em distância e corrida dos 200 metros. Consegui filmes dos detentores dos recordes mundiais em todos os meus cinco eventos.

Sentada em uma cadeira na cozinha, assisti aos filmes projetados na parede de minha cozinha vezes sem conta. Eu os assistia em câmara lenta ou quadro a quadro. Quando ficava entediada, assistia-os de trás para frente, só para me divertir. Assisti-os durante centenas de horas, estudando e absorvendo. Em outros momentos, deitava-me no sofá e visualizava a experiência de competir em detalhes minuciosos. Sei que algumas pessoas pensaram que eu estava maluca, mas eu ainda não estava pronta para desistir. Treinei o máximo que pude - sem jamais mover um músculo.

Finalmente os médicos diagnosticaram meu problema como hérnia de disco. Agora eu sabia por que doía tanto quando me movia, mas ainda não podia treinar. Mais tarde, já podendo andar um pouco, fui até a pista de corridas e fiz com que montassem todos os meus cinco eventos. Mesmo não podendo praticar, ficava de pé na pista e imaginava na minha cabeça a série completa de treinamento que eu teria feito naquele dia se fosse capaz. Durante meses, imaginei-me repetidamente competindo e me qualificando nas eliminatórias.

Mas será que visualizar era o suficiente? Seria realmente verdade que eu poderia me qualificar entre os três primeiros nas eliminatórias para as Olimpíadas? Acreditei nisso de todo o coração.

Quando as eliminatórias realmente começaram, eu havia melhorado apenas o suficiente para competir. Tomando muito cuidado para manter quentes meus músculos e tendões, atravessei meus cinco eventos como se estivesse em um sonho.

Depois, enquanto andava pelo campo, ouvi uma voz no alto-falante anunciar o meu nome.

Fiquei sem ar, mesmo tendo imaginado a cena mil vezes em meu pensamento. Senti uma onda de pura felicidade enquanto o locutor dizia:

- Segundo lugar, pentatlo olímpico de 1980: Marilyn King.

 

 

Os médicos me disseram que eu jamais andaria novamente,

mas minha mãe disse que eu andaria, então acreditei na minha mãe.

WILMA RUDOLPH, "a mulher mais rápida do mundo", três medalhas de ouro

nas Olimpíadas de 1960.

 

 


 

VOVÓ RUBY

LYNN ROBERTSON

Histórias Para Aquecer o Coração 176

 

Sendo mãe de dois meninos muito ativos, de um e sete anos de idade, às vezes me preocupo que eles transformem minha casa cuidadosamente decorada em um canteiro de demolição. Em meio a sua inocência e às suas brincadeiras, de vez em quando derrubam meu abajur favorito ou desarrumam meus arranjos bem planejados. Nesses momentos, quando nada parece sagrado, lembro-me da lição que aprendi com minha sábia sogra, Ruby.

Ruby é mãe de seis e avó de treze. É a encarnação da gentileza, da paciência e do amor.

Num Natal, todos os filhos e netos estavam reunidos, como de costume, na casa de Ruby. Apenas um mês antes Ruby havia comprado um lindo carpete branco, depois de viver com o mesmo carpete durante vinte e cinco anos. Ficara felicíssima com o jeito novo que ele dava à casa.

Meu cunhado, Arnie, tinha acabado de distribuir seus presentes entre todas as sobrinhas e sobrinhos - mel natural premiado de seu apiário. Eles estavam superanimados. Mas quis o destino que a pequena Sheena de oito anos de idade derramasse seu pote de mel no carpete novo da vovó fazendo uma trilha escada abaixo por toda a casa.

Chorando, Sheena correu para a cozinha e para os braços de Ruby.

- Vovó, eu derramei todo o meu mel em cima do seu carpete novo.

Vovó Ruby ajoelhou-se, olhou carinhosamente nos olhos chorosos de Sheena e disse:

- Não se preocupe, querida, podemos lhe arrumar mais mel.


 

A OUTRA MULHER

DAVID FARREL

Histórias Para Aquecer o Coração 178

 

Após vinte e um anos de casamento, descobri uma nova maneira de manter acesa a fagulha do amor e da intimidade no meu relacionamento com minha esposa.

Comecei, recentemente, a sair com outra mulher.

Na realidade, foi idéia da minha esposa.

- Você sabe que a ama - ela disse um dia, pegando-me de surpresa. - A vida é muito curta. Você precisa passar algum tempo com as pessoas que ama.

- Mas eu amo você - protestei.

- Eu sei. Mas também a ama. Você provavelmente não vai acreditar em mim, mas acho que, se vocês dois passarem mais tempo juntos, isso será bom para nós.

Como sempre, Peggy estava certa.

A outra mulher com quem minha esposa estava me encorajando a sair é minha mãe.

Minha mãe é uma viúva de setenta e um anos de idade que vive sozinha desde que meu pai morreu, há dezenove anos. Logo depois de sua morte, viajei quatro mil quilômetros para morar na Califórnia, onde comecei minha própria família e minha carreira.

Quando voltei à minha cidade natal há cinco anos, prometi a mim mesmo que passaria mais tempo com ela. Mas, de alguma maneira, com as exigências de meu trabalho e três filhos, nunca cheguei a vê-Ia fora das reuniões familiares e dos feriados.

Ela ficou surpresa e desconfiada quando telefonei e sugeri que fôssemos jantar e depois ao cinema.

- O que aconteceu? Você vai se mudar para longe com meus netos? - perguntou.

Minha mãe é o tipo de mulher que acha que qualquer coisa fora do habitual- um telefonema tarde da noite ou um convite surpresa para jantar feito por seu filho mais velho - significa más notícias.

- Achei que seria bom passar algum tempo com você - eu disse. - Só nós dois.

Ela avaliou a observação por um instante.

- Eu gostaria disso - falou. - Gostaria muito.

Surpreendi-me nervoso enquanto dirigia para a casa dela na sexta-feira depois do trabalho. Estava com a ansiedade do pré-encontro - e só estava saindo com a minha mãe, pelo amor de Deus!

Sobre o que iríamos conversar? E se ela não gostasse do restaurante que escolhi? Ou do filme? E se não gostasse de nenhum dos dois?

Quando estacionei em frente à sua garagem, percebi o quanto ela também estava nervosa com o nosso encontro. Estava me esperando na porta, já de casaco. Tinha feito um penteado especial. Sorria.

- Eu disse para as minhas amigas que ia sair com o meu filho e todas ficaram impressionadas - falou enquanto entrava no carro. - Mal podem esperar até amanhã para ouvirem a respeito da nossa noite.

Não fomos a nenhum lugar chique, apenas um restaurante do bairro, onde pudéssemos conversar. Quando chegamos lá, ela agarrou meu braço - metade por carinho, metade para ajudá-Ia a subir os degraus para o salão.

Sentamos e eu tive que ler o cardápio para nós dois. Os olhos dela só vêem grandes formas e sombras. Já tinha lido metade das entradas, quando olhei para cima. Mamãe estava sentada do outro lado da mesa, olhando para mim. Tinha um sorriso pensativo nos lábios.

- Era eu quem lia o cardápio quando você era pequeno disse.

Entendi imediatamente o que ela estava dizendo. De responsável a dependente, de dependente a responsável, nossa relação se invertera completamente.

- Então chegou a hora de você relaxar e me deixar retribuir o favor - falei.

Conversamos agradavelmente durante o jantar. Nada avassalador, apenas sobre nossas vidas. Conversamos tanto que perdemos o filme.

- Saio com você novamente, mas só se você deixar eu pagar o jantar da próxima vez - disse minha mãe quando a deixei em casa. Concordei.

- Como foi o seu encontro? - minha esposa quis saber quando cheguei em casa aquela noite.

- Bem... melhor do que eu esperava - respondi.

Ela deu seu sorriso eu-bem-que-disse.

Desde aquela noite, tenho tido encontros regulares com minha mãe. Não saímos toda semana, mas tentamos nos ver pelo menos duas vezes por mês. Sempre jantamos e às vezes assistimos a um filme. No entanto, na maior parte das vezes apenas conversamos. Conto-lhe dos desafios diários de meu trabalho. Conto vantagem a respeito de meus filhos e de minha esposa. Ela atualiza meu conhecimento a respeito das fofocas da família com as quais pareço nunca estar em dia.

Também me conta do seu passado. Agora eu sei como foi para minha mãe trabalhar em uma fábrica durante a Segunda Guerra Mundial. Sei como ela conheceu meu pai lá e como eles se cortejaram no bonde durante aqueles tempos difíceis.

Ouvindo essas histórias percebi o quanto elas significam para mim. São minhas histórias. Não me canso de ouvi-Ias.

Mas não conversamos apenas a respeito do passado.

Também conversamos sobre o futuro. Por causa de problemas de saúde, minha mãe se preocupa com os dias por vir.

- Tenho tanta coisa para viver - ela me disse certa noite.

- Tenho que estar aqui enquanto meus netos crescem. Não quero perder nem um pouquinho.

Como muitos amigos da minha geração, tenho a tendência de viver correndo, enchendo ao máximo a agenda enquanto luto para fazer com que a carreira, a família e os relacionamentos caibam na minha vida. Com freqüência reclamo da velocidade com que o tempo passa. Passar algum tempo com a minha mãe me ensinou a importância de diminuir o ritmo.

Finalmente entendi o significado de um termo que ouvi um milhão de vezes: qualidade de vida.

Peggy estava certa. Sair com outra mulher realmente ajudou meu casamento. Fez de mim um marido e um pai melhores e, espero, um filho melhor.

Obrigado, mamãe. Eu te amo.


 

O QUE HÁ DE ERRADO COM SEU PAI?

CAROL DARNELL

Histórias Para Aquecer o Coração 183

 

Eu estava no ginásio antes de perceber que meu pai tinha um defeito de nascença. Ele tinha lábio leporino e fenda palatina, mas, para mim, continuava com a mesma aparência que tinha no dia em que nasci. Lembro-me de dar-lhe um beijo de boa noite certa vez, quando eu era pequena, e perguntar se meu nariz ficaria chato depois de uma vida inteira dando beijos. Ele me assegurou que isso não aconteceria, mas me recordo de um tremor em seus olhos. Tenho certeza de que ele estava assombrado por ter uma filha que o amava tanto, que pensava que seus beijos, não trinta e três cirurgias, haviam remodelado seu rosto.

Meu pai era gentil, paciente, atencioso e amoroso. Ele nunca encontrou uma pessoa na qual não pudesse vislumbrar qualidades. Sabia o primeiro nome de serventes, secretárias e diretores. Na verdade, acho que ele gostava mais dos serventes.

Sempre perguntava sobre suas famílias, sobre quem eles achavam que iria ganhar o campeonato de futebol e sobre como andava a vida. Preocupava-se o suficiente para escutar suas respostas e lembrar-se delas.

Papai nunca deixou que sua deformação comandasse sua vida. Quando foi considerado muito feio para trabalhar com vendas, começou a fazer entregas de bicicleta e criou sua própria clientela. Quando o exército não permitiu que ele se alistasse, ele se ofereceu como voluntário. Chegou até mesmo a convidar uma Miss América para sair, uma vez.

- Se você não perguntar, nunca vai saber - disse-me mais tarde.

Raramente falava ao telefone, pois as pessoas tinham dificuldades 'para entendê-lo. Quando o encontravam pessoalmente, com sua atitude positiva e sorriso fácil, pareciam não levar sua deficiência em consideração. Casou-se com uma linda mulher e tiveram sete crianças saudáveis, que achavam, todas, que o sol e a lua nasciam em seu rosto.

Quando eu era uma "adolescente sofisticada”, entretanto, mal tolerava estar no mesmo aposento com este homem que, durante uma década, me aturou enquanto eu o observava fazendo a barba todas as manhãs. Meus amigos eram chiques, na moda e populares; meu pai era velho e ultrapassado.

Numa noite eu cheguei com o carro cheio de amigos e paramos na minha casa para fazer um lanche de madrugada.

Meu pai saiu de seu quarto e cumprimentou meus amigos, servindo refrigerantes e fazendo pipoca. Um de meus amigos me puxou para o lado e me perguntou:

- O que há de errado com seu pai?

De repente, olhei através da cozinha e o vi pela primeira vez com olhos imparciais. Fiquei chocada. Meu pai era um monstro! Fiz com que todos saíssem imediatamente e levei-os para casa. Senti-me tão idiota. Como podia ter deixado de ver?

Mais tarde, naquela noite, eu chorei, não porque percebi que meu pai era diferente, mas porque percebi que pessoa difícil e patética eu estava me tornando. Ali estava a pessoa mais doce e carinhosa que você poderia pedir e eu o havia julgado por sua aparência.

Naquela noite eu aprendi que, quando você ama totalmente alguém e então a vê através dos olhos da ignorância, do medo ou do desprezo, começa a entender a profundidade do preconceito. Eu havia visto meu pai como os estranhos o viam, como alguém diferente, deformado e anormal. Sem me lembrar que ele era uma boa pessoa que amava sua esposa, seus filhos e seus semelhantes. Ele tinha alegrias e tristezas e já vivera uma vida inteira sendo julgado pelas pessoas por sua aparência. Fiquei grata por tê-lo conhecido primeiro, antes que as pessoas me mostrassem seus defeitos.

Papai já se foi. Empatia, compaixão e preocupação pelo próximo são o legado que ele me deixou. São os maiores presentes que os pais podem dar a um filho - a capacidade de amar os outros sem considerar sua posição social, raça, religião ou incapacidades físicas, mas os dons da perseverança positiva e do otimismo. O sublime objetivo de ser tão amorosa em minha vida que receba beijos o ,bastante para que meu nariz fique chato.

 

 

"Alguém já disse: ''é importante gastar menos tempo com a nossa aparência e mais tempo com como nós vemos"? Se não, alguém deveria".

CARMEN RICHARDSON RUTLEN

 


UM CONTO DE NATAL

DESCONHECIDO

Histórias Para Aquecer o Coração 2 15

 

Eu estava em São Francisco, a poucos dias do Natal. As lojas já começavam a ficar entupidas e multidões esperavam impacientemente pelos ônibus e bondes no fim da tarde.

Quase todo mundo carregava pilhas de pacotes, e o cansaço era tanto, que eu comecei a me perguntar se os inúmeros amigos e parentes mereciam mesmo aqueles presentes e tanto sacrifício. Esse não era bem o espírito de Natal que eu desejava.

Finalmente fui literalmente empurrada para dentro de um bonde superlotado, e a ideia de ficar ali como sardinha em lata até chegar em casa foi se tornando insuportável. O que eu não daria por um lugar sentada!

À medida que algumas pessoas foram descendo, consegui respirar melhor e comecei a notar os outros passageiros. Com o canto do olho, vi um menino pequeno, de pele escura – não podia ter mais do que seis anos -, puxando a manga de uma mulher e perguntando: "Quer se sentar?" Ele a levou até o assento vago mais próximo e partiu em busca de outra pessoa cansada. Assim que um cobiçado lugar surgia, ele rapidamente se enfiava em meio àquela massa humana para procurar mais uma mulher carregada de pacotes e levava-a até o assento.

Finalmente, quando senti um puxão em minha própria manga, já estava completamente fascinada pelo menino. Ele me pegou pela mão e com um sorriso do qual jamais vou me esquecer disse: "Venha comigo." Mal tive tempo de agradecer, pois ele já partia em busca de mais uma necessitada.

Os passageiros do bonde, que em geral viajavam olhando para a frente e evitando os olhares dos vizinhos, começaram a trocar sorrisos. Uma mulher comentou comigo o cansaço que sentia, e três pessoas se abaixaram ao mesmo tempo para apanhar um pacote que caíra no chão. Em pouco tempo, as pessoas conversavam. Aquele menininho havia realmente mudado alguma coisa - todos nós nos sentíamos envolvidos num sutil sentimento de aconchego e o resto do percurso foi puro prazer.

Não percebi o menino descer. Quando olhei, ele não estava mais ali. Quando cheguei ao meu ponto, saltei do bonde pisando nas nuvens e desejei sinceramente ao motorista "Feliz Natal". Pela primeira vez percebi como as casas de minha rua estavam lindamente iluminadas e pensei em reunir os vizinhos para um chá antes do fim do ano. Eu me sentia de bem com o mundo, feliz com os presentes que comprara e com a alegria que eles dariam.

E de repente o Natal deixou de ser uma estressante festa de consumo para adquirir seu verdadeiro sentido. Mais uma vez eu era um menino que, com seu gesto de amor anunciava nossa verdadeira vocação.

 


 

O SEGREDO DA PLUMA

MELODY ARNETT

Histórias Para Aquecer o Coração 2 18

 

Na quinta série, eu me sentava na terceira fileira da esquerda para a direita, a segunda se contasse de frente para trás, com as mãos cruzadas e os pés no chão. O pastor Beikman nos recitava os mandamentos todas as manhãs, como uma primeira refeição que nós mastigávamos, engolíamos e - principalmente - temíamos. Eram esses os fundamentos da minha educação em criança: estudar, decorar, repetir.

Os ensinamentos da escola paroquial sedimentaram em mim princípios e convenções num mundo em que os homens eram prestigiados e as mulheres, consideradas invisíveis. Os homens descobriam novas terras, explicavam novas teorias e as leis do universo, além de terem escrito a Bíblia. Mas foi uma mulher que estimulou o meu espírito e me convidou a lançar sobre a vida um olhar mais profundo, a amar sinceramente e a reconhecer Deus em todas as coisas.

Uma manhã o pastor anunciou que estava trocando de função e deixando o comando da escola. Apresentou-nos a professora substituta, a senhorita Newhart, e um murmúrio agitado percorreu a sala. Uma mulher alta, com um penteado que mais parecia uma colmeia, sapatos de plataforma e uma saia que quase mostrava os joelhos, a senhorita Newhart era enérgica e suave ao mesmo tempo. Falava com as mãos, grandes e sardentas, e com gestos largos. De uma bolsa, quase uma mala, tirou plumas que distribuiu aos alunos, dizendo-nos que eram presentes enviados pelos donos originais - pássaros que haviam posto fora a plumagem em excesso, deixando para trás coisas que não precisavam mais carregar. Naquela manhã, nosso mundo mudou - e logo alguma coisa também mudaria em nós.

Na aula de história daquele dia, a senhorita Newhart nos contou a história de Cristóvão Colombo. Estando no mar há muito tempo, seus marinheiros se rebelaram e queriam desembarcar. Falava-se em motim, Colombo temia pela própria vida. Então, num amanhecer, uma pluma caiu do céu, indicando que se aproximavam de terra firme. A senhorita Newhart contou que os marinheiros viram mais gaivotas guinchando e rodopiando no ar. Para ilustrar o voo das gaivotas, ela dramaticamente arremessou os braços, fazendo tremular a pele sardenta e roliça de seu tríceps. Rodou em círculos velozmente, girando os pés, fazendo a saia bater nas pernas. Parecia que ia levantar voo. A senhoria Newhart me ajudou a ver o mesmo que aqueles marinheiros devem ter descoberto: há esperança até na menor das coisas.

Na manhã seguinte, a bolsa da senhorita Newhart estava cheia até em cima. Dentro, um pôster da Última Ceia, um pincel, um compasso e um tubo comprido e cilíndrico. Do tubo ela tirou um desenho em preto e branco e o pregou no quadro. Era um círculo, dentro do qual havia um homem, braços totalmente abertos, tocando a circunferência, os pés afastados na parte de baixo. Dimensões, figuras, desenhos e números estavam rabiscados por toda a folha. "Da Vinci", ela disse num sussurro, "era mais do que um pintor. Ele estudava os assuntos até saber tudo sobre eles: o homem, a natureza, ciências, matemática...

"Ele sabia alguma coisa sobre plumas?", perguntei. A professora de cabelo de colmeia adorou a pergunta.

Pioneiro na ciência da aerodinâmica, Leonardo da Vinci estudou as plumas. Quando vista do alto, uma pluma parece convexa, arqueada delicadamente para cima e para fora, deixando o ar passar sem oferecer resistência. Quando as plumas estão juntas, como numa asa, criam um aerofólio, algo que oferece a resistência certa ao ar. A senhorita Newhart, que era mais do que uma professora, e da Vinci, que era mais do que um pintor, me mostraram como ver o extraordinário mesmo em algo bem pequeno.

Mais tarde, no mesmo dia, a senhorita Newhart levou-nos a um campo fora dos muros da escola. Lá nos deitamos no chão, cobrimos nossos corpos com folhas, galhos e gravetos.

O campo se tornou nosso refúgio, nossa janela para o céu.

Naquele lugar só nosso aprendíamos a ficar quietos, descansar, observar, deixando os besouros rastejarem por cima de nós, prestando atenção nos pássaros e estudando seus movimentos.

À saída da escola, a senhorita Newhart ficava na porta tocando o ombro de cada aluno e dizendo "Até amanhã" ou ... Deus o abençoe". Lembro como suas mãos eram quentes e leves. Muitas vezes me pedia para ficar mais um pouco, arrumar carteiras, jogar fora papéis velhos ou apagar o quadro.

Durante uma daquelas tardes abençoadas, dividi com a senhorita Newhart um problema que eu mantinha em segredo. Contei-Ihe que eu amava os pássaros mais do que amava a Deus, o que era um pecado, segundo os mandamentos. Minha professora procurou a Bíblia em sua mesa, abriu-a no Livro dos Salmos e leu: Ele te cobrirá com suas plumas e debaixo de suas asas te abrigará; sua fidelidade é escudo e couraça. Ela escreveu o pequeno verso e me entregou o papel. Ainda o tenho comigo.

Eu não sabia o significado da palavra couraça - isso não tinha a menor importância -, mas aprendi uma coisa fundamental para minha vida: eu tinha permissão para amar as coisas profundamente, porque Deus está em todas as coisas e me presenteou com elas. Indo para casa naquela tarde, pensei que eu seria capaz de voar. Corri, braços esticados, pernas para trás, deslizando sobre as calçadas, como se fosse um pássaro.

No pescoço, eu uso um pássaro, um berloque de ouro que ganhei quando criança. As asas do pássaro se tornaram um símbolo. Fazem-me lembrar do voo nas calçadas há tantos anos e das estradas que percorri desde então. E, à medida que os anos passaram, eu também me tornei um pouco pluma: ofereço menos resistência aos sacrifícios que a vida impõe e suporto melhor as dificuldades.

Como professora, guiei muitas crianças através das águas às vezes turbulentas das frações, das leituras e das dúvidas sobre a capacidade de fazer alguma coisa. Eu as conduzi a salvo até a praia quando estavam perdidas. Aprendi, de vez em quando, a descansar em lugares tranquilos e a deixar para trás as coisas que não preciso mais carregar, como ressentimentos, mágoas e decepções.

Tenho força interior, um modo tranquilo de ser e acredito, do fundo do coração, que poderei suplantar todas as dificuldades.

 

 

Todas as coisas mais cheias de amor nos chegam de maneira simples,

é o que me parece.

EDNA ST. VINCENT MILLAY

 


 

ASSUMINDO O DESAFIO

MAGI HART

Histórias Para Aquecer o Coração 2 23

 

Trabalhar em um hospital com vítimas recentes de derrames cerebrais era presenciar situações extremas, uma questão de tudo ou nada. Ou eles estavam felizes por estarem vivos ou simplesmente queriam morrer. Bastava olhar para saber.

Aprendi muita coisa com Albert sobre derrames cerebrais.

Encontrei-o pela primeira vez, todo curvado na cama em posição fetal, numa tarde em que fazia a ronda dos doentes. Um homem pálido, velho, ressequido, parecendo morto, a cabeça meio escondida pelo cobertor. Nem se mexeu quando me apresentei e não disse uma palavra sequer quando lhe disse que o jantar viria logo.

No posto de enfermagem, um funcionário forneceu-me alguns dados sobre ele. Não tinha ninguém. Já vivera muito.

A mulher com quem fora casado durante trinta anos tinha morrido, os cinco filhos tinham saído de casa.

"Bem", pensei, "talvez eu consiga ajudar." Na época eu era uma enfermeira cheia de corpo mas vistosa, uma mulher divorciada que evitava a população masculina fora do trabalho. Quem sabe eu poderia fazer alguma coisa? Resolvi flertar. No dia seguinte, em vez do uniforme de enfermeira usei um vestido branco. Luzes apagadas. Cortinas cerradas.

Albert nem se mexeu quando me aproximei. Puxei a cadeira para perto de sua cama, cruzei minhas pernas, inclinei a cabeça e dirigi-lhe um sorriso perfeito.

"Deixe-me em paz. Quero morrer."

"Que pecado, com tantas mulheres sozinhas por aí." Albert pareceu aborrecido. Fingindo não notar, comecei a tagarelar dizendo como gostava de trabalhar na unidade de reabilitação, porque lá tinha a oportunidade de observar as pessoas atingindo seu potencial máximo. Era um lugar cheio de possibilidades. Ele ficou calado.

Dois dias mais tarde, na troca de turnos, eu soube que Albert tinha perguntado quando eu estaria trabalhando. A enfermeira referia-se a ele como meu "namorado" e o apelido pegou. Nunca o contestei. Quando saía do quarto dele, eu dizia aos outros lá fora para cuidarem bem do "meu Albert". Dentro de pouco tempo, ele concordou em sentar-se na beirada da cama para exercitar a resistência, a energia e o equilíbrio. Consentiu em "trabalhar" com a fisioterapia se eu voltasse "para conversar".

Dois meses depois, Albert estava usando um andador. No terceiro mês, passou para a bengala. Às sextas-feiras comemorávamos as altas dos pacientes com um churrasco. Quando chegou a vez dele, Albert e eu dançamos ao som de canções de Edith Piaf. Foi um parceiro meio desajeitado, mas era ele quem guiava. Nossos rostos estavam molhados de lágrimas quando nos despedimos.

De vez em quando chegavam ao hospital rosas, crisântemos e ervilhas-de-cheiro de presente para mim. Ele estava trabalhando em seu jardim outra vez.

Então, numa tarde, uma linda mulher vestida de azul-Iavanda "pareceu em nossa unidade do hospital procurando por "aquela enfermeira assanhada”.

Minha chefe mandou chamar-me; eu estava dando banho em um doente.

"Então, é você! A mulher que fez meu Albert voltar a lembrar que ele é um homem!" Abriu um amplo sorriso e me entregou um convite de casamento.

 

 

 

Sou um só, mas ainda assim sou um; não posso fazer tudo,

mas ainda assim posso fazer alguma coisa; e não é porque não posso fazer tudo que vou deixar de fazer o que posso.

EDWARD EVERETT HALE

 


 

O OUTRO LADO DAS PESSOAS

LOUISE DICKINSON RICH

Histórias Para Aquecer o Coração 2 32

 

Minha avó tinha uma inimiga chamada senhora Wilcox. Elas se mudaram, recém-casadas, para casas vizinhas numa pequena cidade onde tinham ido viver. Não sei quem começou a guerra - foi muito antes de eu nascer - e não sei se quando eu nasci, uns trinta anos depois, elas mesmas se lembravam de quem começara.

Mas o duro embate continuava, com amargas batalhas.

Era uma contenda travada sem um pingo de educação. Era uma guerra entre senhoras, o que significa guerra total. Nada' na cidade escapou das conseqüências. A igreja de trezentos anos, que sobrevivera à Revolução e à Guerra Civil, quase foi ao chão quando vovó e a senhora Wilcox travaram a batalha pela presidência da Liga das Senhoras. Vovó ganhou este combate, mas foi uma vitória sem valor, pois a senhora Wilcox, derrotada, demitiu-se da Liga num acesso de raiva. E qual é a graça de dirigir alguma coisa se você não pode humilhar sua inimiga mortal?

A senhora Wilcox venceu a batalha da Biblioteca Pública, e conseguindo que a sobrinha Gertrude fosse indicada como bibliotecária no lugar de minha tia Phyllis. No dia em que Gertrude assumiu o posto, vovó parou de apanhar livros na biblioteca - dizendo que estavam "cheios de germes" - e começou a comprar os livros que queria ler.

A batalha da Escola Secundária terminou empatada. O diretor conseguiu um emprego melhor e saiu antes que a senhora Wilcox o tirasse de lá ou vovó conseguisse mantê-lo lá para sempre.

Além dessas batalhas mais sérias, aconteciam constantes ataques e recuos na linha de tiro. Quando éramos crianças e visitávamos vovó, parte da diversão consistia em fazer caretas para os terríveis netos da senhora Wilcox - que revidavam com igual virulência - e roubar uvas do lado da cerca dos Wilcox.

Corríamos atrás das galinhas e púnhamos bombinhas nos trilhos do bonde bem em frente à casa dos Wilcox com a doce esperança de que, ao passar, o bonde provocasse uma explosão que fizesse a senhora Wilcox morrer de susto.

Num dia histórico, pusemos uma cobra na calha de chuva 5 dos Wilcox. Minha avó ainda ensaiou um protesto, mas sentimos sua solidariedade tácita, bem diferente dos veementes "nãos" de mamãe, e prosseguimos na nossa carreira de crianças endiabradas.

Não pensem nem por um minuto que só havia um lado da guerra. Lembrem-se de que a senhora Wilcox também tinha netos bem mais valentões e espertos do que os netos de vovó. Os pestinhas puserem gambás no porão de sua casa e esta foi a agressão mais suave. O fato é que qualquer incidente na casa de vovó sempre foi atribuído aos Wilcox.

Não sei como vovó poderia ter suportado todos esses problemas se não fosse pelo caderno feminino do jornal diário de Boston.

A página era uma instituição maravilhosa. Além das usuais dicas de cozinha e conselhos sobre limpeza, havia uma seção de troca de cartas para que as leitoras pudessem desabafar seus problemas. Para que o anonimato fosse mantido, as cartas vinham assinadas com um pseudônimo. O de vovó era Arbusto.

Outras leitoras que tivessem o mesmo problema respondiam, dando a solução encontrada e também usando seus pseudônimos, como Aquela que Sabe, X ou qualquer outro. Muitas vezes, exposto o problema, as leitoras ficavam trocando cartas por anos através do jornal, falando sobre filhos, doces em conserva ou a mobília nova da sala de jantar.

Foi isso o que aconteceu com vovó. Ela e uma mulher chamada Gaivota se corresponderam por vinte e cinco anos, e vovó dizia a Gaivota coisas que jamais confessara a ninguém como a vez em que contou que pensava estar grávida (e não estava) ou quando meu tio Steve pegou piolho na escola e vovó ficou profundamente humilhada. Gaivota era sua amiga do coração.

Quando eu tinha dezesseis anos, a senhora Wilcox morreu.

Numa cidade pequena, mesmo que você deteste a vizinha, faz parte das regras de educação se oferecer para ajudar a família enlutada no que for necessário.

Vovó atravessou o gramado, deu os pêsames às filhas da senhora Wilcox e começou a ajudá-las a limpar a já imaculada sala de visitas para o funeral. De repente, viu aberto sobre uma mesa, num lugar de destaque, um enorme álbum de recortes. Para seu mais absoluto estarrecimento ali estavam coladas, em colunas paralelas, as cartas dela para Gaivota e as de Gaivota para ela.

A maior inimiga de vovó fora, na verdade, sua melhor amiga.

Foi a única vez que me lembro de ter visto minha avó chorar. Eu não sabia naquela época por que ela estava chorando, mas agora eu sei. Chorava por todos os anos perdidos que não poderiam ser recuperados. Naquele momento, fiquei tão impressionada com as lágrimas de minha avó, que não me dei conta da descoberta fundamental que começava a fazer. Uma descoberta que se transformou em convicção e que tem me ajudado imensamente a viver:

 

* As pessoas podem parecer insuportáveis. Podem parecer egoístas, mesquinhas e hipócritas. Mas, se não procurarmos olhá-Ias sob outra perspectiva, nunca seremos capazes de descobrir que são também generosas, amorosas e bondosas. E, se não Ihes dermos a oportunidade de revelarem seus aspectos positivos, ficaremos para sempre privados do bem que eles podem nos proporcionar.

 


 

INFORMAÇÕES, POR FAVOR!

Paul Villiard

Histórias Para Aquecer o Coração 2 39

 

Quando eu era criança, minha família era proprietária de um dos primeiros telefones da vizinhança. Eu me lembro bem da caixa de carvalho instalada na parede embaixo da escada. O fone reluzente ficava dependurado do lado da caixa. Lembro-me até do número: 105. Eu era pequeno demais para alcançar o telefone, mas costumava ouvir, fascinado, quando minha mãe o utilizava. Certa vez, ela me levantou para que eu pudesse falar com meu pai que estava viajando a negócios. Foi um momento mágico!

Depois, descobri que, em algum lugar dentro daquele aparelho sensacional, morava uma pessoa maravilhosa. O nome dessa pessoa era "Informações, por Favor! ", e não havia nada que ela não soubesse.

Minha mãe sempre recorria a ela para saber o número do telefone de alguém; quando nosso relógio não funcionava, "Informações, por Favor!" fornecia imediatamente a hora certa.

Minha primeira experiência pessoal com aquele "gênio da caixa" ocorreu, certo dia, quando minha mãe se encontrava na casa de uma vizinha. Enquanto eu brincava com a caixa de ferramentas no porão, dei uma martelada no dedo. A dor foi terrível, mas de nada adiantava chorar porque não havia ninguém em casa para me consolar. Caminhei pela casa chupando o dedo machucado até chegar perto da escada. O telefone! Corri para pegar o banquinho na sala de visitas e arrastei-o para perto do telefone. Subi no banquinho, tirei o fone do gancho e encostei-o na orelha.

- Informações, por Favor! - eu disse, tentando alcançar o bocal, um pouco acima de minha cabeça.

Após um clique ou dois, uma voz clara falou ao meu ouvido:

- Informações.

- Eu machuquei o dedo - choraminguei ao telefone.

Agora que eu tinha com quem falar, as lágrimas começaram a correr.

- Sua mãe não está em casa? - foi a pergunta.

- Não, estou sozinho - respondi por entre as lágrimas.

- Está saindo sangue?

- Não. Dei uma martelada no dedo e está doendo.

- Você sabe abrir a geladeira? - ela perguntou.

Respondi que sabia.

- Então, pegue um pedacinho de gelo e segure-o em cima do dedo.

Vai parar de doer. Mas tome cuidado com o gelo - ela me advertiu. E não chore. Vai dar tudo certo.

Depois disso, passei a ligar para "Informações, por Favor!", para conseguir qualquer coisa. Pedi ajuda para minhas lições de geografia, e ela me disse onde ficava a cidade de Filadélfia e o Orinoco o romântico rio que eu viria a explorar quando crescesse. Ela me ajudou na aritmética e me contou que o esquilo - que eu pegara no parque no dia anterior - comia frutas e nozes.

E chegou o dia em que Peter, nosso canarinho, morreu. Liguei para "Informações, por Favor!" e lhe contei minha triste história.

Ela ouviu e repetiu aquelas palavras que os adultos costumam dizer para consolar uma criança. Mas eu estava inconsolável: Por que os passarinhos, que cantam tão bonito e alegram a família inteira, acabam se transformando em um montinho de penas com os pés para cima no fundo de uma gaiola?

Ela deve ter percebido a intensidade de minha tristeza, porque disse em voz baixa:

- Paul, lembre-se sempre de que existem outros mundos em que podemos cantar.

Eu me senti melhor.

No dia seguinte, lá estava eu ao telefone.

- Informações - disse a voz que eu agora conhecia bem.

- Como se escreve "consertar"? - perguntei.

- No sentido de consertar alguma coisa? C-O-N-S-E-R-T-A-R.

Naquele momento, minha irmã, que tinha o péssimo hábito de me assustar, saltou da escada em minha direção e gritou:

- Iaaaaaaa!

Eu caí do banquinho e arranquei, sem querer, o fone da caixa com todos os fios. Minha irmã e eu ficamos aterrorizados. "Informações, por Favor!" não respondia mais, e eu não sabia se a magoara por ter arrancado o fone da caixa.

Minutos depois, apareceu um homem na varanda.

- Sou funcionário da companhia telefônica. Eu estava trabalhando lá embaixo, nesta rua, e a telefonista me disse que deve haver algum problema com este número de telefone. - Ele pegou o fone da minha mão e perguntou:

- O que aconteceu?

Eu lhe contei o que havia acontecido.

- Bem, podemos resolver esse problema em um minuto ou dois.

Ele abriu a caixa do telefone, deixando à mostra uma confusão de fios e molas, e começou a mexer no fio principal do telefone, prendendo tudo com uma pequena chave de fenda. Depois de levantar e abaixar o gancho algumas vezes, ele falou ao telefone.

- Oi, aqui é Pete. Está tudo em ordem com o 105. A irmã do garoto o assustou, e ele puxou os fios da caixa.

O homem desligou, sorriu, deu um tapinha em minha cabeça e atravessou a porta.

Tudo isso aconteceu em uma cidadezinha a noroeste do Pacífico.

Quando eu tinha nove anos, mudamos para Boston - do outro lado do país -, e passei a sentir falta de minha mentora. "Informações, por Favor!" pertencia àquela velha caixa de madeira da outra casa, e eu nunca pensei em tentar procurá-la naquele novo e imponente telefone que ficava na mesinha do hall.

Mesmo quando cheguei à adolescência, as lembranças daquelas conversas dos tempos de infância nunca me abandonaram; em momentos de dúvidas e dificuldades, eu me lembrava da voz serena que me transmitia segurança quando eu ligava para "Informações, por Favor!" e obtinha a resposta certa. Hoje eu entendo a paciência, a compreensão e a bondade daquela pessoa que perdia o seu precioso tempo com um garotinho.

Alguns anos mais tarde, quando eu estava a caminho da faculdade, no Oeste, meu avião pousou em Seattle. A conexão com o voo seguinte levaria cerca de meia hora. Passei 15 minutos ou mais ao telefone conversando com minha irmã, que agora era uma senhora casada, mãe e se sentia feliz. Em seguida, sem pensar no que estava fazendo, disquei para a telefonista de minha cidade natal e disse:

- Informações, por Favor!

Como se fosse um milagre, ouvi novamente a voz clara e firme, que eu conhecia tão bem:

- Informações.

Eu não tinha planejado nada, mas me ouvi dizendo:

- Por favor, poderia me informar como se escreve a palavra " consertar"?

Depois de uma longa pausa, ouvi a voz delicada responder:

- Acho - disse "Informações, por Favor!" - que seu dedo já deve estar curado.

Eu ri.

- Quer dizer que você continua aí. Acho que você não faz ideia do significado que teve em minha vida durante todo aquele tempo...

- Acho - ela replicou - que você não sabe o significado que teve em minha vida. Não tive filhos e ficava aguardando, ansiosa, suas ligações. Bobagem, não?

Não era bobagem, mas eu não disse isso. Eu lhe contei que pensei nela com muita frequência durante aqueles anos e perguntei se poderia ligar novamente quando voltasse a visitar minha irmã, depois do encerramento do primeiro semestre.

- Por favor, ligue. Peça para falar com Sally.

- Até logo, Sally. - Parecia estranho que "Informações, por Favor!" tivesse nome. - Se eu encontrar algum esquilo, vou dizer a ele para comer frutas e nozes.

- Faça isso - ela disse. - E espero que num desses dias você vá conhecer o Orinoco. Bem, até logo.

Três meses depois, eu estava de volta ao aeroporto de Seattle. Uma voz diferente atendeu:

- Informações.

Pedi para falar com Sally.

- Você é amigo dela?

- Sim - respondi. - Um velho amigo.

- Lamento muito informar, mas Sally só trabalhava meio expediente nos últimos anos porque estava muito doente. Ela morreu há cinco semanas.

Antes que eu tivesse tempo de desligar, ela continuou:

- Espere um momento. Você disse que seu nome é Villiard?

-Sim.

- Bem... Sally deixou um recado escrito para você.

- Que recado? - perguntei, quase adivinhando do que se tratava.

- Aqui está. É o seguinte: "Diga a ele que eu continuo a achar que existem outros mundos em que podemos cantar. Ele vai entender." Agradeci e desliguei. Eu entendi o que Sally quis dizer.


 

AS VELAS DO SABÁ

MARSHA ARONS

Histórias Para Aquecer o Coração 2 45

 

Uma sexta-feira por mês, na parte da manhã, dou um plantão no hospital da minha cidade, distribuindo velas do Sabá para as pacientes judias. Pela tradição, as mulheres judias saúdam o Sabá acendendo velas, mas, como há risco de incêndio, nós oferecemos velas elétricas que se acendem na tomada no início do Sabá judeu, na sexta-feira, ao' cair do sol. O Sabá termina no sábado à noite. No domingo de manhã, recolho as velas e as guardo até a sexta-feira seguinte, quando outra voluntária estará encarregada da distribuição.

Numa sexta-feira de manhã, numa das enfermarias, conheci uma senhora bem idosa. Seu cabelo curto era branco e fofo, sua pele, amarelada e enrugada. Ela parecia pequena na cama, o cobertor puxado até debaixo dos braços e as mãos descansando sobre a coberta, velhas e retorcidas, mãos cheias de experiência. Mas seus olhos eram claros e azuis e, quando ela me cumprimentou, a voz era surpreendentemente vigorosa. Seu nome era Sara Cohen.

Ela disse que estava me esperando, que nunca deixava de acender velas em casa e que bastava eu colocá-las na tomada ao lado da cama, onde pudesse alcançar. Ficou claro que ela estava familiarizada com a rotina.

Fiz o que ela pediu e lhe desejei um bom Sabá. Quando me virei para sair, ela disse serenamente: "Espero que os meus netos cheguem a tempo de se despedirem de mim." Senti um choque com a maneira pela qual ela falava da iminência de sua morte. Toquei de leve sua mão e disse que eu também esperava que eles chegassem a tempo.

Quando saí do quarto, quase esbarrei numa jovem que parecia ter uns vinte anos. Ainda ouvi a senhora Cohen dizer:

"Malka, fico feliz de você ter vindo. Onde está David?" Continuei a ronda, pensando se David também chegaria a tempo. Acho que, de alguma forma, cada uma dessas mulheres me lembra a minha mãe quando estava no hospital. É triste pensar na dor de quem vai perder um ente querido. Acho que foi por isso que fui trabalhar como voluntária.

Durante todo o Sabá eu não consegui parar de pensar na senhora Cohen e seus netos. No domingo de manhã, voltei ao hospital para recolher as velas. Quando me aproximei do quarto da senhora Cohen, vi sua neta sentada do lado de fora. Ela olhou em minha direção ao ouvir o barulho do carrinho.

"Por favor", ela pediu, "a senhora pode deixar as velas por apenas mais algumas horas?"

Fiquei surpresa com o pedido, mas ela explicou. Disse que a avó ensinara a ela e ao irmão, David, tudo o que eles sabiam sobre a religião. Os pais dos dois se separaram quando as crianças ainda eram pequenas e, como trabalhavam muito, deixavam os filhos com a avó na maioria dos fins de semana.

"Ela preparava o Sabá para nós", disse Malka. "Ela cozinhava, deixava tudo limpo e a casa brilhava e cheirava de um jeito... tão especial que nem consigo explicar. Meu irmão e eu encontrávamos em sua casa uma coisa que não existia em nenhum outro lugar.

Não sei como fazer a senhora entender o que o Sabá significava para nós - para todos nós, vovó, David e eu -, mas era um momento especial nas nossas vidas. David agora vive em Israel. Só conseguiu um vôo para chegar hoje. Deve chegar lá pelas seis.

Então, se a senhora puder, por favor, deixe as velas até essa hora." Eu não entendia o que as velas tinham a ver com a chegada de David. Malka explicou: "Para minha avó, o Sabá sempre foi nosso dia de felicidade. Ela não ia querer morrer no Sabá. Se ela acreditar que ainda é o Sabá, talvez ela possa agüentar até que David chegue. Espere até ele poder se despedir dela." Era impossível negar o pedido. Que coisa extraordinária a força que aquela mulher usava para permanecer viva.

E não era por si que ela estava fazendo o esforço. Por sua atitude, ela deixara claro que não temia a morte. Ela parecia saber e aceitar o fato de que sua hora havia chegado e estava pronta para ir.

Para mim, Sarah Cohen personificava uma espécie de força e de amor extremamente raros. Ela estava disposta a concentrar toda a sua força para que as pessoas que amava não associassem a beleza e a alegria do Sabá à tristeza por sua morte. Quando me aproximei do quarto no domingo à noite, senti as lágrimas subirem aos meus olhos. Olhei e vi a cama vazia e as velas apagadas.

Então ouvi uma voz atrás de mim, dizendo docemente: "Ele conseguiu."

Olhei para Malka, que já não chorava mais.

David chegou esta tarde. Ele está fazendo suas preces agora. Ele pôde dizer-lhe adeus e trouxe notícias que a alegraram - ele e a mulher vão ter um bebê. Se for menina, vai se chamar Sarah." De uma certa forma, nada disso me surpreendeu.

Enrolei o fio elétrico à volta da base das velas. Elas ainda estavam quentes.

 


 

O QUE REALMENTE IMPORTA

DESCONHECIDO

Histórias Para Aquecer o Coração 2 49

 

Há alguns anos, nas Olimpíadas Especiais de Seattle, nove participantes, todos física ou mentalmente deficientes, se reuniram na linha de largada para a corrida dos 100 metros.

Quando foi dado o tiro de largada, todos eles saíram, não exatamente em disparada, mas com a disposição de terminar a corrida e vencer.

Todos, isto é, menos um menino que tropeçou no asfalto, caiu umas duas vezes e começou a chorar. Os outros oito ouviram o menino chorando. Diminuíram a velocidade e pararam. Então todos eles se viraram e voltaram. Cada um por sua conta.

Uma menina com síndrome de Down curvou-se, beijou-o e disse: "Isso vai fazer a dor passar."

Em seguida os 9 se deram os braços e andaram juntos até a linha de chegada. Todo mundo no estádio se levantou e os aplausos duraram 10 minutos.

 


 

O GARFO E A MORTE

ROGER WILLIAM THOMAS

Histórias Para Aquecer o Coração 2 51

 

O anúncio da chegada de Martha sempre trazia um sorriso para o rosto do padre Jim. Ela era uma das mais antigas e piedosas paroquianas. Tia Martie, como todas as crianças a chamavam, parecia espalhar fé, esperança e amor onde quer que fosse. Mas, dessa vez, havia algo diferente em sua expressão. Com o rosto sério, ela lhe contou que o médico acabara de diagnosticar nela um câncer em estágio avançado.

"Ele diz que eu tenho, na melhor das hipóteses, três meses de vida." .As palavras de Martha eram graves, embora ela estivesse bastante calma.

"Eu lamento muito...", padre Jim começou a dizer, mas, antes que ele terminasse a frase, Martha o interrompeu:

"Não lamente. Deus tem sido bom comigo. Tive uma vida longa e feliz e estou pronta para ir. O senhor sabe disso."

"Eu sei", murmurou o padre, aquiescendo com a cabeça. "Mas o que eu desejo mesmo é falar com o senhor sobre meu funeral. Tenho pensado nisso e há coisas que vou querer." Os dois conversaram por um bom tempo. Falaram sobre os cânticos preferidos de Martha, suas passagens da Bíblia preferidas e as muitas lembranças que dividiram nos cinco anos em que o padre Jim esteve na paróquia.

Quando parecia que tinham abordado todos os aspectos, tia Martha parou, olhou para o padre com um brilho nos olhos e acrescentou: "Há mais uma coisa. Quando me enterrarem, quero minha velha Bíblia na mão e um garfo na outra." "Um garfo?" O pedido surpreendeu o padre Jim: "Por que a senhora quer ser enterrada com um garfo?" "Estive pensando em todos os jantares e banquetes da igreja a que compareci ao longo dos anos", ela explicou. Uma coisa tinha sempre chamado a sua atenção. Em todas aquelas reuniões tão agradáveis, quando a refeição estava quase no final, uma empregada vinha recolher o prato sujo. "Posso até ouvir as palavras agora. Alguém se inclinava sobre o meu ombro e dizia baixinho: 'Pode ficar com seu garfo.' E o senhor sabe o que isso queria dizer? Que a sobremesa estava vindo!" E não se tratava de um pote de gelatina, um pudim ou uma taça de sorvete, porque nada disso se come com garfo. Significava que era algo realmente gostoso, um bolo de chocolate ou uma torta de cereja!

"Quando me diziam que eu podia ficar com meu garfo, eu sabia que o melhor ia chegar. É exatamente sobre isso que quero que as pessoas falem no meu funeral. Elas podem lembrar todos os bons momentos que tivemos. Isso será ótimo. Mas, quando passarem pelo meu caixão e me virem no meu lindo vestido azul, quero que se espantem e perguntem: 'Para que o garfo?' E é isso que eu quero que o senhor lhes diga: que eu fiquei com o garfo porque o melhor ainda vai chegar."


 

LAVANDO URSINHOS DE PELÚCIA

JEAN BOLE

Histórias Para Aquecer o Coração 2 56

 

Estamos lavando ursinhos de pelúcia - Susan, minha filha mais velha, e eu. Velhos brinquedos de infância. Ela separou-se recentemente, depois de um casamento de sete anos, e agora estamos lavando os ursinhos de pelúcia.

Semana passada ajudei-a a arrumar seu novo apartamento.

Ela está morando sozinha pela primeira vez, lutando para organizar uma nova vida - apenas ela e seus ursinhos.

Enquanto lavamos, minha filha me conta que na véspera conheceu na lavanderia uma mulher' de oitenta anos que lavava um ursinho de pelúcia. Quando Susan disse que pretendia lavar os seus, a velha explicou cuidadosamente o modo correto de fazê-lo.

"Você deve colocá-los dentro de uma fronha e fechá-Ia com um alfinete de segurança. Depois você lava e seca o embrulho, e eles saem bonitinhos, limpos e fofinhos."

A velha continuou a falar e contou que, desde que seu marido falecera, sempre que se sentia solitária ou ansiosa, ela abraçava seu ursinho de pelúcia por algum tempo contra o rosto e isso a fazia sentir-se melhor.

Elas continuaram a conversar. Susan disse que sempre quisera lavar seus ursinhos, mas tinha medo de que eles se estragassem. Ela estava encantada com a velha e com sua história, e por isso continuaram a falar. Minha filha agradeceu à senhora pelo conselho e explicou que tinha se separado recentemente e estava arrumando seu novo apartamento.

A velha disse que, se ela fosse sua filha, a levaria para sua casa. Assim ela não viveria sozinha. Eu queria dizer a Susan que compartilhava os sentimentos daquela senhora. Ao mesmo tempo, sabia que ela tinha que encontrar o seu próprio caminho. Embora quisesse abrigá-la, no fundo do meu coração, eu sabia que esta não era a melhor solução para ela.

Às vezes fazer o que é melhor para os filhos pode ser muito difícil. Observar a luta - emocional, financeira ou o que seja de minha filha está me causando um aperto no coração. Eu realmente gostaria de abrigá-la, levá-la para casa e colocá-la, com seus ursinhos, na cama.

Susan era e é uma linda menina. Embora ela seja hoje uma mulher de vinte e oito anos, às vezes é difícil para mim pensar na minha filhinha desse modo.

Terminamos de lavar os ursinhos e agora ela está voltando para a sua casa. Seus ursinhos estão todos lá, limpos, arrumados E cheirosos. Eu sei que ela vai abraçá-los, encostando-os contra o rosto por um longo tempo, durante os muitos dias e as muitas noites que virão, e que isto vai ajudá-la a sentir-se melhor. Eles absorverão suas lágrimas e a abraçarão também, sempre que ela precisar. E retribuirão o sorriso que ela finalmente vai dar.

Cuide da minha menininha, Ursinho. Ame-a com toda a sua força. Este grande e vasto mundo pode ser um lugar bem assustador. Segure sua mão, abrace-a forte e lembre-a do quanto seu pai, eu e suas irmãs a amamos. Ajude-a a encontrar esse lugar que existe em cada um de nós, esse lugar cheio de paz e de aconchego que nos faz compreender que tudo vai dar certo, que amanhã é um novo dia e que todas as respostas que nós procuramos estão dentro de nós mesmos. Lembre-a sempre de que o tempo cura tudo e que depois da dor vem um enorme crescimento pessoal. E que não há nenhum bicho-papão embaixo da cama.

Sonhe com os anjos, minha filha adorada. Que a glória do seu sol da manhã e que a luz de sua lua magnífica seque todas as suas lágrimas e curem seu coração e seu espírito. E que cada novo amanhã possa trazer-lhe uma alegria profunda e duradoura, minha amada criança, e a paz dos ursinhos de pelúcia.

 

 

Se os canyons fossem abrigados das ventanias,

nunca se veria a beleza de suas escarpas.

ELIZABETH KÜBLER-ROSS

 


 

O TESOURO MAIS PRECIOSO

THE BEST OF BITS e PIECES

Histórias Para Aquecer o Coração 2 59

 

Uma mulher velha e sábia fazia uma viagem através das montanhas quando, no leito de um rio, encontrou uma pedra preciosa. No dia seguinte, continuando seu caminho, deparou-se com um viajante que tinha fome e, para atender a seu pedido de ajuda, a mulher abriu a bolsa para dividir com ele sua comida.

O homem deslumbrou-se com a visão da pedra e pediu à mulher que lhe desse de presente. Sem hesitar, ela lhe entregou a joia. O viajante se foi, rejubilando-se por sua sorte. O tesouro poderia garantir-lhe segurança para toda a vida.

Mas, alguns dias depois, ele voltou à procura da mulher. Ao encontrá-Ia, entregou-lhe a pedra, dizendo: "Pensei muito e sei bem o valor desta pedra, mas venho devolvê-la. O que quero é algo muito mais precioso. Se for possível, me dê o que está dentro de você e que a fez capaz de me entregar um tesouro como esse."

 


 

TREZENTOS E SESSENTA E CINCO DIAS

ROSEMARIE GIESSINGER

Histórias Para Aquecer o Coração 2 62

 

De acordo com meus amigos, sou uma pessoa segura e educada, razoavelmente inteligente, organizada e criativa. Mas, na maior parte da minha vida adulta, por quatorze dias em cada ano eu sentia como se não tivesse nenhuma dessas qualidades. E o pior é que isto acontecia quando meus pais - que moravam a dois mil e quinhentos quilômetros de distância durante trezentos e cinquenta e um dias no ano - vinham me visitar. Em todos os outros dias eu levava minha vida muito bem, como esposa, mãe, executiva e fazendo meu trabalho voluntário. Mas a visita deles era uma verdadeira tortura para mim.

Essa é uma história muito antiga. Como filha mais velha, tinham sido colocadas muitas expectativas de sucesso 'e responsabilidade sobre mim. E a minha sensação era que, por mais que eu fizesse, nunca correspondia a elas. O fato de ter ido morar longe, com um marido que me amava do jeito que eu era, trouxera uma grande libertação. Mas bastava que meus pais – meu pai sobretudo - se aproximassem para acordar a menininha intimidada que persistia em existir dentro de mim. Eu me sentia ressentida com eles por ainda terem o poder de me fazer sentir insegura e incompetente.

Não era apenas eu que sofria durante as visitas dos meus pais - todos à minha volta sofriam também. Com certeza meu querido marido - estamos casados há trinta anos - sofria comigo. Nas semanas anteriores à visita, eu limpava a casa, infernizava meu marido para consertar tudo o que estivesse quebrado, comprava novas cortinas, travesseiros e lençóis. Planejava refeições finas, enchia o congelador de comida e ficava atrás dos meus filhos para arrumarem os quartos, terem bons modos, falarem em voz baixa. Durante a visita havia sempre uma aura de tensão ao meu redor, como um véu diáfano (talvez fosse mais como um cobertor de lã molhado!). Depois da visita seguiam-se noites de discussões com meu marido. Eu ficava tentando decifrar o que meu pai dissera ou não dissera.

E chorava muitas vezes, sentindo-me uma criança rejeitada e exausta. Em trinta anos de casamento houve vários altos e baixos, mas a prova real do amor de Dave era me ajudar a sobreviver a essas visitas!

Um dia, uma amiga me convidou para participar de um grupo de espiritualidade e um mundo novo se abriu para mim. Passei a ler sobre o assunto e a meditar diariamente, e fui adquirindo uma paz interior que nunca conhecera. O tema que mais me atraía era o do perdão. Perdoar, desapegar-se dos ressentimentos, compreender que aqueles que nos fizeram sofrer na maioria das vezes não tinham consciência disso e reproduziam apenas algo de que tinham sido vítimas.

Então papai foi acometido do mal de Parkinson. Em pouco tempo, o homem cheio de vida, inteligente, o deus atlético da minha infância se transformou num velhinho cambaleante, desolado e confuso. Talvez essa sua vulnerabilidade tenha evidenciado os aspectos frágeis de sua personalidade. O fato é que tornou-se muito mais fácil para mim perdoá-lo.

E assim eu fiz. Apenas disse várias vezes em voz alta: "Eu perdôo você, papai." A mágoa foi se dissolvendo e deixando fluir o amor que eu sentia por ele. Consegui ir me livrando das imposições e exigências que já não vinham de meus pais, mas de mim mesma. Tomei posse do meu ser, do meu próprio desejo, dos meus sentimentos, e tudo isso me trouxe muita paz. Jamais disse explicitamente a meu pai que o havia perdoado, mas isso deve ter ficado claro para ele em algum nível, porque toda a nossa relação se transformou.

No verão anterior à sua morte, papai veio sozinho ficar conosco por duas semanas. Eu o recebi com tranquilidade, sem os preparativos e a tensão das outras vezes. Senti-o como um amigo com quem foi bom conversar de coração aberto, falando de mim e ouvindo-o contar sua vida.

Pela primeira vez em nossas vidas tivemos gestos de carinho um com o outro e ele disse como se sentia à vontade em nossa casa, como era bonito o meu jardim florido. Na hora de se despedir, meu pai me abraçou forte, beijou a minha testa e disse algo que nunca dissera antes: "Minha filha, eu te amo muito." Meu pai nunca mais voltou à minha casa. Depois que ele morreu, minha mãe mandou fazer um vídeo, com fundo musical e tudo, com as passagens mais gloriosas de sua vida. Levanto os olhos do que estou escrevendo e vejo a fita cassete na prateleira de livros. Jamais assisti ao vídeo. O essencial de minha vida com meu pai se concentrou naquelas duas semanas. As lembranças que quero guardar são de papai na varanda, na cadeira de vime, banhado pelos raios de sol, regando as plantas, brincando, conversando, partilhando a vida conosco e me amando.

O perdão total e incondicional trouxe conforto para minha alma e me abriu as portas para uma vida que eu não imaginava possível.

Agora, além de ser esposa, mãe, avó e conselheira espiritual, sou uma pessoa inteira trezentos e sessenta e cinco dias no ano.


 

MOÇA, A SENHORA É RICA?

MARION DOOLAN

Histórias Para Aquecer o Coração 2 66

 

Era inverno e elas entraram às pressas pela porta dos fundos - duas crianças em casacos surrados e pequenos para o seu tamanho.

''A senhora tem aí uns jornais velhos?" Eu estava ocupada. Queria dizer não, mas olhei para os seus pés e vi que usavam sandálias abertas, cheias de gelo. "Entrem, que eu faço uma xícara de chocolate para vocês." Suas sandálias encharcadas deixaram marcas na pedra da lareira, mas eu não consegui reclamar.

Servi o chocolate quente acompanhado de torradas com geleia e voltei para a cozinha, onde retomei meu trabalho.

Estranhando o silêncio na sala da frente, fui até lá ver o que estava acontecendo.

A menina segurava a xícara vazia e a olhava atentamente. O menino me perguntou numa voz sem emoção: "Moça, a senhora é rica?"

"Rica? Eu? Misericórdia!" Olhei para meus estofados gastos. A menina pôs a xícara sobre o pires, cuidadosamente. "Suas xícaras combinam com os pires." Sua voz era a de uma pessoa mais velha, com uma fome que não vinha do estômago.

Eles saíram, segurando os maços de jornal, lutando contra o vento. Nem agradeceram, mas não era necessário. Tinham feito muito mais do que isso. Xícaras e pires tão simples, de louça azul. Mas combinavam. Virei o assado e coloquei as batatas no molho. Batatas com molho ferrugem, um teto sobre a cabeça, meu marido com um emprego estável - essas coisas também combinavam.

Tirei as cadeiras de perto da lareira e limpei a sala. As pegadas cheias de lama ainda estavam por ali e eu as deixei ficar.

Quero que permaneçam no mesmo lugar, caso eu me esqueça novamente de como sou rica.

 


 

FIOS QUE SE ENTRELAÇAM

ANN SEELY sob a supervisão de Laura J. Teamer

Histórias Para Aquecer o Coração 2 68

 

A linda colcha de retalhos era mesmo muito antiga, com muitas das tramas de seda quase desfeitas, mas ainda muito bonita. O tecido estava surrado e desbotado, mas ela havia sido tratada com carinho por muitos anos.

A professora que ensinava a fazer as colchas de retalhos um dia levantou a peça para mostrá-Ia às alunas, explicando: "Este é um tipo de desenho muito usado para colchas no século dezenove.

Esta aqui foi tecida por alguém que dispunha de vários tipos de tecidos, pois apresenta muita variedade. Depois de comprá-Ia, percebi que era originalmente maior. Alguém a dividiu ao meio." Todas as alunas lamentaram. Quem poderia ter cortado uma colcha tão bonita?

 

Uma carroça rumava para o Oeste. O ano era 1852...

 

Enquanto se enrolava com a irmã na colcha para dormir, Katherine pensava nos acontecimentos dos últimos três anos.

Aquele era um dia especial, pois Katherine e Lucy comemoravam seus aniversários. Katherine fazia treze anos; Lucy, apenas três. Katherine ficara muito feliz em, finalmente, ganhar uma irmãzinha! Lucy chegara como um presente, bem no dia do seu aniversário. A vida parecia correr na maior harmonia. Mas aconteceu uma tragédia quando Lucy tinha só um ano e meio. Sua mãe morreu e o pai decidiu que deviam se mudar para o Oeste.

Tudo o que possuíam foi vendido, doado ou colocado na carroça, e eles partiram em uma caravana. Naquele dia de aniversário, as duas irmãs se aconchegavam debaixo da colcha, que era tudo o que tinham para se lembrar da mãe e da casa que deixaram.

"Conte uma história", Lucy pediu. "Conte uma história dos quadrados da colcha."

Katherine sorriu. Toda noite a cena se repetia. Lucy adorava ouvir histórias sobre a colcha e Katherine adorava contá-Ias.

"De qual dos quadrados?", perguntou. Lucy passou a mão sobre a colcha até chegar a um quadrado azul-claro, decorado com flores. "Este aqui, Katy." A história daquele quadrado azul era sua favorita.

"Bem, este retalho vem de um vestido de festa de uma moça com um lindo cabelo ruivo. Seu nome era Nell e todos a consideravam a moça mais bonita da cidade..." Lucy logo adormecia, mas Katherine continuava a olhar a colcha. Cada quadrado trazia à sua lembrança histórias ligadas à casa, aos amigos, à família e aos tempos mais felizes. Sua mãe fora modista e sempre tinha retalhos em casa. Assim, quase todos os quadrados eram diferentes. Tecidos finos, sedas e brocados de vestidos de festa das moças da cidade se alternavam com retalhos de vestidos da própria Katherine. Um outro viera da camisola de batizado de Lucy. Aqui, um pedaço de um vestido de noiva, ali um pedaço do avental da avó. A colcha que lhes aquecia o corpo e o coração era agora o único bem que mantinha os vínculos com as alegrias do passado. Katherine adormecia agradecendo por aquela colcha, seu conforto e consolo. E as histórias da colcha se multiplicaram pelo caminho.

Estavam na estrada há umas três semanas quando Lucy caiu doente, com muita febre. Katherine fez o possível para ela se sentir melhor. Durante o dia, sentava-se com a pequena na carroça, no seu lento avançar. Acariciava seu cabelo, ajeitava seu travesseiro e escolhia canções de que gostavam. À noite, com Lucy em seu colo, contava histórias dos quadrados da colcha, até que ela adormecesse.

Um dia, no fim da tarde, durante uma parada, Katherine foi buscar um pouco de água fresca no pequeno rio próximo. Ao pegar o balde, foi tomada de um sentimento de paz e sentiu que Lucy logo estaria bem. Katherine caminhou devagar sobre a grama macia em direção à água, encheu o balde e se sentou.

Deitou-se sobre a grama, olhando o céu tão azul e se lembrou dessas palavras reconfortantes: "Este é o dia feito pelo Senhor.

Alegra-te e sê feliz."  Talvez tudo vai ficar bem, ela pensou.

Quando foi se aproximando da carroça, ela gelou de medo. Três homens estavam cavando a terra não muito longe. "Uma cova! Lucy!", ela gritou. "Lucy, Lucy, Lucy." Katherine deixou cair o balde e começou a correr. Lágrimas desciam pelo seu rosto. O coração parecia arrebentar seu peito.

Ao entrar na carroça, viu a colcha cuidadosamente dobrada no lugar onde Lucy se deitava.

Atordoada, saiu em busca de seu pai. Encontrou-o perto dos outros homens, com o corpo imóvel de Lucy no colo.

Olhou para Katherine, os olhos vermelhos e inchados e simplesmente disse: "Ela agora está em paz." A dor de Katherine era imensa. Uma das mulheres abraçou-a carinhosamente, dizendo: "Vamos precisar de alguma coisa para enrolá-Ia. Não precisa ser nada muito grande." Katherine assentiu com um gesto, enquanto entrava na carroça. Não se sabe bem como, conseguiu achar a tesoura.

Pegou a colcha com cuidado e, de coração partido, dividiu-a em dois pedaços.

 

 

O amor é o símbolo da eternidade;

ele nos faz perder qualquer noção de tempo.

ANNA LOUISE DE STAEL

 


 

O QUE SIGNIFICA SER ADOTADO

GEORGE DOLAN

Histórias Para Aquecer o Coração 2 72

 

Debbie Moon, professora do primeiro ano, estava com seus alunos vendo a fotografia de uma família. Na foto, um menininho tinha o cabelo de cor diferente da dos outros.

Uma das crianças achou que ele era diferente porque devia ter sido adotado, e uma menininha chamada Jocelyn disse: "Eu sei tudo sobre adoção porque eu sou adotada." "O que quer dizer ser adotado?", perguntou uma outra criança.

"Significa”, disse Jocelyn, "que você cresceu no coração de sua mãe em vez de crescer na barriga dela."

 


 

AS PALAVRAS CERTAS

JANE LINDSTROM

Histórias Para Aquecer o Coração 2 73

 

Um suéter cinza largado sobre a carteira vazia de Tommy lembrava o menino desanimado que acabara de sair da sala com seus colegas do terceiro ano. Logo os pais de Tommy, que haviam acabado de se separar, chegariam para uma reunião convocada por mim para falar sobre o mau desempenho escolar e o comportamento insubordinado de seu filho. Nenhum dos dois sabia que eu havia chamado o outro.

Tommy, filho único, sempre fora feliz, gostava de cooperar e era ótimo aluno. Como eu poderia mostrar a esse pai e a essa mãe que as recentes notas insuficientes representavam a reação de uma criança magoada com a separação dos pais e o divórcio que se aproximava?

A mãe de Tommy entrou e se sentou em uma das cadeiras que eu pusera perto de minha mesa. Logo o pai chegou. Ótimo!

A pontualidade dos dois evidenciava sua preocupação. Eles se olharam com surpresa e irritação e acintosamente se ignoraram.

Enquanto eu fazia um relato do comportamento e do rendimento escolar de Tommy, rezava para encontrar as palavras capazes de unir esses dois e ajudá-Ios a perceber o que estavam fazendo com o filho. Mas as palavras não vinham. Pensei então em mostrar-Ihes um dos trabalhos de Tommy, todo borrado, feito sem cuidado, achando que poderia dar-Ihes a dimensão da perturbação do menino.

Achei uma folha de papel amarrotada e manchada de lágrimas enfiada atrás de sua carteira, um dever de inglês. Ele escrevera dos dois lados da folha - não com a tarefa, mas com uma simples frase, escrita e reescrita.

Em silêncio, eu desamassei a folha e a entreguei à mãe de Tommy. Ela a leu e, sem dizer palavra, entregou-a ao marido.

Primeiro ele franziu as sobrancelhas, depois sua face se desanuviou. Ele ficou lendo as palavras por um tempo - tempo que pareceu uma eternidade.

Finalmente ele dobrou o papel cuidadosamente e o colocou no bolso, estendendo a mão para a mulher. Ela enxugou as lágrimas e sorriu para o marido. Eu tinha os olhos marejados, mas eles nem me notavam. Ele a ajudou a colocar o casaco e saíram juntos.

A sua maneira, Deus me fez encontrar as palavras certas para reunir essa família. Ele me guiou até a folha do dever de

Tommy, toda escrita com o angustiado desabafo do coração atribulado de um menino.

As palavras certas foram: "Querida Mamãe... Querido Papai... Eu amo vocês, eu amo vocês, eu amo vocês."

 


 

O CAVALEIRO COM COMPAIXÃO NOS OLHOS

AUTOR DESCONHECIDO

Do livro de Brian Cavanaugh, The Sower's Seeds (As sementes do semeador)

Histórias Para Aquecer o Coração 2 80

 

Era uma tarde de tempo feio e frio no norte da Virgínia, há muitos anos. A barba do velho estava coberta de gelo e ele esperava alguém para ajudá-lo a atravessar o rio. A espera parecia não ter fim. O vento cortante tornava seu corpo dormente e enrijecido.

Ele ouviu o ritmo fraco e ritmado dos cascos de cavalos a galope sobre o chão congelado. Ansioso, observou quando vários cavaleiros apareceram na curva. Ele deixou o primeiro passar, sem procurar chamar sua atenção. Então veio outro e mais outro. Finalmente, o último cavaleiro se aproximou do lugar onde o velho estava parado como uma estátua de gelo.

Depois de observá-Io rapidamente, o velho lhe acenou, perguntando: "O senhor poderia levar este velho para o outro lado?

Parece não haver uma trilha para eu seguir a pé." O cavaleiro parou o cavalo e respondeu: "É claro. Pode montar." Vendo que o velho não conseguia levantar o corpo semi-congelado do chão, ajudou-o a montar e não só atravessou o rio com o velho, mas o levou ao seu destino, algumas milhas adiante.

Quando se aproximavam da casa pequena, mas aconchegante, curioso, o cavaleiro perguntou: "Eu percebi que o senhor deixou vários outros cavaleiros passarem sem fazer qualquer gesto para pedir ajuda na travessia. Então eu apareci e o senhor imediatamente me pediu para levá-Io. Eu gostaria de saber por que, numa noite fria de inverno, o senhor pediu o favor ao último a passar. E se eu tivesse me recusado e o deixado na beira do rio?" O velho apeou do cavalo devagar. Olhou o cavaleiro bem nos olhos e respondeu: "Eu já vivi muito e acho que conheço as pessoas muito bem." Parou um instante e continuou: "Olhei nos olhos dos outros que passaram e vi que eles não se condoeram da minha situação. Seria inútil pedir-Ihes ajuda. Mas, quando olhei nos seus olhos, ficaram claras sua bondade e compaixão. A vida me ensinou a reconhecer os espíritos bondosos e dispostos a ajudar os outros na hora da necessidade." Essas palavras tocaram profundamente o coração do cavaleiro: "Fico agradecido pelo que o senhor falou", disse ao velho.

"Espero nunca ficar tão ocupado com meus próprios problemas que deixe de corresponder às necessidades dos outros com bondade e compaixão." Falando isso, Thomas Jefferson virou seu cavalo e voltou para a Casa Branca.

 


 

AS MULHERES QUE CRUZARAM MEU CAMINHO

REV. MELISSA M. BOWERS

Histórias Para Aquecer o Coração 2 83

 

Hoje, quando tomo consciência de quem eu sou, penso em todas as mulheres que, ao cruzarem meu caminho, ajudaram a construir meu ser. A elas quero prestar uma homenagem.

A mulher que me fez nascer e que ao me aconchegar e me amamentar transmitiu-me a segurança de que o mundo era bom e de que o amor constituía o valor mais fundamental. A essa mulher que acolheu minhas necessidades, que sempre me apoiou nas horas difíceis, embora muitas vezes, ao me estender a mão, me dissesse que eu era capaz de andar com minhas próprias pernas e que ela não iria me carregar no colo. Senti raiva, mas fui em frente e descobri em mim uma força insuspeitada. Sou extremamente grata por isso.

As mulheres que cruzaram o meu caminho e me respeitaram como ser humano, respeitaram minhas características únicas e me amaram como eu era, em vez de me dizer como eu devia ser para que me amassem.

Às mulheres que cruzaram o meu caminho e que com seu exemplo me mostraram que a vida dentro de nós tem uma imensa força de superação, que as piores tragédias serão superadas, que o riso renasce depois das lágrimas mais trágicas.

Às mulheres que cruzaram o meu caminho e me ensinaram que essa força, o amor capaz das maiores doações, a sabedoria, a coragem e a generosidade são manifestações de Deus em nós, e com isso me fizeram acreditar em Deus. Porque até então eu rejeitava o Deus que pune, que julga, que condena.

Às mulheres que cruzaram meu caminho e que me ensinaram que o que eu achava que fossem erro e fracasso são oportunidades preciosas de aprendizado, e por isso não me deixaram paralisada pela culpa, mas me ajudaram a crescer com os acontecimentos da vida.

Às mulheres que cruzaram o meu caminho e que me provaram o valor da verdade como um direito soberano do ser humano: a verdade do nosso desejo, da nossa opinião, da afirmação da nossa realidade pessoal, desde que estejamos abertos para ouvir e acolher a verdade dos outros e negociar com ela.

Às mulheres que por sua amargura, egoísmo e futilidade me mostraram claramente que eu não queria ser assim, e dessa forma me ajudaram a combater os meus aspectos amargos, egoístas e fúteis.

Às mulheres que cruzaram o meu caminho e me mostraram o que eu sou e o que eu não sou, que me apoiaram ternamente com amor, força e confiança, que me chamaram a atenção com carinho, cuja crítica foi uma manifestação do desejo do meu crescimento e da sua crença em mim.

A essas mulheres eu abençôo e agradeço do fundo do coração, porque fui fortalecida e libertada através de sua alegria e de seu sacrifício.

 


 

A FUGA

LOIS KRUEGER

Histórias Para Aquecer o Coração 2 89

 

Num desses dias agitados, em que temos mil coisas diferentes para fazer, Justin, nosso filho de quatro anos, não parava de fazer bagunça. Depois de várias tentativas para fazê-lo ficar quieto, - meu marido o mandou de castigo para o canto da sala.

Justin chorou, esperneou, emburrou e finalmente disse: "Vou fugir de casa." Minha primeira reação foi de surpresa e, irritada, falei: "Ah, vai?" Quando me virei e o olhei, ele parecia um anjo, tão pequeno, encolhido ali no canto, com um ar tão triste. Então, larguei tudo e parei.

Com o coração partido, me lembrei de uma passagem de minha própria infância, quando eu também quis fugir de casa porque me sentia tão rejeitada e incompreendida. Ao anunciar "vou fugir de casa”, Justin estava dizendo: "Por favor, prestem atenção em mim. Eu também sou importante. Por favor, façam com que eu me sinta desejado e amado incondicionalmente." "Tudo bem, Justin, você vai poder fugir de casa”, falei baixinho para ele, enquanto começava a pegar umas roupas no meu armário e colocar numa sacola.

"Mamãe", ele perguntou, "O que você está fazendo?" "Se você vai fugir de casa, então mamãe vai com você, porque não quero ver você sozinho nunca. Gosto muito de você, Justin.

Eu o abracei e ele perguntou: "Por que você quer ir comigo?" Olhei-o com carinho: "Porque eu gosto muito de você e vou ficar muito, muito triste se você for embora. E também quero tomar conta de você para que nada de mal te aconteça." "Papai também pode ir?"

"Não, papai tem que ficar com seus irmãos, e papai tem de trabalhar e tomar conta da casa quando nós não estivermos aqui."

"O meu hamster pode ir?" "Não, ele também tem que ficar aqui."

Justin parou um instante para pensar e disse: "Mamãe, podemos ficar em casa?" "Claro, Justin, podemos ficar em casa."

"Mamãe."

"O que é, Justin."

"Eu amo você."

"Eu amo você também, querido, muito, muito, muito. Que tal me ajudar a fazer pipoca?"

"Oba! Tudo bem."

Nesse instante me dei conta da maravilhosa dádiva que é ser mãe. De como somos fundamentais quando levamos a sério a responsabilidade sagrada de ajudar uma criança a desenvolver o sentido de segurança e o amor-próprio. Abraçando Justin, percebi que no; meus braços eu tinha o tesouro inestimável da infância, uma pessoinha que dependia do amor e segurança que recebesse, do atendimento de suas necessidades, do reconhecimento de suas características únicas para tornar-se um adulto feliz. Aprendi que, como mãe, jamais devo "fugir" da oportunidade de mostrar a meus filhos que eles são amados, desejados e importantes, o presente mais precioso que Deus me deu.


 

APRENDENDO A DIZER NÃO

BÁRBARA K. BASSETT

Histórias Para Aquecer o Coração 2 92

 

Quando Angela tinha apenas dois ou três anos, seus pais a ensinaram a nunca dizer NÃO. Ela devia concordar com tudo o que eles falassem, pois, do contrário, era uma palmada e cama. Assim, Angela tornou-se uma criança dócil, obediente, que nunca se zangava. Repartia suas coisas com os outros, era responsável, não brigava, obedecia a todas as regras, e para ela os pais estavam sempre certos.

A maioria dos professores valorizava muito essas qualidades, porém os mais sensíveis se perguntavam como Angela se sentia por dentro.

Angela cresceu cercada de amigos que gostavam dela por causa de sua meiguice e de sua extrema prestatividade: mesmo que tivesse algum problema, ela nunca se recusava a ajudar os outros.

Aos trinta e três anos, Angela estava casada com um advogado e vivia com sua família numa casa confortável. Tinha dois lindos filhos e, quando alguém lhe perguntava como se sentia, ela sempre respondia: está tudo bem.

Mas, numa noite de inverno, perto do Natal, Angela não conseguiu pegar no sono, a cabeça tomada por terríveis pensamentos. De repente, sem saber o motivo, ela se surpreendeu desejando com tal intensidade que sua vida acabasse, que chegou a pedir a Deus que a levasse.

Então ela ouviu, vinda do fundo do seu coração, uma voz serena que, baixinho, disse apenas uma palavra: NÃO.

Naquele momento, Angela soube exatamente o que devia fazer. E eis o que ela passou a dizer àqueles a quem mais amava:

 

Não, não quero

Não, não concordo

Não, faça você

Não, isso não serve pra mim

Não, eu quero outra coisa

Não, isso doeu muito

Não, estou cansada

Não, estou ocupada

Não, prefiro outra coisa.

 

Sua família sofreu um impacto, seus amigos reagiram com surpresa. Angela era outra pessoa, notava-se isso nos seus olhos, na sua postura, na forma serena mas afirmativa com que passou a expressar o seu desejo.

Levou tempo para que Angela incorporasse o direito de dizer NÃO à sua vida. Mas a mudança que se operou nela contagiou sua família e seus amigos. O marido, a princípio chocado, foi descobrindo na sua mulher uma pessoa interessante, original, e não uma mera extensão dele mesmo. Os filhos passaram a aprender com a mãe o direito ao próprio desejo. E os amigos que de fato amavam Angela, embora muitas vezes desconcertados, se alegraram com a transformação.

À medida que Angela foi se tornando mais capaz de dizer NÃO, as mudanças se ampliaram. Agora ela tem muito mais consciência de si mesma, dos seus sentimentos, talentos, necessidades e objetivos. Trabalha, administra seu próprio dinheiro, e nas eleições escolhe seus candidatos.

Muitas vezes ela fala com seus filhos: "Cada pessoa é diferente das outras e é bom a gente descobrir como cada um é.

O importante é dizer o que você quer e ouvir o desejo do outro, dizer a sua opinião e ouvir o que o outro acha. Só assim podemos aprender e crescer. Só assim podemos ser felizes."

 


 

A BELEZA VERDADEIRA

ALISON LAMBERT com JENNIFER ROSENFELD

Histórias Para Aquecer o Coração 2 95

 

Quando você tem quinze anos, costuma ficar em frente ao espelho pesquisando cada pedacinho do seu rosto. Entra em desespero porque acha que seu nariz é muito grande ou porque mais uma espinha está surgindo. Além de tudo, você se acha feia porque seu cabelo não é louro e o menino mais bonito da turma nunca notou sua existência.

Alison não conheceu esses problemas. Era bonita, simpática, popular e inteligente, além de ser a campeã de natação da escola. Alta, com seu corpo esbelto, olhos de um profundo azul-piscina e lindos cabelos louros, mais parecia uma modelo do que uma estudante comum. Mas, durante o verão, alguma coisa mudou.

Um dia, ao enxugar o cabelo, ela notou uma falha no couro cabeludo. Aquilo a intrigou, mas Alison achou que devia ter apertado muito o elástico no rabo-de-cavalo. Logo se esqueceu do incidente.

Três meses depois, uma outra falha no couro cabeludo de Alison. E outra. E mais uma. Em pouco tempo, sua cabeça estava repleta de falhas de cabelo. Os diagnósticos e os tratamentos se multiplicaram até se descobrir que Alison sofria de uma doença chamada alopecia e nada poderia deter seu curso.

Como Alison era muito querida, os amigos a apoiaram procurando lhe dar força. Mas, certo dia, sua irmã menor entrou no quarto com uma toalha na cabeça para que a mãe a penteasse. Quando a mãe desenrolou a toalha, Alison observou os cabelos espessos e luminosos da irmã caírem sobre os ombros e, pela primeira vez, chorou, dando vazão à tristeza que sentia.

Naquele momento, Alison teve uma percepção profunda: havia uma escolha a fazer. Ela não podia deixar que o problema com o cabelo a dominasse a ponto de tirar-lhe o gosto de viver. Afinal, ela era muito mais do que o seu cabelo. Alison decidiu assumir sua condição e procurar soluções. Começou comprando não apenas uma, mas várias perucas de cores e tamanhos diferentes, que usava de acordo com a ocasião e com seu estado de espírito. Num dia em que a peruca voou de sua cabeça pela janela aberta do carro de um amigo, ela conseguiu rir da situação.

Quando a escola abriu as inscrições para o campeonato de natação, Alison se preocupou. Se não podia usar peruca na água, como competir? "Por que isso?", perguntou seu pai. "Por acaso você se esqueceu como se nada?" Ela entendeu a mensagem. Depois de passar apenas um dia com uma touca desconfortável, Alison se encheu de coragem e deixou a careca à mostra. Houve alguns olhares e comentários maldosos, mas a maioria das pessoas admirou o gesto de Alison, e rapidamente ela se acostumou com sua nova aparência. Voltou para a escola no outono - sem cabelo, sem sobrancelhas, sem cílios e deixando a peruca esquecida no fundo do armário.

Como sempre planejara, ela se candidatou a representante da escola e acrescentou ao seu discurso de campanha slides de líderes carecas, como Gandhi. Todos os alunos riram muito da ideia. No primeiro discurso após a vitória, Alison dirigiu-se à audiência contando seus planos como representante e respondendo a perguntas. Ao final acrescentou:

"Gostaria de compartilhar uma experiência muito particular. Todos presenciaram o problema que tive que enfrentar e agradeço do fundo do coração o apoio e a força que me deram. Eles foram fundamentais para que essa experiência promovesse uma descoberta da maior importância na minha vida: de que a beleza se encontra numa dimensão muito mais profunda do que o nosso aspecto exterior. Não vou negar que sinto falta do meu cabelo e que às vezes sofro com a sua perda. Mas quero lhes afirmar com toda a sinceridade: sou grata por ter descoberto que o amor é o valor essencial e que depende exclusivamente de mim desenvolvê-lo. Obrigada, meus amigos." Todo mundo vibrou e aplaudiu.

E Alison, linda, popular e inteligente, ainda por cima campeã de natação e agora representante da escola, com seus olhos azul-piscina, do alto da tribuna, sorriu e agradeceu.

 


 

IGUALZINHA A VOCE

CAROL PRICE

Histórias Para Aquecer o Coração 2 102

 

Quando eu estava no segundo grau, duas coisas muito importantes aconteceram na minha vida. A primeira foi que me apaixonei por um rapaz de nome Charlie. Ele era do último ano, jogava futebol no time da escola e eu o achava o máximo!

Eu sabia que era com ele que eu queria me casar e ter filhos. Mas havia um problema muito sério: ele sequer sabia da minha existência. Nem que eu tinha planos para nós dois...

A segunda coisa importante foi que eu decidi não me submeter mais a qualquer cirurgia nas mãos. Eu nasci com seis dedos em cada mão e sem nenhuma articulação. A primeira cirurgia foi feita quando eu tinha seis meses de idade e, aos dezesseis anos, somavam-se vinte e sete operações. Os dedos extras foram removidos, alguns foram encurtados e se criaram articulações. Eu fora uma espécie de exemplar raro, exibido, às vezes, ante mais de quinhentos cirurgiões de mão.

Minhas mãos ainda não eram "normais", mas eu chegara ao meu limite. Aos dezesseis anos senti-me no direito de dizer: "Me deixem em paz!" Minha família apoiou minha decisão, dizendo-me que, se eu quisesse, poderia fazer outras operações mais tarde. Mas eu pensei: "Chega, não preciso de mais sofrimento. Minhas mãos vão ficar do jeito que estão." E assim foi.

Eu tinha um amigo de infância chamado Don. Tínhamos estudado junto desde o primeiro ano e éramos bem próximos.

Uma tarde, estávamos em minha casa conversando sobre o baile da escola, que se aproximava. Tínhamos planejado passar a noite toda fora, embora sem saber bem o que íamos fazer todo esse tempo na rua. Mas a idéia parecia ótima.

Inesperadamente, Don me olhou e disse: "Você gosta mesmo um bocado do Charlie, não gosta?" "Gosto. Muito", eu respondi. "Olhe, Carol, tenho que lhe dizer uma coisa.

Charlie nunca vai ficar com você", Don continuou. "Por que não?", perguntei, ao mesmo tempo que pensava: Já sei, vou pintar o cabelo de louro, eu sei que isso vai funcionar. Não, não, já sei, vou me tornar líder de torcida. Todo o mundo adora líderes de torcida.

Mas Don me disse: "Carol, você não está entendendo.

Charlie nunca vai querer você porque você é deformada." Eu ouvi mesmo isso. Acreditei nisso. Vivi essa situação. Suas palavras foram um rude golpe.

Eu me tornei professora primária porque pensei que pudesse ser uma boa profissão para quem tem uma deformidade.

No meu primeiro ano como professora, eu tinha como aluna uma menininha chamada Felícia. Era a criança mais deslumbrante que eu jamais conhecera. Uma tarde, estávamos todos treinando a letra A. Para um aluno do primeiro ano, isso significa um lápis grosso e vermelho, papel pautado verde e um esforço concentrado para "fazer uma bolinha e depois puxar uma perninha”.

Todos estavam quietinhos e trabalhando. Prestei atenção em Felícia, como sempre fazia, e vi que ela estava escrevendo com os dedos cruzados uns sobre os outros. Na ponta dos pés, me aproximei, me inclinei e falei baixinho: "Felícia, por que você está escrevendo com os dedos cruzados?" A menininha olhou para mim com seus olhos grandes e bonitos e disse: "Porque quero ser igualzinha a você, senhorita Price."

Felícia nunca viu uma deformidade em mim, apenas uma característica especial que queria ter também. Todos nós vemos alguma coisa que não seja muito boa em nós como uma deformidade. Podemos nos considerar deformados ou portadores de uma característica especial. E essa escolha vai determinar como será a nossa vida.

 


 

EU CONVERSO COMIGO MESMA

PHIL COLBURN

Histórias Para Aquecer o Coração 2 109

 

Tenho conversado muito comigo ultimamente sobre as coisas que faço.

Volta e meia preciso seriamente de uma conversa.

 

"Endireite sua coluna”, digo a mim mesma ao chegar à beira da escada.

Jogo os ombros para trás e começo a jornada.

Só espero não cair.

 

Quando eu acordo e a dor está pior, eu falo:

"Lembre-se de que no mundo sempre existe uma dor maior.

E essa aqui vai passar."

 

É realmente um problema não ouvir o que estão falando,

Eu me preocupo pensando

Se não respondi alguma bobagem.

 

Mas aí eu digo para mim mesma:

Que resposta boba não é nenhuma novidade.

Quantas vezes, enquanto ainda escutava bem,

Eu não disse bobagem também?

 

Sei que hoje preciso de óculos para leitura

 

E por ISSO converso comigo:

''Agradeça por poder ler.

Muitos não podem nem ver."

 

Eu me mando levantar e andar, embora preferisse apenas sentar e ler.

Mas, se quero um corpo ágil,

Devo obedecer.

 

Posso andar, ver e ouvir.

Não tão bem, mas ainda consigo.

Acho que me fazem bem

As conversas que tenho comigo.

 

 

Nota do editor: Phil Coburn é uma viúva de noventa e nove anos. Escreve poesia para manter viva a mente e todo mês tem um poema publicado pelo jornal da igreja que frequenta.


 

DEUS ESCOLHE AS MÃES

ERMA BOMBECK

Histórias Para Aquecer o Coração 2 111

 

A maior parte das mulheres torna-se mãe por acidente, outras por escolha, algumas poucas por pressões sociais e um punhado por hábito.

Este ano, cerca de cem mil mulheres vão se tornar mães de bebês com algum tipo de deficiência. Você já pensou como as mães dessas crianças são escolhidas?

Tente imaginar Deus pairando sobre a Terra e selecionando as mães com grande cuidado e deliberação. Enquanto observa, Ele instrui seus anjos a tomarem notas em um livro gigantesco.

Beth Armstrong: filho, santo protetor, Mateus.

Marjorie Forest: filha, santa protetora, Cecília.

Carrie Rudledge: gêmeos, santo protetor... "Dê a ela São Geraldo. Ele está acostumado a ouvir impropérios." Finalmente, ele passa um nome a um anjo e sorri: "Dê a ela um filho cego."

O anjo fica curioso: "Por que ela, Senhor? Ela é tão feliz." "Exatamente por isso", responde Deus. "Como eu poderia dar uma criança com uma deficiência a uma mãe que não soubesse rir? Isto seria uma crueldade." "Mas ela tem paciência?", pergunta o anjo.

"Eu não quero que ela tenha paciência demais, porque é justamente a paciência que ela vai aprender a desenvolver.

Quando o choque e o ressentimento passarem, ela vai saber cuidar da situação." "Mas, Senhor, eu acho que ela nem acredita na Sua existência." Deus sorri. "Isso não importa. Eu posso dar um jeito nisso.

Esta mulher é perfeita. Ela tem a dose certa de egoísmo." O anjo se surpreende: "Egoísmo? Isso é uma virtude?" Deus confirma com um movimento de cabeça: "Se ela não conseguir se separar da criança de vez em quando, para tratar de si mesma, não vai sobreviver. Além disso, se por um excesso de dedicação ela superproteger o menino, criará um ser fragilizado.

 

Sim, aqui está uma mulher a quem eu abençoarei com um filho imperfeito. Ela vai levar tempo para descobrir as bênçãos que isso lhe trará. Mas, aos poucos, ela deixará de achar - como a maioria das pessoas - que os progressos e as conquistas são comuns e naturais e passará a valorizá-Ios como uma fonte de alegria. Ela irá vibrar com cada pequeno passo à frente. Quando o seu filho disser 'Mamãe' pela primeira vez, ela vai sentir que está assistindo a um milagre e ficará maravilhada! E já pensou a emoção quando ele reconhecer um objeto com o toque das mãos. Quando ela precisar descrever uma árvore florida ou o pôr-do-sol ao seu filho cego, ela os verá como poucas criaturas jamais viram as minhas criações. E os perfumes da natureza inebriarão seu olfato quando ela perceber a importância que têm para seu filho." "Vou permitir a ela ver claramente as coisas que eu vejo ignorância, crueldade, preconceito - e dar oportunidade para que as supere. Ela nunca ficará sozinha. Eu não só estarei a seu lado cada minuto de cada dia da sua vida, como me manifestarei em cada gesto de coragem e amor que esta mulher tiver." "E qual será o seu santo protetor?", pergunta o anjo, a caneta suspensa no ar.  Deus sorri "Um espelho bastará”.


 

ISSO VAI MUDAR TOTALMENTE A SUA VIDA

DALE HANSON sob a supervisão de Karen Wheeler

Histórias Para Aquecer o Coração 2 114

 

Estou almoçando com uma amiga quando ela casualmente conta que ela e o marido então pensando em "começar uma família.

"Estamos fazendo uma pesquisa”, diz, meio brincando.

"Você acha que devemos ter um bebê?" "Isso vai mudar totalmente a sua vida”, digo com cuidado, mantendo o tom neutro da voz.

"Eu sei", ela diz. "Nada mais de acordar tarde no sábado, nem de tirar férias quando quiser..." Mas não era bem isso o que eu queria dizer. Olhava para minha amiga, tentando decidir o que falar.

Queria lhe contar das coisas que não vai aprender num curso para grávidas. Quero que saiba que as dores do parto passam, mas tornar-se mãe vai deixar nela uma vulnerabilidade irreversível.

Penso em avisá-Ia de que jamais lerá novamente sobre uma tragédia no jornal sem se perguntar: "E se tivesse sido meu filho?"

Que todo acidente aéreo, todo incêndio vai assustá-Ia. Quando vir fotos de crianças famintas, ela se perguntará se pode haver dor maior do que ver um filho morrer.

Olho para ela: unhas e cabelo impecáveis, vestido elegante.

Por mais sofisticada que possa ser, tornando-se mãe estará reduzida ao estágio primitivo de uma ursa protegendo seu filhote. Um grito aflito de "Mamãe!" vai fazê-Ia derrubar o suflê ou seu cristal mais fino sem a menor hesitação.

Acho que deveria avisá-Ia de que, não importa quantos anos tiver investido em sua carreira, esta será afetada pela maternidade.

Mesmo que tenha uma babá super eficiente, na hora de uma reunião importante vai pensar no cheirinho gostoso do seu bebê ou na febre da véspera. Terá de usar toda a sua disciplina para não correr para casa só para ver se está tudo bem com a criança.

Quero que minha amiga saiba que suas grandes certezas vão ser abaladas. Que a vontade de um menino ir ao banheiro dos homens e não ao das mulheres na lanchonete vai tornar-se um grande dilema. Que exatamente lá, no meio do barulho das bandejas e da gritaria das crianças, libelos sobre independência e identidade sexual serão confrontados com a possibilidade de alguém molestar a criança no banheiro. Embora seja uma mulher determinada no escritório, vai sempre se questionar como mãe.

Olhando para minha amiga tão bonita, quero assegurar-lhe que sua vida, agora tão importante, terá menos valor para ela quando vier o bebê. Ela sacrificaria sua vida para poupar a do filho, mas ao mesmo tempo vai querer viver mais - não para realizar seus sonhos, mas para ver a criança realizar os dela.

A relação de minha amiga com seu marido vai mudar, mas não como ela pensa. Um dia ela irá descobrir que se pode amar ainda mais um homem ao vê-Io passar cuidadosamente talco no bebê ou ao observá-Io sentado no chão brincando com o filho. Penso que ela deveria saber que vai se apaixonar de novo pelo marido, mas por razões que agora consideraria muito pouco românticas.

Gostaria que pudesse perceber o elo que passará a ter com as mulheres que, através dos tempos, tentaram desesperadamente lutar contra as guerras e impedir que as pessoas dirijam depois de beber. Espero que ela entenda por que eu posso pensar racionalmente sobre muitos assuntos, mas me torno temporariamente louca quando discuto a ameaça de guerra nuclear para o futuro dos meus filhos.

Quero descrever à minha amiga o milagre que é uma criança dando seus primeiros passos, conseguindo expressar toscamente em palavras seus sentimentos, juntando as letras numa frase. A alegria que nos inunda ao ouvir uma gargalhadinha gostosa, ao ver o filho acertando a bola no gol, a filha mergulhando corajosamente do trampolim mais alto.

a olhar curioso da minha amiga me faz perceber que tenho lágrimas nos olhos. "Você nunca vai se arrepender", digo, finalmente. Estendo o braço por sobre a mesa, aperto sua mão e rezo em sua intenção e de todas as mulheres que, no meio do seu caminho, se depararam com o mais sublime dos chamados.

 

O DOM DA CONVERSA

LYNN ROGERS PETRAK

Histórias Para Aquecer o Coração 2 117

 

Embora me dissesse para não falar com estranhos, minha mãe sempre falava com todo mundo. Na fila do supermercado. Nas lojas. Numa rápida viagem de elevador, em aeroportos, jogos de futebol e na praia.

Ainda bem que eu só segui o seu conselho em relação a estranhos ameaçadores. Acho que eu sou uma pessoa melhor por causa disso.

a costume de minha mãe de começar a bater papo com qualquer pessoa que estivesse por perto hoje me faz sorrir, mas quando eu era adolescente muitas vezes quase me matou de vergonha.

"Lynn também está ganhando o seu primeiro sutiã hoje", ela confidenciou a uma mulher que também acompanhava a filha adolescente na seção de sutiãs na loja de departamentos da nossa cidade. Eu quis me esconder atrás de um roupão de banho atoalhado, mas apenas fiquei vermelha e resmunguei "Mamaaaaaãe...", dentes cerrados. Só me senti um pouco melhor quando a mãe da garota retrucou: "Estamos tentando achar um para Sarah, mas são todos muito grandes." Nem todo mundo respondia quando mamãe fazia uma observação e tentava iniciar uma conversa. Algumas pessoas lhe davam um meio sorriso e seguiam em frente. Outras simplesmente a ignoravam. Nessas ocasiões eu percebia que mamãe ficava um pouco magoada, mas ela dava de ombros e continuávamos nosso caminho.

Na maioria das vezes, entretanto, eu saía de perto um pouquinho e, quando voltava, lá estava ela de conversa-fiada.

Houve ocasiões em que me preocupei, achando tê-la perdido na multidão, mas então eu ouvia sua risada sonora e um comentário do tipo: "Sim, sim, eu também." Nesses papos espontâneos, minha mãe me ensinou como é importante ter tempo para se interessar pelos outros. Ela me ensinou que nós, mulheres, temos todas uma espécie de afinidade, mesmo que não sejamos nem um pouco parecidas. Na maioria das situações do dia-a-dia e dos sentimentos que eles provocam há como fios invisíveis que nos unem.

Uma das últimas lembranças que tenho de minha mãe é dela no hospital, a poucas horas de morrer do câncer que a fizera emagrecer trinta e oito quilos, sorrindo fracamente e conversando com a enfermeira sobre a melhor maneira de plantar roseiras. Fiquei olhando da porta, quieta, com vontade de chorar, mas com um grande sentimento de amor e carinho. Ela me ensinou a ver as outras pessoas com alegria e respeito. A tirá-Ias do anonimato. Nunca vou me esquecer disso, especialmente quando me viro para alguém e digo: "Você não acha ótimo quando...

 


 

O LADO BOM NA DESGRAÇA

De THE SOWER'S SEEDS (As sementes do semeador)

Histórias Para Aquecer o Coração 2 125

 

O laboratório de Thomas Edison foi totalmente destruído pelo fogo em dezembro de 1914. Apesar de os prejuízos ultrapassarem dois milhões de dólares, o prédio estava segurado em apenas 238 mil dólares, porque era de concreto, que se imaginava à prova de fogo. Muito do trabalho de Edison se foi com as chamas impressionantes daquela noite de dezembro.

No auge do fogo, o filho de Edison, Charles, um rapaz de vinte e quatro anos, procurava freneticamente pelo pai em meio à fumaça e aos destroços. Finalmente o achou, calmamente observando a cena, com ar de reflexão, seu cabelo branco ao vento.

"Meu coração doeu por ele", contou Charles. Era um homem de sessenta e sete anos que via tudo o que possuía se consumir nas chamas. Quando me avistou, meu pai gritou:

"Charles, onde está sua mãe? Chame-a depressa e traga-a aqui, porque ela nunca mais terá a oportunidade de ver algo assim." Na manhã seguinte, Edison, olhando para as ruínas, refletiu: "Há um lado bom na desgraça. Todos os nossos erros são queimados. Graças a Deus, podemos recomeçar do zero." Três semanas depois do incêndio, Edison inventou o fonógrafo.

 

 

Nota do tradutor: Thomas A. Edison - Físico americano (1847-1931), famoso pela invenção do telégrafo dúplex, do fonógrafo e da lâmpada incandescente.

 

 

Se sua casa pegar fogo, aproveite para se aquecer.

PROVÉRBIO ESPANHOL

 


 

COMO SER UMA PESSOA NOVA E DIFERENTE

PATRICIA LORENZ

Histórias Para Aquecer o Coração 2 127

 

Tudo indicava que o ano de 1993 não ia ser dos melhores da minha vida. Já fazia oito anos que eu criava meus filhos sozinha, três deles tinham ido para a universidade, minha filha era solteira, mas acabara de ter meu primeiro neto e eu estava prestes a romper um relacionamento de dois anos com um homem de quem eu gostava muito. Diante de tudo isso, eu passava um tempo enorme sentindo pena de mim mesma.

Naquele mês de abril, tinha de entrevistar e escrever sobre uma mulher que vivia em uma cidade pequena em Minnesota.

Portanto, no feriado de Páscoa, Andrew, meu filho de treze anos, e eu atravessamos dois estados de carro para ir ao encontro de Jan Turner.

Andrew cochilou durante quase toda a longa viagem, mas de vez em quando eu puxava conversa com ele.

"Ela tem uma deficiência física. Por algum motivo que desconheço, teve de amputar os dois braços e as duas pernas."

"Puxa! E como é que ela se vira?"

"Não tenho a menor idéia. Vamos saber quando chegarmos lá. Só sei que, há quatro anos, ela era exatamente como eu, trabalhava e cuidava sozinha dos dois filhos que adotou. Era professora de música em tempo integral em uma escola de primeiro grau e ensinava diversos tipos de instrumentos. Era também diretora musical de sua igreja. Sei também que ela nunca se casou”.

Andrew adormeceu novamente. Enquanto cruzava Minnesota de carro, pensava como aquela mulher pudera enfrentar a notícia arrasadora de que seus dois braços e suas duas pernas iam ser amputados. Como será que aprendeu a sobreviver? Será que tem alguém que a ajuda permanentemente em casa?

Quando cheguei na cidade de Willmar, telefonei para Jan do nosso hotel para dizer que iria buscá-la em casa com seus dois meninos, que poderiam ficar na piscina enquanto conversávamos.

- Não é preciso, Pat, eu posso dirigir, vou em meu próprio carro. Estaremos aí em dez minutos. Você gostaria de ir comer primeiro? Tem um bom restaurante bem ao lado do seu hotel.

- Claro, está ótimo assim - respondi, meio hesitante, imaginando como seria comer em um restaurante com uma mulher que não tinha braços nem pernas. E como é que ainda por cima ela vem dirigindo, meu Deus?

Dez minutos depois, Jan estacionou na frente do hotel. Saiu do carro e andou em minha direção da maneira mais natural possível, com pernas e braços que pareciam tão verdadeiros quanto os meus, e estendeu o braço direito com um gancho de metal brilhante na ponta para me cumprimentar.

- Olá, Pat, muito prazer. Este aqui deve ser o Andrew, não é?

Segurei o gancho, sacudi um pouco e sorri meio sem jeito.

- É, esse é o Andrew.

Olhei para o banco traseiro do carro dela e sorri para os dois garotos, que sorriram de volta. Cody, o mais novo, parecia entusiasmado com a perspectiva de ir nadar na piscina do hotel depois do almoço.

No restaurante, entramos na fila, pagamos, comemos e conversamos enquanto os três meninos tagarelavam. A única coisa que tive de fazer para Jan Turner durante toda a refeição foi desatarraxar a tampa da garrafa de ketchup.

Mais tarde, enquanto nossos filhos brincavam dentro da piscina, ela me falou sobre sua vida antes da doença.

- Éramos uma típica família em que a mãe ou o pai vivem sozinhos com os filhos. A vida era tão boa, que eu estava até pensando seriamente em adotar outra criança.

Eu me senti pequenininha ante a grandeza daquela mulher.

Ela continuou.

- Em um domingo de 1989, eu estava tocando em minha igreja quando de repente me senti fraca, tonta e enjoada. Saí quase me arrastando, chamei os meninos e fui levada para o hospital, onde cheguei em coma.

Jan tinha pneumonia pneumocócica, uma terrível infecção bacteriana. Um dos devastadores efeitos colaterais da doença é ativar o processo de coagulação, o que faz com que os vasos sangüíneos fiquem obstruídos. Por causa da súbita interrupção do fluxo de sangue nas mãos e nos pés, as quatro extremidades foram rapidamente tomadas pela gangrena. Duas semanas depois de ser internada, os braços de Jan tiveram de ser amputados na altura do meio do antebraço e as pernas no meio da canela.

Pouco antes da cirurgia, ela pensou, apavorada: Oh, Deus, não! Como vou viver sem braços e pernas, sem pés nem mãos? Como vai ser nunca mais andar? Nunca mais tocar violão, piano ou qualquer um dos instrumentos que ensino? Nunca mais poder abraçar meus filhos ou cuidar deles? Oh, meu Deus, não deixe que eu dependa dos outros para o resto da minha vida!

Seis semanas depois da amputação, enquanto o que restava de seus membros cicatrizava, o médico falou-lhe a respeito de próteses. Disse que ela poderia aprender a andar, dirigir um carro, voltar a trabalhar na escola e até mesmo voltar a ensinar.

Num terrível desamparo, Jan recorreu à sua Bíblia. Esta se abriu em Romanos, capítulo doze, versículo dois: "Não imite o comportamento e os costumes deste mundo, mas seja uma pessoa nova e diferente, com um novo frescor em tudo o que fizer e pensar. Então, aprenderá por experiência própria como os caminhos de Deus lhe serão realmente satisfatórios." Jan refletiu sobre aquilo - ser uma pessoa nova e diferente e decidiu tentar as pró teses. De início, com um andador amarrado em seus antebraços e um terapeuta de cada lado, só conseguiu cambalear em suas novas pernas durante dois ou três minutos, para em seguida cair exausta e cheia de dores.

Vá devagar, disse a si mesma. Seja uma nova pessoa em tudo o que faz e pensa, mas dê apenas um passo de cada vez.

No dia seguinte, tentou usar as próteses para os braços, um desagradável sistema de cabos, tiras de borracha e ganchos acionados a partir de um arreamento colocado nos ombros.

Movimentando os músculos do ombro, logo foi capaz de abrir e fechar os ganchos para pegar e segurar objetos, vestir-se e alimentar-se.

Dentro de poucos meses, Jan descobriu que podia fazer quase tudo o que costumava fazer antes - só que de maneira diferente.

- Mesmo assim, quando finalmente fui para casa, depois de quatro meses de terapia física e ocupacional, estava muito nervosa imaginando como seria minha vida ali sozinha com os meninos. Mas, quando cheguei, saí do carro, subi os degraus para entrar em nossa casa, abracei meus filhos com toda a força e desde então nunca mais olhamos para trás.

Enquanto Jan e eu falávamos, Cody, que saíra da piscina, ficou junto da mãe com o braço em seus ombros. E quando ela se referiu às suas novas habilidades culinárias, Cody abriu um sorriso.

- É mesmo - disse ele. - Ela agora está muito melhor do que antes de ficar doente, porque sabe até virar as panquecas no ar!

E Jan riu, o riso de uma mulher abençoada com uma profunda felicidade, uma grande satisfação e uma inabalável fé em Deus.

Desde a nossa visita, Jan completou um segundo curso universitário, desta vez em Comunicação, e hoje trabalha na estação de rádio de sua cidade como locutora. Também estudou teologia e foi ordenada ministra das crianças de sua igreja, a Igreja da Vida Triunfante, em Willmar. Em poucas palavras, Jan diz:

- Sou uma pessoa nova e diferente, triunfante por causa do amor e da sabedoria infinitos de Deus.

Depois de conhecer Jan, eu também me tornei uma pessoa nova e diferente. Aprendi a agradecer a Deus por tudo o que me faz nova e diferente, seja batalhando em mais um trabalho em tempo parcial para manter os estudos de meus filhos, seja aprendendo a ser avó pela primeira vez ou tendo a coragem de terminar um relacionamento com um amigo maravilhoso que simplesmente não era a pessoa certa para mim.

Pode ser que Jan não tenha braços, pernas, mãos ou pés de carne e osso, mas é uma mulher com mais coração e alma do que todas as que já encontrei até agora. Ensinou-me a abraçar todas as coisas "novas e diferentes" que aparecem em minha vida com toda a alegria de que for capaz, sabendo que elas me farão crescer. A viver minha vida com muita esperança.

 

 

Se eu tivesse a oportunidade de realizar o desejo de ter uma vida perfeita, a tentação seria grande, mas eu teria de recusar, porque a vida não me ensinaria mais coisa alguma.

ALLYSON JONES

 


 

O LADRÃO DE BISCOITO

VALERIE COX

Histórias Para Aquecer o Coração 2 133

 

Certa noite uma mulher estava no aeroporto, com um longo tempo de espera pela frente até a saída do seu voo. Comprou um livro, um pacote de biscoitos e sentou-se enquanto aguardava.

Embora absorta na leitura, percebeu que um homem ao seu lado tirava um biscoito do pacote colocado entre os dois. Para evitar uma cena, ela fingiu não estar vendo.

Ela lia, comia biscoitos e olhava o relógio. De vez em quando, o homem voltava a tirar um biscoito do pacote, o que a foi deixando extremamente irritada, com ímpetos de o agredir. Mas não fazia nada.

Ela pegava um biscoito, ele pegava outro. Quando só faltava um, ela ficou tensa, sem saber como agir. Com um riso simpático, ele pegou o último biscoito e o partiu ao meio.

Ofereceu a ela uma metade, comeu a outra.

Ela arrancou da mão dele a metade, pensando na grosseria do homem que sequer lhe agradecera. Sentiu-se extremamente ultrajada e respirou com alívio quando chamaram seu voo.

Juntou suas coisas e se dirigiu para o portão, sem sequer olhar para trás.

Entrou no avião, mergulhou na poltrona e abriu a maleta para pegar o casaco. O susto que levou a deixou sem fôlego: ali estava ele, inteirinho, o seu pacote de biscoitos!

"Se o meu está aqui, então foi do dele que eu comi, e ele nem se importou em dividir." Ela daria tudo para encontrá-Io de novo, pedir-lhe muitas desculpas e sobretudo agradecer-lhe a lição.

 


 

COMO DESCOBRI MINHA FILHA

MIKE COTTRIL conforme narrado a Bill Holton

Histórias Para Aquecer o Coração 2 135

 

Eu não queria acreditar em meus próprios olhos. Tem que haver alguma outra explicação para o que eu vi, fiquei repetindo para mim mesmo, tentando esconder minhas preocupações. Eu estava junto de minha esposa Diane, após o nascimento de nossa filha Sandra. Diane estava radiante, deitada na cama hospitalar, falando com seus pais ao telefone. Mas ela ainda não tinha visto nossa filha. Ela não percebera a expressão alarmada nos olhos da enfermeira, instantes antes de levar o bebê embora, rapidamente. Não tínhamos feito nenhum teste. Não recebêramos nenhum alerta.

Perdi toda a esperança quando o médico entrou e sentou-se.

Ele esperou pacientemente que Diane terminasse sua conversa e desligasse o telefone para dar a notícia devastadora: "Eu sinto muito. A filha de vocês tem síndrome de Down."

Diane reagiu bem à notícia. Durante nove meses ela criara um vínculo com o bebê. Mesmo antes de trazerem Sandra para que ela a segurasse, minha esposa já a amava de todo o coração.

Mas eu não. Tive que pedir licença e sair do quarto.

Andei pelos corredores durante horas, socando paredes e chorando muito. "Por que você fez isso com a minha filha?", gritei para um Deus a quem subitamente desprezei. "Por que ela? Por que eu?" Por que Sandra não podia ser perfeita - como o nosso filho de três anos, Aaron? Aaron era o meu xodó. Eu adorava passear com ele na chuva, mostrar-lhe as minhocas e caracóis, brincar com ele nas noites de sexta-feira, quando Diane trabalhava até tarde. Eu contava histórias para ele na hora de dormir.

Com Sandra, as coisas foram inteiramente diferentes.

Depois que a trouxemos para casa, corri para a biblioteca e li tudo o que encontrei sobre síndrome de Down. Procurei desesperadamente um fio de esperança, por mais tênue que fosse.

Mas quanto mais eu lia, mais desanimado ficava. Não havia nenhuma cura milagrosa para o que eu chamava de "a situação de Sandra”. Naquela época, eu sequer conseguia dizer as palavras "síndrome de Down".

Diane e eu começamos a frequentar um grupo de apoio, mas depois de algumas semanas não consegui mais ir. Ouvir os pais de crianças mais velhas que tinham a síndrome de Down descrevendo os muitos problemas de saúde que enfrentavam me deixava totalmente desesperado. É esse o nosso futuro?, eu não conseguia deixar de me perguntar.

E de fato, quando Sandra tinha seis meses de idade, ela precisou fazer uma cirurgia no coração. "Meu Deus, por favor, não tire Sandra de mim", rezava Diane, mas esta era uma reza da qual eu não conseguia participar.

Talvez seja para melhor, eu pensava secretamente, sem me permitir acrescentar - melhor para quem?

À medida que o tempo passava, eu levava Sandra zelosamente a médicos e terapeutas. Massageava suas pernas e tentava desenvolver seu tônus muscular. Tentava ensinar-lhe a andar e falar, e ficava mais frustrado e deprimido com a pobreza dos resultados.

Dediquei-me inteiramente a fazer Sandra melhorar. Eu estava determinado a "consertá-Ia”, mas isso era tudo o que eu podia - tentar fazer reparos. Eu não sentia amor por minha filha. Eu só a tirava do berço para trocar a fralda ou fazer uma de suas terapias.

"Está sendo difícil para você amar Sandra”, Diane me disse, um dia, suavemente. Tive que admitir que ela estava certa.

Eu estava envergonhado de meus sentimentos, e, que Deus me perdoe, eu estava envergonhado da minha menininha.

Ficava embaraçado de ser visto com ela. As pessoas diziam ''Ah, mas ela é tão bonitinha!", e eu tinha vontade de agarrá-Ias pelo colarinho e gritar: "Vocês estão mentindo!" A minha raiva transformou-se em tristeza e minha tristeza deu lugar à apatia e à distância. Mesmo os passeios e jogos com Aaron perderam a graça, porque me faziam pensar em todas as coisas que Sandra nunca poderia fazer.

Continuei a cuidar de Sandra, mas tornei-me cada vez mais desesperançado e distante. "Vai ser sempre assim", suspirei um dia, há cerca de um ano, enquanto colocava minha filha de dois anos em sua cadeirinha de comer para dar seu almoço. Coloquei sua comida em um prato me sentindo inteiramente vazio por dentro.

Mas, quando me aproximei da cadeirinha de Sandra, ela virou a cabeça e olhou para mim atentamente, com seus grandes olhos azuis. E então estendeu os dois bracinhos e me abraçou com toda a força, como se dissesse: "Papai, eu vou fazer a sua tristeza ir embora." Foi um verdadeiro milagre. Retribuí seu abraço e comecei a chorar, não mais de tristeza. Eu estava chorando porque a minha menininha tinha me mostrado o que era ser amado incondicionalmente. Por um breve instante tínhamos trocado de papel. Sandra havia me dado o amor que há tanto tempo eu não conseguia lhe dar.

",' Eu havia me lamentado porque minha filha não era perfeita, mas quem era eu para exigir perfeição, quando ainda tinha tanto a aprender? Quem era eu para chorar pelo que poderia ter sido, em vez de aceitar e valorizar minha filha do jeito que ela é e sempre será - um ser humano muito especial?

Sandra me ensinou a abrir meu coração e a amar espontaneamente, sem expectativas. Eu tinha gasto tanto tempo e energia procurando fazer com que Sandra atendesse às minhas expectativas, que me esquecera inteiramente de apenas curtir sua companhia e o que ela tinha a me oferecer. Eu não cometo mais esse erro.

Hoje em dia, eu leio para meus dois filhos na hora de dormir, e nas manhãs de sábado você nos encontra, os três, enroscados no sofá, assistindo a desenhos juntos. E sempre que estou fazendo Sandra rir das minhas caretas, ou jogando bola com ela, ou abraçando uma de suas bonecas, nunca deixo de pensar: agora que finalmente abri meu coração para Sandra, ela o enche todos os dias até a borda de alegria e amor.

 

A riqueza da experiência humana perderia uma certa alegria

recompensadora se não houvesse limites a superar.

HELEN KELLER

O QUE ESTÁ NO CORAÇÃO

AUTOR DESCONHECIDO

Histórias Para Aquecer o Coração 2 145

 

Uma menina de quatro anos estava no pediatra para uma consulta. Examinando seus ouvidos com um otoscópio, o médico perguntou: "Você acha que eu vou encontrar a Cinderela lá dentro?" A menina ficou em silêncio.

Em seguida, o médico pegou uma espatela para abaixar a língua e examinar a garganta da menina. Ele perguntou:

"Você acha que eu vou encontrar a Chapeuzinho Vermelho lá dentro?" Mais uma vez, a menina nada respondeu.

Então o médico encostou o estetoscópio no peito da menina. Enquanto ouvia os batimentos do coração, ele perguntou:

"'Você acha que vou ouvir a Branca de Neve lá dentro?"

"Ah não" a garota respondeu: Quem está no meu coração é Jesus. A Branca de Neve está nas minhas calcinhas."

 


 

POR FAVOR, ME PONHAM UMA ROUPA VERMELHA

CINDY DEE HOLNUS

Histórias Para Aquecer o Coração 2 151

 

Como professor e agente de saúde, trabalhei com numerosas crianças infectadas com o vírus da AIDS. As relações que desenvolvi com essas crianças foram bênçãos na minha vida. Deixe-me contar a história de Tyler.

Tyler nasceu infectado com o vírus da AIDS, transmitido por sua mãe, e desde o início de sua vida dependeu de remédios para sobreviver. Aos cinco anos, teve um cateter inserido por cirurgia numa veia de seu tórax para infundir a medicação na corrente sanguínea. O cateter se conectava a uma bomba infusora que Tyler carregava numa mochila às suas costas. Às vezes, ele também precisava de oxigênio para ajudar na respiração.

Tyler não estava disposto a abrir mão de um único minuto de sua infância por causa da doença mortal. Não era difícil encontrá10 brincando e correndo no pátio do edifício, com sua mochila nas costas e arrastando o tanque de oxigênio no carrinho.

Todos nós que o conhecíamos nos maravilhávamos com sua alegria e com a energia que essa alegria lhe dava. A mãe de Tyler adorava o menino, mas frequentemente reclamava da agitação do filho, dizendo que ele era tão insubordinado, que ela precisaria vesti-lo de vermelho para localizá-Io rapidamente entre as crianças que brincavam no pátio.

A doença terrível finalmente venceu o pequeno dínamo que era Tyler. Ele e a mãe ficaram mal e foram hospitalizados. Quando ficou claro que o fim dele se aproximava, sua mãe conversou com ele sobre a morte. Ela o confortou dizendo que em breve os dois estariam juntos no céu.

Poucos dias antes de morrer, Tyler me chamou para perto de sua cama e murmurou: "Vou morrer logo, mas não estou com medo. Quando eu morrer, por favor, me ponha uma roupa vermelha. Mamãe prometeu me encontrar no céu. Como eu sei que vou estar brincando quando ela chegar lá, quero ter certeza de que ela poderá me achar."

OS DEZ PONTOS DE TINA

TOM KRAUSE

Histórias Para Aquecer o Coração 2 153

 

Ela estava com dezessete anos e tinha sempre um sorriso alegre nos lábios. Isso não seria nada de extraordinário se Tina não sofresse de paralisia cerebral, o que tornava seus músculos rígidos e, de modo geral, ingovernáveis. Como tinha dificuldade para falar, ela usava aquele sorriso radiante para expressar a sua personalidade. Tina era uma ótima garota. Costumava usar um andador para se deslocar pelos corredores movimentados da escola. Os outros alunos não sabiam como se aproximar dela, talvez porque fosse diferente. Mas Tina parecia não se importar e costumava quebrar o gelo com as pessoas que encontrava, especialmente com os meninos, dizendo um grande "ai!".

o dever de casa que eu determinara consistia em decorar três estrofes do poema "Não Desista”. Decidi que a tarefa só valeria dez pontos porque imaginava que a maioria de meus alunos não conseguiria cumpri-Ia. Quando eu estava na escola e um professor estipulava um dever de casa valendo dez pontos, geralmente eu também não conseguia fazê-lo. Assim, não esperava grande coisa dos adolescentes naquela aula. Tina fazia parte da turma e percebi que havia em seu rosto uma expressão diferente da habitual. Ela parecia preocupada. Não se preocupe, Tina - pensei comigo mesmo -, são só dez pontos.

Quando chegou a hora de recitar o poema, fui seguindo a lista de chamada e tudo se deu de acordo com as minhas expectativas: um após outro, os alunos erravam ao recitar o poema. A desculpa era sempre: "Desculpe, professor, mas isto só vale dez pontos mesmo, não é?" Frustrado e meio de brincadeira, declarei que o próximo que não recitasse o poema perfeitamente teria de deitar no chão ali na minha frente e fazer dez flexões seguidas. Era um resquício de uma técnica de disciplina dos meus tempos de professor de educação física. Para minha surpresa, Tina era a próxima. Foi até a frente em seu andador e, esforçando-se para formar as palavras, começou a tentar recitar o poema. No fim da primeira estrofe, cometeu um erro. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, empurrou o andador para o lado, deitou-se no chão e começou a fazer as flexões. Fiquei horrorizado, querendo dizer a ela que estava apenas brincando.

Mas Tina se arrastou de volta para o andado r, ficou de pé diante da turma e continuou o poema. Foi uma das poucas pessoas da turma que declamaram as três estrofes sem um erro sequer.

Quando terminou, um dos colegas perguntou:

"Tina, por que você fez isso? A tarefa só valia dez pontos!"

Tina levou algum tempo para formar as palavras e responder:

"Porque eu quero ser igual a vocês todos: normal." O silêncio tomou conta da sala inteira, até que um outro aluno exclamou:

"Tina, nós não somos normais, somos adolescentes! Estamos sempre metidos em alguma encrenca, o tempo todo!" "Eu sei", disse Tina, e abriu um grande sorriso.

Tina ganhou seus dez pontos naquele dia. Também conquistou o amor e o respeito de seus colegas. Que, para ela, valiam muito mais do que dez pontos.


 

DIA DAS MÃES

SHARON NICOLA CRAMER

Histórias Para Aquecer o Coração 2 160

 

Levei muito tempo tentando engravidar. Um dia, quando eu estava na casa dos trinta, num domingo em que se comemorava o Dia das Mães, entrei numa igreja da minha cidade e comecei a chorar.

Mulheres de todas as formas e tamanhos - jovens e idosas estavam sendo homenageadas durante a missa. Cada uma recebia uma linda rosa e voltava ao seu lugar, enquanto eu continuava sentada, mãos vazias, privada da alegria da maternidade.

Mas tudo mudou num mês de fevereiro. Já perto dos quarenta anos, nasceu Gabriel. Foram vinte e quatro horas de trabalho de parto para dar à luz aquela trouxinha de alegria de pouco mais de dois quilos. Jordan nasceu no mês de março do ano seguinte. Era menorzinho e o trabalho de parto durou menos tempo. E, desde que eu passei a pertencer à irmandade das mães, tenho querido compartilhar o que descobri para de fato irmanarme com as outras mães.

Nunca imaginei, enquanto desejava tão desesperadamente engravidar, que essa irmandade exigisse uma preparação tão árdua. Alguns meses de muito enjoo, seguido por anseios incontroláveis por comidas estranhas, ganho de peso perturbador, dores na coluna, o aprimoramento da arte de arrumar travesseiros preenchendo espaços entre o volume da barriga e o resto da cama. Estrias na barriga, culminando tudo com as assustadoras dores do parto.

Com o nascimento da criança, passa-se do treinamento à iniciação, que está apenas começando. Noites sem dormir, cólicas do bebê, angústia com os choros inexplicáveis, inquietação com os resfriados, pânico com a ameaça de pneumonia, coração partido com a tristeza causada pela morte do bichinho de estimação.

Ajudei meus filhos a largar a chupeta e a mamadeira, a usar o troninho, levei-os à escola e segurei suas mãos na hora da vacina.

Ouvi-os falar da primeira namorada, da primeira decepção, e sofri na primeira vez em que se aventuraram ao volante de um carro. Fiquei acordada de noite, imaginando mil coisas, até ouvir o barulho da chave na fechadura da porta, e voltei à insegurança da adolescência na época do vestibular dos dois.

Mas no fundo do coração, entranhado em todo o meu ser, guardo imensos tesouros: o primeiro movimento dentro da barriga, o instante milagroso em que se materializou ante meus olhos aquela pessoinha gerada por mim, a boquinha sugando meu peito e o primeiro sorriso de reconhecimento. Essa experiência deslumbrante que é ver uma pessoa se revelando em suas características únicas, observar suas descobertas, sentir sua mãozinha procurando a proteção da minha, o corpinho se aconchegando debaixo dos cobertores. Assistir aos avanços, aos desafios superados, ouvir as confidências, sentir-se amiga confiante dos filhos.

Cada mãe que me lê pode continuar seu inventário dos tesouros que compensam infinitamente dores e aflições.

Agora que estou me preparando para ingressar no clube das avós, voltei à mesma igreja num Dia das Mães. Pensando na jovem que eu era e na aflição que vivia, fui inundada de gratidão por tudo o que recebi, pelo que aprendi com meus filhos, pelo crescimento que eles me proporcionaram, pelas alegrias profundas que me deram. E senti meus braços transbordando de rosas.


 

FÉ, ESPERANÇA E AMOR

PETER SPELKE com o auxílio de Dawn Spelke e Sam Dawson

Histórias Para Aquecer o Coração 2 163

 

Quando eu tinha quatorze anos, fui mandado para a Escola Cheshire, um colégio interno para meninos com problemas em casa. Meu problema era minha mãe alcóolatra, que tinha arrasado nossa família com seu comportamento. Depois que meus pais se divorciaram, eu tomei conta de minha mãe até ser reprovado na oitava série. Meu pai e um diretor da escola decidiram que um colégio interno de disciplina rígida e bem distante de minha mãe deveria me dar a oportunidade de terminar o segundo grau.

Na palestra de orientação do primeiro ano, o último a falar foi o chefe de disciplina, Fred O'Leary. Antigo jogador de futebol em Yale, era um homem corpulento, de bochechas vermelhas e um enorme pescoço. Sua presença deixava todos inquietos. Um aluno mais velho cochichou em meu ouvido: "Garoto, mantenha distância desse homem. É melhor ele nem saber que você existe!"

O discurso do senhor O'Leary foi curto e direto: "Não saiam do campus, não fumem e não bebam. Não façam contato com as garotas da cidade. Se vocês desobedecerem a essas regras, sofrerão as consequências e vão se ver pessoalmente comigo." Quando pensei que ele terminara, num tom muito mais baixo, o senhor O'Leary acrescentou: "Se tiverem algum problema, a porta do meu gabinete estará aberta para vocês." À medida que o ano escolar seguia, o problema de minha mãe piorava. Ela ligava para mim dia e noite. Com sua voz pastosa, pedia-me para deixar a escola e voltar para casa. Dizia que ia parar de beber, desfilava mil promessas. Eu a amava. Era difícil dizer não a ela, e o meu coração se apertava cada vez que ouvia sua voz. Eu me sentia culpado, tinha vergonha. E estava muito, muito confuso.

Uma tarde, durante a aula de inglês, eu não conseguia me concentrar, pensando em minha mãe Ao sentir que ia chorar, então pedi para sair da sala.

"Sair para quê?" "Para ver o senhor O 'Leary" , respondi. Meus colegas me olharam espantados e o professor perguntou se podia me ajudar.

"Não! Eu quero ir à sala do senhor O'Leary agora." Quando saí da sala, eu só conseguia pensar em suas palavras: "Minha porta está aberta." A sala do senhor O'Leary ficava no grande vestíbulo da entrada principal. Quando um aluno cometia uma falta mais séria, ele o colocava para dentro da sala, batia a porta e baixava a cortina interna. Com frequência ouviam-se seus gritos: "Você foi visto fumando atrás do quartel de bombeiros na cidade, você estava com a moça da lanchonete!" Pobre menino.

Quando entrei na fila do lado de fora de sua sala, os outros meninos me perguntaram o que eu tinha feito de errado.

"Nada', eu disse.

"Você está louco? Saia daqui agora mesmo!", eles gritaram, mas eu não podia pensar em outro lugar para ir.

Finalmente chegou minha vez. A porta da sala do senhor O'Leary se abriu e fiquei de olhos grudados nas bochechas do chefe de disciplina. Eu tremia e me sentia um bobo, mas tinha o palpite louco de que alguma coisa ou alguém tinha me levado a esse homem - o homem mais temido da escola. Nossos olhos se encontraram.

"Por que você está aqui?", ele vociferou.

"Na apresentação, o senhor disse que sua porta estaria aberta se alguém tivesse algum problema”, eu gaguejei.

"Entre", ele disse, apontando para uma grande poltrona verde e baixando a cortina da porta. Sentou-se e me olhou.

Comecei a falar, enquanto as lágrimas rolavam pelo meu rosto. "Minha mãe é alcoólatra. Ela fica bêbada e começa a me telefonar. Ela quer que eu deixe a escola e volte para casa. Não sei o que fazer. Estou assustado e com medo. Por favor, não pense que estou louco." Enterrei o rosto entre os joelhos e comecei a chorar convulsivamente.

Então aconteceu um milagre - um desses milagres que Deus faz acontecer através das pessoas. Senti a mão enorme do senhor O'Leary pousar delicadamente sobre o meu ombro.

Gentilmente, o temido gigante disse: "Filho, eu sei como você se sente. Vou contar uma coisa para te ajudar: eu também sou um alcoólatra. Vou fazer tudo o que puder por você e sua mãe. Vou pedir para meus amigos dos Alcoólicos Anônimos entrarem em contato com ela hoje mesmo." Naquele instante eu tive a sensação de que as coisas iam melhorar e perdi o medo. Era como se a mão pousada no meu ombro fosse um toque de Deus me transmitindo um intenso sentimento de proteção. Pela primeira vez na vida entendi o que significava fé, esperança e amor, porque estava cheio de fé, esperança e amor por todos ao meu redor.

O homem mais temido do campus se tornou um amigo secreto com quem eu tinha um compromisso: quando eu passava por sua mesa na hora do almoço, piscava para ele amigavelmente. Meu coração se enchia de orgulho porque aquele homem tão temido se interessara pelo meu problema de forma tão delicada e carinhosa.

Eu estendi a mão e, na hora em que precisei... Ele estava lá.


 

O QUE É O SUCESSO?

RALPH WALDO EMERSON

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 13

 

O que é o sucesso? Rir sempre e muito.

Ganhar o respeito de pessoas inteligentes e a afeição das crianças.

Ganhar a apreciação de críticos honestos e suportar a traição dos falsos amigos.

Apreciar a beleza.

Encontrar o melhor nos outros.

Deixar o mundo um pouco melhor, seja com uma criança saudável, um pequeno jardim ou uma condição social redimida.

Saber que pelo menos uma vida respirou com mais facilidade porque você viveu.

Isso é ter sucesso.


 

O AMOR NUNCA SE PERDE

DAVID J. MURCOTT

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 15

 

Dizem que é melhor amar e perder do que jamais ter amado.

Esse pensamento não seria um grande consolo para Mike Sanders. Ele acabava de ser dispensado pela namorada. É claro que não foi bem assim que ela colocou a situação. O que disse foi: "Eu gosto muito de você, Mike, e espero que ainda possamos ser amigos." "Que ótimo", pensou Mike. Amigos. Você, eu e seu novo namorado indo ao cinema juntos." Mike e Angie estavam juntos desde o primeiro ano do segundo grau. Mas ela tinha conhecido outra pessoa durante as férias. Agora, ao começar o último ano, Mike estava só. Durante três anos, compartilharam os mesmos amigos e lugares

favoritos. Só de pensar em voltar àqueles locais sem Angie ele se sentia vazio. Como se a luz do mundo tivesse se apagado.

Os treinos de futebol costumavam ajudá-lo a esquecer um pouco os problemas. Os treinadores têm uma maneira toda especial de fazer os jogadores correrem até ficarem tão cansados que não conseguem pensar em mais nada. Mas, ultimamente, o empenho de Mike não era o mesmo. Um dia, aquilo afetou o seu jogo. Deixou escapar alguns passes que não perderia em outras circunstâncias e, pela primeira vez, sofreu várias faltas.

Mike sabia muito bem o preço a ser pago por um jogador com quem o treinador berrava mais de uma vez, então se esforçou um pouco mais e chegou ao fim do treino. Quando deixava o campo correndo, lhe disseram que comparecesse ao escritório do treinador.

- Garota, família ou escola: qual dessas coisas está lhe incomodando, filho? - indagou o treinador.

- Garota - respondeu Mike. - Como adivinhou?

- Sanders, sou treinador de futebol desde antes de você nascer e todas as vezes que vejo um craque jogar como um novato do time reserva o motivo é um desses três.

Mike fez que sim com a cabeça.

- Eu sinto muito, senhor. Não vai acontecer outra vez.

O treinador deu-lhe um tapinha carinhoso no ombro.

- Esse é um ano especial, Mike. Você tem chance de receber uma bolsa para a faculdade que escolher. E lembre-se de se concentrar no que é realmente importante. O resto acaba entrando nos eixos por conta própria.

Mike sabia que o treinador tinha razão. Precisava se libertar de Angie e ir em frente coma sua vida. Mas ainda estava magoado, sentindo-se até mesmo traído.

- É que eu sinto tanta raiva, treinador. Confiei nela. Me abri com ela. Dei à ela tudo o que tinha para dar e o que foi que ganhei com isso?

O treinador tirou algumas folhas de papel de dentro da gaveta escrivaninha.

- Excelente pergunta a sua. O que foi que você ganhou com isso? - Entregou o papel e a caneta para Mike e disse: - Quero que pense sobre o tempo que passou ao lado dessa moça e liste o maior número de experiências, boas e ruins, que conseguir lembrar. Então vou querer que escreva o que cada um de vocês aprendeu com o outro. Voltarei daqui a uma hora. - E, com isso o treinador deixou Mike sozinho.

Mike encolheu-se na cadeira, enquanto lembranças de Angie inundavam a sua mente. Lembrou-se de quando juntou coragem para convidá-Ia para sair pela primeira vez e de sua alegria quando ela aceitou. Se não fosse pelo incentivo de Angie, Mike jamais teria tentado uma vaga no time de futebol.

Então pensou nas brigas que tiveram. Embora não conseguisse se lembrar de todos os motivos pelos quais brigavam, lembrava-se de como se sentia feliz quando conseguiam conversar e resolver os problemas. Tinha aprendido a se comunicar e a buscar acordos. Lembrou-se também de quando faziam as pazes. Era sempre a melhor parte.

Mike lembrou-se de todas as vezes que Angie fez com que ele se sentisse forte, necessário e especial. Encheu o papel com a história dos dois, das férias, das viagens feitas com a família do outro, bailes da escola e tranquilos piqueniques a dois. Linha por linha, descreveu a experiência que compartilharam e se deu conta do quanto ela o ajudara a crescer e a se conhecer melhor. Ele teria sido uma pessoa diferente sem ela.

Quando o treinador retomou, Mike se fora. Deixou um bilhete sobre a mesa que dizia apenas:

 

Treinador,

 

Obrigado pela lição. Acho que é verdade quando dizem que é melhor amar e perder do que jamais ter amado. A gente se vê no treino.

 

 

Se o seu amor não passa de um desejo de possuir, ele não é amor.

THICH NHAT HANH


 

A FOFOQUEIRA

AUTOR DESCONHECIDO Enviado por Helen Hazinski

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 19

 

Uma mulher espalhou uma fofoca sobre uma vizinha. Alguns dias depois, o bairro inteiro sabia da história. A moça que foi alvo da fofoca ficou muito magoada e ofendida. Mais tarde, a mulher que espalhou o boato descobriu que era tudo mentira.

Ficou muito arrependida e foi visitar um velho sábio para descobrir o que podia fazer para consertar o estrago. - Vá até a praça do mercado - disse ele -, compre uma galinha e mande matar. Depois, no caminho de casa, depene a galinha e solte as penas uma por uma pela rua. - Embora surpresa com o conselho, a mulher fez o que ele tinha mandado.

No dia seguinte, o sábio disse:

- Agora vá, recolha todas as penas que deixou cair ontem e traga para mim.

A mulher seguiu o mesmo caminho, mas, para seu desespero, o vento tinha dispersado todas as penas. Depois de procurar por horas, ela voltou com apenas três penas na mão.

- Está vendo - disse o velho sábio, é fácil soltá-Ias, mas é impossível recolhê-Ias. Com fofoca também é assim. Não custa muito espalhar um boato, mas, depois que se espalha, nunca se pode reverter o dano completamente.


 

TIGRESA

JUDITH S. JOHNESSEE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 21

 

Não tenho certeza de como Jesse chegou à minha clínica. Ele não parecia ter idade para dirigir, apesar do corpo desenvolvido e do andar firme. Seu rosto era franco e aberto.

Quando entrei na sala de espera, Jesse estava afagando carinhosamente a gata deitada em seu colo. Com um olhar confiante, ele me pediu que a curasse.

A gata era uma coisinha minúscula, de formas requintadas, cabeça delicada e linhas marcas no pêlo. Parecia ter por volta de quinze anos de idade. As manchas e listras no pêlo e seu rosto impetuoso e esperto deviam ter evocado a imagem de um tigre na mente de uma criança, e assim ela se tornara Tigresa.

A idade diminuíra o fogo verde brilhante dos seus olhos, que agora estavam opacos, mas ela ainda era elegante e altiva. Recebeu-me amistosamente, esfregando o focinho na minha, mão.

Comecei a fazer perguntas para descobrir o que levara aqueles dois a me procurar. Ao contrário da maioria dos adultos, o garoto respondia de forma simples e direta. Recentemente, Tigresa tinha começado a passar mal e a vomitar umas duas vezes por dia. Agora não estava comendo mais nada e vivia retraída e tristonha. Também tinha emagrecido meio quilo, o que era muito para quem pesava apenas três.

Acariciando Tigresa, fui dizendo a ela como era bonita, enquanto examinava seus olhos e sua boca, auscultava seu coração e apalpava seu estômago. Foi então que encontrei uma massa no meio do abdômen. Tigresa tentou se afastar educadamente. Ela não gostava que tocassem ali.

Olhei par! o adolescente de rosto confiante e tornei a olhar para a gata, sua companheira da vida toda. Eu ia ter que contar que Tigresa tinha um tumor e que, mesmo que ele fosse removido cirurgicamente, ela provavelmente sobreviveria menos de um ano.

Para durar esse tempo todo, a gatinha teria que fazer quimioterapia semanalmente. Tudo aquilo seria muito difícil e caro.

Assim, eu precisava dizer ao garoto que sua amada companheira provavelmente iria morrer. E ali estava Jesse, sozinho.

Ele estava prestes a aprender uma das lições mais duras da vida: a de que a morte é algo que acontece com todas as coisas vivas. Ela é parte da vida. A primeira experiência da morte pode ser formadora, e aparentemente eu seria a pessoa que o guiaria nessa primeira experiência. Eu não queria cometer nenhum erro. Tudo tinha que ser feito de forma perfeita, ou ele poderia acabar com traumas emocionais.

Teria sido fácil me esquivar dessa tarefa e chamar um dos pais. Mas quando olhei para o rosto do menino, não consegui fazer isso. Ele sabia que havia algo errado e eu não podia simplesmente ignorá-Io. Então, gentilmente, contei a Jesse, na condição de verdadeiro dono da Tigresa, o que eu havia encontrado e o que aquilo significava.

Enquanto eu falava, Jesse me deu as costas abruptamente, tentando esconder as lágrimas. Para deixá-Io mais à vontade, sentei-me ao lado de Tigresa e, enquanto acariciava o lindo rosto da velha gata, comecei a discutir as alternativas com ele: eu podia fazer uma biópsia do tumor, deixá-Ia morrer em casa ou dar-lhe uma injeção e colocá-Ia para dormir ali mesmo.

Jesse me ouviu com atenção e balançou a cabeça, mostrando que entendia. Esforçando-se para conter o choro, ele disse que percebia o mal-estar de Tigresa e que não queria que ela sofresse. Os dois cortaram meu coração. Ofereci-me para ligar para seus pais, explicando o que estava acontecendo.

Jesse me deu o telefone do pai. Repeti tudo, enquanto ele ouvia, acariciando sua gata. Depois deixei o pai falar com o filho. O garoto andava de um lado para o outro, gesticulando, e sua voz falhou algumas vezes, mas, quando ele desligou, virou-se para mim com os olhos secos e disse que eles tinham decidido colocá-Ia para dormir.

Sem discussões, sem negações, sem histeria, apenas a aceitação do inevitável. Mas eu podia ver como ele estava sofrendo.

Perguntei se ele queria levar Tigresa para casa para se despedir dela e trazê-Ia de volta no dia seguinte. Jesse disse que não. Mas queria ficar sozinho com a gata por alguns minutos.

Deixei-os a sós e fui buscar os barbitúricos que usaria para fazê-Ia mergulhar em um sono sem dor. Eu não conseguia controlar as lágrimas que escorriam pelo meu rosto, nem a tristeza que sentia crescer dentro de mim por causa de Jesse, que virara homem tão rapidamente e tão só.

Esperei do lado de fora da sala de consulta. Em poucos minutos, ele saiu e disse que estava pronto. Perguntei se ele queria ficar com ela. Jesse pareceu surpreso, mas expliquei que era mais fácil ver como tudo se passava tranquilamente do que ficar imaginando para sempre como tinha acontecido.

Percebendo a lógica daquele argumento, Jesse segurou a cabeça da companheira e a reconfortou enquanto eu administrava a injeção. EIa adormeceu aninhada na mão dele.

O animal parecia tranquilo e em paz. Agora era o dono que tinha que aguentar todo o sofrimento.

Este é o melhor presente que se pode dar a um ente querido. Assumir a sua dor para que ele possa descansar - eu disse.

Jesse balançou a cabeça, concordando. Ele compreendia.

Mas faltava alguma coisa. Apesar de eu ter pedido que ele virasse homem de um instante para o outro, e de Jesse ter feito isso com gentileza e força, ele ainda era um garoto.

Estendi os braços e perguntei se ele precisava de um abraço.

Ele precisava e, na verdade, eu também.

 

 

Seja gentil pois cada pessoa que você conhecer

pode estar enfrentando uma batalha mais árdua.

PLATÃO

 


 

QUEBRANDO AS REGRAS

CHRIS BLAKE - Enviado por Leon Bunker

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 27

 

Todo aluno científico Monroe conhecia as regras. E ninguém ousava quebrá-las. Ninguém. Na hora do almoço no científico Monroe era sempre igual. Assim que tocava o sinal do fim da última aula da manhã, os alunos corriam até seus escaninhos. Depois, os que não comiam no refeitório se dirigiam para a quadra com seus lanches dentro de saquinhos. A quadra era um grande quadrado de concreto sem árvores no meio do colégio. Era o lugar dos encontros e das refeições.

Os vários grupinhos do colégio se reuniam em torno da quadra. Os viciados se juntavam no lado sul. Os punks ficavam ao seu lado. No lado leste ficavam os negros. Ao seu lado, os CDFs. Os atletas ficavam no lado norte, ao lado dos surfistas. Os caipiras ficavam no lado oeste. As patricinhas e os mauricinhos ficavam no refeitório. Todos sabiam seus lugares.

Esse arranjo criava uma certa tensão. No entanto, mesmo toda a tensão gerada no perímetro da quadra na hora do almoço não era nada em comparação com o interior da quadra.

Lá dentro era a terra-de-ninguém. Ninguém do Monroe cruzava o meio da quadra. Para passar de um lado para o outro, os alunos davam a volta na quadra. Davam a volta nas pessoas. Davam a volta nos olhares. Todo mundo sabia, ninguém fazia.

Então, certo dia, no começo da primavera, chegou uma aluna nova no Monroe. Seu nome era Lisa. Ela não conhecia a área. Na verdade, era nova no estado. E, embora Lisa fosse bastante simpática, não atraiu amigos com rapidez. Era gorda demais e tímida, e o estilo de suas roupas era meio... cafona.

Ela se inscrevera no Monroe naquele dia. Durante a manhã inteira sofrera para encontrar suas salas e algumas vezes chegara tarde, o que era especialmente constrangedor. Os professores, em geral, tinham sido tolerantes. Alguns ficaram irritados, pois suas turmas já eram grandes demais e a chegada de um novo aluno exigia uma burocracia antes da aula.

Mas ela conseguira "sobreviver" até a hora do almoço. Ao ouvir o sinal, Lisa suspirou e juntou-se à multidão no corredor.

Caminhou até o escaninho e tentou seu segredo três, quatro, cinco vezes antes de ele abrir com um estrondo. Para não ter que voltar e pegar os livros no armário depois do almoço, resolveu levá-los com ela. Pensou em almoçar nos degraus na frente da sua próxima sala.

Lisa começou então a caminhada mais longa da sua vida: através do colégio em direção à sua próxima aula. Cruzou o corredor. Desceu as escadas. Cruzou o gramado. Cruzou a calçada. Cruzou a quadra.

Enquanto caminhava, Lisa tinha de equilibrar os pesados livros no braço e o saquinho com seu lanche no outro. Ela pegara livros demais, e o de cima da pilha não parava de escorregar. Então ela era obrigada a ficar prestando atenção nele como em um número de malabarismo. Foi passando pelas pessoas e avançando lentamente, sem ligar para o que estava em volta.

De repente, sentiu alguma coisa, um silêncio estranho. Um temor inominável apoderou-se dela. Lisa parou. Levantou a cabeça.

Centenas de olhos estavam pregados nela. Olhares cruéis, cheios de ódio. Olhares impiedosos. Olhares irados. Olhares sem sentimento, frios, que penetravam em seu corpo. Ela estacou, tonta, imobilizada. Sua mente gritava: "Não!

Isso não pode estar acontecendo!" Ninguém sabe dizer com certeza o que aconteceu em seguida. Alguns contam que Lisa deixou cair o livro, abaixou-se para pegá-Io e perdeu o equilíbrio. Outros dizem que ela tropeçou. Não importa como aconteceu.

Ela caiu no chão e ficou ali caída, com as pernas abertas, no meio da quadra.

Então os risos começaram como uma corrente elétrica percorrendo o perímetro, carregada de um clima de pesadelo, enrolando-se cada vez mais em torno de sua vítima. E ela ali caída.

De todos os lados, dedos apontavam para ela, e depois começaram os insultos, crescendo em um júbilo rouco, aumentando em uma insanidade implacável. E ela ali caída.

De um canto da quadra, uma figura surgiu lentamente. Era um garoto alto e tinha um andar rígido, como se medisse cada passo. Caminhou para onde os dedos apontavam. À medida que os alunos perceberam que havia outra pessoa no meio da quadra, os insultos diminuíram, depois pararam. Um silêncio espalhou-se pela multidão.

O garoto andou em meio ao silêncio. Caminhava com firmeza, com os olhos fixos na forma caída no concreto. Quando chegou perto da garota, o silêncio era sepulcral. O menino simplesmente se ajoelhou, pegou o saco de comida, os livros espalhados e depois pôs a mão debaixo do braço da garota e a olhou nos olhos. Ela se levantou. O garoto ajudou Lisa a se equilibrar, enquanto caminhavam pela quadra e cruzavam com as pessoas mudas que se afastavam para deixá-los passar.

No dia seguinte, na hora do almoço, uma coisa curiosa aconteceu no científico Monroe. Assim que o sinal que marcava o fim da última aula da manhã começou a tocar, os alunos correram até seus escaninos. Depois, os que não comiam no refeitório se dirigiram para o meio da quadra com seus lanches. De todos os lados do colégio, grupos diferentes de alunos caminhavam livremente pela quadra. Ninguém podia explicar realmente por que agora era permitido. Todos apenas sabiam. E, se você visitar o científico Monroe, é assim que é hoje.

Isso aconteceu há algum tempo. Eu nunca consegui descobrir o nome do garoto que ajudou Lisa. Mas ninguém aqui vai se esquecer do que ele fez. Ninguém.


 

A DECISÃO MAIS DIFÍCIL QUE TOMEI

KRISTINA DULCEY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 32

 

Erros, erros, erros. Todo mundo os comete. Ninguém viu o meu chegar.

No geral, eu era uma boa menina. Aos quinze anos, estava no segundo ano do segundo grau de uma escola católica e fazia parte de uma sociedade nacional de honras acadêmicas. Eu jogava sofiball e corria cross-country. Tinha, e ainda tenho, vontade de ser médica. Se aos quinze anos, alguém tivesse me falado que eu ia ficar grávida, teria dito que essa pessoa era louca.

Por que alguém faria uma tolice dessas? Ainda é difícil acreditar, mas aconteceu.

Onze de outubro de 1997 foi o dia em que minha filha nasceu. Olhei para ela e foi amor à primeira vista. Senti-me inundada de emoções que jamais experimentara. Eu a amei intensamente, incondicionalmente. Desejava lhe dar o que havia de melhor, mas estava consciente de que, por mais que quisesse, não seria capaz. Fisicamente, emocionalmente e de todas as outras formas, eu não tinha condições de ser mãe. Sabia o que precisava ser feito. Procurando deixar as minhas emoções de lado, fiz o que achei ser melhor para a minha filha: decidi dá-Ia para adoção.

Colocar minha filhinha nos braços da mulher que passou a ser sua mãe foi a coisa mais difícil que já tive de fazer. Minha alma doía. Embora ainda possa vê-Ia, porque fui abençoada com uma adoção aberta, a dor continua intacta. Sinto-a queimar dentro de mim todos os dias, toda vez que penso em Katelyn. Só espero que, quando ela for mais velha, se dê conta do quanto a amo. Eu a amo mais do que qualquer coisa neste mundo.

Hoje é o primeiro Natal de minha filha. Não vou estar ao seu lado para compartilhar a alegria desta época de festas ou brincar de Papai Noel e abrir os presentes para ela (ela só te.m dois meses). Na realidade, não vou estar por perto quando der seu primeiro passinho ou quando balbuciar sua primeira palavra. Não estarei presente para tirar fotos de seu primeiro dia no jardim-de-infância. E quando ela chorar pedindo a mamãe, não é por mim que estará chamando. No fundo, sei que tomei a decisão certa. Eu só gostaria, de todo coração, que não tivesse precisado fazer essa escolha.


 

CONTE AO MUNDO POR MIM

JOHN POWELL, S.J.

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 34

 

Eu estava me preparando para dar a aula inaugural de teologia e observava os alunos da universidade entrarem na sala, quando vi TOMMY pela primeira vez. Isso foi há quatorze anos. Ele estava penteando o cabelo, que chegava a quinze centímetros abaixo dos ombros. Minha primeira impressão foi de que ele era estranho - muito estranho.

Tommy se revelou meu maior desafio. Ele constantemente fazia pouco da possibilidade de existir um Deus que amasse todas as pessoas incondicionalmente. Quando entregou sua prova final do curso, perguntou com um tom levemente cínico:

- O Senhor acha que eu algum dia vou encontrar Deus?

- Não - respondi enfaticamente.

- AH!- ele retrucou. – Achei que fosse essa crença que o senhor estivesse nos empurrando.

- Deixei-o dar cinco passos porta afora e então falei:

- Não acho que você vá encontrá-lo, mas tenho certeza de que Ele vai encontrar você. - Tommy deu de ombros e foi embora. Fiquei ligeiramente desapontado por ele não ter dado atenção à minha frase de efeito.

Mais tarde, fiquei contente ao saber que Tommy tinha se formado. Depois, chegou uma notícia triste: Tommy tinha câncer em estágio terminal. Antes que eu pudesse  procurá-lo, ele veio me ver. Quando entrou na minha sala, seu corpo estava muito debilitado e seus longos cabelos tinham caído por causa da quimioterapia. Mas seus olhos brilhavam e sua voz, pela primeira vez, estava firme.

- Tommy! Pensei tanto em você. Ouvi dizer que você está doente - fui logo dizendo.

- É, muito doente. Estou com câncer. Só tenho algumas semanas.

- Consegue falar sobre isso?

- Claro. O que o senhor quer saber?

- Como é ter vinte e quatro anos e saber que vai morrer?

- Poderia ser pior - disse ele -, tipo ter cinquenta e pensar que tomar todas, pegar mulher e ganhar dinheiro são as coisas mais legais da vida. - Então ele me disse por que tinha ido me ver:

- Foi uma coisa que o senhor falou no último dia de aula.

Eu perguntei se o senhor achava que um dia eu ia encontrar Deus e fiquei surpreso quando a resposta foi não. Depois o senhor disse: "Mas Ele vai encontrar você." Pensei muito nisso, embora na época eu não estivesse muito interessado em procurar Deus.

- Mas, quando os médicos retiraram um caroço da minha virilha e me disseram que era maligno comecei a tentar seriamente localizar Deus. E, quando o câncer se espalhou pelos meus órgãos vitais, comecei a socar de verdade as portas do céu. Mas nada aconteceu. Bom, um dia eu acordei e, em vez das tentativas desesperadas de receber algum tipo de mensagem simplesmente desisti. Decidi que na verdade não ligava para Deus, vida depois da morte ou qualquer coisa desse tipo.

- Decidi gastar o tempo que tinha fazendo algo mais importante. Pensei em outra coisa que o senhor tinha dito: "A maior tristeza é passar pela vida sem amar. Mas seria igualmente triste deixar este mundo sem nunca dizer àqueles que você amou que os amava." Então comecei com o mais difícil de todos: meu pai.

O pai de Tommy estava lendo o jornal quando o filho chegou perto dele.

- Papai, queria falar com você.

- Bom, fale.

-É importante o que eu quero dizer.

O jornal se abaixou lentamente alguns centímetros.

- O que é?

-Papai, eu te amo. Só queria que você soubesse disso.

Tommy sorriu ao me contar aquela cena.

- O jornal caiu no chão. Então meu pai fez duas coisas que nunca tinha visto fazer antes: chorou e me abraçou. E conversamos a noite toda, apesar de ele ter que ir trabalhar na manhã seguinte.

- Foi mais fácil com minha mãe e com meu irmão mais novo - continuou Tommy. - Eles choraram comigo, nos abraçamos e compartilhamos as coisas que vínhamos mantendo em segredo por tantos anos. Eu só lamento ter esperado tanto. Ali estava eu, à beirada morte, apenas começando a me abrir para todas as pessoas de quem eu tinha sido realmente próximo.

- Então um dia eu me virei e Deus estava ali. Ele não veio quando chamei por Ele. Aparentemente, Ele faz as coisas do Seu próprio jeito e no Seu próprio tempo. O importante é que o senhor estava certo. Ele me encontrou mesmo depois de eu ter parado de procurá-lo.

- Tommy - disse eu, quase engasgando. - Acho que você não se dá conta da importância do que está dizendo. Você está dizendo que o caminho mais perto para encontrar Deus não é fazer Dele uma posse particular nem um consolo instantâneo em momentos de necessidade, mas sim se abrindo para o amor.  Tommy - acrescentei - será que eu podia pedir um favor a você? Você viria à minha aula de teologia para contar aos meus alunos o que acabou de me dizer?

Embora tenhamos combinado uma data, ele não pôde ir.

Sua vida, é claro, não terminou com sua morte, apenas mudou. Deu o grande passo da fé rumo à visão. Encontrou urna vida muito mais bonita do que os olhos da humanidade já viram ou do que a mente jamais imaginou.

Antes de morrer, conversamos uma última vez.

- Não vou conseguir ir à sua aula- ele disse.

- Eu sei, Tommy.

- O senhor pode contar a eles por mim? Pode... contar ao mundo inteiro por mim?

- Posso, Tommy. Vou contar a todos eles.

 

Procurei minha alma,

mas minha alma eu não conseguia ver.

Procurei meu Deus,

mas meu Deus se esquivou de mim.

Procurei meu irmão

e encontrei os três.

AUTOR DESCONHECIDO

 


 

SE EU SOUBESSE

KIMBERLY KIRBERGER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 39

 

Muitas pessoas vivem dizendo “Ah, se eu soubesse naquela época o que sei agora...”, mas nunca completam o pensamento.

Quer saber o que eu faria? Então, lá vamos nós.

 

Eu ouviria com mais atenção o que meu coração tem para dizer.

Eu me divertiria mais e me preocuparia menos.

Eu saberia que a escola um dia vai terminar... e que o trabalho... bom, deixa pra lá!

Eu não me preocuparia tanto com o que os outros estivessem pensando.

Eu valorizaria minha vitalidade e minha juventude.

Eu brincaria mais, e me irritaria menos.

Eu saberia que minha beleza está no meu amor pela vida.

Eu saberia o quanto meus pais me amam e acreditaria que eles estão fazendo o melhor que podem.

Eu aproveitaria o sentimento de "estar amando" e não me preocuparia tanto com o futuro.

Eu saberia que provavelmente a paixão vai acabar um dia, mas que alguma coisa melhor virá.

Eu não teria medo de agir como criança.

Eu teria mais coragem.

Eu buscaria ver as qualidades de cada pessoa e não seus defeitos.

Eu não perderia meu tempo com algumas pessoas só porque elas são "populares”

Eu faria aulas de dança.

Eu gostaria do meu corpo do jeito que ele é.

Eu acreditaria nas minhas amigas.

Eu seria uma namorada fiel.

Eu não acreditaria nos meus namorados. (Brincadeira.)

Eu aproveitaria os beijos. Aproveitaria de verdade.

Eu seria mais compreensiva e grata com certeza.


 

O SEGREDO DA FELICIDADE

THE SPEAKER'S SOURCEBOOK

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 41

 

Há uma fábula maravilhosa sobre uma menina órfã que não tinha família nem ninguém para amá-la. Certo dia, sentindo-se excepcionalmente triste e sozinha, ela foi passear por um prado. Ela viu uma pequena borboleta presa em um arbusto de espinhos. Quanto mais a borboleta lutava para se libertar, mais os espinhos cortavam suas asas frágeis. A menina órfã libertou cuidadosamente a borboleta de sua prisão de espinhos. Em vez de voar para longe, a pequena borboleta transformou-se numa bonita fada. A menina esfregou os olhos, sem acreditar. - Por sua maravilhosa gentileza - disse a boa fada à menina -, vou realizar qualquer desejo que você escolher.

A menina pensou um pouco e depois respondeu:

- Eu queria muito ser feliz!

A fada disse:

- Muito bem - e, inclinando-se na direção dela, sussurrou alguma coisa no seu ouvido. Em seguida, a fada desapareceu.

Enquanto a menina crescia, não havia ninguém na região tão feliz quanto ela. Todos lhe perguntavam o segredo da sua felicidade. Ela apenas sorria e respondia:

- O segredo da minha felicidade é que ouvi o que uma boa fada me disse quando eu era menina.

Quando estava bem velhinha, em seu leito de morte, todos os vizinhos se reuniram à sua volta, com medo de que o maravilhoso segredo morresse com ela.

- Conte, por favor - imploraram eles. - Conte o que a boa fada disse.

A adorável velhinha simplesmente sorriu e respondeu:

- Ela me disse que todo mundo, por mais seguro que pareça, quer seja velho ou novo, rico ou pobre, precisa de mim.

 

Se quiser ser amada, ame e seja amável.

Benjamin Franklin

MEU PRIMEIRO BEIJO

MARY JANE WEST-DELGADO

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 43

 

Eu era uma adolescente muito tímida e o meu primeiro namorado, também. Morávamos numa cidade pequena e cursávamos a sétima série no mesmo colégio. Fazia uns 6 meses que estávamos saindo juntos. Conversávamos sobre várias coisas, íamos ao cinema e, no escurinho, pegávamos na mão um do outro, suando de nervoso. Muitas vezes quase nos beijamos, mas nenhum dos dois teve coragem de ir em frente, apesar de sabermos o quanto queríamos ser beijados.

Um dia, estávamos sentados no sofá da sala de estar da minha casa e ele tomou a iniciativa. Conversávamos sobre o tempo (juro!), quando ele se inclinou para me beijar. Mas eu fiquei com vergonha e coloquei uma almofada na frente do meu rosto e ele acabou beijando a almofada!

Eu queria ser beijada, mas estava nervosa demais. Então, fui para o outro lado do sofá, fugindo dele. Ele chegou mais perto, puxando papo sobre um filme que estava passando na tevê, e se inclinou para a frente mais uma vez. De novo, eu recuei.

Fui para a ponta do sofá. Ele foi atrás de mim, falando de outro assunto, e se inclinou na minha direção... Eu me levantei.

Andei até a porta, fiquei em pé, encostada na parede, de braços cruzados, : disse, impaciente:

- E aí, vai me beijar ou não?

- Vou - disse ele.

Então, estiquei as costas, fechei os olhos bem apertados, fiz biquinho e levantei o rosto. Esperei... e esperei. (Por que ele não estava me beijando?) Quando abri os olhos, ele estava vindo na minha direção. Sorri e ele acabou beijando os meus dentes!

Eu quase morri de vergonha e, quando ele foi embora, fiquei imaginando se ele contaria aos amigos sobre o meu comportamento desajeitado. Como eu era extremamente tímida, comecei a evitar a companhia dos meninos, mesmo aqueles que eu conhecia desde o jardim-de-infância. Quando andava pelo corredor do colégio, se visse meu ex-namorado ou qualquer outro rapaz que achasse bonito vindo na minha direção, eu me escondia na sala mais próxima sala.

Durante o científico, eu continuei com dificuldades em me relacionar com os garotos. Só quando entrei para a faculdade é que decidi deixar a timidez de lado. Queria aprender a beijar com segurança e graça. Aprendi.

Na primavera, fui para casa rever meus pais. Um dia, entrei no barzinho da moda e vi meu antigo parceiro de beijo sentado no bar. Caminhei até onde ele estava e bati no seu ombro. Quando ele se virou, eu não perdi tempo: abracei-o com força, inclinei seu corpo para trás e dei-lhe o mais decidido dos beijos na boca. Depois, olhei para ele triunfante e exclamei:

-Pronto!

Ele apontou para a garota ao seu lado e me disse:

- Mary Jane, eu queria lhe apresentar a minha namorada.


 

OS PRESENTES ETERNOS

JACK SCHLATTER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 46

 

- Isso é verdade, ou o senhor só escreveu no quadro porque é uma frase de efeito?

- O quê? - perguntei sem levantar os olhos da mesa.

- Aquele dizer: "Se você pensar em alguma coisa que quer e acreditar que vai tê-la, é capaz de conseguir."

Levantei os olhos e vi o rosto de Paul, uma das pessoas de quem eu mais gostava, mas certamente não um dos meus melhores alunos.

- Bom, Paul - eu disse -, o autor dessas palavras, Napoleon Hill, as escreveu depois de 2 anos de pesquisa sobre a trajetória de grandes homens e mulheres. Ele descobriu que esse conceito, afirmado de muitas maneiras diferentes, era a única coisa que todos tinham em comum. Júlio Verne disse isso de outra maneira, ao afirmar: "Qualquer coisa que a mente de um homem puder imaginar, a mente de outro homem pode criar."

- O senhor quer dizer que, se eu tiver uma ideia e realmente acreditar nela, posso fazê-la acontecer? - Ele fez a pergunta com uma intensidade que atraiu toda a minha atenção.

- Pelo que tenho visto e lido, Paul, isso não é uma teoria, mas uma lei que tem sido demonstrada ao longo da História.

Paul enterrou as mãos nos bolsos de trás da sua calça Levi's e ficou andando em círculos pela sala, lentamente.

Então virou-se e me encarou com uma energia nova:

- Sr. Schlatter - disse ele -, durante toda a minha vida fui um aluno abaixo da média e sei que isso vai me custar caro mais tarde na vida. E se eu pensasse em mim como um aluno e acreditasse de verdade... se acreditasse que até mesmo eu poderia conseguir isso ?

- É, Paul, mas você tem que saber o seguinte: se acreditar de verdade, vai agir para isso. Acho que existe um poder dentro e você que vai fazer maravilhas para ajudar, contanto que

você se comprometa.

- Como assim, me comprometa? - perguntou ele.

- Bom, existe uma história sobre um padre que pegou o carro e foi até a fazenda de um membro da sua congregação. Admirando a beleza do lugar disse: "Clem, você e o Senhor Deus sem dúvida criaram uma coisa muito linda aqui."

- Para resumir, Paul, Deus nos dá a madeira, mas temos que acender o fósforo.

Seguiu-se um silêncio cheio de reflexão.

- Tudo bem - disse Paul. - Vou fazer isso. Até o final do semestre, vou ser um aluno B.

Já estávamos quinta semana do semestre e, na minha aula, a média de Paul era D.

- A montanha é alta, Paul, mas eu também acredito que você pode conseguir o que acaba de se propor. - Nós dois rimos e ele saiu da sala para almoçar.

Durante os 3 meses seguintes Paul me proporcionou uma das experiências mais inspiradoras que um professor pode ter. Começou a fazer perguntas inteligentes e desenvolveu uma intensa curiosidade. Passou a arrumar-se melhor e a ter mais firmeza na forma de caminhar. Aos poucos, sua média foi subindo e era possível ver sua autoestima começando a crescer. Pela primeira vez na vida, os outros alunos passaram a lhe pedir ajuda. O encanto que eu percebia em Paul desabrochou completamente.

Finalmente veio a vitória. Em uma noite de sexta-feira, sentei-me para corrigir uma prova sobre a Constituição. Fiquei olhando para a prova de Paul durante um bom tempo antes de pegar minha caneta vermelha para começar a corrigi-la. Não foi preciso usar a caneta. Era uma prova perfeita, sua primeira nota máxima.  Telefonei para meus colegas para contar a novidade.

Naquela manhã de sábado, fui de carro até o colégio para um ensaio de Siga o Sonho, a peça que eu estava dirigindo. Entrei no estacionamento com o coração leve e acenei para Kathy, protagonista da peça e uma das melhores amigas de Paul. Lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Assim que saí do carro, ela correu na minha direção e se jogou em cima de mim, soluçando. Depois, me contou o que tinha acontecido.

Paul estava na casa de um amigo e os dois descobriram a coleção de armas "descarregadas" do pai do garoto. Começaram a brincar. Em determinado momento, o amigo apontou uma arma "descarregada" para a cabeça de Paul e puxou o gatilho. Paul morreu na hora, com uma bala no cérebro.

Na segunda-feira, um inspetor chegou trazendo o boletim de Paul. No lugar em que devia estar a média geral havia um quadradinho ao lado do qual estava escrito "desnecessário".

"Isso é o que a direção do colégio acha", pensei comigo mesmo, enquanto marcava um enorme A no quadrado. Virei as costas para que a turma não visse minhas lágrimas. Paul tinha merecido aquela nota e ela estava ali, mas Paul, não. As roupas novas que ele tinha comprado com o dinheiro como entregador de jornais ainda estavam no seu armário, mas Paul não estava mais ali. Seus amigos, suas notas, seu prêmio de futebol estavam ali, mas Paul, não. Por quê?

Nesse momento me vieram à cabeça e penetraram no meu coração as palavras de um antigo poema: "Constrói para ti outras mansões soberbas, alma minha." Percebi que Paul não deixara tudo para trás. As lágrimas começaram a secar e meu rosto se abriu num sorriso, ao imaginar Paul ainda pensando, ainda acreditando e ainda conseguindo, com sua recém-desenvolvida curiosidade, disciplina e autoestima incorporadas para sempre ao seu ser.

Ele nos deixara uma grande quantidade de riqueza. Do lado de fora da igreja, no dia do enterro, reuni os alunos de teatro à minha volta e anunciei que os ensaios começariam no dia seguinte. Em homenagem à memória de Paul e de tudo que ele havia nos deixado, era hora mais uma vez de seguir o sonho.

 

Na hora mais sinistra a alma é reabastecida

e ganha força para seguir em frente e suportar.

GUERREIRO XOSA

ACENDENDO A SUA LUZ

ALEC ALLENBAUGH

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 51

 

Mais de quatro décadas atrás, eu estava no segundo ano de um grande científico no sul da Califórnia. O corpo estudantil de 3200 alunos era um caldeirão de diferenças étnicas. O ambiente era difícil. Facas, canos, correntes, socos-ingleses e, às vezes, alguma arma escondida eram comuns. Brigas e atividades de gangues eram acontecimentos semanais.

Depois de um jogo de futebol no outono de 1959, eu estava saindo da arquibancada com minha namorada. Enquanto descíamos pela calçada cheia de gente, alguém me chutou por trás. Ao me virar, vi uma gangue local armada com socos-ingleses. O primeiro golpe do ataque gratuito quebrou imediatamente o meu nariz, um dos vários ossos que seriam quebrados na surra. Socos voavam em todas as direções à medida que eu era cercado pelos quinze membros da gangue. Mais ferimentos.

Uma concussão cerebral. Hemorragia interna. Acabei tendo que passar por uma cirurgia. Meu médico me disse que, se eu houvesse sido atingido na cabeça mais uma vez, provavelmente teria morrido. Felizmente, não machucaram a minha namorada.

Depois que me recuperei fisicamente, alguns amigos me procuraram e disseram:

- Vamos pegar esses caras! - Era assim que os problemas eram resolvidos. Depois de um ataque, igualar o placar tornava-se uma prioridade. Parte de mim dizia: "Vamos!" O doce gosto da vingança era certamente uma possibilidade.

Mas outra parte de mim pensou melhor e disse não.

Vingança não resolvia. A história tinha demonstrado claramente, vezes sem conta, que as represálias só fazem acelerar e intensificar o conflito. Precisávamos fazer alguma coisa diferente para quebrar a corrente contraproducente dos acontecimentos.

Trabalhando com vários grupos étnicos, criamos o que chamamos de Comitê da Irmandade, para melhorar as relações entre as diferentes raças. Fiquei espantado ao ver como meus colegas estavam interessados em construir um futuro melhor.

Nem todos se dispunham a fazer as coisas de um modo diferente.

Enquanto pequenos grupos de alunos, professores e pais resistiam ativamente àquele intercâmbio cultural, cada vez mais pessoas participavam de nosso esforço para mudar as coisas.

Dois anos mais tarde, candidatei-me à presidência da associação de alunos. Mesmo concorrendo com dois amigos, um deles um herói de futebol e o outro uma "grande figura do colégio", muito popular, a maioria dos 3.200 alunos se juntou a mim no processo de fazer as coisas de modo diferente. Não vou dizer que os problemas raciais foram completamente resolvidos. No entanto, fizemos progressos significativos na construção de pontes entre as culturas, buscando estabelecer um diálogo com diferentes grupos étnicos, resolver as diferenças sem recorrer à violência e aprender a criar confiança em meio às circunstâncias mais difíceis. É incrível o que acontece quando as pessoas conseguem falar umas com as outras!

Ser atacado por aquela gangue há tantos anos foi, sem dúvida, um dos momentos mais difíceis da minha vida. No entanto, o que aprendi sobre retribuir com amor em vez de desenvolver o ódio tem sido uma força poderosa na minha vida.

Acender a luz ao lado daqueles que vivem na escuridão pode fazer a grande diferença na vida de todos.

 

 

Aqueles que levam luz à vida dos outros não podem

impedi-Ia de iluminar as suas.

JAMES M. BARRIE

 


 

POR QUE OS MENINOS GOSTAM DE MENINAS

KIMBERLY KIRBERGER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 54

 

Certo dia, enquanto lia meus e-mails, abri um daqueles que fazem a gente ficar apertando a setinha para baixo durante uma eternidade até chegar à mensagem, que foi enviada para centenas de pessoas.

Bem, eu normalmente apago esse tipo de mensagem. Mas aquela me intrigou. Chamava-se "Alguns Motivos Pelos Quais Meninos Gostam de Meninas". As instruções diziam para ler a lista, fazer acréscimos e enviá-Ia a, pelo menos, vinte e cinco pessoas. Se você não a passasse adiante, teria azar no campo amoroso.

Mas, se a mandasse para vinte e cinco pessoas ou mais, receberia como prêmio toda a felicidade do mundo no amor.

Depois de ler os motivos pelos quais meninos gostam de meninas, tive uma ideia. Se eu conseguiria ter toda a felicidade do mundo no amor mandando aquele e-mail para vinte e cinco pessoas, imagine só a sorte que teria se o mandasse para milhões de pessoas!

Por isso, resolvi escrever para este livro, na esperança de conseguir a perfeição conjugal graças a cada um de vocês que ler isto:

 

ALGUNS MOTIVOS PELOS QUAIS MENINOS GOSTAM DE MENINAS

 

1 - O cheirinho delas é sempre gostoso, mesmo que seja só xampu.

2 - O jeito que elas têm de sempre encontrar o lugarzinho certo em nosso ombro.

3 - A facilidade com a qual cabem em nossos braços.

4 - O jeito que têm de nos beijar e, de repente, fazer o mundo ficar perfeito.

5 - Como são encantadoras quando comem.

6 - Elas levam horas para se vestir, mas no final vale a pena.

7 - Porque estão sempre quentinhas, mesmo que esteja fazendo trinta graus abaixo de zero lá fora.

8 - Como sempre ficam bonitas, mesmo de jeans, camiseta e rabo-de-cavalo.

9 - Aquele jeitinho sutil de pedir um elogio.

10 - Como ficam lindas quando discutem.

11 - O modo que têm de sempre encontrar a nossa mão.

12 - O brilho nos olhos delas quando sorriem.

13 - Ouvir a mensagem delas na secretária eletrônica logo depois de uma briga horrível.

14 - O jeito que têm de dizer "Não vamos brigar mais, não...", embora você saiba que dali a uma hora...

15 - A ternura com que nos beijam quando lhes fazemos uma delicadeza.

16 - O modo de nos beijarem quando dizemos "eu te amo".

17 - Pensando bem, só o modo de nos beijarem já basta...

18 - O modo que têm de se atirar em nossos braços quando choram.

19 - O jeito de pedir desculpas por terem chorado por alguma bobagem.

20 - O fato de nos darem um tapa achando que vai doer.

21 - O modo com que pedem perdão quando o tapa dói mesmo (embora jamais admitamos que doeu).

22 - O jeitinho de dizerem "estou com saudades".

23 - As saudades que sentimos delas.

24 - A maneira que suas lágrimas têm de nos fazer querer mudar o mundo para que nada mais lhes cause dor.

 

E no entanto, quer você as ame, as odeie, queira que morram ou saiba que morreria sem elas... não importa. Depois que elas entram em sua vida, mesmo que para o resto do mundo não signifiquem nada, tornam-se tudo para nós. Quando olhamos em seus olhos, quando podemos adivinhar seus pensamentos e dizer milhões de coisas sem emitir um único som, o mundo fica iluminado e sabemos que nossas vidas foram completamente transformadas.

Nós as amamos por um milhão de motivos. Não é coisa da mente e sim do coração. Um sentimento. O mais forte que existe.


 

UM LONGO CAMINHO PARA CASA

JASON BOCARRO

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 58

 

Cresci no sul da Espanha, em uma pequena comunidade chamada Estepona. Tinha dezesseis anos na manhã em que meu pai me disse que eu podia levá-lo de carro até um vilarejo isolado chamado Mijas, a cerca de trinta quilômetros, com a condição de que levasse o carro a uma oficina ali perto. Já que acabara de aprender a dirigir e quase nunca tinha a oportunidade de usar o carro, aceitei na hora. Levei papai até Mijas, prometendo pegá-lo às quatro da tarde, e depois fui até uma oficina próxima e , deixei o carro lá. Já que tinha algumas horas livres, decidi assistir a dois filmes em um cinema perto da oficina. Mas fiquei tão absorto nos filmes, que perdi completamente a noção do tempo.

Quando o último filme terminou, olhei para o relógio. Eram seis horas. Eu estava duas horas atrasado!

Sabia que papai ficaria zangado se descobrisse que eu estava no cinema. Ele nunca mais me deixaria dirigir. Decidi dizer a ele que o carro precisava de uns consertos e que eles tinham levado mais tempo do que o previsto. Fui até o lugar onde deveríamos nos encontrar e vi papai esperando pacientemente na esquina. Pedi desculpas pelo atraso e disse a ele que tinha vindo o mais rápido possível, mas que o carro precisara de alguns consertos grandes. Nunca vou me esquecer de como ele me olhou.

- Fico desapontado por você achar que precisa mentir para mim, Jason.

- Como assim? Estou falando a verdade.

Papai tornou a olhar para mim.

- Quando você não apareceu, eu liguei para a oficina para perguntar se tinha acontecido alguma coisa e eles me disseram que o carro já estava pronto há muito tempo e você não tinha aparecido.

Uma onda de culpa percorreu meu corpo enquanto eu confessava miseravelmente minha ida ao cinema e a verdadeira razão do meu atraso. Papai ouviu com atenção enquanto seu rosto se cobria de tristeza.

- Estou muito triste. Não com você, mas comigo. Sabe, eu me dou conta de que fracassei como pai, já que depois de todos esses  anos você ainda acha que precisa mentir para mim.

Fracassei porque criei um filho que não consegue nem dizer verdade ao próprio pai. Vou voltar para casa andando, para poder pensar onde errei todos esses anos.

- Mas, pai, são trinta quilômetros até nossa casa. Está escuro. Você não pode voltar andando.

Meus protestos, minhas desculpas e o resto das minhas palavras foram inúteis. Eu tinha decepcionado meu pai e estava prestes a aprender uma das lições mais dolorosas da vida. Ele começou a andar pela estrada empoeirada. Rapidamente, pulei para dentro do carro e o segui de perto, esperando que ele fosse desistir. Implorei o caminho todo, dizendo o quanto estava arrependido, mas ele simplesmente me ignorou, continuando a caminhar em silêncio, pensativo e sofrendo. Dirigi atrás dele 30 kms numa média de 8 kms por hora.

Ver meu pai sofrendo tanto física quanto emocionalmente foi a experiência mais perturbadora e dolorosa que já enfrentei.

No entanto, foi também a melhor das lições. Nunca mais menti para ele.

 

 

Experiência: a mais brutal das professoras.

Mas você aprende, meu Deus, como aprende.

C.S. LEWIS

 


 

O PODER DE UM BOM PROFESSOR

DIANA L. CHAPMAN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 61

 

Estávamos sentados na sua sala, dando risinhos, nos cutucando e falando sobre os acontecimentos do dia, como o estranho rímel roxo que Cindy estava usando. A Sra. Virginia DeView limpou a garganta e nos pediu silêncio.

- Agora - disse ela sorrindo -, vamos descobrir nossas profissões. - A turma toda deu uma exclamação de surpresa.

Nossas profissões? Olhamos uns para os outros. Tínhamos só treze e quatorze anos. Aquela professora estava doida.

Era mais ou menos assim que os alunos viam Virginia DeView, com seus cabelos presos em um coque e seus dentes grandes, saltados saindo pela boca. Por causa de sua aparência, ela era sempre um alvo fácil para risinhos e piadas cruéis entre os alunos.

Ela também irritava seus alunos porque era exigente.

A maioria de nós simplesmente ignorava sua inteligência.

- Sim, todos vocês vão procurar suas futuras profissões - disse ela com o rosto iluminado, como se aquela fosse a melhor coisa que fizesse em sua aula a cada ano. - Vão ter que escrever um trabalho sobre sua futura carreira. Cada um de vocês vai ter que entrevistar alguém da sua área e fazer um relatório oral.

Fomos para casa confusos. Quem sabe o que quer fazer aos treze anos? No entanto, eu sabia de algumas das minhas escolhas. Gostava de arte, de cantar e de escrever. 1ias era péssima em arte, e quando eu cantava minhas irmãs gritavam:

- Ah, por favor, cale a boca! - A única coisa que sobrava era ler.

Todos os dias, durante a aula, Virginia DeView nos perguntava: em que ponto estávamos? Quem tinha escolhido sua carreira? No final, quase todos nós tínhamos escolhido alguma coisa, e eu tinha escolhido jornalismo escrito. Aquilo significava que eu ia entrevistar um repórter de jornal de carne e osso e eu estava aterrorizada.

Sentei-me na frente dele praticamente sem conseguir falar.

Ele olhou para mim e disse:

- Você trouxe lápis ou caneta?

Fiz que não com a cabeça.

- E papel?

Fiz que não com a cabeça de novo.

Finalmente, acho que ele se deu conta de que eu estava aterrorizada e recebi minha primeira grande dica como jornalista.

- Nunca, nunca vá a lugar nenhum sem lápis e papel. Você não sabe o que vai encontrar.

Durante os noventa minutos seguintes, ele me encheu de histórias sobre assaltos, ondas de crime e incêndios. Ele nunca se esqueceria do trágico incêndio onde quatro membros da mesma família tinham morrido no fogo.

Alguns dias depois, fiz meu relatório oral totalmente de cabeça, pois tinha ficado muito impressionada. Tirei a nota máxima.

À medida que o ano letivo se aproximava do fim, alguns estudantes muito rancorosos decidiram dar o troco em Virginia De View por nos fazer trabalhar tão duro. Quando ela estava virando uma esquina, jogaram uma torta na cara dela com a maior força possível. Ela se machucou de leve fisicamente, mas foi emocionalmente que ficou ferida de verdade. Não voltou à escola durante vários dias. Quando ouvi a história, foi como se um buraco profundo e feio se abrisse na minha barriga. Senti vergonha por mim mesma e por meus colegas, que eram incapazes de ver, por trás da aparência de uma mulher, seu fenomenal talento para ensinar.

Os anos se passaram e eu me esqueci completamente de Virginia DeView e das carreiras que escolhemos. Estava na faculdade, à procura de uma nova carreira. Meu pai queria que eu fosse executiva, o que parecia um bom conselho na época, mas o problema era que eu não levava absolutamente nenhum jeito para negócios. Então me lembrei de Virginia De View e do meu desejo de ser jornalista aos 13 anos. Liguei para meus pais:

- Estou mudando de curso - anunciei.

Houve um silêncio perplexo do outro lado da linha.

- Para quê? - perguntou meu pai finalmente.

- Jornalismo.

Eu podia sentir o descontentamento nas vozes de meus pais, mas eles não me impediram. Apenas me lembraram o quanto aquela área era competitiva e como durante toda a minha vida eu havia evitado a competição.

Era verdade. Mas o jornalismo mexia comigo, estava no meu sangue. Ele me dava a liberdade para abordar completos desconhecidos e fazer-Ihes perguntas diretas. Ele me treinava para conseguir respostas tanto na minha vida profissional quanto na pessoal. Ele me dava confiança.

Durante os últimos doze anos, tive a carreira de repórter mais incrível e satisfatória possível, cobrindo matérias que vão de assassinatos a acidentes de avião, e finalmente me concentrando naquilo de que gosto e que faço bem. Eu adoro escrever sobre os momentos delicados e trágicos da vida das pessoas, porque tenho a impressão de que aquilo as ajuda de alguma maneira.

Certo dia, durante uma entrevista, fui invadida por uma incrível onda de lembranças e percebi que, se não fosse por Virginia De View, eu não estaria fazendo aquele trabalho.

Ela provavelmente nunca vai saber que, sem a sua ajuda, eu não teria me tornado jornalista e escritora. Imagino que estaria metida no mundo dos negócios em algum lugar, muito infeliz e frustrada. Pergunto-me quantos outros alunos da sua sala aproveitaram aquele projeto de carreira.

As pessoas me perguntam o tempo todo:

- Como você escolheu o jornalismo?

- Bom, sabe eu tinha uma professora... - Sempre começo assim. Só gostaria de poder agradecer a ela.

Acredito que quando as pessoas pensam nos seus dias de colégio, encontram a imagem desbotada de um único mestre - sua própria Virginia DeView. Se tiverem oportunidade de agradecer-lhe, façam isso. Eu gostaria de fazer.

 

Há pontos altos na vida de todos nós,

e a maioria deles vem do incentivo de outra pessoa.

GEORGE ADAMS

SPARKY

BITS AND PIECES

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 66

 

Para Sparky, o colégio era uma coisa quase impossível. Ele foi reprovado em todas as matérias na sétima série. Foi reprovado em física no científico, com nota zero. Sparky também foi reprovado em latim, em álgebra e em inglês. Não foi muito melhor nos esportes. Embora tenha conseguido entrar para o time de golfe da escola, rapidamente perdeu o único jogo importante da temporada. Havia um jogo de consolação e esse ele também perdeu.

Durante toda a sua juventude, Sparky teve problemas de sociabilidade. Os outros alunos não chegavam a não gostar dele, pois ninguém lhe dava importância suficiente para isso. Ele ficava surpreso se algum colega lhe dava bom dia fora do horário de aula. Não se sabe ao certo como foi sua vida sentimental. Sparky nunca convidou uma garota para sair no científico. Tinha medo demais de ser rejeitado.

Sparky era um perdedor. Ele, seus colegas... todo mundo sabia. Então ele vivia com isso. Sparky tinha decidido cedo na vida que, se fosse para as coisas darem certo, elas dariam. Do contrário, ele se contentaria com o que parecia ser sua inevitável mediocridade.

No entanto, uma coisa era ime0rtante para Sparky - desenhar. Ele tinha orgulho de seus desenhos. É claro que ninguém mais gostava deles. No último ano do científico, ele ofereceu alguns quadrinhos para os organizadores do livro de formatura da classe. Os quadrinhos foram rejeitados. Apesar dessa rejeição específica, Sparky estava tão convencido de seu talento que decidiu se tornar um artista profissional.

Depois de completar o científico, ele escreveu uma carta para os estúdios Walt Disney. Pediram-lhe que mandasse algumas amostras de seu trabalho e sugeriram o tema para uma série de quadrinhos. Sparky desenhou os quadrinhos propostos.

Passou muito tempo trabalhando neles e em todos os outros desenhos que enviou para avaliação. Finalmente, recebeu uma resposta dos estúdios Disney. Havia sido rejeitado mais uma vez. Outra derrota para o perdedor.

Sparky decidiu, então escrever sua própria autobiografia em quadrinhos. Descreveu a si mesmo quando criança – um garoto perdedor e que nunca conseguia se sobressair. O personagem de quadrinhos logo se tornaria famoso no mundo inteiro. Pois Sparky, o menino que tinha tão pouco sucesso no colégio e cujo trabalho fora rejeitado vezes sem conta, era Charles Schulz. Ele criou a tira Peanuts com o cachorro Snoopy e o pequeno personagem Charlie Brown, cuja pipa nunca voava e que nunca conseguia chutar uma bola de futebol.


 

O AMOR SE MULTIPLICA

MELISSA ESPOSIT

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 69

 

Sentada na cadeira junto à janela, sentindo o sol quente em meu braço, eu tinha que me esforçar para me lembrar onde estava. Era difícil acreditar que havia vários equipamentos médicos dentro dos armários de carvalho e que em alguns minutos o rebaixamento do teto poderia ser deslocado para revelar luzes cirúrgicas. O quarto nem parecia de hospital, a não ser por pequenos detalhes, como a torre de soro ao lado da cama. Enquanto observava o papel de parede e os móveis cuidadosamente escolhidos, lembrei-me do dia em que aquela aventura tinha começado - não fazia muito tempo.

Era um dia frio de inverno. Nosso time de basquete tinha acabado de vencer por 20 x 11. Exausta, mas entusiasmada, eu me joguei no banco do carona do nosso carro. Enquanto deixávamos o colégio, minha mãe comentou que tinha ido ao médico naquele dia.

- Para quê? - perguntei, começando a ficar nervosa enquanto pensava em todas as doenças que minha mãe poderia ter.

- Bom... - Ela hesitou, e minha preocupação aumentou. Estou grávida.

- Está o quê? - exclamei.

- Grávida - ela repetiu.

Fiquei absolutamente muda. Só conseguia pensar que essas coisas não podem acontecer com os seus pais quando você já está no científico. Depois me dei conta de que ia ter que dividir minha mãe. A mãe que tinha sido só minha por dezesseis anos. Fui dominada por um enorme ressentimento. Eu nunca quis que

a minha mãe tivesse outro filho depois que ela se casou de novo. Era um sentimento egoísta, mas eu relutava em dividir qualquer pedacinho da mamãe.

Ao ver a surpresa e a felicidade nos olhos do meu padrasto quando ele ficou sabendo da chegada de seu primeiro filho, comecei a ficar mais animada. Mal podia esperar para contar para todo mundo! Minha alegria era visível, mas, internamente, eu tentava lidar com meu medo e minha raiva.

Meus pais me fizeram participar de todos os preparativos para a chegada do bebê. Dei palpite sobre a decoração do quarto e ajudei a escolher o nome do neném. Eles até resolveram que eu poderia assistir ao parto. Apesar de toda a animação e felicidade que aquela gravidez trazia, era difícil ouvir meus amigos e parentes falando sem parar no bebê. Eu tinha medo de ser deixada de lado quando ele chegasse. Algumas vezes, quando estava sozinha, não conseguia parar de pensar em tudo o que aquela criança tiraria de mim. O ressentimento superava a alegria.

Sentada na sala de parto naquele dia 17 de junho, sabendo que o bebê logo estaria ali, minhas inseguranças começaram a vir à tona. Como ia ser a minha vida? Seria um trabalho de babá interminável? Do que eu teria que abrir mão? Que medo de perder a atenção de minha mãe! Fui sacudida de meus pensamentos quando o médico anunciou que o bebê estava chegando.

Essa foi a experiência mais incrível da minha vida, porque o nascimento é reaImente um milagre. Quando o médico disse que era uma menina, chorei. Eu tinha uma irmãzinha!

Agora todos os meus medos e inseguranças passaram com a ajuda de uma família carinhosa e compreensiva. É claro que às veres eu sinto ciúme, mas não posso explicar como é especial ter uma pessoinha que me acena da janela todas as manhãs, quando eu vou para a escola, com sua mãozinha gorducha. É maravilhoso chegar em casa e nem ter tempo de tirar o casaco, pois minha irmãzinha vem correndo e começa a puxar minha roupa querendo que eu brinque com ela.

Foi muito importante ter esta irmã, porque ela me fez descobrir que amor não se divide. Amor se multiplica. Emma não me tirou nada e, pelo contrário, trouxe muitas coisas para a minha vida. Nunca jamais pensei que eu amaria um bebê tanto assim, e não trocaria por nada a alegria que sinto por ser a irmã mais velha.


 

DEIXANDO ESCAPAR UMA GRANDE GAROTA

JACK SCHLATTER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 72

 

Nunca vou me esquecer do dia em que vi pela primeira vez a garota dos meus sonhos. O nome dela era Susie Summers. Seus olhos estavam sempre brilhando, cheios de entusiasmo, e seu lindo sorriso que encantava as pessoas que o recebiam (especialmente os rapazes) se sentirem muito, muito especiais.

Apesar de sua beleza incrível, é do seu jeito carinhoso que eu sempre vou me lembrar. Ela realmente se importava com os outros e era uma ouvinte muito atenta. Seu senso de humor era capaz de tornar o dia mais bonito e suas palavras eram exatamente aquelas que você precisava ouvir. Susie não era só admirada, mas genuinamente respeitada tanto pelos meninos como pelas meninas.

Contudo tinha tudo para ser metida, ela era extremamente modesta.

Nem é preciso dizer que Susie era o sonho de qualquer cara. Especialmente o meu. Eu a levava até a sala de aula todo dia e até almocei sozinho com ela uma vez. Nesse dia eu me senti no topo do mundo.

Eu pensava: "Ah, se eu pudesse ter uma namorada como a Susie Summers, nunca mais olharia para outra mulher".  Mas eu disse a mim mesmo que uma menina assim tão maravilhosa provavelmente estava saindo com um cara muito melhor do que eu. Mesmo sendo o presidente da associação dos alunos, eu simplesmente sabia que não tinha nenhuma chance.

Então, na formatura, eu disse adeus à minha primeira grande paixão.

Um ano depois, encontrei a melhor amiga dela em um shopping e almoçamos juntos. Engasgado, perguntei a ela como estava a Susie.

- Bom, ela esqueceu você - foi a resposta.

- Do que você está falando? - perguntei.

- Você foi muito cruel, enrolando a Susie daquele jeito, sempre fazendo ela pensar que estava interessado. Lembra daquela vez em que você almoçou com ela? Susie ficou do lado do telefone o fim de semana inteiro. Tinha certeza de que você ia ligar convidando-a para sair.

Eu tinha tanto medo de ser rejeitado que nunca me arrisquei a dizer para ela o que sentia. E se eu tivesse convidado Susie para sair e ela tivesse dito não? Qual a pior coisa que poderia ter acontecido?

Eu não teria saído com ela. Sabe de uma coisa? Eu não saí com ela de qualquer jeito. E o pior é que eu poderia ter saído.

 

 

Você nunca perde amando. Sempre perde deixando de amar.

BARBARA DE ANGELIS

 


 

EU ME LEMBRO DE GILBERT

APRIL JOY GAZMEN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 74

 

Faz sete meses desde a última vez que vi a luz do quarto de Gil acesa. A Sra. Blithe acenou para mim da janela do quarto, na casa vizinha. Eu sorri, mas, por dentro, sentia-me entorpecida.

Jamais me esquecerei do dia em que conheci Gil e sua mãe. Eu tinha sete anos e meus pais me levaram para conhecer a nossa casa nova, nos arredores da cidade. Minha mãe tinha sido transferida e tivemos de nos mudar, deixando tudo para trás.

Sentia saudades de meu quarto e de meus melhores amigos, e não conseguia acreditar no quanto estava sendo perturbada por meus pais. A ideia de ter de frequentar uma escola nova era assustadora. Eu não teria com quem conversar e também não queria fazer novas amizades.

Quando chegamos à casa nova, de dois andares, meus avós estavam lá para nos dar as boas-vindas. Também vi uma mulher abraçando carinhosamente minha mãe. A Sra. Blithe tinha sido a melhor amiga dela na escola e, agora, era nossa vizinha de porta.

Mamãe me levou para conhecer meu quarto, no andar de cima, e eu me deixei despencar sobre a cama. Devo ter adormecido, porque, quando dei por mim, já estava escurecendo. Pela imensa janela do quarto, entrava uma música ensurdecedoramente alta. Olhei para fora e, em frente à minha janela, havia outra. Um garoto de roupas escuras olhava por um telescópio para o resplandecente céu noturno. Imediatamente, notei as luzinhas brancas de Natal cintilando no teto do seu quarto.

- Eu sou Gilbert Jim Jonathan Blithe. Mas pode me chamar de Gil.

- Sou Katharine Kennedy. Mas meu apelido é Katie - berrei de volta. "Nossa, que susto ele me deu!" Esse foi o nosso lindo começo. Naquele mesmo instante, percebi que gostava daquele vizinho esquisito. Gil tornou-se um irmão para mim. Ficávamos horas batendo papo e contando histórias um para o outro. Meu pai colocou uma escada de incêndio na minha janela e Gil passou a usá-la como entrada para o meu quarto. Era engraçado, ele nunca usava a porta da entrada. E tinha aquelas luzinhas no teto do quarto porque as estrelas e os planetas o fascinavam.

Quando as aulas começaram, fomos para a escola juntos, de bicicleta. Cuidávamos um do outro, ele evitando que eu me machucasse e eu mantendo-o longe de encrencas. Mais tarde, íamos para o parque brincar no trepa-trepa, mas o nosso lugar favorito era o quintal dos fundos da minha casa. A imensa acácia, com tábuas pregadas no tronco, era o nosso refúgio, onde criávamos mil histórias, encarnando os mais diversos personagens. Ninguém podia subir ali.

Os verões foram se passando e eu fiz treze anos. Gil me presenteou com as primeiras flores da primavera. Então, a Sra. Blithe contou à minha mãe que Gil estava internado com uma doença cardíaca grave e talvez precisasse de um transplante de coração. Quando soube, fiquei tão arrasada que tive a sensação de que eu também precisaria de um.

O hospital era sombrio. Uma prisão de paredes brancas, com uma comida horrorosa. Todas as refeições de Gil tinham cara de mingau. Prometi que levaria amendoins cobertos de chocolate no dia seguinte e sei que isso o deixou mais animado.

Quando Gil sentia que eu estava ansiosa ou prestes a chorar, me mandava olhar pela janela. "Deixe que as luzes do teto do meu quarto lhe digam que sempre estou lá", falava, baixinho.

Ele sempre encontrava uma forma de me fazer sorrir. Depois de um mês no hospital, Gil voltou para casa. Foi a primeira vez que entrei em seu quarto e tive uma sensação esquisita. Era tudo muito arrumadinho. Depois de saltar sobre a cama e atirar um travesseiro em mim, confessou que tinha sentido saudades do quarto. Eu confessei que tinha sentido ainda mais saudades dele. Ficava perturbada com a possibilidade de que nada mais fosse como antes, mas, em duas semanas, Gil já estava de pé e fazendo misérias. Tive certeza de que o problema tinha sido superado quando ele subiu até o meu quarto e comeu pizza comigo.

Antes que nos déssemos conta, Gil e eu estávamos começando o segundo grau. As aulas e as meninas o mantinham ocupado, mas ele estava sempre por perto. Apesar de ter de trabalhar, passamos verões ensolarados juntos. Como sempre, os dias vividos ao seu lado corriam rapidamente. Então, ele voltou a adoecer.

Durante o primeiro semestre de nosso último ano, Gil foi internado pela segunda vez. Primeiro achei que se tratava de um alarme falso, mas acabou sendo mais grave do que eu podia imaginar. A única coisa que eu podia fazer era orar para que ele melhorasse. A escuridão do quarto em frente ao meu me lembrava constantemente de que ele estava longe. Eu o visitava sempre no hospital, mas nunca sabia direito o que dizer. Falar que tudo ficaria bem era mentira, mas consolava nós dois.

Seu Natal foi passado num quarto frio de hospital. Ele estava decidido a ir à formatura comigo e eu lhe garanti que iríamos. Segurei sua mão e olhei fundo em seus olhos até eles pararem de fitar os meus. Nenhuma palavra foi dita. Ambos sabíamos o que estávamos sentindo. Ele me pareceu sereno ao se despedir.

Gravei seu rosto em minha memória naquele momento, por mais que doesse a minha alma. Ele se foi, e a minha primeira sensação foi de que aquilo não podia estar acontecendo.

Era um absurdo. Como podia um amigo, uma pessoa que sempre estivera comigo e que me fazia feliz, me deixar para sempre? Eu não tinha mais ninguém para me consolar.

Naquele momento, enquanto eu olhava para a janela de seu quarto e para as estrelas e planetas colados no teto, compreendi que ele sempre estaria ali: no meu quarto, no meu coração e nas minhas lembranças. Enxuguei as lágrimas e vi um garotinho acenando para mim. Até hoje, não consigo compreender por que não consegui dizer "eu te amo" para Gil, nem mesmo no último segundo. Talvez por saber que ele sentia o mesmo.

Eu logo partirei para a faculdade e estou triste por ele não estar por perto para rir das minhas piadas ou me consolar quando eu estiver triste. Mas, por obra de um garotinho que olhava o infinito céu noturno através de um telescópio, hoje sei que a amizade se estende além do tempo. Eu sempre me lembrarei de Gilbert e a luz de seu amor me diz que ele sempre estará por perto.


 

O QUE HÁ DE ERRADO

O MANUAL DO ORADOR

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 79

 

Uma professora recém-formada chamada Mary foi lecionar em uma reserva de índios navajos. Todos os dias ela pedia a cinco dos jovens alunos navajos que fossem até o quadro-negro e completassem um problema simples de matemática de seu dever de casa. Eles ficavam ali em silêncio, sem querer cumprir a tarefa. Mary não conseguia entender. Nada do que ela havia estudado em seu currículo pedagógico ajudava e ela não sabia como lidar com a situação.

"O que estão fazendo de errado? Será possível que eu tenha escolhido cinco alunos que não sabem resolver o problema?", Mary se perguntava. "Não, não pode ser isso." Finalmente, ela perguntou aos alunos o que havia de errado. E, na resposta de seus jovens alunos índios, aprendeu uma surpreendente lição sobre autoimagem e noção de valor próprio.

Eles explicaram que queriam se respeitar uns aos outros. E como sabiam que uns eram mais capazes e outros encontrariam dificuldade em resolver os problemas, não queriam exibir isso publicamente. Apesar de muito jovens, entendiam como era inútil e desrespeitosa a competição do tipo perde-ganha na sala de aula. Pensavam que ninguém sairia ganhando se algum aluno se exibisse ou ficasse encabulado diante do quadro-negro. Então se recusavam a competir uns com os outros em público.

Quando entendeu aquilo, Mary mudou o sistema, de modo a poder corrigir individualmente os problemas de matemática de cada criança, dedicando-se mais aos que tinham dificuldades. E mudou muitas coisas em sua vida ao compreender que todos nós queremos aprender - não para nos sobressairmos sobre os outros, mas para sermos mais felizes.


 

LINDA

JESSICA GARDNER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 81

 

Minha avó e eu compartilhamos um amor mútuo desde o dia em que nasci.

Vim ao mundo com a cabeça amassada e os traços deformados devido ao parto difícil vivido por minha mãe. Dois meses depois estava tudo no lugar, mas, naquele momento, parentes e amigos faziam “careta” diante do bebê desfigurado que eu era. Todos comentavam que eu me parecia muito com um jogador de futebol americano espancado.

Nana me achava linda. Seus olhos brilhavam, cheios de alegria e felicidade, diante do bebê horroroso que segurava nos braços.

Sua primeira netinha. "Linda", ela disse.

Antes das provas finais, no meu penúltimo ano do segundo grau, ela morreu.

Sete anos antes, os médicos tinham diagnosticado que ela era portadora do mal de Alzheimer. A família toda tornou-se especialista no assunto à medida que a perdíamos, pouco a pouco.

Ela falava em fragmentos. Com o passar dos anos, o número de palavras foi ficando cada vez menor até, finalmente, ela não dizer mais nada. Tínhamos sorte quando extraíamos uma palavrinha ocasional dela. Foi então que compreendemos que sua vida estava chegando ao fim.

Mais ou menos uma semana antes de minha avó morrer, seu corpo perdeu todas as funções vitais e os médicos decidiram removê-la para uma clínica de doentes terminais. Um local onde aqueles que entram jamais saem vivos.

Eu disse a meus pais que queria vê-la. Eu tinha de vê-la.

Minha vontade superava o medo paralisante que sentia.

Minha mãe me levou à clínica dois dias depois. Meu avô e duas de minhas tias também estavam lá, mas ficaram no corredor, enquanto eu entrava no quarto de Nana. Ela estava sentada numa poltrona enorme e confortável, ao lado de sua cama, com o corpo encurvado, os olhos fechados e a boca aberta, mole. A morfina a mantinha adormecida. Meus olhos percorreram o quarto, captando as janelas, as flores, a aparência de Nana. Eu lutava para absorver aquilo tudo, consciente de que aquela seria a última vez que a veria viva.

Lentamente, sentei-me à sua frente. Tomei a sua mão esquerda e a segurei, afastando uma mecha de cabelos brancos de seu rosto. Fiquei ali diante dela, sentada, sem me mover,

incapaz de sentir coisa alguma. Abri a boca para falar, mas nada saía. Eu não conseguia controlar a minha tristeza diante de sua aparência lamentável, sentada ali, completamente indefesa.

Foi então que aconteceu. Sua mãozinha foi se fechando em torno da minha, apertando mais e mais. Ela emitiu o que pareceu ser um pequeno gemido. Parecia chorar de dor. Então ela falou.

“JESSICA”.

Assim, claro como a luz do dia. Meu nome. O meu. Dos quatro filhos, dois genros, uma nora e seis netos, ela sabia que era eu.

Naquele momento, tive a impressão de estarem exibindo um filme com cenas de nossa família dentro de minha cabeça.

Vi Nana no meu batizado. Nos meus quatorze recitais de dança. Eu a vi sapateando no chão de nossa cozinha. Eu a vi apontando para as próprias bochechas enrugadas dizendo que eu herdara dela minhas imensas covinhas. Eu a vi brincando com os netos, enquanto os outros adultos faziam a ceia de Ação de Graças, e sentada ao meu lado na sala de nossa casa, no Natal, admirando a nossa árvore, decorada com enfeites luminosos.

Então olhei para ela e, ao ver como havia ficado, eu chorei.

Sabia que não assistiria ao meu último recital de dança; nem voltaria a torcer comigo pelo time de futebol. Nunca mais se sentaria ao meu lado para admirar a árvore de Natal. Sabia que não me veria sair, toda arrumada, para o baile de formatura, e que não estaria presente em meu casamento nem quando meu primeiro filho nascesse. E as lágrimas corriam, continuamente, pelas minhas faces.

Mas, acima de tudo, eu chorava porque finalmente compreendia como ela havia se sentido no dia em que nasci. Ela olhara através da minha aparência, enxergara lá dentro e vira uma vida.

Lentamente, tirei a sua mão de dentro da minha e enxuguei as lágrimas que molhavam meu rosto. Fiquei de pé , inclinei o corpo para a frente, beijei-a e disse:

- Você está linda.

E com uma última olhada, me virei e deixei a clínica.


 

O CAMPEÃO

NAILAH MALIK

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 90

 

Ele tinha o corpo de um peso-pena. Mas o que aquele garoto de quinze anos não tinha em força e velocidade, tinha em atitude.

Jason nunca faltava a um treino, embora raramente tivesse a oportunidade de jogar, e mesmo assim só nos minutos finais do jogo, quando nosso time estava pelo menos dois pontos na frente do adversário. Mas o número 37 nunca reclamava e sempre dava o melhor de si - mesmo que isso fosse bem pouco. Eu era o treinador do time. Certo dia, ele não apareceu no treino. Quando faltou no segundo dia, telefonei para a casa dele para saber o que estava acontecendo. Um parente distante me disse que o pai de Jason tinha morrido e que a família estava organizando o enterro. Duas semanas mais tarde, meu fiel número 37 compareceu novamente, pronto para treinar. Só faltavam três dias para o próximo jogo. Era a partida decisiva da temporada, contra nosso rival mais forte.

Quando chegou o grande dia, meus melhores jogadores estavam preparados para entrar em campo. Todos os rostos familiares se encontravam ali, menos um - Jason. De repente ele apareceu do meu lado e, com uma expressão e uma atitude completamente diferente, afirmou:

- Hoje eu vou dar a partida. Já estou pronto. - Não deu espaço para recusas ou argumentações. Quando o jogo começou, ele estava na sua posição em campo. O jogador titular no lugar de quem ele entrara estava sentado atônito no banco.

Naquele dia, Jason jogou como um craque. Sob todos os aspectos, ele estava igual, senão melhor, do que o melhor jogador do time. Corria rápido, encontrava todas as brechas e saltava depois de cada colisão como se nunca tivesse levado um golpe. Na metade do jogo, ele já tinha feito três pontos. Num desfecho triunfal, como se quisesse remover qualquer dúvida da mente de qualquer um, fez outro ponto nos últimos segundos da partida.

Enquanto corria para fora do campo com o resto do time, Jason recebeu uma saraivada de tapinhas nas costas e empurrões, embalados pelos aplausos ensurdecedores da multidão. Apesar de toda a adulação, Jason conseguiu manter sua atitude humilde, discreta. Surpreso com a súbita transformação, cheguei perto dele e perguntei:

- Jason, você estava extraordinário hoje. Quando fez o segundo ponto, tive que esfregar os olhos e me beliscar. Mas no final do jogo minha curiosidade me venceu. O que aconteceu com você?

Hesitante de início, Jason disse:

- Bom, treinador Williams, o senhor sabe que meu pai morreu faz pouco tempo. Quando o meu pai estava vivo, ele era cego e não podia me ver jogar. Mas, agora que ele foi para o céu, esta foi a primeira vez que ele pôde me ver jogar. E eu queria que ele ficasse orgulhoso.


 

DESIDERATA

MAX HERMANN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 93

 

Atravesse com tranquilidade o barulho e a pressa e lembre-se da paz que pode haver no silêncio. Tanto quanto possível, sem se render, relacione-se bem com todas as pessoas. Fale sua verdade com calma e clareza e ouça a dos outros. Mesmo os tolos e ignorantes também têm sua história.

Evite pessoas espalhafatosas e agressivas, elas são uma afronta para o espírito. Se você se comparar com os outros, poderá se tornar amargo ou fútil, porque sempre haverá pessoas melhores e piores do que você. Aproveite suas realizações, assim como seus planos.

Mantenha o interesse por sua própria carreira, não importa o quão humilde: ela é um verdadeiro bem nesses tempos que tanto mudam. Tenha cautela em seus negócios, pois o mundo é cheio de trapaças. Mas não deixe que isso cegue seus olhos para a virtude que pode existir nele. Muitas pessoas lutam por grandes ideais e, em todo lugar, a vida é cheia de heroísmo.

Seja você. Sobretudo, não finja afeição. Não encare o amor com cinismo, pois diante de toda aridez e desencantamento ele é perene como a grama.

Aceite com suavidade o conselho dos anos, entregando com graça as coisas da juventude. Cultive a força do espírito para protegê-lo em caso de súbita desgraça. Mas não se aborreça com conjecturas. Muitos medos nascem do cansaço e da solidão.

Além de uma disciplina saudável, seja gentil consigo mesmo.

Você é parte do universo. Assim como as árvores e as estrelas, tem o direito de estar aqui. E, quer isso esteja claro para você ou não, sem dúvida o universo está caminhando como deveria.

Assim, fique em paz com Deus, como quer que imagine que Ele seja. E, quaisquer que sejam seus fardos e aspirações em meio à confusão barulhenta da vida, fique em paz com sua alma.

Com toda sua falsidade, sua labuta e seus sonhos partidos, o mundo ainda é belo. Seja alegre. Lute para ser feliz.

 


 

O QUE É IMPORTANTE NA VIDA?

KATIE LEICHT, 17 ANOS

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 95

 

Durante todo o primeiro ano do científico, fiquei esperando a noite das Calouras- uma espécie de retiro organizado pelo colégio onde as calouras podiam conversar abertamente sobre suas vidas, interesses e problemas. Foi ótimo poder dividir meus medos e anseios com outras meninas, falar sobre os estudos, os estudos e, principalmente, sobre os meninos. Voltei para casa me sentindo ótima. Tinha certeza de que aprendera muito sobre as pessoas naquele encontro. Decidi colar os papéis e bilhetes que tinha recebido no retiro na minha agenda, que é onde guardo algumas das coisas de que mais gosto. Sem pensar muito, coloquei a agenda em cima da cômoda e terminei de desfazer as malas. Comecei a semana cheia de esperança. Mas, ao contrário do esperava, os dias seguintes ao retiro foram um desastre.

Uma amiga me magoou, tive uma briga com minha mãe e tirei uma nota baixa em inglês. Para completar, estava me sentindo feia e não sabia o que vestir no baile de fim de ano. Eu chorava todas as noites até cair no sono. Tinha imaginado que o retiro teria um impacto maior sobre a minha vida, me ajudando a ficar livre do estresse. Mas comecei a achar que tinha sido apenas um alívio temporário.

Acordei na manhã de sexta-feira com o coração pesado e de mau humor. Também estava atrasada. Vesti a roupa depressa e, quando bati a gaveta, minha agenda caiu de cima da cômoda e tudo o que estava dentro se espalhou pelo chão. Quando me ajoelhei para catar as coisas, 1 folha de papel dobrada chamou minha atenção. Minha chefe no retiro tinha escrito uma cartinha que eu esquecera de ler. Abri a folha e li:

 

A vida não é um placar. O importante não é quantas pessoas telefonam para você, nem com quem você saiu ou está saindo. Também não importa se você nunca namorou ninguém. O importante não é quem você beijou, que menino ou menina gosta de você. O importante não são seus sapatos, nem seus cabelos, nem a cor da sua pele, nem onde você mora, que esporte pratica ou o colégio que frequenta. Na verdade, o importante não são suas notas, seu dinheiro, suas roupas ou se passou ou não para a faculdade. Na vida, o importante não é ser aceito ou não pelos outros, não é ter muitos amigos ou estar sozinho. Na vida, nada disso é importante. O importante na vida é quem você ama e quem você fere. É como você se sente em relação a você mesmo. É confiança, felicidade e compaixão. É ficar do lado dos amigos e substituir o ódio por amor. O importante na vida é evitar a inveja, não querer o mal dos outros, superar a ignorância e construir a confiança. É o que você diz e o significado de suas palavras. É gostar das pessoas pelo que elas são e não pelo que têm. Acima de tudo, é escolher usar a sua vida para tocar a vida de outra pessoa de um jeito que a fará mais feliz. O importante na vida são essas escolhas.

 

Naquele dia eu me dei super bem na prova de inglês. No fim de semana, me reconciliei com minha amiga e tive coragem de telefonar para o menino de quem gostava. Passei mais tempo com minha família e me esforcei para dar atenção à mamãe. Cheguei até a encontrar um vestido lindo para a festa e me diverti muito. E tudo isso não aconteceu por sorte ou milagre. Foi por causa de uma mudança de sentimento e de atitude da minha parte. Percebi que algumas vezes bastava eu me sentar e lembrar das coisas realmente importantes na vida - como as que aprendi na Noite das Calouras.

Este ano estou me preparando para um novo retiro, agora como veterana. Mas guardo ainda aquele bilhete na minha agenda. Para eu poder relê-Io sempre que precisar lembrar o que realmente importante na vida.

 

 

O importante na vida é como tratamos uns aos outros.

HANA IVANHOE, 15 ANOS

 


 

UM PAI FAMOSO

AUTOR DESCONHECIDO

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 98

 

Um grande homem morreu hoje. Ele não era um líder mundial, nem um médico famoso, nem um herói ou um ídolo do esporte.

Não era um magnata dos negócios e vocês nunca viram o nome dele no jornal. Mas ele foi um dos melhores homens que já conheci. Esse homem era o meu pai.

Ele nunca esteve interessado em receber créditos ou honrarias. Fazia coisas banais, como pagar as contas em dia, ir à igreja aos domingos e ser diretor da Associação de Pais e Professores. Ajudava os filhos com o dever de casa e levava a mulher para fazer compras nas noites de quinta-feira. Achava o máximo levar seus filhos adolescentes e os amigos deles aos jogos de futebol.

Esta é a minha primeira noite sem meu pai. Não sei o que fazer.

Hoje me arrependo pelas vezes em que fui impaciente com ele, dei respostas malcriadas, ou não tomei conhecimento do que ele dizia. Mas estou agradecido por muitas outras coisas.

Estou agradecido por Deus ter me deixado ficar com meu pai por quinze anos. E fico feliz por ter podido dizer a ele o quanto o amava. Esse homem maravilhoso morreu com um sorriso no rosto e com o coração realizado. Ele sabia que era um grande sucesso como marido, como pai, como irmão, filho e amigo. Eu me pergunto quantos milionários podem afirmar isso.


 

UM ADMIRADOR PARA LAURA

DON CASKEY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 103

 

Na infância, minha amiga Ann não gostava do Dia dos Namorados. Era uma menina sem grandes atrativos - não chegava ser feia, mas também não era linda. O Dia dos Namorados é uma data fácil para as meninas comuns. Não era tão ruim quando estávamos no primário, quando os trinta cartõezinhos chegavam, um a um de cada coleguinha da turma.

Naquela época, ela fazia vista grossa para o fato de seus cartões não serem enormes como os das queridinhas da turma e não traziam os dizeres apaixonados dos das garotas bonitas.

Mais tarde, no ginásio, a troca de cartões no Dia dos Namorados deixou de ser obrigatória. Justo quando os anseios românticos brotavam, quando o desejo por admiradores e paqueras tornava-se mais forte e um admirador tornava-se mais necessário do que nunca, nem um único cartão chegou. Não para Ann. Não para qualquer garota comum, aonde quer que fosse. Admiradores eram só para as bonitinhas e para as queridinhas. Em momentos assim, histórias sobre patinhos feios que um dia crescerão para se transformar em lindos cisnes não aliviam a dor e a rejeição.

Como quis o destino (e ele costuma querer coisas assim), nos anos que se seguiram Ann foi ficando cada vez mais bonita e fazendo os rapazes virarem a cabeça para olhá-Ia. À medida que recebia mais e mais atenção e tinha mais e mais pretendentes, passou a se sentir - e, portanto, se tornar - realmente linda. Mas mesmo muitos anos depois, já adulta e mãe de família, não se esqueceu daqueles tempos de rejeição e tristeza.

Agora, Ana tem dois filhos que cursam o ginásio. No Dia dos Namorados, o grêmio estudantil cobra um dólar para entregar cravos, e Ann sempre dá dois dólares para cada filho.

Um dólar para que cada um compre um cravo para a respectiva namorada. O outro dólar vem junto com a seguinte instrução: "Escolham outra garota, uma que seja simpática, mas comum - alguém que provavelmente não receberá flor alguma. Mande uma flor para ela, anonimamente. Dessa forma, ela saberá que alguém gosta dela e se sentirá especial." Ann faz isso há anos, espalhando o Dia dos Namorados um pouco além de seu mundo.

Um ano, Laura - uma pessoa linda, mas de aparência comum - recebeu uma dessas flores. O filho de Ana contou que Laura ficou tão contente e surpresa que chorou. Carregou aqueIa flor o dia todo junto com os livros e conversava, feliz, com as amigas, tentando adivinhar quem seria o seu admirador.

Enquanto ouvia a história, a própria Ann teve de enxugar os olhos. Ela ainda se lembrava da solidão que sentia, muitas vezes, no Dia dos Namorados.


 

DESISTIR NÃO É PERDER

JAMES MALINCHAK

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 106

 

Uma experiência difícil, o exemplo de um amigo ou uma conversa com alguém que admiramos podem servir de inspiração para mudarmos nossa maneira de encarar a vida. Minha inspiração veio da minha irmã Vicki. Ela era uma pessoa gentil e carinhosa, não ligava para elogios e tudo o que queria era compartilhar seu amor com as pessoas de quem gostava: sua família e seus amigos.

No último verão, antes do meu primeiro ano de faculdade, recebi um telefonema do meu pai dizendo que Vicki tinha sido internada de emergência. Ela tinha passado mal e o lado direito do seu corpo estava paralisado. Os primeiros sintomas de que ela poderia ter sofrido um derrame. No entanto, os resultados dos testes mostraram algo muito mais sério: a paralisia era consequência de um tumor maligno no cérebro. Os médicos não davam a Vicki mais de três meses de vida. Fiquei completamente arrasado. Como aquilo podia estar acontecendo? No dia anterior, minha irmã estava bem, não sentia nada, era uma jovem saudável. Agora, estava entre a vida e a morte.

Depois de superar o choque inicial e o sentimento de vazio, decidi que Vicki precisava de esperança e incentivo. Ela precisava de alguém que a fizesse acreditar que poderia superar aquele obstáculo. Resolvi ajudá-la a vencer a doença. Todo dia visualizávamos o tumor encolhendo e só falávamos coisas positivas. Eu até colei um cartaz na porta do seu quarto no hospital com os dizeres: "se tiver pensamentos negativos, deixe-os do lado de fora. Nós fizemos um trato que se chamava 50-50. Eu lutaria 50% e ela lutaria os outros 50%.

Quando o ano letivo começou, eu não tinha certeza se deveria ir para a faculdade, a quase 5 mil quilômetros de distância, ou ficar com Vicki. Ela ficou brava por eu ter pensado nessa possibilidade e insistiu para eu não me preocupar, porque ela ia ficar bem. Ali estava Vicki, deitada em uma cama de hospital, me dizendo para não me preocupar. Percebi que, se ficasse poderia passar a mensagem de que ela estava morrendo e eu não queria que ela pensasse assim. Vicki precisava acreditar que poderia vencer a batalha contra o câncer.

Ir embora naquela noite, sentindo que poderia ser a última vez que eu veria minha irmã, foi a coisa mais difícil que já fiz.

Na faculdade, nunca parei de lutar meus 50% por ela. Toda noite, antes de dormir conversava mentalmente com Vicki, esperando que de alguma forma ela me ouvisse. Eu repetia:

"Vicki, estou lutando por você e nunca vou desistir. Não deixe de lutar, porque nós vamos vencer isso." Alguns meses se passaram e ela continuou aguentando firme. Certo dia, uma amiga me perguntou sobre o estado de Vicki. Eu disse que ela estava piorando, mas que não desistia.

Minha amiga, mais velha e experiente, fez uma pergunta que me deixou pensativo:

- Você acha que o motivo pelo qual Vicky não desistiu é porque não quer desapontar você?

- Será que ela estava certa? Será que eu era egoísta por encorajar Vicki a continuar lutando? Naquela noite, antes de dormir, tentei transmitir uma mensagem diferente para ela: "Vicki, eu entendo que você está sofrendo muito. Se preferir descansar, faça isso. Desistir não é perder. Se você quiser ir para um lugar melhor, eu entendo. Vamos ficar juntos de novo. Eu te amo e vou sempre estar com você." Na manhã seguinte, minha mãe telefonou bem cedo para avisar que Vicki tinha morrido.


 

SORRISO

BARBARA HAUCK, 13 ANOS

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 109

 

Ela sorriu para um desconhecido triste.

O sorriso pareceu fazê-Io se sentir melhor.

Ele se lembrou de gentilezas feitas por um amigo no passado e escreveu-lhe uma carta de agradecimento.

O amigo ficou tão contente com o agradecimento, que deixou uma grande gorjeta depois do almoço.

A garçonete, surpresa com o tamanho da gorjeta, apostou a quantia toda na loteria.

No dia seguinte, recolheu seus ganhos e deu parte deles para um homem na rua.

O homem ficou agradecido, pois havia dois dias que não comia. Depois de terminar seu jantar, dirigiu-se a seu quartinho sujo.

(Naquele momento ele não sabia que corria perigo de vida.) No caminho, recolheu um cachorrinho que tremia e levou-o para se aquecer em casa.

O cachorrinho ficou muito agradecido por estar ao abrigo da tempestade.

Naquela noite a casa pegou fogo.

O cachorrinho deu o alarme, latiu até acordar a casa inteira e salvou todo mundo.

Um dos meninos que escapou do incêndio virou um bom presidente quando cresceu.

Tudo isso por causa de um simples sorriso.

 


 

ASA PARTIDA

JIM HULLIHAN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 111

 

Algumas pessoas simplesmente nasceram para ser fracassadas. É assim que alguns adultos vêem adolescentes com problemas. Talvez você tenha ouvido o ditado: "um pássaro com as asas partidas nunca voará tão alto." tenho certeza de que as pessoas faziam T. J. Ware se sentir assim quase todos os dias no colégio.

No científico, T. J. Era o encrenqueiro mais famoso de sua cidade. Os professores literalmente torciam o nariz ao ver o nome dele em sua lista de chamada para o semestre seguinte. Ele não era muito falante, não respondia às perguntas e entrava em várias brigas. Ficava em prova final em quase todas as matérias e, no entanto, sempre passava de ano. Os professores não queriam tê-lo novamente no ano seguinte. T.J. estava indo para a frente, mas definitivamente não estava melhorando. Encontrei T. J. pela primeira vez em um fim de semana de retiro de líderes. Todos os alunos da escola haviam sido convidados para se inscrever no treinamento, criado para fazer com que os alunos se envolvessem mais em suas comunidades. T. J. Era um dos 405 alunos que tinham se inscrito. Quando apareci para comandar o encontro, os líderes da comunidade me fizeram uma descrição breve dos alunos presentes: "temos todos os tipos representados hoje, do presidente da associação estudantil a T. J. Ware, o menino com a maior ficha policial da história da cidade." de algum modo, eu sabia que não era o primeiro a ouvir falar do lado mais sombrio de T. J. Logo nas primeiras palavras de apresentação.

No início do retiro, T. J. Estava literalmente do lado de fora do círculo de alunos, encostado na parede dos fundos, com aquela expressão no rosto que dizia: "vamos lá, me impressionem." não participou realmente dos grupos de discussão, não parecia ter muito a dizer. No entanto, lentamente, os jogos interativos o atraíram. O gelo derreteu quando os grupos começaram a fazer uma lista das coisas positivas e negativas que tinham acontecido no colégio naquele ano. T. J. Tinha algumas opiniões fortes sobre o assunto. Os outros alunos do grupo recebiam bem seus comentários. De repente, T. J. Se sentiu parte do grupo e logo estava sendo tratado como um líder. Estava dizendo coisas que faziam muito sentido e todos estavam escutando.

T. J. Era um cara esperto e tinha algumas ótimas ideias. No dia seguinte, T. J. Foi muito ativo em todas as sessões. Ao final do retiro, ele tinha se juntado à equipe do projeto dos sem-teto. Sabia muita coisa sobre pobreza, fome e falta de esperança. Os outros alunos da equipe ficaram impressionados com suas preocupações e ideias apaixonadas. T. J. Foi eleito co-diretor da equipe. O presidente do conselho de alunos seria aconselhado por t. J. Ware.

Quando T. J. Apareceu no colégio na manhã de segunda-feira, chegou no meio de uma tormenta. Um grupo de professores estava reclamando com o diretor do colégio sobre o fato de ele ter sido eleito co-diretor. O primeiro projeto de serviços para a comunidade seria uma imensa carreata de alimentos, organizada pela equipe do projeto dos sem-teto. Aqueles professores não podiam acreditar que o diretor fosse deixar o começo crucial de um importante plano de ação de três anos nas mãos incapazes de T. J. Ware. "Ele tem uma ficha policial comprida como o seu braço. Provavelmente vai roubar metade da comida", argumentaram com o diretor. O sr. Coggshal lembrou-lhes que a finalidade do programa de líderes era descobrir qualquer paixão positiva que um aluno tivesse e encorajar sua prática até que uma verdadeira mudança pudesse ocorrer. Os professores deixaram a reunião balançando as cabeças de desgosto, firmemente convencidos de que o fracasso era iminente.

Duas semanas depois, T. J. e seus amigos lideraram um grupo de setenta alunos em uma carreata para coletar comida. Recolheram 2.854 latas de comida em apenas duas horas, o suficiente para encher as prateleiras vazias de dois centros comunitários do bairro. A comida supriu as necessidades das famílias carentes da área por 75 dias. No dia seguinte, o jornal local noticiou o acontecimento com uma matéria de página inteira.

O artigo foi afixado no principal quadro de avisos do colégio, onde todos pudessem vê-lo. A fotografia de T. J. Estava ali por algo incrível, por ter conseguido um recorde de arrecadação de comida. A cada dia, ele era lembrado pelo que tinha feito. Estava sendo reconhecido como alguém com o estofo de líder. T. J. Começou a aparecer no colégio todos os dias e, pela primeira vez, respondeu às perguntas dos professores. Liderou um segundo projeto, coletando trezentos cobertores e mil pares de sapatos para o abrigo dos sem-teto. O evento a que ele deu início hoje arrecada nove mil latas de comida em um dia, suprindo 70% da necessidade das famílias carentes da área por um ano. O exemplo de T.J. mostra que um pássaro com a asa partida precisa apenas de cuidados. No entanto, quando fica curado, pode voar mais alto do que os outros. T. J. Arrumou um emprego. Tornou-se produtivo. Está voando bem direitinho hoje em dia.

 

 

Você nasceu com asas. Por que preferir rastejar pela vida?

RUMI

 


 

ESTRELINHA, ESTRELINHA.

KELLY GARNETT

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 115

 

Quando eu tinha cinco anos, tomei um gosto todo especial pelos brinquedos de minha irmã. Pouco importava que eu tivesse um baú cheinho de bonecas e brinquedos só meus. Seus tesouros de "menina grande" eram muito mais atraentes.

Da mesma forma, quando eu tinha dez anos e ela doze, os brincos, a maquiagem que ela começava a usar me fascinavam, transformando minha obsessão anterior em capturar insetos numa lembrança cada vez mais remota.

Essa tendência continuou ano após ano e - a não ser por algumas manchas roxas e ameaças de "cortes de cabelo" radicais enquanto eu dormia - minha irmã lidou com ela com tolerância. Mamãe vivia repetindo para ela, quando comecei o primeiro grau usando suas presilhas de cabelo novas, que aquilo era, na realidade, um elogio ao seu bom gosto. Mamãe disse-lhe, quando comecei o segundo grau vestindo as suas roupas, que um dia ela acharia graça e me lembraria de que ela era a mais chique de nós duas.

Eu sempre tinha admirado o bom gosto de minha irmã, mas essa opinião chegou ao auge quando ela começou a trazer rapazes à nossa casa. Eu convivia com um desfile constante de meninos de dezesseis anos passando pela sala, servindo-se de comida na cozinha ou jogando basquete na entrada da garagem.

Recentemente, eu me dera conta de que meninos não eram tão "eca" como eu achava antes e que pegar uns germezinhos deles talvez não fosse tão nojento assim. Mas os garotos do primeiro ano, que tinham a minha idade e que me faziam dar risadinhas nervosas nos jogos de futebol, de repente me pareciam jovens demais. Não podiam dirigir ou usar as jaquetas do time principal da escola. Os amigos de minha irmã eram altos e engraçados. Embora ela tentasse de todas as maneiras se livrar de mim, eles sempre eram simpáticos comigo, mesmo enquanto ela me empurrava porta afora.

De vez em quando, eu dava sorte e eles passavam lá em casa quando ela não estava. Um deles, em especial, batia longos papos comigo antes de sair para fazer as coisas que garotos de dezesseis anos faziam (isso ainda era um mistério para mim). Ele falava comigo como falava com todo mundo e não como quem fala com uma criança, com  a irmãzinha de uma amiga... E sempre me dava um abraço de despedida antes de ir embora.

Não foi surpresa alguma que eu logo estivesse totalmente tonta por ele. Minhas amigas diziam que eu não tinha a menor chance com um rapaz do terceiro ano. Minha irmã parecia preocupada com a possibilidade de eu ter o meu coração partido. Mas ninguém escolhe por quem se apaixona: se ele é mais velho ou mais novo, mais alto ou mais baixo, o seu completo oposto ou igualzinho a você. Quando estava com ele, as emoções me atropelavam como uma carreta e eu sabia que era tarde demais para tentar ser sensata: eu estava apaixonada.

Isso não significava que não me desse conta da possibilidade de rejeição. Eu sabia que estava arriscando os meus sentimentos e o meu orgulho. Tinha consciência de que, se não lhe desse o meu coração, não haveria a menor possibilidade de ele o partir... mas também eu não correria o risco de perdê-lo.

Certa noite, antes de ele ir embora, ficamos sentados na varanda de frente da casa conversando e procurando estrelas no céu. Ele olhou para mim muito sério e perguntou se eu acreditava em fazer pedidos para as estrelas. Surpresa, mas igualmente séria, respondi que nunca havia tentado.

- Bem, então chegou a hora de começar - declarou, apontando para o céu. - Escolha uma e peça aquilo que você mais quer.

Olhei para cima e escolhi a mais brilhante que pude achar.

Fechei bem os olhos e senti o que parecia ser uma colônia inteira de borboletas em revoada dentro de meu estômago. Pedi coragem. Abri os olhos e me deparei com seu sorriso diante de meu intenso esforço para fazer o pedido. Ele me perguntou o que eu havia pedido e, quando respondi, me pareceu perplexo.

- Coragem? Para quê? - indagou.

Eu respirei fundo uma última vez e respondi:

- Para fazer isto. - E eu o beijei. Beijei aquele rapaz de dezesseis anos, com carteira de motorista e jaqueta do time principal da escola. Aquilo foi de uma bravura que jamais imaginei possuir, uma força que atribuí integralmente ao meu coração - força esta que dominou a minha mente e tomou o controle da situação.

Quando me afastei, vi o ar de espanto em seu rosto, uma expressão que se transformou em sorriso e, a seguir, em riso.

Depois de procurar o que dizer durante o que me pareceram ser horas, ele tomou minha mão e declarou:

- Bem, parece que demos sorte esta noite. Tanto o meu desejo quanto o seu se tornaram realidade.


 

A COISA CERTA A FAZER

KELLY GARNETT

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 119

 

A psicóloga se atrasara para a nossa hora. Eu estava sentada numa das cadeiras de plástico duro de sua sala e, apesar do contorcionismo para me acomodar, continuava desconfortável. Olhei para o garoto sentado ao meu lado, meu parceiro nesse crime. Pareceu-me perturbado, doído com a decisão que tínhamos tomado por puro desespero. Amigos há muitos anos, naquele momento nos sentíamos incapazes de animar um ao outro, pois estávamos perdidos em nossos próprios pensamentos e dúvidas.

Com o corpo formigando, fiquei atenta a tudo o que se encontrava à minha volta. O cheiro de lápis recém-apontado, a escrivaninha exageradamente organizada, tudo naquela sala revelava a rígida disciplina da psicóloga que iria nos atender. Comecei a questionar se tínhamos escolhido a pessoa certa para nos ajudar a salvar nossa amiga. A psicóloga chegou sorrindo e pedindo desculpas por ter se atrasado. Sentou-se e nos olhou cheia de expectativa. Eu tive a sensação de que esperava que anunciássemos que ela acabava de ganhar na loteria, em vez de contar a história de dor e frustração que ambos ocultávamos há tempos. Por um instante, fiquei paralisada pelo pânico. Era difícil imaginar como Suzie, minha melhor amiga, reagiria ao descobrir que as duas pessoas em quem mais confiava a tinham traído. E me preocupava também com o que aconteceria comigo.

Será que ela vai me odiar? Será que nunca mais vai querer falar comigo? Além de toda a dor que ela certamente sentiria, eu tinha medo de perder minha melhor amiga.

- Kelly, por que não começa me contando por que vocês dois estão aqui? - sugeriu a psicóloga. Olhei para o meu amigo mais uma vez e seus olhos tristes confirmaram que estávamos fazendo a coisa certa.

Quando comecei a contar a história de Suzie, minha incerteza deu lugar a uma sensação de alívio. Carregar o fardo emocional de uma amiga que se matava lentamente era demais para uma garota de quatorze anos, e eu já não agüentava mais.

Como uma corredora exausta, estava passando o bastão para que outra pessoa o carregasse.

Minha narrativa emocionada e entre cortada foi dando forma à história de Suzie. Falei de como ríamos de sua estranha mama de partir a comida em pedacinhos minúsculos, sem jamais nos darmos conta de que, ao fazê-lo, ela levava mais tempo para comer menos. De como colaborávamos com as críticas que Suzie fazia a ela mesma, sobretudo de como se achava gorda. Nós ríamos, fingindo concordar, sem saber que, no fundo, no fundo, ela não estava brincando.

A culpa ia escalando a minha garganta à medida que eu relatava fato após fato, pois agora compreendia que eram sinais de que Suzie tinha um problema muito sério. Não sei bem por que nós nos recusamos a ver que seu estado se deteriorava a cada dia. Só quando já era quase tarde demais é que finalmente nos demos conta do que estava acontecendo: Suzie estava doente, de corpo e de alma. Ela sofria de depressão e de anorexia.

Contei o que me levara a procurar ajuda. Algumas semanas atrás, eu estava sentada ao lado de Suzie, desviando a vista das olheiras e das maçãs do rosto já muito saltadas, enquanto ela me contava que, agora, já não comia quase nada e que, sem nenhum motivo explicável, costumava chorar durante horas. Enquanto falava, eu comecei a chorar. Não conseguia controlar as lágrimas e experimentava uma sensação de absoluta impotência. O ponto ao qual minha amiga tinha chegado me apavorava e o medo em minha voz era nítido quando revelei o segredo de Suzie: ela estava procurando uma forma de escapar à dor, à tristeza, ao sentimento de inadequação que agora era constante em sua vida. Suzie achava que se matar, talvez, fosse a única maneira de escapar ao sofrimento.

Quando terminei de falar, recostei-me na cadeira, incrédula. Eu tinha revelado todos os segredos que me foram confiados sob a condição de jamais repeti-los. Eu acabava de destruir o aspecto mais sagrado de nossa amizade: a confiança. A confiança que levara tempo, amor, boas e más experiências para ser construída e que havia sido quebrada em dez minutos, traída pelo desamparo, pelo desespero e pelo fardo que eu não podia mais carregar. Eu me sentia fraca. Naquele momento, eu me odiei. E odiei Suzie.

Ela não precisou que lhe explicassem por que estava sendo chamada à secretaria. Olhou para mim, para o namorado sentado ao meu lado, para o olhar preocupado da psicóloga. As lágrimas de fúria que brotavam em seus olhos deixaram Claro que ela compreendia perfeitamente bem. Quando começou a chorar de raiva e de alívio, a psicóloga, carinhosamente, mandou que Aaron e eu voltássemos para a sala de aula e fechou a porta atrás de nós.

Não voltei para a aula imediatamente. Fiquei perambulando pelos corredores da escola, tentando entender tudo aquilo. Embora soubesse que, provavelmente, tinha acabado de salvar a vida de minha amiga, eu não me sentia uma heroína.

Ainda me lembro da tristeza e do medo que tomaram conta de mim: eu estava certa de que meus atos acabavam de me custar uma das melhores amigas que jamais tivera. Mas, uma hora depois, Suzie voltou da sala da psicóloga e, com lágrimas nos olhos, atirou-se em meus braços em busca de um abraço de que nós duas precisávamos.

Foi só então que me dei conta de que, por mais furiosa que estivesse comigo, ela ainda precisava da melhor amiga para ajudá-Ia a chegar ao fim daquela jornada extremamente difícil.

E assim eu aprendi uma das primeiras lições sobre o que é crescer e sobre o que é uma verdadeira amizade - pode ser duro, até mesmo apavorante, mas quando gostamos de alguém e queremos o seu bem devemos seguir o impulso do coração.

Um ano depois, Suzie me deu uma cópia de sua foto do álbum da escola. Nela, aparecia com as faces outra vez rosadas, e o sorriso luminoso do qual eu sentira tanta saudade enfeitava o seu rosto. No verso, a mensagem:

Kelly você sempre esteve pronta para me ajudar, mesmo contra a minha vontade. Muito obrigada. Agora, não há como se livrar de mim - serei sua amiga para sempre. Te amo, Suzie.


 

SE

RUDYARD KIPLING

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 124

 

Se você é capaz de manter a calma quando todos ao seu redor já a perderam e o culpam por isso;

Se você é capaz de confiar em si mesmo quando todos estão duvidando, mas levar em consideração esta desconfiança;

Se você é capaz de esperar e não se cansar da espera,

Ou, ao ser vítima de mentiras, não mentir para se defender,

Ou, sendo odiado, não deixar se levar pelo ódio,

E ainda assim não parecer bom demais nem muito sábio;

Se você pode sonhar sem deixar que os sonhos o dominem;

Se pode pensar sem deixar que o pensamento seja o seu único objetivo;

Se pode lidar com o triunfo e a desgraça, estes dois impostores, da mesma maneira;

Se pode agüentar a dor de ouvir a sua verdade ser transformada em mentira para enganar os tolos,

Ou ver destruídas todas as coisas que você dedicou a vida para construir, e empenhar-se em refazê-Ias com os poucos recursos que lhe restam;

Se é capaz de arriscar numa única aposta tudo o que acumulou durante toda sua vida,

E, ao perder, começar tudo de novo, desde o ponto de partida, sem dizer uma palavra sobre a sua perda;

Se é capaz de forçar seu coração, nervos e músculos exaustos a servirem seus objetivos, e a persistir quando nada mais há em você senão sua vontade que lhe diz: "Prossiga";

Se você pode falar às multidões sem perder sua virtude, ou estar entre reis sem perder a sua naturalidade;

Se nem seus inimigos nem seus melhores amigos podem lhe fazer mal, e se todos podem contar com você, mas ninguém depende de você;

Se você é capaz de se dedicar os sessenta segundos de cada minuto ao trabalho, então a Terra será sua, com tudo o que existe no mundo. E você, o que é mais importante, será um homem, meu filho!


 

OS LILASES FLORESCEM TODA PRIMAVERA

Revista Blue Jeans

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 127

 

 

Hoje é um daqueles dias ruins. Tudo parece fora do meu alcance, mas tudo especialmente com o trabalho da aula de psicologia. O estúpido projeto de final de ano é levar uma foto que representa um momento realmente feliz da nossa infância.

O problema não foi escolher uma foto - eu soube imediatamente qual  levaria. Em cima da minha escrivaninha tem um porta retrato com uma foto minha, aos oito anos, ao lado da vovó Sherrie, que já morreu. Era primavera e ela tinha me levado de ônibus até um festival de lilases nos corredores da cidade. Passamos a tarde cheirando as flores, de olhos fechados, inclinadas sobre botões de lilás. A foto foi tirada por um velhinho muito engraçado, que nos contou histórias hilariantes enquanto nos levava até o ponto de ônibus no final da tarde. Nunca o vimos de novo, mas, olhando para trás, me pergunto se ele não teve uma queda pela vovó Sherrie.

Olhando a foto enquanto espero o fim da minha hora de almoço, sei que a beleza da minha avó não está ali - cabelos curtos, lisos e grisalhos, olhos levemente saltados. O nariz é grande demais e a testa muito alta. Ela é baixinha e um pouco atarracada. Ao seu lado, segurando firme na sua mão, eu sou uma cópia dela, menor e mais jovem. Tínhamos até os mesmos pés estreitos, magros, de dedos inacreditavelmente compridos. Tínhamos. Agora já não acho tão divertido rir dos meus pés ridículos, como fazia quando estava com ela.

Quando minha avó morreu, há dois anos, eu me senti perdida. Por isso, não tive dúvidas sobre a foto que levaria para a aula. Não posso perder esta oportunidade de trazê-la de volta um pouquinho que seja e de celebrar as marcas que ela deixou na vida. Mas sei que poucas pessoas - talvez nenhuma – vão apreciar o presente que eu quero compartilhar com uma certa timidez e ansiedade.

Sento na minha carteira, aliviada por ter chegado sã e salva.

Não sei por quê, mas é no momento da entrada na escola que eu me sinto mais isolada. Cercada de pessoas, fico mais consciente do que nunca do quanto estou longe delas. Não tenho ninguém para andar ao meu lado, contando fofocas. Vejo essas pessoas todos os dias, às vezes passo bem perro delas. Mas são quase como os estranhos com que cruzo na rua. Nem sequer nos olhamos nos olhos.

À medida que as pessoas entram na sala, fico ali sentada com a foto no colo, emoldurada pelas minhas mãos. Por que eu não trouxe outra? Por que tive tanta certeza de que minhas palavras poderiam explicar o que sinto?

A professora vai até a frente da sala. Não gosto especialmente dela, nem ela de mim. Ela prefere os alunos que ficam depois da aula para conversar sobre namorados e outros assuntos que me interessam pouco. Eu fico depois da aula para lhe mostrar artigos sobre novos tratamentos para autismo. Queria que ela gostasse de mim, embora não consiga respeitá-la.

Ela pede voluntários para começar as apresentações. Sorri para mim, que estou na primeira fila (onde mais eu estaria?), numa atitude de expectativa. Eu me levanto, a perfeita voluntária-para-ir-primeiro. Uma voz vem lá de trás:

- Aposto que ela trouxe uma foto da sua primeira enciclopédia: não, desculpe, essa está pendurada em cima da lareira.

Olhos, todos aqueles olhos em cima de mim, com aquele olhar vazio reservado para as pessoas que se observa sem prestar atenção.

- Esta é uma foto da minha avó Sherrie comigo, quando eu tinha oito anos. Ela me levou a um festival de lilases. Era um evento anual - evento? Eu deveria ter dito outra coisa - lá tinha todo tipo de lilases, espécies raras e comuns, cor-de-rosa, roxos e brancos. Foi maravilhoso - chato.

Abaixei os olhos para a foto. A mulher e a menina, de mãos dadas, emolduradas por uma sebe alta salpicada de pontinhos de botões de lilás. As duas parecem prestes a sair para conquistar o mundo, só as duas, com seus sapatos feitos para caminhar.

- Quando olho para esta foto, quase posso sentir o perfume dos lilases. Especialmente agora, na primavera. Foi um passeio maravilhoso. Depois que voltamos para casa, minha avó fez macarrão para mim e me deixou pôr lascas de chocolate no meu sorvete... - estou saindo um pouco do assunto. Estou perdendo o público que nunca tive.

- Mas foi um dia maravilhoso, como eu disse. É difícil lembrar de outro dia como esse. Minha avó ficou doente quando eu tinha nove anos... - de repente, lágrimas escorrem pelo meu rosto - e nunca mais ficou boa. - Hora de sair correndo, fugir, ou pelo menos sentar.

Desabo na cadeira, agarrada à foto. Nenhum aplauso.

Abruptamente, com um ar excessivamente animado, a professora chama outra pessoa. A aula logo termina, mas parece que dez ou doze anos se passaram. Quando o sinal toca, eu me misturo à multidão no corredor.

Falando em dia ruim...

Mas, como se diz, sempre existe um amanhã. Isso, para mim, significa que não adianta passar por hoje, porque você vai ter que fazer tudo de novo em menos de vinte e quatro horas.

Mas aqui estou eu, no dia seguinte, chegando apressada para a aula de física. Acabei me atrasando porque deixei minha pasta cair e tive que recolher a papelada espalhada pelo chão. Todo mundo me olha. No dia anterior eu quebrei duas regras importantes: não só demonstrei emoção excessiva como também confessei que eu realmente me importava com algo tão inusitado quanto uma avó. Bom, num dia eu sou invisível e no outro sou objeto de chacota pública. Ambas situações pouco invejáveis. Caminho até o meu lugar. Em cima da cadeira há um saco de papel. Esperando encontrar um uniforme de ginástica e um par de tênis malcheirosos, olho para dentro.

Ai. Ai. Meu Deus! Minhas pernas ficam moles.

A sacola está cheia de galhos de lilás. Aspiro seu perfume com minha alma, posso senti-lo como um pedaço de mim que pensei que tivesse murchado e morrido. Será que eu ainda estou no mundo real? Levanto os olhos (todos ainda me observam com olhos de peixe morto). Mas tem que ter sido um deles, algum rebelde sentimental disfarçado. Qual deles?

Tiro a sacola e me sento. A professora fica irritada.

- Vamos começar, pessoal? Suas apresentações de ontem vão contar...

Há um pedaço de papel no meio dos botões. Abro e leio estas duas linhas:

Nós encontraremos nosso direito de ser. Até os lilases florescem toda primavera.

 

No final das contas, todos nós só queremos ser amados.

JAMIE YELLIN, 14 ANOS


 

TENHO SÓ DEZESSETE ANOS

JOHN BERRIO

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 132

 

A agonia dilacera minha mente. Sou uma estatística. Quando cheguei aqui, me sentia muito sozinho. Estava tomado pela tristeza e esperava encontrar algum conforto.

Não encontrei. O que vi foram milhares de outras pessoas com os corpos tão estraçalhados quanto o meu. Recebi um número e fui colocado em uma categoria. A categoria se chamava "Mortes no trânsito".

 

O dia em que morri era um dia normal de colégio.

Como queria ter pego o ônibus! Mas eu era bom demais para o ônibus. Agora me lembro de como peguei o carro da mamãe.

- Um favor especial - implorei. - Todo mundo dirige.

Quando o sinal das 2:50h tocou, joguei meus livros no escaninho. Livre até amanhã de manhã! Corri para o estacionamento, animado com a idéia de dirigir um carro e ser dono do meu próprio nariz.

Não importa como o acidente aconteceu, eu estava fazendo besteira - correndo demais, assumindo riscos malucos. Mas estava aproveitando minha liberdade e me divertindo. A última coisa de que me lembro foi de ultrapassar uma senhora que parecia estar indo muito devagar. Ouvi um estrondo e senti um tranco terrível. Vidro e aço voaram para lodo lado. Todo o meu corpo pareceu virar do avesso. Ouvi meu próprio grito.

De repente, acordei. Tudo estava em silêncio. Um policial estava de pé ao meu lado. Vi um médico. Meu corpo estava estraçalhado. Eu estava coberto de sangue. Havia pedaços de vidro partido por todo lado. Achava estranho não sentir nada. "Ei, não ponham esse lençol em cima da minha cabeça.

Não posso estar morto. Tenho só dezessete anos. Tenho um encontro hoje à noite. Tenho uma vida maravilhosa pela frente. Ainda nem vivi. Não posso estar morto!" Mais tarde, fui colocado em uma gaveta. Meus pais vieram me identificar. Por que precisavam me ver desse jeito?

Por que eu precisava olhar nos olhos da mamãe enquanto ela enfrentava o pior calvário da sua vida? Papai pareceu subitamente muito velho. Ele disse ao encarregado:

- É, é o nosso filho.

O enterro foi estranho. Vi todos os meus parentes e amigos andarem na direção do caixão. Eles olharam para mim com os olhos mais tristes que já vi. Alguns dos meus amigos estavam chorando. Algumas das meninas tocavam na minha mão e soluçavam enquanto se afastavam.

"Por favor, alguém me acorde! Me tire daqui." Não posso suportar ver mamãe e papai sofrendo tanto. Meus avós estão tão fracos de dor que mal conseguem andar. Meu irmão e minha irmã parecem zumbis. Andam como robôs. Em transe. Todo mundo. Ninguém pode acreditar nisso. Eu também não posso acreditar.

"Por favor, não me enterrem! Não estou morto! Tenho muita vida para viver! Quero rir e correr de novo. Quero cantar e dançar. Por favor, não me ponham no chão! Prometo que se o senhor me der só mais uma chance, Deus, vou ser o motorista mais cuidadoso do mundo. Tudo o que quero é mais uma chance. Por favor, Deus, eu tenho só dezessete anos."


 

GOSTE DAS PESSOAS PRIMEIRO

KENT NERBURN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 135

 

Craig, um grande amigo da faculdade, trazia energia e vida a qualquer lugar aonde chegasse. Quando você falava, ele prestava tanta atenção que você se sentia incrivelmente importante adoravam.

Certo dia ensolarado de outono, Craig e eu estávamos sentados em nossa área habitual de estudo. Olhei pela janela e vi um dos meus professores atravessando o estacionamento.

- Não quero esbarrar com ele - eu disse.

- Por que não? - perguntou Craig.

Expliquei que, no semestre anterior, o professor e eu tínhamos nos desentendido. Eu me ofendera com alguma coisa que ele tinha dito e ele, por sua vez, ofendeu-se com a minha resposta.

- Além disso - acrescentei -, o cara não gosta de mim.

Craig observou a figura que passava lá embaixo.

- Talvez você tenha entendido mal - ele disse. - Talvez você esteja se afastando porque tenha medo de ser rejeitado.

E ele provavelmente acha que você não gosta dele, então não é simpático. As pessoas gostam de quem gosta delas. Se você mostrar interesse por ele, ele vai se interessar por você. Vá falar com ele.

As palavras de Craig foram direto ao ponto. Hesitante, desci as escadas até o estacionamento. Cumprimentei meu professor efusivamente e perguntei como tinha sido o seu verão. Ele me olhou com genuína surpresa. Caminhamos um pouco conversando, e eu podia imaginar Craig me olhando da janela com um grande sorriso.

Craig tinha me ensinado um princípio simples, tão simples que eu não podia acreditar que nunca tivesse pensado naquilo antes. Como a maioria dos jovens, eu era inseguro e começava todos os meus contatos com medo do julgamento dos outros - quando, na verdade, eles também estavam preocupados com o meu julgamento.

Daquele dia em diante, passei a me esforçar para reconhecer que os outros têm necessidade de estabelecer uma conexão e de compartilhar algo sobre suas vidas. Descobri um mundo de pessoas que nunca teria conhecido de outra maneira.

Uma vez, por exemplo, viajando de trem pelo Canadá, comecei a conversar com um homem que todos evitavam porque ele cambaleava e enrolava a língua como se estivesse bêbado. Na verdade, ele estava se recuperando de um derrame. Tinha sido engenheiro naquela mesma linha que estávamos percorrendo e passou a viagem me contando histórias fascinantes passadas naquela ferrovia.

Quando o trem foi se aproximando da estação, ele segurou a minha mão e me olhou nos olhos:

- Obrigado por ouvir. A maioria das pessoas não se daria ao trabalho. - Ele não precisava ter me agradecido. O prazer tinha sido todo meu.

Em uma esquina barulhenta da cidade de Oakland, na Califórnia, uma família me parou pedindo indicações e descobri que eram turistas da isolada costa norte da Austrália.

Perguntei-lhes como era a vida onde moravam. Em pouco tempo, tomando café, eles me deleitaram com histórias sobre lugares e costumes que eu nunca tinha conhecido.

Cada encontro tornou-se uma aventura, cada pessoa uma lição de vida. Ricos, pobres, poderosos e solitários: todos tinham tantos sonhos e dúvidas quanto eu. E cada um deles tinha lima história única para contar, bastava alguém querer ouvir.

Um velho vagabundo com a barba por fazer me contou como tinha alimentado sua família durante a depressão, dando tiros de espingarda em um lago e recolhendo os peixes atordoados que flutuavam na superfície. Um guarda de trânsito me revelou como tinha aprendido seus gestos observando toureiros e maestros. E uma jovem esteticista compartilhou comigo a alegria que sentiu ao ver os moradores de um asilo sorrindo depois que ela cortou e penteou seus cabelos.

Quantas dessas oportunidades nós deixamos passar. A garota que todos acham feiosa, o menino de roupas esquisitas – essas pessoas têm histórias para contar, assim como você, com certeza. E, como você, elas sonham com alguém que queira ouvir.

Foi isso que Craig me ensinou. Goste das pessoas primeiro, faça perguntas depois. Descubra que a luz que você projeta nos outros se reflete em você multiplicada por cem.

 

 

Quanto mais sabemos, melhor perdoamos.

Aquele que sente profundamente sente por todos os que vivem.

MADAME DE STAEL

 


 

CORAÇÃO BRILHANTE

JENNIFER LOVE-HEWITT

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 139

 

No ano passado fui convidada para participar numa festa beneficente, organizada por uma instituição que ajuda crianças portadores do vírus da AIDS. Eles me chamaram porque sou atriz em um seriado de televisão, e eu fui por solidariedade.

Acho que a maioria das crianças não me reconheceu como uma celebridade. Eu era apenas uma garota grande que tinha ido brincar com elas naquele dia. Preferi assim.

No pátio da instituição havia vários tipos de barraquinhas.

Mas as crianças tinham se aglomerado ao redor de uma em especial e pintavam pequenos recortes de tecido. Os quadrados seriam costurados para fazer uma colcha de retalhos que seria dada de presente a um dos diretores que tinha dedicado grande parte da sua vida à organização e agora estava se aposentando.

Todo mundo recebeu tintas para tecido de cores alegres e brilhantes. As crianças se dedicaram a pintar alguma coisa que fizesse a colcha ficar bem bonita. Olhando para os quadrados já prontos, vi corações cor-de-rosa, nuvens azuis, um lindo pôr-do-sol alaranjado e flores verdes e roxas. Todos os desenhos eram coloridos, positivos e animadores. Exceto um.

a menino sentado ao meu lado estava pintando um coração, mas era um coração escuro, vazio, sem vida. Não tinha as cores vibrantes que seus colegas tinham escolhido.

No início, pensei que talvez ele tivesse usado a única tinta que sobrara. Mas, quando quis saber o que tinha acontecido, ele me disse que o coração era daquela cor porque o seu próprio coração estava se sentindo escuro. Perguntei-lhe por que, e ele me respondeu que tanto ele quanto sua mãe estavam muito doentes. E acrescentou que os dois nunca iriam melhorar. Ele me olhou direto nos olhos e falou:

- Ninguém pode fazer nada para ajudar.

Eu disse que sentia muito que ele estivesse doente e que certamente podia entender por que estava tão triste. Entendia até por que ele pintara o coração com uma cor escura. Mas expliquei que não era verdade que ninguém podia fazer nada para ajudar. Talvez as pessoas não fossem capazes de fazê-lo e a mãe dele ficarem curados, mas havia algumas coisas que podiam ser feitas.

- Na minha experiência - eu disse -, aprendi que dar abraços bem apertados ajuda de verdade quando se está triste.

Se você quiser, eu ficaria feliz em lhe dar um abraço.

O menino imediatamente pulou nos meus braços e pensei que meu coração fosse explodir com o amor que senti por aquele menino.

Ele ficou sentado no meu colo por um bom tempo e desceu para terminar o desenho. Perguntei-lhe se estava se sentindo melhor e ele respondeu que sim, mas que ainda estava doente e nada iria mudar aquilo. Eu disse que entendia.

Deixei-o de coração apertado, desejando cada vez mais poder ajudar aquelas crianças.

No final do dia, eu estava me aprontando para ir para casa quando senti alguém puxar meu casaco. Quando me virei, o menininho estava ali de pé, com um sorriso no rosto. Ele disse:

- Meu coração está mudando de cor. Está ficando mais brilhante... Acho que aqueles abraços apertados funcionam mesmo.

No caminho de casa, senti que meu próprio coração também tinha mudado para uma cor mais brilhante.

 

 

O maior presente é um pedaço de você mesmo.

RALPH WALDO EMERSON

 


 

EU VOU VOLTAR

JACK CAVANAUGH

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 142

 

Ao se aproximarem da porta do quarto do hospital, Linda e Bob Samele se prepararam. "Mantenha a calma”, disse Linda para si mesma, enquanto girava a maçaneta. "Não vai querer deixá-Io pior do que ele já está." Naquela tarde de chuva e neve do dia 23 de dezembro de 1988, seu filho de 15 anos, Chris, estava dirigindo, com cinco amigos, da cidade natal dos Samele, Torrington, em Connecticut, até a cidade próxima de Waterbury. Subitamente, os risos dos adolescentes se transformaram em gritos quando o carro derrapou em um pedaço de gelo e bateu em uma cerca. Três dos jovens, incluindo Chris, foram jogados pela janela traseira. Um morreu na hora, outro se feriu gravemente.

Chris fora encontrado sentado no canteiro entre as duas pistas, com os olhos arregalados diante do rio de sangue que esguichava de sua coxa esquerda. Seis metros adiante estava sua perna esquerda, amputada no joelho por um cabo da cerca. Ele foi levado ao Hospital Waterbury para ser operado. Seus pais tiveram que esperar quase sete horas para vê-Io.

Agora, os olhos de Linda se encheram de água ao ver seu filho na cama do hospital. Bob, um carteiro de Torrington, segurou a mão de Chris.

- Pai, eu perdi a perna - disse o jovem baixinho para seu pai. Bob aquiesceu e apertou sua mão com mais força. Depois de um curto silêncio, Chris acrescentou:

- O que vai acontecer com a minha carreira de basquete?

Bob Samele lutou para controlar suas emoções. O basquete tinha sido a paixão de Chris desde a mais tenra infância e ele já estava se tornando uma lenda na região. Na temporada anterior, como aluno da sétima série do Colégio St. Peter, atingira a média notável de 41 pontos por jogo. Agora, na oitava série, Chris somara um total de 62 pontos em dois jogos intercolegiais.

- Algum dia vou jogar em Notre Dame, na frente de milhares de pessoas - dizia Chris a seus pais com um sorriso. - E vocês vão estar assistindo.

Olhando para o filho, Bob Samele procurou as palavras:

- Sabe, Chris - conseguiu dizer finalmente -, tem muita gente na sala de espera, incluindo o treinador Martin. O rosto de Chris se iluminou. Então, com uma voz determinada, ele disse:

- Pai, diga ao treinador Martin que eu vou voltar na próxima temporada. Vou voltar a jogar basquete.

Chris foi submetido a mais três cirurgias na perna em sete dias. Desde o início, os cirurgiões viram que a confusão de nervos, artérias e músculos rompidos tornava impossível reimplantar o membro arrancado. Chris precisaria de uma prótese.

Durante as três semanas e meia que passou no hospital, ele teve um fluxo constante de visitantes.

- Não se sinta mal por minha causa - dizia Chris, quando percebia pena no olhar das pessoas. - Eu vou ficar bem. - Por trás de sua boa disposição havia uma força de vontade inabalável, forjada pela fé religiosa. Muitos de seus médicos e enfermeiros não entendiam aquilo.

- Como você está lidando com isso tudo, Chris? - perguntou certo dia um psiquiatra. - Você alguma vez sente pena de si mesmo?

- Não - respondeu o garoto. - Não vejo como isso poderia ajudar.

- Não sente amargura ou raiva?

- Não - disse Chris. - Tento ser positivo sobre isso tudo.

Quando o persistente psiquiatra finalmente foi embora do seu quarto, Chris disse a seus pais:

- Quem precisa de ajuda é ele.

Chris trabalhou duro no hospital para recuperar sua força e coordenação. Quando se sentia forte o bastante, encestava uma bola de espuma no aro que um amigo tinha pregado na parede perto da sua cama. Sua intensa terapia incluía exercícios para a parte superior do corpo, por causa das muletas, e exercícios para melhorar o equilíbrio.

Duas semanas depois de Chris entrar no hospital, os Samele apostaram em uma terapia adicional: levaram-no em uma cadeira de rodas para assistir a um jogo de basquete no científico de Torrington.

- Fiquem de olho nele o tempo todo - avisaram os enfermeiros, preocupados com sua reação.

O garoto ficou estranhamente calado ao ser empurrado para dentro do ginásio barulhento. Mas, enquanto ele passava na frente das arquibancadas, seus amigos e colegas começaram a gritar seu nome e a acenar. Então o diretor-assistente do científico de Torrington, Frank McGowan, anunciou nos alto falantes:

- Temos um amigo muito especial aqui esta noite. Pessoal, vamos dar as boas-vindas a Chris Samele!

Estupefato, Chris olhou em volta e viu que todas as novecentas pessoas no ginásio tinham se levantado, gritando e aplaudindo. Os olhos do garoto se encheram de lágrimas. Era uma noite que ele jamais esqueceria.

No dia 18 de janeiro de 1989, pouco menos de um mês depois do acidente, Chris pôde voltar para casa. Para continuar os estudos, ele recebia todas as tardes a visita de um professor particular. Quando não estava estudando, estava no Hospital Waterbury fazendo fisioterapia. A dor física, às vezes muito intensa, passou a fazer parte da sua vida cotidiana. Algumas vezes, enquanto assistia à televisão com seus pais, ele se balançava para a frente e para trás, numa reação silenciosa à dor em sua perna amputada.

Então, em uma tarde gélida, Chris pegou suas muletas com grande esforço e deu a volta na casa até a antiga garagem onde aprendera a arremessar. Colocando as muletas no chão, pegou uma bola de basquete e olhou em volta para ter certeza de que ninguém estava olhando. Finalmente, pulando na perna direita, começou a arremessar a bola na cesta. Várias vezes ele perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Todas as vezes ele se levantou, pulou para recuperar a bola e continuou a arremessar. Quinze minutos depois, estava exausto. "Isto vai levar mais tempo do que pensei", disse para si mesmo, enquanto começava a lenta caminhada de volta para casa.

Chris colocou sua primeira prótese no dia 25 de março, uma Sexta-Feira Santa. Animado com sua nova perna, perguntou a Ed Skewes, diretor do departamento protético e ortopédico, se aquilo significava que ele poderia começar a jogar basquete imediatamente. Surpreso ao ver Chris falando sério, Skewes respondeu:

- Vamos com calma, um dia de cada vez. - O médico sabia que uma pessoa geralmente precisa de cerca de um ano para andar confortavelmente com uma prótese, quem dirá praticar esportes.

No porão de casa, Chris passou longas horas aprendendo a andar com sua perna artificial. Por mais que fosse difícil arremessar com uma perna só, ele achava ainda mais difícil com a prótese. A maioria de seus arremessos passava longe da cesta e com frequência ele caía no chão.

Depois de um dia particularmente desanimador, Chris perguntou à mãe se ela realmente achava que ele voltaria a jogar.

- Você vai ter que se esforçar ainda mais - respondeu ela. Mas, sim, eu acho que você consegue. - Ele sabia que ela estava certa. O segredo era trabalhar duro e se recusar a desistir.

Chris voltou para o científico de Torrington no começo de abril e imediatamente voltou a se enturmar - menos na quadra de basquete. Depois da aula, os amigos de Chris iam jogar em uma quadra ao ar livre. Durante várias semanas, ele ficou observando do lado de fora, enquanto eles passavam correndo. Então, em uma tarde no início de maio, ele saiu vestido para jogar. Seus amigos, surpresos, abriram caminho enquanto ele entrou na quadra sem hesitar.

Chris começou a arremessar e sentia um arrepio todas as vezes em que a bola entrava na cesta. Mas quando tentava passar com a bola, dando pulinhos na direção da cesta, ou pular para um rebote, caía no chão.

- Vai lá, Chris, você consegue! - gritavam seus amigos. Mas Chris sabia a verdade: ele não conseguiria, não como antes.

Em um jogo durante um torneio de verão, ele subiu com força para um rebote e quebrou o pé da prótese. Enquanto pulava para fora da quadra, pensou: "Talvez eu esteja só me enganando. Talvez não seja capaz de fazer isso."

No final das contas, no entanto, disse a si mesmo que só havia uma coisa a fazer: esforçar-se ainda mais. Começou um programa diário de arremessos, dribles e levantamento de pesos.

Depois de cada sessão de exercícios, tirava com cuidado a perna artificial e as quatro meias suadas que usava para amortecer a prótese. Depois tomava banho, grunhindo baixinho enquanto passava sabão em cima das bolhas. Em pouco tempo, a dor foi amainada pelo sentimento de que ele estava tendo lampejos do antigo Chris. "Eu vou conseguir. E não ano que vem. Este ano!" Na segunda-feira depois do Dia de Ação de Graças, o treinador principal do time do colégio, Bob Anzellotti, reuniu o grupo de garotos, todos nervosos e ansiosos, que competiam por uma vaga no time de basquete júnior do científico de Torrington. Seus olhos se detiveram em Chris Samele.

Durante os dois dias de testes, ninguém se esforçara mais do que Chris. Ele driblava, compunha a defesa, mergulhava atrás de bolas perdidas - fazia o que quer que tivesse que fazer para mostrar a todo mundo que ainda podia jogar. Chegava até a dar dez voltas em torno do ginásio todo dia com os outros - correndo bem mais devagar do que o resto, mas indo sempre até o fim.

Na manhã seguinte ao último treino, Chris juntou-se à multidão para olhar a lista de convocados. "Você fez tudo que pôde", disse a si mesmo enquanto espiava a lista por cima dos ombros dos outros. E ali estava - Samele. Ele estava de volta ao time!

Mais tarde, naquela semana, o treinador Anzellotti chamou seus jogadores para uma reunião.

- O time de cada ano tem um capitão, escolhido pelo exemplo que dá aos outros. O capitão deste ano vai ser... Chris Samele. - Os jogadores explodiram em aplausos.

Na noite do dia 15 de dezembro, apenas oito dias antes do primeiro aniversário do acidente, duzentas e cinquenta pessoas tomaram seus lugares para assistir ao jogo que marcaria a volta de Chris à quadra de basquete.

No vestiário, a mão de Chris tremia ligeiramente enquanto ele vestia a camisa marrom do time.

- Vai dar tudo certo, Chris - disse o treinador Anzellotti.

- Só não espere muito logo na primeira noite. - Chris concordou com a cabeça.

- Eu sei - disse ele baixinho. - Obrigado.

Logo ele estava correndo para a quadra com o resto do time para o treinamento antes do jogo. Praticamente toda a arquibancada se levantou para aplaudir. Emocionados ao verem seu filho novamente com o uniforme do científico de Torrington, Linda e Bob seguraram as lágrimas. "Meu Deus", rezou Linda, "não deixe que ele se envergonhe." Apesar de seu esforço para se acalmar, Chris levou seu nervosismo para a quadra. Durante o aquecimento, a maioria dos seus arremessos bateu no aro.

- Calma, relaxe - sussurrou o treinador Anzellotti. - Não fique afoito.

Quando os jogadores finalmente foram para o centro da quadra para o início do jogo, Chris estava na posição de defesa.

Com a primeira bola, começou a jogar de modo tenso e esquisito. Conseguia levar o jogo, mas seus movimentos eram desajeitados, ele estava sem ritmo. Várias vezes, ao arremessar a bola, ela sequer tocava o aro da cesta. Geralmente, quando isso acontece, os adolescentes nas arquibancadas provocam: "Bola no ar! Bola no ar!" Desta vez, ficaram calados.

Depois de jogar por oito minutos, Chris teve um longo descanso. Faltando dois minutos para o meio tempo, tornou a entrar em quadra. "Vamos lá, Chris", disse ele a si mesmo, "foi para isso que você trabalhou. Mostre a eles que você consegue." Segundos depois, ele conseguiu ficar livre a seis metros da cesta e um jogador do seu time lhe deu um passe. Era uma distância difícil para qualquer um - uma cesta de três pontos. Sem hesitação, Chris se firmou e fez um arremesso alto, em arco. A bola voou até a cesta e passou bem pelo meio dela.

O ginásio explodiu em gritos e aplausos.

- É isso aí, Chris! - gritou Bob Samele, com a voz embargada de emoção.

Um minuto depois, Chris pegou um rebote entre um emaranhado de braços. Pulando, arremessou a bola na tabela. Mais uma vez ela caiu em cheio dentro da rede. E novos aplausos explodiram.

As lágrimas corriam pelo rosto de Linda Samele, enquanto ela olhava seu filho pular pela quadra, com o punho levantado, triunfante. "Ele conseguiu." Chris continuou a jogar muito bem, para delírio da multidão. Só uma vez perdeu o equilíbrio e desabou no chão. Quando soou o final da partida, ele fizera onze pontos e Torrington vencera.

Mais tarde, naquele dia, em casa, Chris deu um largo sorriso:

- Eu fui bem, não fui, pai?

- Você foi ótimo - respondeu Bob, dando um abraço apertado no filho.

Depois de conversar rapidamente sobre o jogo, Chris subiu as escadas para seu quarto, ainda com uma expressão de felicidade.

Seus pais sabiam que, para ele, aquela noite era só o começo.

Enquanto apagava as luzes, Linda se lembrou de uma tarde logo depois do acidente, quando ela estava trazendo seu filho de volta da fisioterapia. Chris estava calado, olhando pela janela do carro, quando, de repente, quebrou o silêncio:

- Mãe, acho que sei por que isso aconteceu comigo.

- Por quê? - Linda perguntou, surpresa.

Ainda olhando pela janela, Chris disse simplesmente:

- Deus sabia que eu ia aguentar. Ele salvou a minha vida porque sabia que eu ia aguentar.

 

 

Nota do editor: Samele, em seguida, entrou para o time principal de basquete do científico de Torrington durante seu segundo e terceiros anos. Chris também jogou simples e duplas no time de tênis do colégio. Ele jogou no time de tênis do Western New England College em Springfield, Massachuserrs, e jogou basquete no Western New England e em ligas de verão na área de Torrington. Samele quer ser treinador de basquete.

 

 

Embora o mundo esteja cheio de sofrimento,

também está cheio de superação do sofrimento.

HELEN KELLER

 


 

COMO MASSAGEAR UM EGO

KIRK HILL

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 152

 

Sr. Rickman, nosso professor de psicologia, não costuma passar o mesmo tipo de deveres dos outros professores, tais como ler mil páginas, responder às perguntas ao final do capítulo, solucionar os problemas de 47 a 856. Ele é bem mais criativo do que isso.

Sr. Rickman apresentou o dever de quinta-feira passada, dizendo que o importante é um meio de comunicação.

- Nossos atos falam mais alto do que as palavras. Esta não é uma frase vazia - ele nos disse. - O que as pessoas fazem nos diz algo sobre o que estão sentindo.

Ele fez uma pequena pausa para que absorvêssemos aquilo antes de passar o dever. .

- Agora, vejam se conseguem mudar uma pessoa, massageando o ego dele ou dela o bastante para que você perceba uma mudança em seu comportamento. Relataremos os resultados na aula da semana que vem.

Quando cheguei em casa naquela tarde, minha mãe estava sentindo uma imensa pena dela mesma. Percebi isso ao passar pela porta. Os cabelos caíam sobre o rosto, a voz mais parecia um lamento e ela ficava suspirando enquanto preparava o jantar. Nem ao menos me dirigiu a palavra quando cheguei. Como ela não falou, eu também não falei.

O jantar foi um tanto triste. Papai não estava com mais vontade de falar do que mamãe ou eu. Decidi colocar o meu dever de casa em ação.

- Mãe, sabe aquela peça que o clube de artes dramáticas da universidade está encenando? Por que você não vai com o papai hoje à noite? Ouvi dizer que é ótima.

- Esta noite não dá - disse meu pai. - Tenho uma reunião importante.

- Naturalmente - comentou mamãe. E eu compreendi o que a estava incomodando.

- Bem, então por que não vai comigo? - perguntei.

Imediatamente, desejei não ter feito aquele convite. Imagine só um rapaz do segundo grau ser visto saindo à noite com a mãe! De qualquer maneira o convite ficou ali, pairando no ar, e mamãe perguntou, toda animada:

- Jura, Kirk?

Engoli em seco algumas vezes.

- Claro. Por que não?

- Mas rapazes não costumam sair com as mães. - Seu tom de voz foi ficando cada vez mais agradável e ela prendeu as mechas de cabelos soltos em cima da cabeça.

- Não existe nenhuma lei dizendo que a gente não pode sair com a mãe - brinquei. - Vá se arrumar. Nós vamos sair.

Mamãe carregou alguns pratos até a pia. Agora, seus passos estavam leves em vez de arrastados.

- Deixe que Kirk e eu lavamos a louça - ofereceu papai, e mamãe chegou a sorrir para ele.

- Você foi muito gentil em fazer isso - disse papai, quando mamãe deixou a cozinha. - Você é um filho muito atencioso. "Graças à aula de psicologia”, pensei, um tanto deprimido.

Mamãe voltou à cozinha parecendo cinco anos mais nova do que há uma hora - Você tem certeza de que não vai sair com mais ninguém esta noite? - insistiu ela, como se não pudesse acreditar no que estava acontecendo.

- Agora, eu vou - respondi. - Vamos nessa!

A noite acabou não sendo tão desagradável assim. A maioria dos meus amigos certamente fez algo de mais empolgante naquela noite do que assistir a uma peça de teatro. Os que foram ver a mesma peça não ficaram nem um pouco surpresos de me ver com minha mãe. Ao final da noite, ela estava genuinamente feliz, e eu próprio, bastante satisfeito. Não só me dei super bem no dever de casa como também aprendi um bocado sobre como fazer alguém feliz.

 

 

 

Se você tratar um indivíduo como ele é, ele permanecerá como é.

Mas se você o tratar como se fosse o que deveria ser,

ele se transformará no que deveria e poderia ser.

GOETHE

 


 

MEU IRMÃO MAIS VELHO

LISA GUMERICK

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 155

 

Nunca pensei que fosse sentir falta das meias mal-cheirosas do meu irmão espalhadas pelo chão ou da música que ele ouvia no volume máximo sempre que estava em casa. Mas, desde que ele foi para a faculdade, sinto meu coração apertado. Estou morrendo de saudades. Sempre fomos muito próximos, apesar da diferença de idade - eu tenho quatorze anos.

Meu irmão é um cara fora do comum, inteligente e gentil.

Além disso, minhas amigas vivem suspirando pelos cantos e dizendo que ele é lindo. Mas o que me faz sentir tanto orgulho é o jeito como ele lida com as coisas, como trata os amigos e a família, como se importa com as pessoas. É assim que eu quero ser. Se vocês não se importarem, eu gostaria de explicar o que quero dizer...

Ele se candidatou a quatorze faculdades e foi aceito em todas, menos na que queria, a Brown University. Então optou pela segunda escolha. Tudo correu bem no primeiro ano de faculdade, mas ele não estava satisfeito. Ao voltar para casa nas férias de verão, ele contou que tinha bolado uma estratégia para entrar na Brown. Queria saber se nós o apoiaríamos.

Seu plano era se mudar para Rhode Island, perto da Brown, arrumar um emprego e fazer tudo o que pudesse para ficar conhecido na área. Ele trabalharia duro e tinha certeza de que alguém iria notá-lo. Não era uma decisão fácil para meus pais, porque significava concordar que ele ficasse um ano fora da faculdade, o que para eles era assustador. Mas meus pais confiavam no meu irmão e o encorajaram a fazer o que achasse necessário para realizar seu sonho.

Não demorou muito para ele ser contratado como produtor de peças de teatro - é, adivinharam - na Brown. Era sua chance para brilhar, e ele brilhou. Nenhuma tarefa era grande ou pequena demais. Ele se dedicou totalmente ao trabalho. Conheceu professores e administradores, contou a todo mundo sobre seu sonho e nunca hesitou em dizer-Ihes o que estava buscando.

E no final do ano, é óbvio, quando ele tornou a se candidatar à Brown, foi aceito.

Ficamos todos extremamente felizes e eu senti enorme orgulho do meu irmão. Aprendi uma lição importante – uma lição que ninguém poderia ter me ensinado com palavras, uma lição que eu poderia aprender vendo com meus próprios olhos. Se eu der duro pelo que quero, se continuar tentando mesmo depois de ser rejeitada, meus sonhos também podem-se realizar. Este é um presente que eu ainda guardo no coração. Por causa do meu irmão, eu confio na vida.

Recentemente, fui sozinha a Rhode Island para visitá-Io e tive uma semana sensacional, sem adultos por perto. Na noite anterior à minha volta, estávamos conversando sobre vários assuntos quando meu irmão, olhando nos meus olhos, disse o quanto gostava de mim. Apertando minha mão, ele pediu que cu nunca fizesse nada que não achasse certo, por mais que os outros insistissem. Também disse para eu confiar sempre no desejo do meu coração.

Chorei durante toda a viagem de volta, sabendo que meu irmão e eu seríamos sempre amigos e me dando conta da sorte que é ser sua irmã. Uma coisa estava diferente: eu não me sentia mais uma garotinha. Parte de mim havia crescido naquela viagem e pela primeira vez pensei na grande tarefa que me esperava em casa. Tenho uma irmã dez anos mais nova e quero ajudá-la a fazer as escolhas certas. Hoje sei como é importante ter um ótimo professor.

 

 

Primeiro diga a si mesmo o que gostaria de ser e depois o que tem que fazer.

EPICTETO

 


 

O CUSTO DA GRATIDÃO

RANDAL JONES

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 158

 

Quando eu tinha uns treze anos meu pai costumava me levar para pequenos passeios aos sábados. Algumas vezes íamos ao parque, ou à marina, olhar os barcos. Eu também adorava visitar as lojas de bugigangas, onde podíamos admirar os aparelhos eletrônicos. De vez em quando, comprávamos alguma coisa barata só para desmontá-Ia juntos.

No caminho de volta desses passeios, papai sempre parava na sorveteria, onde tomávamos sorvete de casquinha. Sempre não, algumas só algumas vezes. E nunca sabia se íamos parar ou não, mas esperava ansioso, torcendo desde a hora em que pegávamos o rumo de casa até aquela esquina decisiva, de onde iríamos direto para o sorvete ou viraríamos e voltaríamos para casa de mãos vazias. Aquela esquina significava animação e na boca ou decepção.

Às vezes, meu pai me provocava, voltando para casa pelo caminho mais comprido.

- Só estou vindo por aqui para mudar um pouco - dizia ele, enquanto passava pela frente da sorveteria sem parar. Era um jogo, não estou falando de tortura.

Nos melhores dias ele perguntava, como se fosse novidade:

- Quer um sorvete de casquinha?

E eu respondia:

- Que ótima ideia, pai! - Eu sempre pedia de chocolate e ele, de creme. Tomávamos o sorvete no carro. Eu amava meu pai e amava sorvete, então aquilo era o paraíso.

- Naquele dia fatídico, estávamos a caminho de casa e eu aguardava o lindo som da sua oferta. E ela veio:

- Quer um sorvete de casquinha hoje?

- Que ótima ideia, pai!

Mas, então, ele acrescentou:

- Também acho ótima, filho. Não quer pagar hoje?

O sorvete custava vinte centavos! Vinte centavos! Minha cabeça girava. Eu podia pagar. Ganhava uma mesada de vinte e cinco centavos por semana, mais uns trocados por serviços eventuais. Mas economizar dinheiro era importante.

Papai tinha me dito. E, quando se tratava do meu dinheiro, sorvete simplesmente não era um bom investimento.

Por que não percebi que aquela era uma oportunidade de ouro de dar alguma coisa àquele pai tão generoso?

Por que não pensei que ele já me comprara cinquenta sorvetes e que eu nunca comprara nenhum para ele? Mas tudo em que eu conseguia pensar era: "Vinte centavos!"

Em um acesso de ingratidão, eu disse as palavras feias pelas quais nunca me perdoei:

- Bom, nesse caso, acho que vou desistir.

Meu pai respondeu apenas:

- Está bem, filho.

Mas, assim que fizemos a curva a caminho de casa, percebi o quanto estava errado e implorei para que ele desse meia-volta.

- Eu pago - supliquei.

Mas ele disse apenas:

- Tudo bem, a gente não precisa de sorvete mesmo!- E se recusou a ouvir minhas súplicas. Fomos para casa.

Fiquei me sentindo péssimo por meu egoísmo e minha ingratidão. Ele não jogou aquilo na minha cara, nem agiu como se estivesse desapontado ou ressentido. Mas acho que meu pai não poderia ter encontrado maneira melhor de me ensinar.

Aprendi que a generosidade tem mão dupla e que a gratidão algumas vezes custa um pouco mais do que "obrigado".

Naquele dia, a gratidão teria custado vinte centavos, e aquele teria sido o melhor sorvete que eu jamais teria tomado.

Na semana seguinte, fizemos outro passeio e, quando estávamos nos aproximando da esquina decisiva, eu disse:

- Pai, quer um sorvete de casquinha hoje? Eu pago.


 

UM AMOR PERDIDO

T. J. LACEY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 163

 

Não sei por que deveria lhes contar isto. Eu não sou nada de especial. Não há nada que tenha acontecido comigo em minha vida inteirinha que não tenha acontecido com praticamente todo mundo deste planeta.

A não ser pelo fato de eu ter conhecido Rachel.

Nós nos conhecemos na escola. Nossos armários ficavam lado a lado e compartilhávamos aquele mesmo cheiro de folha dl' caderno novo, de tênis apenas começando a tomar o formato do pé e recortes com as fotos de nossos músicos favoritos presos com durex por dentro das portas dos armários.

Ela era linda e seu ar confiante indicava que tinha de estar namorando alguém. Alguém que fosse especial naquela escola.

Eu? Eu estava dando um duro danado para continuar no time de atletismo e para tirar notas que me permitissem ser aceito na

Faculdade onde meus pais estudaram quando tinham a minha idade.

No dia em que conheci Rachel, ela sorriu e disse "oi".

Depois de olhar dentro daqueles carinhosos olhos castanhos, tive de sair correndo como se aquela fosse a primeira e última corrida de minha vida. Corri dezesseis quilômetros naquele dia e praticamente não perdi o fôlego.

Passamos o segundo semestre do ano conversando e rindo dos professores, de nossos pais e da vida em geral, e discutindo o que faríamos quando nos formássemos. Estávamos, os dois, no último ano e era muito bom sentir-se "o rei do pedaço" por algum tempo.

No final das contas, ela não estava namorando ninguém - o que era incrível. Havia terminado com um sujeito do time de natação durante as férias e não estava saindo com ninguém.

Eu nunca me dera conta de que podia conversar de verdade com alguém - com uma garota, eu quero dizer - do jeito que conversava com ela.

Então, um dia, o meu carro - uma lata velha que meu pai tinha comprado para mim justamente porque jamais correria - não quis dar partida. Era um daqueles dias cinzentos e frios de outono e parecia que ia chover. Rachel passou por mim no estacionamento da escola, no conversível azul-turquesa do pai, e perguntou se podia me levar a algum lugar.

Eu entrei. Ela estava ouvindo o último cd de David Byrne e cantava com ele. Sua voz era bonita, bem mais bonita do que a de Byrne - mas também, ele não passa de um sujeito magrice10, nada parecido com Rachel.

- E então, aonde quer ir? - perguntou, e seus olhos tinham um brilho de quem sabia alguma coisa a meu respeito que eu ignorava.

- Para casa, eu acho - respondi. Então criei coragem e acrescentei: - a não ser que queira dar uma passada pelo Sonic.

Ela não disse nem sim nem não, mas foi direto para o restaurante drive-in. Comprei algo para ela comer e ficamos ali sentados, conversando mais um pouco. Ela me olhou com aqueles olhos que pareciam enxergar tudo o que eu sentia e pensava. Seus dedos roçaram os meus lábios e tive certeza de que nunca sentiria algo mais forte por uma garota.

Rachel me contou como tinha vindo parar naquela cidadezinha. O pai era diplomata em Washington e, ao se aposentar, quis que ela fosse criada como uma garota de cidade do interior.

Mas nada foi capaz de mudar seu jeito. Ela era sofisticada, segura e parecia sempre saber o que dizer. Ao contrário de mim. Mas ela fez alguma coisa se abrir dentro do meu coração.

Ela gostava de mim e, de repente, passei a gostar de mim também.

Ela apontou para o para-brisa.

- Olhe só - disse, rindo. - A gente embaçou as janelas. - E, enquanto a luz do dia desaparecia, eu me lembrei de minha casa, de meus pais, de meu carro.

Rachel me levou em casa e me deixou com um ''até amanhã" e um aceno. Aquilo foi o bastante. Eu tinha conhecido a garota dos meus sonhos.

Depois daquele dia, começamos a sair, mas eu não diria que estávamos namorando. Nós nos encontrávamos para estudar e sempre acabávamos conversando e rindo das mesmas coisas.

Nosso primeiro beijo? Eu nunca contei isto para meus amigos porque eles achariam graça, mas foi ela quem me beijou da primeira vez. Estávamos sozinhos em minha casa, na cozinha. O único barulho que eu ouvia era o tique-taque do relógio. Ah, sim, e o meu coração martelando nos ouvidos como se fosse explodir.

Foi um beijo suave e breve. Depois, ela olhou no fundo dos meus olhos e me beijou outra vez - e dessa vez não foi um beijo tão suave nem breve. Eu sentia o seu perfume e tocava os seus cabelos e, naquele momento, senti que poderia morrer e me alegrar por isso.

- Até amanhã - disse ela, e caminhou em direção à porta.

Eu não consegui dizer coisa alguma. Simplesmente a olhei partir e sorri.

Nós nos formamos e passamos o verão nadando, fazendo caminhadas, pescando, colhendo amoras e escutando suas músicas favoritas. Rachel tinha de tudo: de rhythm and blues a rock pesado e até mesmo clássicos como Vivaldi e Rachmaninoff. Eu me senti vivo como nunca havia me sentido antes. Tudo o que eu via, todos os aromas que sentia, tudo aquilo que tocava, era novo.

Estávamos deitados sobre uma manta no parque, certa vez, olhando para as nuvens. O rádio tocava jazz.

- Precisamos nos deixar - disse Rachel. - Já é quase época de irmos para a faculdade. - Ela deitou de bruços e olhou para mim.

- Vai sentir saudades minhas? Vai pensar em mim de vez em quando? - e por um décimo de segundo achei que percebera em seu olhar uma certa dúvida, algo bem diferente de sua autoconfiança usual.

Eu a beijei e fechei os olhos de forma a não perceber mais nada além dela, única e exclusivamente ela. O seu cheiro, o seu sabor, o seu toque.

- Você é eu - declarei. - Como posso sentir saudades de mim mesmo?

Mas lá no fundo eu me sentia como se estivesse morrendo por dentro. Ela estava certa: cada dia que passava significava que estávamos chegando mais perto de nossa separação.

Tentamos agir como se nada estivesse prestes a acontecer, como se nosso mundo não fosse mudar completamente em pouco tempo. Ela não falava em comprar roupas novas para levar para a faculdade, e eu não falava sobre o carro novo que meu pai tinha me dado. Continuamos a agir como se o verão fosse durar para sempre, como se nada pudesse nos mudar, nada pudesse mudar o nosso amor. E eu sei que ela me amava.

Estamos quase na primavera. Eu logo começarei o segundo ano de faculdade.

Rachel nunca escreve.

Ela disse que devíamos deixar tudo como estava, e não sei bem o que ela quis dizer com isso. Seus pais compraram uma casa na Virgínia, então eu sei que ela não voltará para a nossa cidadezinha.

Hoje, ouço música com mais frequência, sempre olho duas vezes quando vejo um conversível azul-turquesa e presto mais atenção em tudo: na cor do céu e na brisa que sopra por entre as árvores.

Ela é eu e eu sou ela. Onde quer que esteja, ela sabe disso. Tudo o que vivi e aprendi com Rachel está incorporado ao meu ser. Sempre que penso nela, jogo meu desejo para o universo, pedindo que o acolha. Acredito que a resposta que vier será para o bem de nós dois.

 

 

O amor é a dificílima percepção de que algo além de nós mesmos é real. IRIS MURDOCH

 


 

UM A PARA A SRA. B

KARINA SNOW

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 169

 

Estava sentada ao lado de Missy na aula de história geral do primeiro ano quando a Sra. Bardett anunciou um novo projeto. Em grupos, deveríamos escrever um jornalzinho sobre um dos temas que estávamos estudando.

Num pedaço de papel, anotamos os nomes dos três amigos com quem gostaríamos de trabalhar. Depois de recolher os pedidos, a Sra. B disse que levaria em consideração os nomes selecionados por nós e que nos daria o resultado no dia seguinte. Eu não tinha a menor dúvida de que ficaria no grupo de minha escolha. Havia apenas um punhado de pessoas socialmente aceitáveis naquela turma e Missy era uma delas.

Eu sabia que tínhamos nos escolhido, uma à outra.

No dia seguinte, fiquei aguardando a aula de história ansiosamente. O sinal tocou e Missy e eu paramos de conversar quando a Sra. B pediu a nossa atenção. Começou a ler os nomes. Ao chegar ao grupo três, o nome de Missy foi chamado.

"Então eu faço parte do grupo três", pensei. Os nomes do segundo, terceiro e quarto integrantes do grupo foram chamados. Meu nome não estava entre eles. Tinha de haver algum engano!

Foi então que eu ouvi: "Mauro, Juliette, Rachel e Karina." Eu estava no último grupo. Senti as lágrimas brotarem em meus olhos. Não dava para encarar aquelas pessoas: o garoto que mal sabia falar inglês, a garota que se escondia debaixo de saias que iam até os tornozelos e a outra que só usava roupas esquisitas.

Como eu queria estar com os meus amigos!

Lutava para conter as lágrimas quando fui falar com a Sra. B. Ao olhar para mim, ela já sabia o que me trazia ali. Estava decidida a convencê-Ia de que devia estar no grupo "bom'.

- Por que... - comecei.

Ela colocou a mão no meu ombro, suavemente:

- Eu sei o que você quer, Karina, mas seu grupo precisa de você. Preciso que os ajude a tirar uma nota razoável nesse trabalho. Só você pode ajudá-Ios.

Fiquei atordoada, impressionada. Ela havia visto algo em mim que eu não via.

- Pode ajudá-Ios? - me pediu.

Endireitei a coluna.

- Posso - respondi. Eu não podia acreditar que tinha dito aquilo, mas saiu da minha boca. Eu tinha me comprometido.

Caminhando corajosamente para onde os outros integrantes de meu grupo se encontravam, ouvi as risadas de meus amigos. Sentei-me e começamos a trabalhar. Cada um ficou com uma coluna diferente para escrever, de acordo com o seu interesse pessoal. Fizemos pesquisa. Na metade da semana, senti que estava gostando da companhia daqueles três "desajustados". Não havia motivo para fingimento: estava realmente interessada em aprender algo sobre eles.

Mauro, segundo descobri, sofria com a língua inglesa e com a falta de amigos. Juliette também se sentia só, pois as pessoas não compreendiam que sua religião só permitia que ela usasse saias e vestidos compridos. Rachel, que havia pedido para escrever a coluna sobre moda, queria ser estilista. Tinha um bocado de ideias completamente originais! Não eram desajustados, apenas pessoas de quem ninguém gostava o suficiente para tentar conhecer melhor e entender - com exceção da Sra. B. Sua perspicácia, visão e atenção tinham instigado o potencial de quatro de seus alunos.

Não me lembro da manchete do jornal nem sobre o que escrevemos, mas aprendi uma coisa naquela semana. Tive a oportunidade de ver outras pessoas sob uma luz diferente. Tive a oportunidade de enxergar em mim mesma um potencial que me inspirou nos anos que se seguiram. Aprendi que quem somos é mais importante do que o que somos ou parecemos ser.

Após o final daquele semestre, eu sempre recebia um "Oi" caloroso das pessoas de meu grupo. E sempre me sentia contente em vê-Ias.

A Sra. B nos deu um A no trabalho. Deveríamos ter lhe devolvido este A imediatamente, pois ela, sim, era digna daquela nota.

MEDALHISTA DE OURO

RICK METZGER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 172

 

Fiz uma palestra em um colégio de ensino médio na primavera de 1995. No final, o diretor me perguntou se eu poderia fazer uma visita a um aluno especial. Uma doença obrigara o garoto a ficar em casa, mas ele tinha manifestado interesse em me conhecer e o diretor sabia que aquilo significaria muito para ele. Concordei. Durante o trajeto de quatorze quilômetros até a casa dele, e descobri algumas coisas sobre Matthew. Ele tinha distrofia muscular. Quando nascera, os médicos disseram a seus pais que ele não viveria até os cinco anos e, depois, que ele não chegaria aos dez. Ele estava com treze anos e, pelo que eu estava ouvindo, era um lutador. Queria me conhecer porque eu ganhara uma medalha de ouro em levantamento de peso e sabia tudo sobre superar obstáculos e correr atrás de sonhos.

Passei mais de uma hora conversando com Matthew.

Nenhuma vez ele reclamou ou perguntou: "Por que eu?" Falava sobre vencer e correr atrás dos seus sonhos. Era óbvio que ele sabia do que estava falando. Não comentou que seus colegas de turma gozavam da sua cara porque ele era diferente. Falou apenas de suas esperanças para o futuro e de como, um dia, queria levantar peso como eu.

Quando terminamos de conversar, tirei de dentro da minha pasta a primeira medalha de ouro que ganhara por levantamento de peso e a coloquei em volta do seu pescoço.

Disse a Matthew que ele era um vencedor e que sabia mais sobre sucesso e sobre superar obstáculos do que eu jamais saberia. Ele olhou a medalha por um instante, depois a tirou e me devolveu, dizendo:

- Rick, você é um campeão. Mereceu esta medalha.

Algum dia, quando eu for para a Olimpíada e ganhar a minha medalha de ouro, vou mostrá-Ia a você.

No verão passado, recebi uma carta dos pais de Matthew dizendo que ele tinha morrido. Eles queriam me entregar uma carta que ele escrevera para mim alguns dias antes.

 

Caro Rick,

 

Minha mãe disse que eu deveria lhe mandar uma carta agradecendo pela foto legal que você me mandou. Eu também queria contar que os médicos disseram que eu não vou viver muito tempo. Está ficando muito difícil respirar e eu me canso com facilidade, mas ainda sorrio o quanto posso. Sei que nunca vou ser tão forte quanto você e sei que nunca vamos levantar peso juntos.

Um dia eu disse a você que iria à Olimpíada e ganharia uma medalha de ouro. Agora sei que nunca vou fazer isso. Mas sei que sou um campeão, e Deus também sabe. Ele sabe que eu não desisto.

Por isso, quando eu chegar no céu, Deus vai me dar uma medalha de ouro. E quando você chegar lá, eu vou mostrá-Ia a você. Obrigado por me amar.

Seu amigo, Matthew


 

O VALOR DA VERDADE

KIMBERLY KIRBERGER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 175

 

Robby Rogers... meu primeiro amor. E que cara bacana também.

Ele era amável, sincero e inteligente. Na verdade, quanto mais penso nele, mais razões encontro para tê-Io amado tanto quanto amei. Nós estávamos saindo juntos havia um ano. Como vocês sabem, no segundo grau isso é muito tempo.

Não me lembro por que não fui à festa de Nancy naquela noite de sábado, mas Robby e eu tínhamos combinado de nos ver depois. Ele passaria na minha casa por volta das dez e meia. Robby sempre chegava na hora combinada, por isso, quando ele não apareceu até as onze horas, senti que alguma coisa não estava certa.

Na manhã do domingo, ele me acordou com um telefonema.

- A gente precisa conversar. Posso ir aí?

Eu queria dizer: "Não, não pode vir aqui para me dizer que tem alguma coisa errada." Em vez disso, falei:

- Claro - e desliguei com um nó na barriga.

Eu estava certa.

- Fiquei com a Sue Roid na festa - me informou Robby - e combinei de sair com ela hoje. - Ele continuou com o habitual: - Estou tão confuso. Nunca faria nada para magoar você, Kim. Eu sempre vou amar você.

Devo ter ficado branca, porque senti o sangue se esvair do meu rosto. Aquela era a última coisa que eu esperava e minha reação me surpreendeu. Fiquei com tanta raiva que fui incapaz de completar uma frase. A mágoa era tanta que tudo, a não ser a dor no meu coração, parecia estar em câmara lenta.

- Poxa, Kim, não fique assim. A gente pode ser amigo, não pode?

Essas são as palavras mais cruéis que se pode ouvir de alguém de quem se está levando um fora. Eu o tinha amado profundamente, compartilhado cada fraqueza e cada vulnerabilidade com ele - sem falar nas quatro horas por dia que passara com Robby no último ano (não incluindo o tempo no telefone). Eu queria bater nele com força, muitas vezes, até que ele se sentisse tão mal quanto eu estava me sentindo. Em vez disso, pedi para ele ir embora. Acho que disse alguma coisa sarcástica como: "Estou ouvindo a Sue chamar você." Sentada na minha cama, chorei durante horas, tão magoada que nada era capaz de fazer aquilo parar. Tentei até comer um pote inteiro de sorvete. Escutei todas as nossas músicas favoritas inúmeras vezes, me torturando com lembranças de tempos bons e palavras carinhosas. Depois de ficar doente de tanto me sentir uma pobre-coitada, tomei uma decisão.

Eu ia me vingar.

Meu raciocínio era o seguinte: Sue Roth é - era - uma das minhas melhores amigas. Boas amigas não dão em cima do seu namorado quando você não está. Obviamente, Sue tinha que pagar.

Naquele fim de semana, comprei seis dúzias de ovos e fui até a casa de Sue com algumas amigas. No começo eu estava só dando vazão à raiva, mas aquilo foi piorando. Então, quando alguém encontrou uma janela aberta no porão, jogamos todos os ovos que tinham sobrado lá dentro. Mas essa não é a pior parte. A família Roth estava viajando por três dias!

Deitada na minha cama naquela noite, comecei a pensar sobre o que tínhamos feito. "Isso é ruim, Kim... isso é muito ruim." Logo o colégio todo soube da história. Robby e Sue estavam saindo e alguém tinha jogado ovos na casa dela. A coisa tinha sido tão ruim que os pais de Sue tiveram que contratar um profissional para se livrar do cheiro.

Quando cheguei em casa depois da escola, mamãe estava me esperando para conversar.

- Kim, o telefone não parou de tocar o dia todo. Não sei o que dizer. Por favor, você tem que me contar. Foi você?

- Não, mãe, não fui eu. - Eu me senti muito mal por mentir para minha mãe.

Ela ligou furiosa para a Sra. Roth.

- É a Ellen? Eu quero que você pare de acusar a minha filha de jogar ovos na sua casa. - Ela gritava com a mãe de Sue, sua voz ficando cada vez mais alta. - Kim nunca faria uma coisa dessas, e eu quero que você parede falar para as pessoas que foi ela! - Minha mãe estava mesmo embalada. - E tem mais, eu quero que você peça desculpas à minha filha!

Gostei de ver mamãe me defendendo, mas me senti péssima por causa da mentira. Os sentimentos estavam todos retorcidos dentro de mim, e eu sabia que tinha que dizer a verdade. Fiz sinal para mamãe desligar o telefone.

Ela desligou e se sentou. Ela sabia. Chorei dizendo o quanto estava arrependida. Depois, ela também chorou. Eu teria preferido que ela ficasse brava, mas mamãe usara toda a sua raiva contra a Sra. Roth.

Liguei para a Sra. Roth, pedi desculpas e disse que lhe daria cada centavo do dinheiro que ganhara cuidando de crianças para ajudar a pagar pelos estragos. Ela aceitou, mas pediu para eu não ir à sua casa antes de ela estar pronta para me perdoar.

Mamãe e eu ficamos acordadas até tarde naquela noite, conversando e chorando. Ela me contou que um de seus namorados tinha terminado com ela para ficar com sua irmã.

Perguntei se ela tinha jogado ovos na própria casa e ela chegou até a rir. Depois me falou como ter filhos às vezes é difícil, porque você quer brigar com todo mundo que faz o seu filho sofrer, mas não pode. Tem que se segurar e olhar enquanto seus filhos aprendem sozinhos lições difíceis.

Eu me senti muito próxima e amiga de minha mãe, disse o quanto tinha sido incrível para mim vê-Ia me defender daquele jeito e como era especial ter aquele tipo de momento com ela.

Mamãe me deu um abraço:

- Ótimo. Nós duas podemos passar a noite de sábado que vem juntas e a de domingo também. Eu disse que você estaria de castigo durante o fim de semana, não disse?

 

 

Deveríamos tomar cuidado para tirar de uma experiência

apenas a sabedoria que ela contém.

MARK TWAIN

O ENTUSIASMO DA JUVENTUDE

FRANKLIN DELANO ROOSEVELT

Histórias Para Aquecer o Coração dos Adolescentes 180

 

Muitas pessoas mais velhas vêem com um orgulho desmedido o mero fato de serem adultas.

 

Quando os jovens invadem o seu mundo cheios de entusiasmo e ideais, eles armam um sorriso de superioridade e os encaminham para a vida com o que consideram suas bênçãos.

 

Mas eu e você bem sabemos que o que eles chamam de bênçãos são, na verdade, um banho de água fria.

 

Eles batem nas costas dos jovens e dizem: "Você é jovem.

Aproveite o seu entusiasmo e os seus ideais enquanto pode.

Porque, quando você crescer e entrar para o mundo real, verá como eram inocentes os seus ideais."

 

E - aí é que está o problema -, ao crescer, os jovens se afastam de seus ideais.

 

Essa é uma das razões por que o mundo para onde eles entram melhora tão lentamente.


 

QUANDO DEUS CRIOU AS MÃES

ERMA BOMBECK

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 15

 

Quando o bom Senhor estava criando as mães e entrava no sexto dia de hora extra, surgiu o anjo e disse:

- Estás caprichando neste daí, hein?

E o Senhor respondeu:

- Já leste as especificações técnicas deste pedido? Ela precisa ser 100% lavável, sem ser de plástico; precisa ter 180 peças flexíveis... todas elas substituíveis; precisa ser movida a café preto e sobras de comida; tem de ter um beijo que cure qualquer mal, de uma perna quebrada a uma desilusão amorosa; além de seis pares de mãos.

O anjo balançou a cabeça lentamente e opinou:

- Seis pares de mãos? Assim não dá!

- Não são as mãos que estão me causando problemas - disse o Senhor. - São os três pares de olhos que as mães precisam ter.

- O modelo básico é assim? - indagou o anjo.

O Senhor fez que sim com a cabeça:

- Um par para ver através da porta quando ela pergunta "O que é que estão aprontando aí dentro, crianças?" quando já sabe a resposta. Outro par aqui, atrás da cabeça, para ver o que não deve mas o que precisa saber e, é claro, os dois daqui da frente, para poder olhar para o filho quando este errar e dizer "Eu compreendo e o amo" sem pronunciar uma única palavra.

- Senhor - disse o anjo, tocando a manga de sua roupa, suavemente -, precisas dormir. Amanhã...

- Não posso - reagiu o Senhor. - Estou muito próximo de criar algo muito parecido comigo. Já criei um ser que se cura quando está doente... que consegue alimentar uma família de seis com meio quilo de carne moída... e que consegue enfiar uma criança de nove anos debaixo do chuveiro.

O anjo caminhou em torno do modelo da mãe, lentamente.

- Mas é suave demais!

- Na mesma medida em que é valente - disse o Senhor, animadíssimo. - Você nem imagina o que esta mãe pode fazer ou suportar.

- Ela sabe pensar?

- Não apenas sabe pensar como, também, raciocinar e encontrar soluções conciliatórias - respondeu o Criador.

Finalmente, o anjo se curvou e passou o dedo pela face do modelo.

- Há um vazamento aqui - pronunciou. - Eu avisei que estavas tentando colocar coisas demais neste modelo.

Como Deus não pode estar em todos os lugares, Ele criou as mães.

- Mas não é um vazamento - corrigiu o Senhor. - É uma lágrima.

- E para que serve?

- Serve para a alegria, para a tristeza, o desapontamento, a dor, a solidão e o orgulho.

- O Senhor é mesmo um gênio - elogiou o anjo.

Então o Senhor mostrou-se solene:

- Mas não fui eu que a coloquei aí.


 

BEM-VINDA À HOLANDA

EMILY PERL KINGSLEY

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 19

 

Muitas vezes me pedem para contar como criamos uma criança especial, para tentar ajudar as pessoas que não têm essa experiência única a entendê-la. A comparação que sempre me ocorre é a seguinte:

Esperar um bebê é como planejar a fantástica viagem de férias com que você sempre sonhou - para a Itália. Você compra um monte de guias e faz planos maravilhosos. O Coliseu. O David de Michelangelo. As gôndolas, em Veneza. Você pode aprender frases úteis em italiano. Tudo é uma festa.

Depois de meses de expectativa, finalmente chega o dia da viagem. Malas prontas, você entra no avião e, algumas horas depois, a aeromoça vem e diz: "Bem-vinda à Holanda." "Holanda?! Como assim, Holanda?", você se espanta. "Meu voo era para a Itália. Sonhei a vida inteira em ir para a Itália."

Mas houve uma mudança no plano de voo. Aterrissaram na Holanda e este é seu destino agora.

O importante é que não te levaram a um lugar horrível, desagradável e sujo, cheio de epidemias, fome e doença. É só ~m lugar diferente.

Então você tem de sair e comprar novos guias. E aprender uma língua nova. E conhecer pessoas que nunca teria conhecido. É só um lugar diferente. O ritmo é mais lento que o da Itália; a luz, menos brilhante. Mas, depois de estar lá por algum tempo, você toma fôlego, olha em volta... e começa a notar que a Holanda tem moinhos... e a Holanda tem tulipas. A Holanda tem até Rembrandts.

Mas todo mundo que você conhece foi e voltou da Itália, contando maravilhas do tempo passado lá. Pelo resto da vida você dirá: "É, era para lá que eu deveria ter ido. Era isso que eu tinha planejado." E a dor do seu coração nunca, nunca mesmo, irá embora completamente... porque, afinal, a perda desse sonho é muito significativa.

Mas, se você passar a vida lamentando o fato de não ter ido para a Itália, talvez não possa descobrir e aproveitar o que existe de tão especial e todas as coisas adoráveis que há na Holanda.


 

MÃE POR UM SÓ DIA

ANNE JORDAN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 22

 

Sendo mãe de três lindas crianças, tenho muitas lembranças especiais para contar. Mas foi com uma criança que não era minha que vivi um momento especial pelo qual tenho muito carinho.

Recomendado pela residência para meninos onde morava, Michael veio, no último verão, para a nossa colônia de férias que reunia crianças com baixa auto-estima. Aos doze anos, já passara por maus momentos. Órfão de mãe, o pai o trouxera de um país destruído pela guerra para os Estados Unidos, para que pudesse ter "uma vida melhor". Infelizmente, fora entregue a uma tia, que o maltratara física e emocionalmente. Tornou-se um menino insubordinado e hostil, com pouca responsabilidade e acreditando que não era amado.

Na colônia, ele andava com outros garotos problemáticos e desordeiros, uma verdadeira gangue, um desafio para os supervisores. Mas nós procurávamos aceitá-Ios e amá-Ios como eram.

Entendíamos que seu comportamento era um reflexo do quanto foram maltratados. Colocávamos limites com firmeza, mas afetuosamente.

Pela quinta noite da nossa experiência de uma semana, combinamos com as crianças um acampamento sob as estrelas.

Michael disse que ia ser uma chatice e que não iria. Aceitei sua recusa, para não criar problema e mantivemos o programa com os outros.

Chegando a noite, a lua no céu, as crianças começaram a arrumar os sacos de dormir sobre um enorme deque perto do lago. Vi Michael se aproximando, sozinho, a cabeça baixa. Ele veio rapidamente em minha direção e, antes que falasse alguma coisa, eu disse: "Michael, vamos pegar seu saco de dormir e achar um bom lugar para você perto de seus amigos." "Não tenho saco de dormir", ele falou baixinho.

"Isso não é problema! Vamos abrir umas sacolas e pegar uns cobertores!", retruquei.

Imaginei ter resolvido o dilema e fui andando. Michael segurou minha blusa e me afastou do grupo.

"Arme, preciso lhe contar uma coisa." Vi a hostilidade no rosto daquele menino endurecido se desmanchar e, baixinho, ele continuou: ''Anne, tenho um problema... Eu... eu faço xixi na cama, molho o lençol todas as noites." Extremamente emocionada, coloquei o braço em torno de seu ombro e agradeci por ele ter tido confiança em mim. Disse que compreendia seu problema e perguntei como poderia ajudá-lo. Juntos, combinamos que ele poderia dormir sozinho em sua cabana, sem que os outros meninos percebessem.

Voltei com ele para a cabana e, no caminho, perguntei se não estava com medo de dormir sozinho. Michael me afirmou que isto não era nada perto das situações que já enfrentara nos seus doze anos de vida. Virei o colchão, protegi-o com um plástico e, enquanto colocávamos na cama seu último jogo limpo de lençóis, conversamos sobre as dificuldades por que passara e sobre seu desejo de que o futuro fosse diferente. Segurando sua mão, afirmei que ele tinha a força necessária para fazer de sua vida o melhor possível. O menino hostil e endurecido transformou-se numa criança doce e afetuosa.

Michael se deitou e eu o cobri, puxando o cobertor até o queixo. Acariciei seus cabelos e beijei sua testa. "Boa noite, Michael, fique sabendo que você é um garoto maravilhoso!" Ele se remexeu e suspirou fundo: "Boa noite. Sabe que, desde que minha mãe morreu, ninguém tinha feito isso comigo? Obrigado por tudo." "De nada, querido", respondi, abraçando-o. Eu chorava quando me virei para sair, levando três conjuntos de lençóis sujos. Não tornei a ver Michael depois da colônia, mas rezo por ele todos os dias, desejando que aquele momento de afeto e acolhida tenha podido contribuir para sua felicidade.


 

VOCÊ JÁ VIU DEUS?

LEONARDO BOFF - Extraído do livro Espiritualidade

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 24

 

Minha mãe era analfabeta, nunca quis aprender a ler. Certa vez eu lhe trouxe um caderno e um lápis bentos pelo Papa Paulo VI para ver se ela se animava a aprender. Minha mãe jogou longe, dizendo: "Para que eu quero aprender a ler e escrever se tenho onze filhos que fizeram universidade, quase todos doutores.

Para quê? Eles sabem por mim. Não preciso eu estudar e saber."

Mas era uma mulher de grande sabedoria existencial e profunda piedade.

Eu costumava gravar coisas que escrevia para ela escutar.

Minha mãe escutava e dizia: "Onde você aprendeu tudo isso?

Eu nunca te ensinei tais coisas!"

Ao ouvir uma das gravações em que eu falava da experiência de Deus, ela me olhou fundo e fez a pergunta: "Você já viu Deus?"

Eu respondi de pronto: "Minha mãe, a gente não vê Deus.

Deus é espírito, é invisível." Ela deu como que um suspiro, colocando a mão no peito, me olhou com infinita tristeza e disse: "Você é padre há tantos anos e nunca viu Deus?" Eu insisti: "Mãe, a gente não vê Deus." Ela retrucou: "Você não vê Deus, "mas eu O vejo todos os dias. Quando o sol se põe lá no horizonte, Deus passa com um manto fantástico, lindo. Ele vem sempre sério, e teu pai que já faleceu vem atrás, olha para mim, me dá um sorriso e segue junto com Deus. Eu vejo Ele todos os dias." Eu fiquei parado, me perguntando: "Quem é o teólogo aqui, ela ou eu? A analfabeta ou o doutor em teologia?" Temos que aprender com as pessoas que vivem tais experiências. Porque a fé é uma experiência tão global que entra pelos olhos, entra no coração, entra na fantasia, entra nas projeções. Deus é substância da sua própria substância.

Essas pessoas não crêem em Deus. Elas sabem de Deus porque O viram, porque O experimentaram.

 


 

PARA LER QUANDO ESTIVER SOZINHO

MIKE STRAVER

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 27

 

Eu tinha treze anos e minha família se mudara do norte da Flórida para o sul da Califórnia um ano antes. Eu era, como a maioria dos adolescentes, raivoso e rebelde, não dando importância ao que meus pais diziam, principalmente se tivesse alguma coisa a ver com meu comportamento.

Lutava para contestar qualquer coisa que não correspondesse à minha idéia do mundo. De uma extrema auto-suficiência, eu rejeitava qualquer manifestação púbica de amor. Na verdade, ficava irritado com a simples menção da palavra amor.

Na noite de um dia particularmente difícil, entrei no quarto como um furacão, tranquei a porta e me joguei na cama. Ali dei lado, escorreguei as mãos por baixo do travesseiro e achei um envelope. Nele se lia: "Para ler quando estiver sozinho."

Como estava sozinho, ninguém saberia se eu lera ou não.

Assim, abri e li:

 

Mike, sei que a vida está dura agora, sei que você se sente frustrado e que, apesar da nossa boa intenção, nem tudo que fazemos é certo. Mas sei principalmente que amo você demais e nada do que você faça ou diga vai mudar isso. Nunca. Estou aqui para conversar, se você precisar e, se não precisar, tudo bem. Saiba que não importa aonde você vá ou o que você faça na vida, sempre vou amá-lo e sentir orgulho de tê-lo como filho. Estou aqui por você e o amo. Isso não vai mudar nunca.

Com amor. Mamãe.

 

Esta foi a primeira de muitas cartas "para ler quando estiver sozinho". Jamais falamos sobre elas, até eu ser adulto. Hoje eu corro mundo ajudando -pessoas. Estava dando um seminário na Flórida e, no final da palestra, uma senhora veio falar comigo sobre os problemas que estava tendo com o filho.

Fomos até a praia e falei para ela do enorme amor de minha mãe e das cartas "para ler quando estiver sozinho". Semanas depois, recebi um cartão onde a senhora dizia ter escrito sua primeira carta para o rapaz.

Naquela noite, passei a mão sob meu travesseiro e me lembrei do alívio que sentia sempre que encontrava uma carta.

Nos anos atribulados de minha adolescência, as cartas eram a garantia silenciosa de que eu era amado, apesar de tudo, incondicionalmente. Essa gratuidade do amor de minha mãe me ajudou a superar as crises e revoltas da adolescência e fez vir à tona o que eu tinha de melhor. Agradeci a Deus por minha mãe saber do que eu - um adolescente raivoso - precisava. Por ela ter persistido apesar do meu silêncio, da minha aparente indiferença.

Hoje, quando os mares da vida se tornam revoltos, sei bem que sob meu travesseiro está a segurança de quanto o amor - consistente, durável, incondicional - é capaz de mudar vidas.


 

UMA DOCE LIÇÃO

MILDRED BANZO

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 29

 

Meu pai adorava abelhas. Quando uma abelha selvagem chegava zumbindo, ele parava o que estivesse fazendo para esperar a abelha fartar-se de néctar. Assim que estava satisfeita, ela levantava voo, precisa como uma flecha, em direção à sua colmeia, no bosque. Papai então partia em seu encalço. Mesmo que a perdesse de vista sabia, mais ou menos, onde ela terminaria, já que as abelhas traçam uma reta quando se encaminham para casa.

Quando papai encontrava uma árvore oca com um enxame de abelhas dentro, visitava o proprietário das terras e pedia-lhe permissão para cortar a árvore. Sempre dava ao proprietário todo o mel em troca das abelhas. Foi assim que construiu um imenso apiário que, por fim, passou a ser a maior fonte de renda de nossa família.

Uma colmeia podia morrer de fome durante o inverno se a sua provisão de mel não durasse até as plantas florescerem. Ê rotina o apicultor ajudar suas abelhas nos meses de frio, alimentando-as com um xarope feito de água e açúcar.

Durante a Primeira Guerra Mundial, nosso país passou por uma seriíssima escassez de açúcar. O governo passou a raciona-lo, além de diversos outros produtos. Isso criou uma imensa procura por mel como substituto. Devido à necessidade de fornecer mel para a população, os apicultores recebiam uma ração sobressalente de açúcar para manter suas abelhas vivas durante o inverno. Guardávamos a porção que nos cabia num barril na cozinha externa, que usávamos no verão. Nós, as crianças, sabíamos que era estritamente para a alimentação das abelhas.

Devido ao racionamento sofrido pelo país durante a Primeira Guerra Mundial, era muitas vezes difícil para as mães prepararem refeições apetitosas para suas famílias. Era especialmente difícil quando havia algum convidado.

Fomos avisados de que nossos parentes favoritos, que viviam a muitos quilômetros de distância, viriam nos visitar no dia seguinte. Ficamos muito animados! Mamãe começou a planejar o jantar que faria por ocasião da visita. Melancólica, declarou:

- Como eu gostaria de fazer um bolo! - Ela sentia imenso orgulho dos bolos que preparava. No entanto, como a pequena ração de açúcar destinada à nossa família já fora consumida, ficava impossível fazer o tal bolo.

Ê claro que nós, as crianças, queríamos o bolo tanto quanto ela! Imploramos para que pegasse o açúcar da ração das abelhas para prepará-lo. Nosso argumento era que o governo jamais saberia. Finalmente, ela cedeu. Foi lá fora, até o barril de açúcar da cozinha externa, e usou-o para fazer sua deliciosa receita de bolo amarelo. Foi preciso grande habilidade para assar o bolo perfeito num forno à lenha, mas mamãe conseguiu. Quando terminou de decorá-lo com uma cobertura especial de merengue, ficamos extremamente orgulhosos de servi-lo para as visitas.

Pouco depois chegou o dia de nossa família receber a ração mensal de açúcar. Papai foi até a mercearia comprá-lo. O vendedor colocou-o num minúsculo saquinho marrom e amarrou-o com cuidado. Quando chegou em casa, papai o colocou sobre a mesa.

Mamãe olhou brevemente para o pacotinho. Então, pegou o mesmo medidor que usara para o açúcar do bolo. Enquanto nós, crianças, a olhávamos estupefatos, ela mediu exatamente a quantidade que usara. Então, solenes, a seguimos até o barril de açúcar das abelhas, onde ela o despejou.

O que restou de açúcar no fundo do pequeno saco era pouco para uma família de sete, mas teria de ser suficiente para durar um mês. A ideia foi um banho de sobriedade para uma criança tão pequena e apaixonada por doces. Minha mãe não fez o menor discurso sobre o acontecido, a menor fanfarra. Não pregou sobre a honestidade. Para ela, aquele fora um ato natural, de acordo com a integridade com a qual meu pai e ela viveram as suas vidas.

Hoje, tenho noventa e dois anos. Há muito não sou mais aquela criancinha que olhava por cima da mesa da cozinha da mãe, na pontinha dos pés. Muitas coisas mudaram durante a minha vida. Ainda faço bolos quando tenho visitas, mas hoje uso misturas prontas porque não aguento mais ficar em pé tanto tempo. Também não preciso mais usar o fogão à lenha. E, certamente, não há a menor escassez de açúcar em nosso país.

Mas algumas coisas não mudam. E, assim, já contei a história sobre a honestidade incondicional de minha mãe inúmeras vezes para meus filhos, meus netos e até mesmo para os meus bisnetos. Mamãe era como uma daquelas abelhas que meu pai adorava seguir. Era fácil contar que sempre tomaria o caminho mais honesto nesta vida, uma linha reta, precisa como uma flecha. E foi por isso que moldou, sem alardes, a consciência de quatro gerações de uma mesma família.

 

 

 

 

O coração da mãe é a sala de aula de uma criança.

HENRY WARD BEECHER

 

 

 

- Como você divide o seu amor por quatro filhos?

- Eu não divido, eu multiplico!


 

QUANDO MAMÃE VEIO PARA O CHÁ

MARGIE M. COBURN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 33

 

Eu não tinha ideia de que ela estaria ali. Já tinha até ensaiado as desculpas para sua ausência.

Quando minha professora de economia doméstica anunciou que haveria um chá formal para mães e filhas na escola, eu tinha certeza de que minha mãe não estaria presente.

Assim, não vou me esquecer da minha surpresa quando entrei no ginásio lindamente decorado e ela se encontrava lá!

Olhei para minha mãe, sentada calmamente e sorrindo, e imaginei todas as manobras que aquela mulher extraordinária teve de fazer para participar comigo daquele chá.

Quem estaria tomando conta da vovó? Depois do derrame, ela dependia totalmente de mamãe.

Minhas três irmãs pequenas chegariam da escola antes de ela voltar. Quem as receberia e as ajudaria com os deveres?

Como conseguira chegar? Não tínhamos carro e ela não podia pagar um táxi. Teve de caminhar um bom pedaço até o ponto do ônibus, mais cinco quadras até a escola.

E ainda havia o lindo vestido vermelho com florezinhas brancas, bastante adequado para a ocasião. Ele destacava o prateado que começava a aparecer no seu cabelo escuro. Não havia dinheiro para roupas novas e eu sabia que ela fizera uma dívida na loja da nossa cooperativa para comprá-Io.

Fiquei tão orgulhosa! Servi-lhe o chá com o coração feliz e agradecido e a apresentei sem timidez ao grupo. Sentei-me à mesa com minha mãe naquele dia, exatamente como as outras meninas, e isso teve um imenso significado para mim. Seu olhar cheio de amor me dizia que ela entendera aquele sentimento.

Nunca me esqueci daquele chá. Uma das promessas que fiz para mim mesma foi de me empenhar ao máximo para estar sempre perto dos meus filhos. É uma promessa difícil de manter no mundo agitado de hoje, mas a lembrança do que se passou comigo e minha mãe, e da importância que isso teve em minha vida, serve de estímulo para qualquer esforço. Basta que eu pense no dia em que mamãe veio para o chá.


 

MAIORIDADE

RACHEL NAOMI REMEN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 35

 

Lembro-me de ter lido uma vez, num livro sobre psicologia do desenvolvimento, que somente um pai ou uma mãe podem outorgar a maioridade a um filho. Na época, não entendi realmente o sentido dessas palavras. Hoje, acho que compreendo.

Existe uma confirmação que só pode vir daqueles que nos deram a vida, que nos conhecem completamente desde que nascemos. Mesmo velhos, o poder dos pais em conceder essa confirmação não diminui. É um poder que beira o místico. Minha 'mãe era uma mulher extremamente original. Profissionalmente, era uma contestadora. Seu maior interesse eram os cuidados com bebês e ela foi uma das pioneiras a reconhecer e respeitar a sabedoria inata das mães. Naquele tempo, essa era uma ideia vista com desconfiança pelos pediatras, uma profissão tão orgulhosa de sua nova ciência e tecnologia que, no meio do século, quase setenta e cinco por cento dos bebês norte-americanos eram alimentados por mamadeira. A maneira direta e sem rodeios pela qual minha mãe se expressava fazia com que ela também fosse vista com desconfiança.

Acredito que sei o exato momento em que me senti verdadeiramente adulta. Aconteceu num lugar público, na presença de um grande número de pessoas. Todavia, foi um momento inteiramente pessoal que ninguém testemunhou.

Eu era uma das duas mulheres e vários homens convidados para falar numa conferência cujo tema era "O Poder da Imaginação", um encontro pioneiro, com um dia de duração, sobre a relação entre a saúde da mente e do corpo. Foi em 1984, quando tais ideias eram bastante novas e pouco aceitas na comunidade médica. Entre as mil pessoas da plateia, poucos eram médicos.

Nessa ocasião, minha mãe já era velha e estava bastante doente. Dois dias antes da conferência, uma amiga me perguntou se eu planejava convidá-Ia. Surpresa, respondi que não havia pensado nisso, pois mamãe não se interessava pelo assunto. Minha amiga, que é japonesa e tem uma percepção mais refinada do que a minha, respondeu:

- É claro que não, RacheI. Mas ela se interessa por você.

Refleti um pouco e me dei conta de que minha mãe nunca me havia visto falar em público. Pensei nas dificuldades para levá-Ia até o auditório e no que aconteceria se ela tivesse um de seus frequentes problemas cardíacos enquanto eu estivesse falando. Era um pensamento assustador e eu me senti tentada a esquecer a sugestão de minha amiga. Mas, por uma questão de justiça, perguntei a minha mãe se ela queria ir. Ela aceitou com entusiasmo.

Chegamos ao saguão com duas horas de antecedência. O problema cardíaco não a deixava andar longas distâncias sem descansar. Levei um bom tempo para conseguir acomodá-Ia no auditório vazio. Escolhemos uma cadeira no meio da décima fila. Quando o auditório começou a ficar cheio e eu me sentei no palco com os outros participantes, vi que ela abriu a bolsa e pegou alguns comprimidos. Senti um aperto no coração.

Quando chegou a minha vez de falar, expliquei qual era a diferença entre remediar e curar e falei sobre a nova técnica de imagens guiadas que ampliava a capacidade do ser humano de curar a si mesmo. Disse que a medicina que não reconhecia esse poder inato nas pessoas cometia um erro crucial. Essas eram ideias controvertidas na época. Para comprová-Ias, contei várias histórias colhidas na minha prática médica. Quase no final, arrisquei um olhar para minha mãe. Ela ouvia com muita atenção. Parecia estar bem. Fiquei aliviada.

Quando terminei de falar houve um completo silêncio. Eu já esperava por isso, pois na semana anterior muitos médicos de um hospital de São Francisco, ofendidos por essas mesmas ideias, retiraram-se antes do final das sessões clínicas das quais participei. Mas aquela não era uma plateia de médicos. De repente, ouvi aplausos e muitas pessoas chegaram a se levantar, entusiasmadas. Fiquei aturdida.

Somente uma mulher na décima fila permanecia sentada.

Seus braços estavam cruzados e havia um leve sorriso em seus lábios. Continuamos a olhar uma para a outra até que seus olhos se fecharam e ela fez um sinal com a cabeça duas vezes, lentamente. Jamais recebi qualquer reconhecimento igual a esse. Até hoje extraio dele uma grande força. Cinco meses depois desse dia, minha mãe estava morta.

 

 

 

A vida não precisa ser perfeita para ser maravilhosa.

ANNETTE FUNICELLO


 

BILHETES DE AMOR

ANTOINETTE KURITZ

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 39

 

Desde que meus filhos foram para a escola, eu lhes preparava o almoço e o colocava nas lancheiras. Em cada uma delas, eu punha um bilhete, muitas vezes escrito num guardanapo. Podia ser um agradecimento por um momento especial, uma palavrinha sobre algo ansiosamente esperado ou um encorajamento para um teste ou uma competição esportiva.

No primeiro grau, eles adoravam os bilhetes e comentavam sobre eles quando chegavam da escola. Quando voltei a lecionar, eles é que colocavam recadinhos nos meus lanches. Mas, quando chegou ao segundo grau, meu filho mais velho, Marc, me disse que não precisava mais de meus bilhetes diários.

Respondi que eu os escrevia, na verdade, muito mais por mim do que por ele, e que, mesmo que não os lesse, eu precisava continuar escrevendo. Assim, mantive a tradição até sua formatura.

Seis anos depois de Marc ter concluído o segundo grau e ido estudar numa escola em outro estado, ele me telefonou um dia para saber se podia passar um tempo comigo. Meu filho estava bem, se formara com louvor, fizera dois estágios no Congresso, em Washington, conseguindo uma bolsa para a Câmara dos Deputados do Estado da Califórnia. Agora, era assistente legislativo em Sacramento. Sempre ocupado, suas visitas não eram frequentes. Eu estava com muita saudade do meu filho e vibrei com a visita.

Duas semanas depois de Marc ter chegado, foi recrutado para uma campanha política. Como eu ainda preparava o almoço diariamente para o meu caçula, arrumei o de Marc também. Imaginem a minha surpresa quando recebi o telefonema de meu filho de vinte e quatro anos reclamando do almoço. "O que eu fiz de errado? Não sou mais seu filho? Você não me ama mais, mamãe?" foram algumas das perguntas que ele me fez, enquanto eu ria e perguntava qual era o problema.

"Seu bilhete, mamãe", ele respondeu. "Não achei o seu bilhete." Este ano meu filho caçula está terminando o segundo grau.

Ele também me avisou que já passou da idade de receber bilhetes. Mas, como seus irmãos, ele vai receber meus bilhetes até se formar - e em qualquer pacote de almoço que eu lhe prepare, enquanto eu estiver viva.


 

O COMPROMISSO

REVERENDO MICHAEL LINDVALL

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 41

 

Num domingo perto do Dia de Ação de Graças, Angus McDonnell, membro de minha congregação, falou-me do nascimento de seu neto, o "pequeno Angus Larry", e me pediu para oficiar a cerimônia de batismo. O conselho da igreja se mostrou relutante porque a família da criança vivia em outro estado, pois, ao batizar, assumimos o compromisso de apoiar e orientar aquela criança.

Mas a vontade de Angus prevaleceu e o batizado se deu no domingo seguinte, estando presentes os pais, Larry e Sherry, os avós, Angus e Minnie, e muitos outros familiares. Em nossa congregação há o costume de o pastor perguntar: "Quem é o responsável por esta criança?" Nessa hora, toda a família se levanta e permanece em pé durante o batismo. Então, com Angus Larry em meus braços, fiz a pergunta e todos os parentes se levantaram.

Depois da cerimônia, todos foram para casa e eu voltei à igreja para apagar as luzes. Uma mulher de meia-idade estava sentada no banco da frente. Ela parecia procurar as palavras e se mostrava hesitante, sem sustentar meu olhar. Finalmente, disse chamar-se Mildred Cory e falou sobre a beleza da cerimônia de batismo. Depois de outra grande pausa, acrescentou: "Minha filha Tina acaba de ter um bebê. Deve ser batizado, não é?" Sugeri que Tina e o marido me telefonassem para falarmos sobre o assunto. Mildred hesitou novamente e, me olhando de frente pela primeira vez, ela disse: "Tina não tem marido. Está com dezoito anos e foi crismada nesta igreja há quatro anos. Ela costumava vir para o encontro dos jovens, mas conheceu um rapaz que não estudava..." Depois veio o resto da história: "... e então ficou grávida e resolveu ter o bebê. Ela quer batizá-Io na sua igreja, mas está temerosa de vir falar com o senhor, reverendo. Ela deu ao bebê o nome de James - Jimmy." Levei o caso ao conselho da igreja. Fizeram-se algumas perguntas sobre o compromisso que Tina deveria assumir ao levar o bebê para ser batizado. Observei que, como ela e o filho viviam na cidade, nós poderíamos dar-Ihes apoio.

O problema real era a imagem que todos tínhamos na cabeça: a jovem Tina, com o pequeno Jimmy nos braços, o pai ausente, Mildred Cory sendo a única a se levantar quando eu fizesse a pergunta. Doía em todos imaginar isso. Mas o conselho aprovou o batismo, marcado para o último domingo do Advento.

A igreja estava cheia, pois era o último domingo antes do Natal.

Tina percorreu rapidamente o corredor central, tremendo ligeiramente, com seu bebê de um mês nos braços. A imagem daquela jovem mãe tão sozinha mostrava como seria dura a vida daquele par.

Comecei o ofício e então, olhando para Mildred Cory, fiz a pergunta: "Quem dá apoio a esta criança?" Fiz um sinal com a cabeça para Mildred e sorri indicando que se levantasse. Ela se levantou devagar, timidamente, olhando de um lado para o outro, e então me sorriu também.

Eu ia continuar a ler as orações, quando ouvi um movimento nos bancos.

Angus McDunnell se levantou com Minnie a seu lado.

Então um outro casal de idosos se levantou. E a professora da sexta série da escola também. Mais um jovem casal e logo, ante meus olhos incrédulos, toda a comunidade estava de pé, apoiando o pequeno Jimmy: se comprometendo com ele.

Tina chorava e Mildred Cory se segurava no banco procurando se manter firme.

A escritura daquela manhã era de João:

Considerai com que amor amou o Pai, para sermos chamados filhos de Deus... Ninguém jamais viu Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor em nós é perfeito...

No amor não há temor, pois o amor perfeito livra-se do temor.

Naquele batismo, essas antigas palavras se tornaram vivas, tomaram corpo e todos puderam sentir isso.


 

A PORTA ABERTA

ROBERT STRAND

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 45

 

Em Glasgow, na Escócia, uma jovem, como muitos adolescentes de hoje, tinha problemas em casa, revoltada com os limites impostos pelos pais. Rejeitava os princípios religiosos da família e um dia declarou: "Não quero seu Deus. Desisto, vou embora."

Saiu de casa, decidida a ser uma mulher do mundo. Mas logo viu que não era tão fácil viver sozinha e, incapaz de arrumar um trabalho, acabou por se prostituir para sobreviver. Os anos se passaram e ela continuou em sua vida irregular. Seu pai morreu, sua mãe envelheceu.

Durante esse tempo, não houve contato entre mãe e filha.

Tendo ouvido falar do paradeiro da moça, a mãe foi até a zona de prostituição da cidade, tentando encontrá-Ia. Parou em cada uma das igrejas que auxiliam carentes, pedindo apenas: "Eu poderia deixar aqui este retrato?" Era uma fotografia daquela mãe grisalha e sorridente, com uma mensagem manuscrita: "Eu ainda a amo... venha para casa!" Passaram-se mais alguns meses e nada aconteceu. Então, um dia, a jovem foi à igreja pedindo algo para comer. Sentou-se, distraída, assistindo ao ofício, quando seu olhar bateu no quadro de avisos. Ao ver o retrato, pensou: "Poderia ser minha mãe?" Não conseguiu esperar o final da cerimônia. Aproximou-se do quadro e leu a mensagem: "Eu ainda a amo... venha para casa!" Reconhecendo a mãe no retrato, ela chorou. Era bom demais para ser verdade.

Já era noite, mas, tocada por aquelas palavras, a jovem foi caminhando até sua casa. Quando chegou, o dia amanhecia.

Temerosa, aproximou-se timidamente, sem saber exatamente o que fazer. Quando bateu à porta, esta se abriu sozinha. Chegou a pensar que alguém a arrombara. Preocupada com a mãe, correu para o quarto, mas a senhora dormia. A filha a acordou, dizendo: "Sou eu, sou eu, voltei para casa!" A mãe não podia acreditar. Em prantos, abraçou-se à filha, que disse: "Fiquei tão preocupada! A porta estava aberta e pensei que alguém tinha entrado!" A mãe respondeu docemente: "Não, querida. Desde o dia em que você se foi, a porta nunca esteve fechada."

 

 

Quando você era pequeno e bastava estender a mão para tocá-lo, eu usava cobertores para protegê-lo do frio da noite. Mas agora que você cresceu e está fora de alcance, junto minhas mãos e cubro-o com minhas orações. DONA MADDUX COOPER

 


 

UM CORAÇÃO CLEMENTE

W.W. MEADE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 47

 

Esta manhã, eu estava com pressa de chegar em casa após realizar algumas pequenas tarefas na rua. Ao dobrar à direita para entrar no meu bairro, que fica um pouco escondido por trás de arbustos, um garotinho de camiseta amarela passou como um raio na frente de meu carro. Estava de pé, equilibrado sobre os pedais da bicicleta vermelha, as pernas trabalhando como bombas hidráulicas, ignorando por completo a minha existência - ou a existência de qualquer perigo -, seguríssimo por trás da invencível imortalidade de um menino.

Ele passou, literalmente, a centímetros de meu para-choque. Pisei violentamente no freio, um reflexo físico sem nexo - uma vez que ele já se fora, há muito. Eu tremia e levei algum tempo para recuperar o fôlego. Em um terrível instante, a vida daquele menino poderia ter terminado. Seus pais teriam passado o resto da vida com uma imensa dor e a minha própria vida teria se transformado num pesadelo.

Continuei pela rua, relembrando o rosto do menino. Sob a lente de aumento de meu medo, podia visualizar, claramente, os olhos arregalados num misto de bravata e de pavor, o sorriso desdenhoso, iluminado por mais um triunfo sobre o enfadonho mundo da preocupação adulta. Ele era tão admiravelmente vigoroso, de tal forma intrépido, que o meu choque em quase tê-Io matado foi imediatamente substituído por raiva, beirando a ira.

Transtornada de fúria - com a falta de atenção dele, não com a minha -, fui para casa. A agitação causada por quase ter atropelado aquele menino me perturbou pelo resto do dia.

Então, no crepúsculo, lembrei-me de Mikey.

Quando era pequena, Mike Roberts era meu melhor amigo. Meu pai era médico numa cidadezinha ao longo do rio Ohio e meus pais eram muito próximos dos de Mike. Na realidade, a casa deles ficava a um terreno baldio de distância da clínica de papai.

Mikey, como o chamávamos, era aventureiro e audacioso.

Sua mãe, Judy, era muito afável conosco, as crianças, e fazia os melhores biscoitos de manteiga de amendoim do universo.

Jamais trancavam as portas e eu tinha toda a liberdade naquela casa.

Numa sexta-feira, minha mãe planejava ir a Cincinnati fazer compras e disse que eu deveria passar o dia na casa dos Roberts. Judy estava à minha espera. Não era para eu me empanturrar de biscoitos ou andar de bicicleta na rua.

Quando ela saiu naquela manhã, parti de bicicleta para a casa dos Roberts. Estava a uns cinquenta metros da curva que levava à rua de Mikey quando ouvi um barulho que, às vezes, ainda ouço em meus sonhos. Era o feroz guincho de pneus quando alguém pisa no freio com tudo. O som me pareceu durar uma vida, embora, em retrospecto, tenha certeza de que se calou rapidamente. Seguiu-se então o barulho estridente de metal sendo esmagado. Como um relâmpago, parti em minha bicicleta e dobrei a esquina à toda.

Havia um caminhão quase emborcado na rua. Um pouco à frente do para-lama via-se a Schwinn vermelha de Mikey de tal forma retorci da, que parecia a metade de uma bicicleta, os dois pneus agora achatados, um contra o outro.

Mikey estava deitado na grama com um brutamontes curvado sobre ele. Saltei da bicicleta, deixei-a cair e corri para o local onde o meu amigo se encontrava, silencioso e imóvel sobre um tapete de folhas. No mesmo instante, a porta da frente da casa dele se abriu e sua mãe saiu. Acho que nunca vi alguém correr tão rápido. Ao mesmo tempo surgiu uma maca de dentro da clínica de meu pai, seguida de papai e de um ajudante.

Uma multidão se formou, imediatamente. Judy ajoelhou-se ao lado da cabeça de Mikey. Papai disse a Judy que não mexesse no filho e se curvou para examiná-Io. O motorista do caminhão deixou-se cair sentado, pesadamente, a alguns metros dali. Devia pesar mais de noventa quilos.

Tinha ombros largos e arredondados e um pescoço grosso com rugas profundas que luziam com gotas de suor. Usava um macacão azul e uma camisa quadriculada de vermelho.

Ficou sentado no gramado como um touro atordoado. A cabeça repousava nos joelhos dobrados e os ombros tremiam, embora eu não achasse que estivesse chorando.

Cravei os olhos naquele homem, tentando fazê-lo sentir a quão fula eu estava. Aposto que não estava prestando atenção, pensei. Uma falha bastante comum entre os adultos que eu conhecia. Muitas vezes me davam a impressão de desatenção e este daqui havia machucado o meu amigo. Eu sentia vontade de machucá-Io de volta de alguma forma indizível.

Dali a alguns minutos, Mikey voltou a si e desatou a chorar.

Meu pai o imobilizou numa padiola e colocou-o sobre a maca. Judy pegou a mão de Mikey e todos avançaram para a entrada de emergência da clínica. Fui deixada a sós com o motorista de caminhão, que agora se encontrava sentado com a cabeça baixa sobre os braços cruzados. Seu corpo ainda tremia, como se estivesse com calafrios.

Ficamos ali sentados em silêncio durante o que me pareceu ser uma eternidade. Então Judy saiu pela entrada principal da clínica e caminhou em nossa direção. Relatou que Mikey ficaria bem. Só machucara o braço. Poderia ter sido muito pior.

Achei que ela, certamente, acertaria um tapa na cara do caminhoneiro ou que, pelo menos, falaria com ele de maneira severa. Mas o que ela fez, de fato, me deixou perplexa. Pediu-lhe que a acompanhasse até a sua casa.

- E você também - disse, dirigindo-se a mim.

Perguntou ao motorista seu nome e disse-lhe que se acomodasse diante da lareira, que ia buscar um café. Ele ergueu a mão dispensando a oferta, mas ela trouxe o café ainda assim além de leite e de biscoitos para mim. Stan, o motorista, não conseguia comer ou beber nada. Permaneceu sentado na poltrona azul, preenchendo-a por completo. De vez em quando começava a tremer e Judy passava o braço por cima de seu ombro e lhe dizia, com aquela voz maravilhosamente suave:

- Você não teve culpa. Não estava em alta velocidade.

Mikey se arrisca estupidamente e eu sinto muito quanto a isso.

Só fico grata por ele não ter se ferido gravemente. Eu não o culpo. E você também não deveria se culpar.

Escutei o que ela dizia, incrédula. Como podia ela dizer aquelas coisas para um homem que quase matara o seu filho, o meu amigo? O que poderia haver de errado com ela? Dali a pouco, ela conseguiu acalmar o motorista um pouco - pelo menos foi o que achei - e ele se levantou para ir embora.

Ao chegar à porta, virou-se para ela e disse:

- Eu também tenho um filho. Imagino o que deve ter lhe custado me ajudar.

Então, só para acrescentar mais um assombro ao dia, Judy ficou na pontinha dos pés e beijou-lhe a face.

Eu jamais conseguira compreender como Judy fora capaz de oferecer alívio e consolo para um homem que não havia matado o seu filho por muito pouco... até hoje, quando fiz a curva para entrar naquele bairro tão familiar e passar a centímetros daquilo que teria sido um ato terrível e irreversível.

Ainda tentando me livrar do pavor que ocupara a minha mente o dia todo, pensei na mãe de Mikey e naquele dia de outono, há tanto tempo. E muito embora não houvesse ninguém ali para me consolar, para me dizer que não havia sido minha culpa, que coisas ruins acontecem por mais cuidado que se tenha, as recordações daquele dia transpuseram o tempo para me ajudar.

A empatia daquela mãe, assim como todas as dádivas concedidas por bondade, jamais deixou o mundo e pôde ser convocada para consolar e curar. E assim continuará a ser... quem sabe, para sempre.


 

O DIA EM QUE TUDO DEU ERRADO

JUDITH TOWSE-ROBERTS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 53

 

Toda vez que, como mãe, eu preciso de ajuda, me lembro de minha própria mãe e de minha avó, mulheres que plantaram sementes de sabedoria na minha alma.

Num dia daqueles, cheguei em casa e encontrei um insolente segundo aviso de uma conta de gás que não fora paga e meus três filhos quase a nocaute.

Tommy, de onze anos, reclamava de um corte de cabelo malfeito. Teve de aguentar os meninos o chamando de "carequinha”, ele me contou, escondendo a cabeça com as duas mãos.

Lisa estava desolada: apesar de ter estudado tanto para o teste final da segunda série, errara duas palavras.

Jenni, no primeiro ano, fora traída por sua risada nervosa na hora da leitura e tropeçara numa frase.

Olhei aquelas três carinhas desconsoladas com a maior ternura e a imagem de minha avó apareceu sorrindo em minha cabeça:

"Muito bem, queridos, sabem que dia é hoje? É 'um dia em que deu tudo errado'. Vamos festejar!" Eles me olharam, surpresos e curiosos. Continuei: "Minha avó sempre dizia que aprendemos mais com nossos erros do que com nossos sucessos. Ela falava que quanto mais uma pedra se desgasta pela ação do tempo, mais longe ela vai ricochetear. Vamos ao McDonald's para nossa primeira 'festa do dia em que deu tudo errado'." Essa foi a primeira de muitas outras festas por coisas que deixaram de dar certo. Procurávamos o que podíamos comemorar em meio a tragédias, em vez de nos angustiarmos pelo que tínhamos sofrido.

Espero ter plantado nas almas de meus filhos as sementes reunidas pela sabedoria das mulheres que me antecederam. E que essas sementes se espalhem nos seus próprios jardins um dia.

 

 

Quando uma falha ocorre, há apenas atraso, mas não derrota.

É um desvio temporário, mas não um beco sem saída.

WILLIAM ARTHUR WARD

 


 

A MADRASTA

JENNIFER GRAHAM

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 55

 

Desde nosso divórcio amigável há alguns anos, Eric e eu ficamos bons amigos. Entramos em acordo quanto às regras de educação e às visitas ao nosso filho Charley, que se beneficiava desse nosso equilíbrio. Ele parecia bem ajustado e feliz.

Assim, quando conheci a noiva de Eric, que, afinal, ia se tornar a madrasta de meu filho, fiquei um pouco nervosa. Não havia dúvida de que Bonny teria influência sobre a vida de Charley. O que me desagradou na época foi a influência que ela teria na minha vida.

No nosso primeiro encontro fiquei impressionada em como éramos diferentes. Suas roupas tinham um ar de "vestida para o sucesso", enquanto eu fazia o gênero "desinteresse amarrotado". Ela era atraente, serena e segura, enquanto eu era desalinhada, nervosa e tagarela. Eu me sentia desconfortável e desconfiada, prestando atenção em todos os seus maneirismos e inflexões, avaliando-a como futura madrasta de Charley. Meu pensamento basicamente era: “O que ela vai fazer com o meu bebê?”  

Até então eu tinha várias fantasias sobre a pessoa com quem meu “ex” se casaria um dia. Uma delas

Era que ela seria uma bruxa malvada, uma megera furiosa de quem meu filho fugiria gritando. Ele correria pra mim naturalmente, sua mãe de verdade, dona de infinita sabedoria e paciência, como só uma mãe pode ter. Havia outra hipótese assustadora: a madrasta seria tão legal que um dia eu ouviria meu filho me anunciando: “Não vou para casa hoje, mamãe. Bonny tem um camarote para assistir ao campeonato de futebol.”

De qualquer forma, havia uma pessoa que estava para se tornar a outra mãe do meu filho e tudo que eu podia fazer era observar e esperar.

Com o tempo me tornei menos desconfiada e mais natural em relação à Bonny. Ela ficou menos profissional e mais familiar em relação a mim. Nós nos entendemos entre a rotina de horários de pegar e levar Charley, estar presentes a reuniões de pais e assistir a jogos de futebol.

Então, uma noite, meu novo marido e eu convidamos Bonny e Eric para um café depois de uma reunião de pais. Charley adorava nos ver juntos e estava feliz. Durante a noite, tensões e pretensões se derreteram. Bonny e eu baixamos nossas defesas e falamos mais francamente. Em vez de “ex- mulher” e “madrasta”, éramos agora apenas amigas.

Alguns meses depois, nós quatro nos reunimos para falar da formatura de Charley. Em vez de trazer seus esquemas, listas e dados – como se apresentasse um projeto ante um comitê-, Bonny confessou vulnerabilidade. Falou de suas inseguranças e ansiedade em lidar com um adolescente como o Charley. Estava exigindo de mais ou pedindo de menos? Estava pressionando-o ou mimando-o?

Meu coração se abriu pra ela. Afinal, seus pensamentos e temores eram iguais aos meus. Ela estava pensando, sentindo e se comportando como mãe – o que ela se tornara.

Assim, a segunda mãe de Chaley nem é bruxa má, que magoaria meu filho, nem a fada madrinha, que o roubaria de mim. Ela é uma mulher que o ama, se preocupa com ele, lutaria por ele e o protegeria do mal.

Em vez de me preocupar com a aparência de Bonny, passei a ser agradecida por sua presença na vida de Charley e na minha. A visão que ela tem das coisas, suas ideias e até suas listas ajudaram a criar meu filho.

Eu estava errada em querer manter o Charley grudado em mim como um brinquedo. Eu não queria dividir. Talvez tenha sido a primeira a amá-lo, mas isso não significa exclusividade. Descobri como é importante que meu filho seja cercado de afeto. Agora há mais uma mulher no mundo cuidando dele de forma especial. E, por isso, com alegria, divido o título de mãe.


 

OS SETENTA E CINCO ANOS DE MAMÃE

ALICE COLLINS apresentada por Geraldine Doyle

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 58

 

Ela secretamente deseja um balão de oxigênio como presente. Através dos anos, ela gritou, falou e rezou "Jesus, Maria, José, me deem paciência” 1.245.187 vezes.

Suas mãos penduraram fraldas em varais de roupa, esterilizaram mamadeiras, carregaram bebês, passaram roupinhas e orgulhosamente empurraram carrinhos.

Ela descascou mais batatas do que seis soldados em serviço.

Seu cabelo passou por várias fases: permanente, tintura com cápsulas colorantes, coque, outro permanente, tinta prateada.

Recebia visitas na “sala”, guardava as compras na “despensa”, o sorvete na "geladeira” e terça-feira era dia de usar a "máquina de lavar".

Ela se graduou em cuidados com crianças através de sarampo, catapora, cachumba, pneumonia, pólio, tuberculose, febres, cortes, gripes, braços quebrados e corações partidos.

Volta e meia seu armário abrigava vestidos, chapéus enfeitados, luvas brancas, saias curtas e longas, vestidos vaporosos, tecidos de forros, roupas de domingo e brinquedos de Natal encomendados pelos catálogos da Sears.

Seu coração conheceu o êxtase do amor por um homem, a alegria dos filhos, o amargor de seus erros, o calor dos amigos, a celebração dos casamentos, a bênção de netos e bisnetos.

Quem pode contar quantas escadas esfregou, os jantares que preparou, quantos presentes embrulhou, as lições que tomou, as histórias que leu para as crianças dormirem, quantas desculpas ouviu e quantas orações elevou a Deus?

Seus braços ninaram gerações de bebês. Suas mãos prepararam incontáveis pratos "favoritos". Seus joelhos se dobraram para rezar, muitas e muitas vezes, por aqueles que amava. Beijou muitos machucados que doíam e suas costas se curvaram para dar banho em cowboys sujos, catou muita roupa espalhada de adolescente, colheu muitas flores do jardim e envelheceu.

Passou pela vida com risos e lágrimas, vendo o pôr-do-sol de ontem se tornar o amanhecer de esperança e promessa. Por causa dela e do marido, a vida de família e amor continuou por gerações.

Quando uma mãe faz setenta e cinco anos, abençoados são aqueles que a rodeiam com seu amor.


 

JANTAR DE FAMÍLIA

SHARI COHEN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 61

 

Olhei para meus filhos gêmeos adolescentes e tive vontade de chorar. Ele de calças bufantes, cabelo cor de laranja e brincos.

Ela com uma argola no nariz, tatuagem temporária e unhas pintadas das cores mais estranhas.

Era Pessah e íamos a um jantar de família. O que as pessoas diriam? Já podia imaginar tios e tias murmurando comentários, olhando e meneando as cabeças em desaprovação.

Eu podia ter iniciado uma discussão ali mesmo, na porta.

Poderia ter ameaçado, ridicularizado, me recusado a sair. Mas para quê? Não queria causar problemas nem usar palavras agressivas naquele dia.

Teria sido mais fácil se ainda tivessem nove anos. "Voltem para seus quartos e se vistam adequadamente", eu diria. Mas tinham dezesseis anos e, para eles, suas roupas eram perfeitamente adequadas.

E lá fomos nós. Eu estava pronta para os olhares, mas eles não vieram. Estava pronta para os comentários, mas não foram feitos. Meus filhos se sentaram (a princípio meio desconfortáveis) à mesa de vinte lugares, bem ao lado de seus primos impecavelmente arrumados.

Participaram das orações e dos cantos. Meu filho ajudou os primos mais novos nas leituras. Minha filha ajudou a trocar os pratos na hora da sobremesa.

Eles riram, brincaram e ajudaram a servir o café para os mais velhos.

Percebi, enquanto constatava como eram bonitos e simpáticos, que não devia me importar com o que os outros pensassem.

Para mim, eles eram o máximo. Estavam respeitando nossas tradições com entusiasmo e se relacionavam com a família de forma amorosa. Isso vinha naturalmente - de seus corações.

Sentada em frente a eles, eu os observava. Soube naquele momento que os cabelos, as roupas e as tatuagens eram só afirmação de adolescente. Isso mudaria com o tempo. Mas sua participação nas orações da nossa festa e a união de nossa família permaneceriam para sempre nos seus corações. Mesmo quando fossem mais velhos, isso nunca iria mudar.

Logo a celebração do Pessah terminaria. A música muito alta, os amigos e o grande tumulto voltariam à nossa vida. Eu gostaria que essa noite especial não terminasse. Foram momentos preciosos que só as mães podem compreender. Acho que não importa a idade dos filhos. Às vezes é apenas um sorriso rápido e engraçado ou um pequeno gesto que faz cintilar em nós um sentimento avassalador de amor absoluto.

Observando meus filhos, senti que estavam alegres e em paz. Tive vontade de abraçá-los e dizer como os achava incríveis.

Mas não fiz isso. Queria beliscar suas bochechas como fazia quando tinham nove anos e dizer o quanto os achava bonitos. Mas também não fiz isso. Fiquei no meu lugar, cantei, comi e conversei com os outros.

Mais tarde, em casa, eu lhes diria. Sozinha com eles, diria o que representara terem ido à festa. Como eram sensacionais e como estava orgulhosa de ser sua mãe.

Mais tarde, sozinha com eles, eu diria o quanto os amo. E foi isso que fiz.


 

SABEDORIA DE SALOMÃO

LIVRO DOS REIS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 64

 

Certo dia, duas prostitutas apresentaram-se diante do rei Salomão e uma delas disse:

- Ó rei Salomão! Eu e esta mulher moramos na mesma casa.

Eu dei à luz um menino e ela estava lá comigo. Dois dias depois do nascimento do meu filho, ela também deu à luz um menino. Somente nós duas estávamos na casa; não havia mais ninguém lá. Uma noite ela rolou sem querer sobre seu filho e o sufocou. Então levantou-se durante a noite, enquanto eu dormia, pegou o meu filho e o colocou na cama dela. Depois colocou o menino morto nos meus braços. No outro dia de manhã, quando eu me levantei para dar de mamar ao meu filho, vi que estava morto. Porém, quando reparei bem, percebi que não era o meu filho.

Mas a outra mulher disse:

- Não é verdade. Pelo contrário, meu filho é o que está vivo, e o seu é o que está morto!

E a primeira mulher respondeu:

- Não é, não! A criança morta é a sua, e a viva é a minha!

E foi assim que discutiram na frente do rei.

Então o rei Salomão disse:

- Cada uma de vocês diz que a criança viva é a sua, e que a morta é da outra.

Então mandou buscar uma espada e, quando a trouxeram, disse:

- Cortem a criança viva pelo meio e deem a metade para cada uma destas mulheres.

A verdadeira mãe do menino, com o coração cheio de amor pelo filho, disse:

- Por favor, Senhor, não mate o meu filho! Entregue-o a esta mulher!

Mas a outra disse:

- Podem cortá-Io em dois pedaços! Assim ele não será nem meu nem seu.

Aí Salomão disse:

- Não matem a criança! Entreguem o menino à primeira mulher porque ela é a mãe dele.

Todo o povo de Israel soube dessa decisão do rei Salomão, e aí todos sentiram um grande respeito por ele, pois viram que Deus lhe tinha dado sabedoria para julgar com justiça.


 

MOVENDO MONTANHAS

JIM STOVALL Bits Pieces

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 66

 

Havia nos Andes duas tribos em guerra. Uma vivia na parte baixa; a outra, na parte alta das montanhas.

Um dia, a parte baixa foi invadida pelos povos do alto, que, além de saquearem os inimigos, raptaram um bebê e o levaram para as montanhas.

Os povos da parte baixa não conheciam os caminhos usados pelos povos da montanha. Não sabiam como chegar ao alto, como chegar aos inimigos ou rastrear seus passos pelos terrenos escarpados.

Mesmo assim, enviaram seus melhores guerreiros para subir a montanha e trazer a criança de volta.

Os homens tentaram diferentes métodos de escalada.

Primeiro um caminho, depois outro. Após vários dias de esforços, não tinham subido nem quinhentos metros.

Sentindo-se impotentes e sem esperança, os homens da parte baixa consideraram a causa perdida e se prepararam para voltar para sua cidade.

Enquanto arrumavam o equipamento para a descida, viram a mãe do bebê andando na direção deles. Perceberam que ela estava descendo a montanha que eles não tinham conseguido subir.

E então descobriram que o bebê estava amarrado às costas da mulher. Como era possível?

Um dos homens a saudou, dizendo: "Nós não tivemos êxito em subir a montanha. Como você chegou ao alto se nós, os homens mais fortes e capazes da cidade, não conseguimos?" Ela encolheu os ombros e respondeu: "É que não era o filho de vocês que estava lá”.


 

O DIA EM QUE EU ESTAVA TÃO OCUPADA

CINDY LADAGE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 68

 

"Mamãe, veja!", gritou minha filha de sete anos, DarIa, apontando para um filhote de falcão planando no ar.

"Hum, hum", murmurei, enquanto dirigia, pensando no horário apertado daquele dia.

Seu rostinho mostrava decepção.

"O que foi, querida?", perguntei, completamente absorta em meus pensamentos.

"Nada", respondeu DarIa. O momento se fora. Perto de casa, diminuí a velocidade para tentar ver o coelhinho que toda noite aparecia vindo de trás das árvores, mas ele não estava lá.

"Esta noite ele está muito ocupado", eu disse.

Em casa, as tarefas me esperavam: jantar, banho, telefonemas, arrumações. Até que chamei DarIa para dormir. Ela subiu as escadas correndo. Cansada, beijei seu rosto, rezamos e a coloquei na cama.

"Mamãe, esqueci de lhe dar uma coisa!", ela disse.

"Deixa para dar amanhã", respondi, impaciente.

Mas ela balançou a cabeça e retrucou: "Você não vai ter tempo amanhã!" "Vou sim!", respondi, na defensiva.

Às vezes, por mais que tentasse, o tempo me escorregava entre os dedos como areia numa ampulheta. Nunca era suficiente.

Nem para minha filha, nem para meu marido, nem para mim.

Ela ainda não desistira. Franziu o narizinho pintado de sardas numa careta e jogou o cabelo castanho para trás.

"Não vai não! Vai ser como hoje, quando eu falei para você olhar o falcão. Você nem prestou atenção!" Eu estava muito cansada para discutir e ela chegara bem perto da verdade.

"Boa noite", fechei a porta do quarto dela com força.

Mais tarde, me lembrando de seu olhar azul-acinzentado, pensei que daqui a pouco ela cresceria e iria embora.

Meu marido perguntou por que eu estava tão abatida e lhe contei.

"Talvez ela ainda esteja acordada. Por que você não vai lá?", ele falou, exercendo seu papel de pai.

Segui seu conselho, preferindo que a ideia tivesse sido minha.

Abri a porta e a luz vinda da janela iluminava a cama. Nas mãos de DarIa, um papel amassado. Devagar, abri sua mão para saber a causa de nosso desentendimento.

Fiquei com os olhos cheios d'água. Ela rasgara em pedacinhos um grande coração vermelho com um poema intitulado "Por que Amo Minha Mãe!".

Catei os pedacinhos, montei o quebra-cabeça e li:

 

Por que Amo Minha Mãe!

Mesmo tendo tanta coisa pra fazer e trabalhando tanto, você sempre encontra tempo pra brincar.

Amo você, mamãe,

Porque sou a parte mais importante do seu dia tão ocupado!

 

As palavras foram como uma flecha direta no meu peito. Com sete anos, minha filha tinha uma sabedoria extraordinária.

Dez minutos depois, levei até seu quarto uma bandeja com duas xícaras de chocolate quente e dois sanduíches com seu recheio favorito. Quando toquei de leve no seu rosto, senti meu coração transbordar de amor.

Ela acordou piscando com seus lindos cílios e olhou para a bandeja.

"Para que isto?", perguntou, confusa com a invasão noturna.

"É para você, que é a parte mais importante do meu dia tão ocupado.

Ela sorriu e, sonolenta, bebeu a metade do seu chocolate.

Então voltou a dormir. Fiquei ali um longo tempo, acariciando o seu cabelo, dizendo o quanto a amava e como achava lindo que a minha filhinha de sete anos pudesse me ensinar coisas tão fundamentais.

O DIA EM QUE SOLTAMOS PIPAS

FRANCES FOWLER apresentada por Ruth Rogness

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 73

 

"Linha!", gritou meu irmão. "Precisamos de mais linha!' Era sábado, como sempre um dia ocupado, pois "Trabalharás durante seis dias e farás todos os trabalhos" era levado a sério então. Do lado de fora, papai e o vizinho, o senhor Patrick, também cumpriam suas tarefas.

Mamãe e a senhora Patrick faziam a limpeza da primavera.

O vento tornava aquele dia de março ideal para arrumações de armário. As roupas de lã já balançavam no varal do quintal.

De alguma forma, os meninos tinham conseguido ir para o morro atrás da casa com suas pipas. Agora, mesmo com o risco de deixar meu irmão encurralado e obrigado a bater tapetes, eles o mandaram pegar mais linha. Aparentemente não havia limites para a altura que as pipas poderiam alcançar.

Mamãe olhou para a sala, a mobília desarrumada esperando uma limpeza espartana. Mas seus olhos se dirigiram à janela: "Venham, meninas! Vamos levar linha para os garotos e vê-los soltar as pipas!" No caminho, encontramos a senhora Patrick rindo com um ar de culpa, as filhas ao lado.

Nunca houve um dia tão bom para soltar pipas. Deus não faz dois dias iguais no mesmo século. Pusemos toda a linha extra nas pipas dos meninos e elas continuavam a subir. Mal podíamos distinguir os pontos cor de laranja no céu. De vez em quando, puxávamos a linha devagar, fazendo-as mergulhar, apenas para ter a alegria de vê-Ias subir de novo. Que emoção correr com elas, para a direita, para a esquerda, percebendo que nossos pequenos movimentos em direção ao chão refletiam-se minutos depois na majestosa dança das pipas no céu! Escrevemos desejos em pedaços de papel e os encaixamos na linha. De forma lenta e irresistível, eles subiram até alcançar as pipas. Com certeza seriam desejos realizados.

Até nossos pais largaram enxadas e martelos e se juntaram a nós. Nossas mães também brincaram, rindo como estudantes.

Seus penteados se desfizeram e os cachos caíram sobre seus rostos, seus aventais riscadinhos batendo em suas pernas.

Misturada à nossa alegria havia alguma coisa que causava admiração: os adultos estavam brincando conosco! Olhei para mamãe e a achei realmente bonita. E ela já tinha mais de quarenta anos! Não sentimos o tempo passar no alto da montanha. Não existia o tempo, apenas a brisa dourada. Estávamos além de nossos corpos. Os pais esqueceram seus deveres e brincaram sem qualquer vergonha. As crianças esqueceram disputas e implicâncias. Talvez seja assim o reino do céu, pensei, confusa.

A tarde caía e nós, bêbados de sol e ar, voltamos cambaleantes e sonolentos para casa. Acho que fizemos um lanche.

Acho que foi feita uma limpeza superficial, mas a casa, no domingo, até que estava arrumada.

O estranho é que nós nunca mencionamos este dia depois.

Eu me sentia um pouco envergonhada. Com certeza, a experiência tinha sido mais profunda para mim do que para os outros, e tranquei a lembrança lá no fundo, onde guardamos "as coisas que não podem ser e mesmo assim são".

Passaram-se os anos e um dia eu estava ocupada na cozinha enquanto minha filha de três anos insistia em "ir ao parque ver os patos".

"Não posso!", eu disse. "Tenho muitas coisas para fazer e, quando terminar, vou estar cansada para ir tão longe." Minha mãe, que nos visitava naquele momento, parou um instante de descascar as ervilhas e disse: "Está uma manhã linda, quente, mas com uma brisa que me faz lembrar aquele dia em que soltamos pipas." Parei entre o fogão e a pia. A porta trancada se abriu e trouxe um jorro de lembranças. Tirei meu avental e disse à minha filha: "Vamos. Vovó tem razão. O dia está muito bonito para se desperdiçar."

Passou-se uma década. Estávamos no pós-guerra. Durante toda a noite ouvimos o filho mais jovem do senhor Patrick contar suas experiências de prisioneiro num campo de concentração. Depois de falar bastante, ficou em silêncio. Estaria pensando nas duras situações que enfrentou?

De repente, com um sorriso nos lábios, ele disse: "Ei! Vocês lembram... não, claro que não. Não deve ter deixado em vocês a mesma impressão que deixou em mim." Tive até medo de perguntar: "Lembrar o quê?" "No campo de prisioneiros, naquela situação tão terrível, eu me lembrava sempre daquele dia. Vocês lembram o dia em que soltamos pipas?"

Chegou o inverno e eu tinha a espinhosa missão de visitar a senhora Patrick, que ficara viúva. Era difícil. Não podia imaginá-Ia enfrentando a vida sozinha.

Conversamos um pouco sobre as famílias e sobre as mudanças na cidade. Então, ela ficou em silêncio, olhando para o colo. Limpei a garganta, me preparando para falar sobre sua perda e vê-Ia chorar.

Quando levantou o rosto, ela sorria: "Eu estava aqui sentada, pensando. Henry se divertiu tanto naquele dia. Frances, você se lembra do dia em que soltamos pipas?"

 

 

 

Este é o meu lugar favorito. Dentro do seu abraço.

 


 

A BONECA QUEBRADA

DAN CLARCK

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 77

 

Eis como uma amiga me contou a história passada com sua filha.

Preocupada com sua demora em chegar da escola, eu estava aborrecida quando ela finalmente apareceu. Com a voz zangada, pedi que explicasse a razão do atraso.

Ela disse: "Mamãe, eu estava vindo a pé com Julie quando, no meio do caminho, ela deixou cair a boneca, que se partiu em mil pedaços." "Ah, meu bem", respondi, "você se atrasou porque foi ajudar Julie a tentar colar os pedaços da boneca." Com sua vozinha inocente, minha filha disse: "Não, mamãe, eu não sabia como consertar a boneca. Só fiquei lá para ajudar Julie a chorar."


 

ALÉM DO CONTROLE

COLLEEN DERRICK HORNING

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 78

 

Quando tocaram a campainha naquela tarde, abri a porta meio entorpecida. Era a pior hora para aparecer alguém! Um homem de rosto simpático se apresentou: viera consertar o sistema de alarme.

No quinto mês de gravidez, eu estava com os nervos à flor da pele, esperando o telefone tocar. Minha paz de espírito poderia vir da notícia que aguardávamos.

Durante um ano e meio nós tínhamos tentado ter um bebê, chegando a fazer testes de fertilidade, sem um resultado conclusivo. Finalmente fiquei grávida.

O primeiro trimestre transcorreu normalmente, a não ser pelos enjoos matinais, que eu sabia serem temporários. Esperava ansiosa pelas consultas médicas, para saber cada vez mais sobre nosso filho. Então quando o médico perguntou se eu queria fazer um exame de sangue que detectaria algum eventual problema, concordamos imediatamente. Chegando os resultados, o médico me telefonou e, com um tom profissional, embora preocupado, disse que havia sugestão de síndrome de Down.

Para certificar-se, agendou um ultrassom e uma amniocentese.

Embora apreensivos, meu marido e eu nos emocionamos, pois pela primeira vez pudemos ver o bebê se mexer. Tudo se tornou real de repente: íamos mesmo ter um bebê, um menino!

Não poderia haver nada de terrível com ele, não é?

Foi duro saber que os resultados demorariam duas semanas e que este período seria suficiente para pôr termo à gravidez de maneira segura. Mas, qualquer que fosse o resultado, para nós esta não parecia uma opção.

Não imaginava que duas semanas pudessem parecer uma eternidade. Eu tentava me distrair, pensar em outras coisas, mas as palavras "fora dos padrões de normalidade" ficavam se repetindo na minha cabeça. Rob ia para o trabalho e eu me sentia desamparada em casa.

Finalmente chegou o dia de saber o resultado. Nunca esquecerei meu nervosismo, em casa, sozinha, esperando o telefone tocar. Mas ele não tocava e lá pelo meio-dia não aguentei mais.

Liguei para o médico, mas a enfermeira disse não ter ainda a resposta. Foi neste dia que o técnico veio consertar o alarme.

Quando a campainha tocou, eu estava a ponto de explodir.

Como um autômato, deixei o técnico entrar e mostrei a ele o sistema de alarme, pensando: "Isso vai custar uma fortuna, aconteceu na pior hora."

Fui ensinada a acreditar que "Deus sabe a hora certa”, mas essa fé dava sinais de estar abalada. Umas duas horas depois, a enfermeira ligou. Respirei fundo ao ouvir: "Temos uma notícia boa e uma ruim."

A boa era que nosso filho não tinha síndrome de Down. A ruim era que se apresentava um problema nos cromossomos. Se Rob e eu também tivéssemos o problema, nosso filho nasceria bem. Mas, caso contrário, significava que faltava alguma coisa na composição dos genes do bebê.

“Alguma coisa faltando?" Tentei não gritar. "Como assim?

Isso quer dizer o quê?" "Desculpe, senhora Horning, não se pode dizer o que há de errado com o bebê até ele nascer. Agora o melhor a fazer é a senhora vir aqui imediatamente com seu marido para um exame de sangue.

"Imediatamente? Podemos ficar sabendo hoje?" "Podemos fazer o exame hoje e ter o resultado em cinco dias." "Cinco dias?"

Foi quando perdi o controle. Não me lembro de ter chorado e gritado tanto em meus trinta e quatro anos de vida. Parecia que eu tinha levado um soco no estômago e que estava tomando fôlego para receber outro. Lembro que liguei para o trabalho de Rob, ainda histérica.

"Colleen, querida, ouça. Peça ajuda à vizinha. Vou sair logo que puder, mas não quero que você fique sozinha." Desliguei o telefone, apavorada.

Fiquei ali, sem ar, e me lembrei então que o técnico do alarme ainda estava trabalhando e provavelmente ouvira tudo. Com vergonha, achei que tinha de me desculpar. Chorando, fui até a sala da frente e o encontrei encostado no umbral da porta, como se esperasse por mim. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele me levou até uma cadeira.

"Sente-se", ele disse. "E respire fundo, procurando relaxar." As instruções específicas e o tom gentil me pegaram de surpresa. Sentei e comecei a respirar, me sentindo mais calma. Aquele estranho se sentou à minha frente e, numa voz tranquila, me contou como ele e a mulher tinham perdido o primeiro filho. O bebê nascera morto porque eles não sabiam que ela desenvolvera diabetes durante a gravidez. Ele continuou dizendo como fora duro aceitar o fato até que, finalmente, desistiram e admitiram que era algo que lhes fugia ao controle.

"Eu entendo como seu coração está doendo agora. Mas só o que a senhora pode fazer é ter fé e compreender que o que está acontecendo com seu bebê está fora do seu controle. Quanto mais tentar tomar as rédeas da situação, ter controle sobre o bebê, sobre os exames, tudo isso, mais a sua incapacidade de mudar as coisas vai fazer-lhe muito mal." Tomou minha mão e disse que há poucos meses ele e a mulher tinham sido abençoados com uma menininha saudável. Dessa vez, não tinha havido problemas. É claro que pensam ainda no garotinho que perderam, mas hoje entendem e aceitam que, por alguma razão, não era para ele viver.

Pediu para eu tentar manter a fé e afirmou que sentia que tudo daria certo.

Então, com a mesma calma com que me contou sua história, ele se levantou e se dirigiu à porta. Virou-se e disse que já consertara o alarme.

Aquele homem me ajudou como nenhuma outra pessoa poderia ter feito! Ao apertar sua mão e dizer "obrigada, me lembrei de que não pagara pelo serviço.

Ele sorriu e disse que eu nada lhe devia. Tudo que pedia era que eu mantivesse a fé.

Entreguei a Deus e, no final das contas, tudo aconteceu na hora certa.


 

COMPLETAMENTE ERRADO

GERALD E. THURSTON JR.

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 83

 

Dizer que minha mãe era completamente inexpressiva não é crítica nem reclamação. Ela era simplesmente uma dessas mulheres que as pessoas não notam. O mundo está cheio de pessoas assim.

Nascida em uma família de alcoólatras, minha mãe decidiu sair de Saint Louis aos dezessete anos porque, como ela dizia, "Não podia aguentar mais um só minuto de discussão, bebida e loucura. Foi para a Califórnia, morar com uma prima e começar vida nova. Isso aconteceu em 1959.

No ano seguinte se casou com meu pai, que era da Marinha, e tiveram três filhos: Tammy, Tina e eu, Jerry. Meus pais compraram uma casa pequena e simples no condado de Orange em 1967. Em 1975, apesar de seus esforços, se divorciaram. Eu tinha doze anos.

Talvez pela grande mudança provocada pelo divórcio, de repente passei a perceber minha mãe como pessoa. Notei que seu rosto tinha círculos escuros em torno dos olhos e que seu corpo sofrera com a gravidez e o parto dos filhos. Os homens não olhavam para ela. Parece que nunca notaram os olhos luminosos que eu comecei a perceber com o tempo.

Como muitas outras mães sozinhas, a minha também arrumou um segundo emprego e à noite distribuía formulários de corridas de cavalo em lojas de bebidas alcoólicas. Ela me prometia um sorvete coberto de chocolate para eu ir com ela, pois dizia ser a única forma de estarmos juntos mais um pouco. Levava pilhas de formulários às lojas, sem receber sequer um segundo olhar dos homens detrás dos balcões. Mamãe parecia invisível para os homens.

Mais velho, eu amargava o desinteresse das pessoas por minha mãe. Eu conhecia seu caráter, sua moral e o imenso conhecimento adquirido por ser uma leitora insaciável. Percebi que a vida silenciosa e heroica de minha mãe não era notada nem apreciada. Aquilo me doía.

Em dezenove de fevereiro de 1986 recebi um telefonema no trabalho. Era minha mãe, com a notícia de que o resfriado de que ela tentava se livrar há dois meses era na verdade um tumor no pulmão esquerdo. Uma semana depois foi para a mesa de operação, mas nada havia a fazer. O médico falou em quimioterapia e radioterapia, mas seus olhos nos diziam a dura verdade.

Mamãe lutou com garra contra o tumor, mas parecia que ninguém percebia sua fibra. Ela suportou os efeitos da radiação, que atingiram sua laringe, afetando sua capacidade de engolir e até de respirar. Enfrentou o pesadelo da quimioterapia, comprando uma peruca vermelho-vivo para tentar chamar a atenção da família para o que estava ocorrendo. Não funcionou. Ela lutou para "derrotar o monstro" até perder a consciência, em dois de fevereiro de 1987, morrendo de mãos dadas com seus filhos, que acariciavam seu rosto completamente inexpressivo. Aquilo me encheu de raiva.

Raiva do mundo que não a notara. Eu a notara. Pude observar a luta e a solidão cobrarem seu preço. Como não viram que essa mulher inexpressiva na figura era, na verdade, um lindo ser humano? Tive raiva até o dia do funeral.

Pessoas que eu não conhecia começaram a chegar na capela simples onde ela se encontrava para ser notada pela última vez.

Pessoas que tinham trabalhado com ela há vinte anos estavam lá, dizendo que não me viam desde que eu usava fraldas.

Amigos de seu último emprego, que eu não conhecia, foram nos abraçar. Até o chefe com quem trabalhara há oito anos esteve lá. Cumprimentou-me e disse que minha mãe inexpressiva era "uma das mulheres mais bondosas que já conheci".

Comecei a prestar atenção em minha mãe como pessoa aos doze anos e a achei totalmente inexpressiva. Olhei para a capela cheia de pessoas que tinham notado minha mãe e podiam pensar outras coisas dela, mas jamais que fosse inexpressiva.

Foi uma alegria profunda constatar que estava completamente errado. Debaixo da aparência inexpressiva de minha mãe, essas pessoas perceberam, o tempo todo, a pessoa extraordinária que estava ali.


 

O SUÉTER

PAMELA ALBEE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 86

 

Era tarde demais quando me dei conta de meu erro. Eu fora de tal forma tomada pela dor diante do rápido declínio e morte de meu pai, que não parara para pensar em como a sua morte afetaria minha filha.

Papai havia passado meses reclamando de uma dor no ombro, "um nervo pinçado" - foi o que achamos. Quando adoeceu durante as férias e foi diagnosticado com um câncer primário e progressivo na próstata, todos ficamos chocados.

Meu pai era uma dessas pessoas especiais que nasceu com um brilho nos olhos. Jamais conheci alguém que não pensasse um mundo de coisas boas a seu respeito. Crianças pequenas, em particular, sentiam-se atraídas por ele como formiguinhas por mel. Ele juntava as mãos e sorria com tanta alegria, que a criançada se aproximava correndo. Durante uma visita à minha irmã, na Irlanda, ensinou a molecada do vilarejo a jogar futebol americano. Era frequente as crianças irlandesas passarem pela casa à noite para perguntar: "Será que o vovô pode sair para brincar com a gente?" Assim, não era nenhuma surpresa que ele fosse especialmente próximo de minha filha Jodi, de cinco anos, a última dentre todos os netos que continuou a morar perto dele, nos Estados Unidos. Os dois viviam dando risadinhas e gargalhadas juntos, durante horas, inventando histórias e alimentando animais de mentirinha no quintal.

Quando encontraram o câncer de meu pai, já havia se espalhado para os ossos e, a partir daí, tudo aconteceu rapidamente. Quando íamos visitá-Io, Jodi sentava-se quietinha ao seu lado na cama e fingia ler para ele - as brincadeiras barulhentas haviam ficado para trás. Eu lhe explicara que o vovô estava muito doente e que não podia mais brincar com ela como antigamente, mas era difícil para sua cabecinha de cinco anos compreender.

Perto do final, eu já não levava Jodi comigo por não querer que ela se assustasse com a aparência do avô, com a expressão de dor e de sofrimento no rosto daquele homem vital que todos tanto amávamos.

Depois que ele morreu, fiquei sem saber se Jodi compreendia o caráter definitivo da morte ou se achava que o vovô estava fora da cidade, "de férias". Mas, com o passar das semanas, ela foi ficando muito quieta e retraída, chorando com frequência por motivos que eu achava estranhos.

Certa noite, sentei-me com ela no colo e acariciei seus cabelos, suavemente.

- Você me parece muito triste, meu docinho - disse eu. Quer me dizer o que há de errado?

Ela passou alguns minutos em silêncio e, a seguir, pôs-se a soluçar.

- Eu não consegui me despedir do vovô.

Naquele momento eu me dei conta de que, apesar de meus bons propósitos, eu havia cometido um erro.

Através de uma nuvem de lágrimas mútuas, ficamos sentadas juntas, uma embalando a outra, e conversamos sobre o vovô e sobre todos os momentos maravilhosos passados com ele.

- Você quer dizer adeus para o vovô agora? - perguntei.

Ela olhou para mim como se eu fosse só um pouquinho esquisita.

- Feche os olhos. Agora imagine o rosto do vovô bem à sua frente. Quando ele sorrir, você pode falar com ele.

De repente, um imenso sorriso invadiu seu rosto.

- Ele está sorrindo tão grande para mim!

- Então diga a ele o que você quiser.

- Vovô - começou ela -, eu amo você e sinto muito a sua falta. Quero me despedir de você. Tchau, vovô.

Então me lembrei dos mimos que pegara para mim quando minha mãe empacotou as roupas de papai. Pedi a ela dois de seus suéteres velhos confortáveis, aqueles com os quais ele gostava de ficar em casa nos fins de semana. Fui pegar os dois suéteres azuis e dei um a Jodi.

- Estes são os suéteres especiais do vovô. Quando estivermos tristes ou com saudades dele, é só vestir para sentí-Io nos abraçar.

Nós duas choramos enquanto cada uma vestia o seu suéter.

Então eu a segurei nos braços enquanto adormecia. Pela primeira vez em semanas ela parecia estar em paz, com um discreto sorriso no rosto.

Os dois suéteres foram muito usados através dos anos.

Muitas vezes, quando Jodi estava com algum problema, retirava-se para o quarto. Quando, mais tarde, eu ia verificar se estava tudo bem, era normal encontrá-Ia deitada na cama envolta no suéter azul do vovô - dormindo pacificamente com a mais sutil insinuação de um sorriso no rosto.

Hoje Jodi tem dezoito anos e ainda adora usar o suéter do avô. De alguma maneira, sempre lhe cabe perfeitamente. E sabem por quê? Porque é do tamanho de um abraço.


 

CONFISSÕES DE UMA MADRASTA

CAROL KLINE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 91

 

Ao conhecer Larry, meu futuro marido, compreendi que era um pacote completo, incluindo McKenna, uma filha de dezoito meses, e Lorin, um menino de quatro anos, nos fins de semana.

No dia em que conheci as crianças, contornamos o lago com Larry carregando uma McKenna de fraldas no colo, enquanto Lorin corria atrás de sapos para me mostrar. Fiquei atordoada. Aquelas crianças eram uma imensa parte do homem que eu amava e, no entanto, tinham muito pouco a ver comigo.

Como é que essa história de madrasta funcionava?

Eu rapidamente me apaixonei pelo sorrisinho travesso de Lorin e o corpinho rechonchudo de McKenna, quentinho, contra o meu, quando eu a segurava no colo. Fui completamente tocada pela minha nova e encantadora "família instantânea”, mas a mães das crianças, Dia, já era outra história. Tínhamos um relacionamento cauteloso, as arestas de hostilidade existentes entre nós duas muito tênuemente ocultadas. Eu fazia o possível para ignorá-Ia e me concentrava nas duas crianças adoráveis as quais ela dera à luz.

As crianças e eu nos dávamos bem, embora Lorin fosse um tanto reservado. Talvez fosse por lealdade à mãe ou por ser menino, ou, aos quatro anos, pelo simples fato de querer mais independência. McKenna, por ser tão pequenininha, não era dada a esse tipo de escrúpulos. Ela me amava e deixava isso bem claro, sem reservas, com uma doçura e inocência que tiravam o meu fôlego. Eu não conseguia resistir ao seu amor e, quando me apaixonei, foi de verdade. Quase que imediatamente formamos nosso próprio fã-clube mútuo - dois corações que pulsavam como um.

Na realidade foi McKenna quem primeiro me pediu em casamento. Estávamos sentadas, juntas, na sala de espera de um aeroporto, a caminho da casa dos pais de Larry. Com quase três anos, estava sentada no meu colo, de frente para mim, brincando com o meu colar. De vez em quando, olhava para o meu rosto com os olhos transbordando de adoração. Sorri, sentindo a presença de meu imenso amor por ela em meu coração. Larry estava sentado ao nosso lado e Lorin passeava pelas fileiras de cadeiras de plástico, fazendo barulhos de motor de carro com a boca. Para um observador desavisado, éramos uma jovem família como outra qualquer. Mas não éramos uma família porque Larry ainda não havia feito aquela pergunta. E muito embora eu não quisesse forçar a barra, nós dois sabíamos que minha paciência estava chegando ao limite. O que, eu me perguntava, estaria ele esperando?

Então, McKenna arrancou a chupeta da boca e, retribuindo o meu sorriso, perguntou, toda animada:

- Quer casar comigo?

Após um momento de sobressaltado silêncio, rimos até a barriga doer. Eu por simples deleite, Larry pela liberação da tensão e as crianças, simplesmente, porque os adultos. estavam rindo. Felizmente, não demorou muito para que Larry seguisse o exemplo da filha com o seu próprio pedido de casamento.

Com o passar do tempo, acostumei-me a ser mãe em regime de meio expediente - e a ter a mãe das crianças como parte inevitável de minha vida. Eu gostava de Dia, sinceramente, mas nossas posições pareciam exigir um certo grau de mau humor mútuo que eu fazia o possível para sufocar. Às vezes sentia o condenável desejo de que ela simplesmente sumisse. Abatida por uma doença rápida e indolor, ela, em seu leito de morte, me pediria para criar os filhos em seu lugar. Assim, as crianças ficariam conosco - seriam minhas de fato - e nós poderíamos formar uma família "de verdade".

Felizmente, isso jamais aconteceu. Eu não queria que ela morresse; apenas sentia ciúmes por ela ter tido filhos com o meu marido. Está bem, está bem, concordo que ele era marido dela naquela época - mas, ainda assim, a situação me exasperava. Vi as crianças crescerem, deixarem de ser bebês e passarem a frequentar a escola. A mãe deles e eu dávamos prosseguimento às nossas interações canhestras porém civilizadas, organizando o ir e vir das crianças, negociando férias e feriados.

Meus amigos viviam dizendo que quem tinha de lidar com a ex-mulher era Larry e, por algum tempo, tentamos isso. Mas como madrasta ativa e cheia de boa vontade para com as crianças, eu vivia me metendo nas decisões. Assim, Dia e eu acabamos voltando ao arranjo anterior e, com o passar dos anos, notei que nossos telefonemas foram mudando. Notei que gostava de conversar com Dia sobre as crianças. E acho que ela se deu conta de que havia poucas pessoas no mundo que tinham tanto interesse, que eram tão encantadas ou preocupadas com seus filhos quanto eu. Demos início a uma metamorfose lenta porém perceptível, completada no ano em que Dia me enviou um cartão de Dia das Mães me agradecendo por ser "co-mãe" de seus filhos.

Este foi o início de uma nova era para Dia e eu. E muito embora nem sempre tenha sido perfeita, tenho consciência de que tem sido extraordinária. Assim, tenho os meus próprios agradecimentos a fazer:

Obrigada, Dia, por ser grande o suficiente para compartilhar os seus filhos comigo. Se você não o fosse, eu jamais saberia o que é segurar um bebê adormecido e sentir a completa confiança demonstrada por aqueles membros flácidos, de pele sedosa, reunidos, com todo o cuidado, em meus braços. Jamais teria tido a oportunidade de me maravilhar com as curvas e desvios da mente de um menino enquanto tenta encontrar sentido num universo tão grande e complexo.

Jamais teria sabido que uma criança é capaz de chorar tão alto quando a barriga dói ou que, depois de vomitar, podia sorrir para a gente de forma tão radiante - as bochechas ainda molhadas de lágrimas, a dor já esquecida.

Eu jamais teria assistido a um menino pelejar para se tornar a sua própria pessoa ou participado tão ativamente do processo de crescimento, tão dolorido e sério, de um adolescente. Não teria tido o formidável privilégio de assistir aquele molequinho chato de doze anos, que me enlouquecia com suas perguntas, se transformar num homem lindo, com um sorriso de muitos megawatts e uma personalidade encantadora. E, enquanto se prepara para ir para a faculdade, sei que está prestes a levar uma nova geração de mulheres à loucura - por motivos completamente diferentes.

Não teria sentido a emoção de ver nossa linda filha no palco expressando-se com graça e com uma profundidade de sentimento antigo demais para alguém tão jovem. Ou de sentir a vaidade e o orgulho - completamente desmerecidos (e censuráveis) - quando um desconhecido comenta que McKenna se parece comigo.

Obrigada por transformar a manhã de Natal num evento comunitário para que as crianças jamais tivessem de se sentir divididas num dia que tanto amam. Olhei ao meu redor, um ano, e nos vi sentados ao redor da árvore de Natal enquanto os meninos distribuíam os presentes. Lá estávamos, você e seu marido, Larry e eu, as crianças e... surpreendentemente, eu me senti em casa.

Compreendi, naquele momento, que você não precisava sumir para sermos uma família de verdade.

 

 

 

Claro que eu gostaria de ser uma mãe perfeita.

Mas estou muito ocupada cuidando dos meus filhos.


 

A VISÃO REAL

MARSHA ARONS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 96

 

Minha amiga Michelle é cega, mas você não notaria se não prestasse muita atenção. Ela usa tão bem os outros sentidos, inclusive o "sexto sentido" - a intuição -, que dificilmente deixa a impressão de que não percebeu alguma coisa.

Michelle cuida dos filhos tão bem quanto qualquer uma de nós, só que não esquenta a cabeça com detalhes. Seus filhos, Sarah, de seis anos, e Aaron, de nove, se beneficiam disso.

Michelle comentou comigo que, como não consegue escolher as roupas das crianças, e o marido não se sente com capacidade para isso, Sarah e Aaron acabam resolvendo eles mesmos o que vestir. Para Michelle o que importa é que as roupas estejam limpas e de acordo com a temperatura. E ela acredita que as crianças já têm idade para dizer se sentem calor ou frio.

Um outro assunto sobre o qual Michelle raramente discute com os filhos é quanto à limpeza da casa. Ela sabe que está na hora de dar um bom jeito na casa quando tropeça em objetos ou brinquedos largados pelo chão. Na casa de Michelle, as crianças aprenderam a colocar as coisas nos devidos lugares, porque deixar tudo espalhado, mais do que aborrecer sua mãe, significa perigo para ela. Na verdade, Michelle se loco move tão bem pela casa que, com frequência, as pessoas que a visitam nem percebem que ela é cega.

Percebi isso na primeira vez que minha filha Kayla, de seis anos, foi brincar com Sarah. Kayla chegou em casa excitada com seu dia. Contou-me que assaram biscoitos, jogaram e fizeram trabalhos de arte. Mas estava especialmente entusiasmada com as pinturas feitas com os dedos.

Sorrindo, feliz, Kayla disse: "Mamãe, sabe da maior? Hoje aprendi a misturar as cores! Azul com vermelho dá roxo e amarelo com azul dá verde! Não é legal? E Michelle pintou conosco. Ela disse que gosta de sentir a tinta escorrendo entre os dedos." A alegria de minha filha chamou minha atenção e eu me dei conta de que jamais pintara com Kayla, porque a bagunça provocada pelas tintas me incomodava especialmente. Ela acabou aprendendo sobre cores com minha amiga cega. A ironia me fez parar e olhar para minha filha e para mim mesma com outros olhos.

"Michelle me pediu para descrever o que eu tinha feito e disse que meu trabalho passava alegria, orgulho e talento!" Kayla disse que nunca sentira como era bom pintar com os dedos até que Michelle lhe mostrou como pintar sem olhar para o papel.

Foi quando entendi que Kayla não sabia que Michelle era cega. Jamais faláramos sobre o assunto.

Quando contei para ela, ficou quieta por um momento.

Primeiro, não quis acreditar. "Mas, mamãe, Michelle compreendeu exatamente o que estava na minha pintura!", Kayla insistiu. E eu sabia que era verdade porque Michelle ouvira com a maior atenção a descrição que Kayla fizera de seu trabalho.

Também ouvira Kayla falar com orgulho da pintura, de como achara fantástico descobrir como as cores se misturam e o prazer que sentira com a textura das tintas.

Ficamos em silêncio até Kayla dizer, devagar: "Sabe, mamãe, Michelle realmente viu minha pintura. Ela usou meus olhos para ver”.

Eu nunca ouvi ninguém se referir a Michelle como cega. Ela não é cega. Ela tem uma espécie de "visão" que todas as mães deveriam usar.


 

FECHE A BOCA E ABRA OS BRAÇOS

DIANE C. PERRONE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 99

 

Uma amiga ligou com notícias perturbadoras: a filha solteira estava grávida.

Relatou a cena terrível ocorrida no momento em que a filha finalmente contou a ela e ao marido sobre a gravidez. Houve acusações e recriminações, variações sobre o tema "Como pôde fazer isso conosco?". Meu coração doeu por todos: pelos pais que se sentiam traídos e pela filha que se envolveu numa situação complicada como aquela. Será que eu poderia ajudar, servir de ponte entre as duas partes?

Fiquei tão arrasada com a situação, que fiz o que faço - com alguma frequência - quando não consigo pensar com clareza:

liguei para minha mãe. Ela me lembrou de algo que sempre a ouvi dizer. Imediatamente, escrevi um bilhete para minha amiga, compartilhando o conselho de minha mãe: "Quando uma criança está em apuros, feche a boca e abra os braços." Tentei seguir o mesmo conselho na criação de meus filhos.

Tendo tido cinco em seis anos, é claro que nem sempre conseguia. Tenho uma boca enorme e uma paciência minúscula.

Lembro-me de quando Kim, a mais velha, estava com quatro anos e derrubou o abajur de seu quarto. Depois de me certificar de que não estava machucada, me lancei numa invectiva sobre aquele abajur ser uma antiguidade, sobre estar em nossa família há três gerações, sobre ela precisar ter mais cuidado e como foi que aquilo tinha acontecido - e só então percebi o pavor estampado em seu rosto. Os olhos estavam arregalados, o lábio tremia. Então me lembrei das palavras de minha mãe.

Parei no meio da frase e abri os braços.

Kim correu para eles dizendo:

- Desculpa... Desculpa - repetia, entre soluços. Nos sentamos em sua cama, abraçadas, nos embalando. Eu me sentia péssima por tê-la assustado e por fazê-la crer, até mesmo por um segundo, que aquele abajur era mais valioso para mim do que ela.

- Eu também sinto muito, Kim - disse quando ela se acalmou o bastante para conseguir me ouvir. - Gente é mais importante do que abajures. Ainda bem que você não se cortou.

Felizmente, ela me perdoou. O incidente do abajur não deixou marcas perenes. Mas o episódio me ensinou que é melhor segurar a língua do que tentar voltar atrás após um momento de fúria, medo, desapontamento ou frustração.

Quando meus filhos eram adolescentes - todos os cinco ao mesmo tempo - me deram inúmeros outros motivos para colocar a sabedoria de minha mãe em prática: problemas com amigos, o desejo de ser popular, não ter par para ir ao baile da escola, multas de trânsito, experimentos de ciência malsucedidos e ficar em recuperação. Confesso, sem pudores, que seguir o conselho de minha mãe não era a primeira coisa que me passava pela mente quando um professor ou diretor telefonava da escola. Depois de ir buscar o infrator da vez, a conversa do carro era, algumas vezes, ruidosa e unilateral.

Entretanto, nas ocasiões em que me lembrava da técnica de mamãe, eu não precisava voltar atrás no meu mordaz sarcasmo, me desculpar por suposições errôneas ou suspender castigos muito pouco razoáveis. É impressionante como a gente acaba sabendo muito mais da história e da motivação por trás dela quando está abraçando uma criança, mesmo uma criança num corpo adulto. Quando eu segurava a língua, acabava ouvindo meus filhos falarem de seus medos, de sua raiva, de culpas e arrependimentos. Não ficavam na defensiva porque eu não os estava acusando de coisa alguma. Podiam admitir que estavam errados sabendo que eram amados, apesar de tudo. Dava para trabalharmos com "o que você acha que devemos fazer agora”, em vez de ficarmos presos a "como foi que a gente veio parar aqui?”

Meus filhos hoje estão crescidos, a maioria já constituiu a própria família. Um deles veio me ver há alguns meses e disse:

"Mãe, cometi uma idiotice..." Depois de um abraço, nos sentamos à mesa da cozinha.

Escutei e me limitei a assentir com a cabeça durante quase uma hora enquanto aquela criança maravilhosa passava o seu problema por uma peneira. Quando nos levantamos, recebi um abraço de urso que quase esmagou os meus pulmões.

- Obrigado, mãe. Sabia que você me ajudaria a resolver isto.

É incrível como pareço inteligente quando fecho a boca e abro os braços.

 

 

 

As crianças precisam de orientação e de compreensão

bem mais do que de instrução.

ANN SULLIVAN

 

 

 

Não existe uma forma de ser uma mãe perfeita,

mas um milhão delas de ser uma boa mãe.

JILL CHURCHILL

 


 

A INSPEÇÃO

AUTOR DESCONHECIDO

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 103

 

Num acampamento de escoteiros, durante uma inspeção, o monitor achou um guarda-chuva cuidadosamente enrolado no saco de dormir de um dos meninos. Como, afinal, guarda-chuvas não faziam parte da lista do que levar para o acampamento, ele pediu para o garoto explicar por que o objeto estava ali.

Com um suspiro conformado, o menino disse: "O senhor não sabe como são as mães?"


 

APERTE MINHA MÃO

MARY MARcDANTE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 104

 

Você se lembra da sua infância, quando caía e se machucava?

Lembra o que sua mãe fazia para acalmar a dor? Minha mãe, Grace Rose, me levava no colo até sua cama e beijava meu machucado. Então, ela sentava ao meu lado, pegava minha mão e falava: "Quando doer, aperte minha mão e vou dizer “Eu te amo”.

Era sempre assim: eu apertava sua mão e, sem falhar uma só vez, ouvia as palavras: "Mary, eu te amo." Às vezes, eu fingia ter me machucado só para passar por esse ritual com ela. À medida que fui crescendo, o ritual mudou, mas minha mãe sempre encontrava um modo de diminuir a dor e aumentar a alegria em qualquer área da minha vida.

Numa época difícil, durante o segundo grau, ela tinha sempre meus chocolates preferidos, recheados com amêndoas, quando eu chegava em casa. Lá pelos meus vinte e poucos anos, mamãe muitas vezes telefonava num fim de tarde convidando-me para vermos o pôr-do-sol ou o nascer da lua. Deixava bilhetinhos amorosos sobre meu travesseiro quando eu chegava tarde em casa e, quando fui morar sozinha, mandava-me vasinhos de flores agradecendo as visitas que eu lhe fazia.

Mas minha melhor lembrança continuou sendo ela segurando minha mão quando eu era pequena e repetindo: "Quando doer, aperte minha mão e vou dizer 'Eu te amo'." Eu já tinha trinta e tantos anos quando, uma manhã, papai telefonou para o meu trabalho. Era um homem seguro e lúcido, mas a voz soava confusa e amedrontada. "Mary, há algo errado com sua mãe”. Já chamei o médico, mas, por favor, venha logo que puder." Quando cheguei, papai andava de um lado para o outro na sala e mamãe estava deitada no quarto, olhos fechados, as mãos sobre o estômago. Chamei por ela, tentando manter a voz o mais calma possível.

"Mamãe, estou aqui."

"Mary, é você?”, balbuciou ela.

"Sim, mamãe, sou eu."

Eu não estava preparada para a próxima pergunta e, quando a ouvi, congelei, sem saber o que responder.

"Mary, eu vou morrer.

Meu olhos se encheram de lágrimas enquanto olhava minha mãe querida ali, deitada, tão desamparada.

Ao tentar descobrir o que responder, pensei: "O que mamãe diria num momento desses?"

Hesitei por um instante, esperando que as palavras viessem.

"Mamãe, não sei se você vai morrer, mas fique tranquila, tudo acabará bem." Apertei sua mão. "Eu amo você." Ela gemeu: "Mary, sinto tanta dor." Mais uma vez fiquei sem saber o que falar. Sentei a seu lado na cama e me ouvi dizendo: "Mamãe, quando doer, aperte minha mão e vou dizer 'Eu te amo'." Ela apertou minha mão.

"Mamãe, eu te amo."

Esta cena se repetiu muitas vezes durante os dois anos seguintes, até sua morte, de câncer. Nós nunca sabemos quando virão os momentos em que seremos testados. Mas sei que, quando chegarem, com quem quer que eu esteja, oferecerei o ritual de amor de minha mãe: "Quando doer, aperte minha mão e vou dizer 'Eu te amo'."

 

 

 

Eles parecem uns anjinhos quando estão dormindo.

Quem poderia dizer que durante o dia eles ficam gritando o tempo todo?


 

MINHA FILHA MINHA MESTRA

JANET S. MEYER

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 108

 

As crianças nos ensinam coisas novas todos os dias. Eu já tinha ouvido dizerem isso, mas foi só quando me tornei mãe que me dei conta da dimensão desse ensinamento.

Quando Marissa tinha seis meses, parecia estar sempre olhando para cima, procurando alguma coisa. Acompanhando seu olhar, descobri a magia das folhas dançando nas árvores e o movimento das nuvens no céu. Com oito meses, ela olhava para baixo, enquanto eu a empurrava no carrinho. Percebi, então, que cada pedra é diferente, que as rachaduras nas calçadas fazem desenhos interessantes e as folhas da grama têm verdes diversos.

Quando ela fez onze meses, aprendeu a dizer "Uau!", palavra que usava, maravilhada, ante qualquer coisa nova e deslumbrante, como a variedade de brinquedos do consultório do pediatra ou o acúmulo de nuvens negras antes de uma tempestade. Ela falava baixinho "Uau!" para coisas que realmente a impressionavam, como o sopro do vento no seu rosto ou um bando de pombos levantando voo. E, finalmente, o máximo em matéria de "Uau!" era sua boquinha aberta, mas sem emitir som, reservado para ocasiões realmente surpreendentes, como um pôr-do-sol num lago depois de um lindo dia ou fogos de artifício no céu de verão.

Marissa me ensinou muitas formas de dizer "Eu te amo".

Quando tinha quatorze meses e estávamos abraçadas, ela, com a cabecinha recostada no meu ombro, suspirou fundo e disse: "Feliz." Num outro dia (já com dois anos e levada como ela só), apontou para uma linda modelo na capa de uma revista e perguntou: “É você, mamãe”.

Há pouco tempo, agora com três anos, entrou na cozinha enquanto eu lavava a louça e ofereceu: "Posso ajudar?" Logo depois, colocou a mão no meu braço e me fez derreter:

"Mamãe, se você fosse pequena, eu queria ser sua amiga." Em momentos assim, tudo que posso dizer é "Uau!".

 

 

As crianças reinventam o mundo pra você.

SUSAN SARANDON

 

 


 

O QUE É UMA AVÓ?

AUTOR DESCONHECIDO

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 110

 

Carta de um aluno da terceira série.

 

Uma avó é uma mulher velhinha que não tem filhos. Ela gosta dos filhos dos outros. Um avô é um homem-avó. Ele leva os meninos para passear e conversa com eles sobre pescaria e outros assuntos parecidos.

As avós não fazem nada e por isso podem ficar mais tempo com a gente. Como elas são velhinhas, não conseguem rolar pelo chão ou correr. Mas não faz mal, porque nos levam ao shopping e compram tudo o que nossos pais não querem comprar. Na casa delas tem sempre um vidro com balas e uma lata cheia de suspiros. Contam histórias de nosso pai ou nossa mãe quando eram pequenos, histórias da Bíblia, histórias de uns livros bem velhos com umas figuras lindas. Passeiam conosco mostrando as flores, ensinando seus nomes, nos fazendo sentir o perfume. Avós nunca “Apresse-se, “Arrume seu quarto”, “Coma com modos”.

Normalmente, as avós são gordinhas, mas, mesmo assim, elas nos ajudam a amarrar os sapatos. Quase todas usam óculos e eu já vi uma tirando os dentes e as gengivas.

Quando a gente faz uma pergunta, a avó não diz: "Menino, não vê que eu estou ocupada!" Ela pára, pensa e responde de um jeito que a gente entende. As avós sabem um bocado de coisas.

As avós não falam com a gente como se nós fôssemos umas criancinhas idiotas, nem apertam nosso queixo dizendo "Que gracinha!", como fazem algumas visitas chatas. Quando leem para nós, não pulam pedaços das histórias nem se importam de ler a mesma história várias vezes. O colo das avós é quente e fofinho, bom de a gente sentar quando está triste. A minha avó sabe fazer uma festinha bem de leve nas minhas costas que eu adoro.

Todo mundo devia tentar ter uma avó, porque são os únicos adultos que têm tempo pra nós.

O VISITANTE DO MEIO DA NOITE

EDITH DEAN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 112

 

Cresci numa aldeia rural numa época em que nos maravilhávamos com o telefone e os automóveis eram incapazes de atravessar estradas cheias de lama. Foi antes da Grande Depressão, quando havia pouco para todos e os vizinhos dependiam uns dos outros. Eu me lembro bem daquela noite.

Era início de outubro e pela janela víamos tudo escuro, chuva forte e o vento se misturando. A turbulência maltratava nossa pequena casa de madeira na área rural de Arkansas, e a tempestade ameaçava apagar o lampião sobre a mesa da sala.

Aos nove anos, assustada, eu tinha certeza de que a casa sairia voando a qualquer momento. Papai fora em direção ao norte, procurando trabalho, e eu me sentia extremamente vulnerável. Mas mamãe conseguia ficar calma, sentada, consertando suas roupas "para durarem outro inverno".

"Ah, mamãe, você precisa de roupas novas", eu disse, tentando puxar conversa. Numa noite assim, eu precisava do conforto de uma voz bem serena.

Ela me abraçou. "Você precisa de roupas melhores porque vai à escola." "Mas você não tem nem um casaco para o inverno", retruquei.

"Deus prometeu suprir nossas necessidades. Ele cumprirá sua promessa, não quando pedirmos, mas no Seu próprio tempo. Tudo vai ficar bem." Eu invejava a fé inabalável de minha mãe, principalmente em noites assim.

Uma lufada de vento desceu pela chaminé e espalhou o carvão da lareira.

"Podemos trancar as portas?", perguntei.

Mamãe sorriu, pegou a pequena pá preta da lareira e espalhou cinzas sobre os carvões em brasa.

"Edith, não podemos evitar a tempestade. E você sabe que ninguém aqui tranca as portas, especialmente numa noite assim, porque alguém pode precisar entrar fugindo do mau tempo." Ela pegou o lampião, foi para o quarto e eu a segui. Minha mãe me enfiou entre as cobertas, mas, antes que tirasse o roupão de retalhos, o barulho repentino da porta da frente aberta pelo vento fez entrar o cheiro de chuva e ouvimos o som de objetos derrubados na sala. Também de repente a porta bateu e se fechou.

"Esse barulho todo não era só vento e trovão." Mamãe pegou o lampião e voltou à sala. Eu tive medo de ir também, mas o medo de ficar sozinha foi maior ainda.

Primeiro, só pudemos ver o conteúdo da cestinha de costura de mamãe espalhado no chão. Então nossos olhos seguiram pegadas de botas enlameadas no chão de madeira, da porta à cadeira estofada que ficava em frente à lareira.

Um homem encharcado e desgrenhado, baixo e corpulento, com um terno escuro e salpicado de lama estava afundado na cadeira.

Seu hálito exalava um cheiro terrível. Sua mão esquerda, imóvel, segurava uma lata amassada.

"Mamãe, é o senhor Hall!", exclamei.

Mamãe apenas assentiu com a cabeça, enquanto, com a pá, tirava os carvões queimados da lareira. Limpou as cinzas e levou os pedaços de carvão para a fornalha da cozinha, cobrindo-os com aparas de pinho.

Ela disse: "Vou fazer café. Acenda o fogo para ajudar nosso hóspede a se aquecer e a se secar." "Mas, mamãe, ele está bêbado!" "Tão bêbado que entrou em nossa casa pensando estar entrando na dele!" "Mas ele mora bem longe, lá embaixo na estrada”, observei.

"Minha filha, o senhor Hall não é um beberrão. Não sei o que aconteceu hoje. Mas ele é um homem bom." Eu sabia que o senhor Hall se encontrava com alguém na estrada todas as segundas-feiras de manhã e ia para sua pequena alfaiataria em Little Rock, onde trabalhava durante toda a semana. Aos sábados à tarde ele voltava, caminhando com dificuldade, apoiado em uma bengala.

Como se lesse meus pensamentos, mamãe murmurou: "Ele deve se sentir muito solitário de vez em quando." Em pé na porta da cozinha, fui tomada por uma preocupação. "Oh, mamãe, o que as pessoas vão dizer sobre a bebedeira do senhor Hall?" ''As pessoas não têm de ficar sabendo disso nunca. Você está me entendendo?"

"Estou, mamãe."

Enquanto a chuva continuava, mamãe levou para o nosso hóspede uma caneca de café preto e fumegante. Levantou sua cabeça para ajudá-Io a tomar o café, gole a gole. A caneca estava quase vazia quando ele abriu os olhos o suficiente para nos reconhecer.

"Senhora Wood." "Sim, senhor Hall, o senhor vai ficar bem." Enquanto mamãe levava a caneca de volta à cozinha, o senhor Hall conseguiu se apoiar na bengala, afastou a colcha dobrada sobre a cadeira e saiu cambaleando porta afora em direção à tempestade.

Ficamos observando-o enquanto chegava, vacilante, até o portão da frente, os clarões dos raios iluminando o caminho.

"Parece que nosso hóspede já consegue andar sozinho." "Mamãe, por que você o chama de nosso hóspede?", perguntei. "Ele só é nosso vizinho. Nós não o convidamos a entrar."

"Um hóspede é qualquer pessoa que venha à nossa casa em paz. Você se lembra quem é o próximo na história do Bom Samaritano?" "O homem que ajudou o estranho", respondi.

"Fazendo dele nosso hóspede, Deus nos deu a oportunidade de sermos próximas do senhor Hall." Algumas semanas mais tarde, chegando da igreja, havia um saco de papel sobre a mesa. Nele se lia: "Senhora Wood".

"Deve ser o vestido que a senhora Chiles ficou de me emprestar para eu tirar o molde. Ela tem uma filha do seu tamanho. Se quiser, pode abrir", mamãe disse, enquanto ia mudar de roupa.

Abri o saco amarfanhado e me surpreendi. "Mamãe! É um casaco para você, e é lindo!" Mamãe voltou-se para olhar o casaco que eu suspendia. Ela o experimentou, enfiando o braço direito e depois o esquerdo pelas mangas. Naquela época eu não conhecia o significado real da generosidade. Tudo o que eu pude ver, quando mamãe experimentou o casaco, é que ele ficou perfeito nela.


 

O PROGNÓSTICO

ROCHELLE M. PENNINGTON

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 117

 

Uma jovem mãe, submetida a um tratamento contra câncer, voltou do hospital sem cabelos, por causa da radioterapia, e muito consciente da sua aparência.

Estava sentada na cozinha, quando seu filho apareceu na porta, olhando-a curiosamente.

Quando a mãe iniciou o discurso que ensaiara para ajudá-lo a entender o que via, o menino se aproximou e aconchegou-se em seu colo, quietinho, a cabeça recostada em seu peito. A mãe acariciou a cabecinha do filho e disse: "Você vai ver como daqui a pouco o meu cabelo vai crescer e eu vou ficar melhor, como era antes."

O menininho se levantou, olhou para a mãe pensativo.

Com a espontaneidade de seus seis anos, respondeu: "Seu cabelo está diferente, mas seu coração está igualzinho."

A mãe não precisava mais esperar por "daqui a pouco" para melhorar. Com os olhos cheios de lágrimas, ela se deu conta de que já estava muito melhor.

 

 

 

Toda criança nasce com a mensagem de que

Deus não perdeu a esperança na humanidade.

RABINDRANATH TA GORE


 

DANCE COMIGO

JEAN HARPER

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 119

 

Quando somos jovens e sonhamos com amor e prazer, pensamos talvez em noites enluaradas em Veneza ou em passeios numa praia ao pôr-do-sol. Ninguém nos diz que os melhores momentos da vida são efêmeros, não planejados e quase sempre nos pegam de surpresa.

Não faz muito tempo, eu estava lendo uma história para Annie, minha filha de sete anos, quando percebi seu olhar fixo em mim. Tinha uma expressão longínqua, parecia meio hipnotizada, como se não desse importância à história que ouvia.

Perguntei o que estava pensando.

"Mamãe", ela murmurou. "Não consigo parar de olhar pra você. Você é tão bonita." Quase derreti de emoção. Ela mal sabia que suas palavras sinceras e amorosas me dariam grande apoio ao longo dos anos seguintes.

Pouco tempo depois, levei Sam, meu filho de quatro anos, a uma elegante loja de departamentos, onde a melodia de uma canção de amor nos levou até um pianista.

Sam e eu nos sentamos perto dele e o menino parecia petrificado pela melodia. De repente, Sam se levantou, veio para minha frente, tomou meu rosto em suas mãozinhas e disse:

"Mamãe, dance comigo."

Se essas mulheres que circulam nos ambientes mais luxuosos e românticos soubessem a alegria que esse convite feito por um menino de rosto redondo e dentes de leite me proporcionou! Embora as vendedoras estivessem rindo de nós e nos apontando enquanto deslizávamos e rodopiávamos, eu não trocaria minha dança com este jovem charmoso e irresistível nem mesmo pelo universo inteiro.


 

OS GRAMPOS DE CABELO

LINDA GOODMAN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 121

 

Quando eu tinha sete anos, ouvi minha mãe dizer a uma de suas amigas que ela faria trinta anos no dia seguinte. Duas coisas me ocorreram: eu jamais imaginara que minha mãe fazia aniversário e não me lembrava de ela ter recebido um presente nesta data.

Bem - eu podia fazer alguma coisa a esse respeito. Raspei meu cofrinho e contei: vinte e cinco cents - cinco semanadas.

Fui à loja da esquina e falei com o dono, o senhor Sawyer, que queria comprar um presente de aniversário para minha mãe.

Ele me mostrou tudo que se encaixava naquele preço. Havia uns bibelôs de cerâmica, mas ela já tinha muitos - e ia ter de espaná-los uma vez por semana. Também havia umas caixinhas de doce, mas mamãe era diabética - não seriam apropriados.

Finalmente, ele me mostrou um pacote de grampos de cabelo. Os cabelos de mamãe eram longos e escuros e ela os lavava e enrolava duas vezes por semana. Quando os soltava no dia seguinte, parecia uma artista de cinema, com os cachos sobre os ombros. Então decidi que os grampos eram o presente ideal e paguei ao senhor Swayer com minhas moedas.

Levei os grampos para casa e os embrulhei em uma página de histórias em quadrinhos do jornal (não sobrara dinheiro para papel de presente). Na manhã seguinte, a família reunida à mesa do café, entreguei o pacote a mamãe, dizendo: "Feliz aniversário, mamãe!" Aturdida, em silêncio e com lágrimas nos olhos, rasgou o papel. Quando viu os grampos, já estava soluçando.

"Desculpe, mamãe, não queria fazer você chorar. Só queria que tivesse um aniversário feliz." "Mas estou contente, meu amor", disse, sorrindo entre lágrimas. "Sabe que é o primeiro presente de aniversário que recebo na vida?" Ela então beijou meu rosto e agradeceu: "Obrigada, querida." Virou-se para meus irmãos e irmã: "Vejam, Linda me deu um presente de aniversário!" E fez o mesmo com meu pai:

"Veja, Linda me deu um presente de aniversário!" E foi para o banheiro lavar os cabelos e enrolá-Ios com os grampos novos.

Quando mamãe saiu da sala, meu pai me olhou, dizendo:

"Linda, quando eu era menino, lá no sertão (meu pai sempre chamava de sertão o lugar onde nascera, nas montanhas), não nos preocupávamos em dar presentes de aniversário para adultos. Só para as crianças. E, na família de sua mãe, eram tão pobres que nem isso faziam. Mas vendo como você deixou sua mãe feliz hoje, acho que preciso pensar nisso. O que quero dizer, Linda, é que você inaugurou uma nova fase em nossa vida." E inaugurei mesmo. Depois disso, mamãe passou a receber presentes de aniversário todos os anos, de meus irmãos, de minha irmã, de meu pai e de mim. E, claro, com o tempo, os filhos passaram a ter mais condições e a lhe dar presentes melhores. Quando eu tinha vinte e cinco anos, dei a ela um aparelho de som, uma tevê colorida e um forno de micro-ondas (que ela trocou por um aspirador de pó).

Quando mamãe fez cinquenta anos, todos os filhos se reuniram para lhe dar um presente espetacular: um anel com uma pérola rodeada de brilhantes. Quando meu irmão mais velho lhe entregou o anel na festa que fizemos para homenageá-la, admirou o presente e fez questão que passasse entre os convidados: "Não tenho filhos maravilhosos?", ela repetia.

Podíamos ouvir os murmúrios enquanto o anel passava de mão em mão.

Depois que os convidados se foram, fiquei para ajudar na arrumação. Estava lavando a louça na cozinha quando ouvi meus pais conversando na sala.

"Bem, Pauline", dizia meu pai, "que lindo anel. Acho que foi o melhor presente de aniversário de sua vida." Meus olhos se encheram de lágrimas quando ouvi sua resposta: "Ted", ela disse docemente, "claro que é um anel lindo. Mas sabe qual foi o melhor presente de aniversário que já recebi? Aquela caixa de grampos."


 

O JOGO DA MATERNIDADE

JACKLYN LEE LINDSTROM

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 125

 

Você com certeza conhece jogos de perguntas e respostas em que se ganham ou perdem peças. Sempre pensei que ser mãe é mais ou menos participar de um jogo assim. Parece que passamos a maior parte do nosso tempo num labirinto, tateando a cada minuto da vida em família, sem ter certeza se fizemos pontos ou não.

 

Assim, preparei meu próprio jogo para as mães. As regras são simples - você começa com dez peças e ganha ou perde outras ao longo do jogo.

Está pronta? Vamos lá!

Primeira casa:

 

QUADRADO I - Você está esperando seu primeiro filho. Se você olha para sua cintura engrossando e diz: "Será que eu vou voltar ao meu manequim?", perde duas pedras, pelo seu pensamento ansioso.

 

QUADRADO 2 - Dois anos depois, você está prestes a ter o segundo filho. Para evitar ciúmes do primeiro, você passa horas se dedicando a ele e até lhe dá um boneco para ele mesmo alimentar, dar banho e ninar. Quando o bebê chega, você afirma gloriosa para si mesma e para os outros: "Ele não sentiu qualquer ciúme." Perde uma pedra por duas razões: por tratar o ciúme como um sentimento anormal e por negar o que se passa com seu filho.

 

QUADRADO 3 - O seu mais velho anunciou no jantar que vai representar uma árvore na peça do colégio e que precisa de uma fantasia para amanhã de manhã. Se fica acordada até três da manhã e faz uma roupa inovadora e original, perde três pedras, por dar um exemplo impossível para todas nós. Mas se você o faz meter-se num saco de papel pardo, com buracos para a cabeça e para os braços e cola com fita adesiva folhas verdes na frente e atrás, ganha cinco pedras, pois acabou de nos redimir.

 

QUADRADO 4 -Agora são três crianças e estão na escola. Você descobriu que "mãe" é sinônimo de "motorista”. Num dia típico, você deixou a mais nova na aula de música e foi com os meninos ao treino de futebol. Dali voltou para apanhar a menina e deixar os outros jogadores do time em suas casas. O jantar é corrido porque alguém tem ensaio do coro às sete horas. Na hora de dormir, você descobre que está sobrando uma criança. Mas não se apavora... isso já aconteceu antes e logo o telefone vai tocar, pois uma mãe descobriu que lhe falta uma criança. Você ganha Cinco peças pela resistência.

 

QUADRADO 5 - As gracinhas que você amorosamente acomodou na cama por tantos anos e para quem contou histórias de repente tratam você como se fosse uma débil mental. Ficam envergonhados de serem vistos em sua companhia. Adivinhe: você é mãe de adolescentes, essas estranhas criaturas que pensam ter mais de dois metros de altura e serem à prova de bala. Ganha oito peças por heroísmo sob fogo cerrado. Nessa fase, lembre-se sempre de que você carrega a arma mais poderosa - a chave do carro!

 

QUADRADO 6 - Você sabe que seu filho mais velho foi para a faculdade quando vê a pilha de roupa suja jogada na sala da frente. Se você a apanha para separar, lavar e passar, como antigamente... perde três peças. Por favor, não faça isso! Se, em vez disso, você o pega pela mão e mostra onde as máquinas de lavar e secar estão desde que ele era pequeno, ganha cinco peças. As coisas mais importantes da vida não são ensinadas na faculdade, lembre-se.

 

QUADRADO 7 - As crianças, por milagre, se tornaram adultos responsáveis. Por acaso, você ouve o mais velho contando para o filho dele as mesmas histórias que você lhe contava e você chora emocionada. Não se desespere - essas coisas são as riquezas da maternidade e esse jogo trata exatamente disso.

 

Parabéns. Você ultrapassou a linha de chegada e está na hora de somar os pontos. O jogo se chama "maternidade" e, se não perdeu todas as suas peças, você ganhou!

 

 

 

 

Entre o tempo gasto indo para a escola e fazendo o dever de casa é difícil encontrar um espaço para dar atenção à minha boneca.


 

AS RIQUEZAS DE MAMÃE

MARY KENYON

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 129

 

Deve haver algo muito especial numa mãe que consegue educar uma filha sem que ela tome consciência da pobreza em que vive.

Eu não sabia que era pobre, até a segunda série tinha tudo de que precisava: nove irmãos e irmãs para brincar, livros para ler, uma boneca feita de retalhos e roupas limpas que mamãe habilidosamente remendava ou, muitas vezes, fazia. Minha mãe lavava e trançava meu cabelo à noite para eu ir à escola no dia seguinte, meus sapatos marrons estavam sempre limpos e engraxados. Eu era feliz na escola, adorava o cheiro de lápis novos e do papel grosso que a professora distribuía para nossos trabalhos. Absorvia os conhecimentos como uma esponja, ganhando o cobiçado privilégio de levar mensagens para a sala do diretor durante uma semana.

Ainda me lembro do dia em que, com um sentimento de orgulho, subi sozinha os degraus da escola. Indo para minha sala, encontrei duas meninas mais velhas. Uma segredou para a outra: "Olhe, essa é a menina pobre." E elas riram. Com o rosto vermelho e segurando as lágrimas, fiquei transtornada.

No caminho para casa, tentei eliminar os sentimentos conflitantes que os comentários das garotas me causaram. Fiquei imaginando por que as meninas me consideravam pobre. Olhei de modo crítico para meu vestido e, pela primeira vez, notei como era desbotado, um vinco na bainha denunciando que tinha sido aproveitado. Sei que os pesados sapatos de menino eram os únicos que evitavam que eu andasse na lateral dos pés, mas de repente me senti envergonhada por serem tão feios.

Quando cheguei, tive pena de mim. Senti como se estivesse entrando na casa de um estranho, olhando para tudo de modo crítico. Vi o tapete velho na cozinha, manchas de dedos na pintura meio descascada das portas. Abatida, não respondi à saudação alegre de minha mãe que preparava biscoitos de aveia para o lanche. Tudo me pareceu feio e acanhado. Fiquei trancada no quarto até a hora do jantar, imaginando como falar com mamãe sobre pobreza. Por que da não me contara? Por que tive de descobrir por outras pessoas?

Enchi-me de coragem e fui para a cozinha: "Nós somos pobres?", perguntei de repente, meio desafiadora. Esperei que ela negasse, contestasse ou, pelo menos, desse uma explicação satisfatória, para que eu não me sentisse tão mal. Minha mãe me olhou contemplativamente, sem nada dizer por um instante.

"Pobres?", repetiu pousando a faca com que descascava batatas. "Não, não somos pobres. Olhe para tudo que temos", ela disse, apontando para meus irmãos que brincavam na outra sala.

Através dos olhos de minha mãe pude ver o fogo da lareira que enchia a casa com seu calor, as cortinas coloridas e os tapetes de retalhos feitos por ela e que enfeitavam a casa, o prato cheio de biscoitos de aveia sobre a cômoda. Do lado de fora, o quintal que oferecia alegria e aventura para dez crianças. Ela continuou: "Talvez algumas pessoas pensem que somos pobres em matéria de dinheiro, mas temos tanto..." E, com um sorriso, minha mãe se virou para preparar mais uma refeição para sua família, não se dando conta de que, a cada noite, ela alimentava muito mais do que estômagos vazios. Ela alimentava meu coração e minha alma.


 

BRINCAR TAMBÉM É IMPORTANTE

JAYNE JANDON FERRER

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 132

 

Perdoai-me, Senhor, por todas as tarefas que hoje ficaram por fazer. Mas, de manhã, quando meu filho, com seus passinhos incertos, entrou no quarto e pediu: "Mamãe, quer brincar comigo?", eu simplesmente tive de dizer sim.

E entre os quebra-cabeças e caminhões, cubos de madeira e bonecos, velhos chapéus, livros e risadas, dividimos mil pensamentos especiais, centenas de esperanças, sonhos e muitos abraços. E quando à noite, na hora de rezar, ele juntou as mãozinhas e falou baixinho: "Obrigado, Deus, por mamãe e papai, pelos meus brinquedos, pelo cachorro-quente, pelo sorvete de chocolate e por mamãe brincar comigo", eu sabia que tinha sido um dia bem gasto.

E tinha certeza de que o Senhor entenderia.


 

FLORES PARA O DIA DAS MÃES

PATRICIA A. RINALDI

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 133

 

Quando meu marido anunciou calmamente que, após onze anos de casamento, havia dado entrada em nosso divórcio e estava saindo de casa, meu primeiro pensamento foi para os meus filhos. O menino tinha apenas cinco anos e a menina quatro. Será que eu conseguiria nos manter unidos e passar para eles um sentido de "família”? Será que eu, criando-os sozinha, conseguiria manter o nosso lar e ensinar-lhes a ética e os valores dos quais certamente precisariam para a vida? A única coisa que eu sabia era que precisava tentar.

Frequentávamos a igreja todos os domingos. Durante a semana, eu arranjava tempo para rever os deveres de casa com eles e, frequentemente, discutíamos a importância de fazermos as coisas certas. Isso me tomava tempo e energia quando eu tinha pouco de ambos para dar. Mas o pior era não saber se realmente estavam absorvendo aquilo tudo.

Ao entrarmos na igreja no Dia das Mães, dois anos após o divórcio, notei carrocinhas cheias de vasos com as mais lindas flores ladeando o altar. Durante o sermão, o pastor disse que, a seu ver, ser mãe era uma das tarefas mais difíceis da vida e que merecia não só reconhecimento como, também, recompensa.

Assim, pediu que cada criança fosse até a frente da igreja para escolher uma linda flor e entregá-la à mãe como símbolo do quanto era amada e estimada.

De mãos dadas, meu filho e minha filha percorreram o corredor com as outras crianças. Juntos, refletiram sobre qual planta trazer para mim. Nós havíamos passado momentos muito difíceis e esse pequeno gesto de valorização era tudo que eu precisava. Olhei aquelas lindas begônias, as margaridas douradas e os amores-perfeitos violetas e pus-me a planejar onde plantar o que quer que escolhessem para mim, pois certamente trariam uma linda flor como demonstração de seu amor.

Meus filhos levaram a tarefa muito a sério e olharam cada vaso. Muito depois de as outras crianças já terem retomado aos seus lugares e presenteado suas mães com uma linda flor, meus dois ainda escolhiam. Finalmente, com um grito de alegria, acharam algo bem no fundo. Com sorrisos exuberantes a iluminar seus rostos, avançaram satisfeitos pelo corredor até onde eu estava sentada e me presentearam com a planta que haviam escolhido como demonstração de seu apreço por mim pelo Dia das Mães.

Fiquei olhando estarrecida para aquele pequeno ser roto, murcho e doentio que meu filho estendia em minha direção.

Aflita, aceitei o vaso de suas mãos. Era óbvio que os dois haviam escolhido a menor planta, a mais doente de todas – nem flor tinha. Olhando para seus rostinhos sorridentes, percebi o orgulho que sentiam daquela escolha e, sabendo o quanto haviam demorado para selecionar aquela planta em especial, sorri e aceitei a lembrança.

Mais tarde, no entanto, tive de perguntar - de todas aquelas flores maravilhosas, o que os havia feito escolher justamente aquela para me dar?

Todo orgulhoso, meu filho declarou:

- É que aquela parecia precisar de você, mamãe. Enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto, abracei meus dois filhos, bem apertado. Eles acabavam de me dar o maior presente de Dia das Mães que jamais poderiam ter imaginado. Todo o meu trabalho e sacrifício não havia sido em vão - eles iam crescer perfeitamente bem.


 

O TELEFONEMA À MEIA-NOITE

CHRISTIE CRAIG

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 136

 

Todos nós conhecemos a sensação de receber aquele telefonema no meio da noite. O telefonema daquela noite não foi diferente.

Pulando da cama para atender àquela convocação tilintante, focalizei os números vermelhos e luminosos do relógio. Meia noite. Pensamentos aterrorizantes enchiam minha mente, um tanto atordoada pelo sono, quando agarrei o fone.

- Alô?

Com o coração ribombando dentro do peito, segurei o fone com mais força ainda e olhei para meu marido, que agora se virava para ficar de frente para mim.

- Mamãe? - A estática mal permitia que eu ouvisse o sussurro. Mas meus pensamentos imediatamente voltaram-se para minha filha. Quando o som desesperado de uma voz jovem e chorosa ficou mais nítido através da linha telefônica, tateei em busca de meu marido e pressionei seu punho.

- Mamãe, eu sei que é tarde. Mas não... não diga nada até eu terminar. E antes que você pergunte, sim, eu andei bebendo.

Quase perdi a direção e saí da estrada há alguns quilômetros e...

Resfoleguei - um arquejo brusco, entrecortado. Soltei meu marido e pressionei a mão de encontro à testa. O sono ainda anuviava a minha mente e tentei vencer o pânico. Algo não estava certo.

- Fiquei tão assustada. Só conseguia pensar no tamanho da sua dor se um policial batesse à sua porta para lhe dizer que eu estava morta. Eu quero... quero ir para casa. Sei que você está doente de tanta preocupação. Eu deveria ter ligado há dias, mas estava com tanto medo... com tanto medo...

Soluços do mais profundo sentimento fluíram de dentro do fone e desaguaram no meu coração. Imediatamente, visualizei o rosto de minha filha e meus sentidos enevoados pareceram clarear.

- Acho...

- Não! Por favor, deixe-me terminar! Por favor! - ela implorava, menos por zanga do que por desespero.

Fiz uma pausa e tentei pensar no que dizer. Antes que pudesse ir em frente, ela continuou:

- Estou grávida, mamãe. Sei que não deveria estar bebendo agora... justamente agora, mas estou com medo, mamãe. Com tanto medo!

A voz se calou outra vez e eu mordi o lábio sentindo os olhos umedecerem. Olhei para o meu marido sentado, imóvel, fazendo movimentos com a boca sem emitir um único som: "Quem é?"

Balancei a cabeça e, como não respondi, ele pulou da cama e deixou o quarto, retomando segundos depois com o sem-fio colado ao ouvido.

Ela deve ter ouvido o dique na linha, pois continuou:

- Você ainda está me ouvindo? Por favor, não desligue!

Preciso de você. Estou me sentindo tão sozinha.

Apertei o telefone na mão e fitei meu marido em busca de orientação.

- Estou aqui, eu não desligaria o telefone - disse eu.

- Eu deveria ter lhe contado, mamãe. Sei que deveria ter lhe contado. Mas, quando a gente conversa, você só fica dizendo o que eu devo fazer. Lê todos aqueles folhetos sobre como conversar com os filhos sobre sexo, e tudo o mais, mas só faz falar. Você não me escuta. Nunca deixa eu lhe dizer como me sinto. É como se o que sinto não tivesse importância. Como você é minha mãe, acha que tem todas as respostas. Mas algumas vezes não preciso de respostas. Só quero alguém que me escute.

Engoli o bolo que se formava em minha garganta e fiquei olhando, fixamente, para os folhetos de "Como conversar com seus filhos" espalhados sobre a mesinha-de-cabeceira.

- Estou ouvindo - sussurrei.

- Sabe, lá na estrada, quando consegui controlar o carro outra vez, comecei a pensar no bebê, em cuidar dele. Então, vi o telefone público e foi como se pudesse ouvir você dizer que ninguém deve beber e dirigir. Então chamei um táxi. Quero ir para casa.

- Que bom, meu bem - afirmei, o alívio inundando o meu peito. Meu marido chegou mais perto, sentou-se ao meu lado e entrelaçou os dedos nos meus. Compreendi, pelo toque, que ele achava que eu estava fazendo e dizendo a coisa certa.

- Mas, sabe, acho que já consigo dirigir.

- Não! - vociferei. Meus músculos enrijeceram e eu apertei ainda mais a mão de meu marido. - Por favor, espere o táxi.

Não desligue até o táxi chegar.

- Eu só quero ir para casa, mamãe.

- Eu sei. Mas faça isso pela mamãe. Espere o táxi, por favor.

Fiquei ouvindo aquele silêncio, amedrontada. Quando a resposta não veio, mordi o lábio e fechei os olhos. De alguma maneira, eu precisava impedir que ela dirigisse.

- Pronto, o táxi chegou.

Só senti a tensão diminuir quando ouvi alguém ao fundo perguntar sobre um táxi.

- Estou indo para casa, mamãe. - Então fez-se um dique e o telefone ficou mudo.

Levantando da cama com lágrimas formando em meus olhos, atravessei o corredor e fui até o quarto de minha filha de dezesseis anos. O silêncio sombrio fazia pesar o ar. Meu marido chegou por trás de mim, passou os braços em torno de meu corpo e pousou o queixo no topo de minha cabeça.

Sequei as lágrimas das faces.

- Precisamos aprender a escutar - disse-lhe.

Ele me virou para que eu pudesse encará-lo.

- E vamos aprender. Você vai ver. - Então me abraçou e eu afundei a cabeça em seu ombro.

Deixei que ele me abraçasse por diversos minutos, então me afastei e cravei os olhos na cama. Ele me fitou por um instante e, então, perguntou:

- Acha que algum dia ela vai se dar conta de que discou o número errado?

Olhei para nossa filha, adormecida, e novamente para ele.

- Talvez não tenha sido tão errado assim.

- Mãe, pai, o que é que vocês estão fazendo? - perguntou aquela vozinha jovem, chegando abafada de debaixo do cobertor.

Aproximei-me de minha filha, que agora se encontrava sentada, olhos fitando a escuridão.

- Estamos treinando - respondi.

- Treinando o quê? - murmurou ela, deitando-se outra vez sobre o colchão, os olhos já fechados, o sono chegando.

- A escutar - disse eu, bem baixinho, roçando a mão levemente em sua face.

 

 

 

Uma das necessidades humanas mais antigas é ter alguém

para se perguntar onde você está quando não volta para casa à noite.

MARGARET MEAD

 

 

 

Sabe qual o presente que eu quero, vó? Você!


 

MÃES E FILHAS

PATRICIA BUNIN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 142

 

- Você não vai esquecer de trazer o espremedor de batatas, vai? - perguntei à minha mãe logo depois de lhe contar que teria de fazer uma mastectomia, Mesmo aos oitenta e dois anos de idade e a quatro mil e oitocentos quilômetros de distância, ela sabia o que eu queria dizer com aquilo: purê de batatas bem ralinho.

Era isso que preparava para mim a cada doença ou percalço de minha infância - servido numa tigela de sopa com uma reluzente colher redonda. Mas eu havia tido sorte quando criança e raramente adoecia. Era mais frequente que aquela batata medicinal resolvesse algum desapontamento ou resfriado.

Desta vez, no entanto, a doença era séria.

Chegando no voo da meia-noite, vindo da Virgínia, minha mãe me pareceu fresca como uma margarida quando passou pela porta de minha casa, na Califórnia, no dia em que voltei do hospital. Eu mal conseguia manter os olhos abertos, mas a última coisa que vi antes de adormecer foi mamãe, abrindo o zíper da mala cuidadosamente arrumada para pegar o espremedor de batatas de sessenta anos de idade. Aquele que ganhou no chá de panelas, com um cabo de madeira já gasto e anos de recordações.

Ela estava na cozinha espremendo batatas para fazer purê no dia em que lhe contei, chorosa, que teria de me submeter a uma quimioterapia. Ela baixou o espremedor e me olhou diretamente nos olhos.

- Fico com você o tempo que for necessário - disse-me ela.

- Não tenho nada mais importante a fazer nesta vida do que ajudá-la a ficar bem. - Eu sempre achara que era a teimosa da família, mas nos cinco meses que se seguiram percebi que herdara essa característica muito honestamente.

Minha mãe decidiu que eu não ia morrer antes dela.

Simplesmente não aceitaria aquilo. Me levava para fazer caminhadas diárias até mesmo quando eu não aguentava passar da entrada da garagem. Amassava as pílulas que eu tinha de tomar e as enfiava em geleias porque, até mesmo na meia-idade e com uma filha crescida, eu não conseguia engolir comprimidos muito melhor do que quando era criança, Quando meus cabelos começaram a cair, ela comprou os chapéus mais engraçadinhos para mim. Me dava refrigerante de gengibre sem gelo numa taça de cristal para acalmar a minha barriga e ficava acordada comigo nas noites de insônia. Servia-me chá em xícaras de porcelana.

Quando eu estava para baixo, ela estava para cima. Quando ela estava para baixo, eu devia estar dormindo. Nunca deixou que eu a visse assim. E, no final, eu fiquei boa. E voltei a escrever.

Descobri que o Dia das Mães não acontece em algum domingo de maio e sim em todos os dias em que se tem a sorte de ter por perto uma mãe que nos ama.

 

Se eu soubesse como é maravilhoso ter netos, eu os teria antes dos filhos. LOIS WYSE


 

A FÉ SE APRENDE PELO AMOR

D. PAULO EVARISTO ARNS - Extraído do livro Da Esperança à Utopia

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 145

 

Quando lembro a figura de minha mãe me vem à memória o livro escrito sobre ela por todos os filhos e netos (Mãe Helena, a Oma - Curitiba, 1995). Minha mãe, extremamente dedicada a meu pai, sabia também cultivar no coração dos filhos o amor a todas as pessoas e o respeito para com os idosos e as crianças.

A recordação mais antiga que guardo de mamãe é da época em que eu tinha uns três anos de idade: ela me revelou que eu tivera uma irmãzinha chamada Irma que morrera com um ano e meio. Era véspera de Finados. No dia seguinte iríamos todos rezar pelos falecidos. Passei a tarde e à noite pensando como teria sido minha irmãzinha falecida. "Irma não pode mais voltar pra ficar conosco?", perguntei a mamãe. Ela explicou que os mortos estão vivos, mas com Deus, numa grande família em que tudo é só alegria, e que eles nos ajudam. E prometeu: "Amanhã, na capela da colônia”, eu iria sentir isso.

Sonho e excitação se misturaram. "Amanhã" seria o dia! Iria ver como Irma, bem viva junto a Deus, nos apareceria. Eu iria vê-la! Sabia que a capela, a maior e mais bela construção da colônia, era a Casa de Deus. Não me lembro se a expectativa me deixou dormir aquela noite.

Calça de brim, camisa estampada, procurei meus tamancos.

Só cheguei a conhecer sapatos aos oito anos. Arrumado, andava à frente de todos, a caminho da capela.

Ocupamos o terceiro banco. O altar, de madeira esculpida, devia estar encobrindo o reino da alegria onde Deus se encontrava com sua família, minha irmãzinha à nossa espera.

Tudo começou com o canto. Era o povo e o coral, tão presente nas colônias alemãs, que se revezavam com as orações "puxadas" pelo tio Jacó. De vez em quando me levantava do banco para ver se não acontecia o que fora prometido por mamãe. Irma iria aparecer. Talvez em meio aos anjos, perto de Deus Pai. Iria reconhecê-la de imediato e buscá-la para trazer comigo, saltitando morro abaixo, percorrendo os duzentos metros que separavam nossa casa da capela.

Em certo momento houve uma pausa. "É agora”, pensei.

Olhei para o lado. Todos de cabeça abaixada refletiam. Mas eu queria ver, e iria ver. Disso estava seguro.

A hora e meia de cantos, preces e intenções sempre me parecera comprida demais. Naquele dia, não, porque esperava o principal: ver a família de Deus e os amigos dele, entre os quais Irma, que eu amava sem nunca a ter visto. Devia estar vestida de branco, ou de vestido de chita colorido. Cabelos castanhos ou louros. Alegre, muito alegre, como todos em casa.

Tive um choque quando papai se levantou e me tomou pela mão. Ele, o chefe da colônia, certamente teria o direito de encontrar-se primeiro com Deus, que era chefe maior ainda e pai de família numerosa. Papai foi saindo do banco, fez uma reverência na direção do altar e se dirigiu à porta da saída da capela.

Talvez o encontro fosse à frente da capela, o lugar mais festivo da colônia, onde se faziam as festas, os leilões e as quermesses. Lá é que se cortavam as melancias arrematadas, os bolos comprados e as garrafas de gasosa, o refrigerante mais apreciado no lugar.

Todavia, à frente da capela só restavam o vazio e o verde das pastagens. Papai me segurou mais firme pela mão enquanto eu buscava descobrir onde estava mamãe para perguntar-lhe quando Irma iria aparecer.

Fomos ao cemitério, a cinquenta passos dali. Paramos à frente de um túmulo cercado de tijolos, enfeitado com muitas flores. Aí chegou mamãe: rosto sereno, quase alegre. Ela era sempre assim quando acabava de rezar. Reclamei:

- Mãe, não vi a Irma. Você prometeu que ela voltava hoje.

Nem sei como cheguei a falar tanto. O auge da emoção já se misturava com a decepção. Minha mãe acolheu, carinhosa, minha decepção:

- Filho, vamos rezar mais um pouco.

Foi o tempo do pai-nosso e ave-maria, as únicas orações que eu sabia rezar junto. Quando acabou a prece, ela encostou a cabeça na minha, pôs a mão em meu ombro e disse:

- A gente vê Deus quando reza direito e sente que ele está perto de nós para nos ajudar em tudo. Sua irmã Irma vai ser sua companheira durante toda a vida para ajudá-lo. Só que você não pode vê-la como vê a casa, o cachorrinho e a gente. Nós vemos Deus e os amigos dele quando gostamos deles. É o coração que vê.

Não entendi tudo. Mas, na vida, muitas vezes me soou a frase: "É o coração que vê Deus e seus amigos." A fé se aprende pelo amor.


 

APRENDENDO A ESCUTAR

MARION BOND WEST

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 149

 

Um ano, viajei para uma conferência de escritores. Ao chegar em casa, em Atlanta, minha família me aguardava. Depois de nos abraçarmos, comecei a lhes contar sobre a viagem. Ou, pelo menos, tentei. Todos queriam me contar alguma novidade diferente - especialmente Jeremy, de oito anos. Pulava para cima e para baixo para ser ouvido e falava mais alto do que as outras crianças, mais alto até do que meu marido, Jerry.

Todo mundo precisa de alguma coisa de mim, pensei. Não querem nem saber sobre a minha viagem. O que é mesmo que Jeremy não pára de repetir?

- Cartolina, mamãe! Eu preciso de cartolina. Vamos ter um concurso lá na escola.

Acalmei-o, com evasivas, prometendo que conversaríamos mais tarde. De volta ao lar, me reacostumei ao telefone, à campainha, a separar a roupa suja, a participar do revezamento de mães que levam as crianças na escola, a responder perguntas e a secar líquidos entornados. Eu lutava contra a arrepiante certeza de que, por mais que tentasse, não conseguia acompanhar as necessidades de minha família. Enquanto andava de um lado para o outro, apressada, tentando decidir o que fazer a seguir, Jeremy me lembrava:

- Manhê, preciso de cartolina.

Pouco a pouco, entretanto, passou a falar mais baixo, quase como se falasse com ele mesmo. Assim, coloquei o pedido de Jeremy no final da minha longa lista de afazeres. Talvez ele simplesmente desista de falar nessa cartolina, pensei, esperançosa.

Em meu terceiro dia em casa, consegui roubar quinze minutinhos para tentar digitar um artigo. Sentada diante da máquina de escrever, ouvi a secadora parar. Hora de colocar outro cesto de roupa para secar. Dois telefonemas importantes precisavam ser retomados. Uma de minhas filhas havia implorado comigo, diversas vezes, para ouví-Ia recitar parte de "Os Cantos de Cantuária”. Uma das gatas passou mais de uma hora miando na minha cara, tentando fazer com que a alimentasse. Alguém havia derramado suco de laranja no chão da cozinha e lambuzado tudo com uma toalha seca. Já passava da hora de começar a preparar o jantar e eu ainda nem havia almoçado. Não obstante, escrevi alegremente durante alguns parcos minutos.

Uma pequena sombra caiu sobre a minha folha de papel. Eu sabia quem era antes mesmo de erguer a vista. Levantei os olhos, mesmo assim. Jeremy ficou ali, de pé, me observando calado. Oh, Senhor, permita que ele não toque no assunto outra vez. Eu sei que precisa de cartolina. Mas eu preciso escrever.

Sorri muito sutilmente para Jeremy e continuei a digitar. Ele me olhou por mais alguns minutos e virou-se para ir embora. Por pouco não o ouço comentar:

- Tudo bem, o concurso termina amanhã mesmo.

Eu queria tanto escrever que, com um esforço mínimo, poderia ter deixado de ouvir aquela observação. Mas não dava para ignorar a voz silenciosa que falou, com urgência, direto ao meu coração. Vá comprar a cartolina dele - agora! Desliguei a máquina de escrever elétrica.

- Vamos comprar cartolina, Jeremy.

Ele parou, virou e me olhou sem sorrir e sem nada dizer quase como se não tivesse me ouvido.

- Vamos - eu o apressei, agarrando a bolsa e as chaves do carro.

Mesmo assim, ele não se mexeu.

- Precisa comprar mais alguma coisa, mamãe?

- Não, só a sua cartolina.

Caminhei em direção à porta. Ele molengou um pouco e perguntou:

- Está indo à papelaria só por minha causa?

Parei e baixei a cabeça para olhá-lo. Realmente olhá-lo.

Marcas do que quer que tivesse comido na escola manchavam sua camisa. Os sapatos largos desamarrados e os restos de suco de laranja que viravam para cima os cantos daquela boquinha sem sorriso conferiam a Jeremy a aparência de um palhacinho.

Subitamente, uma expressão de puro deleite invadiu o seu rosto, apagando qualquer traço de incredulidade. Não creio que jamais esquecerei aquele momento. Dali em diante, passou a movimentar-se com incrível rapidez e, correndo para a base da escada, atirou a cabeça para trás e gritou:

- Ei, Julie, Jen, Jon, a mamãe vai me levar à papelaria!

Alguém precisa de alguma coisa?

Ninguém respondeu, mas ele não pareceu notar. Correu para o carro com expressão de manhã de Natal. Na loja, em vez de correr à minha frente, segurou firme a minha mão e começou a falar muito rápido, contando sobre o concurso.

- O assunto é prevenção contra incêndios. A professora anunciou há muito tempo e, quando falei com você, você disse que a gente falava disso mais tarde. Aí, você viajou. O concurso termina amanhã. Vou ter de dar um duro danado. E se eu ganhar?

E ele foi em frente com infindável entusiasmo, como se tivesse pedido que eu comprasse a cartolina uma única vez.

Jeremy não queria um pedido de desculpas. Isso teria estragado a sua alegria. Então, me limitei a escutá-lo. Prestei mais atenção no que dizia do que jamais havia prestado, para quem quer que fosse. Depois que comprou a cartolina, eu perguntei:

- Vai precisar de mais alguma coisa?

- Você tem bastante dinheiro? - sussurrou.

Sorri para ele, sentindo-me muito rica de repente.

- Tenho, por acaso hoje eu estou cheia de dinheiro. Do que mais precisa?

- Você pode comprar uma cola só para mim e cartolina colorida?

Peguei os artigos restantes e, ao chegarmos ao caixa, Jeremy, que normalmente não faz confidências a estranhos, disse: - Vou fazer um pôster. Minha mãe me trouxe até aqui para comprar o material. - Ele tentava soar natural, mas o rosto o entregava.

Passou a tarde toda trabalhando no pôster, silenciosamente e com enorme determinação.

O vencedor do concurso foi anunciado pelo alto-falante da escola dois dias depois. Jeremy ganhou. Seu pôster foi então inscrito no concurso do condado. Venceu este também. O diretor da escola escreveu-lhe uma carta e anexou um cheque de cinco dólares. Jeremy escreveu uma história sobre o concurso.

Deixou-a sobre a cômoda e eu a li. Uma frase saltou aos meus olhos: "Então a mamãe parou de bater à máquina, escutou o que eu estava dizendo e me levou, eu sozinho, na papelaria." Algumas semanas mais tarde, um imenso envelope pardo chegou pelo correio endereçado a Jeremy. Ele o abriu com um rasgão e leu em voz alta -lentamente e quase sem acreditar - o Certificado de Honra: "Este documento atesta que Jeremy West tem a honra de chegar às finais estaduais do Concurso de Pôsteres da Geórgia com o tema Prevenção contra Incêndios." Fora assinado pelo tesoureiro-geral do estado.

Jeremy se atirou no chão e deu cambalhotas, rindo bem alto. Emolduramos o certificado e, com frequência, quando o olho, lembro-me de que, por muito pouco, quase dera as costas para o seu pedido: de que comprasse uma cartolina para ele.


 

AMOR DE MÃE

PAT LAYE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 154

 

Quando penso na família de Clara Harden, o que me vem à mente é a felicidade. O som de risos sempre me acolheu em minhas visitas.

O modo de vida deles era muito, mas muito diferente do meu. A mãe de Clara acreditava que alimentar a mente era mais importante do que realizar tarefas triviais. Para ela, cuidar da casa não era uma grande prioridade. Com cinco filhos de idades variadas - indo de Clara, a mais velha, com doze anos, a um bebê de dois anos -, essa falta de ordem às vezes me incomodava, mas nunca por muito tempo. Aquela casa vivia imersa em algum estado de caos, com pelo menos uma pessoa em crise real ou imaginária. Mas eu adorava fazer parte daquele bando turbulento, com sua atitude despreocupada e positiva perante a vida. A mãe de Clara nunca estava ocupada demais para nós.

Parava de passar roupa para nos ajudar com algum projeto da equipe de chefes de torcida ou então desligava o aspirador de pó para convocar a trupe inteira para um passeio no bosque para colher espécimes para o projeto de ciências de algum filho.

Nunca dava para saber o que você ia acabar fazendo quando visitava aquela família. Suas vidas eram repletas de divertimento e de amor - de muito amor.

Assim, o dia em que as crianças da família Harden saltaram do ônibus escolar com olhos vermelhos e inchados, eu soube que algo de muito errado havia acontecido. Corri até Clara e puxei-a para um canto implorando para ouvir o que havia acontecido, mas sem estar preparada para a resposta. Na noite anterior, a mãe de Clara lhes contara que tinha um tumor terminal no cérebro e que lhe restava apenas alguns meses de vida. Eu me lembro tão bem daquela manhã. Clara e eu fomos para trás do prédio da escola onde soluçamos, abraçadas, sem saber como dar fim àquela dor incrível. Ficamos ali, compartilhando o nosso pesar até tocar o sinal para a primeira aula.

Vários dias se passaram até eu ir à casa dos Harden outra vez. Apreensiva com a angústia e o sofrimento e habitada por uma imensa culpa por minha vida ter continuado igual, fui protelando até minha mãe me convencer de que não podia negligenciar minha amiga e sua família num momento de tristeza.

Então fui fazer-lhes uma visita. Quando entrei na casa, para minha surpresa e deleite, ouvi música alegre e uma barulheira de vozes numa animada discussão entrecortada por risadas e gemidos queixosos. A Sra. Harden estava sentada no sofá jogando Banco Imobiliário com todos os filhos à sua volta. Todos me receberam com sorrisos enquanto eu lutava para conter o meu assombro. Não era isto que eu esperava.

Finalmente, Clara desvencilhou-se do jogo e fomos para o seu quarto, onde ela me explicou o que estava acontecendo. A mãe lhes dissera que o maior presente que poderiam lhe dar era tocar a vida como se nada estivesse errado. Queria que suas últimas recordações fossem felizes e todos haviam concordado em se esforçar.

Um dia, a mãe de Clara me convidou para um evento especial. Corri para lá e a encontrei com um imenso turbante dourado na cabeça. Ela me explicou que havia resolvido usar aquilo em vez de uma peruca, já que os cabelos começavam a cair.

Colocou miçangas, cola, hidrográficas coloridas, tesouras e pano sobre a mesa e nos instruiu a enfeitá-Io, enquanto permanecia sentada como o mais nobre marajá. Transformamos um turbante sem graça num objeto de chamativa beleza, cada um de nós dando o seu toque especial. Mesmo enquanto discutíamos onde colocar a bugiganga seguinte, eu me dei conta do quanto a Sra.

Harden estava pálida e frágil. Mais tarde, tiramos uma foto com a mãe de Clara, cada qual apontando orgulhosamente para a sua contribuição para o turbante. Uma recordação divertida de se guardar - muito embora o temor silencioso de que ela nos deixasse não estivesse muito longe.

Finalmente chegou o triste dia em que a mãe de Clara morreu. Nas semanas que se seguiram, a angústia e a dor dos Harden foi algo impossível de descrever.

Então, um dia, cheguei na escola e encontrei uma Clara muito animada, rindo e gesticulando alvoroçada diante dos colegas de turma. Ouvi o nome de sua mãe ser repetido com frequência. A velha Clara estava de volta. Quando cheguei ao seu lado, ela me explicou o motivo de sua alegria. Naquela manhã, ao vestir a irmãzinha mais nova para a escola, havia encontrado um bilhete engraçado que a mãe escondera dentro da meia da menina. Era como ter a mãe de volta.

Naquela tarde, a família Harden virou a casa de cabeça para baixo à caça de mais recados. Cada nova mensagem encontrada era compartilhada, embora algumas tenham passado despercebidas. No Natal, ao tirarem os enfeites do sótão, encontraram uma maravilhosa mensagem de Natal.

Nos anos que se seguiram, as mensagens continuaram a surgir, esporadicamente. Uma emergiu até mesmo na formatura de Clara, e outra, no dia de seu casamento. A mãe havia confiado cartas a amigos, que as entregavam em cada ocasião especial.

Até mesmo no dia em que nasceu o primeiro filho de Clara, chegou um cartão com uma comovente mensagem. Cada filho recebeu esses bilhetes curtos e engraçados ou então cartas repletas de amor, até o último se tornar adulto.

O Sr. Harden se casou outra vez e no dia de seu casamento um amigo lhe entregou uma carta escrita pela esposa - a ser lida para os filhos - na qual ela lhe desejava felicidades e instruía os filhos a cercarem a madrasta de amor, pois tinha imensa fé de que o pai jamais escolheria uma mulher que não fosse generosa e carinhosa com seus preciosos rebentos.

Muitas vezes pensei na dor que a mãe de Clara deve ter sentido ao escrever aquelas cartas para os filhos. Também imaginei a alegria traquinas que a invadia enquanto escondia aqueles bilhetinhos. Mas em nenhum momento deixei de me impressionar com as recordações maravilhosas que ela proporcionou para aquelas crianças apesar da dor que sofreu, em silêncio, e da angústia que deve ter sentido em deixar a sua adorada família.

Esses atos de desprendimento exemplificam o maior amor materno que jamais conheci.

 

 

 

Estou convencido de que o maior legado que podemos deixar para os nossos filhos são lembranças felizes.

OG MANDINO

 


 

SAINDO DE CASA

BETH COPELAND VARGO

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 159

 

- Eu não vou chorar - disse a Chuck, meu marido, ao deixarmos a sessão de orientação para pais, organizada diversos meses antes de nossa filha partir para a faculdade.

Talvez as outras mães chorassem ao deixarem os seus filhos no alojamento, mas eu não choraria. Olhei à minha volta, no auditório, para todas as outras mães e me perguntei quais delas seriam as choronas. Pensei assim: "Eu é que não vou me agarrar a uma caixa de lenços de papel quando chegar a hora de me despedir de Sarah. Sou mais forte do que isso. Para que me lamuriar e soluçar só porque a minha garotinha está crescendo?" Passamos a tarde inteira ouvindo os pais dos veteranos falarem do quanto as nossas vidas mudariam quando nossos filhos partissem para a faculdade. Uma mãe mais experiente avisou que choraríamos até chegar em casa.

Cutuquei Chuck:

- Isto é ridículo - comentei. - Por que será que estão dando tanta trela para isso tudo? - Ser mãe era importante para mim, mas, pelo amor de Deus, não era a única coisa! Tenho emprego, tenho amigos, eu tenho uma vida!

Sarah e eu passamos o verão inteiro nos alfinetando. Eu detestava sua mania de dizer que não aguentava esperar até partir para a faculdade - como se sua vida em casa, conosco, fosse uma espécie de cativeiro. Ela odiava o fato de eu viver pedindo que limpasse o quarto e colocasse a louça suja dentro da pia; a maneira de eu resmungar quando precisava usar o telefone e ela estava ocupando a linha; a maneira de lhe perguntar por onde andara quando saía com os amigos. Afinal de contas, tinha dezoito anos. Não precisava ficar dando satisfações à mãe a cada

cinco minutos.

Em agosto, encontrei minha amiga Pat na biblioteca.

Pat recordou as semanas anteriores à partida da filha para a faculdade.

- Passamos o verão inteiro às turras - contou. - Acho que foi a nossa forma de nos acostumarmos a viver longe uma da outra. Quando a gente passa o tempo todo discutindo, com raiva, não se sente tão mal quando ela está partindo.

- Além disso - reagi, pensativa -, ela não se sente tão mal por estar partindo quando passa o tempo todo fula da vida com a mãe.

No dia da mudança, nós a ajudamos a desfazer as malas e a guardar seus pertences no quarto do alojamento. Cobri o colchão de Sarah com lençóis extralongos enquanto Chuck montava uma prateleira dentro de seu guarda-roupa. Depois do almoço, nos despedimos, nos abraçamos no meio-fio e, então, Chuck e eu partimos.

A mulher da orientação estava enganada, pensei. Isto não é tão ruim assim.

Dois dias depois, entrei em seu quarto. A porta estava aberta, a cama estava feita e toda a desordem da infância e da adolescência haviam sumido. E de repente eu me dei conta.

Ela se fora.

Mais tarde, enquanto passava aspirador na sala, pensei ter ouvido alguém dizer: "Mãe." Desliguei o aspirador para ouvir os passos atravessarem a porta, para responder ao chamado de uma criança. Foi então que compreendi que estava sozinha.

Sarah havia partido e nada, nunca mais, seria igual.

Tive vontade de ouvir sua voz. Queria saber como ela estava. Queria que ela se sentasse na beiradinha de minha cama à noite, como fazia antigamente, para me contar sobre o seu dia, sobre as aulas, sobre os professores, sobre os amigos, sobre os garotos dos quais gostava, sobre os garotos que gostavam dela...

- Aconteceu alguma coisa? - perguntou Chuck ao chegar em casa. Eu cortava legumes para refogar. Ele olhou para o meu rosto. - Você está chorando?

- São as cebolas - funguei, enquanto uma lágrima serpenteava pela minha face.

Depois do jantar, eu disse:

- Vamos ligar para ela. Talvez esteja esperando que liguemos.

- Mas só fazem dois dias - disse Chuck. - Vamos lhe dar pelo menos uma semana para se assentar.

Ele tinha razão, é claro. Eu não queria me transformar numa espécie de mãe psicótica. Me lembrei de como era ter dezoito anos e estar longe de casa pela primeira vez. Ela estava fazendo novos amigos, aprendendo novas ideias, formando novos elos. Eu precisava lhe dar espaço, a distância da qual precisava.

Então, o telefone tocou.

- Oi, mãe - disse Sarah. - Dava para você mandar umas fotos para eu colocar no quadro de cortiça? E alguns bichinhos de pelúcia?

Ela queria o ursinho. Queria uma foto minha com o pai - e uma do irmão mais novo. Adorava estar na faculdade, mas também sentia saudades nossas. E então começou a me contar sobre o seu dia, sobre as aulas, sobre os professores, sobre os meninos dos quais gostava, sobre os meninos que gostavam dela....

 

 

 

Sempre tive a sensação de que Deus nos empresta nossos filhos até terem, aproximadamente, dezoito anos. Se você não tiver feito pontos com eles até então, já é tarde demais.

BETTY FORD

 


 

É O CORAÇÃO QUE LEMBRA

TINA WHITTLE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 163

 

"A mãe de quem você se lembra, e a mãe que você será”.

Essas palavras inundaram a minha mente na manhã em que fui mãe pela primeira vez. Ao colocarem Kaley em meus braços, aquela trouxinha quentinha e agitada de olhos arregalados, jurei para mim mesma que seria a melhor das mães, o tipo de mãe da qual eu me lembrava: amorosa, paciente, eternamente calma e plácida. Minha vida inteira havia pulsado com amor e, enquanto acariciava a minúscula cabeça de meu bebê e o sentia virar o rosto para afocinhar o meu dedo, jurei para ela:

- Você só conhecerá o amor, pequenininha.

Eu me lembrei da citação outra vez duas semanas mais tarde, às três da manhã, enquanto andava em círculos com minha recém-nascida aos berros, cheia de cólicas. Naquele momento, entretanto, aquelas palavras não me serviam de consolo. Afinal de contas, que bebê ia querer se lembrar de mim como eu estava então - privada de um boa noite de sono, ansiosa e com a paciência mais gasta do que uma lâmina de sabão.

E apesar da promessa que havia feito, eu certamente não estava sentindo amor algum. Na verdade, não estava sentindo grande coisa. Estava entorpecida, fraca de tanta fadiga, tentando fazer tudo sozinha embora meu marido e minha mãe estivessem dormindo próximos dali, ao final do corredor. Tentava fazer Kaley se calar e a segurava mais perto de mim, mas ela apenas esperneava, sacudia o corpo todo e gritava ainda mais alto. E subitamente não pude conter as lágrimas. Fui afundando o corpo até o chão da sala escura, coloquei-a sobre o colo e solucei com o rosto enterrado nas mãos.

Não sei quanto tempo fiquei assim, mas, muito embora parecessem horas, não podem ter sido mais do que alguns minutos. Através de uma névoa de lágrimas, vi uma luz acender no corredor, desenhando a silhueta de minha mãe enquanto vestia o robe. Logo senti a sua mão em meu ombro.

- Dê-me o bebê - disse.

Não discuti. Derrotada, me limitei a lhe passar aquela trouxinha barulhenta e me arrastei até o sofá, onde deitei com o corpo encolhido numa bolinha bem apertada.

Minha mãe murmurou ao pé do ouvido de Kaley e, com imensa facilidade - fruto de décadas de prática -, passou-a para o ombro. E, por fim, o pranto se transformou em fungadas, as fungadas em soluços e, dali a meia hora, eu só ouvia ronquinhos abafados de bebê.

Senti alívio, mas não senti paz. Que espécie de mãe era eu que não conseguia acalmar a própria filha? Que espécie de mãe era eu que nem ao menos quis tentar? Observei mamãe sentar-se na cadeira de balanço, olhei-a dar início ao ritmo que, eu sei, havia embalado o meu sono em incontáveis noites. Tudo o que consegui sentir foi uma desesperada e exausta sensação de fracasso.

- Sou uma mãe terrível - murmurei.

- Não, não é.

- Você não compreende. - Novas lágrimas começaram a brotar no canto de meus olhos. - Neste exato instante, eu nem ao menos gosto dela. Meu próprio bebê.

Minha mãe riu baixinho.

- Bem, ela não está muito gostável hoje, está? Mas você ficou com ela o tempo todo. Quicou com ela no colo, a embalou, caminhou com ela. E, quando nada disso funcionou, você apenas a segurou nos braços e a manteve próxima.

Eu me sentei e abracei os joelhos.

- Mas a única coisa que consigo sentir é frustração, raiva e impaciência. Que tipo de mãe é essa?

Minha mãe não respondeu imediatamente. Apenas olhou para o bebê, adormecido em seus braços. Mas ficou com um ar pensativo e, quando falou, sua voz transmitia algo de longínquo e melancólico:

- Eu me lembro de todas elas - disse, suavemente. Especialmente da última. Depois que você nasceu, eu costumava rezar, pedindo paciência. Eu chorava e implorava para que me dessem paciência. - Ela me olhou, um meio sorriso em seu rosto. - Acho que não fui ouvida, até hoje.

Eu não podia crer no que estava ouvindo.

- Mas mamãe, eis aí o que melhor me lembro a seu respeito.

Não importava o que acontecesse, você nunca perdia a serenidade. De alguma maneira, você conseguia fazer tudo acontecer ao mesmo tempo.

E era verdade. Não importava quantos brownies precisassem ser assados de última hora, quantos pôsteres para o projeto de ciências precisassem ser coloridos - minha mãe sempre dava um jeito. Sempre calma. Sempre serena. Como enfermeira, seus horários eram irregulares, mas a cada peça de teatro, a cada recital do qual participei, mesmo que não conseguisse chegar a tempo para ver as cortinas se abrirem, eu sempre podia contar em ver um vulto conhecido, vestido de branco, entrar discretamente no auditório escuro.

Essa era a mãe da qual eu me lembrava, a mãe que fazia cada momento contar. A mãe que nunca se portou como eu acabava de me portar.

- Eu sempre pude contar com você - afirmei. - Sempre.

Mas, para minha imensa surpresa, ela revirou os olhos.

- Pode ser que você recorde os fatos assim, mas eu só lembro de me sentir sendo puxada em sete direções diferentes ao mesmo tempo. Você e seu irmão, seu pai, o pessoal do trabalho.

Todos precisavam de mim, mas eu nunca tinha tempo o bastante para estar disponível para todo mundo.

- Mas você estava sempre disponível!

Ela balançou a cabeça.

- Não como eu gostaria de ter estado, com a frequência de pelo período que gostaria de ter estado. Então rezava e pedia paciência, para que eu pudesse aproveitar ao máximo o tempo que, de fato, tínhamos juntas. Mas você sabe o que dizem. Deus não nos dá paciência. Ele apenas nos envia momentos que nos façam treinar a paciência, e o faz repetidamente.

Ela olhou para Kaley.

- Momentos como este.

Olhei as duas e então, subitamente, compreendi: as lembranças não são guardadas em nossas mentes - perfeitamente aptas a registrar detalhes de forma incorreta - e sim em nossos corações. Minha mãe e eu não recordávamos a minha infância da mesma forma, mas compartilhávamos aquilo que de fato importava.

Ambas nos lembrávamos do amor.

Levantei do sofá e fui me sentar ao pé da cadeira de balanço.

Ficamos assim por um bom tempo: minha mãe, minha filha e eu.

E muito embora a choradeira tenha começado outra vez com o nascer do sol, naquele momento dourado e tranquilo - eu sentada aos pés de minha mãe, com a mão nos cabelinhos sedosos de minha filha - murmurei um silencioso "muito obrigada”.

Se Kaley, de alguma maneira, se lembrar daquela noite, espero que recorde o amor instintivo que me fez permanecer ao seu lado apesar de tudo.

 

 

 

Jamais houve uma criança tão encantadora, mas sua mãe ficava satisfeita quando o fazia dormir. RALPH WALDO EMERSON

 

 

Eu devo ter dois corações, mãe. Porque eu te amo tanto.


 

UMA CRIANÇA SEM MÃE

JANE KIRBY

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 169

 

A morte de minha mãe foi rápida e brutal - teve um vírus no estômago na sexta-feira à noite e estava morta na segunda-feira de manhã. Não houve tempo de me despedir. Não estava preparada para perdê-la. Mas como explicar a morte para uma criança de dois anos? Perguntei a meu pai como eu reagira.

"Você era muito pequena, foi fácil distraí-Ia." Sua resposta apressada me fez entender que, na época, ele não conversara comigo sobre o assunto e mesmo agora só fala de mamãe se o pressiono.

Quase todas os personagens da minha infância eram como eu - sem mãe: Cinderela, Dumbo, Bambi e Branca de Neve. Os autores usam a técnica de criar personagens sem mães para dar-lhes um status de heroínas e fazê-las despertar mais carinho. E eu, criança, gostava das heroínas - não porque as visse como abandonadas e vulneráveis, mas porque tínhamos alguma coisa em comum.

Imagino que vocês esperam que eu fale da tristeza que senti por ser órfã de mãe, ou das habilidades que tive de desenvolver para compensar a perda. Mas a verdade é que não posso dizer que senti falta de mãe, pois houve várias mulheres que, cada uma a seu modo, desempenharam função de mãe para mim.

Fui cercada de tias, irmãs, avó afetuosíssimas que capricharam nas minhas refeições, trançaram meu cabelo, me contaram histórias na hora de dormir e ouviram minhas histórias com interesse. Fui levada e buscada na escola com cuidado, prepararam-me para viver com naturalidade a primeira menstruação, deram-me o primeiro sutiã. Meu pai foi uma presença protetora e não me lembro de jamais ter sido carente de amor ou sentir falta de abraços quando era pequena.

Na época da escola, intuí que o fato de não ter mãe me tornava especial, mais importante de alguma forma. Usei isso com as freiras para que me dessem um tratamento diferente. Usei também com meu pai, reclamando dele quando se atrasava para me apanhar: "Se mamãe estivesse viva, aposto que ela chegaria na hora." Na fase de competição entre adolescentes, quando minhas amigas se queixavam de suas mães, eu dizia: "Vocês, pelo menos, têm mãe." Foi só quando tive meu filho que comecei a sentir falta de minha mãe. Não porque ela poderia me ajudar a cuidar dele, mas porque, com Jacob, veio o entendimento do que uma mãe dá a seu filho, do que uma mãe é. Senti por meu filho um amor absoluto que eu não imaginava que um ser humano pudesse ter pelo outro. Percebi o que eu perdera e do que eu sentira falta, mas que nunca me ocorrera.

Fiquei especialmente atenta quando ele fez dois anos e cinco dias, exatamente a idade que eu tinha quando minha mãe morreu. Procurava entender como sua morte me afetara. Tentava imaginar como seria uma criança que mal começou a andar e tem o centro de sua vida roubado. Mas não conseguia me lembrar da experiência.

Eu não podia voltar àquela época. Em vez disso, fixei-me na minha relação com Jacob - de mãe para filho e não de filho para mãe.

Colocava seus dedinhos roliços na palma da minha mão e imaginava que minha mãe também segurara meus dedos assim.

Brincava com ele de "aperto de mão secreto" - três apertos de mão enquanto eu murmurava "amo você". Quem fazia assim comigo era minha avó materna. Talvez ela também tenha brincado dessa forma com minha mãe. Quando consolava Jacob em sua tristeza ou fazia cosquinhas na sua barriga para que ele risse, achava que certamente mamãe fizera o mesmo comigo.

Pela primeira vez eu pensava em minha mãe como uma mulher que amara sua filha e se alegrara com ela com a mesma paixão que eu sentia por Jacob. Então chorei muitas vezes, de forma profunda, como uma purificação.

Chorei pela mulher que foi tirada de sua filha. Chorei por aquela menininha que eu queria abraçar e a quem eu queria dizer o quanto lamentava a perda que ela sofrera. Dizer que eu a protegeria e a ajudaria a se sentir segura. Queria que ela soubesse que fora muito e profundamente amada por sua mãe.

Fazer isso me deu liberdade de experimentar todas as sensações que eu passara a vida negando.

Agora, quando leio para Jacob dormir e vejo filmes com ele, ainda tenho empatia por personagens solitários: o ET, separado da nave mãe, o bebê dinossauro que perdeu a mãe tão cedo, a Pequena Sereia, que só tinha o pai, e a Bela, que enfrentou a Fera sem ter a mãe para lhe dar conselhos. E agora, apesar de ser imensamente grata por todas as figuras femininas que desempenharam para mim função materna, também entendo como corta o coração a ideia de uma criança sem mãe. O que a vida não me ensinou, eu aprendi com meu filho.


 

ÓCULOS ESCUROS

BEVERLY BECKHAM

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 173

 

Temos uma foto dele em algum lugar. É a foto de um garotinho de cinco anos com o coração partido, atirado num banco da Disney, tentando conter as lágrimas, os lábios tão tensos que quase dá para vê-Ios tremer, as orelhas de Mickey tortas.

Mas é possível que não tenhamos essa foto a não ser em nossa lembrança. Ainda assim, é a mesma imagem compartilhada por mim e por meu marido: um dia de sol, uma luz branca cintilando nas janelas da Main Street e refletindo dezenas de carruagens com rodas de cromo. Luz e calor bruxuleavam por todos os lados e nossos dois filhos clamavam por óculos escuros:

- Por favor, mamãe? Pai, por favor, por favor!

Entramos rapidamente numa loja e Rob escolheu óculos de Pato Donald, um troço de plástico azul e branco que escorregava do nariz, deixando-o mais parecido com o Tio Patinhas do que com o Pato Donald. Mas não lhe dissemos isso. Ele amava aqueles óculos. Lauren, já intensamente preocupada em andar na moda apesar dos três anos, escolheu óculos cor-de-rosa da Minnie porque vestia rosa naquele dia.

Saíram da escuridão da loja para a claridade do dia com os óculos no rosto, subiram a Main Street, atravessaram o castelo e entraram na Terra da Fantasia. Quando andaram no brinquedo do Peter Pan, tiraram os óculos e os seguraram, fazendo o mesmo no Piratas do Caribe.

De alguma forma, depois disso, talvez justamente quando saíram desse brinquedo específico, ou quem sabe quando parou para amarrar os tênis ou para ajeitar as orelhas do Mickey, ou quando paramos para almoçar, os óculos de Pato Donald desapareceram. E Robbie, que tinha cinco anos e amava aqueles óculos, chorou.

"Se você os amava tanto, deveria ter tido mais cuidado com eles", foi o que lhe dissemos. Ou alguma coisa do gênero. Imagino eu. Mas éramos jovens e pouco versados na arte de criar filhos e, afinal, não era para a gente lhe ensinar a cuidar de suas coisas? Não era nosso dever nos certificarmos de que ele compreendia que dinheiro não cresce em árvores?

Quanto custaram os óculos? Um dólar? Dois dólares? Que mal haveria em secarmos as suas lágrimas e dizermos: "Venha, vamos comprar outros. Sei que você não queria perdê-Ios." Será que ele teria se transformado numa pessoa do mal por causa disso? Teríamos nós o corrompido de alguma forma imprevisível?

Lauren disse:

- Você pode ficar com os meus, Robbie. - Mas ele não queria os óculos dela. Eram cor-de-rosa. Eram óculos de menina.

Os dele eram azuis, eram óculos de menino. E haviam sumido.

Ele os adorava e agora estava arrasado.

Se eu pudesse fazer tudo outra vez, teria voltado a Main Street, comprado outro par de óculos de Pato Donald novinhos em folha e fingido que os encontrara no chão. Eu teria berrado:

"Ei, olhe só o que achei!" E ele teria se levantado na mesma hora, corrido - rindo -, atirado os braços em torno de mim e colocado os óculos no rosto. E é assim que nos lembraríamos daquele dia.

Vivendo e aprendendo.

Há alguns meses, estávamos em Orlando, não exatamente na cena do crime, mas bastante perto. Nosso filho, há muito adulto, estava lá a trabalho e pegamos um avião para encontrá-lo. Em meio àquela agitação de carros alugados, restaurantes e deslocamentos para cá e para lá, adivinhe só? Ele perdeu os óculos escuros!

Não ralhamos com ele, nem ao menos nos passou pela cabeça dizer: se você gostava tanto deles, deveria ter sido mais cuidadoso. Todo mundo perde coisas o tempo todo. Em vez disso, fizemos o que a maioria dos adultos faz por outros adultos: tentamos ajudá-Io a descobrir onde os teria deixado e - imagine só - acabou por encontrá-Ios numa sala de reunião na qual estivera no dia anterior.

Tinha um sorriso estampado no rosto ao voltar para o carro.

Passos lépidos, olhos ocultos pelos óculos escuros, ele em nada lembrava aquele menino de cinco anos.

Exceto para mim.

Foi o meu primeiro filho e o primeiro sempre paga o preço mais alto por você ser nova naquilo, por seguir tudo à risca e não querer errar sendo boazinha demais. Mas aí acaba errando do mesmo jeito porque, na verdade: você lá sabe o que está fazendo?

Sei que, como pais, temos obrigação de ensinar aos nossos filhos. Mas também sei que nem tudo precisa ser uma lição.

Às vezes, óculos escuros são só isso: óculos escuros perdidos e nada mais.


 

UM FILHO PERFEITO

SHARON DREW MORGAN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 177

 

Aos vinte e seis anos, tive um lindo bebê. Seu cabelo era escuro, seus olhos, verdes, e tinha os cílios mais longos que eu jamais vira. Falou aos nove meses, andou aos dez e, aos dois anos, já esquiava. Era minha alegria e eu sentia por ele um amor intenso, que nem imaginava ser possível existir.

Como todas as mães, eu sonhava com o futuro de George. Quem sabe seria um engenheiro? Um esquiador, com certeza.

Era tão inteligente que frequentava uma escola especial. Uma vez, eu contava uma dessas "histórias de mãe" para uma amiga e ela perguntou: "Que bom que George é perfeito. Você o amaria tanto se ele não fosse?" Pensei sobre a pergunta, mas a esqueci até o ano seguinte.

Um dia, aos oito anos, George se levantou com o pé apontando para cima, só conseguindo andar se apoiando no calcanhar. Percorremos consultórios médicos enquanto o problema atingia uma perna, depois a outra. Ouvimos alguns diagnósticos até chegar ao de distonia generalizada, um problema neurológico. Ele perderia a capacidade de andar e talvez o controle da maioria dos músculos, num doloroso processo.

Eu sentia muito ódio: de Deus, que fizera aquela maldade comigo e com meu filho, de mim, que de alguma forma causara nele um problema genético, e de George, por sua deformação.

Eu me envergonhava de andar com ele na rua. As pessoas o viam e rapidamente me fitavam com pena. Às vezes, eu não suportava olhá-Io, de tão torto e feio. Gritava para que ele andasse reto, porque não aguentava ver como ele se tornara deformado. George sorria, dizendo: "Estou tentando, mamãe." Eu não o achava mais bonito. Só conseguia ver suas pernas tortas, seus braços, costas e dedos tortos. Não queria mais amá-Io, porque tinha medo de perdê-lo. Não podia mais sonhar com o que ele seria no futuro, pois nem sabia se ele teria um futuro. Pensava sempre que não poderia dançar com ele no seu casamento.

Um dia, fiquei de coração tão partido ao vê-Io tentar colocar seus pés tortos no seu amado skate, que tratei de guardá-Io no armário, dizendo que era para ele "usar depois".

Toda vez que lia para George na hora de dormir, ele me perguntava a mesma coisa: "Se rezarmos muito, você acha que vou estar andando quando acordar?" "Não, mas acho que devemos rezar de qualquer jeito." "Sabe, mamãe, os outros meninos me chamam de aleijado, não querem mais brincar comigo. Não tenho mais amigos. Odeio eles. Me odeio." Tentamos todos os remédios, dietas e médicos possíveis.

Procurei o centro de pesquisas sobre a doença e fundei a Associação Inglesa dos Portadores de Distonia. Dirigi minha vida para procurar a cura para esse mal, querendo que meu filho voltasse a ser normal.

Aos poucos, a relação com George foi me ensinando a perdoar, mas eu ainda me sentia paralisada pelo medo. Foi quando uma amiga me levou a um grupo de oração, onde aprendi a praticar diariamente. Fui adquirindo uma paz interior que não conhecera antes, mesmo quando meu filho era perfeito. Descobri que o problema que vivíamos era uma chance de crescimento para nós, tão dolorosa quanto preciosa. Agora, o amor parecia maior do que qualquer sensação que eu pudesse compreender. Vi que George era meu professor e que a lição era o amor.

Sei que George sempre será um pouco diferente das outras crianças - mas é meu filho querido. Parei de ter vergonha quando seu corpo não estava reto. Aceitei que ele crescesse com perspectivas diferentes das outras pessoas. Mas ele se desenvolveu com mais paciência, mais ambição e mais coragem do que qualquer pessoa que eu já conhecera.

Aos dezoito anos, George conseguiu esticar uma das pernas.

Jogou fora uma muleta. No mês seguinte, jogou a outra. Seu andar era capenga, mas andava sozinho. Veio visitar-me logo depois disso e, quando abri a porta de casa, vi na minha frente um rapaz alto e bonito. "Oi, mamãe", ele sorriu. "Quer ir dançar?"

Numa recente reunião de minhas colegas de escola, todas comentavam os sucessos dos filhos.

"Meu filho é músico." "Minha filha é médica." Quando chegou minha vez, falei com extremo orgulho:

"Meu filho anda. E ele é perfeito."


 

MARY

RACHEL NAOMI REMEN extraída do livro As Bênçãos do Meu Avô.

Histórias Para Aquecer o Coração das Mães 181

 

O filho de Mary veio passar em casa a semana de férias da universidade. Sentia-se cansado e estava pálido, perdera a vitalidade. Preocupada, ela o levou ao médico, que diagnosticou uma forma rara de câncer. Era incurável.

Quando Mary ouviu o diagnóstico, o filho já voltara para a faculdade. Ela subiu os degraus da entrada, abriu a porta com força e uivou com rodas as suas forças. Gritando de revolta, correu de quarto em quarto abrindo as janelas com ímpeto e dando socos no ar. O marido tentou acalmá-Ia sem resultado. Assustado, ele telefonou para um terapeuta que vinham consultando juntos e correu com o telefone até o quarto onde Mary gritava diante da janela aberta.

- Mary, Mary - disse ele -, o terapeuta está ao telefone.

Ao ouvir isso, ela avançou sobre o marido, gritando:

- O terapeuta? O terapeuta? Fale você com o terapeuta, Harry. Eu vou falar com Deus.

Mary precisou de toda a sua raiva, força de vontade e vitalidade para atravessar os quatorze meses que se seguiram. Com a ajuda das quatro filhas, ela levou o rapaz a quem quer que pudesse ajudar. Tentaram de tudo, mas o câncer avançou com fúria, transformando-o numa sombra de si mesmo, até que, finalmente, ele morreu nos braços da mãe. Tinha apenas 20 anos. Todo aquele amor materno não fora capaz de salvá-Io.

Mary sentiu que sua vida se fora com o filho. Passou vários meses entorpecida. Inconsolável.

Cerca de dois anos mais tarde, Mary foi com seu irmão a uma igreja católica que nunca visitara. Sem conseguir rezar, ela caminhou sem destino pela nave até parar em frente a uma imagem da Virgem Maria. De repente, a dor que estava congelada em seu coração encontrou palavras e ela perguntou em voz alta:

- Como a senhora conseguiu, Maria? Como conseguiu renunciar a seu filho? Como conseguiu encontrar uma maneira de continuar vivendo depois que ele morreu? Onde descobriu alguma esperança de conforto?

Com lágrimas descendo pelo rosto, ela disse à Virgem que sempre fora uma boa pessoa, uma boa mãe.

- Por quê? - inquiriu. - Por quê?

Que razão poderia haver para uma pessoa tão cheia de vida, tão nova, tão brilhante, sofrer e morrer? Mary sabia, sem sombra de dúvida, que jamais superaria aquela perda. Ainda chorando, ela contou à Virgem como seu filho era jovem, como ele se esquecia de comer, como não sabia lavar as próprias roupas direito.

- Ele precisava de uma mãe - disse, em lágrimas. - Ele ainda precisa de uma mãe. Não posso compreender, mas entrego-o aos seus cuidados.

Virou-se de costas e saiu da igreja.

Um ou dois dias depois, enquanto dirigia para o trabalho, Mary surpreendeu-se ao perceber que estava cantarolando um antigo hino de louvor sobre o consolo. Com o passar do tempo, devagarinho, ela foi conseguindo aliviar seu coração.

Fiquei perplexa com a força dessa história, impressionada com a intensidade do amor de Mary pelo filho e da dor pela sua perda. Não consegui dizer nada. Mary olhou para mim e sorriu:

- E o Mistério, Rachel? O Mistério é que é possível ser reconfortada.

Recentemente, Mary escreveu-me uma carta para contar que duas de suas filhas estão grávidas. Na próxima primavera, uma delas trará ao mundo um menino, seu primeiro neto.


 

UM MOMENTO PODE DURAR PARA SEMPRE

GRAHAM PORTER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 9

 

 

Nossas férias no lago Michigan tinham terminado. Para evitar engarrafamentos na volta para casa, eu tinha acordado de madrugada para colocar no carro a parafernália dos nossos filhos, com idades de três a nove anos. Não era exatamente a minha ideia de diversão. Mas consegui o milagre de estar com tudo arrumado precisamente no horário que estipulara. Voltei ao chalé e encontrei minha mulher, Evie, acabando de varrer a areia do chão.

- São seis e meia, hora de partir - eu disse. - Onde estão as crianças?

Evie deixou a vassoura de lado.

- Deixei que fossem até a praia para se despedirem.

Balancei a cabeça, aborrecido, porque isso atrapalhava o meu horário cuidadosamente planejado. Por que, então, acordar tão cedo se não íamos conseguir estar na estrada antes que o tráfego ficasse insuportável? Afinal, as crianças já tinham passado duas ótimas semanas fazendo castelos de areia e passeando por toda a região do lago à procura de pedras mágicas. E hoje elas só tinham que relaxar no carro - ou dormir, se quisessem-, enquanto eu me encarregaria da longa volta para casa.

Abri a porta de tela, passei pela varanda. Encontrei meus quatro filhos na praia, depois das dunas suaves do terreno.

Tinham tirado os sapatos e estavam andando na ponta dos pés na água, rindo e pulando cada vez que uma onda quebrava em suas pernas. O xis da questão era o quanto poderiam entrar no lago sem encharcar as roupas. Fiquei irritado ao lembrar que todas as roupas secas das crianças já estavam guardadas, sabe Deus onde, na mala entupida do carro.

Com a firmeza de um sargento, fiz uma concha com as mãos para gritar que fossem todos imediatamente para o carro.

Mas, por algum motivo, as palavras de repreensão ficaram presas na garganta. O sol, ainda baixo no céu da manhã, desenhava uma silhueta dourada ao redor de cada uma das crianças, que brincavam. Elas só tinham aqueles momentos finais para espremer a última gota de felicidade do sol, da água e do céu.

Quanto mais eu olhava, mais a cena à minha frente adquiria uma aura mágica, pois jamais se repetiria novamente. Que mudanças podemos esperar em nossas vidas depois que se passar mais um ano, outros dez anos? A única realidade era aquele momento, a praia cintilante e as crianças - minhas crianças com a luz do sol enfeitando seus cabelos, o som das risadas se misturando ao vento e às ondas.

"Por que eu cismara de ir embora às seis e meia da manhã, a ponto de sair correndo do chalé para brigar com eles?", me perguntei. Eu tinha em mente impor uma disciplina construtiva ou estava apenas com vontade de ralhar porque tinha um longo dia no volante pela frente? Afinal, não há prêmios a receber por partir exatamente na hora. E como poderia esperar manter a comunicação com meus filhos, agora e daqui a alguns anos, se não conseguisse manter viva a memória da minha própria juventude?

Na beira d'água, mais embaixo, minha filha mais velha fazia sinais para que me juntasse a eles. Então os outros começaram a acenar também, chamando por Evie e por mim, para nos divertirmos com eles. Hesitei, mas apenas por um instante. Corri, então, até o chalé para trazer minha mulher pela mão. Meio correndo, meio escorregando pelas dunas, logo chegamos à praia, jogando longe os sapatos. Numa alegre bravata, entramos na água além do ponto em que as crianças estavam, Evie segurando a saia e eu a bainha das calças. Até que o pé de Evie escorregou e ela afundou na água gritando e, de propósito, me puxou também.

Hoje, anos depois, ainda me emociono ao lembrar as risadas das crianças naquele dia - boas gargalhadas e um sentimento de camaradagem. E, muitas vezes, quando elas pensam em suas lembranças mais caras, aqueles poucos momentos ocorridos há tanto tempo estão entre as recordações mais preciosas.


 

O BENFEITOR SECRETO

WOODY McKAY JR.

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 12

 

Por volta de 1910, meu pai era motorista de um homem muito rico e testemunhou o empenho do patrão em ajudar anonimamente pessoas que jamais poderiam retribuir o favor.

Meu pai me contou várias histórias fascinantes dessa época, mas uma em especial ficou guardada para sempre na minha memória. Um dia, ele levou seu patrão a um encontro de negócios em outra cidade. Nos arredores pararam para comer um sanduíche.

Enquanto comiam, vários garotos passaram pelo carro, brincando com arcos. Um deles mancava. Chegando mais perto da janela, o patrão de meu pai viu que o garoto tinha um dos pés deformado. Ele saiu do carro e alcançou o menino.

- Este pé lhe traz muitos problemas? - perguntou.

- Tenho de andar devagar - o garoto respondeu. - E preciso cortar um pedaço do sapato para poder pisar melhor. Mas dá para ir levando. Por que o senhor está me perguntando isso?

- Talvez eu possa ajudá-lo a curar seu pé. Você gostaria?

- Claro - disse o menino, embora tenha ficado um pouco confuso com a pergunta.

O empresário anotou o nome do garoto, voltou para o carro e disse a meu pai: "Woody, o garoto que manca se chama Jimmy e tem oito anos. Descubra onde ele mora e pegue o endereço e os nomes dos pais." Ele entregou a meu pai um pedaço de papel com o nome do menino e pediu: "Vá visitar a família dele esta tarde e faça o possível para conseguir permissão para deixarem operar o pé de Jimmy. Podemos tratar da papelada depois. As despesas são todas por minha conta." Eles acabaram de comer seus sanduíches e meu pai levou o chefe para seu compromisso de trabalho.

Não foi difícil conseguir o endereço de Jimmy numa loja próxima. Quase todos conheciam o menino com o pé deformado.

A pequena casa em que Jimmy e a família moravam precisava de pintura e de consertos. Olhando à volta, meu pai viu camisas rasgadas e vestidos remendados no varal ao lado da construção. Um pneu velho pendurado por uma corda num carvalho servia de balanço.

Uma mulher de trinta e poucos anos respondeu à batida na porta enferrujada. Parecia cansada e suas feições revelavam uma vida difícil.

- Boa-tarde - meu pai cumprimentou. - A senhora é a mãe de Jimmy?

Ela franziu um pouco as sobrancelhas antes de responder.

- Sou. Ele se meteu em alguma encrenca? - Seus olhos examinavam o colarinho engomado de meu pai e seu terno bem passado.

- Não, senhora. Eu represento um homem rico que quer resolver o problema do pé de seu filho, para que ele possa brincar como todos os seus amigos.

- A troco de quê, moço? Nada é de graça nessa vida.

- Não se trata de uma brincadeira. Se for possível, gostaria de explicar o que está acontecendo à senhora e a seu marido, se ele estiver em casa. Sei que é inesperado e não a culpo por achar suspeito.

Ela olhou para meu pai novamente e, ainda hesitante, convidou-o a entrar. "Henry", ela gritou, "tem um homem aqui dizendo que quer ajudar a resolver o problema do pé de Jimmy." Por quase uma hora, meu pai explicou o plano e respondeu às perguntas do casal.

- Se permitirem que Jimmy seja operado, vou lhes mandar algumas autorizações para assinar. Meu patrão pagará todas as despesas, como já lhes disse - concluiu.

Perplexos, os pais do garoto se olharam. Ainda não tinham muita certeza quanto ao que estava acontecendo.

- Aqui está meu cartão. Quando enviar os papéis para autorização, vou mandar uma carta esclarecendo tudo sobre o que conversamos. Se tiverem mais alguma pergunta, telefonem ou escrevam para este endereço.

Isso pareceu lhes dar um pouco mais de confiança, e meu pai foi embora. Sua missão fora cumprida.

Mais tarde, o patrão de meu pai entrou em contato com o prefeito e lhe pediu que enviasse alguém à casa de Jimmy para reafirmar à família que a oferta era legítima. Naturalmente, o nome do benfeitor não foi mencionado.

Logo, com as autorizações assinadas, meu pai levou Jimmy a um excelente hospital em outro estado para a primeira de cinco operações a que seria submetido.

As cirurgias foram um sucesso. Jimmy se tornou o queridinho das enfermeiras na ala de ortopedia. Todos se abraçaram e choraram quando ele deixou o hospital pela última vez. Num gesto de carinho, deram-lhe um presente especial: um novo par de sapatos, feitos sob medida para seus pés "novos".

Jimmy e meu pai se tornaram grandes amigos durante as idas e vindas do hospital. Na última viagem, quando o garoto voltava definitivamente para casa, eles cantaram, falaram sobre o que Jimmy poderia fazer com seu pé normal e dividiram momentos de silêncio à medida que se aproximavam da casa.

O menino deu um largo sorriso ao sair do carro. Seus pais e os dois irmãos o esperavam, juntos, na maltratada porta da frente.

- Fiquem aí - Jimmy gritou para eles.

Todos ficaram olhando, surpresos, enquanto o garoto caminhava até eles. O defeito tinha desaparecido.

Com abraços, beijos e sorrisos receberam o menino com o "pé curado". Seus pais balançavam as cabeças e sorriam enquanto o observavam. Ainda não podiam acreditar que um homem que nunca tinham visto pagara uma enorme quantia para consertar o pé de um menino que ele nem conhecia.

O rico benfeitor tirou os óculos e enxugou as lágrimas quando meu pai relatou a cena da volta de Jimmy para casa.

"Faça mais uma coisa”, ele disse. "Perto do Natal, vá a uma boa loja de sapatos. Faça com que chamem cada membro da família de Jimmy para que escolham um novo par de sapatos. Pagarei pelos sapatos de todos. Mas comunique que farei isso apenas uma vez. Não quero que fiquem dependentes de mim." Jimmy se tornou um homem de negócios bem-sucedido.

Que eu saiba, ele nunca soube quem pagou por suas cirurgias.

Seu benfeitor, o Sr. Henry Ford, sempre disse que é mais divertido fazer algo pelas pessoas quando elas não sabem quem lhes fez o bem.

 

Nota do Tradutor: Henry Ford (1863-1947), pioneiro da indústria automobilística americana, fundou a Henry Ford Company em 1902 e a Ford Motor Company em 1903.

 

 

Dá prazer ajudar outras pessoas. PAUL NEWMAN


 

UM OUTRO FATO MARCANTE

RICHARD COHEN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 17

 

Há muitos anos, meus pais, minha mulher, meu filho e eu jantamos num desses restaurantes onde o cardápio está escrito num quadro-negro. Depois de uma ótima refeição, o garçom colocou a conta no centro da mesa. Eis o que aconteceu: meu pai não apanhou a nota.

A conversa continuou. Finalmente percebi. Era para eu me encarregar da conta. Depois de ir a centenas de restaurantes com meus pais, depois de pensar a vida toda que meu pai é que era o dono do dinheiro, tudo tinha mudado. Apanhei a nota e minha visão de mim mesmo mudou de repente.

Eu era um adulto.

Algumas pessoas demarcam a vida em anos. Eu meço a minha por pequenos fatos, por ritos de passagem. Não me tornei rapaz numa idade determinada - treze anos, por exemplo -, mas quando um garoto entrou na loja em que eu trabalhava e me chamou de "senhor". Ele repetiu "senhor" várias vezes, olhando direto para mim. Aquilo foi como um soco: era comigo! De repente passei a ser um senhor.

Houve outros fatos marcantes. Os policiais da minha juventude sempre me pareceram grandes, enormes até, e, naturalmente, eram mais velhos do que eu. Até que um dia, num instante, percebi que eles não eram nada disso. Na verdade, alguns eram garotos - e pequenos. Chegou o dia em que me dei conta de que todos os jogadores de futebol da partida a que estava assistindo eram mais novos do que eu. Eram apenas garotos altos. Com tal fato marcante foi-se embora a fantasia de que um dia, talvez, eu também pudesse me tornar um jogador de futebol. Mesmo sem jamais ter alcançado a montanha, eu a tinha transposto.

Nunca pensei que chegaria a cair no sono vendo televisão, como meu pai fazia. Agora, sou ótimo nisso. Nunca pensei que iria à praia sem nadar. E acabei de passar o verão todo no litoral sem entrar na água uma só vez. Nunca pensei que apreciaria ópera, mas agora a combinação de voz e orquestra me atraem. Nunca imaginei que ia preferir ficar em casa à noite, mas agora me vejo recusando convites para festas. Considerava estranhas as pessoas que observavam pássaros, mas nesse verão me peguei fazendo a mesma coisa. Acho até que vou escrever um livro a respeito. Anseio por uma convicção religiosa que jamais imaginei querer e sinto uma proximidade com antepassados que já partiram há muito tempo. E o mais incrível é que, nas discussões com meu filho, repito os argumentos de meu pai - e ainda saio perdendo.

Um dia, comprei uma casa. Um dia - que dia! - tornei-me pai e, não muito depois disso, paguei a conta no lugar de meu pai. Imaginava que esse dia tinha sido um rito de passagem para mim. Mas, depois, já um pouco mais velho, compreendi que fora para ele também. Um outro fato marcante.


 

ACABARAM-SE AS MATINÊS DE DOMINGO

LENNY GROSSMAN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 20

 

Sempre gostei de cinema, desde garoto. Ia sempre às matinês de domingo no cinema Monroe, ver filmes como Se Meu Fusca Falasse e Um Astronauta Fora de Órbita. Então, quando fiz dez anos, em 1970, meus hormônios se manifestaram com vontade.

Aprontei umas confusões (o que naquele tempo significava colocar fogo em gasolina na rua e roubar gibis) e meu gosto por cinema mudou. Não me contentava mais com filmes da Disney, mas ainda não podia assistir a filmes proibidos para menores.

Foi quando começaram a aparecer na televisão as chamadas para Operação França. Eram sensacionais, cheias de vigor e mexiam com a minha testosterona. Aquele filme era mesmo coisa de homem. Mas eu ia perdê-Io porque não tinha idade suficiente. Lembro bem quando meu pai e meu irmão mais velho, Peter, foram ver o filme. Era uma noite gelada e eles disseram:

- Vamos chegar tarde.

Operação França rompeu barreiras. A perseguição de carro era ousada, nervosa e emocionante, como nunca se vira antes.

Gene Hackman, no papel de Popeye Doyle, estava distante daqueles policiais certinhos a que estávamos acostumados. Fazia um detetive nova-iorquino, um anti-herói desbocado, racista e raivoso (o filme depois receberia vários Oscar: melhor filme, diretor, ator, roteiro e edição). Eu era fanático por cinema e sentia que estava perdendo uma coisa histórica. Enquanto Peter se divertia com papai, eu estava destinado a ter outra noite monótona em casa, com mamãe e Steven, meu irmão mais novo.

Quando os dois chegaram, expressaram o que eu já sabia. O filme era sensacional. Hackman era fantástico! Ah, como eu queria ser mais velho e poder...

- Você quer ir ver o filme, Leonard?

"Era mesmo meu pai que tinha acabado de dizer aquilo? Eu tinha ouvido direito?" A confirmação veio em um segundo, de minha mãe.

- Ed, você acha mesmo que ele deve ver o filme?

"Ah, mamãe, não acabe com a minha chance. Não plante a semente da dúvida. Fique calada só mais um pouquinho, até que eu consiga arrancar uma promessa." Então as doces palavras vieram e, com elas, caiu a resistência.

- Não vejo por que não. Acho que ele já tem idade para esse tipo de filme. Podemos ir amanhã à noite.

- Mas você foi hoje com Peter. Vai ver de novo amanhã?

Meu pai olhou em minha direção. Com certeza viu meus olhos cheios de ansiedade e expectativa.

- Claro, por que não? - ele disse.

- Yes! - gritei, pulando no ar.

Na noite seguinte, eu mal conseguia jantar. Não via a hora de sair e ver o filme que imaginara que só meu irmão seria autorizado a ver.

- Leonard, se você não comer alguma coisa, vai ficar com fome no cinema - papai disse, rindo consigo mesmo.

Finalmente o jantar acabou. Vestimos nossos casacos e nos dirigimos à porta. Meu pai sorriu e avisou:

- Vamos chegar tarde.

Entramos no carro e senti o cheiro da colônia Old Spice de papai. Estava muito frio, mas o carro ficou quentinho logo que ele ligou o aquecimento. Podia perceber o amor que ele tinha por mim. Aquele era um tempo que teríamos só para nós dois.

Mesmo tendo visto o filme na noite anterior, papai ia me levar ao cinema. Nem esperou que algumas semanas se passassem.

Naquele tempo, esse tipo de filme era proibido para menores de doze anos. Eu parecia ter mais idade, mas meu pai ainda deu uma gorjeta para a moça da bilheteria para não termos problema na hora de entrar. Operação França era ainda melhor do que eu esperava, o filme mais excitante que já tinha visto. E o mais adulto.

Quando chegamos em casa depois da sessão, virei para meu pai e o olhei longamente. Queria que soubesse como me fizera feliz, como fora maravilhoso ele pensar em mim como adulto (pelo menos de alguma forma), mas tudo que consegui dizer foi:

- Obrigado por me levar, papai.

Ele me envolveu com seus braços fortes e ficamos assim num abraço apertado, mais longo do que o normal.

- O prazer foi todo meu! - ele disse.

E foi.

Depois desse dia, meu pai e eu íamos sempre ao cinema, só nós dois. A censura dos filmes perdeu a importância. Eu tinha visto um, podia ver todos. Meu rito de passagem se completara.

Quando fiz quinze anos, as coisas mudaram um pouco e passei a ir mais ao cinema com meus amigos do que com meu pai.

Em 1975, Peter, eu e dois amigos ficamos duas horas na fila para assistir a Tubarão. Voltei para casa agitadíssimo por causa disso. Que filme sensacional! Ainda me lembro de meu pai se lamentando porque nós, os adolescentes, não o deixáramos ir conosco ao que ele chamou de "evento". Minha mãe não o acompanharia de jeito nenhum e, certamente, ele não iria sozinho. Agora ele era o pai, e adolescentes realmente não querem saber de pais por perto quando vão ao cinema em grupo.

- Olha, papai - eu disse. - Você quer ir ver o filme?

Ele me pareceu um pouco surpreso.

- Claro, vou adorar.

- Tudo bem, nós vamos. Amanhã à noite. Só você e eu.

- Que máximo - ele disse, virando-se para que eu não percebesse que estava rindo de orelha a orelha.

Na noite seguinte ficamos duas horas na fila para ver Tubarão. E, dessa vez, fui eu que tive o prazer de "levar" meu pai ao cinema. O prazer foi todo meu.


 

UMA DAS MINHAS LEMBRANÇAS FAVORITAS

ROSALIE SILVERMAN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 24

 

Quando comecei a sair com rapazes, com uns dezoito anos, minha mãe sempre ficava acordada, me esperando chegar em casa. Assim que entrava no apartamento, ela ia comigo para meu quarto, sentava-se na cama e me fazia contar sobre o encontro.

Normalmente, a essa hora, papai estava dormindo, mas nossa conversa chegava até o quarto deles, que era bem próximo.

"Vocês duas vão ficar com esse papo até de manhã?," ele reclamava. "Não podem esperar até amanhã para conversar?" Minha mãe dizia para ele ficar quieto e voltar a dormir. Ele resmungava e ficava em silêncio por um tempo, mas depois recomeçava. "Lillian, volte para a cama. Quando ela estiver pronta para se casar com o rapaz, você faz todas essas perguntas." Finalmente mamãe e eu nos dávamos um beijo de boa noite e ela voltava para o quarto para acalmar o papai.

Meu pai, quando jovem, atuara como comediante e sapateador em espetáculos de variedades. Quando esse tipo de teatro acabou, seus sonhos em relação ao mundo das artes acabaram também. Mas, ao longo dos anos, ele nunca perdeu a oportunidade de contar piadas, cantar ou sapatear um pouco.

Era uma pessoa animada e expansiva, que sempre tinha um sorriso ou uma palavra amiga para todos.

Num fim de semana, minha mãe foi visitar uns parentes, e eu tinha um encontro no sábado à noite. Prometi a papai que não chegaria tarde demais e tentei convencê-Io de que não havia necessidade de me esperar acordado. O rapaz conheceu meu pai quando foi me buscar. Os dois se cumprimentaram e nós saímos.

Acontece que voltei mais tarde do que o prometido e, quando caminhava em direção à minha casa, vi meu pai na janela do nosso apartamento no terceiro andar esperando por mim.

Continuei conversando com o rapaz, tentando distraí-Io para que não visse meu pai, porque eu ficaria tremendamente sem graça. Logo que chegamos à porta do apartamento, despedi-me rapidamente e esperei até ouvir a porta do prédio fechar, antes de pegar a chave e entrar em casa Caminhando na ponta dos pés, vi a porta do quarto de meus pais fechada. "Ótimo", pensei, achando que papai fora dormir.

Fiquei aliviada em não ter de lhe dar explicações sobre a hora tardia. Abri a porta do meu quarto, entrei e quase caí no chão.

Lá estava papai sentado na minha cama, com um largo sorriso e usando um dos vestidos de mamãe. O cabelo crespo estava eriçado para cima e as pernas cruzadas. Com uma mão no joelho e outra no quadril, ele começou a falar com voz fina:

- Então, como foi o encontro? O que ele disse e o que você disse? Aonde foram jantar? Foram ao cinema? Vão se ver de novo? Aliás, em que ele trabalha? Ele tratou você bem? Espero que tenha sido um cavalheiro. Você acha que ele tem sérias intenções?

- Papai, calma, uma pergunta de cada vez. Foi apenas nosso terceiro encontro.

- Quero todas as informações que sua mãe tem quando você fala com ela.

Devemos ter conversado e rido por quase uma hora.

Finalmente, eu disse:

- Hora de dormir, de manhã a gente conversa. Quem está cansada agora sou eu.

Papai me deu um abraço, um beijo de boa-noite e me disse:

- Temos de nos lembrar de todos os detalhes para contar à sua mãe quando chegar, para ela não achar que ficou de fora.

 

 

Rir é a melhor forma de se comunicar.

ROBERT FULGHUM

 


 

O VISITANTE DA NOITE

HARTLEY F. DAILEY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 27

 

O vale de Greenbriar estava quase escondido pelas nuvens baixas que provocavam chuvas intermitentes. Eu caminhava com dificuldade pelo terreno cheio de lama, me preparando para os afazeres da tarde em nossa fazenda, quando olhei para a estrada que passava pela nossa casa e serpenteava pelo vale. Um carro estava parado ao lado da pista, um pouco além do pasto.

Naturalmente o carro estava com problemas. De outra forma, um homem bem-vestido não estaria tentando consertá10 sob a chuva. Via-se que ele não era um mecânico, mexendo no motor e tentando desesperadamente dar a partida.

Quando terminei o que tinha de fazer e fechei o celeiro, já era quase noite. O carro ainda estava lá. Peguei, então, uma lanterna e fui até a estrada. O homem ficou meio assustado quando me aproximei, mas se mostrou ansioso pelo meu auxílio. Era um carro pequeno, da mesma marca do meu, embora mais novo. Em minutos identifiquei o problema.

- É a bobina - eu disse.

- Mas não pode ser! - exclamou. - Acabei de instalar uma nova, há cerca de um mês.

Era um rapaz jovem, pouco mais que um menino. Tinha uns dezoito anos, no máximo. Parecia que ia chorar.

- Estou muito longe de casa. Está chovendo. E preciso dar partida no carro. Tenho de dar partida! - disse quase soluçando.

- É, mas a situação é essa - eu disse. - Bobinas são muito sensíveis. Às vezes duram por anos. Outras se acabam numa questão de horas. Posso pegar um cavalo e levar o carro até o celeiro. Daí vamos ver o que dá para fazer por você. Podemos tentar a bobina do meu carro. Se funcionar, conheço uma pessoa aqui perto que pode lhe vender uma.

Eu estava certo. Com a bobina do meu carro, o motor imediatamente pegou, como novo.

- Viu? Era simples - eu disse sorrindo. - Vamos ver Bill David ali adiante. Ele vai lhe vender uma nova bobina e você poderá seguir seu caminho. Espere só um instante enquanto aviso à minha mulher, Jane, aonde vou.

No caminho para a loja de David, achei que o rapaz estava meio estranho. Ele estacionou no escuro, atrás da loja, e não quis sair do carro.

- Estou molhado e com frio - se desculpou. - Aqui está o dinheiro. O senhor se importaria de entrar e comprar a bobina para mim?

Acabáramos de trocar a bobina quando minha filhinha, Linda, veio até o celeiro.

- Mamãe mandou dizer que o jantar está pronto - ela anunciou. E, virando-se para o jovem, acrescentou: - Ela disse para você entrar e jantar também.

- Ah, não posso - ele protestou. - Tenho de ir. Não, não, não dá para ficar.

- Não seja ridículo - eu disse. - Afinal, quanto tempo você vai levar para jantar? Além disso, ninguém vem à casa de Jane na hora da refeição e sai sem comer. Você não gostaria que ela se deitasse na lama na frente do seu carro, gostaria?

Ainda protestando, ele se deixou conduzir até a casa. Mas eu tinha a impressão de que seu protesto não era por educação.

Ele se manteve calado enquanto eu fazia a prece. Mas parecia agitado durante a refeição. Mal tocou a comida, o que foi quase um insulto a Jane, uma exímia cozinheira.

Depois do jantar, ele se levantou rapidamente e anunciou que devia partir. Mas não contava com a reação de Jane. - Olhe aqui - ela disse, me olhando em busca de apoio. Está chovendo muito lá fora. Suas roupas estão completamente molhadas e você vai acabar resfriado. Aposto que também está cansado porque deve ter dirigido muito hoje. Fique conosco esta noite. Amanhã estará aquecido, seco e descansado.

Aprovei com a cabeça, olhando para Jane. Não é aconselhável acolher estranhos dessa maneira. Infelizmente, há muitas pessoas em quem não se pode confiar. Mas eu gostara do rapaz.

Tive a certeza de que não haveria problema.

Relutante, ele concordou em ficar. Jane levou-o até o quarto de visitas e colocou suas roupas para secar perto da lareira. Na manhã seguinte ela as passou antes de servir ao visitante um belo café da manhã. Essa refeição o rapaz comeu com prazer. Parecia que estava mais calmo naquela manhã. Ele nos agradeceu efusivamente quando saiu.

Mas, quando pegou a estrada, aconteceu uma coisa estranha. Na noite anterior, ele estava descendo o vale. Ao partir, tomou a direção oposta, voltando para a capital. Ficamos pensando nisso por um bom tempo, mas concluímos que ele se confundira na estrada.

O tempo passou e nunca mais soubemos notícias do jovem.

Nem esperávamos saber, na verdade. Os dias se transformaram em meses, os meses em anos. A Grande Depressão acabou e veio a Segunda Guerra. Que, a seu tempo, acabou também. Linda cresceu e tinha agora sua própria casa. As coisas na fazenda estavam muito diferentes daqueles primeiros dias de luta. Jane e eu vivíamos de maneira confortável, rodeados pelo aprazível vale Greenbriar.

Há poucos dias recebi uma carta de Chicago. Uma carta pessoal, num papel requintado e caro. "Quem nesse mundo poderá estar me escrevendo de Chicago?", pensei. Abri a carta e li:

 

Caro Sr. McDonald:

 

Não imagino que o senhor se lembre do jovem a quem ajudou, anos atrás, quando o carro dele quebrou.

Faz muito tempo e imagino que o senhor tenha auxiliado a muitos outros. Mas duvido que tenha ajudado alguém do mesmo modo como me ajudou.

Imagine que, naquela noite, eu estava fugindo. Eu tinha no carro uma grande soma de dinheiro que eu roubara de meu patrão. Quero que o senhor saiba que tenho pais cristãos, boas pessoas. Mas esqueci seus ensinamentos e me juntei ao mau rebanho. Eu sabia que tinha cometi um erro terrível.

Mas o senhor e sua mulher foram muito bons para mim. Naquela noite, em sua casa, comecei a ver como estava errado. Antes de amanhecer, tomei uma decisão. No dia seguinte, voltei ao meu emprego e confessei o que fizera. Devolvi todo o dinheiro a meu patrão e lhe implorei perdão.

Ele podia ter me processado e me mandado para a cadeia por muitos anos. Mas, como é um homem bom, ele me devolveu o emprego. Nunca mais me desviei do bom caminho. Agora estou casado, com uma mulher adorável e temos duas lindas crianças. Trabalhei bastante e tenho uma boa posição na empresa. Não sou rico, mas estou numa boa situação.

Eu poderia recompensá-lo generosamente pelo que o senhor fez por mim naquela noite. Mas não acredito que o senhor queira isso. Então resolvi estabelecer um fundo para ajudar outras pessoas que cometeram o mesmo e quero que eu. Desta forma, acredito poder pagar pelo meu erro.

Que Deus o abençoe, senhor, e à sua bondosa esposa, que me ajudou ainda mais do que o senhor sabia.

Entrei em casa e dei a carta a Jane. Enquanto a lia, vi que seus olhos se encheram de lágrimas. Com o semblante sereno, ela colocou a carta de lado.

- "Fui peregrino e me acolhestes..." - ela citou Mateus.

- "Tive fome e me destes de comer... estava preso e viestes ver-me”.

 

 

 

Nenhum ato de bondade, por menor que seja, jamais é em vão.

Esopo

 


 

A FUNCIONÁRIA DO ANO

KEN SWARNER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 33

 

Estou gostando muito mais do meu trabalho agora que Larry Johnson arrumou suas coisas e saiu do nosso departamento. Não quero parecer insensível, mas não dá para aguentar uma pessoa que tenha tanto tempo livre e que seja tão tranquila puxando você ou os outros colegas para baixo.

Por muitos anos, meus colegas e eu trabalhamos muito bem, todos planejando nos manter no mesmo emprego até a aposentadoria.

Então, no último dezembro, Larry chegou. Dei uma olhada nele e convoquei uma reunião de emergência na sala do café.

- Não quero apavorar ninguém - eu disse. - Mas há alguma coisa esquisita com esse recém-chegado.

A equipe pareceu preocupada.

- Alguém reparou em suas roupas? Elas são passadas.

Uma onda de medo se espalhou pelos rostos.

- A pele de seu rosto é clara. O cabelo é penteado. Os sapatos engraxados.

As pessoas começaram a chorar.

- Você está querendo dizer... - balbuciou Steve, da contabilidade.

- É - interrompi. - Acho que ele não tem filhos.

Todo mundo gritou.

Mandamos um esquadrão de reconhecimento à mesa de Larry para confirmar minhas suspeitas.

- Com certeza, mas é pior do que você pensou. Ele nem sequer é casado - o líder do esquadrão contou ao retomar.

Os problemas começaram imediatamente. Enquanto estávamos fazendo o que sempre tínhamos feito - levar crianças a consultas médicas, voltar correndo em casa por uma lancheira esquecida e angariar fundos para os escoteiros no elevador -, Larry estava chegando cedo, almoçando na própria mesa de trabalho e trabalhando até tarde.

Então aconteceu o inevitável. O chefe notou.

- Alguém já notou como Larry está trabalhando? - ele rosnou.

Como explicar que tínhamos responsabilidades em relação a nossas crianças? Ele jamais compreenderia.

- Talvez Larry seja um bom candidato para o novo posto como assistente da diretoria - sugeri ao chefe. - Ia ficar bem para o senhor recomendá-lo.

E foi assim que nos livramos de Larry "Sem Filhos" Johnson.

No dia seguinte, a funcionária que veio substituir Larry

chegou com uma marquinha de leite atrás de cada orelha e com um colar feito de macarrão seco corno único enfeite. Fui o primeiro a cumprimentá-Ia.

- Você pretende trabalhar além do horário? - perguntei nervoso.

Ela estremeceu.

- Está vendo esses círculos escuros à volta dos meus olhos?

Estou acordada desde a madrugada trocando fraldas sujas e, quando sair daqui, vou ter de levar dez brownies com formato de carinha do outro lado da cidade para a festa em que meus filhos vão receber os distintivos de escoteiros. Quem tem tempo de trabalhar?

Ela tem meu voto para ser a Funcionária do Ano.

 


 

O ESTRANHO QUE SE TORNOU MEU PAI

SUSAN J. GORDON

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 36

 

Numa tarde de sábado, minha mãe insistiu para que eu pusesse minha melhor roupa porque queria me apresentar ao seu novo namorado. Ele estava agora lá fora, esperando no carro.

Ela já tivera outros namorados antes. Por que eu tinha de parar o que estava fazendo e trocar de roupa por causa dele? Por quê?

Porque, como soube depois, ele a pedira em casamento na noite anterior. Ele já conhecia meu irmão e agora queria me conhecer.

- Oi, senhor Cohan - eu disse, louca para voltar para casa e continuar a jogar.

- Oi, Susan - respondeu o homem de meia-idade e cabelos crespos. Sua voz era suave, quase tímida, quando estendeu a mão e me cumprimentou.

Depois que ele e minha mãe se casaram, eu não sabia como chamá-lo. Por um bom tempo não o chamei de nada. "Leo" não parecia certo. Ele me chamava de Susan, ou Sue, como minha mãe e meu irmão. Ele não tinha de me chamar de "filha”. Eu tinha de chamá-lo de "pai"? Quem era aquele homem para mim? Parecia ser bondoso e delicado e até gostava da minha companhia. Mas um pai? Chamá-Io de pai o tornaria um pai? Entrando para uma família que já tinha uma mãe, um garoto adolescente e uma menina de doze anos, Leo sabia que não seria automaticamente tratado como pai. Éramos um grupo há muito estabelecido. Ele era a peça nova a ser encaixada. Não que tivesse de competir com qualquer amor que sentíssemos por nosso pai "verdadeiro", um homem frio e egoísta, que nunca fora bondoso nos anos em que tivemos contato. Leo tinha de competir com uma fantasia, nossas altas e irreais expectativas do que deveria ser um pai perfeito: amoroso, disponível, generoso, inteligente, bonito e sempre pronto a nos dar apoio. E, como todo pai perfeito, alguém que considerasse os filhos perfeitos também.

Ele provavelmente tinha suas próprias fantasias. Órfão desde criança, Leo tinha sido criado por irmãos e irmãs mais velhos que, embora o amassem, jamais puseram os interesses dele em primeiro lugar, como um pai ou mãe devotados fariam.

Agora, aos cinquenta anos, ele se casara com uma mulher com dois filhos, aceitando todas as responsabilidades e obrigações financeiras que isso acarretava.

No primeiro ano em que nós quatro vivemos juntos, Leo passou um bom tempo consertando coisas em nossa casa. Era sua maneira de fincar raízes, de estabelecer uma base sólida para nossa nova família. Ele envernizou o painel de madeira do escritório, colocou papel de parede nos quartos e construiu armários de cedro no porão.

Mas, enquanto nos tornávamos uma família, eu estava virando a típica adolescente: egoísta, desafiadora e rebelde. Minha mãe e eu, que sempre fôramos próximas, agora parecíamos discutir o tempo todo.

- Por que você não pode se comportar? - ela me perguntava, zangada.

- Você não me deixa fazer nada do jeito que eu quero! - eu contestava, saindo do quarto como um tufão.

Precisava falar com alguém e encontrei Leo no porão.

Devagar, metodicamente, ele estava aplainando uma peça de madeira. Enquanto a lixava com cuidado, me deixou falar e me ofereceu um pedaço de lixa para ajudá-lo a aparar as arestas.

- Ela é impossível! - disse. - Grita comigo por qualquer coisinha. Tudo que faço tem de ser perfeito para ela aprovar.

Leo balançava a cabeça enquanto eu falava, continuando seu trabalho. Gostaria que ficasse a meu favor, mas ele sabia que estava numa situação delicada.

- Sua mãe quer apenas o melhor para você - disse suavemente.

- Isso não deve ser tão difícil para uma garota tão excepcional.

Leo e eu passamos um bocado de tempo juntos no porão naquele primeiro inverno. Ele me ensinou a trabalhar com ferramentas de modo que eu também pudesse construir, pintar e consertar coisas. Trabalhar ali com ele foi uma boa maneira de extravasar minhas frustrações adolescentes. O porão, aonde minha mãe raramente ia, tornou-se um "porto seguro" para mim.

Meu padrasto estava lá para me ajudar sempre que eu precisava. Não resolvia meus problemas, mas me encorajava a organizar as coisas dentro da minha cabeça. Eu precisava de alguém que me ouvisse e ele fazia exatamente isso.

- Sabe, você e sua mãe têm muito em comum. As duas são cheias de energia, corajosas e têm opiniões fortes. É por isso que às vezes uma irrita a outra. Mas é isso também o que eu gosto em vocês - nas duas.

Ele muitas vezes trazia surpresas para casa: um quadro para a parede do meu quarto, uma revista de esporte para meu irmão. No jantar, ouvia nossas histórias sobre o time da escola e nossas piadas bobas. Ele nos tratava como se fôssemos as crianças mais inteligentes do mundo.

- Que tal essa? - começava, e sabíamos o que vinha a seguir:

uma nova charada que ele ouvira no trabalho ou lera no jornal.

Ele ria depois de termos acertado a resposta.

- Sabia que não ia conseguir pegar vocês! - sorria, orgulhoso.

No primeiro mês de agosto que passamos juntos fui de bicicleta fazer compras na cidade, levando todo o dinheiro que recebera no mês anterior fazendo pequenos serviços para os vizinhos. Entrei numa loja de artigos masculinos e um cheiro de loção após barba me intoxicou. Aos treze anos, viera comprar meu primeiro presente de Dia dos Pais.

Escolhi uma gravata de seda azul, enfeitada com fileiras de peixinhos, e a levei para casa. No domingo de manhã, quando a dei a Leo, ele a colocou imediatamente.

- Muito obrigado, gostei muito - ele agradeceu, beijando meu rosto.

- De nada - respondi. - Feliz Dia dos Pais, papai. - Falei aquilo da maneira mais natural possível, mas vi que ele sorriu.

Tinha me ouvido.

Aos poucos, com o passar do tempo, nossa nova família criou suas próprias raízes e tradições. Leo nos viu entrar na universidade, casar e constituir nossas próprias famílias. Até morrer, aos setenta e nove anos, ele dividiu muito de seu tempo e de seu amor com nossos filhos - seus netos. Levou-os para passear em seus carrinhos, leu para eles e os ninou. Mais tarde, ensinou-os a pescar e a trabalhar com ferramentas, como fizera comigo.

Leo escolheu minha mãe - e a mim e a meu irmão também.

Éramos família e amigos por escolha. Sua amizade e seu amor foram presentes dos quais jamais me esquecerei.

 

 

Aquele que cria, não o que gera, é o pai. ÊXODO

 


 

PESCAR E SOLTAR

DEE BERRY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 41

 

Uma antiga mágoa estava enterrada entre pai e filho, regada pelo silêncio, adubada pelo tempo. Ela cresceu forte, como tais mágoas crescem quando são negligenciadas pelo perdão.

Sarah observou isso acontecer entre o marido e o sogro.

Estava lá quando a mágoa foi plantada e sempre procurou uma forma de dar um fim àquela história. O único bálsamo que encontrara até então fora Joshua, seu filho. Os dois homens adoravam o menino, como se os sentimentos que costumavam ter um pelo outro precisassem de um escoadouro, um beneficiário, um herdeiro.

Joshua amava o avô Bill e suas histórias de como crescera na floresta. Por duas semanas, a cada verão, Sarah levava o menino à casa do avô, no lago. Ali no cais, vovô Bill e Joshua se sentavam para pescar, desde que o sol nascia até que Sarah os chamasse para jantar. Mas ela nunca deixava o menino sair no barco - era muito pequeno, dizia.

Num verão, depois de avô e neto muito insistirem, Sarah finalmente deixou Joshua sair no barco. Mas impôs como condição que o garoto esperasse até o fim do mês, quando faria sete anos.

Ted jamais acompanhava a mulher e o filho nas visitas a seu pai. Mas Sarah insistia que o garoto tinha de conhecer o avô, pois ela sempre lamentou não ter conhecido seus avós.

Como presente de aniversário, Ted deu ao filho sua primeira vara de pescar. Era apenas um caniço leve com um molinete à prova de acidentes, mas Joshua mal podia esperar a visita ao lago do avô.

Antes de lavar a louça no dia do aniversário, Sarah ligara para o sogro, combinando a saída de Joshua de barco. Quando Ted descobriu, ficou furioso!

- É a primeira vez que o garoto vai sair para pescar de barco, Sarah, e eu queria levá-lo.

- Então vá com eles - Sarah disse, enxugando a última travessa.

- Você sabe que isso não é possível - Ted respondeu secamente.

Sarah jogou o pano de prato no chão, virou-se para o marido com um olhar furioso e disse:

- Não sei de nada disso, Ted Wilkins! Tudo que sei é que Joshua quer ir pescar com o avô e com o pai. Que tipo de homem você é para deixar uma discussão antiga impedi-lo de fazer seu filho feliz?

A indignação de Ted se quebrou ante a lógica de Sarah. Ela apresentara um argumento que atingiu seu coração.

- Bem, mas ele não vai me deixar entrar na propriedade, muito menos no barco - Ted disse em voz baixa, vindo-se para o outro lado.

- Vai sim, depois que eu falar com ele! - Sarah disse, indo em direção ao telefone.

Foi uma conversa longa, mas que deu frutos. Vovô Bill, embora relutante, concordou que Ted se juntasse a eles. Depois de tantos anos, os dois se cumprimentaram friamente. Mas um olhar para o rosto de Joshua bastou para colocar os dois homens em seus lugares. O menino estava radiante.

Este fora seu desejo secreto de aniversário!

Encheram o barco com equipamento de pesca suficiente para afundar o Titanic, pois cada homem levou sua caixa de apetrechos cheia de segredos. Sarah, por precaução, colocou em Joshua um salva-vidas laranja, que quase cobriu seu nariz quando se sentou no amplo barco de alumínio.

Quando Sarah soltou a bolina e empurrou o barco para longe do cais, Ted e vovô Bill gritaram:

- Você não vem junto?

- Não, pescar é coisa de homem - ela respondeu, acenando. - Divirtam-se!

Teimosamente, Ted se sentou na proa de frente para o lado direito, com Joshua no largo assento do meio, perto das varas de pescar. Vovô Bill ficou na popa, olhando para todos os lados, menos para a proa.

Os homens se revezavam mostrando a Joshua como pescar truta e como usar a isca artificial para pegar outros tipos de peixe. Mas nem por uma vez um falou com o outro, só falavam com Joshua.

Passaram pelas pedras da margem, pelas piscinas cheias de sombras, os bancos de areia cobertos pela água, até mesmo pela escarpada pedreira de granito. Mas, depois de um dia inteiro no barco, estavam exaustos, sem terem pescado um só peixe. Finalmente tentaram fazer as minhocas flutuarem perto do banco de areia entulhado de junco.

- Isso não está sendo do jeito que eu pensei - Joshua disse, fazendo tromba, enquanto o barco balançava com os homens em silêncio. a menino percebia uma certa tensão entre o pai e o avô, mas não compreendia bem do que se tratava.

- É, Joshua, alguns dias são assim - Ted explicou.

Bem nesse instante a linha de Joshua disparou - e num minuto os dois homens começaram a falar com ele.

- Mantenha o caniço para cima! - vovô gritou, agitadíssimo.

- Enrole a linha, filho, enrole a linha! - Ted disse, com o mesmo entusiasmo. - Veja o freio.

Joshua não tinha ideia do que estava acontecendo. Ele nunca, na verdade, pescara qualquer coisa grande o suficiente para puxar tanta linha.

- Papai, vá lá e ajude com o freio, ele não sabe como fazer - Ted rapidamente acrescentou.

O peixe fez uma pausa na sua batalha pela vida e vovô Bill foi ajudar o neto, que estava completamente atrapalhado. Com habilidade, vovô Bill prendeu a linha entre o indicador e o polegar; mas um puxão avisou que o peixe resistia, a linha estava muito esticada.

A truta não estava cansada; na verdade, tinha outras ideias.

Com raiva, subiu à superfície, pulando no ar quente de verão a mais de dez metros do barco. a peixe fez um movimento rápido, parecia um arco-íris prata e verde, a água pingando de seu corpo vigoroso. Veio então o barulho que os dois homens sabiam significar desastre: o ruído seco da linha se partindo por causa da tensão.

Vovô Bill ainda tentou segurar a linha entre os dedos, mas não aguentou por muito tempo.

- Suspenda a linha na vertical, Ted - ele gritou.

Ted mergulhou para apanhar a linha que se enrolou nas guias da vara. Joshua caiu no fundo do barco e, de repente, a tensão na vara cessou. Vovô Bill segurou a linha e começou a puxá-Ia, enrolando-a na mão. Puxou o quanto pôde, mas viu as mãos se enrolarem em nós. Foi quando Ted veio ajudar e ficou preso também. Bill conseguiu se soltar e tentou novamente. A linha esticada cortava as palmas das mãos e os dedos, mas nenhum dos dois reclamava, pois, afinal, era o primeiro peixe de Joshua.

- Estou vendo o peixe! Pegue a rede, Joshua, pegue a rede gritou Ted.

O garoto foi até o lado inclinado do barco e tentou pegar a truta com a rede colorida, verde forte. Mas o peixe ainda não estava vencido. Com um golpe vigoroso da cauda, ele pulou a quase um metro de altura. Pensando rápido, Joshua ficou em pé no assento e rodopiou a rede atrás de si, conseguindo pegar o peixe no ar, como se fosse uma borboleta!

Juntos, Ted e Billy se agarraram ao colete salva-vidas de Joshua, puxando a tempo o menino para dentro do barco. Os dois homens e o menino riam histericamente enquanto a truta de uns dois quilos e meio se debatia no fundo do barco. Joshua conseguira apanhar seu primeiro peixe. Na volta para casa, os três reviveram suas proezas naquele triunfo como velhos amigos.

Sarah ficou completamente surpresa ao se aproximar do cais e ver o marido e o sogro disputando quem contaria a história.

O jeito distante e frio desaparecera de suas vozes, um interrompendo o outro para parabenizar por um ato ousado na aventura. Joshua, o peito cheio de orgulho, segurava a rede com um único peixe, que valia um troféu.

Sarah tirou uma fotografia dos três abraçados, com Joshua e o peixe no meio. Estavam rindo como se tivessem apanhado o maior peixe do mundo.

- Ei, papai, vamos ensinar a Joshua como limpar o peixe Ted disse, enquanto se encaminhavam para o cais.

Vendo-os, Sarah sorriu para si mesma. Bastou um garoto e um peixe para que voltassem a ser uma família.

 

 

 

Todo filho, em algum momento, desafia o pai, briga, se afasta, apenas para voltar - se tiver sorte ainda mais próximo e protegido do que antes.

LEONARD BERNSTEIN

 


 

A MELHOR ÉPOCA DA VIDA

JOE KEMP

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 47

 

Era quinze de junho e em dois dias eu faria trinta anos. Estava inseguro com a rapidez com que o tempo tinha passado e temia que os melhores anos tivessem ficado para trás.

Minha rotina diária incluía uma sessão de ginástica antes do trabalho. Todas as manhãs encontrava com meu amigo Nicholas na academia. Ele tinha setenta e nove anos e estava em plena forma. Quando o cumprimentei naquele dia, ele percebeu que eu não estava animado como sempre e perguntou se havia alguma coisa errada. Disse-lhe que estava ansioso por estar fazendo trinta anos. Fiquei imaginando como olharia para trás quando chegasse à idade de Nicholas, então lhe perguntei:

- Qual foi a melhor época da sua vida?

Sem hesitar, Nicholas respondeu:

- Bem, Joe, esta é minha resposta filosófica à sua pergunta filosófica: quando era criança na Áustria e meus pais cuidavam de mim, sem que eu precisasse me preocupar com nada, aquela foi a melhor época da minha vida. Quando fui para a escola e aprendi as coisas que sei hoje, aquela foi a melhor época da minha vida. Quando arrumei meu primeiro emprego, passei a ter responsabilidades e a ser pago por meu esforço, aquela foi a melhor época da minha vida. Quando conheci minha mulher e me apaixonei, aquela foi a melhor época da minha vida. Veio a Segunda Guerra e minha mulher e eu tivemos de sair da Áustria para salvar nossas vidas. Quando estávamos juntos e a salvo num navio, vindo para a América do Norte, aquela foi a melhor época da minha vida. Quando viemos para o Canadá e formamos uma família, aquela foi a melhor época da minha vida.

Quando me tornei um jovem pai e pude ver meus filhos crescerem, aquela foi a melhor época da minha vida. E agora, Joe, tenho setenta e nove anos e estou com saúde. Me sinto bem e continuo apaixonado por minha mulher, exatamente como quando a conheci. Esta é a melhor época da minha vida.

A GAROTINHA DO PAPAI

MICHELE CAMPBELL

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 49

 

- Você conta para o papai, em vez de eu contar?

Essa era a pior parte. Com dezessete anos, dizer à minha mãe que estava grávida já era difícil, mas dizer a meu pai era impossível. Papai sempre fora uma fonte constante de coragem em minha vida. Sempre me olhara com orgulho e eu sempre tentara levar a vida de modo a deixá-Io orgulhoso. Até isso acontecer. Agora estava tudo perdido. Eu não ia mais ser a garotinha do papai. Ele nunca mais me olharia da mesma maneira. Dei um suspiro derrotada e me inclinei em direção à mamãe, para ela me consolar.

- Vou ter de deixar você em algum lugar na hora de contar a seu pai. Sabe por quê?

- Sei, mamãe. Porque ele não vai conseguir olhar para mim.

Fui passar a noite com o pastor de nossa igreja, irmão Lu, a única pessoa com quem me sentia bem naquela época. Ele me deu conselhos e me confortou enquanto mamãe foi para casa e telefonou para meu pai no trabalho, para lhe dar a notícia.

Era tudo tão irreal. Naquela época, estar com alguém que não me julgasse era uma coisa boa. Rezamos, conversamos e comecei a aceitar e a entender o caminho à minha frente.

Então, vi os faróis do carro refletidos na janela.

Mamãe viera me buscar para voltar para casa e eu sabia que papai deveria estar junto. Eu tinha tanto medo. Corri da sala para o banheiro, trancando a porta. Irmão Lu me seguiu e me repreendeu.

- Menina, você não pode fazer isso. Terá de enfrentá-Io mais cedo ou mais tarde. Ele não vai voltar para casa sem você. Venha cá.

- Tudo bem, mas o senhor fica comigo. Estou com medo.

- Claro, menina, claro.

Abri a porta e, devagar, segui irmão Lu até a sala. Papai e mamãe ainda não tinham entrado. Imaginei que estivessem no carro, mamãe preparando papai para o que fosse fazer ou falar quando me visse. Minha mãe sabia o quanto eu estava apavorada. Mas eu não estava com medo de que meu pai fosse gritar ou ficar zangado. Não estava com medo dele. Era a tristeza de seus olhos que me amedrontava. Tristeza por saber que eu estava com problemas e sofrendo e que não recorrera a ele para me ajudar e apoiar. A compreensão de que eu não era mais a sua menininha.

Ouvi passos na calçada e a batida suave na porta de madeira. Meu lábio começou a tremer e me debulhei de novo em lágrimas, me escondendo atrás do pastor. Mamãe entrou primeiro e o abraçou, então me olhou com um sorriso sem graça. Seus olhos estavam inchados de chorar, e eu fiquei agradecida por ela não ter chorado na minha frente. Então vi meu pai. Ele sequer estendeu a mão a Luther, apenas cumprimentou-o com a cabeça ao entrar. Veio em minha direção e me envolveu em seus braços fortes, me segurando bem perto dele enquanto murmurava:

- Amo você. Amo você e vou amar seu bebê também.

Ele não chorou. Não o meu pai. Mas senti seu corpo tremendo. Sabia que ele fizera todo o esforço possível para não chorar e eu estava orgulhosa dele por isso. E agradecida. Quando se afastou e me olhou, havia amor e orgulho em seus olhos. Mesmo naquele momento difícil.

- Desculpe, papai. Gosto tanto de você.

- Eu sei. Vamos para casa. - E fomos.

Todo o meu medo tinha ido embora. Ainda haveria dor e provações que eu sequer podia imaginar. Mas eu tinha uma família forte e amorosa, com a qual sempre poderia contar.

Principalmente, eu era ainda a menininha do papai e, sabendo disso, não haveria montanha que não pudesse escalar ou tempestade que não pudesse aguentar.

Obrigada, papai.


 

AO DEITAR-ME EM MEU LEITO

DIANA DWAN POOLE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 52

 

Quando garota, queria ser médica, mas não tinha dinheiro suficiente para pagar a faculdade de Medicina. Assim, fui fazer Enfermagem. Em 1966, no último ano, uma pessoa encarregada de recrutar profissionais para o Exército foi fazer uma palestra na escola. Tudo parecia tão emocionante: eu teria a chance de trabalhar, seria bem paga e, o mais importante de tudo, não teria de ir para o Vietnã se não quisesse - e eu não queria.

Eu me alistei. Depois de um treinamento básico, fui designada para o Hospital Letterman, em Presidio, São Francisco.

Durante os dois anos em que trabalhei lá fui chamada para ir ao Vietnã três vezes. Nas duas primeiras me recusei, mas na terceira achei que estava preparada para aquela experiência.

Pousamos na Base Aérea de Tan Son Nhut e, quando a porta do avião se abriu, quase caí para trás tal o calor e o mau cheiro. De repente, percebi que, aos vinte e três anos, não conhecia muita coisa da vida. Fiquei com medo, mas não havia como desistir.

Depois de uma entrevista, fui designada para o Septuagésimo Sétimo Hospital Evac, em Qui Nhon. Quando o helicóptero pousou na pista do hospital, puseram minhas coisas no chão. Desci, segurando a saia. Os soldados no helicóptero gritaram: "Boa sorte, capitão", enquanto decolavam.

Eu estava com meu uniforme classe A, o que significava que estava também de meias de náilon e salto alto. Nada menos adequado para o ambiente. Quilômetros de arame farpado, a parte de cima em espiral, rodeavam o complexo do hospital e o campo de pouso ao lado. Empinei os ombros e entrei no soturno prédio de concreto à minha frente. Disseram-me para dormir um pouco, pois começaria no dia seguinte. Foi bom dormir e, pela manhã, vesti uniforme e botas do Exército, exatamente como os soldados. Era a roupa que usaria no hospital.

Como eu era capitão, fui designada enfermeira-chefe na ala da ortopedia, que basicamente abrigava soldados com amputações traumáticas. Levei meu papel a sério e tinha reputação de rígida.

Ter sido enfermeira nos Estados Unidos por dois anos não me preparou adequadamente para o Vietnã. Testemunhei um enorme sofrimento e vi muitos homens morrerem. Uma de minhas regras era que às enfermeiras não era permitido chorar.

Os homens feridos e à beira da morte que estavam sob nossos cuidados precisavam de nossa força, eu lhes dizia. Não podíamos nos dar ao luxo de dar vazão aos nossos sentimentos.

Por outro lado, eu era sempre direta com os soldados.

Nunca dizia: ''Ah, você vai ficar bom", se isso não fosse verdade.

Eu não mentia.

Mas me lembro de um garoto a quem eu não queria contar a situação real. O soldado, muito ferido, não podia ter mais de dezoito anos. Vi imediatamente que não havia mais nada a fazer para salvá-lo. Ele jamais gritou ou se queixou, mesmo quando estava sentindo muita dor.

Um dia ele me perguntou:

- Eu vou morrer?

- Você acha que vai? - eu respondi.

Ele disse:

- Acho que sim.

- Você sabe rezar? - perguntei.

- Eu sei ''Ao Deitar-me em Meu Leito".

- Ótimo.

Quando me pediu para segurar sua mão, alguma coisa estalou em mim. O garoto merecia mais do que uma mão que apertasse a sua.

- Vou fazer melhor do que isso - eu lhe disse.

Sabia que podia ser criticada pelas enfermeiras, pelos soldados e pelos pacientes, mas não me importei. Não havia ninguém olhando e me deitei na cama com o soldado. Pus meus braços à sua volta, tocando seu rosto e seu cabelo enquanto ele se aninhava no meu colo. Beijei seu rosto e juntos recitamos:

 

“Ao deitar-me em meu leito, peço ao Senhor que guarde a minha alma.

Se eu morrer antes de acordar, peço a Deus que cuide da minha alma. "

 

Então ele me olhou e disse apenas mais uma frase: ''Amo você, mamãe, amo você", antes de morrer nos meus braços, calma e tranquilamente, como se estivesse mesmo indo dormir.

Depois de um minuto, saí furtivamente da cama e olhei à volta. Tenho certeza de que meu rosto estava com a fisionomia fechada, pronta para enfrentar qualquer um que me recriminasse. Mas eu não precisava ter me preocupado. Todas as enfermeiras e os outros soldados que ali serviam tinham quebrado a minha regra e estavam chorando, silenciosamente, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

Pensei na mãe do soldado morto. Ela receberia um telegrama informando-a de que o filho morrera de "ferimentos de guerra”. Só isso estaria no telegrama. Imaginei que ela ficaria para sempre querendo saber o que acontecera. Será que ele morrera no campo de batalha? Havia alguém com ele? Será que sofreu? Se eu fosse sua mãe, ia precisar saber.

Assim, mais tarde, eu me sentei e lhe escrevi uma carta.

Achei que ela gostaria de saber que, nos últimos momentos, o filho pensara nela. Mas, principalmente, queria que soubesse que o filho não morrera sozinho.

 

Todos aqueles soldados pertencem a alguém.

Eles têm pai, mãe, mulheres, filhos...

Têm alguém que os ama.

LIZ ALLEN, enfermeira no Vietnã


 

SE VOCÊ ME AMA ME DIGA

MITCH ANTHONY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 56

 

Jerry não se esquece daquele dia de inverno em que nevava e seu filho mais velho quase sofreu um acidente sério. Jeff mal tinha um ano de carteira e isso deixava Jerry nervoso toda vez que o rapaz saía de carro. A proximidade com o desastre aumentou sua ansiedade.

Um dia, logo depois do quase-acidente, Jeff disse ao pai que ia a uma festa e voltaria tarde.

- Dirija com cuidado! - Jerry advertiu.

Jeff virou-se para o pai com um olhar de tristeza e perguntou:

- Por que você sempre diz isso?

- Digo o quê?

- "Dirija com cuidado." É como se você não confiasse em mim dirigindo.

- Não, filho, não é nada disso - Jerry explicou. - É só uma maneira de dizer "Eu te amo".

- Olhe, papai, se você quer dizer que me ama, diga isso! Se não, posso confundir a mensagem.

- Mas... - Jerry hesitou. - E se seus amigos estiverem com você? Se eu disser "Eu te amo", você pode ficar sem graça.

- Nesse caso, papai, quando estiver se despedindo, basta colocar sua mão perto do coração e eu vou fazer a mesma coisa - Jeff sugeriu.

Jerry entendeu que seu filho, tanto quanto ele, queria expressar seu amor.

- Estamos combinados - ele disse.

Alguns dias depois, Jeff estava pronto para sair de novo, dessa vez com um amigo.

- Papai, pode me emprestar o carro? - ele pediu.

- Claro - Jerry respondeu. - Aonde você vai?

- Ao centro da cidade.

Jerry lhe deu as chaves.

- Jeff, divirta-se - disse o pai, colocando discretamente a mão perto do coração.

Jeff fez a mesma coisa.

- Claro, papai.

Jerry piscou. E Jeff, chegando perto do pai, falou baixinho:

- Piscar não faz parte do nosso trato.

Jerry ficou meio surpreso.

- Tudo bem, papai, até mais tarde - Jeff disse enquanto se dirigia à porta.

Antes de sair, ele se virou - e piscou.

 

 

Expressar afeto é o melhor dos métodos quando se quer acender

a paixão no coração de alguém e senti-la no seu próprio.

RUTH STAFFORD PEALE


 

É PRECISO SER UM HOMEM ESPECIAL

PARA SER UM BOM PADRASTO

BETH MULLALLY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 58

 

Chegando o Dia dos Pais, me passou pela cabeça que, neste país, falta comemorar uma data, o Dia do Padrasto. Se há quem mereça um dia especial são as almas valentes que têm de se encaixar em famílias já prontas com o cuidado e o esmero de um neurocirurgião.

É por isso que temos o Dia do Pai Bob em nossa família. É a nossa versão do Dia do Padrasto, em homenagem a Bob, o padrasto de meus filhos. Eis por que nós celebramos esse dia.

Pai Bob acabou de se mudar.

- Se você fizer alguma coisa que magoe minha mãe, fique sabendo que mando você para o hospital - diz o rapaz que está na faculdade e que é muito maior do que o padrasto.

- Não vou esquecer - diz Pai Bob.

- Você não vai querer agora me dizer o que eu tenho de fazer - diz o garoto que está no primeiro grau. - Você não é meu Pai.

- Não vou esquecer - diz Pai Bob.

O rapaz que está na faculdade telefona. O carro quebrou a setenta quilômetros de casa.

- Já estou chegando - diz Pai Bob.

O vice-diretor da escola está no telefone. O garoto que está no primeiro grau se envolveu numa briga.

- Já estou chegando - diz Pai Bob.

- Preciso de uma gravata para usar com essa camisa - diz o rapaz que está na faculdade.

- Escolha uma no meu armário - diz Pai Bob.

- Você devia pôr um brinco na orelha - diz o garoto que está no primeiro grau.

- Você precisa parar de arrotar à mesa - diz Pai Bob.

- Vou tentar - diz o garoto.

- Não vou esquecer - diz Pai Bob.

- O que você achou da garota com quem eu saí ontem? pergunta o rapaz.

- É importante para você saber? - pergunta Pai Bob.

- É - diz o rapaz.

- Preciso falar com você - diz o garoto.

- Preciso falar com você - diz Pai Bob.

- Acho que devíamos fazer uma coisa para selar a relação entre padrasto e enteado - diz o rapaz.

- Fazendo o quê? - pergunta Pai Bob.

- Trocando o óleo do meu carro - diz o rapaz.

- Acho que devíamos fazer uma coisa para selar a relação entre padrasto e enteado - diz o garoto.

- Fazendo o quê? - pergunta Pai Bob.

- Me dando uma carona até o cinema - diz o garoto.

- Eu sabia - diz Pai Bob.

- Se beber, não dirija. Me telefone - diz Pai Bob ao rapaz.

- Obrigado. Se beber, não dirija. Me telefone - diz o rapaz.

- Obrigado - diz Pai Bob.

- A que horas tenho de chegar em casa? - pergunta o garoto.

- Às onze e meia - diz Pai Bob.

- Tudo bem - diz o garoto.

- Nunca pense em fazer nada que possa magoá-Io - o rapaz me diz. - Precisamos dele.

- Não vou esquecer - eu digo.

E por isso temos o Dia do Pai Bob. Os meninos compram para o padrasto um brinquedo novo com o qual todos possam se divertir juntos. Pai Bob faz um churrasco. E eu fico feliz pela sorte de Pai Bob ter entrado nessa família de forma tão encantadora que agora parece que ele sempre esteve ali.


 

TIO BUN

JAN NATIONS

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 61

 

Tio Bun era uma pessoa fascinante. Não nos visitava com frequência, mas ao ir a nossa casa quando eu era criança, nos anos quarenta e cinquenta, tudo ficava diferente durante o tempo que passava conosco. Éramos oito filhos e a maior parte de nossa diversão vinha de fazer tortas de lama, brincar com vaga-lumes e com outros insetos que surgiam no verão, além de construir casas de boneca no antigo galinheiro.

Para nós, tio Bun era um viajante que rodava o mundo.

Quando vinha nos visitar, contava histórias sobre os lugares em que estivera e as pessoas que conhecera. Fazia todos nós vermos a vida sob uma nova perspectiva. Normalmente trazia um presente maravilhoso para cada um e, às vezes, íamos até a pequena loja no centro da cidade e ele nos comprava um saco inteiro de balas de um centavo. O saco parecia enorme quando eu era uma garotinha.

Nunca sabíamos quando teríamos notícia de tio Bun. Eu atribuía isso ao fato de sua "carreira” - qualquer que ela fosse mantê-lo por demais ocupado para fazer planos. Às vezes, ao invés de nos visitar, enviava uma enorme caixa cheia de surpresas especiais, coisas que nunca tínhamos visto antes. Não existia maior felicidade do que abrir aqueles baús de amor feitos de papelão marrom.

Lembro que ficava imaginando como tio Bun deveria ser rico para poder nos comprar tantas coisas lindas. Não podia deixar de comparar aquele tio animado e generoso com meu próprio pai:

um homem simples, com uma vida simples, trabalhando nas minas de chumbo e fazendo pequenos consertos quando podia para manter um lar para sua mulher e filhos. Eu adorava papai e sabia que era um bom homem. Mas sua vida era sem nenhum glamour se comparada com a de seu irmão jovial, que tinha um brilho nos olhos, um largo sorriso e histórias fascinantes. Tio Bun sempre nos ligava um dia ou dois antes de chegar e, logo que papai desligava o telefone e nos contava que ele viria, ficávamos super agitados. Adorávamos tio Bun e esperávamos ansiosamente por aquela bem-vinda quebra de nossa rotina.

O que eu não sabia quando criança é que, quando tio Bun telefonava, papai ia até a cidade e mandava uma ordem de pagamento ao irmão com as economias que guardava. Cada centavo que tio Bun gastava conosco saía do bolso de papai.

Ao longo dos anos, as peças começaram a se encaixar: as muitas viagens de tio Bun eram feitas de trem, sem passagem, na traseira de vagões de carga. Suas histórias eram de pessoas que viajavam com ele, histórias que ele exagerava um pouco.

Nunca soube por que tio Bun escolheu viver como vivia ou por que meu pai manteve seu segredo durante todos aqueles anos.

O que sei é que, numa situação em que seria fácil ficar com o crédito, papai manteve um comportamento nada egoísta. Através de tio Bun, papai nos deu presentes de lugares onde nunca esteve.

E, através de nós, tio Bun participou da vida em família e recebeu o amor que não tinha na sua vida solitária. Com meu pai, que jamais disse uma palavra a respeito, aprendi tudo sobre o amor generoso e incondicional.


 

ANTES O PAI, AGORA O FILHO

W.W. MEADE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 64

 

Numa noite de inverno, eu estava lendo e meu filho, Luke, se aproximou timidamente em silêncio. Ficou fora da meia-lua de luz que vinha de um abajur de bronze de que eu gostava muito. Antigamente ficava na mesa do consultório médico de meu pai.

Naquela época, Luke gostava de me trazer seus problemas mais sérios quando eu estava lendo. No ano anterior fazia isso sempre que eu estava trabalhando no jardim. Talvez ele se sentisse mais à vontade em relação a suas dificuldades quando eu estava fazendo aquilo que ele estava se preparando para fazer.

Quando começou a se interessar em ver as coisas crescerem, aprendeu a plantar sementes e a deixá-Ias na terra ao invés de desenterrá-Ias na manhã seguinte para ver se tinham crescido.

Agora estava começando a ler sozinho - embora ele não fosse admitir para mim.

Levantei os olhos do jornal e ele me deu um sorriso largo.

Mas, de repente, sua expressão tornou-se séria:

- Quebrei minha serra - disse, mostrando o brinquedo que tinha escondido atrás das costas. - Olhe só.

Luke não me pediu para consertá-Ia. Sua confiança de que eu poderia fazer isso era o respeito de um menininho ao milagroso consertador de triciclos, trenzinhos e vários outros brinquedos. O cabo de plástico azul da serra se partira. Meu pai, que apreciava as ferramentas de todas as profissões, não teria aprovado uma serra com cabo de plástico.

Eu disse:

- Faltam uns pedacinhos. Estão com você?

Ele abriu a mão e me estendeu os pedaços que tinham sobrado. Eu não tinha ideia de como consertar a serra.

Luke me olhou firme, a expressão revelando total confiança de que eu poderia fazer qualquer coisa. Aquele olhar revolveu lembranças. Examinei a serra cuidadosamente, remexendo as pecinhas quebradas na minha mão como remexia o passado em minha mente.

Quando tinha sete anos, fui ao consultório de meu pai depois da escola, num dia de novembro. Meu pai era realmente o melhor médico da pequena cidade de Ohio River, onde morávamos.

Ele sempre surpreendia a mim - e a seus pacientes - pelas coisas que podia fazer. Podia não apenas curar os males de qualquer pessoa, não importava o quê, mas também dominar um cavalo, fazer um pião e escorregar pela montanha em pé no meu trenó! Eu gostava de ficar na sala de espera do consultório ouvindo as pessoas me chamarem de "doutorzinho" e observando seus pacientes, que sempre saíam de sua sala melhor do que entravam.

Mas, naquele dia, quando eu tinha sete anos, estava lá para ver meu melhor amigo, Jimmy Hardesty. Ele não ia à escola há três dias, e sua mãe enviara um bilhete à enfermeira de meu pai dizendo que levaria Jimmy ao consultório naquele dia.

Quando o último paciente do dia foi embora, Jimmy ainda não chegara. Meu pai e eu saímos então para visitar doentes em casa. Ele gostava que eu fosse com ele e adorava me contar histórias enquanto dirigia. Eram quase sete horas quando terminamos. Quando voltávamos para casa, papai disse de repente: "Vamos ver como está o Jimmy." Fiquei contente e agradecido, certo de que meu pai estava fazendo aquilo para me agradar. Mas, quando chegamos à antiga casa de pedras cinza, havia uma luz acesa na janela superior da parte de trás e uma outra na varanda dos fundos - antigamente era assim que se avisava que havia algum problema na casa.

Papai estacionou o carro perto da porta de entrada. Alice, a irmã mais velha de Jimmy, saiu correndo e passou os braços à volta de meu pai, chorando e tremendo, tentando falar.

_ Ah, doutor. Jimmy está morrendo! Papai saiu à sua procura. Graças a Deus, o senhor está aqui.

Meu pai nunca se apressava. Costumava dizer que não há nenhuma razão para correr. Se você tivesse de correr, já era tarde demais. Mas disse para Alice soltá-Io e correu. Eu os segui pela cozinha, subindo pela escada estreita e escura da sala. Jimmy estava com a respiração ofegante e fazia um ruído alto, cheio de ar. O menino tinha montes de cobertores sobre ele, de modo que mal podíamos ver seu rosto na luz tremeluzente das lamparinas de querosene. Parecia exausto e sua pele brilhava.

Sua mãe estava extremamente abatida.

- Ah, doutor. Por favor, nos ajude. Era só um resfriado, então, de tarde, ele começou com esse suor terrível.

Eu nunca tinha visto a mãe de Jimmy assim antes. Ela ficou atrás de mim, com as mãos nos meus ombros, enquanto meu pai auscultava o peito de seu filho. Ele preparou uma injeção e levantou a agulha perto da luz. Eu tinha certeza de que ali estava para acontecer o milagre a que todos temos direito. Papai deu a injeção em Jimmy. Então pegou um chumaço de gaze e colocou na boca de meu amigo. Inclinou-se sobre ele e começou a respirar junto com ele. Ninguém se mexia no quarto e não havia outro som, a não ser a respiração regular de meu pai e a resposta da respiração de Jimmy, alta e sibilante.

Então, repentinamente como um raio, havia apenas o terrível som da respiração de meu pai. Senti as mãos da mãe de Jimmy pressionarem meus ombros e eu sabia, como ela sabia, que alguma coisa acontecera. Mas meu pai continuou a soprar nos pulmões de Jimmy. Passou-se um bom tempo e a senhora Hardesty foi até a cama, pôs a mão no braço de meu pai e disse:

- Ele se foi, doutor. Venha. Meu menino não está mais conosco.

Mas meu pai não se mexeu. A senhora Hardesty então me pegou pela mão e descemos, para a cozinha. Ela se sentou numa cadeira de balanço, e Alice, com um ar desamparado como eu jamais vira em ninguém, jogou-se no colo da mãe. Saí até a varanda e me sentei no degrau mais alto da escada, ali na escuridão gelada. Não queria que ninguém me visse ou falasse comigo.

Quando o senhor Hardesty chegou e viu nosso carro, entrou na casa e, por um minuto, ouvi vozes. Seguiu-se um silêncio, depois mais vozes. Finalmente meu pai saiu e o segui até o carro. Durante todo o solitário caminho de volta, ele não falou uma palavra. E eu não podia me arriscar a dizer nada para ele.

O mundo que eu pensava conhecer se partira no fundo do meu coração. Em vez de irmos para casa, fomos a seu consultório.

Ele começou a pesquisar em seus livros, procurando por alguma coisa que pudesse ter feito. Eu queria detê-Io, mas não sabia como. Não podia imaginar como a noite terminaria. De vez em quando, sem querer, eu começava a chorar novamente.

Finalmente alguém bateu à porta e fui até a sala da frente, agradecido a quem quer que fosse. Notícias sobre nascimentos e mortes correm rápido e vão longe numa comunidade como a nossa. Mamãe viera nos procurar.

Ela se ajoelhou, me abraçou, esfregou a parte de trás da minha cabeça e eu a abracei, como não fazia desde que era bebê.

_ Ah, mamãe, por que ele não conseguiu, por que ele não conseguiu? - eu soluçava, com a cabeça em seu ombro.

Ela esfregou minhas costas até me acalmar. Então disse:

_ Seu pai é maior que você, mas ele é menor que a vida. Nós o amamos pelo que ele pode fazer, não o amamos menos pelo que não pode fazer. O amor aceita o que encontra, seja o que for.

Embora eu não tenha certeza de ter compreendido o que ela quis dizer, sei que percebi a importância de suas palavras. Então ela entrou para falar com meu pai. Aquele inverno pareceu ter durado uma eternidade, mas todas essas lembranças passaram pela minha mente em segundos.

Continuei a remexer as peças do brinquedo quebrado de Luke e lhe disse:

- Não posso consertar.

- Pode, sim.

- Não, não posso. Desculpe.

Ele me olhou e a expressão de confiança desapareceu de seu rosto. Seu lábio inferior tremia e ele tentava segurar as lágrimas que surgiram.

Eu o coloquei no colo e o consolei da melhor maneira que pude - tanto pelo brinquedo quebrado quanto por ter acabado com a sua ilusão de que eu era infalível. Aos poucos o choro diminuiu. Eu tinha certeza de que ele percebera minha tristeza por tê-Io decepcionado ao demonstrar que era um simples mortal. Luke ficou aninhado em meu colo por um bom tempo, o braço à volta do meu pescoço.

Quando ele saiu da sala, me dando um olhar direto e amigável, pude ouvir a voz de minha mãe me dizendo, do seu jeito incontestável, que o amor não era condicional. Antes o pai, agora o filho. Eu sabia com certeza que da angústia daquela descoberta vinha a primeira luz, ainda fraca, da compreensão.


 

PÉS GRANDES, CORAÇÃO MAIOR AINDA

AUTOR DESCONHECIDO Do livro de Brian Cavanaugh, The Sower Seeds

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 70

 

O verão ainda não havia começado, mas fazia um calor insuportável. Parecia que todo mundo estava procurando por algum tipo de alívio e, assim, a sorveteria era um lugar natural para se ir.

Um menininha, com o dinheiro apertado na mão, entrou na loja. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o empregado asperamente mandou que saísse e lesse o cartaz na porta - e que ficasse lá fora até que calçasse uns sapatos. A menina saiu devagar e um homem bem alto a seguiu até a calçada.

Ele ficou observando enquanto a garota leu o cartaz em frente à loja: PROIBIDO ENTRAR DESCALÇO. Lágrimas começaram a rolar pelo rosto da menina, que se virou para ir embora. Então o homem alto a chamou. Ele se sentou no meio-fio, tirou seus sapatos número quarenta e quatro e os colocou em frente à garota, dizendo:

- Tome aqui. Você não vai conseguir andar com eles, mas, se for deslizando os pés, pode buscar sua casquinha de sorvete.

O homem levantou a menina e colocou os pés dela nos sapatos.

- Não precisa ter pressa. Estou cansado de andar por aí e vou ficar muito bem aqui sentado, tomando meu sorvete.

Impossível não notar o brilho nos olhos da menina quando ela chegou no balcão e pediu a casquinha de sorvete.

Ele era um homem grande, é verdade. Tinha uma barriga grande, sapatos grandes, mas, principalmente, tinha um grande coração.

 

 

Quando as boas ações falam, as palavras não são necessárias.

PROVÉRBIO AFRICANO

 


 

PAPAI, TENHO UM BOLA DE PLÁSTICO

JEFF BOHNE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 72

 

Estava preocupado com a minha filha. Betsy estava entrando na adolescência e passava por uma daquelas fases em que qualquer pequeno problema parece uma tragédia. Nos últimos tempos, andava cabisbaixa porque uma de suas melhores amigas resolvera implicar com suas roupas e debochar de tudo que ela dizia.

Queria encontrar uma forma de ensinar a Betsy que a vida é cheia de altos e baixos e que precisamos enfrentar as adversidades de cabeça erguida, sem deixar que afetem nossa autoestima. Mas fazer com que ela compreendesse isso não seria uma tarefa fácil. Como a maioria das meninas da sua idade, Betsy achava que os pais viviam em outro mundo e não entendiam seus problemas.

- Minha vida é uma droga. Ninguém se importa comigo e às vezes penso que ninguém ligaria se eu não estivesse mais aqui - ela me respondeu uma noite, quando tentei conversar com ela sobre a melhor maneira de lidar com as críticas da amiga.

- Eu e sua mãe nos importamos. Você é uma garota fabulosa - disse, dando-lhe um beijo de boa-noite.

Antes de dormir, conversei com minha mulher, Nancy, sobre o que podíamos fazer para ajudar Betsy. Pensamos numa boa estratégia.

No dia seguinte, durante o jantar com Betsy e o caçula, Andy, minha mulher lembrou "casualmente" de um discurso que o pastor de nossa igreja tinha feito há alguns dias. Ele tinha comparado os problemas com uma bola de plástico, daquelas bem leves que as crianças gostam de jogar na praia.

O pastor pediu que imaginássemos que estávamos no fundo de uma piscina e tentávamos manter a bola entre as pernas, sob a água. Isso era fácil por algum tempo, mas depois só havia duas possibilidades. Ou você ficava tão cansado que deixava a bola escapar e pipocar na superfície ou - o que é pior - ficava tão cansado em tentar mantê-la submersa que acabava se afogando.

A mensagem do pastor era clara: não adianta tentar esconder os problemas a qualquer custo. Mesmo usando toda nossa força e determinação, em algum momento eles virão à tona e lutar contra isso pode arruinar nossa vida. Por outro lado, ao observar as mentiras, mágoas, dúvidas e medos à luz do dia, temos muito mais chances de superar os obstáculos e perceber que não eram assim tão importantes.

Depois que Nancy contou a história, pude ver que os meninos estavam tentando entender o que aquilo tinha a ver com eles.

Expliquei que, às vezes, todos nós temos nossas "bolas de plástico", que tentamos esconder. Pedi que, a partir de então, sempre que eles tivessem dificuldade em nos contar um problema, deveriam simplesmente dizer: "Tenho uma bola de plástico." Nancy e eu prometemos que a única coisa que faríamos por vinte e quatro horas seria ouvir. Nada de gritos, julgamentos, conselhos: apenas ouvir. Depois de vinte e quatro horas, poderíamos tentar lhes ajudar a sair do problema. O fundamental era que soubessem que sempre estaríamos por perto e prontos para ouvir, independente da gravidade da situação.

Através dos anos, eles nos apresentaram muitas "bolas de plástico", normalmente tarde da noite. Algumas eram mais sérias que outras. Algumas até engraçadas e tentávamos não rir quando nos contavam. Outras jamais chegaram aos nossos ouvidos, mas foram divididas com amigos da família. Sempre nos submetemos à regra das vinte e quatro horas. Nunca voltamos atrás em nossa promessa, não importando o quanto queríamos reagir ao que contavam.

Os dois agora são adultos. Tenho certeza de que ainda têm "bolas de plástico" de vez em quando. Todos temos. Mas sabem que estaremos por perto para ouvi-los. Afinal, o que é uma bola de plástico? Algo que desaparece quando você a solta ao vento.

 


 

A ÚNICA LEMBRANÇA QUE PERMANECE

TED KRUGER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 75

 

Tenho muitas lembranças de meu pai e da minha infância com ele em nosso apartamento perto da linha do trem. Por vinte anos, ouvimos o barulho do trem como se passasse ao lado da janela do quarto.

Tarde da noite, papai esperava sozinho na estação pelo trem que o levava à fábrica, onde trabalhava no turno que começava à meia-noite.

Naquela noite especial, esperei com ele no escuro para me de pedir. Seu rosto estava crispado. O filho mais novo fora convocado para a guerra. Eu devia me apresentar às seis da manhã do dia seguinte, enquanto ele estivesse trabalhando na máquina de cortar papel.

Meu pai e eu conversamos sobre a revolta que ele sentia. Não queria que eles levassem seu filho, de apenas dezenove anos, que jamais bebera ou fumara sequer um cigarro, para lutar na Europa. Ele colocou as mãos sobre meus ombros magros:

"Tenha cuidado, Srulic, e, se precisar de alguma coisa, me escreva que eu consigo para você." De repente, ouviu-se o barulho do trem que se aproximava.

Ele me abraçou apertado e suavemente beijou-me o rosto. Com os olhos cheios de lágrimas, murmurou: “Amo você, meu filho." O trem chegou, as portas se fecharam e ele desapareceu na noite.

Um mês depois, aos quarenta e seis anos, meu pai morreu.

Tenho setenta e seis anos agora. Uma vez ouvi o repórter Pete Hamill, de Nova York, dizer que as lembranças são a maior herança de um homem e tenho de concordar. Sobrevivi a quatro invasões na Segunda Guerra. Tenho uma vida cheia de toda espécie de experiências. Mas a única lembrança que permanece é a de uma noite quando meu pai disse: “Amo você, meu filho."

 

Você nunca sabe quando está forjando uma lembrança.

RICKIE LEE JONES

RITOS DE PASSAGEM EM TURBILHÃO

STEFAN BECHTEL

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 77

 

Cheguei à região das florestas canadenses com meu filho Adam, que acabara de fazer treze anos. Eu estava pronto para alguma coisa extravagante. Se quisesse algo calmo e seguro, teria ficado em casa. "O papel da mãe é ensinar o filho a se afastar do perigo", pensei. Já o pai deve mostrar como chegar um pouco mais perto do limite.

Assim, fomos a uma loja de artigos esportivos em Minnesota e nos equipamos com mapas, barracas, material de pescaria e mantimentos para passar cinco dias na floresta. Pegamos um hidroavião para o Parque Provincial Quetico, em Ontário, dois mil e setecentos quilômetros quadrados de lagos de águas negras e florestas assombradas por lobos, mergulhões e alces, perto da fronteira de Minnesota, a partir da região dos Grandes Lagos.

No posto da ilha Hilly, onde o avião pousou num vale arborizado, pusemos o equipamento numa canoa de alumínio e partimos. Assim que ultrapassamos o primeiro ponto rochoso, estávamos completamente sós. A tarde estava nublada e uma luz cinzenta e difusa coloria as águas inclinadas das cachoeiras. À nossa volta, a margem rochosa tinha uma linha escura de árvores que se estendia na vastidão.

Paramos pela primeira vez depois de algumas horas remando para fazer uma pequena caminhada perto da cachoeira de Brewer, uma queda de uns seis metros, cheia de espuma, que se estendia por quase duzentos metros. Carregamos o equipamento até o alto da cachoeira em duas viagens. Na terceira levamos a canoa.

- Por que não descemos com o barco? - Adam perguntou de repente, quando estávamos no alto da queda-d'água, com a canoa agora vazia.

Deixando de lado momentaneamente a racionalidade, respondi:

- Claro, por que não?

Afinal, não parecia nada terrível - há pouco tempo fizéramos rafting no rio Novo, em West Virginia, e, comparando o rio e a cachoeira, parecia fácil. Adam me lembrou de colocar o colete salva-vidas. Subi na popa, ele na proa e fomos adiante. A água cor de chá puxava o bote.

- Fique na esquerda! - gritei, tentando nos guiar para fora do tumulto espumoso do centro da cachoeira.

- Não, vamos bem para o meio! - Adam gritou de volta.

E assim fizemos.

E foi quando uma queda de quase um metro, não visível da beira, apareceu à nossa frente. Num instante o barco chegou à beira do precipício, balançou de um lado para o outro e virou de cabeça para baixo. Vi Adam voando por cima do barco, o que logo  aconteceu comigo. Afundei e subi, bebendo água, mexendo as mãos, tentando segurar em alguma coisa. Com a força da torrente, afundei novamente e fui arrastado para baixo, batendo em pedras submersas. Minhas botas de caminhada, cheias d'água, instantaneamente se tornaram um peso enorme. Num relance, vi o salva-vidas roxo de Adam sendo arrastado para longe de mim.

Adam! - gritei, mas não ouvi a voz dele.

Quando comecei a planejar essa viagem, morrer afogado não era meu maior medo. O maior medo era não termos nada a dizer um ao outro, que Adam logo se cansasse da minha companhia e começasse a querer estar ali com um amigo ou - o que seria pior - com o seu Game Boy.

Quando conversei com ele sobre fazer uma viagem de aventuras para comemorar seus treze anos, Adam me disse que o que queria mesmo era descer e subir o Grand Canyon. Basicamente, queria ter uma boa história para se gabar. Mas eu preferia alguma coisa mais calma e tranquila. Queria lhe mostrar a região das florestas, mas sem ter de provar nada para ninguém. Mas, principalmente, queria me reaproximar de meu filho, que eu parecia ter perdido em meio a discos dos Smashing Pumpkins, Nintendo, bonés enfiados ao contrário na cabeça e tudo o mais. EIe estava passando tão depressa da doce vulnerabilidade da infância para a terrível teimosia da adolescência que eu às vezes imaginava que Ia acordar e descobrir que lhe nascera uma enorme barba durante a noite.

Como muitos pais de minha geração, eu também queria que houvesse, na vida de meu filho, alguma comemoração, algum rito que delineasse claramente a passagem da infância para a iminente vida adulta - um acontecimento mais espiritual do que tirar uma carteira de motorista e menos doloroso do que uma circuncisão.

Acertamos em fazer o passeio de canoa. Para meu alívio, as preocupações sobre não ter o que conversar se mostraram absurdas. Na verdade, ele parecia desejar a minha companhia tanto quanto eu desejava a dele. Redescobri, naquele rapaz crescido, o mesmo menino curioso e engraçado de anos atrás.

Remando por aqueles lagos lindos e reluzentes, os dois numa canoa estreita na água escura, fiquei surpreso em descobrir como aquele garoto pesava - já que, para o barco não inclinar, tentava manter o equilíbrio com o lastro dos nossos corpos.

Com uma onda de simpatia, percebi que o corpo daquele menino magrinho estava sofrendo uma violenta investida de testosterona e acumulando massa muscular a cada hora. Também me dei conta de que seus movimentos eram como uma série de explosões cinéticas - ele se balançava abruptamente de um lado para outro, batia na lateral do barco, não remava e, de repente, começava a remar furiosamente. Minha tarefa, concluí, não era reprimir aquela energia excessiva, mas ensiná-Io a equilibrá-Ia.

No fundo, acho que também pretendi usar a viagem para ter conversas sérias de pai para filho sobre crescer, ter responsabilidades e tudo o mais. Meu texto ensaiado era aborrecido pretensioso.

Todos esses pensamentos tomaram conta de mim em meio ao pânico, enquanto nós dois descíamos pela torrente d'água.

Consegui ver novamente o salva-vidas roxo de Adam e o localizei nadando em minha direção. Então, abruptamente fomos os dois lançados para fora do canal principal e caímos num redemoinho espumante. Surpreso, eu o ouvi rir e gritar: "Que barato, cara!" Eu estava morto de medo, mas ele estava se divertindo a valer.

Finalmente meu pé tocou o fundo e consegui me levantar.

Quando Adam também conseguiu, olhei para ele, que ainda tinha na cabeça o boné ensopado de seu time de basquete, e nós dois começamos a rir e gritar bem alto. A canoa, da qual só víamos as pontas da popa e da proa, de tão cheia d'água, tinha sido levada pelo vale e devia estar a uns duzentos metros dali.

Tivemos de atravessar o canal a nado, nos agarramos depois a um tronco que encontramos e finalmente caminhamos pela floresta para apanhar o barco, bastante avariado.

Só mais tarde percebi que, durante toda a malsucedida aventura, nós dois trocamos de lugar nos papéis de homem e garoto. Meu filho sugeriu a loucura de descer a cachoeira com a canoa, mas aconselhou que eu pusesse o colete salva-vidas. Eu concordei com seu plano nada adequado e depois tentei me comportar como adulto. Meu filho riu o tempo todo durante a descida e eu - exatamente como meu pai - estava morto de preocupação.

Eu estava ensinando Adam a ser um homem, mas, ao mesmo tempo, ele estava me lembrando de que não devia esquecer minha meninice. Ele também estava demonstrando mais uma coisa: que podia, às vezes, ser mais sensato e adulto que eu; que às vezes podia estar certo e eu errado; que alguma parte dele já era adulta. Achei esta revelação reconfortante, mas, ao mesmo tempo, perturbadora. Afinal, é inerente à noção de iniciar meu filho na idade adulta a de que estou transferindo meu papel para ele. Eu estava preparando aquele que ia me substituir. No final, minha ideia original e pretensiosa de levar meu filho para a floresta para se tornar adulto tinha se mostrado um pouco arrogante e simplista demais. Na verdade, eu parecia ter tanto a aprender quanto a ensinar.

Com dificuldade, saímos da água em direção à margem e, por alguns momentos, nos sentimos exultantes e vivos - ensopados, batizados, despertos. Tínhamos vivido juntos uma aventura. Alguma coisa nos acontecera e tínhamos sobrevivido.

A viagem tinha apenas começado.

 

Quando tiver certeza de que vai começar uma aventura,

limpe o mel do nariz e se ajeite o melhor que puder,

de modo a estar pronto para qualquer coisa que aconteça.

URSINHO PUFF, de A. A. Milne

PERMISSÃO PARA CHORAR

HANOCH MCCARTY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 83

 

Sozinho, sentado à mesa de jantar, o resto da casa às escuras, comecei a chorar.

Finalmente tinha conseguido colocar os dois meninos na cama. Pai solteiro há pouco tempo, tinha de ser pai e mãe para meus filhos. Dera banho nos dois, com suas risadas de prazer, corridas malucas pela casa, gargalhando e jogando coisas um no outro. Mais ou menos acalmados, deitaram para eu fazer em cada um os prescritos cinco minutos de massagem. Peguei, o violão e comecei meu ritual noturno de músicas folclóricas, terminando com a favorita dos dois meninos. Cantei-a repetidamente, reduzindo aos poucos o ritmo e o volume até que tivessem aparentemente dormindo.

Recentemente divorciado, com a custódia dos filhos, estava determinado a lhes proporcionar uma vida doméstica a mais normal e estável possível. Para eles, estava sempre feliz. Tentava ao máximo manter as atividades costumeiras sem muitas alterações. Esse ritual noturno sempre acontecera. A única diferença é que agora a mãe estava ausente. Eu conseguira realizá-Io mais uma vez: outra noite concluída com sucesso.

Eu me levantei devagar, cuidadosamente, tentando não fazer qualquer barulho que pudesse despertá-Ios, pedindo mais canções e mais histórias. Saí do quarto na ponta dos pés, fechei a porta até a metade e desci as escadas.

Sentado à mesa de jantar, joguei-me na cadeira, ciente de que era a primeira vez, desde que chegara em casa do trabalho, que conseguia me sentar. Tinha cozinhado e servido o jantar aos meninos, batalhando para que comessem. Tinha lavado a louça ao mesmo tempo que tentava lhes dar a atenção que exigiam.

Ajudara o mais velho, que estava na segunda série, com o dever de casa. Tinha elogiado os desenhos do mais novo e exclamado ohs! de admiração com sua elaborada construção com os blocos de Lego. O banho, as histórias, as massagens nas costas, as canções e agora, finalmente, um pequeno momento só para mim. O silêncio era um alívio, por enquanto.

Então, tudo se acumulou em mim: a fadiga, o peso da responsabilidade, a preocupação com as contas que não tinha a certeza de poder pagar naquele mês. Os detalhes infindáveis do dia-a-dia de uma casa. Até há pouco tempo estava casado e tinha alguém para dividir essas tarefas, essas contas e essas preocupações.

E a solidão. Eu me sentia como se estivesse no fundo de um grande mar de solidão. Tudo aquilo vinha junto e eu estava completamente perdido, indefeso. Comecei a chorar, inesperada e convulsivamente. Fiquei ali, em silêncio, soluçando.

Bem nessa hora, um par de bracinhos me rodeou pela cintura e um rosto me examinou com atenção. Olhei para a carinha simpática do meu filho de cinco anos.

Fiquei envergonhado por meu filho me ver chorando.

- Desculpe, Ethan, não sabia que você ainda estava acordado.

Não sei por que isso acontece, mas tantas pessoas se desculpam quando choram e não sou exceção.

- Eu não queria chorar. Desculpe. Estou um pouco triste hoje.

- Tudo bem, papai. Não tem problema chorar, você é apenas uma pessoa.

Não posso descrever como me deixou feliz aquele garotinho que, com a sabedoria da inocência, me deu permissão para chorar. Parecia que estava dizendo que eu não tinha de ser sempre forte, que às vezes podia me permitir ser fraco e demonstrar meus sentimentos.

Ele deslizou para o meu colo e ficamos abraçados, conversando um pouco. Eu o levei de volta para a cama e o ajeitei entre as cobertas. De alguma forma, eu também consegui dormir naquela noite. Obrigado, meu filho.

 

 

 

Acima de tudo, dê valor ao amor que recebe. Ele vai sobreviver por muito tempo depois que sua riqueza e sua saúde tiverem acabado.

OG MANDINO

UMA NOVA PERSPECTIVA

SEAN COXE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 86

 

Quando era criança, sempre podia contar com meu pai para olhar as dificuldades sob outra perspectiva, fosse uma perna quebrada ou um coração partido. Anos depois, eu estava arrasada, com uma série de problemas pessoais. Precisando de ajuda e me sentindo derrotada, gastei minhas últimas economias numa viagem à Flórida para ver papai.

Na última noite da minha visita, estávamos na ponta de um píer olhando o pôr-do-sol. Não conseguia mais conter meu amargor.

- Sabe, papai, se pudéssemos juntar todos os bons momentos da vida, não durariam vinte minutos.

- É - ele concordou.

Olhei-o, espantada. Ele ainda estava estudando o sol que se punha no horizonte. Então, olhando firmemente nos meus olhos, acrescentou tranquilamente:

- São como tesouros, não são?


 

UM ESCRITOR NA PRISÃO

CLAIRE BRAZ- VALENTINE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 87

 

Fui convidada a ministrar uma oficina literária na prisão estadual de Susanville, perto das montanhas de Sierra Nevada, no norte da Califórnia.

Os homens que cumprem pena foram, em sua maioria, condenados por problemas com drogas. Estão alojados em grandes dormitórios com beliches. Não têm qualquer privacidade, nenhum lugar para estarem sozinhos, nenhum lugar para pensar tranquilamente. Eu sempre ficava apreensiva ao entrar em penitenciárias. Já fizera esse tipo de oficina em muitas prisões da Califórnia, mas que tinham celas. Em celas, mesmo se divididas com outro preso, pode-se encontrar um pouquinho de tempo para escrever. Com certeza esses homens em Susanville não iam se interessar pelo que eu tinha para oferecer.

Decidira passar os dois dias de curso dando um seminário sobre monólogos. Queria que aqueles homens tivessem a chance de escrever e então representar ante uma câmera. Queria que se vissem em vídeo antes que eu fosse embora no fim do segundo dia. Sentia que a vida na prisão provavelmente tirara deles a maior parte da identidade e que escrever e representar podia restaurar um pouco de quem foram ou de quem poderiam ser.

Fiquei satisfeita porque vinte presos se matricularam. Era o número máximo que eu dissera que poderia aceitar. Passei a primeira hora com eles falando sobre como era ser um escritor. Dizendo que há alegria e liberdade nas palavras. Que não interessava o quanto eram obrigados a ser como os outros, a se vestir como os outros, comer a mesma comida, ter o mesmo horário, pois, na escrita, poderiam finalmente ser diferentes - o quanto quisessem. Escrever pode ser a mais libertadora de todas as artes. Você pode ser livre através da palavra. Não há limites. Disse-Ihes que todas as vezes que pegava um lápis ou me sentava diante do computador ou da máquina de escrever era como se voltasse para casa, para a casa da minha arte, das minhas palavras. Esse era um mundo que ninguém poderia me tirar. Essa arte me sustentaria através de todos os meus dias.

Os homens prestavam atenção e, quando eu finalmente disse que começassem seus projetos de texto, eles se esforçaram.

Menos um deles. O jovem relutara em participar naquele primeiro dia, quando pedi que escrevessem seus monólogos. Todos os outros liam, reescreviam, liam novamente, mas ele ficou ali quieto, apagando, escrevendo, rasgando rascunhos, recomeçando. Sempre que me aproximava de sua mesa, ele, envergonhado, cobria a folha com os braços.

- Posso ver? - pedi.

- Prefiro que a senhora não veja - respondeu com um sorriso tímido.

Pensei, "que pena”. Mesmo que não estivesse participando como os outros, estava escrevendo. Escolheu passar o dia todo nessa sala quente e sufocante trabalhando em alguma coisa chamada monólogo. Naquela manhã, provavelmente, ele sequer conhecia o significado daquela palavra. Isso devia me deixar feliz. Mas não deixou. Estava preocupada com a necessidade de ele ter alguma privacidade, com sua inabilidade de partilhar, sabendo que ele estava pensando que seu texto não era suficientemente bom.

Eu já trabalhava em prisões há muitos anos para ser enganada por sua timidez. Sabia que muitos dos internos tinham aprendido, desde muito pequenos, que não conseguiam fazer nada direito. Tinham sofrido abusos e tormentos quando crianças e não tinham qualquer autoconfiança. Mas não importava o quanto eu elogiasse os outros internos, ele não cederia.

Voltou para o dormitório naquela noite com seu texto enfiado no bolso da calça. Muitos tinham deixado os trabalhos sobre as mesas. Mas não ele. Não se arriscou a deixar que eu lesse depois que ele estivesse atrás das grades. Tinha razão, é claro. Eu teria ido direto à sua mesa no minuto em que ele saísse pela porta. O rapaz tinha feito o julgamento certo de mim.

No segundo dia, todos os homens voltaram à sala. Aquilo me deixou especialmente satisfeita. O rapaz voltou também.

Nesse dia haveria a leitura e a gravação. Imaginei como o aluno silencioso e tímido enfrentaria isso. Estava realmente surpresa de vê-Io ali. Penteara o cabelo louro e comprido, a blusa estava bem passada. Naturalmente pensara que seria filmado e queria estar bem. Finalmente eu ia ouvir o que tinha escrito.

Ele não falou muito durante as atuações. Eu dera apenas algumas instruções, mas dissera que queria ouvir seus personagens me dizendo o que realmente sentiam, o que é que ninguém compreendia a respeito deles e por que precisavam falar. O rapaz louro ficou sentado quieto, observando os demais apresentarem os trabalhos. Um dos homens escrevera um monólogo para Deus, um outro decidira interpretar Abraham Lincoln, o outro, Martin Luther King, Jr. Alguns dos monólogos eram engraçados, outros sérios. Mesmo sem terem tido tempo para decorar os textos, quando começavam a ler, mal se viam os papéis em suas mãos. Eu estava profundamente emocionada com o resultado.

Finalmente, ele era o único que não tinha lido o monólogo.

Quando todos já tinham terminado, perguntei:

- Está pronto, agora?

- Acho que não - ele respondeu com uma voz delicada.

Então os outros começaram a cobrar.

- Cara, se eu pude fazer, você pode também. Vamos lá, tente. Você vai gostar. Vamos, cara, não seja tímido. Ninguém vai julgar você aqui.

Então ele se levantou e ficou em frente à câmera. Parecia tão jovem. Os papéis em sua mão tremiam como pássaros assustados, mas ele começou seu monólogo com determinação: "Meu nome é Bruce. Tenho vinte e um anos e estou morto. Estou morto porque fui preso por causa de drogas. Nunca liguei para nada nesta vida. Nem para mim mesmo. Só me importava em conseguir a próxima dose. Eu mataria por mais uma dose. Com certeza, mataria por mais uma dose." Ele continuou a falar de sua vida, como crescera em meio à pobreza, com pais alcoólatras, sofrendo maus-tratos e fome, sem ter uma vida própria, passando de um lar adotivo para outro. Enquanto lia, mostrava cicatrizes no corpo, marcas de queimaduras nos braços, onde seu pai embriagado apagava cigarros, os cortes nos punhos causados por uma tentativa de acabar com a vida. Não pude evitar. Fiquei com os olhos cheios d' água. Meu Deus, por que eu pedira para ele dividir essa dor terrível? Então o rapaz chegou ao fim da história.

"Embora eu tenha morrido na prisão, tenho uma coisa para lhes dizer. Eu acabo de renascer. Voltei a me levantar, como na Bíblia. Um dia uma mulher veio e me disse para escrever. Eu jamais tinha escrito antes, mas escrevi assim mesmo. Fiquei por oito horas numa cadeira e me concentrei como nunca tinha me concentrado na vida. Antes, eu sequer conseguia ficar parado!

Escrevi sobre o horror que foi a minha vida até agora e finalmente consegui sentir alguma coisa. Sentir pena. De mim mesmo. E eu senti mais uma coisa. Senti alegria. Eu estava escrevendo e o que eu estava escrevendo era bom. Eu era um escritor! E ia me levantar ante todos aqueles homens na sala e ia dizer isso..." Ao proferir essas palavras, ele levantou o pequeno manuscrito no ar. "Isso é mais importante para mim que qualquer droga. O que eu queria dizer é que morri como um viciado em drogas e renasci como um escritor."

Todos ficamos sentados ali, impressionados. A câmera continuou a filmar. Ele fez uma pequena mesura e disse "Obrigado", mais uma vez, com sua voz calma. Os outros aplaudiram fortemente. Ele andou até onde eu estava e apertou minhas mãos. Aos presos não é permitido tocar os professores, mas não contestei.

- A senhora me proporcionou uma coisa que nenhuma droga jamais proporcionou. O respeito por mim mesmo - ele disse.

Penso nele com frequência. Rezo para que tenha continuado a ter respeito por si mesmo através da palavra escrita. Sei, no entanto, que naquele dia, naquela sala, com aqueles homens, nasceu um escritor. Depois de uma longa e terrível viagem, uma alma perdida voltara para casa, a casa das palavras.


 

ESTATÍSTICAS

THE BEST OF BITS & PIECES

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 93

 

A mulher de um estatístico, disposta a procurar um emprego, persuadiu o marido a ficar em casa por um dia tomando conta das crianças.

Quando voltou, ele lhe entregou o seguinte relatório:

 

Lágrimas enxugadas, nove vezes. Sapatos amarrados, treze vezes.

Bolas de encher compradas, dezesseis.

Média de duração de uma bola, dez segundos.

Advertência às crianças para não atravessar a rua, vinte e uma vezes.

Número de vezes que as crianças atravessaram a rua, vinte e uma vezes.

Número de vezes que farei isso de novo, zero.

 


 

A PESCARIA MAIS IMPORTANTE DA VIDA

JAMES P. LENFESTEY, apresentada por Diana Von Holdt

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 94

 

Ele tinha onze anos e, a cada oportunidade que surgia, ia pescar no cais junto ao chalé da família, numa ilha no meio de um lago de New Hampshire.

A temporada de pesca só começaria no dia seguinte, mas ele e o pai saíram no fim de tarde para pegar peixes-lua e percas, cuja pesca era liberada. O menino amarrou uma isca e começou a praticar arremessos, provocando ondulações coloridas na água.

Logo as ondulações se tornaram prateadas por causa do efeito da Lua nascendo sobre o lago.

Quando o caniço vergou, soube que havia algo enorme do outro lado da linha. O pai olhava com admiração enquanto o garoto habilmente arrastava o peixe ao longo do cais.

Finalmente, com muito cuidado, ele levantou o peixe exausto da água. Era o maior que já tinha visto, mas era um dos peixes cuja pesca só era permitida na temporada.

O garoto e o pai olharam para o peixe, tão bonito, as guelras para trás e para a frente sob a luz da lua. O pai acendeu um fósforo e olhou o relógio. Eram dez da noite - faltavam duas horas para a abertura da temporada. O pai olhou para o peixe, depois para o menino.

- Você tem de devolvê-Io, filho - ele disse.

- Mas, papai! - reclamou o menino.

- Vai aparecer outro peixe - disse o pai.

- Não tão grande como este - choramingou o filho.

O menino olhou à volta do lago. Não havia outros pescadores ou barcos visíveis ao luar. Olhou novamente para o pai.

Mesmo sem ninguém por perto, o garoto sabia, pela clareza da voz do pai, que a decisão não era negociável. Devagar tirou o anzol da boca do enorme peixe e o devolveu à água escura.

A criatura movimentou rapidamente seu corpo poderoso e desapareceu. O menino desconfiou que jamais veria um peixe tão grande como aquele.

Isso aconteceu há trinta e quatro anos. Hoje, aquele garoto é um arquiteto de sucesso em Nova York. O chalé de seu pai ainda está lá, na ilha no meio do lago, e ele leva seus filhos e filhas para pescar no mesmo cais.

E ele estava certo. Nunca mais conseguiu pescar um peixe tão maravilhoso como o daquela noite, há tanto tempo. Mas ele sempre vê o mesmo peixe - repetidamente - todas as vezes que se depara com uma questão de ética.

Porque, como seu pai lhe ensinou, a ética é simplesmente uma questão de certo e errado. Apenas a prática da ética é que é difícil. Agimos corretamente quando ninguém está olhando?

Nós nos recusamos a passar por cima de regras para conseguir entregar o projeto a tempo? Ou nos recusamos a negociar ações com base em informações que sabemos que não devíamos ter?

Faríamos isso se nos tivessem ensinado a devolver o peixe para a água quando éramos jovens. Porque teríamos aprendido a verdade.

A decisão de fazer a coisa certa está vívida em nossas lembranças. É uma história que contaremos com orgulho a filhos e netos.

Não é uma história sobre como tivemos a oportunidade de derrotar o sistema e a aproveitamos, mas sobre como fizemos a coisa certa e ficamos fortalecidos para sempre.

 

 

 

As lições de moral que realmente permanecem

são as que vêm não dos livros, mas da experiência.

MARK TWAIN


 

O MOMENTO DE MOLLIE

BILL SHORE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 97

 

Trabalhei muitos anos no meio político, numa carreira que me tomava muito tempo e exigia que viajasse com frequência.

Quando o senador Bob Kerrey concorreu à presidência dos Estados Unidos em 1992, por exemplo, ajudei-o na campanha e acabei passando um bocado de tempo longe de minha mulher, Bonnie, e de nossos dois filhos pequenos, Zach e Mollie.

Depois da campanha, vim para casa para aprender uma lição importante sobre como equilibrar carreira e família, sobre o que as crianças realmente precisam receber de um pai - e sobre como construir e demolir paredes.

Um pouco antes do terceiro aniversário de Molly, eu acabara de voltar de uma série de viagens com o senador, algumas durando seis ou sete dias, com uma rápida parada em casa para pegar mais roupa limpa.

Mollie e eu estávamos voltando do mercado na nossa vizinhança em Silver Spring, no estado de Maryland, quando ela me perguntou:

- Papai, em que rua é a sua casa?

- O quê? - Pensei ter ouvido errado.

- Em que rua é a sua casa?

Foi um momento crítico. Embora ela soubesse que eu era seu pai e que sua mãe e eu éramos casados, não sabia que eu morava na mesma casa que ela.

Embora pudesse convencê-Ia de que morávamos no mesmo endereço, sua incerteza quanto ao meu lugar em sua vida continuou a se manifestar de várias maneiras. Um joelho machucado a fazia correr para a mãe, não para mim. Uma questão levantada por alguma coisa ouvida na escola seria guardada por horas, até que a mãe estivesse por perto.

Compreendi que não só tinha de passar mais tempo com Mollie, como passar esse tempo de uma forma diferente. Quanto mais eu a sentia se distanciar de mim, mais tentava fazer coisas que nos aproximassem, como ir à piscina ou ao cinema.

Mas, se Mollie e eu não tivéssemos uma atividade programada, eu ia cuidar de afazeres em casa. Era para maximizar o tempo e ser útil.

Quando era para ler uma história na hora de dormir, Bonnie me chamava depois de vestir Mollie e colocá-Ia na cama. Eu entrava em seu quarto como um dentista que espera o paciente ser preparado porque não tem um minuto a perder.

Era assim que eu me sentia e, agora tenho certeza, era como Mollie se sentia também.

Mas tudo mudou numa noite de verão. Mollie estava ficando frustrada, tentando construir um esconderijo secreto no quintal da casa. Era fim de tarde e ela deveria estar ocupada até a hora de dormir, mas os ladrilhos acinzentados e finos que tentava apoiar uns nos outros continuavam a cair. Estava fazendo isso há dias, às vezes com um amiguinho da vizinhança, às vezes sozinha. Quando as paredes despencaram pela última vez, quebrando-se, ela começou a chorar.

- Sabe do que você precisa para conseguir fazer esse trabalho, Mollie? - perguntei.

- Do quê?

- Precisa de uns sessenta tijolos.

- É, mas não temos sessenta tijolos.

- Mas podemos conseguir.

- Onde?

- Na loja de material de construção. Vá calçar os sapatos e entre no carro.

Fomos até a loja, distante uns oito quilômetros, e achamos os tijolos. Comecei a colocá-Ios, vários de cada vez, num carrinho tipo plataforma. Eram grosseiros e pesados e percebi que era um trabalho para eu fazer. Do carrinho teriam de ser colocados no jipe e ainda descarregados em casa.

- Por favor, papai, deixe eu fazer isso. Por favor! - Mollie pediu.

Se eu deixasse, íamos ficar lá para sempre. Ela teria de usar as duas mãos para pegar apenas um deles. Olhei o relógio e tentei controlar minha impaciência.

- Mas, querida, são muito pesados.

- Por favor, papai, quero muito fazer isso - ela choramingou, dirigindo-se rapidamente à pilha de tijolos e levantando um deles com as duas mãos. Ela o arrastou até o carrinho e o colocou perto dos muitos que eu já pusera ali.

Aquilo ia levar a noite toda.

Mollie voltou até a pilha e cuidadosamente escolheu outro tijolo. Não teve pressa em escolher.

Então compreendi que ela queria que aquilo durasse a noite toda.

Era difícil nós dois termos um tempo assim, juntos e sozinhos. Isso seria o tipo de atitude impulsiva tomada por seu irmão mais velho, Zach, para ficarmos só os dois. Mas, com Zach, talvez numa maneira masculina de agir, o ideal seria terminar logo a tarefa e irmos construir a parede. Mollie queria que aquele momento durasse.

Encostei-me em um dos estrados de madeira e respirei fundo. Mollie, trabalhando firme no carregamento dos tijolos, relaxou e começou a conversar, falando sobre o que ela já construíra, sobre a escola, as amigas e a próxima aula de equitação.

Comecei a entender: estávamos ali comprando tijolos para fazer uma parede, mas, na verdade, estávamos demolindo uma parede, tijolo por tijolo - a parede que ameaçou me separar de minha filha.

Desde então aprendi o que a mãe dela já sabia: como assistir a um programa de tevê com Mollie, mesmo sendo um programa que não quero ver; como ficar com ela sem ao mesmo tempo ler um jornal ou uma revista, estando ali por inteiro.

Mollie não me quer por causa do que eu posso lhe dar, para onde posso levá-Ia ou mesmo por causa das coisas que podemos fazer juntos. Ela me quer por mim mesmo.


 

PARA MEU NETO

FLOYD WICKMAN E TERRI SLODIN

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 102

 

Ouvi num domingo, na igreja, a história de uma família de refugiados do Leste europeu, forçada a sair de casa por tropas invasoras. Perceberam que a única chance de escapar dos horrores da guerra era atravessar as montanhas que circundavam a cidade. Tinham certeza de que estariam a salvo num país vizinho e neutro, caso conseguissem fazer a travessia. Mas o avô não estava bem e a viagem seria dura.

- Me deixem para trás - pediu ele. - Os soldados não vão se importar com um homem velho como eu.

- Vão, sim - disse o filho. - Para o senhor será a morte.

- Não podemos deixar o senhor aqui, papai - reforçou a filha. - Se o senhor não for, então nós também não vamos.

O idoso finalmente cedeu e a família, composta de umas dez pessoas de diversas idades, inclusive uma netinha de um ano, partiu em direção à cadeia de montanhas que se via à distância. Caminharam em silêncio, revezando-se para carregar o bebê, o que tornou mais difícil a subida do desfiladeiro.

Depois de várias horas, o avô se sentou numa rocha e deixou pender a cabeça.

- Continuem sozinhos. Não vou conseguir - disse.

- Vai, sim - encorajou o filho. - Tem de conseguir.

- Não - disse o avô. - Me deixem aqui.

- Vamos - disse o filho. - Precisamos do senhor, é a sua vez de carregar o bebê.

O homem levantou o rosto e viu as fisionomias cansadas dos demais. Olhou para o bebê envolto num cobertor, agora no colo de seu neto de treze anos, um menino magrinho.

- Claro - disse o avô. - É a minha vez. Vamos, passem o bebê para mim. - Ele se levantou e ajeitou o bebê no colo, olhando seu rostinho inocente. De repente, sentiu uma força renovada e um enorme desejo de ver sua família a salvo numa terra em que a guerra seria uma memória distante.

- Vamos - ele disse, com determinação. - Já estou bem. Só precisava descansar um pouco. Vamos andando.

O grupo prosseguiu, com o avô carregando o bebê. E, naquela noite, a família conseguiu cruzar a fronteira a salvo. Todos os que iniciaram o longo percurso pelas montanhas conseguiram terminá-Io, inclusive o avô.

 

 

Nada como ter netos para reforçar sua crença na hereditariedade.

DOUG LARSON

 


 

TODO MUNDO CONHECE TODO MUNDO

LEA MACDONALD

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 104

 

Hoje foi um dia especial, o tipo de dia que reforça a nossa fé, mesmo que ela seja frágil.

Aprendi uma lição, ensinada por meu filho de seis anos, Brandon.

Eu o observava na mesa da cozinha, arrumando cuidadosamente sua lancheira. Ia levá-Io comigo ao trabalho. Ele dizia:

- Vou ser um trabalhador.

Ali estavam cuidadosamente dispostas todas as coisas de que ele precisaria durante o dia: um livrinho para colorir, lápis, uma caixa com bonequinhos, um bolinho de cereja, um "sandiche" (como ele dizia) de salada de ovo e três ovos de Páscoa.

Conviver com Brandon nos faz ver que o tempo não tem qualquer significado. Como estava atrasado, pedi:

- Se apresse! - Tenho certeza de que ele pensa que o relógio é uma arma secreta inventada pelos suíços.

Ele se apressou. Na verdade, deixou em casa o caprichado pacote do sanduíche, um problema que não me deixou esquecer nos quarenta e cinco minutos que levamos até a cidade.

Reclamou comigo várias vezes, dizendo:

- Papai, você me fez correr. Agora não tenho nada para comer.

Durante o tempo que durou a repreensão, ele mudou as palavras, mas o sentido permaneceu o mesmo:

- Preciso de alguma coisa para comer, você me fez esquecer o lanche.

Comprei um sanduíche e outro bolinho num restaurante da cidade. Satisfeito, Brandon carregou a sacola para a caminhonete e logo seus pensamentos rebeldes do tipo "sem sanduíche, nada de trabalho" foram embora.

Chegamos a um chalé nos arredores de Kingston, em Ontário, Canadá. Nosso serviço: instalar um carpete na casa.

Toquei a campainha. Ouvi o ferrolho sendo aberto, depois a fechadura e a correntinha de segurança. A porta se abriu devagar e surgiu um homem idoso e magro. Parecia doente. O cabelo branco cobria apenas algumas partes da cabeça. A camisa azul-clara sobrava nos ombros, como se pendurada em um cabide.

Sorri, perguntando se ele era o senhor Burch.

- Sou. Você veio colocar o carpete?

- Vim, sim.

- Tudo bem. Vou deixar esta porta aberta.

- Certo, vou começar o serviço.

- O senhor tem uma "geladelà'? - Brandon perguntou de repente. O senhor olhou para ele, que lhe esticou a mão com seu lanche.

- Tenho, sim. Você sabe onde ela está?

- Sei, sim - disse Brandon, seguindo em frente. - Está na cozinha.

Eu ia dizer a Brandon que era muito atrevimento ir entrando daquele jeito, mas, antes que pudesse fazê-Io, o senhor levou o dedo aos lábios, indicando que não havia problema.

- Tudo bem, ele não vai passar da cozinha. Ele realmente ajuda você?

Fiz que sim com a cabeça. Brandon voltou, perguntando com sua voz mais encantadora:

- O senhor tem um livro de colorir?

Mais uma vez eu quase disse a Brandon que estava sendo inconveniente. Fiz um gesto indicando que fosse para fora. O senhor segurou-me levemente a mão. Olhou para Brandon.

- Seu pai me disse que você o ajuda.

- Sou um trabalhador - Brandon respondeu, orgulhosamente.

Olhei para baixo e acrescentei:

- Parece que o trabalho dele hoje é manter o cliente ocupado.

O senhor olhou para Brandon e soltou minha mão, com um pequeno sorriso.

- Quem sabe você pode trabalhar um pouco e me mostrar como se faz para colorir?

Com um ar muito sério, Brandon perguntou:

- Papai, você vai ficar bem?

- O senhor Burch vai ficar bem? - questionei.

- Vamos ficar bem. Vamos ficar aqui na mesa. Venha me ajudar a pegar o livro, trabalhador.

Fui até a caminhonete, voltando com o material e meu bloco de anotações a tempo de ouvir Brandon comentar:

- O senhor já coloriu este livro. O senhor colore muito bem.

- Não, não fui eu que colori. Foram meus netos.

- O que são netos? - Brandon perguntou, curioso.

- São os filhos dos meus filhos. Eu sou o avô.

- O que é um avô?

- Quando você crescer, se casar e tiver seus próprios filhos, seu pai vai ser avô. E sua mãe vai ser avó. Eles vão ser os avós de seus filhos. Entendeu?

Brandon fez uma pausa e disse:

- Entendi, vovô.

- Não, eu não sou o seu avô - explicou o senhor.

Brandon afastou o cabelo dos olhos. Estudando os lápis de cor, escolheu um, continuou a colorir e disse:

- Todo mundo conhece todo mundo, o senhor sabia?

- Não tenho tanta certeza. Por que você está dizendo isso?

- O senhor perguntou, olhando com curiosidade para o meu filho, que, aplicado, continuava a colorir.

- Nós todos viemos de Deus. Ele fez todos nós. Somos uma "familà' .

- É verdade. Deus fez todas as coisas - o senhor confirmou.

- Eu sei - disse Brandon, com uma voz alegre. - Ele me disse.

Eu nunca antes ouvira meu filho falar dessas coisas, a não ser uma vez em que fôramos à igreja para assistir a um auto de Natal. Enquanto esperávamos pela apresentação, ele me perguntou por que porta Deus entraria se Ele fosse se sentar perto de nós.

- Ele lhe disse? - O senhor estava visivelmente curioso.

- É, Ele disse. Ele vive lá em cima. - Brandon apontou para o teto, olhando para o alto com respeito. - Eu "lembo" de quando estava lá e falei com ele.

- E o que foi que Ele lhe disse? - O senhor pousou o lápis sobre a mesa, prestando atenção em Brandon.

- Ele disse que somos todos uma "familà'. - Depois de uma pausa, meu filho acrescentou, com lógica: - Então o senhor é meu avô.

O senhor Burch me olhou de longe e sorriu. Fiquei envergonhado por ele ter me flagrado observando a conversa. Ele disse a Brandon que continuasse colorindo, pois ia verificar como estava indo o serviço.

O senhor caminhou vagarosamente até onde eu estava.

- Como está indo? - perguntou.

- Tudo bem - respondi. - Não vai demorar. - O senhor deu um leve sorriso.

- O menino tem um avô?

Parei um pouco o que estava fazendo.

- Não, não tem. Eles se foram quando ele nasceu. Ele tem uma avó, mas ela tem a saúde frágil, não está bem.

- Sei do que você está falando. Eu tenho câncer. Também não vou ficar nesta terra muito tempo.

- Sinto muito saber disso, senhor Butch. Perdi minha mãe com câncer.

Ele me olhou com seus olhos cansados, mas sorridentes.

- Todo garoto precisa de um avô - disse suavemente.

Concordei e disse:

- Mas esse não era o destino de Brandon.

O senhor olhou de novo para Brandon, que coloria animadamente. Virou-se para mim e perguntou:

- Você vem muito à cidade, filho?

- Eu? - perguntei.

-É.

- Venho quase todos os dias. O senhor me olhou novamente.

- Quem sabe você pode trazer o Brandon aqui de vez em quando, se estiver por perto, assim por uma meia hora? O que você acha?

Dentro da casa vi Brandon, que parara de colorir e estava prestando atenção ao que falávamos.

- Pode, papai? Somos "gandes" amigos. Podemos almoçar juntos.

- Tudo bem, se não atrapalhar o senhor Burch.

O senhor foi até a mesa, Brandon deslizou pela cadeira e foi até a geladeira.

- Hora do lanche, vovô. Aqui tem para nós dois. - Brandon voltou à mesa e tirou as coisas da sacola de papel.

- O senhor tem uma faca? - Brandon perguntou.

O senhor fez menção de se levantar.

- Deixe que eu pego. Me diga onde está - disse Brandon.

- As facas para manteiga estão no canto do balcão, na gaveta.

- Achei!

Brandon voltou à mesa. Desembrulhou o bolinho. Como se cortasse um diamante, dividiu-o em dois pedaços idênticos.

Colocou um deles sobre o plástico que o envolvia. Empurrou-o em direção ao senhor Burch.

- Este é seu. - Em seguida, desembrulhou cuidadosamente o sanduíche e partiu-o ao meio. - Este é seu também. Temos que comer o "sandiche" primeiro. É o que a mamãe diz.

- Tudo bem - respondeu o senhor Burch.

- Você gosta de suco, Brandon?

- Gosto de suco de laranja.

Caminhando devagar, o senhor Burch foi até a geladeira.

Pegou uma lata de suco e encheu dois copos pequenos. Colocou um deles em frente a Brandon.

- Obrigado, vovô.

Enquanto comiam, Brandon fazia perguntas ao senhor Burch e continuava a colorir - Você joga hóquei, Brandon?

- Jogo - Brandon respondeu, examinando a ponta do sanduíche antes de mordê-Ia. - Papai me levou, com Tyler e Adam, no inverno.

- Há muitos anos, eu jogava num time de primeira linha, estava quase pronto para jogar na Liga Nacional de Hóquei, mas nunca fui convocado. Mas uma vez participei de uma partida com um jogador que foi para a Liga. Era um ótimo profissional. Ele se chamava Bill Moore - contou o senhor Burch.

Meu coração veio até a garganta.

- Tutter Moore? - perguntei.

O senhor Burch me olhou, surpreso.

- É, era ele... foi convocado para ir a Boston várias vezes.

Você ouviu falar dele?

- Ouvi - disse com a voz embargada. - O senhor está lanchando com o neto dele.

O senhor virou-se para Brandon e fixou o olhar no menino, que o olhava inocentemente.

- É... ele se parece muito com Tutter. E o nome da avó é Lillian?

- É - respondi.

O senhor segurou a mão de Brandon.

- Brandon, tenho de lhe pedir desculpas. Você estava certo e eu errado. Todo mundo conhece mesmo todo mundo.

 

 

Se você procurar uma forma de ajudar alguém, estará se ajudando também.

AUTOR DESCONHECIDO

 


 

UM PEDAÇO DE GIZ

HOLLY SMELTZER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 112

 

Em casa, era natural termos medo de papai.

Até mesmo mamãe tinha medo dele. Quando éramos crianças, minha irmã e eu achávamos que todas as famílias eram daquela maneira. Que toda família tinha um alcoólatra imprevisível, impossível de se agradar, e uma mãe que rezava e estava sempre ali para proteger os filhos. Pensávamos que Deus tinha determinado as coisas daquele jeito.

Éramos boas crianças. Mamãe estava sempre nos dizendo isso, apesar de papai não reconhecer. Em parte, éramos boas porque não ousávamos fazer nada. Éramos crianças tranquilas, tímidas, que quase não falavam - e nunca falávamos quando papai estava em casa. As pessoas achavam que Deus abençoara mamãe com meninas tão doces. Ela tinha muito orgulho de nós!

Então chegou o dia em que descobrimos uma coisa nova e divertida para fazer.

Sabíamos que aquilo não aborreceria ninguém. Não nos arriscávamos quanto a isso. Em casa, tínhamos uma porta de madeira. Descobrimos que podíamos desenhar sobre ela com giz e apagar facilmente, esfregando. Vamos nos divertir muito.

Começamos a fazer nossos desenhos, lindas figuras traçadas em toda a porta. Foi um divertimento. Ficamos surpresas ao descobrir nosso talento. Eram bons os desenhos! Foi quando decidimos acabar nossa obra de arte. Estávamos orgulhosas do nosso trabalho. Sabíamos que mamãe ia adorar. Ia querer que todos os amigos viessem vê-Io e talvez eles quisessem que também pintássemos as portas de suas casas.

Descobríramos uma coisa em que éramos realmente boas!

Mas o elogio que esperávamos não veio. Em vez de ver a beleza do trabalho, tudo em que mamãe pensou foi no tempo que levaria e no esforço que faria para remover tudo.

Estava uma fera. Nós não compreendemos por que, mas sabíamos tudo sobre broncas - e estávamos metidas numa grande confusão!

Corremos para procurar um lugar para nos esconder. No bosque cheio de árvores que ficava atrás de casa não era difícil duas crianças pequenas se sentirem a salvo. Juntas, ficamos atrás de uma árvore, sem nos mexermos. Logo ouvimos as vozes amedrontadas de mamãe e dos vizinhos nos chamando. Mesmo assim sequer nos mexemos. Eles estavam com medo de que tivéssemos fugido e nos afogado no lago.

Estávamos com medo de sermos achadas.

O sol se pôs, começou a escurecer. As pessoas começaram a ficar mais ansiosas e nós, com mais medo. O tempo passava e, quanto mais tempo ficávamos escondidas, mais difícil era sair. Àquela altura, mamãe já estava convencida de que alguma coisa horrível nos acontecera e chamou a polícia. Sabíamos que alguma coisa estava se passando porque ouvíamos as vozes do grupo se misturando. E a busca continuava, agora com vozes fortes de homens se sobrepondo às demais. Se antes estávamos com medo, naquela hora ficamos apavoradas!

Abraçadas na escuridão, ouvimos uma outra voz, que imediatamente reconhecemos com horror: a de papai. Mas havia algo estranhamente diferente em sua voz. Nela sentíamos alguma coisa que jamais tínhamos sentido antes.

Medo, agonia, desespero - não podíamos dar um nome -, mas era assim que era. Então vieram as lágrimas mescladas às preces.

Estava nosso pai ajoelhado pedindo alguma coisa a Deus?

Nosso pai, com lágrimas no rosto, prometendo dedicar a Deus a própria vida se Ele devolvesse suas meninas a salvo?

Nada em nossa vida nos preparara para essa espécie de choque. Nenhuma de nós se lembra de ter tomado a decisão.

Fomos arrastadas até ele como um ímã, nossos medos se perdendo na floresta. Não sabemos sequer se nós é que realmente demos os passos ou se Deus de alguma forma nos deslocou e nos fez chegar a seus braços. Mas nos lembramos daqueles braços fortes e amorosos que nos envolveram, papai chorando, nos apertando como se fôssemos tesouros.

As coisas mudaram depois do que aconteceu. Tínhamos um novo pai. Era como se o antigo tivesse ficado enterrado na floresta. Deus levara aquele, substituindo-o por outro, um que nos amava e era grato por nos ter como filhas.

Mamãe sempre nos disse que Deus faz milagres. Acho que ela estava certa. Ele mudou toda a nossa família com um pedaço de giz.


 

MEU SEGREDO DE AMOR

ROBERT FULGHUM

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 116

 

Fica numa prateleira no alto do armário. Já foi uma caixa de sapatos enfeitada para o Dia dos Pais, um presente da minha filha mais velha. Dentro dela, papel-cartão rosa, vermelho e branco, desenhos e colagens com três tipos de macarrão, jujubas e confeitas - tudo aquilo grudado com um exagero de cola branca.

A caixa de sapatos está enrugada e mofada onde as jujubas e os confeitas derreteram. Está grudenta em alguns lugares. Mas é um repositório de relíquias da infância dos meus filhos.

Se levantar a tampa, você vai entender por que a guardo.

Em folhas dobradas e desbotadas de bloco pautado, agora frágeis, estão as palavras: "Oi, papai", "Felis Di dos Pais" e "Ti amo". No fundo da caixa, colados, vinte e três corações feitos de miçangas. Com seus rabiscos, cada um dos três escreveu o nome. É o produto do amor em seu estado mais puro e verdadeiro.

As crianças agora são adultas. Ainda me amam, embora tenham dificuldade, às vezes, de demonstrar. O amor se complica com a idade e o conhecimento. É amor, sim, mas não é simples. Não é uma coisa que se poderia colocar numa caixa de sapatos.

Ninguém sabe que aquele presente antigo e grudento está lá. De v~ em quando eu o desço do armário e abro a caixa. É uma coisa em que posso tocar, segurar e acreditar, agora que não há mais bracinhos ao redor do meu pescoço.

É o meu baú do tesouro. E ele significa amor. Quero que o enterrem comigo. Quero levá-Ia aonde quer que eu vá.

 


 

UMA FAMÍLIA PARA FREDDIE

ABBIE BLAIR

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 118

 

Lembro-me da primeira vez em que vi Freddie. Estava em pé no seu cercadinho na agência de adoção onde trabalho. Ele me deu um sorriso cheio de dentes. "Que bebê bonito", pensei.

- Será que você vai conseguir achar uma família para Freddie? - a moça que tomava conta dele na agência me perguntou.

Foi quando percebi. Freddie tinha nascido sem os braços.

- Ele é tão esperto. Só tem dez meses, já anda e fala. - Ela o beijou. - Diga "bolá' para a senhora Blair.

Freddie sorriu para mim e escondeu a cabeça no ombro da encarregada.

- Vamos, Freddie, não faça assim - ela disse. - Ele é realmente muito afável, um garoto muito, muito bonzinho.

Freddie me fazia lembrar meu próprio filho com aquela idade, os mesmos cachos escuros e espessos, os mesmos olhos marrons.

- Não vai se esquecer dele, senhora Blair? Vai tentar?

- Não vou me esquecer.

Fui para o andar de cima e peguei minha lista atualizada de "crianças de difícil colocação".

 

Freddie é um menino de dez meses de idade, branco, de origem protestante, inglesa e francesa. Tem olhos e cabelos castanhos e pele clara. Freddie nasceu sem os braços, mas goza de boa saúde. A pessoa que se ocupa dele na agência considera sua inteligência superior à média e ele já está andando, além de dizer algumas palavras. É uma criança carinhosa e amorosa. Freddie foi abandonado por sua mãe biológica e está pronto para ser adotado.

 

"Ele está pronto", pensei. "Mas quem está pronto para ele?" Eram dez horas de uma linda manhã de fim de verão e a agência estava cheia de casais - casais sendo entrevistados, conhecendo bebês, famílias sendo formadas. Esses casais quase sempre têm o mesmo sonho: querem uma criança parecida com eles, com pouca idade e - o mais importante - sem problemas.

- Se ele tiver um problema depois de o levarmos, tudo bem.

É um risco que corremos, como quaisquer outros pais. Mas escolher um bebê que já tem um problema, aí é demais - eles dizem.

E quem pode culpá-Ios?

Eu não era a única a procurar pais para Freddie. Todas as pessoas encarregadas das entrevistas com novos casais interessados começavam a conversa com uma esperança: talvez aqueles quisessem ficar com Freddie. Mas o verão passou, chegou o outono e Freddie ainda estava conosco no seu primeiro aniversário.

- Freddie é gaaande - dizia o menino, rindo. - Gaaande.

E então eu os encontrei.

Começou como sempre começa: uma mensagem impessoal na secretária eletrônica, um novo caso, uma nova família a ser analisada, duas pessoas que queriam uma criança. Eram Frances e Edwin Pearson. Ela com quarenta e um anos, ele com quarenta e cinco. Ela dona-de-casa, ele motorista de caminhão.

Fui vê-los. Viviam numa casa de madeira branca bem pequena, num grande terreno cheio de sol e árvores antigas.

Juntos me receberam à porta, ansiosos e mortos de medo.

A senhora Pearson serviu um café quentinho e biscoitos assados no forno. Sentaram à minha frente, num sofá, bem perto um do outro, de mãos dadas. Depois de um momento, a senhora Pearson falou.

- Hoje é nosso aniversário de casamento. Dezoito anos.

- Anos muito bons, com a exceção... - disse o senhor Pearson, olhando para a mulher.

- É. Com a exceção, sempre a exceção... - Ela olhou em volta. - A casa está arrumada demais, dá para entender?

Pensei na sala da minha casa e nos meus três filhos, agora adolescentes.

- Dá, dá para entender - respondi.

- Será que estamos muito velhos?

Sorri.

- Vocês não se acham velhos e nós também não achamos.

- A gente sempre pensa que vai ser num mês, depois no próximo. Exames. Testes. Todas essas coisas. Um monte de vezes. Mas nunca aconteceu nada. Você fica com aquela esperança e o tempo vai passando - disse a senhora Pearson.

- Já tentamos adotar antes. Uma agência nos disse que nosso apartamento era pequeno demais, então compramos esta casa. Em outra agência nos disseram que eu ganhava muito pouco. Resolvemos nos conformar, mas um amigo nos indicou a sua agência e decidimos fazer uma última tentativa - o marido acrescentou.

- Fico contente com isso - eu disse.

A senhora Pearson olhou orgulhosa para o marido.

- Será que podemos escolher? - ela perguntou. - Conseguir um menino para meu marido?

- Vamos tentar arrumar um garoto - eu disse. - Que tipo de garoto?

A senhora Pearson riu.

- Quantos tipos existem? Basta que seja menino. Meu marido gosta muito de esportes. Jogava futebol e basquete quando estava no colégio. Ele será um ótimo pai.

O senhor Pearson me olhou.

- Sei que a senhora não pode dizer exatamente agora, mas pode nos dar uma ideia de quando será? Já esperamos tanto tempo!

Hesitei. Sempre faziam essa pergunta.

- Talvez no próximo verão - a senhora Pearson falou. Poderíamos levá-Io à praia.

- A senhora não teria um garoto para nós? Deve haver um menininho em algum lugar. - Depois de uma pausa, o senhor Pearson continuou. - Claro que não podemos dar a ele o mesmo que outras pessoas. Não temos muito dinheiro guardado.

- Mas temos um monte de amor - acrescentou a mulher. Amor nós guardamos bastante.

- Bem, há um menininho. Ele tem treze meses - eu disse, cautelosa.

- Ah, uma bela idade - disse a senhora Pearson.

- Tenho uma fotografia dele. É um menino maravilhoso, mas nasceu sem os braços - disse, mostrando a foto de Freddie.

Olharam a fotografia em silêncio, estudando-a. O senhor Pearson olhou para a mulher.

- O que você acha, Fran?

- Futevôlei. Você pode ensinar futevôlei para ele - a senhora Pearson disse, entusiasmada.

- O esporte não é a coisa mais importante. O importante é aprender como usar a cabeça. Ele pode viver sem os braços. Mas nunca sem a cabeça. Pode ir à faculdade. Vamos economizar para isso - o senhor Pearson falou.

- Um menino, é um menino - insistiu a senhora Pearson. - Ele precisa jogar alguma coisa. Você pode ensinar.

- Vou ensinar. Os braços não são tudo. Talvez consigamos uns braços para ele.

Eles se esqueceram de que eu estava ali. Mas talvez o senhor Pearson estivesse certo. Talvez um dia Freddie pudesse ter braços artificiais. Na verdade ele tinha protuberâncias onde os braços deveriam estar.

- Então vocês gostariam de vê-Io?

Eles me olharam.

- Quando podemos apanhá-Io?

- Vocês acham que podem querer ficar com ele?

A senhora Pearson me olhou.

- Se podemos? - ela disse. - Podemos?

- Nós o queremos - disse o marido.

Olhando para a fotografia novamente, a senhora Pearson perguntou:

- Você estava esperando por nós, não estava?

- O nome dele é Freddie, mas vocês podem trocar.

- Não. Frederick Pearson - o nome combina com o nosso.

E assim foi.

Houve formalidades, é claro. E, quando marcamos a data para a entrega de Freddie, as luzes de Natal enfeitavam as ruas da cidade e havia guirlandas penduradas em todos os lugares.

Encontrei os Pearson na sala de espera. Em seus casacos, uns flocos de neve.

- Seu filho já está aqui - lhes disse. - Vamos subir, que vou trazê-Io para vocês.

- Estou nervosa! - disse a senhora Pearson. - E se ele não gostar de nós?

Pus a mão sobre seu braço.

- Vou apanhá-Io - eu disse.

A pessoa encarregada de Freddie o vestira com uma roupa nova, branca, com um ramo de azevinho e tiutinhas vermelhas bordados na gola. Seu cabelo brilhava, um monte de cachos escuros.

- Para casa - Freddie me disse, sorrindo, quando a encarregada o colocou no meu colo.

- Eu disse isso a ele. Disse que ele estava indo para sua casa nova - ela falou.

Ela o beijou, os olhos cheios de lágrimas.

- Até logo, querido. Seja um bom menino.

- Bom menino - disse Freddie alegremente. - Para casa.

Levei-o ao andar de cima, até a sala onde os Pearson estavam esperando. Quando cheguei, coloquei-o no chão e abri a porta.

- Feliz Natal- eu disse.

Freddy deu uns passos cambaleantes, sem muito equilíbrio, olhando firmemente para as duas pessoas à frente dele. Os Pearson ficaram maravilhados.

O senhor Pearson se apoiou em um dos joelhos.

- Freddie, venha cá. Venha aqui com o papai.

Freddie olhou para trás, me procurando. Mas logo se virou e andou devagar até eles, que abriram os braços e o envolveram carinhosamente.

UMA BOA AÇÃO A MITZVAH

ARNOLD GEIER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 125

 

Era o outono de 1945 e voltei a Viena com as primeiras tropas americanas de ocupação. Estivera lá três meses antes como intérprete de alemão numa missão especial destinada a negociar a divisão da cidade em quatro zonas de aliados, parecido com o que fora feito em Berlim. Eu era fluente em alemão porque, apenas seis anos antes, emigrara de Berlim para os Estados Unidos. Assim que foi possível, me alistei no Exército americano para servir meu novo país e estava orgulhoso em vestir seu uniforme.

Numa sexta-feira à noite, sentindo saudades de casa, dirigi-me à única sinagoga que restara em Viena para assistir à cerimônia. As pessoas que vi ali davam pena. Cerca de cinquenta homens e mulheres, magros e pobremente vestidos. Falavam com sotaque ídiche e presumi que eram remanescentes de prósperas comunidades judaicas da Europa, agora reunidos naquele lugar, separados do resto do mundo. Quando viram meu uniforme americano, todos se reuniram à minha volta para ver um soldado amigo numa sinagoga. Para surpresa geral, eu era capaz de conversar com eles em ídiche fluente.

Enquanto conversávamos, percebi que minhas suspeitas estavam certas. Aquelas pessoas eram sobreviventes do Holocausto, que tinham se reunido na sinagoga para ver se podiam achar alguém, qualquer pessoa, que pudesse dar notícias de um parente ou amigo que também tivesse sobrevivido. Como não havia nenhum correio civilizado da Áustria para o resto do mundo, essas reuniões eram a única esperança para os sobreviventes terem notícias de suas famílias.

Um dos homens timidamente me pediu se eu poderia fazer a gentileza de mandar uma mensagem para um parente na Inglaterra, que ele sabia estar vivo. Eu sabia que o correio militar não é para enviar cartas de civis, mas como podia dizer não? Aquelas pessoas, que literalmente tinham vivido o inferno, precisavam que parentes preocupados soubessem que elas tinham sobrevivido. Quando concordei, todo mundo queria mandar uma mensagem.

Cinquenta mensagens eram muito mais que uma: eu tinha de pensar rápido. Anunciei, então, que voltaria à sinagoga na próxima sexta-feira à noite e receberia mensagens curtas escritas em inglês, alemão ou ídiche, colocadas em envelopes abertos. Se as cartas preenchessem tais requisitos, eu as mandaria pelo correio do Exército.

Na semana seguinte, como prometera, voltei à sinagoga.

Quando abri a porta, fiquei chocado. O lugar estava lotado, cheio de pessoas que correram em minha direção, me estendendo seus envelopes. Eram tantos que tive de pedir a alguém para me arrumar uma caixa para colocá-los. Passei a semana seguinte verificando cada mensagem por razões de segurança, me certificando de que continham apenas o permitido. Então mandei as cartas para o mundo inteiro. Eu me senti maravilhosamente bem em saber que aquelas talvez fossem as primeiras notícias para a maioria daqueles parentes, comunicando que as pessoas que amavam tinham sobrevivido aos horrores do Holocausto. "Uma boa ação, uma pequena mitzvah" - pensei.

Passou-se cerca de um mês. Aquilo tudo já estava se dissolvendo na minha mente quando o "carteiro" do Exército de repente entrou tropeçando na minha sala, carregado com sal os cheios de pacotes.

O que está acontecendo? - ele perguntou. Os pacotes que ele colocava no chão vinham de todos os lugares, endereçados às pessoas que eu encontrara na sinagoga, aos meus cuidados, cabo Arnold Geier. Eu não esperava esse resultado.

O que devia fazer?

Walter, um colega com quem trabalhara numa equipe de interrogatório, também antigo refugiado da Alemanha, riu quando viu a pilha de cartas.

- Vou ajudar você a distribuir as cartas - se ofereceu.

O que mais podíamos fazer? Eu guardara uma lista dos nomes e endereços das pessoas que tinham me dado mensagens, então pedi um jipe fechado, equipado para o inverno, e o enchi com os pacotes. À noite e pela madrugada, Walter e eu percorremos as ruas de pedra de Viena entregando pacotes para sobreviventes surpresos e agradecidos. A maioria deles vivia na zona soviética da cidade. Tínhamos de entrar naquela área tarde da noite e as patrulhas soviéticas muitas vezes nos paravam, desconfiadas. Mas éramos tecnicamente aliados, de modo que pudemos explicar que estávamos entregando pacotes a sobreviventes do terror nazista e fomos autorizados a entrar, sem problemas.

Os pacotes continuaram a chegar por mais uma semana e o volume de correspondência começou a aborrecer os encarregados do Exército. Continuamos com nossas entregas noturnas por toda Viena, mas eu estava preocupado com o descontrole surgido da minha oferta bem-intencionada.

Finalmente, uma manhã, nosso comandante me chamou ao escritório. Queria saber por que eu estava recebendo tantos pacotes. Sabendo que o oficial era judeu e assim entenderia minha motivação, decidi dizer a verdade. Admiti ter feito mau uso do correio militar para ajudar sobreviventes e fazer uma boa ação tão necessária. Não esperava que meu simples gesto se transformasse naquilo. Ele me advertiu duramente e então sorriu.

- Bem, por essa vez passa - ele disse, me dispensando.

Às vezes me lembro do caminho que minha boa ação tomou.

Sim, eu perdera o controle da situação, mas somente da maneira que acontece com uma verdadeira mitzvah: aumentando e devolvendo o bem realizado, até que tenha preenchido seu propósito.

Eu fui o instrumento escolhido para permitir que famílias ansiosas soubessem que aqueles que amavam estavam vivos.


 

OS VERÕES DOS CHUCHUZINHOS

SUSAN ARNETT-HUTSON

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 129

 

Em todos os verões no final dos anos sessenta, minhas duas irmãs e eu pegávamos o ônibus para ir do Arizona até Arkansas, ficar com papai.

Veterano da Segunda Guerra, papai tinha muitos problemas de saúde e qualquer um deles seria capaz de fazer uma pessoa perder o senso de humor. Mas não ele.

Tenho memórias vívidas de papai nos acordando de manhã.

Como havia perdido as pernas, ele andava pela casa numa cadeira de rodas, gritando: "Upa, upa, upa! Levantem-se e venham aproveitar este lindo dia!" Se não nos levantávamos imediatamente, ele repetia sua música em cadência, batendo palmas. Isso não era um teatro que fazia para nós. Cada dia era, para ele, realmente um lindo dia.

Voltando aos anos sessenta, é bom lembrar que naquela época não havia lugares para os deficientes estacionarem, nem rampas de acesso a cadeiras de rodas, como hoje, então cada ida ao mercado era uma tarefa difícil. Papai não queria ajuda de ninguém. Ele se movimentava devagar, mas seguro, assobiando o tempo todo. Como adolescente, eu sentia vergonha, mas, se papai percebia, nada dizia.

Uma vez, numa loja, ele nos encontrou na seção de maquiagem e resolveu olhar os produtos conosco. Apanhou um estojo de pó e começou a ler a etiqueta em voz alta. "Deixa sua pele macia como seda, da cabeça aos pés. Bem, isso deixa metade de mim de fora”, ele disse, rindo. Nós acabamos rindo também.

Ele tinha um talento para encontrar humor em tudo que fazia.

Aqueles verões sempre acabavam cedo demais. Ele nos levava de carro ao Arizona todos os anos. Quando lhe perguntavam no posto de controle na fronteira entre o Novo México e o Arizona se estava trazendo frutas ou vegetais, ele respondia:

"Apenas três chuchuzinhos." Já faz muito tempo que papai se foi, mas ficaram as lições que nos ensinou: você só será deficiente se permitir isso. Sei agora, tarde demais, que qualquer dos seus "chuchuzinhos" teria orgulho de andar a seu lado - assobiando - e ficaria feliz em acordar ao som de sua voz, levantar e apreciar um daqueles lindos dias.

 

Em memória de Marian Segal Arnett Jr.,

veterano da Segunda Guerra, 1928-1970


 

NÃO ME SOLTE, PAPAI

RICHARD H. LOMAX

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 131

 

Faz mais de doze anos. Às vezes parece que foi ontem, às vezes parece uma eternidade. Minha garotinha finalmente ganhou sua bicicleta. Não um triciclo, mas uma bicicleta de duas rodas. Foi o resultado de uma bem-sucedida visita a um bazar de objetos de segunda mão na vizinhança. Uma bicicleta de menina, num perfeito cor-de-rosa. Minha filha logo se apaixonou. Conseguida a pechincha, coloquei nosso novo tesouro na caminhonete e fui para casa. Mal consegui tirar a novidade do carro, pois minha filha queria começar a pedalar imediatamente! Era um dia quente e ensolarado, ideal para se aprender a andar de bicicleta.

Ser pai implica participar de uma série de acontecimentos que se encaixam de um modo ou de outro numa contradição básica: queremos que nossos filhos cresçam e sejam independentes, ao mesmo tempo que desejamos que continuem a depender de nós. Ficamos relutantes em aceitar que o amor que os filhos sentem por nós se baseia no que sentem, não no que fazemos por eles.

Posso ver minha garotinha em sua nova bicicleta. Ainda é tão pequena, mas está toda ansiosa. Sua voz rouca me pede:

- Não me solte, papai!

Com uma das mãos seguro o assento e com a outra o guidão. Corro devagar ao lado da bicicleta. Às vezes, levanto uma das mãos, mas ouço:

- Não me solte, papai!

Mesmo levando em conta as imprecisões da minha memória, lembro que ela conseguiu dominar a complexa atividade com rapidez, depois de um certo desapontamento por não adquirir perícia instantânea na matéria. Ela enfrentava o desafio com um vigoroso e quase comovente desejo de sucesso, o que viria a se tornar uma característica sua. Mais uma vez tentei largar a bicicleta.

- Não me solte, papai!

Ela almoça correndo, pois só pensa na bicicleta. Voltamos para a pista de testes, a calçada. Apesar do medo que ela sente, a cambaleante roda da frente começa a se estabilizar. Falta pouco agora. Posso sentir que sua confiança aumenta. Tenho de apressar meu passo a seu lado. Suas pernas se movimentam com renovadas força e confiança.

Que acontecimento durante a fase de crescimento de uma criança representa melhor a conquista da independência?

Aprender a andar é um início de independência. Aprender a falar e a expressar pensamentos originais é mais um passo nessa estrada. Mas são passos lentos e permitem que os pais se acostumem aos poucos. Aprender a andar de bicicleta é aprender a voar - uma experiência que quase instantaneamente dá à pessoa uma liberdade nova, permanente e irrevogável.

Chegou a hora. Há alguns minutos eu já percebera que ela conseguira alcançar o momento mágico que torna possível essa improvável forma de transporte. Minha filha percebe também.

Agora, minha mão não lhe serve mais de equilíbrio, mas a faz hesitar. Meu corpo se move pesada e desajeitadamente a seu lado e não lhe oferece mais conforto - agora faz com que perca a concentração.

- Solte, papai!

Ela acelera e sai correndo. As marias-chiquinhas voam no ar. Ela anda pelo menos uns quinze metros antes de parar num canteiro ao lado da calçada. Está radiante de felicidade.

No rosto, um sorriso que só pode ser de enorme satisfação.

Sorrio também. Não apenas por compartilhar de sua realização, mas porque me dou conta de que ela iniciou um caminho. E vai seguí-Io, tranquila.

Ser pai significa ter alegrias e tristezas. Há acontecimentos que, inexplicavelmente, causam as duas coisas ao mesmo tempo. Algumas vezes seguramos, às vezes soltamos. Uma pequena ajuda com a bicicleta. Um abraço e uma bênção na hora de ir para a escola. Como pais, somos destinados a segurar e a soltar, cada coisa na sua hora. De bom grado deixo meus filhos se lançarem em direção ao futuro. Encorajo sua independência para descobrirem suas potencialidades e seus talentos. Mas soltá-Ios? Nunca.


 

VOCÊ PODE FAZER QUALQUER COISA

TINA KARRATTI

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 135

 

Há muitos anos, meu pai recebeu o diagnóstico de uma doença cardíaca terminal. Ele se aposentou por incapacidade permanente e não podia ter um emprego fixo. Ficou bem por um período, mas de repente teve um problema e precisou ser hospitalizado.

Como queria fazer alguma coisa para se manter ocupado, ele resolveu trabalhar como voluntário no hospital infantil local. Papai adorava crianças. Era a ocupação perfeita para ele. Acabou trabalhando no setor onde estavam crianças em estado crítico e terminal.

Conversava e brincava com elas e faziam trabalhos manuais e artesanato. Às vezes, uma das crianças não resistia. Para confortar os familiares, papai lhes dizia que em breve estaria com seus filhos no Céu e cuidaria deles até sua chegada. Também perguntava ao pai ou à mãe se gostariam de mandar, através dele, uma mensagem para o filho.

As atitudes de meu pai pareciam ajudar as famílias a superar o sofrimento. Certa vez, uma menina de oito ou nove anos foi internada com uma doença rara que a paralisara do pescoço para baixo. Não sei o nome da doença ou qual o prognóstico, mas sei que tudo aquilo era muito triste para a garotinha. Ela não podia fazer nada, estava muito deprimida. Meu pai decidiu tentar ajudá-Ia. Começou a visitá-Ia no quarto, levando tintas, pincéis e papel. Ele arrumava o papel num apoio, punha o pincel na boca e começava a pintar. Ele não usava as mãos de forma alguma. Somente a cabeça se mexia. Ele a visitava sempre que podia e pintava para ela. Durante todo o tempo dizia: "Olhe, você pode fazer qualquer coisa que sua mente quiser." A menina começou então a pintar usando a boca, e ela e meu pai se tornaram amigos. Logo depois, a garotinha saiu do hospital porque os médicos acharam que nada mais poderiam fazer por ela. Meu pai também deixou um pouco o voluntariado no hospital infantil porque ficou doente. Algum tempo depois, ele se recuperou e voltou ao hospital para trabalhar no balcão de atendimento que ficava no hall de entrada. Um dia, as portas da frente se abriram. A menininha que estivera paralisada entrou, mas, dessa vez, andando. Foi até meu pai e o abraçou bem forte. Ela lhe deu um desenho que fizera usando as mãos. Na parte de baixo estava escrito: "Muito obrigada por me ajudar a andar." Papai chorava sempre que nos contava essa história - e nós também. Ele dizia que, às vezes, o amor tem mais poder do que os médicos. Meu pai - que morreu apenas alguns meses depois que a menina lhe deu o desenho - amava cada criança naquele hospital.

 

 

Você não vai aprender a ser forte, paciente e corajoso

se apenas lhe acontecerem coisas maravilhosas.

MARY TYLER MOORE

 


 

A BATALHA FINAL

SENADOR DANIEL INOUYE

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 137

 

Itália, 1945. Quando o primeiro e o segundo pelotões da Companhia E da Quadragésima Segunda Equipe do Regimento de Combate Nipo-Americano se aproximaram das defesas alemãs, podíamos ouvir o ruído de tiros de fuzil e, de vez em quando, uma metralhadora disparar à direita.

Então tudo começou, metralhadoras e granadas devolvendo os ataques em violentas saraivadas. Fui atingido por uma bala na barriga, mas continuei a me movimentar, conduzindo meus homens e ainda lançando granadas.

Quando levei meu braço para trás, num relance de luz e escuridão, eu o vi, o alemão sem rosto, como uma tira de filme rodando num projetor desregulado. Num instante eu podia vê-lo até a altura da cintura, em pé, na casamata e, no seguinte, ele estava apontando para meu rosto um rifle com lança-granadas, a uma distância de menos de dez metros. Mesmo eu levantando o braço para lançar a granada, ele atirou e sua granada explodiu no meu cotovelo direito. Olhei para meu braço pendurado e vi minha granada pendendo de um punho que, de repente, não me pertencia mais.

Passou-se um tempo e, finalmente, o socorro veio e me aplicaram uma injeção de morfina. Então me levaram para o pé da montanha.

Era o dia 21 de abril. A resistência alemã no nosso setor acabou no dia 23 de abril. Nove dias depois, a guerra na Itália tinha terminado e, uma semana depois disso, o inimigo se rendeu incondicionalmente.

Eu ainda tinha outra guerra pela frente. Quando se convenceram de que eu não ia morrer, fui transferido para o hospital-geral de Leghom. E foi lá, no dia 1 de maio, que amputaram meu braço direito. Não foi, emocionalmente, um grande problema para mim. Sabia o que ia acontecer e, de fato, por um tempo, parara de pensar no braço como se ele me pertencesse. Mas aceitar o fato e enfrentar a reabilitação eram coisas completamente diferentes. Eu me acostumei com a ideia antes da operação. Minha reabilitação começou quase imediatamente após.

Estava olhando para o teto na tarde do meu primeiro dia como amputado quando uma enfermeira chegou perto da cama e perguntou se eu estava precisando de alguma coisa.

- Um cigarro cairia bem - eu disse.

- Claro - ela sorriu e se afastou, retomando em alguns minutos com um pacote novinho de Camels. - Tome aqui, tenente - disse, ainda sorrindo, e simplesmente colocou o maço sobre meu peito e continuou a fazer seu trabalho. Por um instante, fiquei apenas olhando. Então toquei o maço com os dedos da mão esquerda, tentando imaginar como seria se eu resolvesse me aventurar a abri-lo com uma só mão. Olhei pela ala para ver se havia alguém ali que estivesse bom o suficiente para me ajudar, mas todos pareciam tão mal quanto eu: naturalmente aquela não era a ala reservada para oficiais com problemas de pé-de-atleta e cãibras. Então comecei a manusear sem jeito aquele maldito maço, segurando-o sob o queixo e tentando abri-lo com as unhas. Ele continuava a escorregar e a se afastar, eu tentando pegá-lo, suando com raiva e frustração, como se estivesse fazendo uma marcha forçada. Em quinze minutos consegui rasgar em pedaços o maço e metade dos cigarros, mas finalmente consegui colocar um deles entre meus lábios. Foi quando percebi que a enfermeira não me trouxera fósforos.

Toquei a campainha e ela veio se requebrando, sorrindo, ainda com aquela aura de animação que me fez ter vontade de lhe dar um soco.

- Preciso de um fósforo - eu disse.

- Ah, claro que precisa - ela disse, encantadora. Tirou uma caixinha de fósforos do bolso e cuidadosamente a colocou na minha mão. E foi embora novamente!

Se tivesse seguido meu primeiro impulso, teria gritado com ela, com raiva. Se tivesse seguido o segundo, teria começado a chorar. Mas, encaremos a situação, eu já era bem crescido, um oficial, e não podia deixar uma enfermeira qualquer levar a melhor. Simplesmente não podia.

Então comecei a tentar me entender com os fósforos. Eu segurava a caixa, a empurrava, virava e a deixava cair, sem nunca conseguir pegar um dos fósforos, muito menos acendê-lo. Mas, àquela altura, decidira que preferia ferver em óleo a pedir a ela qualquer coisa novamente. Então fiquei ali deitado, enfurecido, tendo pensamentos pouco cristãos em relação ao anjo da misericórdia.

Eu estava quase cochilando quando ela apareceu novamente, sempre sorrindo.

- Qual é o problema, tenente? - perguntou, com um tom de satisfação. - Decidiu deixar de fumar? Ah, mas isso é bom... cigarros fazem tossir e...

- Não consegui acender a porcaria.

Ela fez um estalido com a língua, lamentando não ter pensado nisso e sentou-se graciosamente na beirada da cama.

- Eu devia ter imaginado - ela disse, tirando da minha mão a caixa de fósforos destroçada. - Alguns amputados gostam de tentar por si mesmos. Isso lhes dá uma sensação de, digamos, realização. Mas não tem importância. Há muitas outras coisas que o senhor vai aprender sozinho. Nós apenas damos a partida.

Olhei para ela embasbacado. Eu sequer sabia sobre o que ela estava falando. A partida em quê? Quem precisava dela?

- Olhe, apenas acenda o cigarro, está bem? Faz três horas que estou tentando fumar esse troço - rosnei.

- É, eu sei. - Nada a alterava. Realmente nada. - Mas o senhor entende. Não vou estar por perto o tempo todo para acender seu cigarro. O senhor não pode depender de outras pessoas. Agora tem apenas uma mão para fazer tudo o que antes fazia com duas. E tem de aprender como. Vamos começar com os fósforos, está bem?

Ela abriu a caixa, uma daquelas que têm tampa, dobrou um fósforo para a frente, fechou a parte de cima, fez um movimento rápido com o fósforo para baixo e o acendeu. Tudo com uma só mão, em meio segundo.

- Viu só? - ela disse.

- Vi - disse num sussurro.

- Agora é a sua vez.

E eu consegui. Acendi o cigarro. E imediatamente ela deu um sorriso sincero. Foi adorável. Gostaria de me lembrar de seu nome - jamais me esquecerei de seu rosto -, mas tudo que lembro é que era de Eagle Pass, Texas, e, no que me diz respeito, a melhor das malditas enfermeiras do Exército dos Estados Unidos.

Num instante me fizera ver o trabalho que eu tinha pela frente e, nas semanas seguintes, encontrou mil maneiras sutis de me ajudar a lidar com isso. E, no ano e meio que levei para voltar a ser um cidadão com capacidade plena, ninguém jamais fez alguma coisa mais importante para mim do que aquela enfermeira na tarde em que me mostrou como acender um cigarro. Na tarde em que minha reabilitação começou.


 

DOCE COMO CHOCOLATE

ROGER DEAN KISER

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 142

 

Imagino que todos conhecemos alguém na vizinhança que fica meio isolado e tem pouco a ver com o resto da comunidade.

Você conhece o tipo, certo? Bem, eu não sou exatamente assim, embora não esteja longe disso.

Já fui casado muitíssimas vezes. Na verdade, seria embaraçoso mencionar o número exato de vezes. Todos os casamentos foram muito bons, no que me diz respeito, embora tenham terminado porque eu era incapaz de demonstrar plenamente amor ou afeição. Achava muito fácil ser agradável, bom e responsável. Quer dizer, o que há além de ser bom, generoso, honesto e responsável? Fui criado num orfanato e não imaginava que alguém pudesse dar - ou querer - mais do que isso.

Até que um dia aquela garotinha apareceu na minha porta com as mãos sujas e chocolate espalhado por todo o rosto.

- Não se mexa, quer dizer, não mexa nem um músculo gritei com ela, correndo para buscar uma toalha molhada.

"Essas crianças não conseguem fazer nada sem me criar um problema”, pensei, enquanto voltava para limpar suas mãos e seu rosto. Pelo resto do dia fiquei como um carcereiro vigiando aquela encrenqueira. Não queria que ela encostasse nas minhas coisas. Mas tudo o que ouvi foi "Posso pegar isso?" e "Posso pegar aquilo?". Pensei que ia perder o resto de cabelo que ainda tinha antes do dia acabar. Graças a Deus, o telefone finalmente tocou. Respirei aliviado, vinham buscá-la. Mas não! Eles não iriam voltar da cidade e queriam saber se eu podia ficar com ela aquela noite. Procurando uma aspirina, balancei a cabeça e me conformei: "Acho que não tenho escolha." Mais tarde, naquela noite, coloquei Chelsey para dormir e estava para sair do quarto quando ela me olhou e perguntou:

- Vovô, você me ama?

- Claro que amo! Sou seu avô! - gritei, fechando rapidamente a porta do quarto.

- Amo você também, vovô - ouvi através da porta.

Fiquei alguns segundos com a cabeça encostada na parede.

Imediatamente abri a porta e fiquei ali olhando para ela na cama. Ela se aproximou e beijou minha mão. Agarrei aquela garotinha de três anos e abracei-a o mais apertado que pude. Eu não sabia, até aquele momento, como era o sentimento do amor e nunca percebera isso - eu não o conhecia.

Agora vovô e sua menininha querida comem chocolate na poltrona favorita da vovó, até que vovó apanhe a vassoura e nos expulse para o quarto onde assistimos juntos a desenhos animados e sujamos tudo de chocolate. Essa garotinha nunca mais vai ter de perguntar a seu avô, nunca mais, se ele a ama.

É verdade que temos de aprender a amar antes de começarmos a viver de verdade, mesmo aos cinquenta e três anos.

 

Se meu coração pode se tornar puro e amoroso como o de uma criança,

acho que não deve haver felicidade maior. 

KITARO NISHIDA


 

NO BANCO

JAMES ROBINSON

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 145

 

Lembro-me de quando nosso filho Randy jogava muitíssimo bem na Liga Infantil de Futebol. Ele tinha feito uma série de gols incríveis naquele ano e ajudado seu time a chegar à final do campeonato. Era o ano de sua vida e eu, como qualquer pai, estava todo orgulhoso.

Mesmo tendo um desempenho excepcional, Randy foi diversas vezes para o banco de reservas porque os técnicos queriam dar oportunidade ao maior número de garotos possível. Sempre educado, Randy não se queixava e parecia contente em dar aos outros a chance de brilhar. Ele não estava lutando pelo lugar.

Mas eu estava!

Mais de uma vez disse ao treinador como me sentia sobre o fato. Como ele podia deixar no banco um garoto que se saíra tão bem naquele ano? Como podia substituí-lo por meninos que não se importavam tanto, nem jogavam tão bem? Ele não queria vencer? Não estava enviando os sinais errados, deixando de lado o garoto que se esforçava mais e jogava melhor?

Na verdade havia realmente sinais errados naquele campo. Mas não vinham do técnico. Era a minha impaciência, minha atitude do tipo vencer-a-qualquer-preço, que estava enviando os sinais errados!

Randy não gostava de ver o pai conversando com o técnico.

Isso o deixava nervoso e o envergonhava. Ele ficava olhando por cima do ombro, imaginando como o pai iria reagir a essa ou àquela decisão. Havia uma nuvem ameaçando aquele ano espetacular. No fundo do coração, eu sabia que minhas atitudes o aborreciam - e pedi a Deus que me ajudasse a dar uma freada naquilo.

Quando Randy foi chamado para o time juvenil, todos ficamos eufóricos. Lembro que cheguei um pouco atrasado a um dos jogos porque vinha de uma viagem e fui direto do aeroporto. Andando do estacionamento para o estádio, vi que a equipe de Randy já estava em campo e meu coração começou a bater mais depressa.

Mas onde estava Randy? Cheguei perto das arquibancadas e lá estava ele, sentado no banco. O que era aquilo? Não fazia o menor sentido! Aquele era o artilheiro do time. E ele estava começando o jogo no banco?

Sério, Randy olhou por cima do ombro, observando enquanto eu me sentava na arquibancada. Vendo a expressão de seu rosto, honestamente me senti como se pudesse ler seus pensamentos.

Ele estava pensando: "Ah, Senhor. Eu sei que papai está muito desapontado e aborrecido por me ver no banco. Meu Deus, por favor, não o deixe dizer nada, nem demonstrar o que sente." Pela graça divina, aquele foi o momento em que finalmente compreendi. Enquanto dirigia do aeroporto para o estádio, me senti impressionado por, de alguma forma, ter de convencer aquele jovem de como me orgulhava dele - e de que ele não precisava estar em campo para receber minha aprovação.

Cheguei perto da cerca e me inclinei. Meu filho olhou para cima, um pouco apreensivo.

- Randy, quero que você saiba que papai está tão contente em ver você no banco como estaria se você estivesse jogando e fazendo gols. Eu não podia estar mais orgulhoso. Você é meu filho e não tem que fazer nada para me agradar ou receber minha aprovação. Minha aprovação é de cem por cento. Amo você, meu filho.

Seus olhos se encheram de lágrimas, e ele sorriu. De alguma maneira, eu sabia que tinha tocado num ponto delicado. E agradeci a Deus de coração, pois sabia que tinha feito exatamente o que era certo.

 

 

 

Um casaco rasgado logo é consertado,

mas palavras ásperas machucam o coração de uma criança.

HENRY WADSWORTH LONGFELLOW

O DESPERTAR DE RYAN

BOB WELCH

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 148

 

Estava sentado numa banheira cheia de chapas de gesso mofadas quando meu filho de treze anos perguntou:

- Qualquer dia desses você me leva para jogar golfe?

Eu tinha um banheiro para reformar e queria dizer não, mas falei:

- Claro, qual é a sua sugestão?

- Bem, talvez você pudesse pegar meu amigo Jared e eu no colégio, na sexta-feira, e nos levar até Oakway.

- Boa ideia.

Caía uma chuva fina na sexta-feira e, olhando pela janela, pensei em desistir do programa. A escolha mais racional seria continuar trabalhando na reforma do banheiro. Mas, na hora marcada, troquei o uniforme de "cuidados com o lar" pelo de "cuidados com a chuva” e coloquei os tacos na mala do carro, os meus e os dos meninos. Em frente à escola, Ryan e Jared me esperavam. Ryan me olhou com uma expressão perplexa.

- Para que o chapéu de golfe, papai?

Era uma pergunta boba, como se alguém perguntasse a um mergulhador para que as nadadeiras.

- Bem, eu imaginei que íamos jogar golfe.

Seguiu-se uma pausa peculiar, como uma linha de telefone que ficou temporariamente muda.

- Ah, você também vai jogar? - ele perguntou.

De repente, a pergunta me atingiu como um soco no estômago.

Treze anos de paternidade passaram ante meus olhos. O nascimento. As fraldas. As mamadeiras tarde da noite. Ajudando nos deveres do colégio. Construindo fortes. Consertando bicicletas. Indo a jogos. Acampando. Indo juntos a todos os lugares meu filho e eu.

Agora, eu não tinha sido convidado. Era isso. Era o fim do nosso relacionamento da forma como eu sempre o conhecera.

Isso era: "Adios, pai, obrigado pelas lembranças, mas agora já sou grande o bastante para fazer meus próprios swings, então volte para sua cadeira de balanço e para suas palavras cruzadas." Todas essas lembranças passaram em dois segundos, como um raio, me deixando uns três segundos para responder antes que Ryan ficasse desconfiado e pensasse que eu estava realmente querendo ir jogar golfe com ele e o amigo.

Eu tinha de dizer alguma coisa. O que eu queria dizer era:

"Como você pôde fazer isso comigo? Me jogar para o lado, assim, como se eu fosse uma isca de caranguejo que não se usou?" Éramos uma dupla. Isso era abandono.

Por que tudo tinha de mudar?

Chega dessas divagações. Precisava ser sincero com ele.

Precisava dizer o quanto estava magoado. Dividir com ele meus sentimentos mais profundos. Reunir toda a coragem que encontrasse e abrir meu coração.

Então eu disse:

- Eu? Jogar? Você sabe que estou cheio de coisa para fazer com aquela reforma em casa.

Continuamos em silêncio por alguns momentos.

- Como você pretende pagar? - perguntei, meu ego ferido procurando o punhal.

- Você pode me emprestar o dinheiro?

Ah, então entendi. Ele não queria a mim, mas aceitaria meu dinheiro sem problemas.

- Tudo bem - respondi.

Deixei Ryan e Jared no clube, desejei-Ihes boa sorte e voltei para casa. Meu filho estava sozinho, agora, sem ninguém para lhe dizer como acertar uma bola difícil em declive, ou como tirar a bola da banca de areia. E se caísse um raio? E se ele tivesse hipotermia? Se fosse atropelado por um carrinho? E se aparecesse um bando de esquilos agressivos? Ele é tão pequeno. Quem tomaria conta dele?

Lá estava eu, sozinho, cada vez mais longe dele. Não apenas agora, mas para sempre. Era isso. O elo se rompera. A vida nunca mais seria a mesma.

Entrei em casa.

- O que você está fazendo aqui? - minha mulher perguntou.

Eu sabia que ia parecer um garoto de treze anos, o único da turma a não ser convidado para a festa, mas, mantendo minha hesitação imatura, falei assim mesmo, com um tom mal-humorado:

- Não fui convidado.

Seguiu-se outra daquelas pausas peculiares. Então minha mulher riu. Gargalhou. No início aquilo me magoou. Aí também ri e a situação foi se tornando mais clara.

Voltei à reforma do banheiro e comecei a entender que a vida é assim mesmo: em última análise, pais e filhos têm de mudar. Eu tinha preparado Ryan para aquele momento desde que ele nasceu: não para jogar golfe comigo, mas para se jogar no mundo sem mim. Com seus próprios tacos de golfe. Suas próprias estratégias. Sua própria confiança.

Deus estava transformando meu filho num homem.

Aumentando o espaço aqui, adicionando uma nova característica ali. Em resumo, permitindo que ele se tornasse mais do que seria se eu continuasse a protegê-lo. Exatamente como quando eu era garoto e, com a idade de Ryan, jogava minha bolsa xadrez de golfe nas costas e pedalava oito quilômetros para jogar num campo público pequeno chamado Marysville que eu imaginava ser o chiquérrimo Augusta National Golf Club.

Lembro-me como me sentia adulto, entrando na sede escura, onde a fumaça levantava da mesa de pôquer, e orgulhosamente pagando dois dólares por nove buracos. Será que gostaria que meu pai estivesse ali comigo? Não. Um garoto tem de fazer o que um garoto tem de fazer: crescer.

Voltei à reforma do banheiro. Algumas horas depois, ouvi Ryan entrar em casa. Reclamou com a mãe que não embocava seus putts, que cortava seus slices, que o campo parecia um lago.

Parecia que eu estava ouvindo alguém que conhecia bem. Com seus tênis encharcados, eu podia ouvir os passos se dirigindo ao banheiro onde eu estava trabalhando.

- Papai - ele disse, molhando o chão. - Meu jogo está horrível. Você pode me levar para jogar qualquer hora? Estou precisando de ajuda.

Tive vontade de abraçá-lo e levantar a serra que estava usando para celebrar e gritar: "Ele ainda precisa de mim!" Eu queria dizer a Deus: "Obrigado por me deixar fazer parte desse processo de transformação." Em vez disso, coloquei no rosto um olhar de pai sério e, estoicamente, disse:

- Claro, Ry, quando você quiser.


 

ÚLTIMAS PALAVRAS

H. L. "BUD" TENNEY

Histórias Para Aquecer o Coração dos Pais 153

 

Eu chegara do trabalho há uns quinze ou vinte minutos quando meu filho mais velho, Eduardo, que estava brincando do lado de fora, entrou em casa - estava muito sério. Tinha apenas seis anos à época. Marco, dois anos e meio mais novo, estava logo atrás dele.

Eu assistia ao noticiário da televisão quando Eduardo ficou na minha frente. Sabia que ele tinha alguma coisa em mente.

Meu filho podia falar comigo sobre qualquer assunto. E achava que eu tinha respostas para tudo.

Fiquei imaginando se havia alguma coisa errada ou se ia apenas me fazer uma de suas perguntas sérias sobre as regras do jogo em que estava envolvido com o irmão. Mas estava concentrado demais para esse tipo de assunto. Resolvi lhe dar toda a atenção.

Ele disse bem devagar:

- Papai, preciso falar com você.

- Tudo bem, Dudu, o que é?

- Já sou grande agora, não sou?

- Claro que é. Me diga em que está pensando.

- Não quero que você me chame mais de "Dudu", quero que você me chame de "Duda”, e não quero mais chamar você de "papai", quero chamar você de "pai".

Tendo dito isso, parecia ainda mais sério e nervoso. Dei o sorriso mais orgulhoso da minha vida.

- Tudo bem, Duda. Vou chamar você de "Duda" ou de "Eduardo" e vou esperar ansiosamente para você me chamar de "pai". Mas nunca me chame pelo nome, está bem?

Ele pareceu mais calmo e disse, numa voz forte:

- Posso ir lá fora de novo e brincar, pai?

Respondi que sim.

- Ainda quero chamar você de "papai" - disse o meu filho mais novo.

- Que coisa boa! - respondi.

Nos dias seguintes, todas as vezes que Eduardo tinha qualquer coisa para me falar, ele começava com "pai".

Mesmo se quisesse saber o que tínhamos para o jantar, perguntava: "Pai, qual é o jantar?" Não demorou muito para Marco seguir os passos do irmão.

Eu não pude deixar de sorrir. Minha mulher virou o rosto para sorrir também.

Meu filho Eduardo morreu em 1993. Um dia antes nos falamos ao telefone sobre como estava se sentindo. Seis semanas antes, ele fora submetido a uma operação para remover um câncer em um dos testículos. Mas este não fora atingido, graças a Deus.

Eduardo me disse que estava com a vista embaçada e os dedos dormentes, além de dificuldades para pronunciar as palavras. Eu lhe disse que ficaria bem. O problema era que tinha voltado a trabalhar logo depois da cirurgia. Ele concordou e disse que ia diminuir um pouco o ritmo. Os dois rimos porque sabíamos que ele não faria isso.

- Amo você, Dudu - eu disse.

- Amo você também, papai - ele respondeu com uma risada adorável.

- Boa-noite, Dudu.

- Boa-noite, papai - ele disse ao desligar.

Foram as últimas palavras que trocamos. No dia seguinte, lá pelo meio-dia, soube que Eduardo estava no hospital. Quando cheguei, ele estava em coma. A tarde, o médico nos avisou que um aneurisma se rompera no cérebro do meu filho. Ele morreu à noite, às sete horas e seis minutos.

Enquanto eu estava rezando por sua vida, muitas coisas me passaram pela mente. Sobretudo, serei sempre agradecido a Deus pelas últimas palavras de meu filho. Não ficara nenhuma questão pendente entre nós. Tivéramos um bom relacionamento. Embora sua morte tenha sido obviamente dolorosa - para ele física e para mim emocionalmente -, a inocência e a doçura daquela recordação da infância partilhada por nós ofereceram uma lembrança comovente para um pai que viu seu filho partir cedo demais.

 

 

 

Não há amizade, não há amor que se compare ao amor de um pai pelo filho.

HENRY WARD BEECHER

 


 

QUANDO ESTAMOS SOZINHOS PODEMOS DANÇAR

BETH ASHLEY

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 9

 

O navio estava cheio de passageiros, muitos deles aposentados, todos animados para os próximos três dias de divertimento.

Na minha frente, no corredor acarpetado, vi uma mulher pequena com uma calça marrom de poliéster, ombros curvados, cabelos brancos e bem curtos.

Pelo alto-falante, a familiar Begin the Beguine, com Arrie Shaw. De repente, aconteceu uma coisa maravilhosa.

A mulher, sem perceber que havia alguém atrás dela, começou a balançar e sacudir. Estalava os dedos. Girava os quadris.

Fazia passos rápidos e graciosos - para a frente, arrastando os pés, para o lado.

Quando alcançou a porta que levava ao restaurante, ela parou, deixou sua dança para trás e entrou no salão como se fosse outra pessoa.

Na verdade, voltou a ser aquela senhora corcunda.

Muitas vezes eu me lembro dessa cena. E penso nela agora, no dia do meu aniversário. Muita gente nem imagina que eu ainda possa dançar.

Os jovens pensam que as pessoas da minha idade não têm mais direito a música, romance, dança ou sonhos.

Eles nos veem como a idade nos moldou: camuflados em rugas, cinturas grossas e cabelos grisalhos.

Não veem todas as outras pessoas que existem dentro de nós.

Mostramos ao mundo uma certa aparência porque essa é a regra que o costume impõe. Somos os velhos sábios amalucados, as dignas matronas.

Não temos liberdade de movimento para deixar as outras pessoas que existem em nós agirem - ou para usar nossas outras vidas.

Ninguém imagina, por exemplo, que ainda sou a moça magrinha que cresceu num lindo lugar perto de Boston.

Dentro de mim, ainda me vejo como a mais nova de quatro filhos de uma família feliz, com uma linda mãe e um pai sempre alegre. Não importa que meus pais já tenham morrido há muito tempo e que sejamos agora apenas três irmãos.

Ainda sou a criança meio presunçosa, acostumada com carrões e empregadas - embora meu pai tenha perdido seu dinheiro na Grande Depressão e eu viva hoje em dia de contracheque em contracheque.

 

 

Você nunca perde amando. Sempre perde deixando de amar.

BARBARA DE ANGELIS


 

A CICATRIZ

JOANNA SLAN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 11

 

Ele passou o dedo polegar suavemente sobre a pele da minha face. a cirurgião plástico, uns quinze anos mais velho do que eu, era bastante atraente. Um homem viril, de olhar intenso, quase irresistível.

- Humm - o médico fez calmamente. - Você é modelo?

"Isso só pode ser uma piada. Ele está de brincadeira?", pensei, procurando em seu rosto bonito sinais de zombaria. Não tinha como alguém jamais me confundir com uma modelo. Eu era feia. Minha mãe costumava casualmente se referir à minha irmã como "minha filha bonita”. Qualquer um podia ver que eu era feia. Afinal, eu tinha a cicatriz para provar.

O acidente tinha acontecido quando eu estava na quarta série. Um menino da vizinhança lançou um pedaço de concreto que bateu na lateral do meu rosto. Um médico do pronto socorro juntou com pontos os fragmentos da pele machucada da face e suturou a carne em pedaços do lado de dentro da boca.

Pelo resto do ano usei um enorme curativo da maçã do rosto ao queixo, cobrindo a feia cicatriz.

Algumas semanas após o acidente, um exame de vista revelou que eu era míope. Acima do desajeitado curativo havia, agora, um grande e pesado par de óculos. À volta da cabeça, um monte de cachos crespos, que parecia bolor crescendo num pão velho. Para economizar, mamãe me levara a um salão de beleza-escola, onde uma aprendiz cortara meu cabelo. A moça, super cuidadosa, usou alegremente a tesoura, fazendo empilhar tufos de cabelo no chão. Quando o instrutor veio conferir, o mal estava feito. Seguiu-se uma rápida conferência e acabamos ganhando um vale para um penteado grátis na próxima visita.

- Bem - meu pai suspirou -, você sempre será bonita para mim. - E, hesitando, acrescentou: - Mesmo que não seja para o resto do mundo.

Tudo bem. Obrigada. Como se eu não pudesse ouvir as brincadeiras das outras crianças na escola. Como se não pudesse ver como era diferente das outras meninas que as professoras paparicavam. Como se eu, às vezes, não desse uma olhada em mim mesma no espelho do banheiro. Numa cultura que valoriza a beleza, uma menina feia se sente exilada. Minha aparência me causava uma dor sem fim. Eu me sentava no quarto e chorava toda vez que a família via na tevê um concurso de beleza ou um show "caça-talentos".

Finalmente decidi que, se não podia ser bonita, seria, pelo menos, bem-arrumada. Os anos foram se passando e aprendi a pentear o cabelo, a usar lentes de contato e a tirar proveito da maquiagem. Observando o que funcionava para as outras mulheres, aprendi a me vestir valorizando meu tipo. E agora eu estava noiva para casar. A cicatriz, que ficou menor e esmaecida com a idade, se interpunha entre mim e uma vida nova.

- Claro que não sou uma modelo - respondi com uma certa dose de indignação.

O cirurgião plástico cruzou os braços sobre o peito e me olhou, como se estivesse me avaliando.

- Então por que você está preocupada com a cicatriz? Se não há uma razão profissional para removê-Ia, o que a trouxe aqui hoje?

De repente, ele representava todos os homens que eu já conhecera. Os oito garotos que, na adolescência, recusaram meu convite para uma festa onde as meninas é que tinham de chamar os meninos. Os poucos rapazes com quem saí quando estava na faculdade. Os vários homens que me ignoraram desde então. O homem cujo anel eu usava na mão esquerda. Toquei meu rosto. A cicatriz confirmava: eu era feia. A sala parecia girar e meus olhos se encheram de lágrimas.

O médico puxou uma banqueta para perto de mim e se sentou. Seus joelhos quase tocavam os meus. Sua voz era baixa e suave.

- Deixe-me dizer o que eu vejo. Vejo uma bela mulher. Não uma mulher perfeita, mas uma mulher bonita. Lauren Hutton tem os dentes da frente separados. Elizabeth Taylor tem uma cicatriz bem pequena na testa - ele disse, quase sussurrando.

O cirurgião parou de falar e me estendeu um espelho.

- Tenho para mim que toda mulher notável tem uma imperfeição e acredito que esta imperfeição faz sua beleza mais notável, porque isso nos garante que ela é humana.

Ele empurrou a banqueta e se levantou:

- Eu não vou tocar na cicatriz. Não deixe ninguém fazer brincadeiras sobre seu rosto. Você é encantadora do jeito que é.

A beleza, na verdade, vem de dentro da mulher. Acredite. Saber isso faz parte da minha especialidade.

E ele saiu.

Eu me olhei no espelho. Ele tinha razão. De alguma maneira, através dos anos, aquela criança feia se tornara uma mulher bonita. Desde aquele dia no consultório do médico, já ouvi muitas vezes, dito por homens e mulheres, que sou bonita. E sei que sou.

Quando mudei minha maneira de me ver, os outros foram forçados a mudar o modo como me viam. O médico não removeu a cicatriz do meu rosto, ele removeu a cicatriz da minha alma.


 

SEGUNDA PELE

CAROLINE CASTLE HICKS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 15

 

Meu velho par favorito de jeans nunca mais caberá em mim.

Finalmente aceitei esta verdade imutável. Depois de ter tido dois filhos a quem amamentei, meu corpo sofreu uma metamorfose.

Posso ter voltado ao meu peso de antes, mas mudanças sutis e expansões aconteceram - minha própria versão de um deslocamento continental. Quando adolescente, nunca entendi a diferença entre tamanhos de criança e de moças. As roupas de moças pareciam de gente velha. Agora é tão claro que cinturas de vespa e bumbuns minúsculos são armadilhas fugazes da juventude. Mas está tudo bem porque, enquanto os velhos jeans não fecham mais, a vida que troquei por eles me cabe melhor que tudo.

Para mim, é uma época da vida de pés descalços, shorts e camiseta. Rapidamente me ambientei à maternidade em idade jovem. É o melhor papel que já representei. Nada de costuras apertadas, zíperes atrapalhando. Apenas um sentimento de que saí do quarto de vestir com algo que finalmente me cai bem. Adoro sentir o bebê no meu colo: sua cabecinha cabe direitinho debaixo do meu queixo, as mãozinhas se espalhando como pequenas estrelas-do-mar cor-de-rosa nos meus braços.

Adoro o jeito com que minha filha de oito anos anda ao nosso lado enquanto atravessamos o estacionamento ensolarado do mercado. Nos lindos dias de primavera a brisa levanta seu delicado rabo-de-cavalo e rimos ao ver como o sol faz o bebê fungar e apertar os olhinhos. Quero sempre estar com eles, como uma costureira diante de duas medidas de seda perfeita, imaginando o que fazer com elas, embora hesitante em alterá-Ias, com medo de perder o peso de sua inteireza.

Nas poucas manhãs em que acordo antes deles, entro em seus quartos e os olhos enquanto dormem, os rostos amarrotados e rosados. Finalmente se contorcem e se espreguiçam, prontos para um abraço. Eu os pego em meus braços, enterro meu rosto neles e respiro fundo. São como toalhas que acabei de tirar da secadora, macios e quentinhos.

Às vezes eu sigo as vozes das meninas no quarto da minha filha, onde ela e as amigas brincam, todas arrumadas, entaladas até o joelho num chiffon de bazar caseiro, experimentando a vida através das roupas. Exageradas e envaidecidas diante do espelho, se enfeitam com contas baratas e colocam tiaras de lantejoulas e papelão. Vejo essas meninas com seus cabelos lisos e brilhantes que elásticos e fivelas não conseguem domar. Estão sempre ajeitando fios rebeldes atrás das orelhas e, nesse gesto adulto, vejo lampejos das mulheres em que se transformarão.

Sei que muito em breve essas nuvens de organdi e renda ficarão para sempre em caixas amassadas, as que agora servem de baús de tesouros e tronos de princesas. Vão se tornar trajes inúteis da meninice de minha filha que serão devolvidos para mim.

Por ora, entretanto, meus filhos se aninham comigo no sofá à noite, muitas vezes adormecendo, braços e pernas bambos e macios contra o meu corpo, como as dobras de uma camisola bem usada. Por ora ainda enfeitamos uns aos outros, e eles ficam felizes em serem vestidos pelo meu abraço. Sei que vão existir situações que serão como usar suéteres de lã malfeitos e salto de um centímetro. Temos de, juntos, experimentar novos modelos, puxando e amassando, mas tentando deixar o tecido básico intacto. Nesse ponto, teremos tecido uma complicada tapeçaria de padrão peculiar, com seus fios puxados, esgarçada e rasgada.

Mas não vou me esquecer desta época, das cabeças sonolentas no meu ombro, de pijamas com pezinhos e vestidos iguais para mãe e filha, de mãozinhas agarradas na minha mão. Esta época me cai bem. Tenho planos de usá-Ia da melhor maneira possível.

 

 

 

Vejo a educação de uma criança não só como um trabalho de amor e um dever, mas como uma profissão tão interessante,

desafiadora e honrosa como qualquer outra no mundo e

 aquela que exigiu de mim o melhor que eu podia dar.

ROSE KENNEDY

 


 

UM DE CADA VEZ

JAROLDEEN EDWARDS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 18

 

Era um dia muito frio e chuvoso e eu não tinha a menor vontade de dirigir da praia até a montanha gelada em Lake Arrowhead, onde minha filha Carolyn morava.

Uma semana antes, ela telefonara insistindo que eu fosse ver os narcisos que algumas mulheres tinham plantado no alto da montanha. Assim, aqui estava eu, fazendo, relutante, a viagem de duas horas.

Quando vi como o nevoeiro estava espesso na estrada cheia de vento que levava ao alto, já estava longe demais para voltar.

Então, avancei pela perigosa autoestrada chamada Aba do Mundo, na direção da casa de minha filha.

- Não dirijo nem mais um metro! - anunciei. - Vou parar e almoçar e, assim que o nevoeiro baixar, vou descer.

- Mas eu preciso que você me leve até a garagem para eu pegar meu carro - Carolyn disse. - Não podemos pelo menos fazer isso?

- Quanto tempo até lá? - perguntei, prudente.

- Uns três minutos - ela respondeu. - Deixe que eu dirijo, estou acostumada.

Depois de dez minutos de estrada e olhei para ela ansiosamente.

- Entendi você dizer que era coisa de três minutos.

Ela sorriu:

- É um desvio.

Voltamos à estrada da montanha, com um denso nevoeiro.

"Nada pode valer isso", pensei. Mas era tarde demais para voltar. Dobramos num caminho estreito que levava a um estacionamento ao lado de uma pequena igreja de pedra. O nevoeiro começava a ceder e uns raios de sol, ainda fracos, num lusco-fusco, tentavam passar por ele.

Carolyn saiu do carro e eu, relutante, a segui. O caminho que seguimos era cheio de agulhas de pinheiros. E a montanha se derramava bem à direita.

Aos poucos, a paz e o silêncio do lugar começaram a relaxar minha mente. Foi quando, virando uma curva, prendi a respiração, maravilhada. Do alto da montanha, descendo por vários acres entre recôncavos e vales, entre árvores e arbustos, seguindo o terreno, havia rios de narcisos de um viço radiante. Cada matiz do amarelo - do mais pálido marfim ao mais profundo limão até o mais vivo salmão-laranja - resplandecia como um tapete à nossa frente.

Era como se o sol tivesse deixado cair gotas de ouro em riachos montanha abaixo. No centro dessa coloração fantástica havia jacintos roxos, que caíam como em cascata. Por todo o jardim havia plataformas para meditação, enfeitadas com barris de tulipas cor de coral. E como se essa mina de cores não bastasse, acima dos narcisos, azulões se moviam rapidamente e brincavam, com seus peitos cor de magenta e asas de safira, como se fossem joias em movimento.

Uma profusão de perguntas encheu minha mente: Quem criou tal beleza nesse lugar afastado? Quanto tempo levou para fazer um jardim tão magnífico? Como?

À medida que nos aproximávamos da casa que ficava no centro da propriedade, vimos um cartaz: Respostas às perguntas que eu sei que você está fazendo.

A primeira resposta era Uma Mulher - Duas Mãos, Dois Pés e Muito Pouco Cérebro. A segunda era Iniciado em 1958. E a terceira, Um de Cada Vez.

Voltando para casa, fiquei em silêncio no carro. Estava tão emocionada com o que vira que mal podia falar.

- Ela mudou o mundo - eu disse finalmente. - Um bulbo de cada vez. Pense só. Ela começou há mais de cinquenta anos.

E o mundo ficou para sempre diferente e melhor porque ela fez um pouco com um esforço constante.

A maravilha que eu presenciara não me saía da cabeça.

- Imagine se eu tivesse tido uma visão e trabalhado nela, um pouquinho a cada dia, por todos esses anos perdidos. O que eu teria realizado?

Carolyn me olhou de lado, sorrindo.

- Comece amanhã - ela disse. - Melhor ainda, comece hoje.

 

 

Se eu tivesse dois pedaços de pão, eu venderia um e compraria jacintos, porque eles alimentariam minha alma.

ALCORÃO


 

O ESPELHO TEM TRÊS FACES

KRISTINA CLIFF-EVANS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 22

 

Tenho cinquenta e um anos. A idade de minha mãe quando morreu. Lembro-me claramente do seu último dia de vida. Era uma segunda-feira chuvosa e minha mãe não conseguia respirar.

- É fluido - disse o médico. - Vamos extrair o líquido dos pulmões.

Sentaram minha mãe na cama do hospital e introduziram uma longa agulha em suas costas. Tentaram repetidas vezes, mas não conseguiram retirar qualquer líquido. Nem aliviar sua dor.

- Não há fluido - o médico disse. - É só tumor. Não podemos ajudá-la a respirar.

Lembro as palavras desesperadas de minha mãe:

- Não consigo respirar. Aumentem o oxigênio por favor.

Mas aumentar o oxigênio não ajudou. Seus pulmões, tomados pelo câncer, lutavam pelo ar. Minha mãe sussurrou para mim suas últimas palavras:

- Quero que seja bem rápido.

Minha mãe devia ter envelhecido. Seu cabelo escuro, salpicado de cinza, devia ter se tornado branco como neve. As linhas do rosto, delineadas pelos sorrisos, deviam ter-se tornado rugas suaves. Seu caminhar rápido devia ter-se tornado um andar mais lento, mais maduro.

Minha mãe devia ter vivido para ver seus cinco netos crescerem. Para envolvê-los com seu jeito de amar tão especial e ensinar-lhes coisas com sua sabedoria. Ela devia ter partilhado, mão na mão, seus anos dourados com papai - ela foi a única mulher a quem ele amou. Mas nada disso aconteceu. Ela não estava mais aqui, nunca teve a oportunidade. Tinha cinquenta e um anos e morreu.

Eu tinha vinte e sete anos, então. Ao longo dos anos, nunca se passou um dia sem que eu pensasse em alguma coisa que quisesse lhe dizer, perguntar ou mostrar a ela. Eu me revoltava contra a injustiça dessa situação. Não era justo minha mãe ter morrido com cinquenta e um anos.

Agora sou eu que tenho cinquenta e um anos. Olho no espelho e me espanto: sofri transformações lentas, mas inegáveis. Ali está ela com seu cabelo salpicado de cinza, os olhos escuros e intensos, aquela expressão no meu rosto. Quando ouço minha voz, é a voz dela. Eu me tornei minha mãe.

Estou entrando num novo e estranho estágio da vida. Eu sempre olhei adiante para ver minha mãe. Num instante cheguei perto dela. Agora estou começando a ficar mais velha que minha mãe. A direção em que eu olhava para vê-la vai mudar.

Em breve terei de olhar para trás.

Aos poucos, minha mãe vai se tornar jovem em comparação a mim. No lugar dela, quem vai ficar velha sou eu - sou eu quem vai ficar com a cabeça branquinha, do jeito que ela devia ter ficado. Quem vai ficar com aquele modo de andar mais maduro, quem vai ver as rugas suaves que ela nunca viu. E isso vai continuar até o dia em que eu tiver setenta e cinco anos, a idade que ela teria hoje. Nesse dia, completada a inversão de papéis, eu me virarei para ela a fim de olhá-Ia, mas verei, no seu lugar, minha própria filha, com cinquenta e um anos - minha mãe.

 

Sou um reflexo das minhas gerações passadas

e a essência das que vêm depois de mim.

MARTHA KINNE


 

O MELHOR DE TODOS OS DISTINTIVOS

GERRY NISKERN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 25

 

Quando me tornei escoteira, minha mãe me contou esta história acontecida com a sua tropa de escoteiras há muito tempo, durante a Segunda Guerra Mundial.

 

Na manhã de um sábado gelado de dezembro, as meninas de onze anos da nossa tropa de escoteiras se reuniram, agitadas, no ponto de ônibus, onde já estava nossa chefe, a Sra. Taylor. Carregávamos grandes bolsas de papel com frigideiras, tigelas e artigos diversos de mercearia. Nesse dia, há muito esperado, nós, as garotas da Tropa 11, iríamos receber nossos distintivos de cozinheiras.

- Nada é tão saboroso quanto a primeira refeição que você mesma faz, especialmente quando se cozinha a lenha, num acampamento dizia, sorrindo, a Sra. Taylor.

Teríamos de fazer três baldeações até nosso destino, no deserto. No primeiro ônibus, estávamos todas agarradas aos nossos produtos como se fossem bolsas de joias. Diversas mães tinham contribuído generosamente com preciosos cupons de racionamento para que pudéssemos comprar o material para um verdadeiro café da manhã: panquecas com manteiga de verdade, bacon e até um pouco de açúcar mascavo para urna calda caseira! Nós, as escoteiras, receberíamos nossos distintivos apesar da adversidade, apesar da guerra. Nas nossas cabeças, não estávamos apenas aprendendo a cozinhar no deserto, estávamos fazendo nossa parte para manter a vida seguindo seu curso no front doméstico.

Finalmente chegamos ao Parque Papango, um lindo refúgio no deserto, cheio de árvores de tronco verde, arbustos cinzentos e maciças formações de rocha vermelha. Quando começamos a caminhar pela estrada de barro que conduzia ao parque, um caminhão do exército americano, cheio de prisioneiros de guerra alemães, passou por nós, indo também na direção do parque.

- Lá vão aqueles alemães! - disse urna das garotas, com desprezo. - Eu os odeio!

- Por que eles tiveram de iniciar a guerra? – urna outra reclamou. - Meu pai está fora há tanto tempo.

Nós todas tínhamos pais, irmãos ou tios lutando na Europa.

Com determinação, chegamos até o local do nosso acampamento e logo o bacon estava crepitando nas frigideiras, enquanto as panquecas ficavam com as beiradas douradas.

A refeição foi um sucesso. A previsão da Sra. Taylor sobre nosso prazer gastronômico estava correta.

Depois de comermos, urna das meninas começou a cantar urna canção de escoteiros enquanto limpávamos o espaço que tínhamos usado. Urna a urna, todas nós nos juntamos a ela. Nossa chefe iniciou urna outra canção e continuamos a cantar com entusiasmo.

Foi quando, inesperadamente, ouvimos vozes masculinas. Urna linda melodia cantada em tons profundos e fortes encheu o ar de dezembro e chegou até nós.

Erguemos o olhar para ver a caverna natural em forma de concha formada pelas grandes pedras vermelhas, chamada Buraco na Rocha, onde estavam agora os prisioneiros alemães e seus vigias.

Quando os soldados estrangeiros terminaram a canção, nós começamos outra. Responderam com outra persistente melodia. Não compreendíamos urna só palavra do que diziam, mas, para nosso prazer, nós continuamos a trocar canções na clara manhã do deserto.

Finalmente uma das garotas começou a cantar Noite Feliz e nós todas juntamos nossas vozes ao cântico de Natal. Seguiram-se alguns momentos de silêncio e então... a melodia, tão familiar, voltou para nós:

"Stille Nacht, Heilige Nacht..." - Como eles podem saber nossos cânticos de Natal? - uma das meninas perguntou à chefe. Eles são inimigos do nosso país!

Continuamos a ouvir com admiração. Por um momento peculiar e inesquecível, os homens na caverna se tornaram pais e irmãos de alguém e eles nos viram como suas amadas filhas e irmãs.

Nos anos que se seguiram provavelmente outras pessoas olharam nossos novos distintivos como prova de que poderíamos cozinhar a lenha, num acampamento. Mas, para nós, eles eram lembranças da necessidade de paz, de uma estranha transformação que aconteceu numa época de Natal.


 

UM PRESENTE PARA ROBBY

TONI FULCO

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 33

 

O pequeno Robby, sobrinho de nossa vizinha, tirou, com cuidado, uma colherada de sua ração de água, colocou o líquido num pires e se dirigiu à porta. Como eu odiava aquele racionamento de água! Éramos forçados a tomar banho sem sabonete no pequeno reservatório que dividíamos com Jessie, nossa vaca. Ela era tudo que tínhamos agora. Os poços estavam secos, a safra tinha virado pó, levando nossos sonhos, durante a pior seca já vista em nossa pequena comunidade rural.

Segurei a porta de tela para Robby e o observei, sorrindo, enquanto ele sentava, devagar, nos degraus. Parecia um anjo, com dúzias de abelhas à volta de seus cachos desalinhados, como se formassem um halo. Ele imitava o zumbido, o que as atraiu para o pires a fim de beber o precioso líquido.

As palavras de sua tia ecoavam nos meus ouvidos:

"Não sei o que estava pensando quando fiquei com ele. Os médicos dizem que ele não se machucou no acidente que matou minha irmã, mas ele não fala. Tudo bem, faz uns ruídos, mas que não são humanos. Ele vive num mundo particular, este garoto positivamente não é como meus filhos." Por que ela não conseguia ver os dons maravilhosos que aquele menino de quatro anos possuía? Meu coração doía por Robby. Ele se tornara a melhor parte de nosso mundo, me ajudando, animado, com o jardim, andando no trator ou carregando feno com meu marido. Ele fora abençoado com uma natureza amorosa e uma profunda admiração por todas as coisas vivas, e eu sabia que ele podia conversar com os animais.

Nós nos alegrávamos com as descobertas que ele, feliz, dividia COI1OSco. Seus olhos marrons, inquisitivos e, muitas vezes, inquietos, espalhavam total compreensão do que era dito. Eu gostaria de adotá-Io. Sua tia já sugerira isso muitas vezes. Nós nos denominávamos mamãe c papai para Robby e, antes da seca, faláramos sobre adoção. Mas os tempos eram tão duros que eu não tinha como abordar o assunto com Tom. O trabalho que ele fora obrigado a aceitar na cidade para comprar comida para Jessie e suprir nossas necessidades básicas já cobrava um alto preço a seu espírito.

A tia de Robby, sem hesitar, concordou com o pedido que o menino passasse o verão em nossa casa. De qualquer maneira, ele estava conosco todos os dias. Enxuguei uma lágrima, lembrando como ele parecia pequeno e frágil quando rapidamente colocou sua mão na minha e me entregou um saco amarrotado de papel pardo. Nele havia duas camisetas desbotadas que tínhamos comprado para ele na feira do condado no ano passado e um par de

shorts bastante surrados. Isso e as roupas que levava no corpo eram seus únicos pertences, com a exceção de um objeto muito estimado.

Numa corda de seda à volta do pescoço estava pendurado um apito feito a mão. Tom o fizera no caso de Robby estar perdido ou em perigo. Afinal de contas, ele não podia gritar por socorro. O garoto sabia perfeitamente que o apito não era um brinquedo. Era apenas para emergências e, se ele apitasse, Tom e eu iríamos correndo. Eu lhe contara a história do menino que dera um alarme falso e sabia que Robby me entendera.

Dei um suspiro enquanto secava e guardava a louça do jantar. Tom entrou na cozinha e apanhou a bacia de lavar louça.

Toda gota de água reciclada era usada na pequena horta que Robby plantara ao lado da varanda. Ele se orgulhava tanto dela que tentávamos desesperadamente salvá-Ia. Mas, sem chuva, logo estaria perdida. Tom pôs a bacia no balcão e me disse:

- Sabe, querida - ele começou -, tenho pensado muito sobre Robby ultimamente.

Meu coração começou a bater, ansioso, mas, antes que ele continuasse, um som agudo veio do jardim, fazendo-nos pular.

"Meu Deus! É o apito de Robby!" Quando chegamos à porta, o apito silvava febrilmente. Visões de uma cascavel me vinham à cabeça enquanto corríamos para o jardim. Corremos até Robby, que apontava freneticamente em direção ao céu sem deixar que tirássemos o apito de sua mão.

Olhamos na mesma direção e tivemos a mais bela das visões.

Nuvens de chuva, enormes nuvens de chuva, pretas de dar medo!

Robby, ajude, depressa! Precisamos de todos os recipientes!

O apito caiu de seus lábios e ele correu comigo até a casa. Tom correu em direção ao celeiro para trazer uma velha tina. Quando todos os baldes foram colocados no jardim, Robby voltou às pressas para a casa. Veio com três colheres de madeira que apanhou na gaveta. Ficou com uma e entregou as outras para Tom e para mim.

Apanhou um pote de mantimento dos grandes e se sentou, de pernas cruzadas. Virou o pote ao contrário e, com a colher, marcava um ritmo. Tom e eu pegamos outros potes e nos juntamos a ele.

- Chuva para Robby! Chuva para Robby! - eu entoava a cada batida.

Uma gota d'água bateu no meu pote, depois outra.

Logo o jardim estava completamente encharcado por uma chuva gloriosa. Ficamos ali parados, rostos erguidos, para sentir o luxo daquela chuva. Tom pegou Robby no colo e dançou entre os baldes, gritando com alegria e entusiasmo. Foi quando ouvi - suavemente a princípio, depois cada vez mais alto - a risada mais maravilhosa, impetuosa e alegre. Tom se virou para me mostrar o rosto de Robby. Com a cabeça pendendo para trás, ele estava rindo alto, claramente! Eu abracei os dois, deixando as lágrimas se misturarem com a chuva. Robby soltou Tom e se agarrou no meu pescoço.

- Do W-W-Wobby! - ele gaguejou. Estendendo sua mãozinha, como se para colher a chuva que caía, ele riu novamente.

- Suva... do W-W-Wobby... Mamã - ele sussurrou.


 

PRONTA PARA PATNAR

BETSY HALL HUTCHINSON

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 36

 

Meus olhos pararam no item idade do formulário que estava preenchendo para alugar os patins in-line. Será que era mesmo necessário colocar no papel o número que me rotulava como cidadã idosa? Minha idade não parecia apropriada à atividade. Mas qual seria a idade "correta”? Que número eu deveria escrever?

Apesar desse pequeno desvio de pensamento, não pude resistir à oportunidade de ouro: depois de mais de quarenta anos de formadas, seis amigas da época do segundo grau estavam se reunindo para um fim de semana na praia.

Dorothy trouxera seus patins in-line para aproveitar as calçadas lisas, largas e cheias de curvas. Algumas de nós estávamos ansiosas para nos juntarmos a ela nessa aventura. Outras hesitavam. As desculpas eram várias: "Não patino desde a época da escola”, "Meu joelho não está bom”, “Tenho medo de me machucar", "Patins in-line são diferentes dos roller”.

Cada uma de nós ficava mais agitada à medida que experimentava as joelheiras, os patins e as munhequeiras (nesta ordem) de Dorothy. Gentilmente auxiliadas por ela, decidimos tentar dar uma volta perto de uma parede, o que imaginávamos ser mais seguro. Ajudava o fato de algumas de nós saberem esquiar - movimento de parar parecia semelhante.

Quando começamos a trocar socos com aquela que estava sobre os patins e a discutir como crianças para saber de quem era a vez de patinar, sabíamos que estávamos prontas. Estávamos todas dispostas a alugar o equipamento.

Era inegável meu entusiasmo! Aquela sensação na sola dos pés me levou de volta à infância. Ainda me lembro do gostoso clique-clique-clique de quando corria a toda velocidade sobre as fissuras dos quadrados de cimento das calçadas da minha cidade natal.

Naquela época, as ruas, as calçadas e terrenos vazios da vizinhança eram nosso playground. Sob a sombra de árvores majestosas, o grupo de crianças patinava, pulava corda, brincava de amarelinha e andava de bicicleta durante todo o verão. As mais velhas organizavam projetos mais ambiciosos: carnavais, produções teatrais, exposições de cachorro e desfiles. Os irmãos menores ficavam de ajudantes.

Ao pôr-do-sol nos reuníamos sob as árvores para tocar violão e cantar.

Mas em qualquer dia do verão eu estava sobre meus patins roller, com a chave dos patins balançando num fio de algodão encardido pendurado ao redor do pescoço, os joelhos cheios de cascas de machucados, Normalmente realizávamos nossas proezas mais ousadas descendo a ladeira íngreme que levava à rua seguinte no final do nosso quarteirão. Em altíssima velocidade, descíamos berrando até pararmos lá embaixo, com uma guinada de corpo para a esquerda. Batíamos ruidosamente contra uma porta de garagem estrategicamente localizada. A porta (para desprazer do dono da casa) estava permanentemente marcada com uma fileira de mãos de crianças.

Agora, quase cinco décadas depois, alegremente protegida por joelheiras e munhequeiras, tendo nos pés os patins alugados, sigo Dorothy (minha amiga desde a quarta série) pelo caminho que leva ao passeio largo e liso, onde poderemos realmente decolar. Virando a cabeça, Dorothy sorri para mim e diz:

Agora temos oito anos!

Com certeza - concordo, Este era o número que eu estava procurando.

 

 

Vou envelhecer, mas sem perder o gosto pela vida,

porque a última curva da estrada vai ser a melhor.

HENRY VAN DYKE


 

AS MULHERES QUEREM LINGERIE

ROBERT FULGHUM

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 40

 

"As mulheres PRECISAM de roupa de baixo, mas QUEREM lingerie." Essa frase do presidente da Victoria's Secret abria uma grande matéria na revista Forbes. "Ele deve conhecer o assunto, já que tem seiscentas lojas e uma companhia com um catálogo de vendas de dois bilhões de dólares para respaldar tal afirmativa", pensei. De alguma forma, hoje posso atestar que isso é verdade.

Estava em um shopping center em Cleveland fazendo hora antes de ir a um lançamento de livro e passei numa loja da Victoria's Secreto Entrei, olhei as peças, a vendedora ofereceu ajuda. Enquanto conversávamos, a moça me contou que a loja começara como um lugar onde um homem poderia comprar lingerie para agradar uma mulher. Agora, o objetivo era conquistar mulheres que quisessem agradar a si mesmas - que desejassem se sentir bonitas e sensuais.

Enquanto falávamos, percebi uma senhora vestida de forma conservadora que entrou devagarinho na loja, com um deliberado ar de dignidade. Examinou as peças delicadas nas prateleiras. Sentia as texturas dos tecidos de vez em quando. Dispensando a ajuda da vendedora, a senhora saiu da loja. Quando eu saí, vi que ela estava em frente à vitrine, olhando atentamente a lingerie exposta.

Uma hora depois, passei novamente no corredor e vi a mulher no mesmo lugar, em pé, enxugando os olhos com um lenço, Chorando.

- Desculpe, não pude deixar de perceber a sua aflição. Está tudo bem?

Não, não estou bem. Estou apaixonada. - E ela me contou a sua história, do jeito que as pessoas só fazem com quem não conhecem.

Era uma viúva de setenta e dois anos. Filhos criados, netos. E tudo mais.

Num impulso fora à festa de comemoração de cinquenta anos de formatura de sua antiga turma da faculdade, em St. Louis. E ele estava lá. O homem por quem fora apaixonada naquela época. Completamente apaixonada. Sua família proibira o casamento por considerá-lo de classe inferior, segundo seus padrões. Ela fora enviada à Costa Leste para terminar o curso. Não teve mais notícias e alguém lhe dissera que ele tinha morrido na guerra.

Mas lá estava ele. Tivera uma próspera carreira no ramo de seguros, se casara, tivera filhos l' agora estava viúvo. E era ainda muito alinhado. Além do mais, ele fora à reunião na tentativa de encontrá-la. "Buá" (estou repetindo a senhora). Parecia que o tempo não tinha passado.

Eles conversaram, riram, dançaram, beberam um monte de ponche e acabaram um nos braços do outro, se beijando. "Beijando" (estou de novo repetindo). A parte do beijo a deixou nervosa. A senhora contou que estava sentindo coisas que não sentia há muito tempo.

Quando ele fez alguns movimentos, sugerindo que iria além do beijo, ela se afastou. Uma parte dela dizia que já estava muito velha para aquele tipo de coisa. Mas uma outra parte dizia que a verdade era que sua roupa de baixo é que estava velha demais para esse tipo de coisa.

Ela foi para casa. Trocaram cartas. Conversaram pelo telefone. Decidiram que a vida era curta demais para ser desperdiçada e que deveriam passar um fim de semana juntos. Ela o convidou para ir a Oberlin, onde morava. Ele chegaria na sexta-feira. Então ali estava ela, num shopping elegante, soluçando do lado de fora da loja da Victoria´s Secret. Não estava se sentindo nem bonita nem sexy, mas velha e boba.

Não posso contar como essa história terminou realmente muito menos o que aconteceu no fim de semana em Oberlin.

Não é da minha conta. Mas posso dizer que o senhor de St. Louis pode, mais cedo ou mais tarde, ter uma surpresa.

Ela não vai contar a ele que um estranho a encontrou chorando em frente à vitrine da Victoria´s Secret, a pegou pelo braço e entrou com ela na loja. Ou que esse estranho disse à vendedora que sua tia precisava de uma lingerie bonita para uma amiga que tinha mais ou menos o mesmo corpo que ela, que tal amiga estava apaixonada, mas tinha vergonha de ir à loja. Não, o conjunto preto feito para seduzir falaria por si.

Quando as mulheres precisam de roupa de baixo, mas querem lingerie, a idade não deveria jamais ser um problema. A senhora podia não ser tão jovial quanto antes, mas se sentia atraente, pelo menos mais uma vez, como nunca fora. Por que querer viver tanto tempo a não ser que coisas assim sejam possíveis?

 

 

A idade não protege você do amor.

Mas o amor, de alguma forma, protege você da idade.

JEANNE MOUREAU

 


 

CARTA DE UMA MÃE AO MUNDO

AUTOR DESCONHECIDO

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 40

 

Caro mundo,

 

Meu filho começou hoje na escola. Por um tempo, tudo vai ser estranho e diferente para ele. E eu gostaria que você o tratasse com carinho.

Veja bem, até agora, ele tem vivido como um rei. É o mandachuva aqui em casa. Eu estou sempre ao lado dele, curando suas feridas e aquietando seu coração.

Mas agora tudo vai ser diferente.

Esta manhã ele vai sair pela porta da rua, acenar para mim e começar sua grande aventura, que provavelmente incluirá guerras, tragédia e sofrimento.

Para viver neste mundo é preciso fé, amor e coragem.

Por isso, mundo, eu gostaria que você o pegasse pela mão e ensinasse o que ele precisa saber. Ensine-o, mas com carinho, se possível. Ensine-o que, para cada malandro que existe por aí, existe também um herói. Que para cada político corrupto existe um líder dedicado. Que para todo inimigo existe também um amigo. Ensine-o sobre as maravilhas dos livros.

Dê a ele um momento de silêncio para que possa ponderar sobre o mistério eterno dos pássaros no céu, das abelhas ao sol e das flores nas campinas. Ensine-o que é muito mais digno fracassar do que trapacear.

Ensine-o a ter fé nas próprias ideias, mesmo quando todo mundo lhe disser que ele está errado. Ensine-o a vender seu cérebro e seus músculos pelo mais alto preço, mas que seu coração e sua alma nunca estejam à venda.

Ensine-o a fechar os ouvidos para o clamor da multidão... e manter-se firme e disposto a lutar quando achar que está certo.

Ensine-o com carinho, mundo, mas não o mime, pois é o teste do fogo que produz o aço mais resistente.

Essa é a lei, mundo, mas veja o que você pode fazer por mim. Ele é um rapazinho tão especial!


 

ATRÁS DE TODO GRANDE HOMEM

EXISTE UMA GRANDE MULHER

THE BEST OF BITS e PIECES

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 42

 

Thomas Wheeler, alto executivo de uma multinacional, viajava com sua mulher por uma estrada interestadual quando notou que o carro estava com pouca gasolina. Ele parou num posto muito simples, com apenas uma bomba de combustível. Pediu ao único atendente que enchesse o tanque e verificasse o óleo enquanto ele dava lima volta para esticar as pernas.

Ao retomar para o carro, percebeu que o frentista e sua mulher estavam num papo animado. A conversa parou enquanto Wheeler pagava pela gasolina. Mas, quando voltava para o carro, ele viu o rapaz acenar e dizer:

- Foi ótimo falar com você.

Ao sair do posto, o marido perguntou mulher se ela conhecia o atendente. Ela imediatamente admitiu que sim. Tinham frequentado a mesma escola e ela o namorara por cerca de um ano.

- Puxa, você teve sorte de eu ter aparecido - Wheeler se vangloriou. - Se tivesse se casado com ele, seria agora a esposa de um frentista de posto de gasolina em vez de ser esposa de um alto executivo.

- Meu querido - respondeu a mulher -, se eu tivesse me casado com ele, ele seria o alto executivo e você o frentista do posto de gasolina.


 

NUNCA É TARDE DEMAIS

MILDRED COHN

Extraído de Chocolate for a Woman´s Soul de Kay Allenbaugh

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 44

 

Num estalo o sonho da minha vida se realizou. Aos sessenta e oito anos, terminei meu curso universitário - com louvor.

Foi uma realização triunfante, embora um pouco amarga.

Eu tinha um casamento amoroso e feliz, preenchido com viagens, amigos e filhos. Então meu marido morreu. Eu jamais tinha feito nada sozinha. Nunca.

Vi que podia ficar em casa c lamentar a minha perda ou fazer alguma coisa que eu desejara toda a minha vida. Eu poderia ir para a faculdade.

Nunca tive tanto medo em tomar uma decisão.

Mas tomar a decisão era uma coisa. Fazer realmente o curso era outra. Eu estava muito nervosa no primeiro dia de aula. Estava apavorada. Eu conseguiria achar a sala? Será que eu ia chamar atenção pela minha incapacidade? Será que os professores pensariam que eu estava ali por falta do que fazer? Conseguiria dar conta do recado? E se todos fossem mais inteligentes do que eu?

No fim do primeiro dia estava exausta.

Mas também estava entusiasmada. Sabia que ia conseguir. Embora fosse difícil, o estímulo de aprender coisas novas valia a pena. Meu amor pela arte me levou a concentrar minhas cadeiras no curso de história da arte. Era um prazer passar os dias ouvindo os professores.

Um dos meus prazeres inesperados foi estar com os outros alunos. A diferença de idade não era problema, embora tivesse sido um choque, no início, os meninos me chamarem pelo primeiro nome. Eles eram ótimos, discutíamos a matéria, estudávamos e andávamos juntos. Um rapaz até me ensinou a usar computadores. E o melhor de tudo: ninguém falava sobre colesterol.

Também recebia muita atenção de meus professores (a maioria deles com idade para ser meus filhos). Imagino que não estavam acostumados a ter um aluno tão interessado em suas aulas. Com o passar do tempo, muitos me usavam como fonte. Na aula de história, ninguém mais podia dizer como foi ter vivido na época da Grande Depressão. Eu podia e, assim, me pediam para falar sobre minhas experiências. Muitos de meus conhecidos pensavam que eu estava louca. Às vezes eu também pensava. Os trabalhos, as provas, as horas de pesquisa, as corridas para atravessar o campus e chegar a tempo na próxima aula, a exaustão. Entretanto, nada disso me impediu de preencher todos os requisitos acadêmicos, inclusive fazer aulas de educação física. Estava determinada a cumprir tudo que fosse necessário para obter o diploma.

Minhas filhas me deram todo o apoio. Falavam sobre inversão de papéis. Nós planejávamos nossas visitas na época das minhas férias escolares. Elas me ajudavam com minhas tarefas de casa, se condoíam quando eu falava de problemas com algum professor e diziam para eu não me preocupar em tirar boas notas. (Juravam que eu estava me vingando delas por todas as vezes que me ligaram em pânico quando estavam na escola.) Além de frequentar as aulas, aprendi que podia estudar no exterior, fazendo excursões acompanhadas por professores durante o verão. Uma das viagens foi para a Europa Oriental (antes da queda do comunismo). Em outra, o roteiro era explorar os principais museus da Itália. Eu viajara bastante com meu marido, mas nunca sozinha. Fiquei apreensiva na primeira vez, mas conheci pessoas maravilhosas que me colocaram sob suas asas. Tinha conseguido dar mais um passo para fazer as coisas por mim mesma.

Eu mal sabia que minha experiência na faculdade me daria um conhecimento que não vem só dos livros. Olhando para trás, compreendo que ir à faculdade me manteve jovem. Eu nunca estava aborrecida. Estava sendo exposta a novas ideias e pontos de vista. O mais importante é ter ganho confiança, saber que posso realizar coisas por mim mesma.

No dia antes de sua morte, meu marido me perguntou se eu voltaria à faculdade. Ele estava me dizendo para continuar a viver e realizar um sonho. No dia da minha formatura, quatro anos mais tarde, quando atravessei o palco para receber meu diploma, eu o senti ali, me aplaudindo de pé.

 

 

 

A maior recompensa pelo esforço de uma pessoa

não é o que ela ganha com isso, mas o que ela se torna através dele.

JOHN RUSKIN

 


 

MINHA ÁRVORE DE DINHEIRO

RUTH SZUKALOWSKI

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 47

 

Por anos desejei ter um jardim. Passava horas pensando nas coisas diferentes que eu poderia plantar para fazer um bonito conjunto.

Mas então tivemos Matthew. E Marvin. E os gêmeos, Alisa e Alan. E então Helen. Cinco filhos. Eu estava muito ocupada com a educação deles para pensar em cuidar de um jardim.

Tempo e dinheiro eram curtos. Com frequência, quando meus filhos eram pequenos e um deles queria alguma coisa que custava muito caro, eu costumava dizer: "Você está vendo alguma árvore de dinheiro lá fora? Dinheiro não dá em árvores, você sabe." Finalmente, todos os cinco concluíram o segundo grau e a faculdade e seguiram seus caminhos. Comecei a pensar novamente em ter um jardim.

Mas não tinha tanta certeza. Quer dizer, jardins custam realmente caro e, depois de todos esses anos, eu estava acostumada a viver com um orçamento apertado, sem supérfluos.

Então, numa manhã de primavera, no Dia das Mães, estava na cozinha quando percebi que os carros buzinavam quando passavam pela frente da casa. Olhei pela janela e lá estava uma árvore nova plantada bem no meu jardim. Pensei ser um salgueiro-chorão, porque eu via que havia coisas penduradas em todos os galhos. Resolvi colocar os óculos - e não pude acreditar nos meus olhos.

Havia uma árvore de dinheiro no meu jardim!

Fui olhar de perto. Era verdade! Havia notas, uma centena delas, coladas em toda a árvore. Imagine todas as flores que poderia comprar com aquele dinheiro! Havia também um bilhete grudado: "Eu lhe devo oito horas de capina. Com amor, Matthew." Matthew também manteve sua promessa. Ele preparou um canteiro medindo 3m x 4,5m para mim. E meus outros filhos me deram de presente ferramentas, enfeites, uma treliça, uma passadeira de girassol e livros de jardinagem.

Isso aconteceu há três anos. Meu jardim agora está uma beleza, exatamente como eu queria. Quando vou tirar as ervas daninhas ou cuidar das flores, não sinto tanta falta de meus filhos como antes. Parece que eles estão ali comigo.

Moro numa região onde os invernos são longos e muito frios, enquanto os verões são curtos demais. Mas agora, a cada ano, quando o inverno chega, olho pela janela e penso nas flores que verei na próxima primavera no meu pequeno jardim.

Penso no que meus filhos fizeram por mim e fico com os olhos cheios de lágrimas - todas às vezes. Ainda não tenho certeza de que dinheiro cresce em árvores. Mas sei que o amor nasce.

 

Enquanto tentamos ensinar a nossos filhos tudo sobre a vida,

eles nos mostram que a vida é tudo.

ANGELA SCHWINDT


 

A FLOR NO CABELO

BETTIE B. YOUNG De Gifts of the Heart

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 50

 

Ela sempre usava uma flor no cabelo. Sempre. Eu achava aquilo meio esquisito. Uma flor ao meio-dia? Para trabalhar? Para reuniões do escritório? Ela era uma estagiária de design gráfico no grande e movimentado escritório onde eu trabalhava. Todo dia ela chegava com seu estilo próprio e ultramoderno, com uma flor no cabelo. Normalmente, a flor combinava com o resto da roupa e era como se estivesse ali desabrochando, como um guarda-sol de cor vívida, preso nas ondas castanhas do cabelo. Às vezes, como na comemoração de Natal da firma, a flor dava um ar de festa e parecia adequada. Mas, para trabalhar, era estranho. Algumas das mulheres mais convencionais do escritório se indignavam e achavam que alguém deveria informá-Ia sobre as "regras", que devem ser "levadas a sério", no mundo dos negócios. Outras - eu inclusive - pensavam que era só o jeito dela.

Entre nós, a chamávamos de flower power ou "a garota da flor".

- A garota da flor já fez o design preliminar daquele projeto? - alguém perguntava, com um risinho.

- Claro, ficou muito bom. O talento dela realmente floresceu - seria a resposta debochada. E nós nos divertíamos.

Pensávamos, naquela época, que era apenas uma brincadeira inocente. Ninguém, que eu saiba, perguntou à moça por que ela usava sempre uma flor no cabelo. Na verdade, acho que perguntaríamos se aparecesse sem ela.

O que aconteceu um dia. Quando ela deixou um. projeto na minha sala, disse casualmente:

- Vi que hoje você não colocou a flor no cabelo. Estou tão acostumada a vê-la com a flor que me pareceu que está faltando alguma coisa.

- Ah, é - ela respondeu baixinho, num tom sombrio, diferente do seu jeito normalmente vivo e alegre. A pausa significativa que se seguiu pareceu estranha e me fez perguntar:

- Tudo bem com você?

Embora esperasse um "Tudo bem", eu sabia que havia alguma coisa mais séria do que uma flor faltando.

- Ah - ela disse com uma expressão triste e serena. - Hoje é aniversário da morte de minha mãe. Eu sinto muita falta dela.

Acho que estou um pouco triste.

- Compreendo - eu disse, com pena, mas sem querer entrar em conversas sentimentais. - Tenho certeza de que é um assunto difícil para você - continuei, o meu lado profissional querendo que ela concordasse, mas meu coração entendendo que havia mais.

- Não, está tudo bem. Sei que estou muito sensível hoje. É um dia de luto, eu acho. Veja só... - e ela começou a me contar.

Minha mãe teve um câncer e ficou muito mal. Ela era amorosa e generosa. Como sabia que ia morrer, ela gravou em vídeo várias mensagens para eu ver a cada aniversário, dos dezesseis aos vinte e cinco anos. Hoje é meu vigésimo quinto aniversário e essa manhã eu vi a última fita. Acho que ainda estou digerindo isso. E querendo que ela estivesse viva.

- Sei como você se sente - eu disse.

- Obrigada por sua delicadeza. Quanto a não ter colocado a flor... quando eu era menina, minha mãe sempre punha flores no meu cabelo. Um dia, quando ela estava no hospital, eu levei uma enorme rosa do jardim de casa. Quando a aproximei dela para que pudesse sentir o perfume, ela pegou a flor, acariciou meu cabelo, afastando-o do rosto e prendeu a rosa num grampo, como fazia quando eu era pequena. Ela morreu naquele mesmo dia.

Fiquei com os olhos cheios d'água quando ela disse:

- Sempre uso uma flor no cabelo, desde então. Me faz pensar que ela está comigo mesmo em espírito. Mas...

Ela suspirou e continuou:

- Hoje, na fita, ela me dizia que lamentava não estar aqui para me ver crescer e que esperava ter sido uma boa mãe, mas gostaria de ter um sinal de que eu estava me tornando autossuficiente. Era como minha mãe pensava, como ela falava. Ela era tão sábia...

- É, me parece muito sábio - concordei com a cabeça.

- Então eu pensei que sinal poderia ser. E imaginei que poderia ser a flor. Vou sentir falta dela, do que representa.

Seus olhos castanhos pareciam perdidos em lembranças quando ela falou:

- Tive tanta sorte em tê-la como mãe... - Sua voz foi sumindo até que ela me olhou de novo e riu tristemente. - Mas não acho que eu tenha de usar uma flor para me lembrar dessas coisas. Sei disso. Era só um sinal externo das minhas queridas lembranças. Elas ainda estão comigo, mesmo sem a flor, mas ainda sinto falta dela... Ah, aqui está o projeto. Espero que você aprove. - Ela me entregou o trabalho, assinado com uma flor desenhada, sua marca registrada, sob seu nome.

Quando eu era jovem, me lembro de ter ouvido: "Nunca julgue os outros até passar pela mesma situação." Pensei sobre todas as vezes em que fui insensível em relação a essa moça com a flor no cabelo e que triste que, infelizmente, eu tenha feito isso por falta de informação, sem saber de sua história e da cruz que ela tinha de carregar. Eu me orgulhava de conhecer detalhadamente cada faceta da minha empresa e sabia o papel e a função de cada empregado.

Foi terrível o que eu fiz, convicta de que a vida pessoal da pessoa não tem nada a ver com sua vida profissional, devendo ser deixada na porta da empresa quando ela vai trabalhar. Naquele dia, eu soube que a flor que a jovem usava era a expressão do seu amor - uma forma de permanecer ligada à jovem mãe, que ela perdera ainda menina.

Examinei o projeto que ela apresentara e me senti feliz em saber que fora desenvolvido por alguém com tanta capacidade de sentir... de ser. Não me admira que seu trabalho fosse realmente excelente. Ela vivia com seu coração e me fez revisitar o meu.

 

O maior presente é um pedaço de você mesmo.

RALPH WALDO EMERSON

 


 

UM ANJO DE CHAPÉU VERMELHO

TAMI Fox

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 54

 

Sentada na lanchonete em frente à clínica, não queria admitir o meu medo. No dia seguinte eu seria internada para fazer uma cirurgia na espinha, uma operação de alto risco. Eu tinha perdido meu pai havia poucas semanas e me sentia desamparada:

Era como se a luz que me guiava tivesse retomado ao Céu. Mas eu tentava encontrar forças na minha fé.

"Oh, Senhor, nessa época de provações, mande-me um anjo.

Quando me preparava para sair, vi uma senhora idosa se dirigindo vagarosamente para o caixa. Fiquei atrás dela, admirando sua elegância - um lindo vestido xadrez vermelho e preto, um lenço, um broche e um chapéu vermelho-escarlate.

- Desculpe, senhora, mas não posso deixar de lhe dizer como é bonita. Vê-la assim tão elegante encheu-me de alegria.

Ela segurou a minha mão e disse:

- Minha doce criança, Deus a abençoe. Eu tenho um braço artificial, uma placa de metal no outro e esta perna não é minha.

Levo um bom tempo para conseguir me vestir. Tento me arrumar da melhor maneira possível, mas, à medida que os anos passam, parece que as pessoas pensam que não tem importância vestir-se bem. Você hoje fez com que eu me sentisse uma pessoa especial. Que o Senhor possa protegê-la e abençoá-Ia porque você deve ser um anjinho enviado por Ele.

A senhora se foi sem que eu conseguisse dizer uma só palavra. Ela tocou a minha alma de tal forma que só podia ser o anjo que eu pedira.

 

 

Se quiser ser amado, ame e seja amável.

BENJAMIN FRANKLIN

O MÁGICO E A MOÇA CEGA

MICHAEL JEFFREYS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 56

 

Meu amigo Whit é mágico profissional e foi contratado por um restaurante para fazer mágicas durante o jantar, distraindo os clientes. Uma noite ele se aproximou de uma família e, depois de se apresentar, puxou um baralho e começou seu número. Virando-se para uma moça sentada à mesa, pediu que ela escolhesse uma carta. O pai da moça lhe disse que a filha, Wendy, era cega.

Whit disse:

- Tudo bem. Se ela concordar, eu gostaria de fazer um número com ela.

Virando-se para a moça, meu amigo perguntou:

- Wendy, você gostaria de me ajudar numa mágica?

Um tanto tímida, ela encolheu os ombros e respondeu:

- Tudo bem.

Whit se sentou em frente à moça e disse:

- Vou segurar uma carta, Wendy, que será vermelha ou preta. O que eu quero é que você use seus poderes psíquicos e me diga de que cor é a carta, vermelha ou preta. Você entendeu?

Wendy concordou com a cabeça. Whit segurou o rei de paus e perguntou:

- Wendy, esta carta é preta ou vermelha?

Depois de um momento, a moça cega respondeu:

- Preta.

Sua família sorriu. Whit levantou o sete de copas e disse:

- Esta carta é vermelha ou preta?

- Vermelha - Wendy respondeu.

Então Whit levantou uma terceira carta, o três de ouros, e perguntou:

- Vermelha ou preta?

- Vermelha! - Wendy disse sem hesitar.

Seus pais riram nervosamente. O mágico levantou mais três cartas e a moça acertou todas. Incrivelmente, ela acertou as seis vezes! Sua família não podia acreditar em sua sorte. Na sétima carta, Whit levantou o cinco de copas e falou:

Wendy, quero que você me diga qual é a carta e de que naipe ela é... se é de copas, ouros, paus ou espadas.

Depois de um momento, Wendy respondeu, confiante:

- É o cinco de copas.

Os parentes deixaram escapar um grito. Eles estavam aturdidos! O pai de Wendy perguntou a Whit se ele estava fazendo algum tipo de truque ou mágica mesmo. Whit respondeu:

- O senhor terá de perguntar a Wendy.

O pai, então, perguntou à filha:

- Wendy, como você fez isso?

Ela sorriu e disse:

- É mágica!

Whit cumprimentou a família, deu um abraço em Wendy, deixou seu cartão de visitas e se despediu. Estava claro que ele havia criado um momento mágico que aquela família jamais esqueceria.

A questão, naturalmente, é como Wendy sabia a cor das cartas? Já que Whit nunca a havia encontrado até aquele momento no restaurante, ele não poderia ter lhe dito antes que cartas eram vermelhas e quais eram pretas. E, já que Wendy era cega, era impossível para ela ver as cores ou o valor das cartas quando ele as levantou. Como foi, então?

Whit pôde criar seu milagre usando um código secreto e rapidez de pensamento. No início de sua carreira, ele havia criado um código para que uma pessoa pudesse passar informações para outra com os pés, sem usar palavras. Ele nunca tivera a chance de usar o código até aquele momento no restaurante.

Quando Whit se sentou em frente a Wendy e disse "Vou segurar uma carta, Wendy, e ela será vermelha ou preta, ele bateu de leve no pé dela (sob a mesa) uma vez quando disse a palavra "vermelha” e duas vezes quando disse "preta”.

Para ter' certeza de que ela o havia entendido, ele repetiu os sinais secretos, dizendo: "O que eu quero é que você use seus poderes psíquicos e me diga de que cor é a carta, vermelha (um toque) ou preta (dois toques). Você entendeu?"

Quando Wendy concordou com a cabeça, ele sabia que ela havia compreendido o código e estava disposta a colaborar com o truque. Sua família supôs que, quando ele perguntou se ela "havia entendido", estava se referindo às suas instruções verbais.

Como ele passou para ela a informação sobre o cinco de copas? Simples. Ele tocou no pé dela cinco vezes para ela saber que ele tinha um cinco. Quando ele perguntou se a carta era de copas, espadas, paus ou ouros, ele comunicou o naipe tocando no pé dela ao dizer "copas".

A mágica real desta história é o efeito que teve em Wendy.

Não só lhe deu a chance de brilhar por uns momentos e se sentir especial diante da família, mas tornou-a uma estrela em casa, pois sua família contou a todos os amigos sobre a espantosa experiência “psíquica”.

Alguns meses depois, Whit recebeu um pacote de Wendy.

Nele, um baralho em braile, com um bilhete. No bilhete, ela lhe agradecia por tê-la feito sentir-se tão especial e por ter lhe permitido "ver", mesmo que por apenas alguns momentos.

Ela disse que ainda não contara à família como acertara as cartas, apesar de eles continuarem a lhe perguntar. Ela terminava dizendo que lhe enviava o baralho em braile para ele poder fazer mais mágicas com pessoas cegas.


 

NAS RAIAS DA LOUCURA

ERMA BOMBECK

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 60

 

De vez em quando, algo acontece em nossa vida que nos leva a reavaliar nossas prioridades. Às vezes é um aniversário traumático ou um amigo passando por uma crise. Para mim, foi o enterro de um grande amigo que me deixou vulnerável, confusa e incerta quanto ao meu papel nesta vida.

Eu queria tirar todas as minhas economias do banco e ir para o Taiti. Queria pôr os pratos de plástico no asfalto e dar marcha à ré, passando sobre eles. Queria ter aulas de balé. Jogar fora todas as flores artificiais e substituí-las por uma selva de trepadeiras e folhagens. Queria tirar todos os tapetes e deixar a poeira se espalhar por onde quisesse.

Nessa mesma noite, refleti sobre a minha vida, mudei as estratégias e fiz um juramento. Eu não seria como a mulher do Titanic que, ao subir no bote salva-vidas rumo a um destino incerto, lamentou, arrependida: "Se eu soubesse que isso iria acontecer, teria pedido mousse de chocolate de sobremesa." Então, prepare-se, mundo! A Madame Praticidade vai começar a viver cada dia como se fosse o último.

Lembra-se daquela grande vela em formato de rosa que juntou poeira na sala de estar e acabou ficando toda mole no verão?

Eu a acendi ontem.

E o vidro do carro, aquele do meu lado, que tinha urna pequena rachadura e que eu disse que substituiria quando fosse vender o carro? Bem, já mandei pôr outro no lugar.

Adivinhe quem está vindo para jantar esta noite? Eva e Jack, com quem me encontrei em dezesseis casamentos e para os quais eu dizia sempre a mesma coisa:

- Precisamos nos encontrar um dia destes!

E sabe aquela lata de pescado que eu não queria abrir porque sou a única que come peixe e não conseguia suportar a ideia de desperdiçar o resto? Adivinhe o que aconteceu com ela!

Enquanto eu lavava as mãos com um sabonete cor-de-rosa em formato de concha, meu marido disse:

- Pensei que você fosse guardar alguns desses sabonetes.

Você os molhou e eles não se parecem mais com uma concha. Olhei para baixo, para a mão cheia de espuma e pensei: ''A concha só serve para aprisionar a vida, eu queria lhe dar a chance de ser uma outra coisa."


 

O DOTE

ROY EXUM

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 62

 

No distante Pacífico Sul há uma ilha chamada Nurabandi e, perto dela, uma outra, de nome Kiniwata.

Os nativos dessas ilhas são pessoas maravilhosas, boas e altivas, mas entre eles existe o antigo costume de se oferecer um dote para a família de uma moça quando ela é pedida em casamento.

Johnny Lingo vivia na ilha de Nurabandi. Era elegante e rico, talvez o homem de negócios mais capaz em toda a ilha.

Todos sabiam que, jovem e solteiro, ele poderia se casar com qualquer das meninas da região.

Mas Johnny só tinha olhos para Sarita, que morava em Kiniwata, o que intrigava muitas pessoas.

Sarita era uma moça simples, pouco atraente. Quando andava, seus ombros se curvavam e sua cabeça se abaixava.

Mas Johnny estava apaixonado por Sarita e combinou de se encontrar com o pai da moça, um homem chamado Sam Karoo, para pedir sua mão em casamento e combinarem o dote.

O dote era sempre pago em vacas, animais muito valorizados nas pequenas ilhas do Pacífico. Contava-se que as famílias de algumas das moças mais bonitas da região recebiam quatro vacas como dote e, em casos excepcionais, cinco.

Johnny Lingo era o comerciante mais sagaz da ilha de Nurabandi, e o pai de Sarita era um nada na ilha de Kiniwata.

Sabendo disso, Sam Karoo, preocupado, reuniu a família na véspera do encontro e, nervosamente, anunciou sua estratégia: ele pediria a Johnny três vacas, acenando com a possibilidade de receber duas, até ter certeza de que o noivo daria pelo menos uma.

No dia seguinte, logo no início da reunião, Johnny olhou firmemente nos olhos de Sam Karoo e disse tranquilamente: - Venho pedir a mão de Sarita em casamento e gostaria de oferecer oito vacas como dote.

Sam, gaguejando, disse que estava bem assim. O casamento foi maravilhoso, mas ninguém na ilha conseguiu compreender por que Johnny dera oito vacas como dote para se casar com Sarita.

Seis meses depois, um visitante americano, o talentoso escritor Pat McGerr, encontrou-se com Johnny Lingo em sua bela casa em Nurabandi e perguntou-lhe sobre as oito vacas.

O escritor já estivera na ilha de Kiniwata, onde soube que os moradores ainda comentavam o fato de o simplório Sam ter passado Johnny para trás com o dote de oito vacas por Sarita, tão simples e sem graça.

Mas, em Nurabandi, ninguém ousava rir de Johnny Lingo, pois ele era muito considerado na ilha. Quando o escritor finalmente encontrou Johnny, os olhos do recém-casado brilhavam durante a conversa:

- Soube que falam de mim em Kiniwata. Minha mulher é de lá.

- É, eu sei - disse o escritor.

- Pois me conte, o que dizem? - perguntou Johnny.

O escritor, tentando usar toda a sua diplomacia, respondeu:

- Bem, que você se casou com Sarita numa linda festa.

Johnny pressionou o escritor até que ele finalmente lhe contou:

- Comentam que você deu oito vacas como dote por sua mulher e ninguém compreende por que fez isso.

Quando o escritor acabou de dizer essas palavras, a mulher mais bonita que já vira entrou na sala para colocar flores sobre a mesa.

Era alta, tinha um lindo porte. O queixo era reto. E, quando seus olhos cruzaram com os de Johnny, havia uma inegável faísca.

- Esta é minha mulher, Sarita - disse Johnny, que agora se divertia com a situação, ao ver o escritor completamente assombrado. Sarita pediu licença, e então Johnny começou a explicar.

- Você nunca pensou o que deve significar para uma mulher saber que o marido ofereceu por ela o valor mínimo pelo qual poderia ser comprada? Depois do casamento, as mulheres falam entre si, se vangloriam de quanto os maridos deram por elas. Uma diz quatro vacas, outra diz três. Mas como se sente a mulher pela qual o marido deu apenas uma vaca? - questionou Johnny. - Eu não deixaria isso acontecer com a minha Sarita. Queria que ela ficasse contente, sim, mas era mais que isso.

Você diz que ela não se parece com a descrição que fizeram dela.

É verdade, mas muitas coisas mudam uma mulher. Acontecem coisas no interior e também no exterior das pessoas, mas o mais importante é o que cada uma pensa sobre si mesma. Em Kiniwata, Sarita acreditava que nada valia, mas agora sabe que vale mais que qualquer das mulheres dessas ilhas.

Johnny Lingo fez uma pausa e acrescentou:

- Eu queria me casar com Sarita desde o início. Eu a amava, não a qualquer outra. Mas eu também queria ter uma mulher que valesse oito vacas e, como você pode ver, meu sonho se tornou realidade.


 

DESPESA ZERO

M. ADAMS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 66

 

Uma noite, minha mulher estava na cozinha preparando o jantar quando nosso filho veio falar com ela e lhe entregou um papel em que andara escrevendo. A mãe enxugou a mão no avental e leu:

 

Por cortar a grama 7 reais

Por arrumar meu quarto esta semana 5 reais

Por ir ao mercado com você 1 real

Por tomar conta de meu irmãozinho enquanto você ia fazer compras 1 real

Por levar o lixo para fora 75 centavos

Por ter boas notas 5 reais

Por limpar o quintal e juntar as folhas caídas 2,5 reais

Total devido 22,25 reais

 

A mãe ficou olhando para ele, espantada, e - posso lhe garantir - dava para ver as lembranças passando por sua mente.

Então ela pegou a caneta e escreveu no verso do mesmo papel:

Pelos nove meses em que eu o carreguei na barriga, enquanto você crescia dentro de mim. Despesa zero.

Por todas as noites em que eu fiquei acordada, cuidando de suas febres e rezando por você. Despesa zero.

Por todos os momentos dolorosos e todas as lágrimas que você me fez derramar nesses anos. Despesa zero.

Por todas as noites cheias de apreensão e pelas preocupações que eu sabia que viriam. Despesa zero.

Pelos brinquedos, pela comida, pelas roupas e até por assoar o seu nariz. Despesa zero, meu filho.

Quando você somar tudo isso, verá que o verdadeiro amor não tem preço, seu custo é zero.

Bem, meus caros, quando o filho acabou de ler o que a mãe escrevera, seus olhos estavam cheios d'água e ele olhou firme para ela e disse:

- Mamãe, eu te amo muito.

Aí ele pegou a caneta e escreveu em letras bem grandes: TOTALMENTE PAGO.


 

MUDANDO DE IDÉIA

MURIEL J. BUSSMAN Enviada por Winnie Luttrell

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 68

 

Quando nossa irmã mais nova nasceu, sessenta anos atrás, meu irmão tinha seis anos e eu oito. Eu sempre fora a "irmã grande", e ele sempre fora "o bebê".

A chegada da menininha foi uma surpresa para nós dois.

Naquela época, não se falava muito sobre "rivalidade entre irmãos" e nenhum "especialista" nos ensinou como lidar com uma criança nova em casa. Mas tínhamos avós inteligentes e amorosos.

Eu estava maravilhada com a neném, gostava de segurá-Ia no colo e de ajudar minha mãe. Mas os sentimentos de meu irmão eram diferentes. Ele a olhava rapidamente e saía, preferindo ir para o quarto. Eu o chamava para brincar, mas ele não queria saber de nada.

- Por que eles tinham de arrumar esse bebê?

Um dia, vovô veio nos visitar e, com nossa irmãzinha no colo, disse a meu irmão:

- Sabe, ela se parece com o carneirinho que nasceu lá em casa e que estou alimentando na mamadeira. Tenho de ficar tomando conta dele e dar de mamar várias vezes ao dia, exatamente como sua mãe faz com o bebê.

Num sussurro, mas que meu avô pôde ouvir, meu irmão disse:

Pois eu preferia o carneirinho.

Embora vovô, para mim, parecesse velho (eu imaginava que ele tinha uns cinqüenta anos), ele podia escutar muito bem.

- Bem - disse vovô -, se você preferia ter um carneiro, quem sabe podemos fazer uma troca? Eu lhe dou um dia para pensar e, se você amanhã ainda quiser trocar, fazemos negócio.

Achei ter visto vovô piscar para mamãe, mas sabia que devia estar errada, pois meu avô nunca piscava para ninguém.

Depois que meu avô saiu, mamãe se ofereceu para ler uma história para meu irmão. Ele se aninhou na cama, e ela leu para de por um bom tempo.

Meu irmão não parava de olhar para o bebê e mamãe pediu-lhe que o segurasse um instante, enquanto apanhava uma fralda. Quando voltou, meu irmão tinha nossa irmãzinha no colo gentilmente acariciava seus cabelos negros e macios. Ficou deslumbrado quando ela agarrou o dedo que ele oferecia.

- Mamãe, veja, ela está segurando minha mão!

- CIaro, ela sabe que você é seu irmão querido - disse mamãe sorrindo.

Ele ainda ficou com o bebê no colo por alguns minutos e parecia muito mais contente quando foi dormir. Nosso avô voltou na noite seguinte, como prometera, e conversou com meu irmão.

- Então, está pronto para trocar a neném por um carneiro?

Meu irmão pareceu surpreso com o fato de vovô se lembrar do acordo.

- Ela agora vale dois carneiros.

Vovô fingiu espanto com a quebra do contrato. Ele disse que tinha de pensar sobre o assunto e que conversariam no dia seguinte.

Como o dia seguinte era sábado, meu irmão e eu ficamos em casa, segurando nossa irmãzinha, vendo-a tomar banho, ser colocada no berço. Meu irmão não a tirava do colo. Pareceu preocupado quando vovô veio visitar-nos à noite e falou sobre a troca combinada.

- Olhe, andei pensando sobre aquela história de trocar a neném pelo carneiro e acho que você está jogando duro. Mas acho que ela pode valer mesmo dois carneiros. Podemos fazer negócio.

Meu irmão hesitou um pouco antes de responder:

- Ela agora está um dia mais velha, acho que já vale cinco carneiros.

Vovô demonstrou surpresa e balançou lentamente a cabeça.

- Não sei, não. Vou ter de ir para casa e pensar sobre a oferta. Talvez tenha de conversar com o gerente do banco.

Quando vovô foi embora, meu irmão parecia preocupado.

Chamei-o para brincar, mas ele foi para o quarto de mamãe e ficou segurando nossa irmãzinha um tempão.

No domingo, vovô veio à nossa casa logo depois do almoço.

Explicou a meu irmão que viera cedo porque ainda tinha de reunir os cinco carneiros e arrumar o quarto da neném em sua casa.

Meu irmão respirou Fundo, olhou vovô direto nos olhos e anunciou:

- Ela vale cinqüenta carneiros agora!

Vovô o olhou incrédulo e balançou a cabeça.

- Acho que não dá para fazer negócio. Não tenho cinqüenta carneiros para dar por um único bebê. Você vai ter que ficar com sua irmã e ajudar seus pais a tomarem conta dela.

Meu irmão deu um sorriso que ele não sabe que eu percebi e, dessa vez, tenho certeza de que vi vovô piscar para mamãe.


 

O DIA NA PRAIA

ARTHUR GORDON Enviada por Wayne W. Hinckley

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 72

 

Não faz muito tempo que passei por um daqueles períodos de desânimo que muitos de nós enfrentam de tempos em tempos, uma queda súbita no gráfico da vida, quando tudo fica chato e desinteressante, a energia diminui e o entusiasmo acaba. O efeito que isso teve sobre o meu trabalho foi assustador. Toda manhã eu cerrava os dentes e murmurava: "Hoje a vida vai recuperar um pouco do significado que costumava ter antigamente. Você vai conseguir superar isso. Você vai conseguir." Mas os dias modorrentos se repetiam e a apatia ficava cada vez maior. Até que chegou o dia em que eu percebi que precisava de ajuda.

O homem a quem recorri era médico. Não psiquiatra, só médico. Ele era mais velho do que eu e escondia sob a aparente rispidez uma grande experiência e sabedoria.

- Não sei o que há de errado - eu disse desolada -, parece que estou num beco sem saída. Você pode me ajudar?

- Não sei - ele respondeu sem pressa.

Com os dedos formando uma tenda, ele ficou ali me olhando com um ar pensativo por um longo tempo. Então, abruptamente, perguntou:

- Em que ocasião você foi mais feliz na infância?

- Na infância? - repeti. - Bem, na praia, eu acho. Tínhamos uma casa de veraneio lá. Todos nós a adorávamos.

Ele olhou pela janela e fitou as folhas de outono que caíam numa ciranda.

- Você poderia seguir algumas instruções por apenas um dia?

- Acho que sim - disse, disposta a tentar qualquer coisa.

- Muito bem. Eis o que eu quero que você faça.

Ele me disse para ir à praia sozinha na manhã seguinte, procurando chegar lá antes das nove horas. Eu poderia comer alguma coisa, mas não deveria ler, escrever, ouvir rádio ou conversar com quem quer que fosse.

- Além disso - ele continuou -, darei a você uma prescrição que terá de seguir de três em três horas.

Ele destacou quatro folhas em branco do bloco de receitas, escreveu alguma coisa em cada uma delas, dobrou-as, numerou-as e me entregou as folhas.

- Tome isso às nove, ao meio-dia, às três e às seis da tarde.

- Está falando sério? - perguntei.

Ele soltou uma risadinha.

- Você não vai achar que estou brincando quando tiver de pagar a consulta!

Na manhã seguinte fui de carro para a praia, sem dar muito crédito à coisa toda. Estava sozinha. O nordeste soprava, o mar parecia cinzento e tempestuoso. Sentei no carro, com o dia todo pela frente, sem ter muito o que fazer. Então peguei a primeira folha dobrada. Nela estava escrito: OUÇA ATENTAMENTE.

Fiquei olhando aquelas duas palavras. "Ora essa”, pensei, "o homem deve estar maluco." Ele tinha proibido música, noticiários e qualquer conversa. O que mais havia ali para ouvir?

Levantei a cabeça e apurei os ouvidos. Não havia nenhum som além do rugido das ondas, do grito de uma gaivota, do zumbido de um avião em algum lugar no céu. Todos esses sons eu já conhecia.

Saí do carro. Uma rajada de vento fez bater à porta num golpe. É esse tipo de coisa, perguntei a mim mesma, que tenho de ouvir atentamente?

Escalei uma duna e avistei a praia deserta. Ali o mar bramia com tal fúria que encobria todos os outros sons. Mesmo assim deve haver sons por trás de outros sons - o atrito suave da areia levada pela maré, os sussurros do vento na relva das dunas - se chegarmos perto o suficiente para ouvi-los.

Impulsivamente me abaixei e, sentindo-me um tanto ridícula, enfiei a cabeça num emaranhado de algas marinhas. Fiz então uma descoberta: se ouve atentamente, existe uma &ação de segundo em que tudo faz uma pausa e fica em suspenso. Nesse instante de quietude, o pensamento parece parar. A mente sossega.

Voltei para o carro e escorreguei para trás do volante. OUÇA ATENTAMENTE. Enquanto voltava a ouvir o rugido profundo do mar, dei por mim pensando na fúria desenfreada de suas tempestades. Então percebi que eu estava pensando em coisas maiores do que eu mesma - e que isso trazia um certo alívio.

Ainda assim, a manhã passou devagar. O hábito de remoer problemas era tão forte que eu me sentia perdida sem ele.

Perto do meio-dia o vento já havia varrido as nuvens do céu e o mar tinha um brilho sólido, lustroso e aprazível. Desdobrei a segunda "receita”. E mais uma vez fiquei ali sentada, num misto de espanto e exasperação. Dessa vez eram três palavras:

TENTE VOLTAR NO TEMPO.

A que tempo? Ao passado, obviamente. Mas para quê, se todas as minhas preocupações estavam relacionadas ao presente ou ao futuro?

Saí do carro e comecei a vagar pelas dunas em reflexão. O médico me mandara ir à praia porque aquele era um lugar que me trazia boas lembranças. Talvez fossem essas lembranças que eu devesse evocar: a grande felicidade que eu deixara para trás, meio esquecida.

Decidi trabalhar nessas vagas impressões como faria um pintor, retocando as cores, avivando os contornos. Eu selecionaria algumas ocasiões e recapitularia tudo da forma mais detalhada possível. Faria uma imagem mental completa das pessoas, com suas roupas e gestos. Ouviria (atentamente) o timbre exato de cada voz, o eco deixado pelas risadas.

A maré estava baixando agora, mas eu ainda ouvia o estrondo da arrebentação. Então optei por voltar vinte anos no tempo, à época da minha última pescaria com meu irmão mais novo.

Ele morrera durante a Segunda Guerra, mas eu descobri que, se fechasse os olhos e fizesse um esforço, eu conseguiria vê-lo com espantosa nitidez, até mesmo seu estado de espírito e a animação em seus olhos.

Na verdade, eu conseguia ver tudo: a baía onde costumávamos pescar, o horizonte borrado com as cores do sol nascente, os vagalhões se desmanchando em espuma, com imponência e vagar. Eu sentia o torvelinho cálido das marolas nos joelhos, via o arquear repentino do caniço do meu irmão quando ele fisgava um peixe, ouvia seu grito exultante. Pedaço por pedaço, reconstruí a cena, intacta e cristalina sob o verniz transparente do tempo. Então ela se desvaneceu.

Levantei-me devagar. TENTE VOLTAR NO TEMPO. As pessoas felizes costumam ser seguras e confiantes. Será que, se tentássemos voltar no tempo e tocar essa felicidade, não seria possível resgatar um brilho fugaz de poder, fontes diminutas de força?

Esse segundo período do dia passou mais rápido. Enquanto o sol iniciava sua longa jornada oblíqua rumo ao horizonte, meus pensamentos vagavam pelo passado, revivendo alguns episódios, descobrindo outros que tinham sido completamente esquecidos.

Repassei mentalmente todos aqueles anos, recordei acontecimentos e percebi, pelo entusiasmo repentino em meu peito, que nenhuma gentileza é jamais desperdiçada ou esquecida.

Lá pelas três horas a maré já baixara e o som das ondas era apenas um sussurro ritmado, como a respiração de um gigante.

Demorei-me no meu ninho de areia, sentindo-me relaxada e satisfeita - e um pouquinho envaidecida também. As prescrições do médico eram fáceis de seguir.

Mas eu não estava preparada para o que veio depois. Desta vez as palavras não eram uma amável sugestão. Elas pareciam mais uma ordem. REAVALIE A SUA MOTIVAÇÃO.

Minha primeira reação foi puramente defensiva. Não há nada de errado com a minha motivação. Quero ter sucesso na vida - e quem não quer? Quero conseguir um certo reconhecimento, mas isso todo mundo quer. Quero ter mais segurança.

E por que não?

Talvez, disse uma vozinha em algum lugar dentro da minha cabeça, isso não baste. Talvez seja por isso que a engrenagem tenha começado a parar.

Peguei um punhado de areia e deixei que escorresse por entre meus dedos. No passado, sempre que meu trabalho ia bem, era porque havia uma certa espontaneidade, um certo improviso, uma certa liberdade. Mais tarde acabei ficando calculista, competente e desanimada. Por quê? Porque eu tinha perdido de vista o trabalho em si e visado apenas as recompensas que ele supostamente me traria. O trabalho deixara de ser um fim em si mesmo e passara a ser um meio de ganhar dinheiro, de pagar as contas. O sentimento de dar algo de si mesmo, de ajudar as pessoas, de fazer uma contribuição, acabara esquecido em meio à busca frenética por segurança.

Num lampejo de lucidez, vi que, com a motivação errada, nada pode dar certo. Não importa se você é cabeleireira, vendedora de seguros, dona-de-casa ou mãe de cinco filhos - ou outra coisa qualquer. Quando sente que está fazendo algo pelos outros, você trabalha bem. Quando só está preocupada consigo mesma, seu desempenho nunca é tão bom. Essa é uma lei tão inexorável quanto a gravidade.

Fiquei sentada ali por muito tempo. Ao longe, no baixio, eu ouvia o murmúrio das ondas se transformando num rugido abafado, à medida que a maré subia. Às minhas costas, os raios de sol eram quase horizontais. Meu tempo na praia se esgotara e eu sentia uma relutante admiração pelo médico e pelas "prescrições" que, de modo tão improvisado e habilidoso, ele me aconselhara seguir. Constatei, então, que havia nelas uma progressão terapêutica que poderia ajudar qualquer um que passasse por dificuldades.

OUÇA ATENTAMENTE: acalmar uma mente em turbilhão, imprimir-lhe um ritmo mais lento, mudar o foco de atenção dos problemas para fatos externos.

TENTE VOLTAR NO TEMPO. Como a mente humana só consegue se concentrar numa ideia de cada vez, você esquece o presente quando evoca a felicidade do passado.

REAVALIE A SUA MOTIVAÇÃO: essa era a parte central do tratamento. Desafiava a pessoa a reconsiderar, a fazer com que sua motivação entrasse em sintonia com suas capacidades e com sua consciência. Mas a mente tem de estar lúcida e tranquila para fazer isso - por isso as seis horas precedentes de silêncio.

O poente era uma chama carmesim quando abri a última folha de papel. Cinco palavras desta vez. Caminhei vagarosamente pela praia. Uns poucos metros abaixo da marca da maré alta, eu parei e li novamente: ESCREVA SEUS PROBLEMAS NA AREIA.

Deixei que o vento levasse o papel, abaixei-me e peguei um fragmento de concha. Ajoelhada ali, sob a abóbada celeste, escrevi várias palavras na areia, uma sobre a outra. Então me afastei sem olhar para trás. Eu inscrevera minhas preocupações na areia. E a maré estava subindo. Em breve, meus problemas seriam apagados pelas ondas do mar. E só restariam a paz e o silêncio.

 

 

Guarde suas preocupações num bolso furado.

CARTÃO-POSTAL ANTIGO


 

O AMOR SÃO AS AVÓS

ERMA BOMBECK Apresentada por Tonette Holle

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 80

 

Uma criança pequena, que mora na minha rua, estava curiosa sobre avós e isso me fez pensar que, para uma criança, elas são uma espécie de aparição inexplicada, sem descrição de tarefas e com poucas credenciais. Parecem apenas fazer parte do cenário.

Esta história, então, é para os pequenos que querem saber o que são as avós.

Você sempre pode contar com uma avó para comprar todos os seus doces, sementes de flores, os cartões mais bonitos da papelaria, fita adesiva de bichinhos, estojo novo, amendoim torradinho e dez tíquetes para andar de pônei. (Também uma caixa de bala puxa-puxa, se sua avó ainda tem dentes fortes.) Avós ajudam você a lavar a louça, quando é a sua vez.

Assistem por três horas a uma comédia grega se o neto está atuando e ficam imaginando como é que Aristófanes teve tempo de escrever peças se ele era casado com Jackie Onassis.

São as únicas babás que não cobram extra depois da meia-noite - ou melhor, que nunca cobram nada nem antes, nem depois da meia-noite.

Avós compram os presentes que sua mãe diz que você não precisa.

Chegam três horas mais cedo para o seu batismo, a sua formatura e seu casamento porque querem se sentar num lugar de onde possam ver tudo.

Fingem que não o reconhecem sob a fantasia da festa de Halloween.

Avós o adoram quando você é um bebê careca, mesmo quando se torna um pai careca e também o adoram com todo o cabelo entre essas duas fases.

Uma avó vai colocar um suéter em você quando ela estiver com frio, alimentá-Io quando ela está com fome e colocá-Io na cama quando ela estiver cansada.

Vai morrer de orgulho ao vê-la nas apresentações de balé, não importa que você esteja lá no fundo do palco, atrás de outras trinta garotas.

Avós vão emoldurar o desenho que você fez da própria mão e colocá-Io num lugar de destaque na sua sala de visitas estilo mediterrâneo.

As avós são aquelas que põem um dinheiro escondido na sua mão um pouco antes do Dia das Mães.

Que ajudam você com seus botões, zíperes e laços de sapato e que não têm nenhuma pressa em ver você crescer.

Quando ainda é um bebê, as avós vão ver se você está chorando exatamente quando está no maior sono.

Quando um neto diz: "Vovó, como é que pode você não ter nenhum filho?", ela segura a vontade de chorar.


 

A BEIRA DO PENHASCO

KATHLEEN LOUISE SMILEY

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 83

 

Na noite anterior à minha partida para Israel, meu pai e eu tivemos o mesmo tipo de conversa que durara toda a semana.

- Mas por que Israel? - ele perguntara no mesmo tom usado para "Por que China?" ou "Por que Rússia?" ou qualquer outro país que eu anunciava que ia visitar.

- Está acontecendo uma guerra lá, você sabe – ele acrescentara.

- Eu sei, papai. Há guerras em todo lugar.

Por que eu insistia em ir a lugares tão perigosos?, ele perguntou antes de dizer as palavras de sempre:

- Bem, você nunca me deu ouvidos antes. Por que eu vou achar que vai me ouvir agora? - Como era de seu feitio, fechou os olhos, soltou um suspiro e balançou a cabeça.

No meio dessas "discussões", minha irmã sempre procurava desanuviar o ambiente. Embora ela já soubesse que não adiantava nada, bem que tentava.

- Kath - sugeriu -, por que você não faz um curso de férias na Inglaterra? Lá não é perigoso.

Como sempre, ela não conseguia entender.

Ninguém na família jamais me compreendeu realmente.

Nunca consegui viver de acordo com as ideias que eles tinham quanto à forma de eu levar a vida. A Inglaterra não era divertida na medida certa. Eu queria ir a outro lugar e experimentar alguma coisa diferente. Minha alma sempre fora inquieta e queria se aventurar em lugares desconhecidos. Mamãe dizia que eu tinha sangue cigano.

Minha irmã e eu temos três anos e meio de diferença, mas todo um mundo nos separa no que se refere ao modo como vivemos. Ela é conservadora e calma. Eu me arrisco muito, e a única hora em que estou calma é quando estou dormindo. Passei a maior parte da minha vida adulta me desculpando com ela e com o resto da família por ser diferente, por causar-lhes embaraço por alguma roupa que vestia, algo que fazia ou falava.

Sou aquela que usa um chapéu enfeitado de frutas ou uma roupa toda colorida quando todo mundo está de preto básico.

A que conta uma piada inadequada no meio do jantar. A que chora assistindo a um lacrimejante filme antigo. Como ficam embaraçados! Alguém uma vez me disse que não invejava minha tarefa de despertar emoções em toda a família.

Como minha irmã é totalmente diferente de mim - ou como eu sou tão diferente dela -, não somos muito chegadas.

Quanto mais velhas e mais ocupadas, menos nos vemos, embora moremos perto uma da outra. Quando estamos juntas, sinto que ela fica segurando a respiração, esperando que eu faça ou diga alguma coisa "errada”, enquanto eu caminho em ovos e rezo para que isso não aconteça. Mas sempre acontece.

Já que minha irmã parecia a menos aborrecida com meus planos de verão, humildemente perguntei se ela poderia me levar ao aeroporto.

- Tudo bem, mas não conte a papai! - sorri e concordei.

Não é que nosso pai seja algum tirano. Sabemos que ele nos ama bastante. Isso fica claro por todos os sacrifícios que fez por nós. Eu não teria cursado Direito se não fosse por ele. Na verdade, ele só fica preocupado e custa-lhe muito separar sua preocupação do seu amor.

Na ida para o aeroporto, no dia seguinte, minha irmã estava calada como sempre. Mas, pela primeira vez desde que eu decidira viajar, começou a fazer perguntas: por onde planejara passar, onde ia ficar. Parecia sinceramente interessada.

Minha família não é de despedidas emocionadas. Então, com um "divirta-se" e um rápido "amo você também", minha irmã foi embora. Fiquei triste porque senti que ela não conseguia me entender. Queria que, naquele momento, ela fosse comigo, mas sabia que não faria isso.

Despachei a bagagem, sentei e comecei a me organizar. Abri a bolsa que minha irmã arrumara antes de sairmos. Ali, com o passaporte, os cheques de viagem e outros papéis importantes, estava um pequeno envelope branco escrito com a caligrafia de minha irmã. Abri o envelope e achei um cartão de boa viagem. Era um cartão engraçado, com um desenho na frente. Minha família sempre gostou de dar cartões divertidos e este não era diferente - ou eu pensava que não era.

Quando abri o cartão, entendi que minha irmã, que eu já decidira que não conseguia me compreender, realmente entendera tudo. Parecia que existia uma pequena parte dela que queria ser eu, talvez uma pequena parte dela que sempre quis que ela fosse eu. No cartão, apenas as palavras que minha irmã escrevera:

 

Eu realmente admiro você por levar sua vida de maneira tão plena.

Sua irmã, Kristy.

E do outro lado estava escrito:

ApoIo estava no alto do penhasco: "Venham para a beira”, ele disse.

"Não podemos", eles disseram, "é muito alto." "Venham para a beira." "Não podemos", responderam, "é muito alto." "Venham para abeira", ApoIo insistiu.

"Não podemos, vamos cair." "Venham para a beira”, ele disse.

Eles vieram e ele os empurrou.

E eles voaram.

Minha irmã, por um breve instante, me mostrou um lado muito precioso dela mesma, escondido até aquele dia.

Ou talvez eu nunca tivesse prestado bastante atenção. Com as lágrimas escorrendo, virei-me e olhei pelo vidro. No terminal, minha irmã sorria e acenava para mim. Pude ver seus lábios dizendo "Eu te amo". Sorri de volta, porque, pela primeira vez, eu sabia que ela me amava de verdade.


 

MAIS BONITAS DO QUE SARDAS

SUE MONK KIDD

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 88

 

Aconteceu num dia em que estava com minha filha no zoológico. Vi uma avó com uma garotinha cujo rosto era todo salpicado de sardas vermelhas e brilhantes. As crianças estavam esperando numa fila para que um artista pintasse suas faces com patinhas de tigre.

- Você tem tantas sardas que ele não vai ter onde pintar um menino gritou na fila. Sem graça, a menininha abaixou a cabeça.

A avó ajoelhou-se perto dela e disse:

- Adoro suas sardas.

- Mas eu detesto - ela replicou.

- Quando eu era menina, sempre quis ter sardas - disse a senhora, passando o dedo pela face da neta. - Sardas são tão bonitas!

A menina levantou o rosto:

- São mesmo?

- Claro - disse a avó. - Quer ver? Me diga uma coisa mais bonita que sardas.

A garotinha, olhando para o rosto sorridente da senhora, respondeu suavemente:

- Rugas.

Aquele momento me ensinou para sempre que, se olharmos para os outros com os olhos do amor, não veremos o que possam ter de feio. Apenas o que têm de bonito.

 

 

As rugas deviam indicar apenas onde os sorrisos estiveram.

MARK TWAIN


 

ROMANCE AOS 75 ANOS

LILLIAN DARR

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 90

 

Ali estava ele, alto e bonito nos seus setenta e um anos. Ali estava eu, com quase setenta, quando sua figura atingiu em cheio meu coração.

Esperávamos na antessala do mesmo médico. Folheávamos revistas, sentados perto um do outro. Mas tenho certeza de que eu não conseguia prestar a mínima atenção no que estava lendo...

Uma hora depois, surpreendi-me ao vê-la no balcão da farmácia enquanto eu falava com o atendente.

- Temos de parar de nos encontrar assim - eu disse. Ele respondeu gentilmente, mas percebi que nem havia me notado no consultório.

Seu nome era Bill. Este estranho que tanto me atraíra era o pai da professora de minha neta no jardim-de-infância. Seu próprio neto era da mesma turma e, curiosamente, as crianças se adoravam.

Cada um de nós se mudara para Iowa para ficar perto dos filhos c netos. Tínhamos deixado histórias de romances infelizes trás e, de certa forma, estávamos recomeçando.

Quanto mais eu conhecia esse homem, mais ficava impressionada. Ele se preocupara em construir sua casa respeitando o meio ambiente. Era um artista e professor de história da arte.

Pacifista, tinha recusado se alistar na época da guerra. Cada vez mais eu me dava conta de como nossos valores coincidiam.

Um dia, Bill me telefonou para se desculpar por não ter me acompanhado até a porta na véspera. Eu lhe garanti que, sendo uma mulher liberada, não precisava daqueles mimos.

O que quero dizer é que, se a tivesse acompanhado, eu poderia ter-lhe dado um beijo de boa-noite - ele respondeu.

Dizem que tudo tem hora certa para acontecer. E tem mesmo. Eu dividia temporariamente um quarto apertado na casa de meu filho, planejando me mudar para um quarto alugado.

Bill e eu estávamos, digamos, namorando há apenas alguns dias quando ele disse:

- Seria divertido planejar nosso jardim juntos.

Isso significava que nossas vidas estavam se entrelaçando e nada poderia me deixar mais feliz. Logo, de forma doce e sensível, Bill sugeriu que nos casássemos para proteger-me de falatórios em nossa pequena comunidade. Eu disse que não me importava com as aparências. Depois de algumas semanas, surpreendi-me, um dia, sentada em seu colo. Ele me olhou e disse calmamente:

- Seria divertido planejarmos juntos o nosso casamento. Eu não sabia que meu coração era capaz de bater daquela maneira. Como eu poderia dizer não?

Organizamos um casamento elegante e refinado, numa lua cheia de junho. Tantas pessoas demonstraram vontade de comparecer à cerimônia que pusemos um anúncio no jornal local, em que nossos quatro netos convidavam para o casamento dos avós.

No altar, eu disse as palavras que me vinham do coração:

- Tudo em minha vida me preparou para este momento mágico.

Tenho a certeza de que nada foi em vão. Bill e eu nos unimos num período da vida em que cada um já tinha passado por muitas vivências, momentos de dor e também de alegria. Finalmente chegamos a um estágio de paz interior, autossuficiência e amor-próprio.

Quando penso na nossa história, lembro-me da seguinte passagem:

Devo conquistar minha solidão por mim mesmo.

Devo estar bem comigo mesmo ou nada terei para oferecer.

Duas metades não têm escolha a não ser se unirem e, sim, com certeza, elas formarão um inteiro.

Mas dois inteiros quando combinam...

É a beleza. É o amor.

 

 

 

As melhores e mais belas coisas da vida não podem ser vistas nem tocadas.

Precisam ser sentidas com o coração.

HELEN KELLER


 

QUE LINDO DIA, NÃO É?

ADAPTADO POR BARBARA JOHNSON

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 93

 

O dia já começou errado. Ela perdeu a hora, estava atrasada para o trabalho. Tudo que aconteceu no escritório contribuiu para deixá-la ainda mais nervosa. Quando chegou ao ponto de ônibus de volta para casa, o estômago era um grande nó.

Como sempre, o ônibus estava atrasado - e cheio. Teve de ficar em pé no corredor. O veículo chacoalhava e ela mal conseguia se equilibrar, ficando ainda mais desanimada.

Até que ela ouviu uma voz que vinha da parte da frente do ônibus. Por causa do monte de gente, não podia ver o homem, mas podia ouví-Io comentar o cenário de primavera, chamando atenção para cada ponto de referência que se aproximava. Esta igreja. Aquele parque. O cemitério. O corpo de bombeiros. Logo todos os passageiros estavam olhando pelas janelas. O entusiasmo do homem era tão contagiante que ela sorriu pela primeira vez naquele dia.

O ônibus chegou ao ponto em que ela deveria saltar.

Tentando chegar à porta, deu uma olhada no guia: um senhor mais velho, de barba, usando óculos escuros e carregando uma bengala fina e branca.

 

 

Pior que não ver é não ter visão.

HELEN KELLER


 

NOSSO MENINO DO NATAL

SHIRLEY BARKSDALE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 95

 

Sendo filha única, o Natal era calmo demais na minha casa.

Imaginei um dia me casar, ter seis filhos e um Natal cheio de energia e amor.

Encontrei o homem que tinha o mesmo sonho, mas não considerávamos a possibilidade da infertilidade. Sem hesitar, entramos numa fila de adoção e, dentro de um ano, ele chegou.

Nós o chamamos nosso Menino do Natal porque o recebemos durante o período de festas, apenas com seis dias de vida. Então a natureza nos surpreendeu mais uma vez. Numa rápida sucessão, acrescentamos dois filhos biológicos à família. Não eram exatamente tantos como esperávamos, mas, comparando com a minha infância, três crianças já formavam uma multidão inteiramente satisfatória.

À medida que crescia, nosso Menino do Natal foi deixando claro que escolher e decorar a árvore de Natal era sua tarefa. Ele se antecipava e fazia sua lista de presentes antes de terminarmos de comer o peru da festa de Ação de Graças. Ele nos fazia entoar cânticos, nossas vozes terríveis contrastando com o seu diapasão perfeito. A cada Natal ele nos enlouquecia, levando-nos a um caos de pura felicidade.

Nossos amigos têm razão ao dizer que crianças adotadas não são iguais às outras. Através de sua hereditariedade, nosso menino alegrou nossas vidas com sua disposição incontida, sua evidente sagacidade. Ele fazia com que nos comportássemos melhor do que éramos.

Mas, no seu vigésimo sexto Natal, ele partiu tão inesperadamente quanto chegou. Morreu num acidente de carro numa rua de Dênver cheia de gelo, quando voltava para casa, onde o esperavam a mulher e a filha pequena. Mas antes estivera em nossa casa para decorar a árvore, ritual que nunca abandonara.

Abalados pelo luto, meu marido e eu vendemos a casa cheia de lembranças. Mudamos para a Califórnia, deixando para trás nossos amigos e nossa congregação.

Nos dezessete anos seguintes, sua mulher se casou novamente e sua filha terminou o colégio. Meu marido e eu envelhecemos e nos aposentamos e, em dezembro de 1986, decidimos voltar a Denver.

Chegamos à cidade junto com uma tempestade de neve, as luzes da cidade iluminando a escuridão. Olhei para as montanhas onde nosso filho costumava ir na época do Natal para buscar a árvore perfeita. Estava enterrado ali, mas eu não conseguia visitar seu túmulo.

Fomos para uma casa pequena, muito diferente daquela onde tínhamos vivido. Era silenciosa, como a da minha infância. Nosso outro filho se casara, morava em outro estado e tinha agora suas próprias tradições natalinas. Nossa filha, uma artista, parecia preenchida pela carreira.

Um dia, olhava para as montanhas cobertas de neve quando ouvi um carro chegando e a insistente campainha da porta.

Lá estava nossa neta e, nos seus olhos verdes e no sorriso atrevido, vi o reflexo do nosso Menino do Natal.

Atrás dela, puxando um enorme pinheiro, a mãe, o padrasto e o meio-irmão de dez anos. Passaram por nós com uma lufada de risos, abriram uma garrafa de vinho e brindaram à nossa volta. Decoraram a árvore e empilharam lindos embrulhos de presentes sob os galhos.

- Você reconhece os enfeites? - perguntou minha ex-nora.

Eram dele; guardei-os para você.

Quando murmurei, numa dolorosa lembrança, que há dezessete anos não tínhamos uma árvore, nossa atrevida neta disse:

Então está na hora de mudar isso.

Saíram num turbilhão, empurrando um ao outro pela porta, mas pedindo-nos que fôssemos com eles à igreja na manhã seguinte e nos convidando para a ceia de Natal.

- Não, não podemos - comecei a falar.

- Claro que podem - ordenou nossa neta, mandona como o pai. - Vou cantar um solo e quero que estejam lá.

Há muito tempo havíamos desistido de assistir às emocionantes cerimônias de Natal, mas agora, sob pressão, estávamos firmes no banco da frente, segurando as lágrimas.

Chegou a hora do solo. A linda voz de soprano de nossa neta elevou-se, fervorosa e verdadeira, em perfeito diapasão. Ela cantou Noite Feliz, que trouxe amargas lembranças. Numa resposta emocional e rara, a congregação aplaudiu com prazer.

Como seu pai gostaria de viver este momento!

Fomos avisados de que haveria "um monte de gente" na ceia - mas não esperávamos trinta e cinco! Os parentes enchiam a casa.

Crianças pequenas, barulhentas e agitadas, pareciam saltar das paredes. Eu não identificava quem era filho de quem, mas isso não tinha importância. Eles nos deixaram à vontade e nos incluíram no sentimento de alegre companheirismo. Entoávamos cânticos em voz alta e fora do tom, salvos apenas pela aturdida soprano.

Um pouco depois do jantar ocorreu-me que uma família de verdade nem sempre é formada apenas pelo mesmo sangue e carne. O que importa é o que vem do coração. Se não fosse por nosso filho adotado, não estaríamos agora rodeados por estranhos que se importavam conosco.

Mais tarde, nossa neta pediu que saíssemos com ela.

- Eu dirijo - ela disse. - Há um lugar aonde gosto de ir. Ela pulou ao volante do carro e, com a confiança de quem acabara de tirar a carteira, foi em direção às montanhas. Ao lado da lápide havia uma pedra em formato de coração, meio quebrada, pintada por nossa filha artista. Na superfície desgastada ela escrevera: ''Ao meu irmão, com amor." Em cima do túmulo, uma guirlanda de Natal. Nosso outro filho, soubemos, envia uma todos os anos.

Em meio a um silêncio reconfortante, apesar do frio, não esperávamos a atitude imprevista de nossa neta. Mais uma vez naquele dia ela soltou a voz, bela como a de seu pai, e, ali nas montanhas, cantou Joy to the World, que o eco repetiu diversas vezes.

Quando a última nota se ouviu, eu senti, pela primeira vez desde a morte de nosso filho, um sentimento de paz, da continuidade positiva da vida, de renovada fé e esperança. O real significado do Natal nos havia sido devolvido. Aleluia!


 

SEMPRE AO MEU LADO

SUZANNE THOMAS LAWLOR

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 100

 

Mamãe e eu saímos da mesma fôrma. O mesmo cabelo liso e escuro, os mesmos olhos míopes e o mesmo tipo de corpo.

Minha mãe era o meu porto seguro. Apesar de todo o preparo e estudo, eu era tímida e insegura. Ela estava sempre a meu lado, me apoiando, me dando força. Era professora de estudos sociais na escola onde eu cursava o segundo grau e todos os meus amigos a conheciam e gostavam dela.

Eu tinha dezesseis anos quando um simples resfriado se transformou numa pneumonia que levou minha mãe em uma semana.

De repente, meu mundo desmoronou. As portas pareciam se fechar e eu me via no meio de um túnel escuro. Pensava em todas as perguntas que gostaria de ter feito à minha mãe - desde coisas maiores sobre sua vida e o que ia no seu coração até questões mais simples, como a receita dos doces do Natal ou a medida de açúcar de sua famosa torta de limão e merengue.

Minha mãe nunca mais estaria a meu lado. Eu me sentia profundamente triste, sozinha e desamparada.

A partir daí, eu, antes aberta e idealista, me transformei em uma garota amarga e sarcástica, como se meu coração tivesse uma couraça de tristeza e culpa. Eu me torturava pensando no que poderia ter feito ou dito para manifestar meu amor nas vezes em que a percebi triste e não dei atenção, em alguma palavra áspera que lhe dissera. Era tarde demais.

Quando estava no segundo ano da faculdade, aprendi a fazer meditação e, aos poucos, comecei a sair da armadura que usava para me proteger. Sentada, olhos fechados, eu sentia aflorarem as lágrimas purificadoras que me restauravam.

Uma manhã, durante a meditação, as lembranças tristes e geradoras de culpa voltaram a me assaltar. Lembrei-me então de uma história que minha mãe me contara sobre meu avô, acometido por um câncer de garganta quando ela só tinha oito anos. Pouco antes de morrer, ele lhe dissera:

- Evelyn, lembre-se disso: se alguma coisa me acontecer e você realmente precisar de mim, me chame. Estarei por perto para ajudar.

Minha mãe me contou que, na época da faculdade, ela se apaixonara por um rapaz que lhe partiu o coração. Ela se sentiu tão triste que, dentro dela, chamou pelo pai.

- De repente eu senti que ele estava ali, no meu quarto.

Senti todo o seu amor e soube que tudo ficaria bem.

Achei que valia a pena tentar. Então, chamei minha mãe em pensamento. "Me desculpe", repeti várias vezes, soluçando.

Alguma coisa mudou naquele momento. Foi como se colocassem sobre meus ombros um manto de paz. No meu coração, ouvi minha mãe dizer: "Agora eu posso compreender tudo. Não há do que se desculpar. Acredite no meu amor." Eu me livrei do peso que carregara por tantos anos. Senti, naquele momento, uma espécie de liberdade inebriante.

Alguns anos depois, na véspera de meu casamento com Tony, meu marido querido, senti falta de minha mãe como jamais sentira. Gostaria que ela dividisse comigo aquele momento. Precisava de sua sabedoria e queria sua bênção. Mais uma vez chamei por ela.

Logo depois da cerimônia, uma amiga da família de meu noivo me chamou à parte:

- O nome Forshay diz alguma coisa para você? - perguntou.

- Claro - respondi. - É o nome de solteira de minha mãe.

Por quê?

Ela falou pausadamente:

- Durante a cerimônia, aconteceu uma coisa extraordinária.

Eu pude ver você e Tony envolvidos por um espírito de muita luz que transmitia um grande amor a vocês. Foi tão bonito que não pude me conter e comecei a chorar. Ouvi então um nome sussurrado no meu ouvido: Forshay.

Eu não conseguia dar uma só palavra. Ela continuou:

- E o espírito trouxe uma mensagem para você. Quer que você saiba que sempre será amada, que nunca deve duvidar disso. E que esse amor chegará a você através dos seus amigos.

Nesse momento eu entendi profundamente que o amor sobrevive à morte. A partir desse dia, às vezes percebo alguma coisa nos olhos de um amigo ou de alguém de quem gosto - ou mesmo nos meus próprios olhos, no espelho, e sei que minha mãe está ao meu lado me amando com carinho.


 

HISTÓRIA E QUÍMICA

E. LYNNE WRIGHT

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 104

 

No outro dia estava no cabeleireiro e ouvi algumas mulheres se queixando porque não havia mais em seus casamentos o romance, as centelhas e a animação dos primeiros anos. Não havia mais arrebatamento, elas diziam, nem emoção.

- A vida é assim - uma delas falou. - É inevitável. O tempo passa. As coisas mudam.

- Queria ter aquela química de volta - uma outra disse, suspirando. - Tenho inveja dos jovens apaixonados. Violinos e fogos de artifício.

Lembrei os primeiros tempos do meu próprio e especial romance, quando eu mais flutuava do que andava. Nunca tinha fome e muitas vezes me esquecia de comer. Meu cabelo brilhava, minha pela era lisinha e eu era educada, simpática e estava sempre bem-humorada. Quando meu amor e eu estávamos longe um do outro, eu passava cada minuto pensando nele. Ficava infeliz até nos vermos novamente, às vezes um espaço de duas ou três horas. A vida era composta de maraviIhosos sobressaltos, um atrás do outro: quando será que o telefone iria tocar, será que ele apareceria de surpresa na minha casa ou quando as nossas mãos iriam esbarrar por acaso.

Agora, este é o mesmo homem que, hoje, só se lembra do nosso aniversário de casamento de cinco em cinco anos, que dificilmente fecha a porta ou a gaveta do armário da cozinha que acabou de abrir, que resiste a comprar roupas novas até que eu, às escondidas, me livre de algumas coisas do armário para preservar a dignidade da família.

Eu não diria que ele é previsível, mas ele pergunta "O que você fez para o almoço?" seis dias na semana, depois de termos concordado, desde sua aposentadoria, que cada um cuidaria da própria comida na hora do almoço. Há pouco tempo ele me perguntou "O que você quer de presente de aniversário?" tantas vezes que, finalmente, pressionada, eu disse o que queria. Ele me deu outra coisa.

Ele só gosta de filmes ou programas de tevê se neles há perseguições de carros, explosões ou tiroteios a cada sete minutos e, naturalmente, sempre num volume de estourar os tímpanos. Ele considera que é seu direito, por ter nascido homem, comandar o controle remoto da televisão. É incapaz de falar em voz baixa ou fechar a porta da frente sem fazer estremecer a casa.

Mas... este é também o homem que, quando eu decido fazer dieta, diz: "Por quê? Para mim, você está bem." Que se levanta numa noite fria para apanhar mais um cobertor porque sabe que estou com frio. Que me deu um colar maravilhoso pelo meu mencionado aniversário depois de eu ter pedido um agasalho para velejar, me dizendo que eu mesma devia comprar aquele outro negócio.

Ele tem mais dignidade no dedo mindinho do que qualquer outra pessoa que eu conheço tem no corpo inteiro. Há pouco tempo, contou com orgulho aos meus parentes que eu me ocupei das despesas quando ele estava no início de carreira e o dinheiro era curto - isso trinta e quatro anos depois do acontecido. É um homem que, apesar de sua frugalidade causada pelas épocas de vacas magras, empresta grandes quantias a nossos filhos adultos sem hesitar, sem prazo e sem cobrar juros. Pode-se sempre contar com ele numa crise - calmo, racional, forte, justo e amoroso.

Durante todos esses anos, ele esteve ao meu lado, me abraçando e apoiando: quando minha mãe morreu, durante os partos dos nossos filhos e quando eu fiquei doente de cama. Meu marido tomou conta do meu coração desde a primeira vez que o vi.

Outro dia fiquei me lembrando das mulheres no cabeleireiro enquanto esperava no carro por ele, que tinha ido do outro lado da rua dar um recado. O que vi na calçada foi um homem magro, bem-apessoado e forte. Sua cabeça estava abaixada e ele caminhava, com as mãos no bolso, assobiando.

Muito atraente. Ele levantou a cabeça e sorriu. Zing!

O pai de meus filhos. O outro nome no meu talão de cheques. O homem por quem me apaixonei.

História e química. Não há nada melhor.


 

O DIA EM QUE EU CHOREI

MEG HILL

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 107

 

Eu não chorei quando o médico disse para mim e para o meu marido que Kristi, nossa filha de dois anos, tinha - como suspeitávamos - uma deficiência mental.

-Vamos, chore - aconselhou gentilmente o médico. - Chorar ajuda a prevenir dificuldades emocionais sérias.

Apesar da imensa dor que eu sentia, não consegui chorar naquele momento, nem durante os muitos meses que se seguiam.

Quando Kristi já tinha idade para ir à escola, nós a matriculamos no jardim-de-infância do colégio do nosso bairro. Ela estava com sete anos.

Eu achei que fosse chorar no dia em que a deixei naquela sala cheia de crianças de cinco anos. Fiquei na escola, vendo Kristi passar horas e horas brincando sozinha, uma criança "diferente" no meio de outras vinte. Senti um aperto enorme no coração, mas nenhuma lágrima saiu de meus olhos.

Com o passar do tempo, coisas positivas começaram a acontecer com Kristi e seus colegas de classe. Quando se vangloriavam de suas proezas, os colegas de Kristi sempre tinham o cuidado de elogiá-la: "Kristi escreveu todas as palavras certas hoje." Ninguém acrescentava que os exercícios dela eram mais fáceis do que os dos outros. Os avanços de Kristi eram registrados com alegria pela turma.

Foi no segundo ano de Kristi na escola que ela enfrentou sua experiência mais desafiante. O grande evento do final do ano era uma competição, o ponto culminante das atividades de educação física. Kristi estava muito atrás da turma em coordenação motora. Meu marido e eu temíamos aquele dia.

No dia do evento, Kristi fingiu que estava doente. Eu fiquei extremamente dividida, tentada por um lado a deixá-Ia em casa, mas também consciente de que seria importante para ela vencer o medo. Com um nó na garganta, levei uma Kristi pálida e relutante até o ônibus da escola e me preparei para assistir à competição.

Sentada no meio dos outros pais, sentia meu coração bater forte. Quando chegou a vez de Kristi, eu entendi o que a preocupava. Sua classe estava dividida em times de revezamento.

Com suas reações desengonçadas, hesitantes e lentas, ela com certeza iria prejudicar o seu time.

No entanto, a apresentação foi correndo bem, até a hora da corrida de sacos. Cada criança tinha que entrar em um saco na linha de partida, pular até a linha de chegada, fazer o caminho de volta sem sair do saco.

Observei minha filhinha de pé, perto do fim da sua fila de companheiros, com uma aparência assustada.

Mas, quando se aproximou o momento de Kristi participar da corrida, ocorreu uma troca de lugares em seu time. O menino mais alto da fila foi para trás de Kristi e segurou-a pela cintura. Dois outros meninos ficaram um pouco à frente dela.

Quando chegou a vez de Kristi, aqueles dois meninos pegaram o saco vazio e o abriram. O menino mais alto suspendeu Kristi e a colocou suavemente dentro do saco. Uma menina à frente de nossa filha pegou-a pela mão e a sustentou brevemente, enquanto Kristi recuperava o equilíbrio. E então lá foi ela, pulando, sorridente e orgulhosa.

Em meio às aclamações dos professores, colegas e pais de alunos, eu me afastei lentamente, agradecendo a Deus por aquelas pessoas calorosas e compreensivas que tinham tornado possível para a minha filha deficiente agir como seus semelhantes.

E então, finalmente, eu chorei.


 

PERSEVERANÇA

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 110

 

 

Quando o mundo inteiro escurece

E nada se pode enxergar,

Quando pairam tantas sombras,

Senhor, que eu possa perseverar.

Quando tudo já foi tentado,

Todo caminho explorado,

Faça-me apenas lembrar

Que às vezes o percurso é lento

E é preciso ir mais devagar.

Que no caminho a percorrer

Talvez seja este o momento

De parar e repousar,

De tentar compreender

E com meu Deus conversar.

Ganho forças, prossigo, quero,

Sem duvidar nem temer,

Sei sem ter como saber,

Que tudo vai se acertar.

E, por isso, eu persevero.

 

ANNE STORTZ


 

A LISTA

AGNES MOENCH

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 112

 

Muitas vezes minha amiga June dizia: "Se eu ficar rica, vou me mudar para um apartamento maior e comprar um guarda-roupa inteiramente novo." Eu ouvia e pensava: "Vai sonhando, minha amiga. Suas chances de ficar rica são tantas quanto as minhas." Mas, para surpresa de todos, há alguns anos, June recebeu uma herança considerável.

A princípio, June não falou nada sobre o dinheiro. Mas, depois do choque inicial, só pensava nisso. Como ela acredita piamente em fazer listas para tudo, não fiquei surpresa ao encontrá-Ia um dia anotando as maneiras de gastar sua riqueza recém-conquistada.

À medida que o tempo passava, ela mudava a lista. O que antes ficava na parte de baixo agora estava na de cima. Ouvi falar das mudanças por algum tempo e acabei lhe dizendo:

- June, não precisa gastar toda a sua herança de uma vez só.

Pense um pouco, reze, peça orientação a Deus.

- Você tem razão - ela respondeu, meio irritada.

Depois disso, fiquei de lado, só observando a lista mudar a cada dia. Até que uma manhã June me telefonou.

- Decidi como quero usar minha herança - ela disse. - Você pode passar por aqui? Quero ouvir sua opinião.

Eu não estava exatamente ansiosa para ouvir, mas éramos amigas há muito tempo e decidi ir até lá. Estava determinada a ficar de boca fechada, o que quer que estivesse na lista.

June me serviu um café e colocou uma folha de papel sobre a mesa. Para minha mais completa surpresa, só havia t rês palavras escritas, em grandes letras de fôrma: IGREJA, CARIDADE, NETOS - nesta ordem. Embora eu tivesse resolvido ficar calada, não podia deixar de perguntar como chegara a tal decisão.

- Bem - ela disse -, segui seu conselho e rezei, não uma, mas muitas vezes. A Igreja significa muito para mim. Deste modo, espero que a minha doação possa ajudar na realização de sua missão.

June continuou:

- Foi um pouco mais difícil optar pelas obras de caridade.

Mas, como sempre quis ajudar as crianças, este é um caminho para fazer alguma coisa por elas.

E emendou:

- Quanto aos netos, eles vão dividir parte da herança.

Mas não acho que tenham de receber tudo de mão beijada. É importante saberem o que significa trabalhar e guardar o próprio dinheiro.

Não resisti:

- E o tal apartamento grande que você sempre quis ter?

- Não parece mais tão importante - ela respondeu com um sorriso.

Então June moveu a mão e pude ver algumas poucas palavras escritas em letras minúsculas no cantinho inferior da folha. Apontei com o dedo e perguntei:

- O que é isso?

- Ah - ela exclamou, corando. - Uma anotação para mim.

Inclinei-me para ler as letras miúdas e caí numa gargalhada.

June escrevera:

E TAMBÉM um novo guarda-roupa.

 

 

Não somos ricos pelo que temos, mas sim pelo que não precisamos ter. EMMANUEL KANT


 

O JARDIM DE VOVÓ

LEANN THIEMAN

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 115

 

Eu adorava observar minha avó capinando o solo de argila no meu jardim.

- Não sei como você pode cultivar qualquer coisa nisso ela resmungava.

- O solo do Colorado não se compara com o seu, em Iowa, vovó! - eu disse, olhando-a com admiração, gravando aquele momento em minha memória para sempre. Mechas prateadas escapavam do lenço de cabelo enquanto o corpo magro se inclinava para arrancar do chão um punhado de erva daninha.

- Essa porcaria cresce em qualquer lugar - ela ria. - Até neste solo!

Embora vivesse sozinha em sua fazenda em Iowa, onde ela e vovô tinham se instalado há meio século, ela ainda mantinha um pomar que podia sustentar toda a vizinhança!

Alguns dos dias favoritos da minha infância foram passados no verão, em seu jardim, ajudando-a a arrancar as plantas que ela identificava como ervas daninhas ou plantando vegetais e flores. Ela me ensinara que jardinagem não era só cultivar plantas, mas cultivar fé. Cada semente plantada era uma prova disso. Quando eu tinha sete anos, perguntei a ela: - Vovó, como é que as sementes sabem que as raízes devem crescer para baixo e a parte verde deve crescer para cima?

- Fé - era sua resposta.

Quando eu cresci e me casei, meu marido reconheceu a marca que a terra de vovó deixara sob minhas unhas e no meu coração.

Ele apoiou meu sonho de viver fora da cidade e no nosso pedaço de terra de dois acres havia cavalo, cachorro, gato, coelho, seis galinhas e, naturalmente, um grande pomar. Eu me sentia privilegiada e contentíssima por ter vovó ali, cuidando da terra.

Vovó encostou a enxada perto da cerca e veio até o canteiro de flores para me ajudar a plantar as margaridas que trouxera do seu jardim para o meu. Ela não sabia que eu a estava observando enquanto dava batidinhas na terra à volta da base de uma planta. Fazendo com a mão o sinal-da-cruz sobre a planta, ela sussurrava: "Deus a abençoe. Cresça." Eu quase me esquecera da bênção do jardim da época da minha juventude. Dez anos depois disso, essas margaridas ainda dão flores.

Vovó agora está cuidando do jardim de Deus, mas ainda sinto sua influência a cada dia. Sempre que jogo sementes na terra, faço um sinal-da-cruz sobre elas e digo: "Deus as abençoe, cresçam.

E, quando o silêncio se faz, posso ainda ouvir sua bênção, alimentando minha fé: "Deus a abençoe. Cresça."

 

Cada lâmina de grama tem um anjo

que se inclina sobre ela e sussurra: "Cresça! Cresça!"

TALMUDE


 

RON

DAN CLARK

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 118

 

Ron era um adolescente de quinze anos, estudante da primeira série do segundo grau da sua escola. Era dia de final do campeonato do colégio e ele era o único de sua turma na equipe principal de futebol. Entusiasmado, convidou sua mãe para assistir à partida. Seria a primeira vez que ela assistiria a um jogo e prometeu comparecer e levar várias de suas amigas. O jogo finalmente terminou e ela foi esperar o filho na porta do vestiário para levá-lo de carro para casa.

- O que você achou do jogo, mamãe? Você viu os três gols sensacionais do nosso time e a nossa defesa cerrada? E o contra-ataque do time adversário quando deixamos a bola escapar logo nos primeiros minutos do segundo tempo, mas que conseguimos recuperar? - Ron perguntou.

A mãe respondeu:

- Ron, você foi magnífico. Você teve tanta presença, e fiquei tão orgulhosa. Você levantou suas meias até o joelho onze vezes durante o jogo e sei que você estava transpirando muito porque tomou quatro bebidas energéticas e jogou água no rosto duas vezes. Gostei quando você saiu do seu lugar para dar tapinhas nas costas do número nove, do número cinco e do dezoito quando eles foram substituídos.

- Mamãe, como é que você sabe isso tudo? E como você pode dizer que eu fui magnífico? Eu nem joguei essa partida.

A mãe sorriu e abraçou o filho.

- Ron, eu não entendo nada de futebol. Não vim aqui para ver o jogo. Vim aqui para ver você!


 

O QUE SIGNIFICA SER APAIXONADA

BARBARA DE ANGELIS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 120

 

O que significa ser uma pessoa apaixonada? É mais do que ser casada ou fazer amor com alguém. Milhões de pessoas são casadas, milhões de pessoas fazem sexo, mas poucas são realmente apaixonadas. Para ser na apaixonada, você tem de se entregar e se comprometer numa eterna troca de intimidade com seu companheiro.

Você é apaixonada quando reconhece que a vida lhe deu aquele companheiro como uma dádiva e você se alegra por isso todos os dias.

Você é apaixonada quando se lembra de que seu companheiro não lhe pertence - é apenas um empréstimo do universo.

Você é apaixonada quando entende que nada que acontece entre vocês deixa de ter significado, que tudo que diz tem o poder de deixar o seu amor alegre ou triste e tudo o que faz fortalece a ligação ou a enfraquece.

Você é na apaixonada quando compreende tudo isso e, assim, acorda cada manhã agradecida por ter mais um dia para amar e desfrutar esse amor com seu companheiro.

Ser apaixonada por alguém é uma bênção. Você recebeu a dádiva de ter alguém escolhido para caminhar ao seu lado, alguém com quem partilhará seus dias e suas noites, sua cama e seus problemas. Essa outra pessoa poderá ver partes secretas do seu eu que ninguém mais poderá ver. Tocará partes do seu corpo que ninguém mais tocará. Vai procurar você no seu esconderijo e lhe oferecerá seus braços como um refúgio seguro e amoroso.

Seu amor lhe oferece vários milagres a cada dia. Tem o poder de fazê-la feliz com um sorriso, com sua voz, seu perfume, o modo de caminhar. Tem o poder de acabar com sua solidão e de tornar sublime o que é comum. Ele é seu caminho para alcançar o Céu aqui na Terra.

 

 

Estar presente é mais do que apenas estar aqui.

MALcoM FORBES


 

NEGÓCIO ARRISCADO

JÔ COUDERT

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 122

 

Uma mulher que diz sua idade é capaz de dizer qualquer coisa, de acordo com Oscar Wilde. Sendo assim, não tenho a menor intenção de declarar a minha, embora admita que não estou mais na primeira juventude. Na verdade, qualquer música da época da Segunda Guerra Mundial que você mencione eu poderei cantar inteirinha.

Isso já lhe dá uma ideia de por que eu me senti uma boba quando comprei a motocicleta. Enquanto assinava o cheque, não podia acreditar que eu estava mesmo fazendo uma compra tão inconsequente. É verdade que, por anos, eu pensara como seria divertido ter uma motocicleta.

- Para quê? - debochavam minha família e amigos.

- Para me aventurar por pequenas estradas escondidas - eu respondia.

- Mas você pode usar o carro - diziam. Sim, mas numa motocicleta eu poderia parar e admirar as flores do campo e 'prestar atenção no suave barulho de um rio.

- Você vai acabar se matando - todos me desanimavam.

Foi por isso que nunca me dispus seriamente a comprar uma motocicleta.

Então por que, quando um amigo sugeriu que parássemos numa loja, eu me vi comprando uma daquelas perigosas engenhocas? Tudo bem, a motocicleta era elegante, novinha e veio no meu tom favorito de azul.

Mas o verdadeiro motivo era que eu tinha de deixar cair minha máscara. Por anos eu dissera que queria uma motocicleta. Ali estava minha oportunidade. Se fraquejasse, tenho a impressão de que minha vida começaria a declinar. Já vira isso acontecer com outras pessoas - recusar aquele emprego dos sonhos por medo de mudar de cidade, deixar de fazer rafting num rio porque o barco pode virar. Eu percebia que a vida da pessoa ficava mais estreita, mais restrita, como se fechar uma porta tivesse fechado outras, ainda desconhecidas.

Preenchi o cheque e paguei.

O próximo passo seria cuidar da habilitação. Quando apresentei minha carteira de motorista para a jovem loura no balcão do departamento de trânsito, ela a conferiu indiferente até chegar à "data de nascimento". Os olhos se desviaram para o meu rosto, ela deu um sorriso zombeteiro.

- A senhora já não está meio velha para se juntar aos Hell´s Angels? - perguntou numa voz arrastada.

Quando saí pela primeira vez com a moto, concordei plenamente com suas palavras. Eu estava nervosa. Ficava me dizendo o tempo todo onde eram o acelerador e os freios. Um carro vinha atrás de mim e acabei deslizando no cascalho e me esborrachando no chão. Onde era o freio? Por que eu estava indo tão depressa?

O pânico tinha congelado minha mão no acelerador. E os freios não eram nos pedais, mas no guidom. Assim que descobri como parar, saí da moto e fui a pé com ela para casa.

Tentei novamente no dia seguinte e no outro. No quarto dia, relaxei o suficiente para fazer uma maravilhosa descoberta: eu podia sentir o cheiro do campo - a relva, as margaridas, a terra molhada e as rosas selvagens. E podia ver de onde vinham as flores. A paisagem não era como um filme que passa rapidamente, mas uma tapeçaria de folhas e galhos costurados e pétalas bordadas. Quer dizer, se eu conseguisse levantar os olhos da estrada o tempo suficiente para dar uma olhada.

Procurando um lugar seguro para praticar, descobri um caminho asfaltado, que levava até uma fábrica. A cada dia eu aumentava a velocidade, inclinando nas curvas, ousando mais nas manobras. Não tinha ideia de que deixar o vento bater no rosto livremente podia ser tão divertido.

Um dia, com confiança redobrada, ousei ir até a cidade que ficava a uns três quilômetros, acompanhando o rio. Parei a moto junto à margem e peguei um saco com pão velho que guardara para alimentar os patos. Vi que por ali estavam dois garotos que ficaram admirando a motocicleta. Um deles me chamou, batendo no meu ombro.

- Eu e ele - ele disse, apontando o amigo - queremos trocar nossas bicicletas pela sua moto.

Comecei a rir, mas seu rosto sardento estava totalmente sério. Com uma voz grave, eu disse:

- É uma bela oferta, mas acho que não vou ter muito o que fazer com duas bicicletas.

Ele balançou a cabeça. Compreendia minha situação.

Como você se chama? Quanto que a motocicleta corre?

Alguma coisa parecia não bater bem enquanto conversávamos. Então compreendi que era exatamente isso: nós estávamos conversando. Para eles, eu não era uma mulher idosa. Era a dona de um brinquedo maravilhoso e isso eliminou o abismo entre nós.

Os vizinhos tinham um sentimento parecido. Quando eu passava com a moto, eles riam, acenavam e, muitas vezes, gritavam:

E aí, como está se saindo?

Primeiro pensei que era porque eu parecia engraçada com meu capacete branco, óculos de aro de chifre e luvas e jaqueta de couro mesmo nos dias mais quentes (para proteção, no caso de queda). Mas, quando eu tirava os olhos da estrada, percebia que seus rostos eram amáveis e que sentiam uma espécie de prazer indireto com a minha aventura.

Mas eu sabia que fora realmente aceita quando um adolescente a cabeça do lado de fora de seu carro envenenado, e gritava com sorriso de aprovação:

- Vamos lá, minha senhora!

- Eu consegui! - respondia. E estou feliz, é o que tenho pensado desde então. A motocicleta realmente me levou a caminhos desconhecidos. Ela me proporcionou novas aventuras.

Mas, principalmente, me fez sentir que as portas da minha vida continuam abertas. Tudo é possível.

É claro que há riscos. Não mudei de opinião quanto a isso. Por outro lado, uma amiga que falara muito sobre os perigos de uma motocicleta levou um tombo na banheira e quebrou braço. Uma outra, viúva, que estava para voltar para a faculdade, mas desistiu com medo de ser ridicularizada, entrou em profunda depressão.

Penso nelas e vejo que a única coisa mais perigosa que não correr riscos é não se arriscar. Talvez as pessoas esperem que você se torne inconsequente à medida que envelhece. É a forma de continuar dizendo sim à vida. E, talvez, dizer sim, não ser prudente, seja o que realmente é importante na vida.

 

 

 

Eu me arrisquei a tudo que desejei... e o que eu desejo eu faço.

HERMAN MELVILLE


 

AJUDA PARA QUEM AJUDA

MARLENA THOMPSON

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 127

 

Aos dezoito anos, deixei minha casa no Brooklyn, Nova York, para ir estudar história na Universidade de Leeds, em Yorkshire, na Inglaterra. Foi uma época cheia de novidades, mas estressante, pois tinha de me adaptar a um lugar novo, sem ter ainda me acostumado com a dor da perda recente de meu pai - fato que ainda não conseguira assimilar.

Um dia, no mercado, tentando decidir que flores alegrariam meu quarto de estudante, confortável, mas sem graça, vi um senhor com dificuldade para se apoiar em sua bengala enquanto carregava um saco de maçãs. Corri para apanhar as maçãs, dando-lhe tempo de recuperar o equilíbrio.

- Obrigado, querida - ele disse, com aquela cadência característica de Yorkshire, que não me canso de ouvir. - Já estou bem, agora, não se preocupe - acrescentou, sorrindo para mim, não só com os lábios, mas com um par de brilhantes olhos azuis.

- Posso caminhar com o senhor - disse. - Só para ter certeza de que essas maçãs não vão virar purê antes da hora.

Ele riu e disse:

- Você está bem longe de casa, não é, moça? Você é dos Estados Unidos?

- Só de um dos estados, Nova York. Vou lhe falar sobre isso enquanto caminhamos.

Assim começou minha amizade com o Sr. Burns, um homem cujo sorriso e carinho logo se tornariam muito importantes para mim.

No caminho, o Sr. Burns (a quem eu sempre me dirigia assim, nunca o chamava pelo primeiro nome) se inclinava pesadamente sobre a bengala, resistente e enfeitada com os nós da madeira, que me lembrava um cajado bíblico. Quando chegamos à casa dele, ajudei-o a colocar os pacotes sobre a mesa e insisti em auxiliar na preparação do "chá" - quer dizer, sua refeição.

Interpretei seu débil protesto como um agradecimento.

Depois de fazer o chá, perguntei se haveria problema de eu voltar para visitá-lo. Pensei em estar com ele de vez em quando, para ver se precisava de alguma coisa. Com uma piscadela e um sorriso, ele respondeu:

- Eu jamais recusaria uma oferta vinda de alguém de tão bom coração, moça.

Voltei no dia seguinte, mais ou menos na mesma hora, de modo a poder ajudar mais uma vez na hora da refeição. A bengala era uma lembrança silenciosa de seu problema e, embora nunca pedisse ajuda, não protestava quando era auxiliado.

Nessa mesma noite tivemos nossa primeira conversa "de abrir o coração". O Sr. Burns me perguntou sobre meus estudos, meus planos e, principalmente, sobre minha família. Disse-lhe que perdera meu pai há pouco tempo, mas não falei muito mais sobre o relacionamento que tinha com ele. Em resposta, meu amigo apontou duas fotografias em porta-retratos na mesa perto de sua cadeira. Eram duas mulheres, uma bem mais velha que a outra. Mas a semelhança entre elas era surpreendente.

Esta é Mary - ele disse, indicando a fotografia da mulher mais velha. - Ela se foi há seis anos. E aquela é nossa Alice. Era uma ótima enfermeira. Minha Mary não suportou a dor de perdê-la.

Derramei ali as lágrimas que eu não conseguira chorar pela minha própria dor. Chorei por Mary. E por Alice. Chorei pelo Sr.Burns. E chorei por meu pai, a quem nunca pude dizer adeus.

Eu visitava o Sr. Burns duas vezes por semana, sempre no mesmo dia. Invariavelmente ele estava sentado em sua cadeira, a bengala encostada à parede. A pequena televisão em preto-e-branco estava sempre desligada, pois meu amigo preferia se distrair com seus livros e discos. Ele parecia sempre contente em me ver. Embora eu dissesse a mim mesma que sentia prazer em ser útil, na verdade me sentia ainda melhor por ter conhecido alguém a quem podia revelar meus pensamentos e sensações que, até então, eu mal revelara a mim mesma.

Enquanto eu fazia o chá, conversávamos. Eu lhe contei que me sentia terrivelmente culpada por não estar bem com meu pai nas duas semanas antes de sua morte. Não tive a oportunidade de lhe pedir perdão. Nem ele de pedir o meu.

Embora o Sr. Burns também falasse, contava muito menos coisas do que eu. Lembro-me bem dele prestando atenção no que eu dizia. E muita atenção! Ele não só se mostrava atento, mas absorvia as informações, acrescentando detalhes da sua própria experiência e imaginação para compreender melhor.

Depois de um mês mais ou menos, resolvi visitar meu amigo num "dia de folga". Nem me preocupei em telefonar antes, pois imaginei que este tipo de cerimônia não cabia no nosso relacionamento. Quando cheguei, eu o surpreendi trabalhando no jardim, inclinando-se com facilidade e levantando-se igualmente sem qualquer problema. Fiquei confusa. Aquele era o mesmo homem que usava aquela bengala que parecia um cajado?

De repente, o Sr. Burns olhou em minha direção. Percebendo minha surpresa, acenou mais do que encabulado. Sem nada dizer, aceitei seu convite para entrar.

- Bem, moça. Deixe que dessa vez eu lhe prepare o chá.

Você parece exausta.

- Mas, como? - eu comecei. - Eu pensei...

- Eu sei o que você pensou, querida. Quando você me viu a primeira vez, no mercado, eu tinha torcido o tornozelo um pouco mais cedo naquele dia. Tropeçara numa pedra enquanto cuidava do jardim. Sempre fui um desajeitado.

Mas... quando foi que o senhor voltou a andar normalmente?

Seus olhos, não sei como, pareciam felizes e arrependidos ao mesmo tempo.

- Ah, bem... acho que no dia seguinte ao nosso encontro.

- Mas, por quê? - perguntei, completamente perplexa.

Com certeza ele não podia ter fingido precisar de ajuda só para eu lhe fazer o chá de vez em quando.

- Da segunda vez que você veio aqui, querida, foi quando percebi como você estava infeliz. Sozinha, triste a respeito de seu pai e tudo o mais. Pensei que podia lhe emprestar meu ombro calejado para você se apoiar. Mas eu sabia que você achava que estava vindo aqui por minha causa, não por causa de seus problemas. Achei que não voltaria se achasse que eu estava bem.

E eu sabia que você estava precisando conversar com alguém.

Alguém mais velho, até mesmo mais velho que seu pai. E ainda alguém que soubesse ouvir.

- E a bengala?

- Ah, é uma bonita bengala, não é? Eu a uso quando vou fazer algum passeio em terreno mais difícil. Vou chamar você para ir comigo no próximo.

E foi assim. O homem que eu me dispusera a ajudar foi quem me ajudou. Ele me deu de presente um pouco do seu tempo, doou atenção e bondade a uma jovem que precisava das duas coisas.

 

 

Uma das mais bonitas compensações da vida é que ninguém pode sinceramente tentar ajudar a outra pessoa sem ajudar a si mesmo.

RALPH WALDO EMERSON


 

NUNCA LHE DISSEMOS QUE ELE NÃO CONSEGUIRIA

KATHY LAMANCUSA

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 132

 

Quando meu filho Joey nasceu, seus pés eram torcidos para cima, a parte inferior encostava em sua barriga. Como mãe de primeira viagem, achei aquilo estranho, mas não percebi exatamente o que significava. Na verdade, Joey nascera com uma deformação nos pés. Os médicos asseguraram que, com tratamento adequado, ele poderia andar normalmente, mas provavelmente não seria capaz de correr muito bem. Os primeiros três anos de vida, Joey passou entre cirurgias, gessos e aparelhos. Massagens, fisioterapia, exercícios. Quando tinha uns sete ou oito anos, quem o visse caminhar não perceberia que tivera um problema.

Se andasse grandes distâncias, como em parques de diversão ou no zoológico, reclamava que sentia as pernas cansadas e doídas. Tinha de parar, tomar um refrigerante ou um sorvete e conversar sobre o que já vira e o que ainda ia ver. Jamais lhe contamos porque suas pernas ficavam doloridas e porque eram fracas. Nem que aquilo era normal para quem tinha uma deformidade de nascença. Nunca lhe dissemos, então ele nunca soube.

As crianças da vizinhança, brincando, corriam para lá e para cá, como todas as crianças. Joey brincava com elas e corria também. Nunca lhe dissemos que provavelmente nunca poderia correr tão bem como os amiguinhos. Não lhe dissemos que era diferente. Nunca lhe dissemos, então ele nunca soube.

Na sétima série, decidiu fazer parte da equipe de atletismo da escola. Treinava todos os dias com os outros garotos. Parecia que era o mais esforçado do grupo e que corria mais que qualquer um deles. Talvez percebesse que habilidades tão naturais nos outros não eram naturais nele mesmo. Não lhe dissemos que, embora pudesse correr, provavelmente seria sempre um dos últimos a chegar. Não lhe dissemos que não devia esperar fazer parte do "primeiro time", elite composta pelos melhores corredores. Não lhe dissemos que dificilmente faria parte do "primeiro time", então ele nunca soube.

Joey continuou a correr de seis a oito quilômetros por dia, todos os dias. Jamais vou me esquecer de quando estava com mais de trinta e nove graus de febre e não quis ficar em casa porque tinha treino. Preocupei-me o dia inteiro. Imaginava que logo receberia um telefonema para que fosse buscá-lo. Ninguém telefonou.

No horário do término das aulas fui até a área de treinamento, imaginando que, se Joey me visse por lá, talvez decidisse faltar ao treino naquela tarde. Mas, quando cheguei, eu o vi correndo sozinho. Aproximei-me com o carro e fiquei dirigindo devagar, emparelhada com ele. Perguntei como estava se sentindo. "Bem" - respondeu. Faltava fazer pouco mais de três quilômetros. O suor lhe escorria pelo rosto, os olhos estavam vidrados pela febre. Mesmo assim, olhava firme para a frente e continuava a correr. Nunca lhe dissemos que ele não podia correr quilômetros com mais de trinta e nove graus de febre. Nunca lhe dissemos, então ele nunca soube.

Duas semanas depois, na véspera da penúltima corrida da temporada, os nomes dos componentes do "primeiro time" foram anunciados. Joey era o sexto da lista. Ele conseguira estar entre os melhores. Era o único aluno da sétima série. Os demais eram todos da oitava. Nunca lhe dissemos que não devia esperar fazer parte da elite. Não lhe dissemos que não seria capaz. Nunca lhe dissemos que não conseguiria, então ele nunca soube. E ele conseguiu.

 

 

Eles conseguem porque pensam que conseguem.

VIRGÍLIO


 

UM BEIJO DE BOA-NOITE

PHYLLIS VOLKENS, com supervisão de Jane Hanna

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 135

 

Sou enfermeira e sempre que chegava ao asilo para trabalhar no turno da noite percorria os corredores para conversar e ver se estava tudo em ordem. Muitas vezes encontrava Kate e Chris sentados com seus álbuns no colo, vendo fotos e relembrando o passado. Com orgulho, Kate me mostrava retratos antigos em que Chris aparecia, alto, louro e alinhado, e ela, bonita, morena e sorridente. Dois namorados lembrando alegremente a sua história. Como era lindo vê-los juntos. A luz do sol refletindo em seus cabelos brancos, os rostos vincados pela idade iluminados pelas lembranças capturadas para sempre nas fotos dos álbuns.

Às vezes a equipe do turno da noite via Kate e Chris caminhando de mãos dadas. O assunto passava a ser o amor do casal e o que aconteceria quando um deles morresse. Todos conhecíamos a força de Chris e sabíamos o quanto Kate dependia dele. Muitas vezes nos perguntávamos como ficaria Kate se Chris morresse primeiro.

A hora de dormir tinha todo um ritual. Eu trazia a medicação da noite e encontrava Kate na sua cadeira, de camisola e chinelos, me esperando. Chris e eu a observávamos enquanto ela tomava seu remédio. Então, com muito cuidado, Chris a ajudava a passar da cadeira para a cama, ajeitando as cobertas ao redor do corpo frágil.

Observando esse ato de amor, eu pensava pela milésima vez:

"Meu Deus, por que os asilos não têm camas de casal? Marido e mulher dormem juntos a vida inteira e justamente num asilo, onde mais precisam de aconchego, são privados de um costume que os confortou toda a vida."

"Como são tolas essas regras”, eu pensava enquanto o observava Chris se levantar e desligar a luz sobre a cama de Kate.

Então ele se curvava para beijá-Ia docemente, acariciando seu rosto, e os dois sorriam enquanto ele levantava a grade lateral da cama. Do corredor, eu podia ouvir Chris dizer "Boa-noite, Kate" e ela responder "Boa-noite, Chris". Depois ele se dirigia para sua cama, no outro extremo do quarto.

Cumprindo a escala, fiquei dois dias sem trabalhar e, quando voltei, a primeira notícia que me deram foi "Chris morreu ontem de manhã".

- Como?

- Um ataque cardíaco fulminante.

- Como está Kate?

-Mal.

Fui ao quarto de Kate. Ela se encontrava em sua cadeira sem se mexer, mãos no colo, olhos parados. Pegando as suas mãos nas minhas, eu disse:

- Kate, é Phyllis.

Ela nem piscou, seus olhos permaneceram fitando o nada.

Segurei seu queixo com a mão e, devagarinho, virei seu rosto para que ela me olhasse.

- Kate, acabo de saber que aconteceu com Chris. Sinto muito.

Ouvindo o nome "Chris", seus olhos brilharam. Ela me olhou, confusa a princípio, aos poucos me reconhecendo.

- Chris se foi - ela sussurrou.

- Eu sei - respondi. - Eu sei.

Nós nos desdobramos nos cuidados e no carinho com Kate.

Gradativamente ela retomou sua rotina. Muitas vezes, quando passava pelo seu quarto, eu a observava sentada em sua cadeira, álbum no colo, olhando com tristeza as fotos de Chris.

Para Kate, a pior parte do dia era a hora de dormir. Ela pedira para dormir na cama do marido, mas, apesar de tentarmos reproduzir os gestos dele, Kate permanecia em silêncio, tristemente retraída. Uma hora depois de ter sido colocada na cama, ela continuava acordada, olhos fixos no teto.

.As semanas se passaram e a hora de dormir ainda era muito difícil. Kate parecia sempre inquieta e insegura. Eu pressentia que devia haver uma razão para isso, mas não encontrava a causa. Então, uma noite, quando estava saindo do quarto depois de várias tentativas inúteis para tranquilizar Kate, ocorreu-me uma ideia. Voltei atrás, aproximei-me dela, acariciei seu rosto e, debruçando-me, beijei-a, dizendo "Boa-noite, querida".

Foi como se eu tivesse aberto uma comporta. Lágrimas caíam pelo rosto de Kate, suas mãos seguravam as minhas.

- Chris sempre me dava um beijo de boa-noite - ela disse, chorando.

- Eu sei - sussurrei.

- Eu sinto tanta falta dele, tanta falta do beijo que ele me dava na hora de dormir. - Ela fez uma pausa enquanto eu enxugava suas lágrimas. - Sem o beijo dele parece que eu não estou indo dormir. Muito obrigada por me dar um beijo.

Kate ensaiou um sorriso.

- Sabe - ela me confidenciou -, Chris costumava cantar uma canção para mim. E eu deito aqui à noite e penso nisso.

- Como era?

Kate sorriu, segurou minha mão e limpou a garganta. Então ela cantou, com sua voz pequena, mas ainda melodiosa:

 

Me beije, meu amor, e então nos separaremos

E quando eu estiver muito velha para sonhar

Este beijo estará bem vivo no meu coração.


 

TOMANDO FÔLEGO

THE BEST OF BITS e PIECES

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 139

 

Trabalhar fora pode ser duro, mas ter um emprego e criar filhos pode ser pior ainda.

Existe uma história sobre a mãe de três garotos levados que, numa noite de verão, brincavam de polícia-e-Iadrão no quintal de casa.

Um dos meninos "atirou" na mãe e gritou:

- Bangue! Matei você!

Ela desabou no chão e, como não voltou a se levantar, um vizinho veio correndo para ver se ela se machucara ao cair.

Quando o vizinho se ajoelhou ao lado dela, a mãe, sobrecarregada de trabalho, abriu um olho e disse:

- Psiiiu! Não me entregue. É a minha única chance de descansar.

 


 

AS COISAS QUE DESEJO A VOCÊ

LEE PITTS

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 140

 

Tentamos de todas as maneiras facilitar as coisas para nossos filhos e isso acaba piorando as coisas.

Com os meus netos, vou fazer diferente.

Gostaria realmente que aprendessem a aproveitar as roupas do irmão mais velho, a apreciar sorvete caseiro e bolo de carne feito com as sobras do almoço. Gostaria mesmo.

Meu neto querido, espero que aprenda a ser humilde ao descobrir seus erros e a ser honesto mesmo se ninguém estiver olhando.

Espero que aprenda a arrumar a cama e a aparar o jardim, além de lavar o carro - e que ninguém lhe dê um carro novinho quando você tiver dezesseis anos.

Será bom se, pelo menos uma vez, você vir um bezerrinho nascer e tiver um bom amigo ao seu lado se precisar sacrificar o seu cachorro de estimação.

Espero que consiga um olho roxo lutando por alguma coisa em que acredite.

Que divida um quarto com seu irmão mais novo. Tudo bem se você desenhar uma linha no chão, demarcando o seu lado.

Mas, se ele quiser ir para sua cama porque está com medo, espero que você deixe.

E, quando você quiser ir ver um filme da Disney e seu irmão quiser ir junto, espero que você o leve.

Espero que escale montanhas com seus amigos e que more numa cidade onde possa fazer isso com segurança.

Se você quiser um estilingue, espero que seu pai o ensine a fazer um, em vez de comprar. Também espero que aprenda a mexer na terra e a ler livros. E que, além de usar máquinas de calcular e computadores, aprenda a somar e a diminuir de cabeça.

Espero que seus amigos gozem você quando se apaixonar pela primeira vez. Quando você responder atravessado à sua mãe, espero que aprenda que gosto tem o sabão de coco.

Que machuque o joelho subindo uma montanha, queime a mão no fogão e queime a língua num café muito quente. Sem gravidade, lógico.

Espero que fique enjoado se alguém fumar perto de você.

Não me importo se experimentar cerveja uma vez. Mas espero que não goste. E, se um amigo lhe oferecer um baseado ou qualquer droga, espero que seja esperto o bastante para saber que essa pessoa não é sua amiga.

Espero, é claro, que encontre tempo para se sentar na varanda com seu avô e para ir pescar com seu tio.

Espero que sua mãe castigue você quando jogar uma bola de futebol na janela do vizinho e que ela o abrace e beije quando você lhe der um molde de gesso da sua mão.

São essas as coisas que desejo a você - dificuldades e desapontamento, trabalho duro e felicidade.

 

Não se pode ensinar as crianças a cuidarem de si mesmas sem que as deixemos tentar. Elas cometerão erros e desses erros virá a sabedoria.

H.W. BEECHER


 

VENDO COM OS OLHOS DO CORAÇÃO

BARBARA JEANNE FISHER

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 143

 

Eu estava cega! Foi apenas por seis semanas, mas pareceu uma eternidade.

Nesse período, eu fiquei internada sozinha, com multo medo e morta de saudade do meu marido e dos meus cinco filhos. Tenho certeza de que a escuridão exagerava todos esses sentimentos. Eu levava horas, dias até, imaginando se poderia ver meus filhos novamente. Passei tanto tempo com pena de mim mesma que, quando a enfermeira avisou que eu teria uma colega de quarto, nem me animei. Ironicamente, não queria que ninguém me visse naquela situação.

O nome da minha companheira de quarto era Joni. Gostei dela imediatamente. Joni estava sempre alegre e nunca se queixava de sua doença. Quando sentia que eu estava com medo ou deprimida, ela dizia, brincando, que eu tinha sorte em não poder me ver no espelho durante aquele período. Meu cabelo estava emaranhado por ficar sempre na cama e eu engordara muito por causa da cortisona.

Depois das visitas do meu marido, Joe, e das crianças, era Joni quem lia para mim todos os bilhetinhos e cartões recheados de "Eu te amo" e "Fique logo boa, mamãe". Era Joni quem abria minha correspondência, descrevia as flores que eu recebia de parentes e amigos e me ajudava na hora das refeições. Para me alegrar, ela dizia que eu tinha sorte de não poder ver a comida do hospital!

Uma tarde, meu marido veio me visitar sozinho. Eu e ele conversamos sobre a possibilidade de eu não voltar a enxergar. Joe me assegurou que isso não afetaria em nada seus sentimentos por mim e que, não importava o que acontecesse, teríamos sempre um ao outro. Juntos, continuaríamos a criar nossos filhos. Por horas, ele apenas me segurou em seus braços, deixou-me chorar e tentou iluminar um pouquinho meu mundo tão escuro.

Joni deve ter sentido que precisávamos ficar a sós e permaneceu tão quieta durante a visita que eu achei que ela não estava no quarto. Depois que Joe saiu, ela disse:

- Você não sabe como é feliz em ter tantas pessoas que a amam! Seu marido e seus filhos são tão lindos! Você tem tanta sorte!

Naquele momento percebi, pela primeira vez, que durante as semanas que passamos juntas no hospital minha companheira não havia recebido a visita de marido nem de filhos. Sua mãe e o padre vinham de vez em quando, mas ficavam pouco tempo.

Eu estivera tão envolvida com meus problemas que sequer permitira que ela se abrisse comigo. Pelas visitas do médico, eu sabia que seu estado era delicado, mas nunca perguntara sobre a sua doença. Entendi, então, como fora egoísta e me odiei por isso. Virei para o lado e comecei a chorar. Pedi a Deus que me perdoasse. Prometi que, logo pela manhã, eu perguntaria a Joni sobre sua vida, sua doença e seus problemas e diria como estava agradecida por tudo que ela fizera por mim. Eu lhe diria como realmente gostava dela.

Nunca tive a oportunidade. Quando acordei, a cortina estava puxada entre as duas camas. Eu podia perceber pessoas sussurrando e tentei escutar o que diziam. Então ouvi o padre repetir:

- Que ela possa descansar em paz.

Antes que eu pudesse dizer-lhe que a amava, Joni tinha morrido.

Soube depois que ela sabia, ao se internar no hospital, que jamais sairia dali. Mesmo assim, nunca se queixou e passou seus últimos dias me dando esperança.

Joni deve ter sentido que sua vida estava no fim exatamente na noite em que falou sobre como eu tinha sorte. Depois que chorei até dormir, ela me escreveu um bilhete. A enfermeira o leu para mim naquela manhã e, quando voltei a enxergar, eu o reli muitas vezes:

 

Minha amiga, Obrigada por tornar meus dias tão especiais!

Fiquei muito feliz com nossa amizade. Sei que você também se importa comigo, a 'sua vista que não é vista': Algumas vezes, para que prestemos atenção, Deus nos derruba, ou ao menos nos torna cegos. Nesse meu último suspiro, rezo para que você logo volte a enxergar, mas não especificamente como pensa. Você só pode aprender a ver se o fizer com o coração. Sua vida, então, será completa.

Lembre-se de mim com carinho,

 

Joni

 

Naquela noite acordei de um longo sono. Deitada na cama, percebi que podia identificar algum brilho na pequena lâmpada na mesinha-de-cabeceira. Minha visão estava voltando! Era só um pouquinho, mas eu podia ver!

Mais importante ainda era que, pela primeira vez na vida, eu podia ver também com o coração. Mesmo que eu jamais venha a saber como era o rosto de Joni, tenho certeza de que ela era uma das pessoas mais bonitas do mundo.

Perdi minha visão muitas vezes desde então, mas, graças a Joni, nunca me permitirei "perder de vista” as coisas que são importantes na vida, como carinho, amor e, às vezes, arrependimento.

 

 

Nunca a vida é tão dura que você não possa

torná-la melhor pelo modo como a leva.

ELLEN GLASGOW


 

JUNTOS NÓS VAMOS CONSEGUIR

DAN CLARK

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 147

 

Bob Butler perdeu as pernas em 1965, na explosão de uma mina, no Vietnã. Voltou para casa como herói. Vinte anos depois, ele provou, mais uma vez, que o heroísmo vem do coração.

Ele estava trabalhando em sua garagem, numa pequena cidade do Arizona, num dia quente de verão, quando ouviu gritos de mulher vindo de uma casa vizinha. Butler foi em direção aos gritos, empurrando sua cadeira de rodas, mas a vegetação densa não permitia que ele chegasse à porta dos fundos. O veterano de guerra saiu da cadeira e foi se arrastando pelo chão, entre os arbustos.

"Tinha de conseguir", ele conta. "Não importava o quanto doesse".

Quando Butler chegou à casa, viu que os gritos vinham da piscina, no fundo da qual estava uma menininha de três anos.

Ela nascera sem os braços e caíra na água. Não tinha como nadar. Na beira, a mãe da criança gritava histericamente. Butler mergulhou até o fundo da piscina, trazendo a pequena Stephanie. Seu rosto estava azul, ela não tinha pulso e não respirava.

Butler imediatamente iniciou manobras de ressuscitação na criança, enquanto a mãe telefonava para os bombeiros. Mas lhe disseram que os paramédicos estavam em outro atendimento.

Impotente, a mulher chorava e segurava o ombro de Butler.

Continuando a socorrer Stephanie, ele calmamente assegurou à mãe:

- Não se preocupe. Eu fui os braços dela para sair da piscina. Tudo vai dar certo. Agora sou os seus pulmões. Juntos, nós vamos conseguir.

Segundos depois, a menininha tossiu, recobrou a consciência e começou a chorar. Enquanto se abraçavam alegremente, a mãe de Stephanie perguntou a Butler como ele sabia que tudo ia dar certo.

- Quando perdi as pernas na guerra, estava sozinho num campo - ele contou. - Não havia ninguém para ajudar, apenas uma menininha vietnamita. Enquanto lutava para me arrastar até seu vilarejo, ela sussurrou num inglês atravessado: "Está tudo bem. Você vai viver. Eu ser suas pernas. Juntos nós conseguir." Agora foi a minha oportunidade de retribuir o favor Butler disse à mãe da criança.

 

 

Somos todos anjos de uma única asa.

Só quando ajudamos uns aos outros é que conseguimos voar.

LUCIANO DE CRESCENZO


 

O HOMEM SEM NOME

NAOMI JAMES

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 149

 

- Saiam, saiam! Está pegando fogo!

Fui acordada repentinamente por uma voz que eu não reconhecia e pulei da cama. Depressa! Depressa! Levantem! Levantem!

Eram as únicas palavras em que eu podia pensar ou dizer enquanto corria pelo apartamento, acordando meus filhos e netos.

O aviso veio a tempo e todos pudemos sair. Naquela fria manhã do Dia de Ação de Graças, meu marido Bobby, dois de nossos três filhos, já crescidos, o irmão gêmeo de meu marido, com seus dois netos se juntaram do lado de fora e viram nosso apartamento e nosso restaurante queimar por inteiro. Quando o dia clareou, só a lareira de tijolos estava de pé.

Mas estávamos agradecidos por estarmos vivos. Quem nos acordara? Como poderíamos agradecer a essa pessoa?

O hotel de cento e vinte e quatro quartos ao lado do restaurante também era da família e estava intacto. A encarregada da recepção, que não percebera o fogo, nos disse que um homem numa caminhonete parara no meio da estrada deserta, entrara correndo no saguão do hotel e lhe dissera para ligar para os bombeiros. Logo depois ele começou a bater nas portas.

Quem era o homem? Perguntamos a todos - aos bombeiros, aos policiais, aos hóspedes. Ninguém o vira, a não ser a atendente da recepção. Pusemos um anúncio no jornal, pedindo informações. Nunca poderíamos lhe agradecer o suficiente por ter salvo as vidas de nossa família, mas queríamos expressar nossa gratidão de alguma forma.

Nos anos que se seguiram, agradecíamos a Deus, a cada Dia de Ação de Graças, por essa pessoa que tanto fizera por nós e que Ele sabia quem era.

No dia de Natal, em 1994, meu marido Bobby e eu, nossos três filhos, suas mulheres e nossos nove netos nos reunimos na casa de nosso filho mais velho. Mais uma vez nos lembramos do homem que salvara nossas vidas. Sem ele, nossos netos sequer teriam nascido. Pedimos a Deus que o abençoasse e que um dia nos permitisse conhecê-lo.

Uns dias depois do Natal, Bobbye eu fomos à casa de Ray Horton, um de nossos chefes de carpinteiros, para pegar umas ferramentas. Ele nos convidou para tomar um café e começamos a conversar, falando sobre lugares em que estivéramos e coisas que tínhamos feito.

Ray nos contou que construíra casas em Portland, Texas, em 1969 e 1970. Contamos que tivéramos um restaurante e um hotel lá.

Ray virou-se para sua mulher e disse:

- Você se lembra de eu ter lhe contado sobre um incêndio naquele hotel?

No mesmo momento, Bobby e Ray se deram conta de que ele estava falando sobre o nosso hotel. Os dois se levantaram, ficaram um em frente ao outro e se abraçaram chorando. E nós todos nos abraçamos e choramos, sabendo que tínhamos encontrado a pessoa que Deus enviara para salvar nossas vidas.

Naquele instante, finalmente, pudemos agradecer ao homem que permanecera sem nome por vinte e cinco anos.

 

 

 

A gratidão nasce nos corações que

se preocupam em considerar benevolências recebidas.

CHARLES E. JEFFERSON


 

LEMBRANDO DE ESQUECER

AMY SEEGER

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 152

 

Clara Barton, que fundou a Cruz Vermelha americana quando tinha cinquenta e um anos, era considerada "tímida como um rato, mas brava como um leão". Comprometida com sua missão, continuou a exercê-Ia mesmo na velhice. Não deixou que a idade a atrapalhasse.

Ela ia aonde quer que houvesse alguém precisando de conforto, em áreas de guerra, locais onde havia enchentes, terremotos ou febre amarela. Aos setenta e sete anos, estava nos campos de batalha de Cuba, na guerra hispano-americana. Clara continuou seu trabalho até morrer, aos noventa e um anos.

Um dia, já bem velhinha, alguém a lembrou de uma ofensa que lhe fora dirigida, anos antes. Mas ela agiu como se jamais tivesse ouvido falar daquilo.

- Não se recorda? - a amiga perguntou.

- Não - Clara respondeu. - Lembro-me nitidamente de ter esquecido isso.

 

 

 

Se realmente desejamos amar, devemos aprender a perdoar.

MADRE TERESA


 

O ÚLTIMO POTE DE GELEIA

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 153

 

A infância de nossos filhos foi marcada por uma coisa muito simples: sanduíches de geleia que até meu marido e eu gostávamos de saborear. Mas não eram quaisquer sanduíches, porque a geleia que os recheava era preparada especialmente por minha sogra com as frutas colhidas em seu sítio.

Minha sogra só fazia geleia de uva ou amora. A minha colaboração consistia apenas em guardar os potes de papinha de bebê e enviá-los para sua casa. Ela então os enchia com a deliciosa geleia, fechava com cera e nos mandava de volta. Durante os meus vinte e dois anos de casada, toda vez que queria fazer um sanduíche de geleia bastava esticar a mão e apanhar um dos potinhos na despensa ou na geladeira. Estavam sempre lá. Fazer geleia era uma alegria para minha sogra.

Meu sogro faleceu há muitos anos, e neste último dezembro minha sogra também se foi. Entre as coisas a serem divididas entre os filhos estava o estoque da despensa. Cada filho escolheu o que queria entre os muitos vidros de suco de tomate, sementes cruas e geleia. Quando meu marido trouxe para casa os potes que ficaram para ele, nós os colocamos cuidadosamente na despensa.

Outro dia, quando fui fazer um sanduíche, eu o vi. Sozinho, no canto da prateleira, um pequeno pote de geleia de uva. A tampa tinha até uns pontos de ferrugem. Sobre a tampa, com pincel atômico, estava escrito UVA e o ano em que a geleia fora feita.

Só quando peguei o pote foi que me dei conta. Abri novamente a porta da despensa para ter certeza. Era o último pote da geleia feita pelas mãos amorosas e pacientes da minha sogra.

Durante esse ano após a sua morte, cada vez que abríamos um pote de geleia no café da manhã, ela se fazia presente. De repente' tomamos consciência de que nossos filhos nunca passaram um dia sem a geleia feita pela avó. Aquilo que nos parecia a coisa mais natural do mundo hoje se transformara num grande tesouro.

Com o pote nas mãos, meu coração se encheu de lembranças. Podia ver minha sogra chorando no dia do nosso casamento e, mais tarde, beijando e mimando nossos filhos. Podia vê-la andando pela fazenda, colhendo uvas, ou percorrendo o bosque em busca de amoras. Depois, debruçada sobre o tacho esperando a geleia ficar no ponto. Foram muitas as imagens que desfilaram na minha frente e em todas aparecia aquela mulher alegre, generosa, capaz de tanto afeto.

Coloquei o pote de volta na prateleira. Não se tratava mais de um simples pote de geleia. Era o fim de uma tradição da família. Imagino que eu acreditei que, enquanto ele estivesse ali, uma parte de minha sogra permaneceria viva.

Temos em casa muitas coisas que pertenceram aos pais do meu marido, coisas que irão passar para nossos filhos. Mas não estou pronta para abrir mão desse último pote de geleia e da riqueza de lembranças que ele me traz. Um dia vamos ter de abri-lo ou jogá-lo fora... mas não hoje.

ANDY SKIDMORE


 

RESISTINDO

DEBORAH SHOUSE

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 156

 

Quando criança, costumava acordar, vestir meu jeans e descer correndo a rua até a casa de Ann.

Hoje não me apresso. Passeio pela nossa antiga vizinhança, prestando atenção ao arbusto de murta cujas frutas Ann e eu costumávamos roubar, nas árvores de magnólia que ainda embelezam os gramados, no banco de cimento onde Ann e eu nos sentávamos para rogar pragas nos outros.

Respiro fundo e bato na porta da casa da família de Ann.

Seu pai chega à porta.

- Ela está no quarto - ele diz.

A entrada parece menor do que eu me lembrava.

- Entre - diz Ann, quando bato timidamente na porta.

Antes de girar a maçaneta, observo as fotografias que estão na parede do saguão: Ann sem os dois dentes da frente, Ann com um vestido amarelo de babados, Ann em cima de um cavalo, Ann em sua beca de formatura. Nos anos que passamos sem nos ver, acrescentamos às nossas vidas carreiras, maridos e filhos.

Nos últimos cinco anos, Ann vem lutando contra um câncer.

Ela parece frágil e bonita, apoiada nos travesseiros, numa camisola de cetim rosa. Um lenço vermelho lhe cobre a cabeça.

Um cigarro tremula em sua mão direita.

Quando tinha quatorze anos, Ann acordava e riscava um fósforo na parede para acender o primeiro cigarro do dia. Eu adorava ver as marcas de carvão pela superfície, como símbolos orientais. Decadente, eu pensava, sendo invejosa. Ela podia fazer o que quisesse porque seu pai nunca se zangava.

O pai de Ann entra no quarto, trazendo xícaras de chá de ervas.

- Você precisa de mais alguma coisa? - pergunta. Fios prateados agora suavizam seu cabelo, antes tão escuro.

Ann sorri e faz que não com a cabeça. Bate levemente na cama, indicando um lugar, e eu me sento a seu lado, abraçando-a gentilmente. Eu a seguro como se ela fosse um segredo se revelando.

- Veja só! Finalmente, estou mais magra que você - ela diz, rindo e esticando as pernas que agora parecem de criança em sua magreza.

A morfina que lhe permite sentar-se sem dor suavizou seu discurso. Mas seu riso é o mesmo. A doçura de seu rosto redondo é a de quando tinha quatro anos e nos tornamos amigas.

- Vamos ser melhores amigas? - Ann me perguntara. As duas em pé, apenas uma cerca nos separando. As famílias tinham acabado de se mudar para a vizinhança.

- Claro - respondi.

- Debbie, venha jantar - minha mãe chamou pela segunda vez.

Vi Ann descer a rua até sua casa, se inclinando para colher dentes-de-Ieão pelo caminho. Então atravessei o pátio, a grama nova beliscando meus pés. Eu me sentia como um balão que finalmente se soltara em direção ao céu. Algo importante acontecera: eu não dependia mais de pai e mãe para ser amada. Eu tinha uma amiga.

- Com licença, preciso ir ao banheiro - Ann diz.

Ela sempre me ganhava no revezamento. Agora ela caminha com cuidado, como se tivesse ovos nos bolsos. Penso em nós quando crianças, socadas no banheiro da casa, nos alternando, uma no vaso, a outra pendurada na lateral da banheira. Ir ao banheiro era o mesmo que jogar xadrez ou trocar a roupa de bonecas.

Não víamos motivo de nos separarmos naquele momento.

Mas nós nos separamos por anos, embora sempre em contato quando precisávamos de apoio e de uma boa conversa. Ela conhece minhas filhas sem jamais tê-Ias visto, e eu adoro seu marido pelo carinho e apoio que ele lhe dedica. Olho à volta de seu antigo quarto e vejo a prateleira com os velhos exemplares dos livros que teceram um caminho em nossa infância.

- Você quer ver minha cabeça? - Ann pergunta, quando volta ao quarto.

- Quero - respondo.

Seguro a respiração quando ela tira o lenço. Ann parece luminosa sem ele. A curva poderosa da cabeça é suavizada por algumas mechas de cabelo.

Toco meu próprio cabelo, lembrando as horas de agonia que passei enrolando-o, para ter as mesmas ondas suaves de Ann. Seu cabelo escuro sempre ondulava da maneira certa, enquanto o meu era um emaranhado de cachos.

- No início, eu estava com medo de andar sem a peruca.

Mas meu marido acabou gostando de me ver assim. Peguei-o olhando para mim e sorrindo - ela conta.

Lentamente Ann se ajeita na cama e, como fizemos tantas vezes, conversamos. Costumávamos falar sobre rapazes, agora falávamos de homens. Antes falávamos sobre a escola, agora o assunto era o trabalho. Falávamos sobre o que gostaríamos de ser e o que considerávamos importante: ainda fazemos isso.

Nossa história nos une, como berloques numa pulseira de prata.

Ann me fala de seu ano, no qual suportou dores terríveis, incapaz de comer, imaginando-se sem forças sequer para acabar a série de quimioterapia. Fico em silêncio ante sua coragem, admirada com sua força.

- Fale-me de você - ela insiste. - Sobre suas filhas.

Quando começo a falar, vejo seus olhos fechados e tremulando.

Também fecho os meus. Quando crianças, dormíamos juntas em muitos lugares diferentes: o banco de trás dos carros de nossos pais, sua casa de boneca perto da macieira, minha cama dupla, um cobertor estendido no gramado da frente.

Acordo sentindo um cobertor sobre mim. O pai de Ann está me cobrindo. Minha amiga já está sob uma colcha marrom.

- Você estava dormindo tão serena - ele sussurra. - Lembrei a época em que eram meninas.

Eu sinto ali aconchego e carinho. Observo Ann dormindo, reconhecendo seu rosto como uma canção familiar.

Ela abre os olhos e sorri para mim.

- Eu não teria adormecido na frente de uma pessoa qualquer - ela diz.

- Nem eu - retruco.

Chego mais perto e toco seu pulso. Lembro-me de nossas brincadeiras, quando nos dávamos as mãos e as crianças tentavam passar pela barreira que formávamos. Provocávamos Billy, que batia em nossas mãos grudadas. Conseguíamos nos manter firmes, mãos sempre unidas.

Ann segura minha mão. Seu rosto se crispa de dor. Entrelaço meus dedos com os dela e aperto firmemente.

 

 

Um amigo pode ser considerado a obra-prima da natureza.

RALPH WALDO EMERSON


 

O POTE RACHADO

WILLY McNAMARA

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 161

 

Um carregador de água indiano servia seu mestre transportando água de um riacho até sua casa. Ele carregava a água em dois potes pendurados nas extremidades de uma vara que equilibrava sobre os ombros.

Um dos potes tinha uma rachadura, o outro estava intacto. O pote sem rachaduras sempre chegava cheio à casa do mestre, enquanto o outro chegava pela metade.

Essa mesma história se estendeu por dois anos inteiros.

Todos os dias o carregador de água entregava na casa do mestre um pote cheio e o outro pela metade. O pote que chegava cheio naturalmente sentia orgulho do serviço que prestava, consciente de que cumpria o fim para o qual fora feito. Mas o pote rachado era infeliz, envergonhava-se da sua condição imperfeita, sentindo-se miserável por ser capaz de cumprir apenas metade da tarefa para a qual se destinava.

Depois de uma eternidade do que lhe parecia um terrível fracasso, o pote rachado falou para o carregador de água:

- Sinto tanta vergonha de mim mesmo! Queria lhe pedir desculpa.

- Mas por quê? - perguntou o carregador de água.

- Nos últimos dois anos essa rachadura na minha lateral fez com que a água vazasse pelo caminho até a casa do mestre, fazendo com que eu só conseguisse entregar metade da minha carga.

Você fez o seu trabalho, mas, por causa do meu defeito, não pôde beber o valor integral pelos seus esforços - lastimou o pote aflito.

Gentilmente, o carregador de água disse ao pote:

- Quando voltarmos da casa do mestre hoje, repare nas flores adoráveis às margens do caminho.

Quando o trio fez o caminho de volta, colina acima, o velho pote rachado notou as belas flores do campo - o sol fazendo cintilar suas faces brilhantes, a brisa curvando seus caules. Mas ainda assim, no fim da trilha, o pote defeituoso sentiu-se mal porque novamente tinha deixado vazar metade do seu conteúdo. Por isso, mais uma vez, pediu desculpas ao carregador pela sua falha.

Mas o carregador disse ao pote:

- Você notou que só havia flores de um lado da estrada? Como eu sempre soube dessa sua "falha”, semeei flores nesse lado do caminho e todo dia, ao fazermos o trajeto de volta, você rega essas flores. E todos os dias posso colher essas lindas flores e enfeitar a mesa do nosso mestre. Se você não fosse do jeito que é, o mestre não poderia apreciar a beleza graciosa dessas flores em sua casa.


 

PAPÉIS TROCADOS

THE BEST OF BITS e PIECES

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 163

 

Mary tinha um marido muito machista. Ambos trabalhavam em horário integral, mas ele não a ajudava em nada que se referisse à casa, muito menos no serviço doméstico. Isso, ele dizia, era trabalho de mulher.

Mas, numa noite, Mary chegou e encontrou as crianças já de banho tomado, a máquina de lavar batendo roupas, um outro tanto na secadora. O jantar estava pronto e a mesa lindamente posta, até com um arranjo de flores.

Mary ficou atônita, e imediatamente quis saber que milagre era aquele. Acontece que Charley, o marido, lera um artigo de revista segundo o qual mulheres que trabalham fora se comportariam de maneira mais romântica se não ficassem tão cansadas, tendo de fazer todo o serviço de casa depois de darem duro o dia inteiro.

No dia seguinte, Mary mal podia esperar para contar a novidade às colegas do escritório.

- Como foi? - elas perguntaram.

- Bem, o jantar foi ótimo - Mary disse. - Charley inclusive lavou a louça, ajudou as crianças com os deveres da escola, dobrou a roupa limpa e pôs tudo nos lugares.

- Mas e depois? - as amigas queriam saber.

- Não aconteceu nada - Mary disse. - Charley estava cansado demais.


 

ENCONTRO COM BETTY FURNESS

BARBARA HAINES HOWETT

Histórias Para Aquecer o Coração das Mulheres 165

 

Era o ano de 1964, quando os turistas disputavam o famoso calçadão de Atlantic City com a Convenção Nacional Democrática.

Na ocasião, eu trabalhava como garçonete num restaurante muito frequentado, além de criar cinco filhos e ajudar meu marido com o nosso mais novo empreendimento - um jornal semanal. Portanto, apesar da minha euforia e da abundância de gorjetas, eu estava simplesmente exausta e só via a hora de tudo aquilo acabar.

Uma noite, aproximei-me da mesa de uma cliente sem muito entusiasmo. Ela era mais magra e delicada do que eu podia me lembrar dos anos em que passou abrindo e fechando geladeiras nos comerciais da década de 1950, mas a voz firme e agradável era inconfundível. A mulher que iria jantar ali sozinha era Betty Furness.

Seu jeito caloroso e amigável amenizou o meu espanto por ter de servir uma celebridade. Soube então que ela viera a Atlantic City para fazer a cobertura jornalística da Convenção Nacional Democrática para um programa de rádio. Quando trouxe sua conta, juntei coragem para lhe pedir uma entrevista para o nosso pequeno jornal de subúrbio. Ela aceitou, convidando-me para almoçar.

Dois dias depois, ao me aproximar do hotel onde ela se hospedava, eu me sentia ora exultante com a sorte que tivera, ora nervosa diante da perspectiva de entrevistar uma mulher que um dia já chegara a receber mil e trezentas cartas de fãs semanalmente.

Eu já sabia um bocado sobre o meu tema. Modelo de uma grande agência aos catorze anos e estrela de cinema aos dezesseis, ela acabou se tornando um sucesso nos palcos. Mas era mais conhecida pela carreira brilhante como a mulher número 1 em vendas em todo os Estados Unidos. O nome Betty Furness era sinônimo de eletrodoméstico.

Por isso, durante a entrevista, me surpreendi com sua eloquência:

- Nunca mais farei outro comercial de TV na minha vida ela afirmou.

Betty me explicou que, quando fechou pela última vez a porta de uma geladeira nos comerciais da década de 1960, ela estava determinada a seguir uma outra carreira, desta vez no campo dos noticiários.

- Eu sabia que o mundo estava cheio de informações e que as pessoas estavam ávidas por elas - contou-me Betty. - Queria fazer parte disso.

E, no entanto, apesar de trabalhar nos noticiários da CBS, ela só ouvia-lhe dizerem que, tecnicamente, ela não era uma repórter.

- Isso era o que eu mais queria ser, mas a imprensa e o público se recusavam a levar a sério o meu desejo de fazer noticiários.

Havia alguma coisa na história dela que me pareceu extremamente familiar. Todo mundo me via como uma "simples garçonete", não como uma escritora. "Escritor é quem escreve", as pessoas diziam. Mas quando eu teria o dinheiro, o tempo, a força e a perseverança suficiente para me transformar no que eu queria - alguém como essa mulher, que tivera três carreiras pelas quais a maioria das mulheres daria tudo e que agora buscava uma outra para se realizar plenamente.

Mas a medida real do caráter dela, as "dimensões" do mundo dessa mulher, revelou-se no seu comentário final.

- Toda a minha vida se baseou numa única filosofia. Tenha o trabalho que tiver, faça-o da melhor forma possível e você acabará topando com as oportunidades certas de fazer o que realmente quer.

Nos anos que se seguiram a esse maravilhoso encontro com Betty, pude vê-Ia colocar sua sabedoria em prática. Pouco tempo depois da convenção, sua incrível força de vontade e sua visão positiva levaram-na a conseguir uma nova e desafiadora carreira como assistente especial de Lyndon Johnson para assuntos relacionados ao consumidor. Ela progrediu mais ainda e tornou-se chefe do Conselho de Proteção ao Consumidor em Nova York e membro da comissão encarregada dos assuntos ligados ao consumidor. Quando ouvi essa notícia, lembrei-me da filosofia dela e desejei-lhe felicidades.

Nos últimos anos, costumo vê-Ia toda noite no canal 5 de Nova York, como a primeira repórter de TV sobre assuntos relacionados ao consumidor. Rio em reconhecimento quando ela comenta sobre fabricantes de lençóis que não cabem nos colchões. Fiquei satisfeita quando soube através dela o que de fato continham alguns remédios comprados sem receita médica. E uma das suas reportagens mais recentes era típica de Betty: como se proteger dos hospitais - isso enquanto ela mesma entrava e saía de hospitais para se tratar de um câncer.

Ao longo dos anos, continuei estudando as palavras de Betty, que eu anexei à sua foto autografada. Coisas extraordinárias aconteceram na minha vida depois que me empenhei em colocar essas palavras em prática - algumas depois reforçadas pelo especialista em mitologia Joseph Campbell, que escreveu: "Siga a sua brisa interior e portas se abrirão onde antes não havia portas." Empregos que eu nunca quis ou imaginei que um dia teria passaram a ser apaixonantes, caminhos inesperados levaram-me a lugares com que nunca sonhei. Tudo começou aos trancos e barrancos. Passei de garçonete a gerente de relações públicas de um hospital, de repórter de jornal a editora associada de várias revistas, de consultora editorial a instrutora internacional - até finalmente realizar meu sonho de ser escritora profissional.

No dia em que vi o obituário de Betty soube que, aos setenta e seis anos, ela recebera o título de "a repórter mais idosa da TV". Enquanto lia sobre a vida dela e suas realizações, voltei à época daquela entrevista, quando ela contou seus segredos para mim. Mal sabia eu a grande dádiva que estava recebendo dessa generosa mulher que, naquele dia, percebera minha frustração.

Lembro-me dos participantes da convenção passando rapidamente por mim, enquanto eu pensava que minha vida não era exatamente o que eu pretendia. No entanto, eu tive a oportunidade de entrevistá-Ia, não tive? Tenha o trabalho que tiver, faça-o da melhor forma possível e você acabará topando com as oportunidades certas de fazer o que realmente quer.

Sim, ao longo dos anos tínhamos perseguido nossos sonhos separadamente e encontrado nossas oportunidades. Foi preciso talento, visão, comprometimento, perseverança e, o que é mais importante, uma fé inquebrantável de que podíamos reinventar a nós mesmas.

Mas tudo começou naquele momento, ali nas ruas de Atlantic City. Respirando fundo, forcei passagem entre a multidão, deixando um pouco de lado minhas ideias piramidais para a matéria que eu queria escrever aquela noite sobre Betty Furness.

Primeiro, eu tinha um trabalho para fazer da melhor maneira possível. Precisava alimentar minha família.


 

UM CÂNTICO NA ESCURIDÃO

Max Lucado

Histórias Para o Coração 15

 

Se fosse em qualquer outro dia, provavelmente eu não teria parado. Assim como a maioria das pessoas que caminhavam por aquela avenida movimentada, eu não teria notado a presença dele ali, em pé. Porém, em minha mente, eu sabia qual era o verdadeiro motivo de ele estar naquele lugar, por isso parei.

Eu havia passado parte da manhã preparando um estudo sobre o capítulo nove de João, aquele que narra a história do homem cego de nascença. Eu já havia almoçado e retornava a meu escritório quando o avistei. Ele estava cantando. Segurava uma bengala de alumínio na mão esquerda; a mão direita estava estendida e aberta, aguardando esmolas. Ele era cego.

Passei por ele e, após uns cinco passos, parei e resmunguei alguma coisa para mim mesmo a respeito da hipocrisia e dei meia-volta.

Coloquei alguns trocados na mão dele.

- Obrigado - ele disse. Em seguida, proferiu uma frase muito comum no Brasil: - Deus lhe pague e lhe dê muita saúde.

Desejo irônico.

Mais uma vez, segui meu caminho. Novamente, o estudo daquela manhã sobre o capítulo nove de João me fez parar: "Jesus viu um homem cego de nascença". Parei e meditei. Se Jesus estivesse aqui. teria visto esse homem. Eu não tinha certeza do que aquilo significava, mas sabia que não havia feito o que devia. Dei meia-volta outra vez.

Imaginando que minha esmola tivesse dado a mim o direito de fazer o que fiz em seguida, parei perto de um carro nas proximidades e fiquei observando. Forcei-me a olhar para ele. Eu ficaria ali até ver nele mais do que um simples indigente cego em uma via movimentada do centro do Rio de Janeiro.

Eu o vi cantar. Alguns pedintes encolhem-se em uma esquina suplicando piedade. Outros deitam seus filhos em cobertores no meio da calçada, sem nenhum pudor, imaginando que somente as pessoas de coração empedernido não dariam atenção a um bebê sujo e desnudo pedindo um pedaço de pão.:..

Aquele homem, porém, não fazia nada disso. Estava em pé. Tinha um porte altivo. E cantava. Cantava alto. Até mesmo com orgulho.

Qualquer um de nós teria mais motivos para cantar do que ele, más ele era o único que cantava. E mais: cantava canções folclóricas.

Em determinado momento, achei que ele cantou um hino, mas não tive certeza.

Sua voz rouca não combinava com o burburinho de um centro comercial. Igual a um papagaio que conseguiu entrar em uma fábrica barulhenta, ou a uma corça perdida em um cruzamento viário, seu cântico evocava um estranho casamento entre o progresso e a simplicidade.

Os passantes reagiam de maneiras diferentes. Alguns olhavam descaradamente para ele, com ar de curiosidade. Outros pareciam desconfortáveis. Abaixavam a cabeça ou desviavam o caminho.

- Nada de tristeza hoje, por favor.

A maioria, contudo, mal notava a presença dele. Tinham a mente ocupada, a agenda cheia, e ele não passava de... bem, ele não passava de um mendigo cego.

Fiquei satisfeito por aquele homem não poder ver o modo como as pessoas olhavam para ele. Após alguns minutos, voltei a aproximar-me dele.

- Você almoçou? - perguntei.  Ele parou de cantar. Virou a cabeça na direção de minha voz e dirigiu o rosto para um ponto além de minha orelha. Seu olhar era vazio. Ele disse que estava com fome. Dirigi-me a uma lanchonete nas proximidades e comprei um sanduíche e um refrigerante gelado para ele.

Quando voltei, ele continuava a cantar com as mãos vazias.

Agradeceu-me a comida. Sentamo-nos em um banco perto dali. Entre uma mordida e outra, ele me contou um pouco de sua vida. Tinha 28 anos. Era solteiro._ Vivia com os pais e sete irmãos.

- Você é cego de nascença?  Não. Sofri um acidente quando era menino.

Ele não se dispôs a contar detalhes, e eu não tive coragem de perguntar.

Apesar de termos quase a mesma idade, estávamos a anos-luz de distância. Minhas três décadas de vida consistiam de férias de verão em excursões com a família, Escola Dominical, equipes de debate, futebol e uma busca pelo Todo-Poderoso. Crescer cego no Brasil certamente não oferecia nenhuma dessas regalias.

Minhas preocupações diárias atuais estavam voltadas para pessoas, pensamentos, conceitos e comunicação. O dia dele era feito de preocupações de sobrevivência: moedas, donativos e comida. Eu iria para casa - um belo apartamento com comida quente e uma esposa bondosa. Eu detestava pensar no lar para o qual ele voltaria.

Já havia visto barracos apinhados de gente nos morros do Rio de Janeiro e podia imaginar como seria o dele. E a recepção que ele teria... haveria alguém para fazê-la sentir-se especial quando voltasse para casa?

Estive a ponto de -perguntar-lhe: "Você não fica furioso por eu não ser você? Não fica acordado à noite se perguntando por que o quinhão que lhe coube foi tão diferente do de alguém que ganhou muito dinheiro ou de outras pessoas nascidas 30 anos atrás?" Eu trajava camisa, gravata e sapatos novos. Os sapatos dele tinham furos, e a roupa era volumosa, bem maior que seu corpo.

Uma das pernas da calça estava rasgada no joelho.

Mesmo assim, ele cantava. Apesar de cego e sem dinheiro, ele havia encontrado uma canção e a cantava com intrepidez. (Eu me perguntei de que compartimento de seu coração teria surgido aquela canção.) Na pior das hipóteses, imaginei, ele cantava por desespero. A canção era tudo o que ele possuía. Mesmo quando não recebia nenhuma moeda, ele tinha, ao menos, uma canção. Contudo, parecia ter uma grande paz interior para estar cantando apenas para sobreviver.

Ou talvez cantasse por ignorância. Talvez não soubesse o valor daquilo que nunca teve.

Não. Eu decidi que a motivação que explicava sua conduta era a última imaginável. Ele estava cantando de alegria. Talvez aquele pobre homem cego tivesse descoberto uma vela chamada satisfação, que iluminava seu mundo totalmente escuro. Alguém deve ter-lhe dito, ou talvez ele tivesse descoberto sozinho, que a alegria de amanhã origina-se da aceitação do hoje. Aceitação daquilo que pelo menos momentaneamente, não podemos modificar.

- Olhei para aquela imensidão de rostos que passavam por nós.

Semblantes carrancudos. Profissionais. Alguns determinados. Outros disfarçados. Mas ninguém estava cantando, nem mesmo silenciosamente. Como seria se o rosto de cada pessoa demonstrasse o que realmente se passava em seu coração? Quantos diriam "Desesperado! Dificuldades nos negócios!" ou "Quebrado:

Necessitando de Conserto" ou "Decepcionado, Agitado e Apavorado"? Pouquíssimos.

A ironia era dolorosamente engraçada. Aquele cego podia ser o homem mais sereno da rua. Sem nenhum diploma, sem nenhum

reconhecimento, sem nenhum futuro pelo menos no sentido estrito da palavra. E eu me perguntei quantas pessoas naquela cidade tresloucada trocariam suas salas de reuniões e ternos elegantes, por um segundo sequer, para ter a oportunidade de beber um pouco da água do poço daquele jovem.

"Fé é o pássaro que canta enquanto o dia ainda não clareou."

Antes de ajudar meu amigo a voltar à sua posição de pedinte, tentei verbalizar minha empatia.

- A vida é dura, não?

Um ligeiro sorriso. Novamente, ele virou o rosto na direção de minha voz e ameaçou dar uma resposta, mas fez uma pausa e disse:

- É melhor eu voltar ao meu trabalho.

Mesmo a uma distância de quase um quarteirão, eu ainda o ouvia cantar. E podia vê-lo com os olhos da mente. Porém, o homem que agora eu' via era diferente daquele a quem eu dera alguns trocados. Apesar de continuar cego, ele possuía um discernimento extraordinário. E, apesar de ser eu quem enxergava; foi ele quem me deu uma nova visão.


 

SEMPRE RESTA ALGUMA COISA PARA AMAR

Tony Campolo

Histórias Para o Coração 20

 

 

Alguns anos atrás, assisti à peça Raisin in the Sun (Uva Passa ao Sol), de Lorraine Hansberry, e ouvi um trecho que até hoje não me sai da memória. Na peça, uma família afro-americana recebe US$ 10.000 provenientes do seguro de vida do pai. A dona da casa vê no dinheiro a oportunidade de deixar o gueto onde vivia no Harlem e de mudar-se para uma casa no campo, enfeitada com jardineiras. À filha, uma moça muito inteligente, vê no dinheiro a oportunidade de realizar seu sonho de estudar medicina.

O filho mais velho, contudo, apresenta um argumento difícil de ser ignorado. Quer o dinheiro para que ele e um "amigo" iniciem um negócio juntos. Diz à família que, com o dinheiro, ele poderá trabalhar por conta própria e facilitar a vida de todos. Promete que, sê puder lançar mão do dinheiro, proporcionará à família todos os confortos que a vida lhes negou.

Mesmo contra a vontade, a mãe cede aos apelos do filho. Ela tem de admitir que as oportunidades nunca foram tão boas para ele e que ele merece a vida boa que esse dinheiro pode oferecer-lhe.

Conforme você deve ter imaginado, o tal "amigo" foge da cidade com o dinheiro. Desolado, o filho é forçado a voltar para casa e dizer à Família que suas esperanças para o futuro lhe foram roubadas e que seus sonhos; de uma vida melhor foram desfeitos. A irmã atira-lhe no rosto toda sorte de insultos. Qualifica-o com as palavras mais grosseiras que se possa imaginar. Seu desprezo em relação ao irmão não tem limites.

Quando ela pára um pouco para respirar, a mãe a interrompe e diz:

- Pensei que tivesse ensinado você a amar seu irmão.

Beneatha, a filha, responde:

- Amar meu irmão? Não restou nada nele para eu amar.

E a mãe diz:

- Sempre sobra alguma coisa para amar. E, se você não aprendeu isso, não aprendeu nada. Você chorou por ele hoje? Não estou perguntando se você chorou por causa de si mesma e de nossa família, por termos perdido todo aquele dinheiro. Estou perguntando se chorou por ele: por aquilo que ele sofreu e pelas conseqüências que terá de enfrentar. Filha, quando você acha que é tempo de amar alguém com mais intensidade: no momento em que faz coisas boas e facilita a vida de todos? Bem, então você ainda não aprendeu nada, porque esse não é o verdadeiro momento de amar. Devemos amar quando a pessoa está se sentindo humilhada e não consegue acreditar em Si mesma, porque o mundo a castigou demais. Se julgar alguém, faça-o da forma  certa; filha, da forma certa. Tenha a certeza de que você levou em conta os revezes que ele sofreu antes de chegar ao ponto em que está agora.

Essa é a graça misericordiosa! É o amor ofertado quando não se fez nada para merecê-lo. É o perdão concedido quando não se fez nada para conquistá-lo. É a dádiva que flui como as águas refrescantes de um riacho para extinguir as labaredas provocadas por palavras de condenação carregadas de ira.

O amor que o Pai nos oferece é muito mais abundante e generoso.

A graça que Deus nos dá é muito mais copiosa.

 


 

ACEITAÇÃO

Paul Brad e Philip Yancey

Histórias Para o Coração 22

 

 

John Karmegan, um paciente leproso, foi me procurar em Vellore na Índia. Sua enfermidade se encontrava-se em estado avançado. Pouco podíamos fazer  por ele em termos cirúrgicos,  seus pés e mãos já haviam sofrido lesões irreparáveis.

Podíamos, contudo, oferecer-lhe um lugar para morar e um emprego no Centro Vida Nova.

Uma paralisia de um dos lados da face o impedia de sorrir normalmente. Quando John tentava dar um sorriso, suas feições ficavam distorcidas, chamando a atenção para a paralisia. Normalmente as pessoas reagiam com um grito sufocado ou com um gesto de medo e por isso ele aprendeu a não sorrir. Margaret minha esposa, havia suturado parcialmente suas pálpebras para proteger-lhe a visão. A paranoia de John foi aumentando cada vez mais em relação ao que os outros pensavam dele.

- John teve problemas terríveis no convívio social, talvez como forma de reagir à sua aparência desfigurada. Demonstrava raiva pelo mundo e agia como um baderneiro. Lembro-me de várias situações tensas que tivemos de enfrentar pelo fato de haver provas contra John de envolvimento em roubos e em outros atos de desonestidade.

Ele tratava seus companheiros enfermos com crueldade e resistia a toda sorte de autoridade chegando ao ponto de organizar greves de fome para nos hostilizar. Na opinião da maioria das pessoas ele era um homem irrecuperável.

Essa condição irrecuperável de John deve ter atraído a atenção de minha mãe, porque ela sempre dedicou-se a compreender os elementos mais indesejáveis da espécie humana. Ela preocupou-se com ele e passava horas a seu lado, até o dia em que o levou aceitar a fé cristã e foi batizado em um tanque de cimento nas instalações do leprosário.

A conversão, contudo, não diminuiu os acessos de raiva de John contra o mundo. Ele fez alguns amigos entre os companheiros de enfermidade, mas uma vida inteira de rejeição e de maus-tratos deixaram marcas permanentes de exacerbação contra todas as outras pessoas. Certo dia, John me perguntou, de maneira quase desafiadora, o que aconteceria se ele visitasse a igreja Tamil de Vellore.

Fui falar com os líderes da igreja, descrevi John e assegurei-Ihes que, apesar de suas deformidades marcantes, ele havia entrado em uma fase da doença que não poria em risco a saúde dos membros da congregação. Os líderes concordaram com a visita de John. Ele pode participar da Ceia? - perguntei, sabendo que a igreja usava o mesmo cálice para todos.

Eles se entreolharam, refletiram por alguns instantes e concordaram em que John também poderia participar.

Pouco tempo depois, levei John à igreja, que se reunia em uma casa simples A Igreja era uma casa de tijolos caiados, com teto de chapas de ferro onduladas. Foi um momento tenso para ele. Todos nós, pessoas sadias, mal podemos imaginar o trauma e a paranoia que ocorrem dentro de um paciente leproso que tenta, pela primeira vez, entrar em um ambiente como aquele. Fiquei em pé ao lado dele nos fundos da igreja. Seu rosto paralisado não expressava nenhuma reação, mas um ligeiro tremor deixava transparecer seu turbilhão interior. Orei silenciosamente para que nenhum membro da Igreja demonstrasse o mais leve sinal de rejeição.

Assim que entramos na igreja, durante o cântico do primeiro hino, um indiano virou-se para trás e nos viu. Devíamos ser a dupla estranha: um branco de pé ao lado de um leproso com um rosto desfigurado. Prendi a respiração.

E vejam o que aconteceu. O homem fechou o hinário, deu um largo sorriso e apontou para a cadeira a seu lado, convidando John a sentar-se ali. John foi pego de surpresa. Altivo, ele caminhou com passos arrastados até a fileira de cadeiras e sentou-se. Murmurei uma oração de gratidão.

Aquele único incidente marcou uma mudança radical na vida de John. Anos mais tarde, retomei a Vellore e fiz uma visita a uma fábrica que havia sido instalada para dar emprego a deficientes físicos. O gerente queria mostrar-me um equipamento que produzia minúsculos parafusos para peças de máquinas de escrever. Enquanto caminhávamos pela fábrica barulhenta, o gerente gritou para mim que me apresentaria a um funcionário exemplar, o qual acabara de receber um prêmio da matriz, representando todas as filiais da Índia, pela excelente qualidade de seu trabalho, com um número extremamente baixo de peças rejeitadas. Quando chegamos ao seu focal de trabalho, o operário virou-se para nos cumprimentar, e eu vi o inconfundível rosto desfigurado de John Karmegan. Ele limpou a graxa de sua mão rechonchuda e contorceu o rosto, dando o sorriso mais feio, mais encantador e radiante que já vi. Em seguida, ele me mostrou, para minha avaliação, um punhado daqueles minúsculos parafusos que o fizeram ganhar o prêmio.

Um simples gesto de aceitação talvez não signifique muito, mas, para John Karmegan, provou ser decisivo. Após ter sido ignorado a vida inteira por sua imagem física ele finalmente foi acolhido por causa de outra Imagem. Eu acabara de ver uma reprodução da própria reconciliação de Cristo. Seu Espírito havia induzido seu Corpo na terra a adotar um novo membro, e, finalmente, John soube que pertencia a ele.

 


 

CORAGEM

Histórias Para o Coração 26

 

 

Aconteceu algumas semanas antes do Natal de 1911. As lindas paisagens cobertas de neve da Europa estavam enegrecidas pela guerra.

As trincheiras, de um lado, abrigavam alemães e, do outro, norte-americanos. A Primeira Guerra Mundial estava em curso. A troca de tiros era intensa. Separando os inimigos havia uma faixa de terra muito estreita, que não pertencia a nenhum dos lados. Um jovem soldado alemão que tentara cruzá-la foi baleado e acabou enroscado na cerca de arame farpado. Ele gritou de desespero, gemia de dor. Entre uma bomba e outra, todos os norte-americanos daquele setor podiam ouvir seus gritos. Não suportando mais aquilo, um soldado norte-americano saiu da trincheira e rastejou em direção ao soldado alemão. Quando os norte-americanos perceberam o que o colega estava fazendo, imediatamente pararam de atirar, mas os alemães prosseguiram. Um oficial alemão viu o gesto altruísta do jovem norte americano e ordenou que seus comandados cessassem fogo. Houve um silêncio estranho naquela faixa de terra. O norte-americano rastejou até o soldado alemão e o desenroscou do arame farpado. Em seguida, ele se levantou, apoiou o alemão, e caminhou em direção às trincheiras inimigas e o deixou nos braços dos companheiros. Após ter feito isto, virou-se para voltar às trincheiras norte-americanas.

De repente, sentiu uma mão pousar em seu ombro e olhou para trás. Lá estava um oficial alemão que havia recebido a Cruz de Ferro, a mais alta condecoração alemã por bravura. Ele arrancou a medalha da farda e a colocou na do norte-americano, que retornou para sua trincheira. Quando chegou são e salvo, todos voltaram a ocupar-se com a loucura da guerra!

 

 


 

HUMPTY DUMPTY RECEBE NOVA VISTA

Vic Pentz

Histórias Para o Coração 28

 

 

 

Mas, logo a seguir, o Rei tomou conhecimento da queda de Humpty e ficou muito preocupado.  Deixando de lado

seus aparatos reais e disfarçado como um mendigo  qualquer,  o  Rei atravessou, despercebido, os majestosos portões do palácio e misturou-se à vida agitada e confusa do povo de seu reino.

O Rei andou a esmo  por  ruas secundárias  e vielas à procura de Humpty. Após vários dias e noites, o persistente monarca o encontrou. Os fragmentos do corpo de Humpty estavam em uma viela espalhados em um raio de mais de três metros, misturados com cacos de vidro e latas de cerveja amassadas. Apesar de sentir-se fraco por ter andado tanto tempo à procura de Humpty, o Rei ficou muito feliz ao vê-lo. Correu para perto dele e gritou:

- Humpty! Sou eu, o seu Rei! Tenho poderes maiores que os de meus homens e cavalos, que não conseguiram juntar seus pedaços. Fique tranquilo.  Estou aqui para ajudar!

- Deixe-me em paz - disse Humpty, com a boca retorcida. - Já me acostumei a esta nova vida. Estou até gostando dela.

- Mas ... - foi tudo o que o Rei pôde dizer antes de Humpty prosseguir.

- Não se preocupe, estou bem.  Gosto daqui.  Daquelas latas amassadas ... da maneira como a luz do Sol brilha nos vidros quebrados... Aqui deve ser o jardim mais famoso do mundo!

O Rei tentou novamente.

- Eu lhe asseguro que meu reino tem muito mais a oferecer do que esta viela escura. Lá existem montanhas verdejantes, ondas quebrando na praia, cidades exuberantes...

Mas Humpty não queria saber de nada disso. E, assim, o Rei retornou aborrecido ao palácio.

Uma semana depois, um dos olhos de Humpty virou em direção ao céu, e ele viu mais uma vez o rosto preocupado do Rei pairando sobre os fragmentos de seu corpo.

- Eu vim para ajudar - disse o Rei, com firmeza.

- Deixe-me em paz, está bem? - disse Humpty. -Acabei de falar com meu psiquiatra, e ele me garantiu que vou viver bem neste ambiente, da forma como ele é. Você é um medroso. Um homem te m de  lidar com a vida como ela é. Sou realista.

- Mas você não gostaria, pelo menos, de andar?  -  perguntou o Rei.

- Olhe - retrucou Humpty-, assim que eu me levantar e começar a andar, vou ter de permanecer em pé e continuar a andar. A esta altura da vida, não estou disposto a me submeter a isso. Agora, com licença. Você está fazendo sombra, impedindo que eu receba a luz do Sol.

O Rei deu meia-volta com relutância e atravessou as ruas de seu reino em direção ao palácio.

Depois de um ano, o Rei aventurou-se a visitar Humpty novamente.

Por incrível que possa parecer, em uma bela manhã ensolarada os ouvidos de Humpty captaram os passos firmes do Rei. Desta vez, ele 'estava preparado. O olho de Humpty fixou-se naquela figura alta e, no mesmo instante; ele conseguiu proferir as palavras:

- Meu Rei!

Imediatamente, o Rei ajoelhou-se  sobre o chão forrado de cacos de vidro. Suas mãos fortes e hábeis começaram a ajuntar cuidadosamente os fragmentos de Humpty. Algum tempo depois de completar seu trabalho, o Rei ficou em pé, levantando do chão a figura de um jovem vigoroso.

Os dois caminharam de mãos dadas por todo o reino. Juntos escalaram montanhas verdejantes. Juntos correram pelas praias desertas. Juntos riram e divertiram-se, caminhando pelas cidades deslumbrantes dos domínios do Rei. Essa aventura jamais  teve fim. E a profundidade, a largura e a altura da amizade entre eles também jamais teve fim.

Certo dia, enquanto ambos caminhavam pela calçada de uma das cidades do Rei, Humpty ouviu uma observação que fez seu coração saltar de alegria por sua nova vida e lembrar-se com tristeza da antiga viela. Alguém perguntou:

- Quem são aqueles dois homens? Outro respondeu:

- O da esquerda é o velho Humpty Dumpty. Não sei quem é o da direita, mas os dois parecem irmãos!

 

 

 

N. da T: Humpty Dumpty é um personagem de poemas infantis ingleses, com a forma de um ovo, que cai de um muro e se espatifa.


 

LIÇÕES DE UMA JOVEM ENFERMEIRA

Rebecca Manley Pippert

Histórias Para o Coração 31

 

 

Eileen foi uma de suas primeiras pacientes, um caso completamente sem esperanças. "Um aneurisma cerebral (rompimento de veias no cérebro)", escreve a enfermeira, "impedia que ela tivesse consciência do que ocorria em todo o seu corpo." Logo os médicos concluíram que Eileen estava totalmente inconsciente, incapaz de sentir dor e alheia a tudo o que se passava a seu redor. A equipe de enfermagem do hospital tinha a responsabilidade de virá-la no leito a cada hora para evitar a formação de escaras e de alimentá-la duas vezes por dia "com uma espécie de mingau ralo que passava por um tubo até chegar ao estômago". Cuidar dela era uma tarefa ingrata.

- Em estados tão graves como esse - dissera-lhe uma enfermeira mais antiga do hospital -, você precisa desligar-se emocionalmente da situação.

Em consequência disso, Eileen começou a ser tratada cada vez mais como um objeto, um vegetal...

A jovem enfermeira, porém, decidiu que não trataria aquela paciente assim. Ela conversava com Eileen, cantava para ela, incentivava-a e chegou até a presenteá-la com algumas lembrancinhas. Certo dia, quando a situação ficou realmente muito complicada, sendo   a ocasião ideal  para  a jovem enfermeira  descarregar  toda sua frustração sobre a paciente, ela, pelo contrário, agiu com extrema bondade. Era o Dia de Ações de Graças, e a enfermeira disse à paciente:

- Eu estava muito mal-humorada esta manhã, Eileen, porque hoje seria o meu dia de folga. Mas, agora que estou aqui, sinto-me feliz. Eu não poderia deixar de vê-la no Dia de Ação de Graças. Você sabia que hoje é Dia de Ação de Graças?

Nesse exato momento, o telefone tocou. Enquanto se virava para atendê-lo, a enfermeira olhou de relance para a paciente. Ela relatou: Eileen estava "olhando para mim ... chorando. Grandes lágrimas caíam sobre o travesseiro, e seu corpo inteiro tremia".

Aquela única manifestação de emoção que Eileen deixou transparecer foi suficiente para mudar a atitude de todos os funcionários do hospital em relação a ela. Pouco tempo depois, Eileen faleceu. A jovem enfermeira encerra seu artigo dizendo: "Continuo a pensar nela... Ocorreu-me que devo muito a ela. Se não fosse Eileen, eu jamais saberia o que significa dedicar-se a alguém que não pode oferecer nada em troca."


 

É IMPORTANTE

Jeff Ostrander

Histórias Para o Coração 34

 

 

No litoral do imenso oceano Atlântico, vivia um senhor idoso. Todos os dias, quando a maré baixava, ele fazia uma caminhada de quilômetros ao longo da praia. Outro homem que morava nas proximidades o observava desaparecer na distância e, mais tarde, retomar ao ponto de partida. O vizinho também via que, enquanto caminhava, o velho curvava-se, de tempos em tempos, para pegar alguma coisa na areia e a atirava na água.

Certo dia, enquanto o velho caminhava pela praia, o vizinho o seguiu para matar a curiosidade. Da mesma maneira de sempre, o velho curvou-se e pegou delicadamente alguma coisa da areia e a atirou no mar. Quando o velho curvou-se novamente, o vizinho encontrava-se a uma distância razoável para ver que ele estava pegando uma estrela-do-mar que ficara presa na areia quando a maré baixou e que, evidentemente, morreria de desidratação antes que a maré voltasse a subir. Quando o velho virou-se para devolver a estrela-do-mar ao oceano, o vizinho o chamou com um tom zombeteiro na voz:

- Ei, velhote! O que você está fazendo? Esta praia estende-se por centenas de quilômetros, e existem milhares de estrelas-do-mar sendo atiradas aqui todos os dias! Você não acredita mesmo que seja importante devolver algumas ao mar...

O velho ouviu com atenção. Depois de uma pausa, levantou a estrela-do-mar diante do rosto de seu vizinho e disse:

- Para esta aqui é importante.

 


 

O SIGNIFICADO DE MISERICÓRDIA

Alice Gray

Histórias Para o Coração 35

 

 

Havia um jovem no exército de Napoleão que cometeu um ato tão terrível a ponto de ser condenado à morte. Na véspera de seu fuzilamento, a mãe do jovem foi falar com Napoleão e implorou misericórdia para o filho.

Napoleão replicou:

- Mulher, seu filho não merece misericórdia.

- Eu sei - ela disse. - Se ele a merecesse, não seria misericórdia.


 

ESCOLHIDO

Histórias Para o Coração 37

 

 

Todas as vezes que fico decepcionada com o que me acontece nesta vida, paro e penso no pequeno Jamie Scott. Jamie estava tentando conseguir um papel na peça da escola. A mãe dele me contou que ele havia se dedicado de todo o coração àquela tarefa, mas ela receava que o filho não fosse escolhido. No dia marcado para a distribuição dos papéis, fui com ela buscar Jamie após as aulas. Jamie correu para a mãe, com os olhos brilhando, cheios de orgulho e euforia.

- Sabe o que aconteceu, mãe? - ele gritou, animado, em seguida proferindo estas palavras que até hoje me servem de lição:

- Fui escolhido para bater palmas e dar vivas.


 

O PRIMEIRO PÁSSARO

William E. Barton

Histórias Para o Coração 39

 

 

O inverno havia sido longo. Muito frio, com bastante neve, e a primavera ainda não tinha chegado. Levantei-me bem cedo, olhei através de minha janela e contemplei um pássaro.

Em seguida, chamei Keturah e disse:

- Vem rápido e apressa-te para ver quem chegou à janela. Aqui está um amigo nosso que veio de um país longínquo para nos visitar.

Keturah aproximou-se da janela e também viu o pássaro.

O pássaro olhou para nós e saiu saltitando pela terra tria e árida à procura da minhoca madrugadora, porém o pássaro foi mais madrugador que a minhoca. E Keturah correu à cozinha para ver o que poderia encontrar para o pássaro comer.

Eu me dirigi ao pássaro e disse:

- Estiveste em um lugar quente, onde o sol brilhou. E poderias ter continuado lá. Mas estás aqui. E vieste enquanto ainda é inverno, porque a profecia da primavera está em teu sangue. Tua fé é a essência de coisas que esperaste e a evidência de coisas que não viste. Chegaste aqui depois de voares muitos quilômetros, sim, centenas de quilômetros, rumo a uma terra desolada, porque tens dentro de tua alma a certeza de que a primavera está próxima. Oh, oxalá houvesse entre os seres humanos certeza tal que encaminhasse alguém para seu alto destino com uma convicção tão grande quanto a tua!

E eu pensei nos olhos, formados na escuridão, mas feitos para enxergar a luz; e nos ouvidos maravilhosamente modelados no silêncio, mas feitos para ouvir música; e na alma humana, que nasceu em um mundo onde existe o pecado, mas que também nasceu com a esperança da retidão.

E eu abençoei o passarinho que me fez pensar nessas coisas. E, quando fui à cidade naquele dia, as pessoas diziam:

- Que coisa! O inverno não está muito frio e longo? E eu respondi:

- Não quero mais ouvir falar do inverno. E elas perguntaram:

- Por que não devemos falar do inverno? Não estás vendo o termômetro e as latas de carvão vazias?

Ergui a cabeça com orgulho e disse:

- Não quero mais ouvir falar do inverno. Esta manhã vi o primeiro pássaro. Para mim, a primavera já chegou.


 

NÃO DESISTA

Charles Swindow

Histórias Para o Coração 41

 

 

Ignace Jan Paderewski, famoso compositor e pianista, estava programado para apresentar-se em um grande salão de concertos nos Estados Unidos. Foi uma noite inesquecível – smokings e vestidos longos, uma ostentação da alta sociedade. Presente na plateia naquela noite estava uma mãe acompanhada de seu irrequieto filho de nove anos. Cansado de esperar, o filho se mexia constantemente na poltrona. A mãe tinha esperança de que ele se animasse a estudar piano ao ouvir o imortal Paderewski tocar.

Mesmo contra a vontade, o menino estava ali. Enquanto ela virou-se para conversar com alguns amigos, o menino desistiu de ficar sentado. Afastou-se dela estranhamente atraído pelo enorme piano de ébano Steinway e pela macia banqueta de couro instalados no imenso palco, cujas inúmeras lâmpadas acesas chegavam a ofuscar os olhos. Sem atrair a atenção da requintada plateia, o menino sentou-se na banqueta, com os olhos arregalados diante das teclas brancas e pretas. Em seguida, colocou seus dedos pequenos e trêmulos nas teclas certas e começou a tocar o "Bife".

O vozerio da plateia cessou, e centenas de rostos carrancudos voltaram-se em direção ao garoto. Irritadas, as pessoas começaram a gritar:

"Tirem essee garoto daí!"

"Quem trouxe essae moleque aqui?"

"Onde está a mãe dele?"

"Mandem o garoto parar!"

Dos bastidores, o mestre ouviu a gritaria e pôs-se a imaginar o que estaria acontecendo. Apressado, ele pegou sua casaca e correu para o palco. Sem dizer uma só palavra, curvou-se sobre o garoto, passou os braços ao redor dele e começou a improvisar uma música que se harmonizava com o Bife para torná-Io mais melodioso.

Enquanto os dois tocavam. Paderewski sussurrava o tempo todo ao ouvido do garoto:

- Continue. Não desista. Continue tocando... não pare... não desista.

O mesmo acontece conosco. Esforçamo-nos para Ievar adiante um projeto, que parece tão insignificante quanto o "Bife" em um salão de concertos. E. quando estamos prontos para desistir, chega o Mestre, que se curva sobre nós e sussurra:

Continue... Não desista. Vá em frente... não pare, não desista. enquanto Ele improvisa uma melodia para nos ajudar, proporcionando o toque certo no momento certo.


 

O CONVIDADO DO MAESTRO

Max Lucado

Histórias Para o Coração 43

 

 

O que acontece quando um cão interrompe um concerto? Para responder a essa pergunta, acompanhe-me em uma visita a Lawrence, Kansas, em uma noite de primavera.

Sente-se no Hoch Auditorium e contemple a Orquestra Leipzig:

Gewandhaus - a mais antiga orquestra em atividade no mundo.

Ela já foi regida pelo; maiores compositores e maestros da história e existe desde os tempos de Beethoven (alguns músicos foram substituídos).

Você vai ver homens elegantes, vestidos à moda europeia, tomando assento no palco. Vai ouvir os profissionais afinando cuidadosamente seus instrumentos. A percussionista aproxima o ouvido do timbale. O violinista tange a corda de náilon. O clarinetista ajusta a palheta. E você endireita o corpo na poltrona, enquanto as luzes diminuem de intensidade e as afinações terminam. A música já vai começar.

O maestro, trajando fraque, caminha com passos firmes pelo palco, sobe ao pódio e faz um gesto para que a orquestra se levante. Você e outras duas mil pessoas aplaudem. Os músicos voltam a sentar-se, o maestro posiciona-se corretamente: e a plateia prende a respiração.

Existe um segundo de silêncio entre o relâmpago e o trovão. E há um segundo de silêncio entre o levantar da batuta e a explosão da música. Quando a orquestra começa a tocar, os céus abrem-se e todos ficam deliciosamente enlevados com a melodia da Terceira Sinfonia de Beethoven.

Foi esse o poder daquela noite de primavera em Lawrence, Kansas. Daquela noite quente de primavera em Lawrence, Kansas.

Mencionei a temperatura para você compreender por que as portas ficaram abertas. Estava quente. O Hoch Auditorium, um edifício histórico, não tinha ar condicionado. O resultado da combinação de luzes brilhantes no palco com trajes formais e música arrebatadora é uma orquestra cheia de vivacidade. As portas laterais do "'palco foram abertas para que uma brisa fortuita pudesse penetrar no ambiente.

Surge, do lado do palco um cão. Não um cão feroz. Não um cão louco. Apenas um cão curioso. Ele passa pela dupla de contrabaixos, segue em direção aos segundos-violinos e passeia por entre os violoncelos.

O cão passa em meio aos componentes da orquestra. Todos olham para ele,  uns para os outros e, em seguida, tocam o próximo compasso.

O cão dá preferência a um determinado violoncelo. Talvez por causa do arco ferindo lateralmente as cordas. Talvez porque as cordas estivessem no nível de seus olhos. Por um motivo ou outro, o violoncelo atraiu a atenção do cão, e ele parou e pôs-se a observar. O violoncelista não sabia ao certo o que fazer. Ele nunca havia tocado para uma plateia canina.

Mas o cão não fez nada, a não ser olhar por alguns instantes, e continuou a andar. 

Se ele tivesse passado pela orquestra inteira, a música teria continuado. Se ele tivesse atravessado o palco, indo parar nas mãos de um funcionário do teatro, a plateia talvez não tivesse notado sua presença. Mas ele não arredou pé. Continuou no palco. Parecia à vontade diante daquele esplendor. Andando a esmo entre os acordes da música.

Aproximou-se dos instrumentos de sopro, virou a cabeça em direção aos pistons, deu alguns passos entre os flautistas e parou ao lado do maestro. E a Terceira Sinfonia de Beethoven foi interrompida. Os músicos riram. A plateia riu. O cão olhou para o maestro e fungou. E o maestro abaixou a batuta.

A orquestra mais histórica do mundo. Uma das mais comoventes obras compostas até hoje. Uma noite envolta em glória. Tudo arruinado por causa dos caprichos de um cão.

Os risos cessaram assim que o maestro olhou para trás. Haveria uma reação de fúria? A plateia silenciou diante do olhar firme do maestro. Um pavio curto teria sido aceso? O refinado diretor alemão olhou para a plateia, olhou para o cão. Em seguida, tornou a olhar para o povo, levantou as mãos em sinal de rendição encolheu os ombros.

Todos caíram na gargalhada.

Ele desceu do pódio e coçou o cão atrás da orelha. A cauda do cão voltou a balançar. O maestro falou com o cão. Falou em alemão, e aparentemente o cão compreendeu. Os dois conversaram por alguns instantes até que, por fim, o maestro pegou seu novo amigo pela coleira e o retirou do palco. Pela maneira como o cão foi aplaudido, você poderia pensar que ele era Pavarotti. O maestro voltou ao seu lugar, a música recomeçou. Beethoven não foi prejudicado de maneira alguma por causa do incidente. Você é capaz de se imaginar vivenciando essa cena no lugar do cão? Eu sim. Digamos que nosso nome seja Fido. E imagine que Deus seja o Maestro.

E visualize o momento em que vamos entrar no palco que pertence a Ele. Não merecemos. Não fazemos nada para merecer. Poderemos até surpreender os músicos com nossa presença.

A música será grandiosa como nunca ouvimos. Caminharemos em meio aos anjos e os ouviremos cantar. Fixaremos o olhar nas luzes do céu e prenderemos a respiração diante de seu intenso fulgor.

E nos aproximaremos do Maestro, ficaremos a seu lado adorando-o enquanto Ele rege... Veremos o que não pode ser visto e viveremos esse evento. [Somos convidados] a aguçar os ouvidos para a canção celestial e a ansiar pelo momento em que ficaremos ao lado do Maestro.

Ele também nos acolherá. E Ele também conversará conosco.

Mas não nos mandará embora. Ele nos convidará a ficar para sempre no palco, como seus convidados.


 

JIMMY DURANTE

Histórias Para o Coração 47

 

 

 

Há uma história maravilhosa a respeito de Jimmy Durante, um dos grandes comunicadores da geração passada. Ele foi convidado a participar de uma apresentação para os veteranos da Segunda Guerra Mundial. Jimmy disse que sua agenda estava lotada. Poderia estar lá por apenas alguns minutos. Só iria à apresentação caso pudesse fazer um curto monólogo e sair imediatamente  para o compromisso seguinte. Evidentemente, o diretor concordou, satisfeito.

Porém, enquanto Jimmy estava no palco, aconteceu uma coisa interessante. Ele terminou o curto monólogo e continuou  no lugar.

Os aplausos eram cada vez mais intensos, e ele não se afastou dali. Passaram-se 15 minutos, 20, 30. Finalmente, ele curvou o corpo em sinal de agradecimento e saiu do palco. Nos bastidores, alguém o parou e disse:

- Pensei que você tivesse de ir embora logo. O que houve?

- E eu precisava ir mesmo - Jimmy respondeu -, mas posso mostrar-lhe por que fiquei. Vai entender se olhar para a primeira fila.

Na primeira fila, havia dois homens. Ambos tinham perdido um braço na guerra. Um perdera o braço direito, e o outro, o esquerdo. Juntos, conseguiam bater palmas, e era exatamente o que estavam fazendo: batendo palmas com força e gritando de entusiasmo.


 

O DIA EM QUE BART SIMPSON OROU

Lee Strobel

Histórias Para o Coração 48

 

 

Bart não estava indo bem na quarta série. Ser reprovado pelo péssimo resumo que fez do livro A Ilha do Tesouro, do qual conhecia apenas o que estava escrito na capa, foi a gota d'água. Sua professora convocou uma reunião com os pais de Bart e o psiquiatra da escola, e  todos chegaram à conclusão de  que o garoto deveria repetir a quarta série.

Bart ficou assustado demais!

- Olhem dentro de meus olhos - ele disse. - Os senhores estão vendo minha sinceridade? Estão vendo convicção? Estão vendo medo? Eu juro que posso melhorar!

Afinal de contas, não há nada pior a um garoto de dez anos do que repetir um ano na escola.

Bart elaborou um plano. Fez um acordo com um estudante inteligente chamado Martin. Ensinaria Martin a ser malandro se o colega o ajudasse a passar na prova de História dos Estados Unidos. O exame final seria extremamente importante, porque, se fosse aprovado,  Bart receberia o diploma.

Bart ensinou a Martin todos os macetes de malandragem, tais como: arrotar a um sinal de comando, pichar portas das garagens, atirar pedras

com estilingue em garotas sem que elas desconfiassem de onde partiram. E, certamente, Martin tornou-se o garoto mais popular da escola - tão popular que não teve tempo de ajudar Bart nos estudos.

Agora imagine esta cena: noite anterior à grande prova. Bart, sentado  diante  da escrivaninha em  seu quarto,  olhando fixamente para um livro  aberto,  tentava  estudar,  quando  sentiu  um  arrepio ao se dar conta de que era tarde demais. Ele não podia gravar tudo na memória em uma só noite para ser aprovado. Depois de algum tempo, sua mãe espiou dentro do quarto e disse:

- Já passa da hora de dormir, Bart.

Bart fechou lentamente o livro. A poucas horas do exame, parecia que todas as suas opções haviam evaporado. Foi quando ele ajoelhou-se ao lado da cama e orou a Deus:

 

Não há mais esperança. Bem, meu  Velho Amigo, acho que chegarei ao fim da estrada. Sei que não tenho sido um bom garoto e, se tiver de ir à  escola amanhã, vou fracassar e perder o ano. Só preciso de mais um dia para estudar Senhor. Preciso de ajuda! Uma greve de professores, falta de energia elétrica, uma nevasca - qualquer coisa que faça a escola não funcionar amanhã. Sei que estou pedindo demais, mas ninguém pode fazer nada por mim, a não o Senhor. Desde já, obrigado. Seu amigo, Bart Simpson.

 

A cena muda do lado de fora da casa de Bart. As luzes de seu quarto apagaram-se. Estava frio e escuro.  Após alguns  instantes, um único floco de neve caiu no chão.  Em  seguida,  outro.  Mais outro. De repente, começou uma verdadeira nevasca.  Na verdade, foi a maior  na  história  da  cidade!  Ao  fundo,  ouvia-se  um  coro de "Aleluias".

No  dia  seguinte,  a  escola  não  funcionou.  Bart lutou contra a tentação de andar de trenó com seus amigos e ficou em casa estudando com afinco. Quando chegou a hora da prova, um dia depois, ele fez o melhor que pôde, mas respondeu errado a uma pergunta. Aparentemente, havia sido reprovado - até que, no último instante, Bart conseguiu somar milagrosamente mais um ponto e passou no exame pela tangente, com um -D. Bart ficou tão contente que beijou sua professora antes de atravessar a porta de saída da escola. Homer [seu pai]  ficou  tão  feliz que colou  a  prova de  Bart na porta da geladeira e disse:

- Estou orgulhoso de você, garoto. Ao que  Bart respondeu:

- Obrigado, pai. Mas parte deste pertence a Deus.


 

NO BALCÃO

Paula Kirk

Histórias Para o Coração 50

 

 

O feriado da Páscoa foi terrível. Enquanto eu cruzava os corredores do aeroporto, tinha o coração apertado diante da devastação ocorrida na vida de minha filha. Após um ano de casamento, seu marido a abandonara, e ela quase entrou em estado de choque por causa de tanta tristeza. Minha filha era controladora de tráfego aéreo e estava muito preocupada, sem saber se teria condições de concentrar-se no trabalho.

Parei para comprar algumas lembrancinhas para meus netos quando retornasse a meu lar. Enquanto o cartão de crédito era processado, a sorridente recepcionista perguntou se eu havia gostado de sua terra natal.

- É linda - eu disse. - Como outras cidades que já visitei.

- É verdade - ela concordou. - Deus criou um mundo maravilhoso de que podemos desfrutar. Há tanta diversidade! O que a senhora notou aqui de especial neste feriado?

Imediatamente, meus olhos encheram-se de lágrimas. O sofrimento era recente e ameaçava vir à tona.

- Não viajei por causa do feriado. Houve um problema muito sério na família. Minha filha está atravessando uma fase difícil. Detesto ter de deixá-la sozinha - eu disse, com certa dificuldade.

- Oh, mas Deus é bom.  Ele vai ajudar sua filha.

- Eu sei - murmurei por entre as lágrimas que agora corriam livremente pelo meu rosto.

Levei daquele balcão mais do que algumas lembrancinhas. Levei um pouco do poder da ressurreição de Cristo - o poder do amor de Deus para alcançar e curar um coração ferido.


 

TODAS AS COISAS BOAS

Irmã Helen P. Mrosla

Histórias Para o Coração 51

 

 

Ele foi meu aluno na terceira série do  Colégio Santa Maria, de Morris, Minnesota. Todos os meus 34 alunos eram muito importantes para mim, mas Mark Eklund era especial, um em um milhão. Muito cuidadoso com a aparência, ele estampava no rosto uma alegria tão  grande  de  viver  que  suas travessuras ocasionais chegavam a ser encantadoras.

Mark também falava sem parar. Eu precisava dizer-lhe repetidas vezes que não era permitido conversar sem autorização. Porém, o que mais me impressionava era a resposta sincera que ele me dava todas as vezes que eu o repreendia por mau comportamento:

- Obrigado por ter-me corrigido, Irmã!

A princípio, eu não sabia como reagir, mas, com o passar do tempo, acostumei-me a ouvir essa frase várias vezes ao dia.

Certa manhã, minha paciência estava chegando ao fim quando, mais uma vez, Mark começou a tagarelar. Foi então que cometi o erro de   toda  professora novata.  Olhei firme para Mark e disse:

- Se você disser mais uma palavra, vou colar um esparadrapo em sua boca!

Menos de dez segundos depois, Chuck deixou escapar:

- Mark está conversando novamente.

Eu não havia pedido a nenhum dos alunos que me ajudasse a tomar conta de Mark, mas tive de  cumprir  com  a palavra por ter feito a ameaça diante da classe.

Lembro-me da cena como se tivesse acontecido esta manhã. Caminhei  até minha mesa, abri deliberadamente a gaveta  e peguei um rolo de esparadrapo. Sem dizer uma só palavra, dirigi-me à carteira de Mark, cortei dois  pedaços  de esparadrapo  e os colei em formato de X em sua boca. Em seguida, voltei ao meu lugar e fiquei de frente para a classe.

Quando olhei para Mark para ver sua reação, ele piscou para mim. Foi o suficiente para eu começar a rir. A classe inteira aplaudiu quando me aproximei da carteira de Mark, retirei o esparadrapo e encolhi os ombros. Suas primeiras palavras foram:

-  Obrigado por ter-me corrigido, Irmã.

No final do ano, fui designada para lecionar  matemática  para os alunos da penúltima série. Os anos seguintes voaram, e, de repente, Mark voltou a ser meu aluno. Ele estava muito mais bonito e continuava educado. Ouvia atentamente minhas instruções sobre a "nova matemática" e já não conversava tanto na nona série como fazia na terceira.

Em uma determinada sexta-feira, as coisas não correram como deveriam. Depois de estudarmos um novo conceito durante toda a semana, percebi que os alunos estavam frustrados consigo mesmos, demonstrando irritação uns com os outros. Eu teria de pôr 6m a essa situação antes que o controle da classe me fugisse das mãos. Pedi aos alunos que relacionassem os nomes de todos os colegas de classe em duas folhas de papel, deixando uma linha em branco depois de cada um. Em seguida, pedi a eles que pensassem na coisa mais bonita que poderiam dizer a respeito de cada colega e que a escrevessem no espaço correspondente.

A tarefa durou o restante da aula. Ao saírem da classe, os alunos me entregaram os papéis. Charlie sorriu, e Mark disse:

- Obrigado pela aula, Irmã. Tenha um bom fim de semana.

Naquele sábado, escrevi o nome de cada aluno em folhas de papel individualizadas e relacionei os comentários de seus colegas. Na segunda-feira, entreguei a cada aluno a folha de papel que lhe pertencia. Dentro de poucos minutos, a classe inteira estava sorrindo.

- Será verdade? - ouvi alguém sussurrar.

- Eu nunca imaginei ser tão importante assim para alguém!

- Eu não sabia que meus colegas gostavam tanto de mim!

Ninguém voltou a falar daquelas folhas de papel na classe. Eu nunca fiquei sabendo se eles trocaram ideias entre si ou com os pais, mas isso não importava. A tarefa havia alcançado seu objetivo. Os alunos ficaram felizes consigo mesmos e com os colegas.

Aquele grupo de alunos deixou o colégio. Anos mais tarde, após eu ter retornado de férias, meus pais foram encontrar-se comigo no aeroporto. Enquanto nos dirigíamos para casa, minha mãe fez as perguntas rotineiras sobre a viagem: o clima, minhas experiências em geral. Havia uma atmosfera  um tanto estranha em nossa conversa. A certa altura, minha mãe olhou de esguelha para meu pai e disse simplesmente:

- E então?

Meu pai limpou a garganta,  conforme  costumava  fazer antes de dizer algo importante:

- Os Eklunds telefonaram ontem à noite - ele começou a dizer.

- Verdade? -  eu disse. -  Faz anos que não tenho notícias deles.

Gostaria de saber como Mark está. Papai respondeu serenamente:

- Mark foi morto no Vietnã. O funeral será amanhã, e os pais dele gostariam que você comparecesse.

Até hoje me lembro do local exato da estrada I-494, onde meu pai me falou sobre Mark.

Eu nunca havia visto um militar das Forças  Armadas dentro de um caixão. Mark tinha urna fisionomia tão bonita, tão amadurecida. Tudo o que pensei naquele momento foi: Mark, eu daria todos os esparadrapos do mundo para que você pudesse conversar comigo.

A igreja estava lotada de amigos de Mark. A irmã de Chuck cantou o "Hino da Batalha da República". Por que teve de chover no dia do funeral? Foi difícil chegar à beira da sepultura. O pastor proferiu as orações costumeiras, e ouvimos o toque de silêncio. Uma a uma, todas as pessoas que amaram Mark passaram pela última vez diante do caixão e o olharam.

Eu fui a última. Naquele momento, um dos soldados que ajudara a carregar o esquife aproximou-se de mim e perguntou:

- A senhora foi professora de matemática de Mark?

Assenti com a cabeça, sem tirar os olhos do caixão.

- Mark falava muito a seu respeito.

Após o funeral, a maioria dos ex-colegas de classe de Mark dirigiu-se à casa da fazenda de Chuck para almoçar. Os pais de Mark estavam presentes, obviamente aguardando minha chegada.

- Queremos mostrar-lhe uma coisa- disse o pai dele, tirando uma carteira do bolso. - Quando Mark foi morto, encontraram isso aqui com ele. Achamos que a senhora reconheceria.

Ele abriu a carteira e  retirou  cuidadosamente  duas  folhas de caderno amassadas e que,  por  certo,  haviam sido dobradas  e redobradas várias  vezes.  Mesmo  antes  de olhar,  eu sabia  que naqueles papéis estavam relacionadas todas as coisas boas que  os colegas de Mark escreveram sobre ele.

- Muito obrigada por ter feito isso - disse a mãe de Mark. - Como a senhora pode ver, Mark guardava esses papéis como se fosse um tesouro.

Os colegas de Mark começaram a se reunir ao redor de nós.

Charlie sorriu timidamente e disse:

- Eu ainda guardo minha lista. Está em casa, na primeira gaveta de minha escrivaninha.

A esposa de Chuck disse:

- Chuck me pediu que colocasse a dele em nosso álbum de casamento.

- Eu também guardei a· minha- disse Marilyn. - Está no meu diário.

Em seguida, Vicki, outra colega de classe de Mark, enfiou a mão no bolso, tirou uma carteira e mostrou ao grupo a sua lista surrada.

- Carrego sempre esta lista comigo- ela disse sem pestanejar. - Acho que ela salvou a vida de todos nós.

Foi então que eu me sentei e chorei. Chorei por Mark e por todos os seus amigos que nunca mais o veriam.


 

A MÃO

Histórias Para o Coração 55

 

 

O editorial do jornal no Dia de Ação de Graças contava a história de uma professora que pediu a seus alunos da primeira série que desenhassem alguma coisa pela qual eles se sentissem agradecidos. Ela não podia imaginar o que aquelas crianças, criadas em bairros tão pobres, teriam para agradecer.

Porém, ela sabia que a maioria desenharia perus sobre mesas fartas de alimentos. A professora ficou muito surpresa com o desenho que Douglas lhe entregou... uma simples mão desenhada com dificuldade.

De quem seria aquela mão? A classe foi atraída por aquela imagem enigmática.

- Acho que deve ser a mão de Deus que traz alimentos para nós - disse uma das crianças.

- É a de um fazendeiro - disse outra -, porque ele cria perus.

Depois que todas as crianças retornaram a seus lugares, a professora curvou-se sobre a carteira de Douglas e perguntou-lhe de quem era aquela mão.

- Sua mão da senhora, professora - ele murmurou.

A professora lembrou-se de que costumava conduzir Douglas, um menino pobre e raquítico, ao recreio, segurando-o pela mão.

Às vezes, ela ajudava outras crianças também, mas aquele gesto significava muito para Douglas. Talvez seja esse o verdadeiro sentido do Dia de Ação de Graças. Ser grato não pelas coisas materiais que conquistamos, mas pela oportunidade de ser útil aos outros, mesmo que a ajuda pareça insignificante.

 

 


 

O TRANSEUNTE

Histórias Para o Coração 58

 

 

Eu o via quase todas as manhãs quando olhava pela janela da sala de estar de minha casa. Ele passou a fazer  parte de meu dia-a-dia. Com o corpo ligeiramente curvado, ele arrastava um pouco uma das pernas. O pé era tão torto que ele pisava mais com a lateral do que com a sola do  sapato.  Eu  calculava  que  ele tivesse uns 80 anos. Vestia uma simples camisa  de flanela.  Ao vê-lo sair sob o ar gelado das manhãs de  inverno,  eu  me perguntava  se ele não estaria  sentindo frio.

Certa manhã, enquanto eu cuidava do jardim, vi o velho homem sorrir e despentear  o cabelo  de   um  garotinho  que  passava  por  ele a caminho da escola.

É agora ou nunca, pensei, atravessando corajosamente a rua e apresentando-me  a ele.

Seus olhos azuis desbotados criaram vida, e seu rosto contorceu-se em outro sorriso, desta vez para mim.

- Minha esposa e eu somos suíços. Viemos primeiro para o Canadá e depois para os Estados Unidos - ele disse. - Já faz muitos anos. Trabalhamos muito.  Conseguimos  economizar  um  pouco de dinheiro, o suficiente para comprarmos um pedaço de terra. Como eu não falo inglês muito bem, pego as cartilhas das crianças e estudo-as sozinho até aprender. - Ele riu ao olhar para a escola de ensino fundamental do outro lado da cerca. Em seguida, seu semblante ficou circunspecto. - Não temos filhos.

Refleti sobre a conversa na quietude daquela manhã, profundamente emocionada pela solidão que senti em sua voz enquanto ele falava dos parentes que restaram em sua terra natal, cuja distância não era apenas medida em quilômetros. Eles viviam em mundos completamente diferentes.

- Minha esposa não está muito bem - ele me disse quando perguntei sobre ela.

Eu queria aproximar-me dele,  oferecer  ajuda,  ser  sua  amiga, mas achei que já havia me intrometido demais na vida daquele desconhecido. A palavra apropriada para o momento era discrição. Comecei a volta r para minha casa.

- Por favor - eu disse, deixando um convite em aberto-, qualquer dia desses, quando o senhor estiver passando por aqui, entre e tome uma xícara de café comigo.

Durante alguns dias, eu não o vi passar diante de minha casa, mas pensava nele com frequência. Estaria ele confinado em casa ou enfermo? Será que a saúde de sua esposa havia piorado repentinamente? Se ao menos eu soubesse o nome dele ou onde morava... Meu convite desajeitado não me saía da cabeça. Eu queria tanto ser amiga dele!

Depois de alguns meses, eu o vi novamente. Enquanto eu passava por um local a cerca de 15 minutos a pé de minha casa, avistei o seu familiar jeito de andar com dificuldade e mancando. Ele caminhava lentamente, com os ombros caídos e um dos pés tão  retorcido que o calcanhar não se encaixava no sapato. Seu rosto pálido estava mais magro que da última vez, mas seus olhos ainda brilhavam, e ele sorriu reconhecendo-me quando voltei a me apresentar. Fique i sabendo que o nome dele era Paul.

- Não ando mais como costumava - ele explicou. - Não posso deixar minha esposa muito tempo sozinha. A cabeça dela não está muito boa. - Ele fez uma careta e tocou a testa com a mão. - Esquece tudo. - Em seguida, fez um gesto em direção a uma casa verde e branca, de madeira, do outro lado da rua e perguntou:

- A senhora gostaria de ir até lá para ver meus desenhos?

- Estou indo buscar meu carro na oficina - eu disse, desculpando-me -, mas adoraria vê-los em outra ocasião.

- Então, venha esta noite, está bem? - Ele tinha um ar esperançoso.

- Oh, sim - eu disse-, está combinado.

Naquela noite, o aroma forte que exalava dos pinheiros tomava conta do ar gelado e causticante. Paul aguardava com olhar esperançoso perto da janela. Quando ele abriu a porta, vi que estava bem arrumado para receber uma visita.

Sua esposa, magra e franzina, apareceu na porta da cozinha, enrolando os cabelos brancos em formato de birote.

- Entre, entre - ela insistiu, com um sorriso bonito para sua idade, estendendo a mão macia e enrugada.

- Esta - disse Paul - é Bertha, minha esposa. - Ele endireitou o corpo e ficou mais alto. - Estamos casados há 56 anos.

Naquela noite, conheci os desenhos de Paul feitos com caneta e tinta. Percorremos cômodo por cômodo. Os quadros com molduras simples estavam pendurados nas paredes, e as folhas avulsas, guardadas dentro de gavetas. Havia esboços de pessoas famosas, paisagens, qualquer coisa que lhe viesse à mente. Cada um tinha sua história.

Contudo, a mais comovente era a dura realidade de um talento como o dele sendo ignorado pelas pessoas de  sua  geração. Seu pai lhe dizia:

- Não vou gastar dinheiro à toa com você. Se ficar sentado desenhando desse jeito, nunca vai ser nada na vida.

A mãe morreu quando ele tinha nove anos. Ele se lembrava da varinha batendo-lhe na cabeça todas as vezes que ela o encontrava com um lápis e um bloco na mão.

- Faça alguma coisa útil. Não perca seu tempo - ela ralhava.

Quando retornamos à cozinha, Bertha procurava alguma coisa com que pudesse expressar sua hospitalidade.

- Eu gostaria de ter alguns bolinhos para lhe oferecer. Não posso mais cozinhar como fazia antes.

 - Agradeço muito. Acabei de jantar - eu disse.

O jantar deles era entregue de carro por uma instituição filantrópica três vezes por semana.

- Não  podemos comer muito. Sempre sobra alguma coisa para o dia seguinte. Menos às segundas-feiras. Nesse dia, temos de preparar nossa comida.

Eles pediram  que  eu ficasse  mais um pouco. Sentamos e conversamos. A dignidade tomava conta de toda a casa.

Paul atendeu à porta na segunda-feira seguinte. Seus olhos voltaram-se para a bandeja que eu carregava.

Ele ficou  feliz  com  minha chegada,  mas seu semblante  aflito  e agitado deixava transparecer que eu presenciaria uma briga.

Bertha, pálida e nervosa, tentava controlar-se.

- Não estamos nos sentindo bem hoje, e eu não consigo me lembrar de nada. - Ela levantou as mãos em sinal de rendição. - Acho que é... velhice!

Eles me conduziram à cozinha. A sopa em lata havia derramado no fogão.

As mãos de Paul tremiam. Ele me mostrou o buraco provocado pelo fogo na manga de sua camisa enquanto tentava aquecer a sopa. A labareda, abafada no momento de minha chegada, havia provocado aquele estrago. Ele pôs a mão na testa e suspirou, tentando readquirir o controle.

- É isso que me aborrece às vezes - ele disse, arrumando as facas e os garfos na mesa enquanto eu colocava ali a comida que havia preparado.

Bertha continuava nervosa, sem saber onde colocara a colher de pau, que agora não era mais necessária. Senti pena dela.

A fragilidade, as irritações, as frustrações, as limitações e os temores causados pela idade haviam sido demais para eles naquela manhã. Comovida ao ver tudo aquilo,  segurei  as  mãos trêmulas de Bertha.

- Podemos nos sentar e orar? - perguntei.

- Oh! - exclamou Bertha. - É disso que precisamos. Paul sentou-se em uma cadeira ao lado do sofá.

Depois de orar, olhei para os dois. Gratidão e alívio estavam estampados no rosto deles. Toda a tensão desaparecera. Abracei-os com força e fiquei feliz quando eles também me abraçaram.

- Você é muito boa para nós - disse Paul, dirigindo-se à mesa da sala de jantar e puxando uma cadeira para sua esposa.

Não, pensei, Deus é muito bom para mim. Ele permitiu que eu compartilhasse esse momento em que tocava o coração de duas pessoas a quem Ele ama muito.

Como me senti abençoada por isso! Eu queria me tornar amiga daquele casal, pois Ele colocara esse desejo em meu coração.

O MENINO COM PARALISIA CEREBRAL

Tony Campolo

Histórias Para o Coração 63

 

 

Fui convidado para ser conselheiro de um acampamento de alunos da penúltima série. Todo mundo deveria fazer isso pelo menos uma vez na vida. A ideia fixa de garotos dessa idade.

durante um bom período. é atormentar as pessoas. E. nesse caso particular, nesse acampamento específico, havia um menino que sofria de paralisia cerebral. Seu nome era Billy. E seus colegas o atormentavam.

Ah, e como o atormentavam! Quando Billy atravessava o acampamento sem conseguir coordenar os movimentos, eles se aproximavam e imitavam seus movimentos grotescos. Certo dia, eu o vi indagando como chegar a determinado lugar.

- Qual... é..: o caminho... até... a loja... de... artesanatos? - ele gaguejou com a boca contorcida.

E os garotos o imitaram, gaguejando da mesma maneira.

- É... logo... ali... Billy - disseram, rindo em seguida.

Fiquei furioso.

Minha raiva chegou ao ponto máximo na manhã de quinta-feira, quando foi a vez de Billy dirigir a devocional. Eu me perguntei o que aconteceria, porque eles haviam designado Billy para ser o orador. Eu sabia que os garotos só queriam divertir-se à custa dele. Enquanto Billy caminhava com passos lentos até a frente do auditório, eu podia ouvir risadinhas vindas de todos os lados. Billy levou quase cinco minutos para proferir sete palavras:

- Jesus... me... ama... e... eu... amo... Jesus.

Quando ele terminou, houve um silêncio mortal. Olhei por cima do ombro e vi, em seguida, garotos da penúltima série gritando de alegria por todo lado. Houve um reavivamento naquele local após o curto testemunho de Billy. Em minhas viagens pelo mundo todo, encontro missionários e pregadores que dizem:

- Lembra de mim? Estive naquele acampamento para alunos da penúltima série.

Nós, os conselheiros havíamos feito todas as tentativas possíveis para atrair aqueles garotos para Jesus. Chegamos a trazer para dar testemunho jogadores de beisebol, cuja média; de pontos por jogo haviam melhorado sensivelmente desde que começaram a orar. Mas Deus não escolheu -usar aqueles exímios jogadores e, sim, um menino com paralisia cerebral para quebrantar os espíritos arrogantes. Esse menino é uma dádiva de Deus.


 

DIA DOS NAMORADOS

Dalle Galloway

Histórias Para o Coração 67

 

 

O pequeno Chad era um menino tímido e calado. Certo dia, ao  retornar  para casa,  contou  à mãe que  gostaria de dar um cartão a cada colega de classe. Sua mãe ficou angustiada. Eu não gostaria que ele fizesse, ela pensou, porque costumava observar as crianças quando voltavam da escola para casa. Chad sempre caminhava atrás dos colegas. Eles riam, brincavam e  conversavam entre si, mas Chad sempre era deixado de lado. Todavia, ele decidiu que colaboraria com o filho. Comprou papel, cola e lápis de cor. Durante três semanas, trabalhando dias a fio, Chad conseguiu, com muito esforço, confeccionar 35 cartões.

O Dia dos Namorados começava a amanhecer, e Chad não cabia em si de contentamento! Empilhou os cartões cuidadosamente, colocou-os na mochila e disparou porta afora. Sua mãe resolveu assar os biscoitos favoritos do filho e servi-los com um copo de leite geladinho assim que ele chegasse da escola. Ela sabia que Chad voltaria desapontado... e aquele lanche  poderia  aliviar  um pouco o seu sofrimento. Era angustiante pensar que Chad não receberia muitos cartões - talvez nenhum.

Naquela tarde, ela arrumou a mesa com os biscoitos e o leite. Quando ouviu o vozerio dos garotos lá fora, olhou pela janela. Como sempre, lá vinham eles, rindo e se divertindo. E, como sempre, lá vinha Chad atrás do grupo. Ele caminhava um pouco mais rápido do que o normal. Ela esperava que o filho se desmanchasse em lágrimas assim que entrasse em casa. Ele chegou com as mãos vazias e, quando abriu a porta, a mãe lutava para conter o choro.

 

- A mamãe preparou biscoitos quentes e leite para você.

Mas Chad não prestou atenção no que ela disse. Caminhando com passos firmes e o rosto brilhando de alegria, ele proferiu apenas estas palavras:

- Nenhum... nenhum.

E, em seguida, complementou:

- Não esqueci nenhum, nenhum deles!

 

 

" Nos Estados Unidos, comemorado em 14 de fevereiro. Nesse dia, as pessoas enviam cartões não só aos namorados, mas também a amigos e pessoas queridas.


 

DECIDIR

Viktor E. Frankl

Histórias Para o Coração 69

 

 

O Dr. Victor E. Frankl, que sobreviveu a três terríveis anos em Auschwitz e em outras prisões nazistas, registrou suas observações sobre a vida nos campos de concentração de Hitler:

 

Nós, que vivemos em campos de concentração, lembramo-nos dos homens que caminhavam pelos alojamentos confortando os companheiros, oferecendo-lhes seu último pedaço de pão. Eles eram poucos em número, mas deram provas suficientes de que tudo pode ser tirado de um homem, menos uma coisa: a expressão última da liberdade humana - o poder de decidir que atitude tomar em determinadas circunstâncias e que caminho seguir.

 


 

APENAS UM COMEÇO

Gary Smalley e John Trent

Histórias Para o Coração 70

 

 

Conhecemos um casal abastado de Dallas que enfrentou grandes dificuldades para ensinar a seus filhos a arte de servir ao próximo. O problema era que, durante anos, as crianças sempre tiveram tudo o que desejaram. Acostumaram-se tanto a ter seus desejos satisfeitos que a ideia de "servir" alguém parecia coisa da Idade Média... ou de Marte.

O pai daquela família compreendeu que estava começando um pouco tarde, mas, um momento! começar tarde é melhor do que não começar!

Cerca de uma semana antes do feriado de Ação de Graças, ele disse à família:

- Vamos fazer uma coisa diferente neste Dia de Ação de Graças. Seus  filhos  adolescentes  ficaram  alerta  e  prestaram atenção.

Normalmente, quando o pai dizia coisas desse tipo, elas significavam algo exótico.  Por exemplo,  navegar de barco a vela nas  Bahamas.

Mas desta vez não foi nada  disso.

- Vamos trabalhar na missão - ele disse. - Vamos servir a ceia do Dia de Ação de Graças a pessoas pobres e sem-teto.

- Fazer o quê?

- Ah, papai, você está brincando... não é verdade? Diga que está brincando...

Ele não estava brincando.  Os  filhos concordaram  por causa da insistência do pai, mas não ficaram nada felizes diante dessa perspectiva.  Por um motivo qualquer, o pai havia tomado uma "atitude excêntrica" e, aparentemente, tirara aquela ideia da própria cabeça. Trabalhar na missão! E se os seus amigos soubessem disso?

Ninguém poderia prever o que aconteceria naquele dia.  E ninguém da família podia lembrar-se de um dia melhor que passaram juntos. Eles se aglomeraram na cozinha, colocaram o peru com o molho em travessas enfeitadas, fatiaram a torta de abóbora e encheram um sem-número de xícaras de café. Depois, brincaram com as crianças e ouviram os mais velhos contarem histórias sobre o Dia de Ação de Graças que haviam acontecido muito tempo atrás e bem longe dali.

O pai ficou muito satisfeito (e por que não dizer atônito?) diante da reação dos filhos. Mas não estava preparado para o pedido que lhe foi feito algumas semanas depois.

- Papai... queremos voltar à missão para servir a ceia de Natal!

E eles serviram. Enquanto as crianças brincavam, eles reencontraram algumas pessoas que conheceram no Dia de Ação de Graças. Uma determinada família carente não lhes saía do pensamento, e todos ficaram felizes quando a viram novamente na fila da sopa. Desde aquela ocasião, as famílias têm-se visitado. Os adolescentes mimados arregaçaram as mangas outra vez para servir pessoas de um dos bairros mais pobres de Dallas.

Houve uma mudança importante, e ao mesmo tempo sutil, dentro daquela casa. Os adolescentes deixaram de ter a certeza de que conseguiriam tudo na vida. Seus pais notaram que eles ficaram mais sérios... mais responsáveis. Sim, foi um começo tardio. Mas foi um começo.


 

COMO E A SUA CIDADE?

Histórias Para o Coração 72

 

 

Havia um homem idoso e muito sábio. Todos os dias, ele se sentava em sua cadeira de balanço, ao lado de um posto de gasolina, e esperava para cumprimentar os motoristas que transitavam por sua pequena cidade. Certo dia, a neta desse homem ajoelhou-se aos pés de sua cadeira e passou um longo tempo fazendo-lhe companhia.

Enquanto eles observavam as pessoas chegando e partindo, um homem alto, que parecia um turista - pois o avô e a neta conheciam todos os moradores da cidade -, começou a andar de um lado para o outro como se estivesse examinando o local para morar ali. O forasteiro aproximou-se dos dois e perguntou:

- Como é esta cidade?

O senhor idoso virou-se lentamente e disse:

- E como é a cidade de onde o senhor vem?

- Na cidade de onde venho - respondeu o turista -, todo mundo critica todo mundo. Os vizinhos fazem mexericos. É um lugar péssimo para viver. Estou feliz por sair de lá. Não é muito agradável.

O homem sentado na cadeira de balanço olhou para o forasteiro e disse:

- Sabe de uma coisa? Esta cidade é exatamente assim.

Mais ou menos uma hora depois, uma família que também estava de passagem pela cidade fez uma parada para reabastecer. O carro rodou lentamente e parou diante do local onde o senhor idoso e

 


 

NÃO ERA IMPORTANTE

Charles Colson

Histórias Para o Coração 74

 

 

Os jovens da Igreja Cristã de Shively, dirigidos na época pelo pastor da  mocidade  Dave  Stone,  competiam bravamente

com a igreja vizinha, a Batista de Shively, em tudo, principalmente nos jogos de softball [forma modificada de beisebol, jogado com bola mais macia e maior]. Eles levavam a sério o Cristianismo, frequentando assiduamente o acampamento bíblico de verão dirigido pelo jovem pastor.

O estudo bíblico de uma das semanas referia-se ao capítulo 13 do Evangelho de João, que menciona o episódio em que Jesus lavou os pés de seus discípulos.  Para enfatizar a lição sobre a  humildade, o pastor Stone dividiu os jovens em grupos e pediu-lhes que saíssem para encontrar  uma maneira  prática de ajudar alguém .

- Quero que vocês sejam como Jesus nesta cidade durante as próximas duas horas - ele disse. - Se Jesus estivesse aqui, o que Ele faria? Imaginem como Ele ajudaria o povo.

Duas horas depois, os jovens reuniram-se novamente na sala de estar da casa do pastor para relatar o que haviam feito.

Um grupo trabalhou durante duas horas no jardim de um senhor idoso. Outro comprou sorvetes e os serviu a  várias  viúvas  da igreja. Um terceiro grupo visitou um membro da igreja que estava hospitalizado e entregou-lhe um cartão. Outro foi a uma casa de repouso e cantou cantigas natalinas - sim, cantigas natalinas em pleno mês de agosto. Um idoso que morava ali comentou que foi o Natal mais feliz do qual ele se lembrava.

Porém, quando o quinto grupo levantou-se e relatou o que havia feito, todos deram um gemido de desgosto. Esse grupo visitara a igreja rival, a Batista de Shively, e perguntara ao pastor se ele conhecia alguém que necessitava de ajuda. O pastor os encaminhou ao lar de uma senhora idosa que precisava de alguém para cuidar de seu jardim. Ali, eles trabalharam durante duas horas, cortando a grama, varrendo as folhas secas e aparando a cerca viva.

Quando eles estavam prontos para partir, a senhora chamou o grupo e agradeceu o trabalho de todos.

- Eu  não sei o  que  faria sem sua  ajuda -  ela disse. -  Vocês, da Batista de Shively, estão sempre vindos aqui para me socorrer.

- Batista de Shively! - interrompeu o pastor Stone. - Espero que vocês tenham dito a ela que pertenciam à Igreja Cristã de Shively.

- Por  quê?  Não,  não  dissemos  -   retrucou  um dos  jovens .

- Achamos que  não era importante.


 

GALINHAS

Anne Padden

Histórias Para o Coração 76

 

 

No maravilhoso clássico de Jack London, White Fang [Caninos Brancos], conta a história de um animal, metade cão e metade lobo, que luta para sobreviver na floresta e, depois, aprende a viver no meio dos homens. Há um trecho em particular que ficou gravado em meu coração.

White Fang tinha predileção por galinhas e, em certa ocasião, invadiu um galinheiro e matou 50. Seu dono, Weeden Scott, a quem White Fang considerava um deus e "amava de todo o coração", chamou-lhe a atenção e, depois, colocou-o dentro do galinheiro. Quando viu seu alimento favorito andando de um lado para o outro debaixo de seu nariz, White Fang obedeceu a seu  impulso natural e atacou uma das galinhas. Imediatamente, seu dono o repreendeu com voz forte. Os dois ficaram juntos no galinheiro por algum tempo. Todas as vezes que White Fang ameaçava atacar uma galinha, a voz do dono o impedia. Assim, ele aprendeu aquilo que seu dono queria não importunar as galinhas.

O pai de Weeden Scott argumentou que "não podemos dominar o instinto de um matador de galinhas", mas Weeden o desafiou e ambos concordaram  em trancar White  Fang no galinheiro durante a tarde inteira.

 

Trancado no galinheiro e sem o olhar vigilante do dono, White Fang deitou-se e dormiu. Levantou-se apenas uma vez e caminhou até a tina para beber água. As galinhas não lhe deram atenção. Para White Fang, as galinhas simplesmente não existiam. Às 16 horas, ele correu e deu um impulso com o corpo, indo parar no telhado do galinheiro. Em seguida, saltou no chão do lado de fora e dirigiu-se para a casa. Ele havia aprendido a regra.

 

Por amor a seu dono e desejo de obedecer-lhe, White Fang dominou seus instintos naturais. Talvez ele não tenha compreendido o motivo de ter-se curvado à vontade do dono.

As histórias sobre animais têm o dom de quebrantar nosso coração e, geralmente, nos revelam uma grande verdade. A simplicidade e a pureza do amor e devoção de White Fang a seu dono ajudaram-me a compreender que minha vida estará sempre rodeada de "galinhas". Eu só preciso decidir uma coisa: a quem vou servir?


 

O MILIONÁRIO E A LAVADORA DE ESCADAS

William E. Barton

Histórias Para o Coração 78

 

 

Há um certo milionário que tem um Escritório no Segundo Andar do Edifício do First National Bank. Para subir até seu Escritório, ele usa o Elevador, mas, para descer, usa as Escadas.

Ele é um Homem Arrogante, que um dia foi pobre e progrediu no Mundo. É um Homem que se fez por conta  própria  e adora seu criador.

Paga o Aluguel regularmente no primeiro dia do mês e não se importa com os Seres Humanos que dirigem os Elevadores, nem com quem Limpa  as  Janelas  dependurado  a  uma grande  altura da Calçada, nem com quem atira Carvão com a pá  nas fornalhas das Caldeiras. No Natal, ele também não se lembra de dar uma Gorjeta ou um Peru a eles.

Há naquele Edifício uma Mulher Pobre que Lava as Escadas e os Corredores. Ele passa por ela com frequência, mas só notou sua presença recentemente, porque sua cabeça estava nas alturas, e ele só pensava em ganhar Mais Milhões.

Um dia, ele saiu de seu Escritório e começou a descer as Escadas.

A Lavadora de Escadas encontrava-se um pouco abaixo; porque ela começou a lavar de cima para baixo e estava conferindo seu Trabalho.  No degrau mais alto da Escada, em um local molhado  e ensaboado, havia um Grande Pedaço de Sabão. E o Milionário pisou nele.

O pé com o qual ele pisou no Sabão escorregou para o leste, onde nasce o Sol, e o outro dirigiu-se por conta própria para o Ocaso. E o Milionário caiu sentado no Primeiro Degrau,  mas não  permaneceu ali. Como tinha a intenção de Descer, ele Desceu, mas não de acordo com seu Plano Original. E, enquanto descia, ia batendo em cada degrau, provocando  o som de um Tambor.

A Lavadora de Escadas afastou-se gentilmente para deixar o caminho livre.

Ao chegar ao último degrau, ele levantou-se e refletiu se devia dirigir-se à Administração do  Edifício  e exigir  que  a  Lavadora de Escadas fosse demitida; mas achou que, se revelasse o motivo, provocaria muitos Risos entre os ocupantes do Edifício. Portanto, resolveu manter a calma.

Porém, a partir daquele dia, ele começa a notar a presença da Lavadora de Escadas e passa por ela com Circunspecção.

Porque não existe ninguém tão importante ou poderoso que possa dar-se ao luxo de desprezar outro ser humano. Porque uma Lavadora de Escadas muito Humilde e uma barra de Sabão Amarelo comum podem afastar os Problemas Comerciais da mente de um Grande Homem com uma rapidez surpreendente.

Portanto, medita sobre estas coisas e não te consideres tão importante, mesmo que estejas perante os mais humildes filhos de Deus.

Se, por acaso,  tiveres de descer  de teu  pedestal  de orgulho  e te afastares dali com tuas feridas doendo um pouco mais porque suspeitas que a Lavadora de Escadas está Sorrindo em meio à Espuma, enfrenta o dia de trabalho com mais ânimo por causa da alegria que deste a ela.

Porque estes são dias solenes, e aquele que põe um sorriso no rosto de uma Lavadora de Escadas não viveu em vão.


 

O SINAL

Alice Gray

Histórias Para o Coração 80

 

 

O jovem estava sentado sozinho no ônibus e passava a maior parte do tempo olhando pela janela. Ele tinha cerca de 25 anos, bela aparência e rosto bondoso. A camisa azul-marinho combinava com a cor de seus olhos. O cabelo era curto e bem penteado. Vez por outra, desviava o olhar da janela, e a ansiedade estampada em seu semblante tocou o coração de uma avó sentada do outro lado do corredor. Quando o ônibus já se aproximava dos limites de uma pequena cidade, ela sentiu uma compaixão tão grande pelo jovem que atravessou o corredor e pediu licença para sentar-se ao lado dele.

Após alguns momentos de conversa amena sobre o clima quente da primavera, ele disse inesperadamente:

- Fiquei dois anos na prisão. Saí esta manhã e estou indo para casa.

Suas palavras fluíram com mais facilidade quando ele contou que sua família era pobre, porém orgulhosa, e que seu crime trouxera vergonha e desgosto a todos. No decorrer daqueles dois anos, ele não recebeu nenhuma notícia deles. Sabia que eram muito pobres para fazer uma viagem tão longa até a prisão e que seus pais provavelmente se consideravam incultos demais para escrever.

Ele parou de escrever para a família por não ter recebido nenhuma resposta.

Três semanas antes de ser libertado, ele escreveu uma carta desesperada a seus familiares dizendo que lamentava muito ter causado tanto desapontamento a eles e pedindo perdão.

Contou-lhes que seria solto da prisão e que pegaria um ônibus para sua cidade natal, que passava em frente da casa onde ele havia crescido e onde seus pais ainda moravam. Disse que compreenderia se eles não o perdoassem.

Na tentativa de facilitar as coisas para a família, o jovem pediu que eles providenciassem um sinal que pudesse ser visto do ônibus.

Se eles o tivessem perdoado e o aceitassem de volta, deveriam amarrar uma fita branca na antiga macieira que ficava na frente da casa. Se a fita não estivesse lá, ele continuaria no ônibus, iria embora da cidade e da vida deles sempre.

À medida que o ônibus se aproximava de sua rua, o jovem foi ficando cada vez mais nervoso, a ponto de ter medo de olhar pela janela, porque estava certo de que não haveria nenhuma fita.

Depois de ouvir a história, a senhora perguntou:

- Você se sentiria melhor se trocássemos de lugar e eu me sentasse perto da janela para ver se a fita está lá?

O ônibus rodou mais alguns quarteirões e, em seguida, a senhora avistou a árvore. Ela tocou carinhosamente o ombro do rapaz e, sufocando as lágrimas, disse:

- Olhe! Olhe! A árvore inteira está coberta de fitas brancas!


 

O BOM SAMARITANO

Tim Hazel

Histórias Para o Coração 83

 

Em um semestre do ano letivo, um professor do seminário planejou sua aula de pregação de maneira diferente. Queria que seus alunos pregassem sobre a Parábola do Bom Samaritano e, no dia da aula, ele pôs seu plano em prática pedindo aos alunos e alunas que fossem, um de cada vez, a uma classe vizinha onde deveriam pregar um sermão. O professor deu a alguns alunos o prazo de dez minutos para eles voltarem; a outros, deu menos tempo, forçando-os a correr para cumprir o prazo. Os alunos tinham de atravessar um corredor e passar por um mendigo, que estava plantado ali de propósito, aparentemente necessitando de ajuda.

Os resultados foram surpreendentes e ofereceram uma excelente lição para eles. A porcentagem dos alunos generosos que pararam para ajudá-lo foi extremamente baixa, principalmente por parte daqueles que tinham prazo mais curto. Quanto mais escasso era o tempo, menos alunos paravam para ajudar o indigente. Quando o professor revelou o que havia feito, você pode imaginar o impacto sobre aquela classe de futuros líderes espirituais. Apressados para pregar um sermão sobre o Bom Samaritano, eles passaram de largo pelo mendigo, conforme diz a parábola. Devemos ter olhos para ver e mãos para ajudar, ou podemos não ajudar nunca. Penso que este poema tão conhecido serve para expressar esse conceito:

 

Eu estava faminto, e você organizou um clube humanitário para discutir minha fome.

Obrigado.

Eu estava preso, e você se retirou tranquilamente para sua capela a fim de orar por minha Libertação.

Que bom!

Eu estava nu e em sua mente você debateu a moralidade de minha aparência.

Qual foi o proveito disso?

Eu estava doente, e você ajoelhou-se e agradeceu sua saúde a Deus.

Mas   eu precisava de você.

Eu não tinha onde morar, e você fez um sermão para mim sobre a proteção do amor de Deus.

Eu queria que você me levasse para casa.

Eu estava abandonado, e você me deixou sozinho para orar por mim.

Por que não ficou comigo?

Você parece tão Janto, tão próximo de Deus, mas eu continuo faminto, abandonado, com frio e sofrendo.

Isso faz diferença para você?


 

CONTENTAMENTO É...

Ruth Senter

Histórias Para o Coração 85

 

 

Eu ouvia a voz, mas não tinha condição de enxergar a pessoa.

Ela estava do outro lado do armário do vestiário. Acabara de chegar da aula de natação matinal. Sua voz assemelhava-se à própria manhã: forte, animada, cheia de vida. Às 6h15 da manhã, atrairia a atenção de qualquer pessoa. Eu ouvi sua voz firme:

- Dolores, gostei muito do livro que você pegou para mim na semana passada. Sei que a biblioteca fica fora de seu caminho. Não consegui parar de ler. Solzhenitsyn é um grande escritor. Estou feliz por você ter-me sugerido o livro dele.

- Bom-dia, Pat - ela cumprimentou outra nadadora. Por um instante, a voz melodiosa  calou-se.  Em seguida,  ouvi-a dizer:

- Você já viu um dia tão esplêndido como este? Vi um par de cotovias enquanto caminhava  esta  manhã.  Isso  nos traz  alegria de viver, não?

O tom da voz era bom demais para ser verdade. Quem pode ser tão agradecido a essa hora da manhã? A voz dela tinha um certo requinte. Talvez fosse uma mulher rica, sem nada para fazer o dia inteiro, a não ser tomar uma xícara de chá em sua varanda e ler Solzhenitsyn. Eu ficaria animada às 6 horas da manhã se pudesse nadar e ler um livro ao longo do dia. Ou se possuísse uma casa de campo nos bosques do Norte.

Contornei o armário em direção aos chuveiros e fiquei frente a frente com a dona daquela voz jovem. Ela estava arrumando seus apetrechos. O uniforme amarelo de faxineira ficava bem assentado naquela mulher de uns 50 anos. Era um uniforme que eu conhecia, acompanhado de vassouras, esfregões, panos de pó e baldes. Uma empregada do local onde eu nadava. Ela deu um leve sorriso para mim, pegou sua sacola de plástico das Lojas Americanas e caminhou apressada em direção à porta, dizendo: "Tenha um glorioso  dia" a todos que encontrava.

Eu não consegui tirar da mente aquele uniforme amarelo, enquanto dava minhas braçadas e afundava o corpo na espuma da piscina de hidromassagem. Meus dois companheiros estavam entretidos em uma conversa. Pelo menos um deles  estava.  Sua voz cansada e triste falava de dores nos joelhos causadas por artrite, aneurisma no coração, noites sem dormir e dias  repletos de mal-estar.

Nada estava bom ou na medida certa. A água estava quente demais, os jatos d'água não eram suficientemente fortes para seus joelhos endurecidos, e os médicos haviam demorado muito para diagnosticar seu caso. Com sua mão enfeitada com um anel de brilhante, ele retirou a espuma branca do rosto. Parecia um ancião, mas suspeitei que também tivesse uns 50 anos.

O uniforme amarelo e o anel de brilhante, surpreendente e silencioso contraste, provaram mais uma vez para mim que, quando Deus diz que "religiosidade acompanhada de contentamento significa prosperidade", Ele quer dizer exatamente isso. Naquela manhã, eu vi contentamento e descontentamento . Tomei a decisão de jamais me esquecer disso.

 

Oração de São  Francisco de Assis

 

Senhor,

Faze de mim um instrumento de tua paz.

Onde houver ódio, que eu leve amor;

onde houver desespero, que eu leve esperança;

onde houver tristeza, que eu leve alegria;

onde houver trevas, que eu leve luz.

Ó Divino Mestre,

permite que eu procure mais consolar que ser consolado;

amar que ser amado.

Pois é dando que recebemos,

é perdoando que somos perdoados,

e é morrendo que nascemos

para a vida eterna.

EDUCAÇÃO

Histórias Para o Coração  89

 

 

Se a sua visão for para um ano, plante trigo.

Se a sua visão for para dez anos, plante árvores.

Se a sua visão for para a vida inteira, plante pessoas.

 

Provérbio Chinês


 

O ZELADOR DA FONTE

Charles Swindoll

Histórias Para o Coração 91

 

 

O "Zelador da Fonte" era um pacato habitante da floresta que vivia em um povoado da Áustria nas encostas dos Alpes. O idoso cavalheiro fora contratado havia muitos anos pelo então recém-constituído conselho municipal para retirar entulhos das piscinas formadas pela água que descia pelas encostas da montanha e abastecia a encantadora fonte da cidade. Com fiel e silenciosa regularidade, ele inspecionava as colinas, retirava folhas e galhos secos e limpava o limo que poderia obstruir ou contaminar o fluxo daquela corrente de água fresca. Aos poucos, o povoado começou a atrair a atenção dos turistas. Cisnes graciosos nadavam pela água cristalina. Rodas-d'água de várias empresas localizadas na região giravam dia e noite. As plantações eram naturalmente irrigadas, e a paisagem vista dos restaurantes tinha uma beleza indescritível.

Os anos foram passando. Certa noite, o conselho da cidade reuniu-se para o encontro semestral. Enquanto seus membros examinavam o orçamento, os olhos de um deles fixaram-se no salário pago ao humilde zelador da  fonte. O responsável pelas finanças perguntou:

- Quem é esse velho? Por que está sendo pago todos  esses anos? Ninguém o vê. Pelo que sabemos, esse estranho guarda da reserva florestal não tem nenhuma utilidade para nós. Ele não é mais necessário!

Por unanimidade, resolveram dispensar os serviços do homem idoso.

Nada mudou durante algumas semanas. No início do outono, as árvores começaram a perder as folhas. Pequenos galhos desprendiam-se e caíam nas piscinas formadas pelas nascentes, obstruindo o fluxo da água borbulhante. Certa tarde, alguém notou uma leve coloração marrom-amarelada na fonte. Dois dias depois, a água estava mais escura. Após uma semana, uma película de lodo cobria toda a superfície ao longo das margens, provocando mau cheiro. As rodas-d'água movimentavam-se com mais lentidão, e algumas chegaram a parar. Os cisnes abandonaram o local, e os turistas também. Houve um surto de enfermidades no povoado.

Constrangido, o conselho convocou rapidamente uma reunião extraordinária de emergência. Depois de reconhecer o erro grosseiro que haviam cometido, contrataram novamente o zelador da fonte... e, algumas semanas depois, as águas do autêntico rio da vida começaram a clarear. As rodas-d'água voltaram a funcionar e, mais uma vez, a vida nos Alpes retomou o seu curso.

Por mais fantasiosa que possa parecer, essa história é mais do que uma simples lenda. Ela contém uma relevante e clara analogia diretamente relacionada à época em que vivemos. Os cristãos representam para o nosso mundo o mesmo que o zelador da fonte para o povoado. Um leve sabor do sal misturado com raios de luz brilhantes e cheios de esperança podem parecer insignificantes e desnecessários..., mas Deus vem em socorro de qualquer sociedade que tente existir sem esses dois elementos! Veja, o povoado sem o Zelador da Fonte é uma representação perfeita do sistema mundial sem o sal e sem a luz.


 

UM HOMEM NÃO PODE FICAR SENTADO À TOA

Howard Hendricks com Chip MacGregor

Histórias Para o Coração 93

 

 

Larry Walters era motorista de caminhão, mas o sonho de sua vida era voar. Quando formou-se no II Grau, alistou-se na Força Aérea, mas não conseguiu seu intento por ter visão fraca para vôo.  Teve de contentar-se em ver outras pessoas pilotando os caças a jato que cruzavam os céus, sobrevoando seu quintal. Todos os dias, sentado em sua cadeira de preguiça no fim da tarde, ele sonhava com a mágica de voar.

Mas certo dia ele teve uma ideia. Dirigiu-se ao depósito de materiais excedentes da Aeronáutica de sua cidade e comprou um tanque de hélio e 45 balões atmosféricos. Voltou ao seu quintal e usou tiras para amarrar os balões à sua cadeira de balanço. Depois de tudo pronto, fez um pacote com sanduíches e refrigerantes e carregou uma arma, imaginando que poderia usa-la para estourar alguns balões quando chegasse o momento de aterrissar. Seu plano era subir devagar, flutuar lentamente por algum tempo e depois retornar à terra firme. Mas as coisas não funcionaram como ele havia planejado. Assim que cortou o fio que prendia seu “balão” ao jipe, ele não flutuou, mas projetou-se para cima como um tiro de canhão! Também não subiu algumas centenas de metros, mas em pouco tempo estava a mais de 3 mil metros de altitude. E ali não podia arriscar-se a estourar 1 único balão pois temia desequilibrar a carga e sair voando como uma bexiga esvaziando. Assim, resolveu ficar ali, flutuando até cair. Mas esse pequeno passeio durou 14 horas, sem que ele soubesse o que poderia fazer para descer.

Finalmente Larry foi levado pelo vento às proximidades do aeroporto internacional de LA. Um piloto da Pan-Am chamou a torre pelo rádio e informou que acabara de ver um sujeito sentada em uma cadeira preguiçosa a 3 mil metros, segurando uma arma no colo.

Quando escureceu Larry começou a voar em direção ao mar. Nessa altura, a Marinha já havia enviado um helicóptero para resgata-lo. Mas era difícil faze-lo pois o vento provocado pelas hélices afastava cada vez mais a engenhoca de Larry. Depois de muito trabalho, um bombeiro conseguiu descer do helicóptero até ele, e içados, resgata-lo.

Assim que pisou em terra firme, Larry foi preso. Enquanto estava sendo conduzido à prisão, algemado, um repórter de televisão perguntou:

- Sr. Walters, por que o senhor fez isso?

Larry parou, encarou o repórter e respondeu com indiferença:

- Um homem não pode ficar sentado à toa enquanto vê seu sonho passar e nada fazer para alcança-lo.

 


 

VAMOS, AGUENTEM FIRMES!

Howard Hendricks

Histórias Para o Coração 95

 

 

Há pouco tempo, perdi uma de minhas melhores amigas, uma professora secular de 86 anos, a pessoa mais cheia de entusiasmo que já conheci. A última vez que a vi no planeta Terra foi em uma daquelas festas cristãs desinteressantes. Estávamos sentados ali, com ar piedoso, quando ela chegou e disse:

- Hendricks! Faz tempo que não o vejo. Quais foram os cinco livros que você leu no ano passado?

Mary foi professora por toda a vida. Mas os que a conheceram testemunham que nunca viram alguém com tanto entusiasmo para viver. Depois de aposentada, quando convidada a ir àquelas festas nostálgicas tão desinteressantes, ela mudava o clima. Sua filosofia era:

- Não devemos ficar entediados um com o outro; devemos provocar uma discussão, e, se não encontrarmos nada para discutir, vamos procurar um motivo.

Geralmente perguntava às amigas mais íntimas:

- Colega, quais foram os 5 livros que você leu no ano passado?

Quando Mary fez sua última viagem à Terra Santa, estava com 83 anos. E foi acompanhando a delegação da Liga Nacional de Futebol profissional americano. E não se engane: durante os jogos, ela ficava nas arquibancadas, aos berros, gritando: Vamos, rapazes, aguentem firme! Ela morreu dormindo, aos 86 anos. A filha contou que, pouco antes de morrer, ela havia escrito numa caderneta seus objetivos para os 10 anos seguintes!


 

A BATALHA MAIS PRÓXIMA

Richard C. Halverson

Histórias Para o Coração 96

 

 

Você quer ser um vencedor? Concorra consigo mesmo, não com outras pessoas.

Vencer seu parceiro de xadrez não significa necessariamente que tenha sido o seu melhor jogo. Passar na frente de seu rival não significa que tenha sido a sua melhor corrida. Você pode vencer outra pessoa e, mesmo assim, não usar todo o seu potencial.

Tudo na vida é assim. Para ser o melhor, você precisa competir consigo mesmo. Essa é a maior competição da vida.

Um perdedor é vencedor - não importa quantas derrotas  ele teve - se vencer a si próprio.

Um vencedor é perdedor - não importa quantas vitórias ele teve se perder a batalha travada consigo mesmo. Alexandre, o Grande, conquistou o mundo e deplorou sua falta de autocontrole.

A vitória sobre os outros pode ser o verdadeiro motivo que contribui para que o vencedor perca a luta contra si mesmo. A vitória o deixa orgulhoso, arrogante, autossuficiente, descuidado e, às vezes, cruel.

Em outras palavras, não é o que acontece com você que faz a diferença,  mas a maneira como você lida com isso.

Aquele que pára de amadurecer espiritualmente por pensar que conhece mais a Bíblia que os outros ou por ter tido mais sucesso em seu ministério, está muito longe de ser aquilo que Cristo planejou para ele.

Se você tiver de se comparar a alguém, compare-se a Cristo. Permita que Ele modele sua vida em todo o seu potencial, de acordo com seus planos divinos.


 

MENTOR

Howard Hendricks com Chip McGregor

Histórias Para o Coração 97

 

 

Em 1919, um homem que se recuperava dos ferimentos sofridos na Grande Guerra da Europa alugou um pequeno apartamento em Chicago. Ele escolheu um local nas proximidades da casa de Sherwood Anderson, o autor famoso. Anderson havia escrito o aclamado romance Winesburg, Ohio e era conhecido por sua disposição em ajudar escritores mais jovens.

Os dois homens tornaram-se amigos e passaram a encontrar-se quase que diariamente durante dois anos. Faziam as refeições juntos, davam longas caminhadas e discutiam, até altas horas da noite, a arte de escrever bem. O rapaz sempre levava rascunhos de seu trabalho a Anderson, e o autor veterano reagia com críticas cruelmente honestas. Todavia, o rapaz nunca desanimou. Ele ouvia com atenção, fazia anotações e retornava à máquina de escrever para aperfeiçoar sua obra. Não tentava defender-se, porque, conforme comentou posteriormente: "Eu não sabia escrever até conhecer Sherwood Anderson." Uma das coisas que Anderson fez para ajudar seu jovem protegido foi apresentá-lo a seus colegas do mundo editorial. Em breve, o rapaz já estava escrevendo sem ajuda. Em 1926, ele publicou seu primeiro romance, que foi aclamado pela crítica. Seu título era The Sun Also Rises [O Sol Também se Levanta], e o nome do autor era Ernest Hemingway.

Mas esperem um pouco! A história não termina aqui. Depois que Hemingway partiu de Chicago, Anderson mudou-se para Nova Orleans. Lá, ele conheceu outro jovem escritor, um poeta com um desejo insaciável de aperfeiçoar seu talento. Anderson o fez passar pelos mesmos testes de Hemingway - escrever, criticar, discutir, incentivar - e escrever cada vez mais. Ele entregou exemplares de seus romances ao jovem e o incentivou a lê-los atentamente, observando as palavras, os temas e o desenvolvimento do personagem e da história. Um ano depois, Anderson ajudou o jovem a publicar seu primeiro romance, Soldier Pay [O Pagamento do Soldado].

Três anos depois, aquele brilhante novo talento, William Faulkner, escreveu The Sound and the Fury [O Som e a Fúria], que rapidamente se tornou uma obra-prima norte-americana.

O papel de Anderson como mentor de autores aspirantes não parou aí. Na Califórnia, ele passou vários anos trabalhando com o dramaturgo Thomas Wolfe e com um jovem chamado John Steinbeck, entre outros. Em resumo, três dos protegidos de Anderson ganharam o Prêmio Nobel de Literatura e quatro Prêmios Pulitzer na mesma categoria. O famoso crítico literário Malcolm Cowley disse que Anderson foi "o único escritor de sua geração que deixou sua marca no estilo e na visão da geração seguinte".

Por que Anderson dedicou seu tempo e conhecimentos com tanta generosidade para ajudar os mais jovens? Entre outros motivos, talvez porque tivesse recebido a influência de um autor mais velho, o grande Theodore Dreiser. Também passou um bom tempo ao lado de Carl Sandburg.

Considero instrutivo esse tipo de comportamento. Além de refletir minha própria experiência, ele também ilustra o princípio fundamental da experiência humana: a melhor maneira de causar impacto no futuro é ajudar a construir a vida de outra pessoa. Isso é que é ser um mentor.


 

SUCESSO

RECONTADA POR ALICE GRAY

Histórias Para o Coração 99

 

 

Madre Teresa participou de reuniões com reis, presidentes e chefes de Estado do mundo inteiro. Eles compareciam usando coroas, joias e roupas de seda, enquanto Madre Teresa usava seu tradicional sári, preso por um alfinete de segurança.

Um nobre conversou com ela a respeito de seu trabalho com a camada mais pobre da população de Calcutá. Ele perguntou se ela não se sentia desanimada ao ver tão pouco sucesso em seu ministério.

Madre Teresa respondeu:

- Não, eu não me sinto desanimada. Veja, Deus não me chamou para um ministério de sucesso. Ele me chamou para um ministério de misericórdia.

 

 


 

O GUARDA-CHUVA VERMELHO

por Tania Gray

Histórias Para o Coração 100

 

 

A seca parecia não ter fim, e uma pequena comunidade de fazendeiros do meio-oeste estava em dúvida sobre o que fazer. A chuva era importante não apenas para manter a plantação viçosa, mas também para prover meios de subsistência para os habitantes da cidade. Quando o problema se tornou mais urgente, a igreja local achou que era tempo de envolver-se e planejou uma reunião de oração para pedir chuva.

Como nos antigos rituais dos indígenas norte-americanos, as pessoas começaram a chegar à igreja. Em breve, o pastor também chegou e observou sua congregação afluindo ao local. Ele foi passando lentamente de grupo em grupo, enquanto se dirigia ao púlpito para iniciar oficialmente a reunião. Todas as pessoas que ele encontrou estavam conversando, apreciando a oportunidade de rever os amigos. Quando o pastor postou-se diante de seu rebanho, sua prioridade era silenciar o povo e dar início à reunião.

Assim que começou a pedir silêncio, ele observou uma menina de 11 anos sentada na primeira fileira. Seu rosto angelical brilhava de alegria e, a seu lado, havia um lindo guarda-chuva vermelho, pronto para ser usado. A beleza e a inocência dessa cena fizeram o pastor sorrir para si mesmo quando ele se deu conta da fé daquela menina, uma fé que o restante das pessoas parecia ter esquecido. Todos haviam comparecido para orar pedindo chuva... ela, para presenciar a resposta de Deus.

 


 

SÓ É NECESSÁRIO UM POUCO DE MOTIVAÇÃO

Zig Ziglar

Histórias Para o Coração 101

 

 

Gosto muito de uma história que o falecido Dr. Ken McFarland gostava de contar. Um homem, que trabalhava das 16 horas até a meia-noite, costumava ir a pé para casa após o expediente. Certa noite, a Lua estava tão clara que ele resolveu cortar caminho pelo cemitério, poupando-se de uma volta de uns 800 metros. Como não houve nenhum incidente, ele passou a fazer isso regularmente, sempre seguindo o mesmo caminho. Uma noite, enquanto atravessava o cemitério, ele não percebeu uma cova que havia sido aberta durante o dia e caiu dentro dela. Imediatamente, ele começou a fazer um esforço desesperado para sair dali. Suas tentativas fracassaram e, depois de alguns minutos, ele decidiu relaxar e aguardar até o dia amanhecer para que alguém o ajudasse a sair.

Ele sentou-se em um canto e estava quase adormecendo quando um bêbado também caiu dentro da cova. Sua chegada despertou o trabalhador, porque o bêbado tentava desesperadamente sair, agarrando-se nas laterais da cova. Nosso herói esticou o braço, tocou a perna do bêbado e disse:

- Amigo, você não pode sair daqui...

Mas o bêbado saiu! -

Isso é que é motivação!


 

UMA AUTOBIOGRAFIA EM CINCO PARÁGRAFOS CURTOS

Portia Nelson

Histórias Para o Coração 102

 

 

1.

Eu caminho pela rua. Há um buraco muito fundo na calçada.

Caio dentro dele. Estou perdida. Fico desesperada. A culpa não foi minha. Vai demorar uma eternidade para eu sair daqui.

 

2.

Eu caminho pela rua. Há um buraco muito fundo na calçada.

Finjo que não o vejo. Caio dentro dele. Não posso acreditar que caí no mesmo buraco, mas a culpa não é minha. Vai demorar muito para eu sair daqui.

 

3.

Eu caminho pela rua. Há um buraco muito fundo na calçada.

Eu o vejo. Mesmo assim, caio dentro dele. É um hábito. Meus olhos estão abertos. Eu sei onde estou. A culpa é minha. Saio imediatamente.

 

4.

Eu caminho pela rua. Há um buraco muito fundo na calçada.

Eu passo ao redor dele.

 

5.

Eu caminho por outra rua.


 

NÃO DESANIME...

Alice Gray

Histórias Para o Coração 103

 

 

Um jovem caminhava por uma estrada deserta quando ouviu um som semelhante a um gemido. Ele não sabia ao certo que ruído era aquele, mas parecia vir de algum lugar embaixo da ponte. Conforme ele ia se aproximando dela, o som ficava mais forte.

Foi então que ele viu uma cena comovente. Deitado no leito do rio lamacento estava um cachorrinho de cerca de dois meses de idade. Ele tinha um ferimento na cabeça e o corpo coberto de lama. As patinhas da frente estavam amarradas com uma corda e inchadas.

Imediatamente, o jovem foi tomado de compaixão e dispôs-se a ajudar o cachorrinho, mas, quando ele se aproximou, o gemido cessou e o animal arreganhou os dentes e começou a rosnar. O jovem, porém, não desanimou. Abaixou-se e passou a conversar carinhosamente com o animalzinho. Depois de um certo tempo, o cachorrinho parou de rosnar e o jovem pôde aproximar-se mais um pouco, até tocá-Io e começar a desamarrar a corda. O jovem levou o cachorrinho para casa, cuidou de seus ferimentos, deu-lhe comida e água e um lugar quentinho para dormir. Mesmo depois de tudo isso, o cachorro continuava a arreganhar os dentes e a rosnar todas as vezes que o jovem se aproximava. Ele, contudo, não desanimou.

Semanas depois, ele continuava cuidando do cachorrinho até que, um dia, ao ver o jovem aproximar-se, o animal abanou a cauda.

O amor e a bondade persistentes venceram, dando início a uma longa amizade baseada em lealdade e confiança.


 

O HEAD HUNTER"

Josh McDowell

Histórias Para o Coração 105

 

 

Um "head hunter", pessoa especializada em contratar executivos para empresas, contou-me o seguinte:

- Quando descubro um executivo para uma organização, gosto de deixá-la desarmado. Ofereço um drinque, tiro o paletó e o colete, afrouxo o nó da gravata, coloco os pés em cima da mesa e falo sobre beisebol, futebol, família ou qualquer outro assunto, até que ele se sinta à vontade. Quando percebo que ele está descontraído, debruço-me sobre a mesa, olho firme dentro de seus olhos e pergunto:

"Qual é seu objetivo na vida?" É impressionante ver como os executivos de alto nível se intimidam diante dessa pergunta. Um dia, durante uma entrevista com um candidato, procedi de maneira semelhante: coloquei os pés em cima da mesa e falei sobre futebol.

Em seguida, coloquei os cotovelos na mesa e perguntei: "Qual é seu objetivo na vida, Bob?" E ele respondeu, sem pestanejar:

"Ir para o céu e levar comigo o maior número de pessoas que puder." Pela primeira vez em minha carreira eu fiquei sem saber o que dizer.


 

SE EU PUDESSE RECOMEÇAR MINHA VIDA

Irmão Jeremiah

Histórias Para o Coração 106

 

 

Se eu pudesse recomeçar minha vida, tentaria cometer mais erros. Encontraria tempo para relaxar. Seria mais transigente.

Seria mais tolo do que tenho sido. Levaria poucas coisas a sério.

Viajaria mais. Escalaria mais montanhas, nadaria mais e contemplaria mais crepúsculos. Faria mais caminhadas e observaria a natureza.

Tomaria mais sorvetes e comeria menos feijão. Teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. Sou uma daquelas pessoas que vive de maneira regrada, sensata e racional, hora após hora, dia após dia. Oh, já tive bons momentos; e, se eu recomeçasse minha vida, teria muitos outros. Na verdade, eu não tentaria ter mais nada. Apenas viveria um momento após o outro, em vez de viver diariamente os anos seguintes. Sou aquele tipo de pessoa que não sai de casa sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um antisséptico bucal, uma aspirina, uma capa e um guarda-chuva.

Se eu tivesse de começar de novo, passearia bastante, faria muitas coisas e levaria a vida de maneira mais amena.

Se eu tivesse de recomeçar minha vida, rodaria mais vezes no carrossel - colheria mais margaridas.


 

CARTA A UM TREINADOR

Pai de um atleta

Histórias Para o Coração 109

 

 

Prezado treinador, Acabei de ler sua carta dirigida a meu filho e a nós (os pais) sobre as esperanças que você deposita nos atletas sob seu comando. A mãe de Johnny e eu concordamos plenamente porque reconhecemos os benefícios provenientes das práticas esportivas realizadas no ensino médio.

Seu currículo deixa claro que você é um ótimo treinador. Isso é muito importante.

Existe outra fase referente ao treinamento, acredito eu, que é mais importante ainda. Permita-me explicar o que quero dizer.

Treinador, a mãe de John e eu estamos lhe entregando nosso bem mais valioso para ser treinado por várias semanas. Durante esse período e ao longo dos próximos quatro anos, nosso filho vai torná-lo o tema número uma das conversas aqui em casa. Ele vai contar que você poderia ter vencido os Packers se não tivesse machucado o joelho em 1965. Vai contar sobre a sua emoção ao contar que veio de um time pequeno e que venceu o Rivaltown. Vamos ouvi-lo dizer que você ainda sabe jogar futebol americano. Enquanto estivermos ouvindo tudo isso, os olhos de nosso filho estarão brilhando.

Treinador, você é um ídolo para ele.

Não temos mais muitos heróis. Joe Willie já não é mais o mesmo!

Muitos profissionais venderiam a alma para marcar um ponto.

Alguns atletas da faculdade foram notícia este ano de maneira muito negativa. Todos sabem que os atletas da faculdade não são ladrões, ou coisa assim, mas é isso que ouvimos falar.

Você é o herói de nosso filho. Confiamos em você. Os músculos dele estão praticamente desenvolvidos, mas sua mente ainda é frágil e fácil de ser manipulada. Sua responsabilidade é grande. Incuta coisas boas na cabeça dele, treinador. Aos poucos!

ARMAS OU SEMENTES

Richard C. Halverson

Histórias Para o Coração 112

 

 

Você pode apresentar suas ideias a outros como armas ou sementes.

Você pode dispará-Ias ou plantá-Ias; pode ferir a cabeça das pessoas com elas ou plantá-Ias em seus corações.

Ideias usadas como armas matam a inspiração e neutralizam a motivação. Usadas como sementes, criam raízes, desenvolvem-se e tornam-se realidade na vida das pessoas nas quais foram plantadas.

O único risco da semente é este: assim que ela crescer e tornar-se parte da pessoa na qual foi plantada, você provavelmente não terá nenhum mérito por ter sido o autor da ideia. Mas se você estiver disposto a fazer isso sem receber mérito... terá uma colheita abundante.


 

ROSAS NA LAPELA

Max Lucado

Histórias Para o Coração 115

 

 

John Blanchard levantou-se do banco, ajeitou o uniforme do Exército e observou a multidão que tentava abrir caminho na Estação Ferroviária Central de Nova York. Procurou avistar a moça cujo coração ele conhecia, mas não o rosto - a moça com a rosa.

Seu interesse por ela começara 13 anos antes, em uma biblioteca da Flórida. Ao retirar um livro da estante, ele ficou intrigado, não com as palavras impressas, mas com as anotações escritas à mão na margem. A letra delicada indicava ser a de uma pessoa ponderada e sensível. Na primeira página do livro, ele descobriu o nome da proprietária anterior: Srta. Hollis Maynell.

Depois de algum tempo e de várias tentativas, conseguiu localizar o endereço dela. Morava em Nova York. Escreveu-lhe uma carta apresentando-se e propondo uma troca de correspondência. No dia seguinte, ele foi convocado para servir em uma base do outro lado do oceano. Era a Segunda Guerra Mundial. Durante os 13 meses seguintes, os dois passaram a se conhecer por correspondência.

Cada carta era uma semente caindo em um coração fértil. Florescia um romance.

Blanchard pediu uma fotografia, mas ela recusou-se a enviá-Ia.

Achava que, se ele realmente gostasse dela, não haveria necessidade de fotografia.

Quando ele retornou da Europa, marcaram o primeiro encontro às 19 horas na Estação Ferroviária Central de Nova York.

"Você me reconhecerá", ela escreveu, "pela rosa que estarei usando na lapela." Assim, às 19 horas, Blanchard estava na estação à espera da moça cujo coração ele amava, mas cujo rosto nunca vira.

Deixemos que o próprio Blanchard conte o que aconteceu.

Em minha direção vinha uma jovem alta e esbelta. Seus cabelos loiros encaracolados caíam pelos ombros, deixando à mostra delicadas orelhas; os olhos eram azuis da cor do céu. Os lábios e o queixo tinham uma firmeza suave; trajando um costume verde-claro, parecia a própria chegada da primavera. Comecei a caminhar em sua direção sem notar que não havia rosa em sua lapela.

Quando me aproximei, um sorriso leve e provocante brotou-lhe nos lábios.

- Gostaria de me acompanhar, marujo? - ela murmurou.

De maneira quase incontrolável, dei um passo em sua direção, e foi então que avistei Hollis Maynell.

Ela estava em pé atrás da jovem. Aparentava bem mais de 40 anos, e seus cabelos, presos sob um chapéu surrado, deixavam entrever alguns fios brancos. Seu corpo era roliço, tinha tornozelos grossos e usava sapatos de salto baixo. A moça de costume verde-claro distanciava-se rapidamente. Senti-me dividido, desejando ardentemente seguí-Ia, mas, ao mesmo tempo, profundamente interessado em conhecer a mulher cujo entusiasmo me acompanhara e me sustentara.

E lá estava ela. Seu rosto redondo e pálido estampava delicadeza e sensibilidade; os olhos cinzentos irradiavam meiguice e bondade.

Não hesitei. Peguei o pequeno livro azul, de capa de couro, para me identificar. Não seria um caso de amor, mas poderia ser algo precioso, algo talvez melhor que amor" uma amizade pela qual eu era e seria eternamente grato.

Endireitei os ombros, cumprimentei e entreguei o livro à mulher, apesar de sentir-me sufocado pela amargura de meu desapontamento enquanto lhe dirigia a palavra.

- Sou o tenente John Blanchard, e você deve ser a Srta. Maynell.

Estou satisfeito por você ter vindo encontrar-me. Aceita um convite para jantar?

No rosto da mulher surgiu um sorriso largo e bondoso.

- Não sei do que se trata, filho - ela respondeu -, mas a jovem de costume verde, que acabou de passar por aqui, pediu-me que usasse esta rosa na lapela. Instruiu-me também que, se você me convidasse para jantar, eu deveria dizer que ela está à sua espera no restaurante do outro lado da rua. Ela me contou que se tratava de uma espécie de teste! Não é difícil compreender e admirar a sabedoria da Srta. Maynell...


 

REFLEXÕES

Charles R. Swindoll

Histórias Para o Coração 118

 

 

Aconteceu na semana passada. Depois que todos da família se recolheram a seus quartos, coloquei um pouco mais de lenha na lareira, sentei-me em minha cadeira favorita e li por mais de uma hora. No decorrer da leitura, encontrei alguns pensamentos compilados por Ed Dayton, um antigo líder do ministério Visão Mundial. Suas palavras fizeram-me retroceder muitos anos no tempo, quando ele mencionou ter assistido a um filme de curta-metragem chamado The Giving Tree [A Árvore Generosa], uma história simples e fantasiosa sobre uma árvore que amava um garoto.

Quando era pequeno, o garoto balançava-se em seus galhos, subia nela, comia suas maçãs e dormia à sua sombra. Eram tempos felizes e sem preocupações. A árvore gostava muito dessa época.

Porém, à medida que foi crescendo, o garoto passava cada vez menos tempo com a árvore.

- Vamos brincar - convidou a árvore um dia, mas o rapaz estava interessado apenas em dinheiro. - Apanhe minhas maçãs e venda-as.

a rapaz aceitou a sugestão, e a árvore ficou feliz.

Ele ficou muito tempo sem aparecer, mas, no dia em que retornou, a árvore sorriu.

- Vamos brincar - ela disse, mas o jovem tornara-se adulto e estava cansado deste mundo. Queria sumir.

- Derrube-me ao chão - prosseguiu a árvore. - Pegue meu tronco e faça um barco para você e navegue com ele.

O homem aceitou a sugestão, e a árvore ficou feliz.

Muitos anos se passaram - verões e invernos, dias de vento e noites solitárias - e a árvore continuou esperando. Finalmente, o homem retornou, velho e cansado demais para brincar, para sair em busca de riqueza, para navegar os mares.

- Fui cortada, mas ainda sobrou um toco, meu amigo. Que tal sentar-se aqui e descansar? - disse a árvore.

O velho aceitou a sugestão, e a árvore ficou feliz.

Com os olhos fixos no fogo, eu fiz uma retrospectiva de minha vida, comparando-a com a da árvore e a daquele menino. Identifiquei-me com ambos - e me entristeci.

Quantas árvores generosas eu tive na vida? Quantas me deram parte delas para que eu crescesse, alcançasse meus objetivos, fosse um homem realizado, encontrasse satisfação? Muitas, muitas mesmo. Obrigado, Senhor, por todas elas. Seus nomes não caberiam nesta folha de papel.

O fogo extinguiu-se, e a lenha transformou-se em carvão incandescente. Já era tarde da noite quando me deitei. Eu havia chorado, mas agora sorria.

- Boa-noite, Senhor - eu disse.

Eu era um homem agradecido. Agradecido por ter tido tempo de refletir.


 

O PEQUENO PRESENTE

Morris Chalfant

Histórias Para o Coração 120

 

 

O Rev. Chalfant conta a história de um casal que estava comemorando bodas de ouro. Alguém perguntou ao marido qual era o segredo do sucesso de seu casamento. Como as pessoas mais idosas costumam fazer, o marido respondeu à pergunta com uma história.

Sua esposa, Sarah, foi sua única namorada. Ele cresceu em um orfanato e trabalhou muito para conquistar o que desejava.

Nunca teve tempo para namorar até o dia em que conheceu Sarah.

Antes que o jovem pudesse refletir, Sarah fez com que ele a pedisse em casamento.

Depois das promessas feitas no dia da cerimônia nupcial, o pai de Sara chamou o noivo de lado e entregou-lhe um pequeno presente, dizendo:

- Dentro deste presente, está tudo o que você necessita saber para ser feliz no casamento.

Nervoso, o jovem noivo rasgou a fita e o papel para abrir o presente.

Dentro da caixa, havia um grande relógio de ouro. Ele o pegou com cuidado... Depois de examiná-lo atentamente, ele viu no mostrador uma frase que leria, obrigatoriamente, todas as vezes que quisesse saber as horas... palavras que continham o segredo de um casamento feliz: "Diga alguma coisa bonita a Sarah."


 

POR MINHA IRMÃ

Histórias Para o Coração 121

 

 

Esta é uma história verdadeira de um menino cuja irmã necessitava de uma transfusão de sangue. O médico informou à família que a menina tinha a mesma doença da qual o menino se recuperara dois anos antes. Sua única chance de cura seria por meio da transfusão de sangue de alguém que já houvesse contraído aquela doença. Como os dois irmãos tinham o mesmo tipo raro de sangue, o menino seria o doador ideal.

- Você concorda em doar seu sangue a Mary? - perguntou o médico.

Johnny hesitou. Seu lábio inferior começou a tremer. Em seguida, ele sorriu e disse:

- Claro, por minha irmã.

Os dois irmãos foram conduzidos a uma sala do hospital. Mary, pálida e magra. Johnny, robusto e sadio. Nenhum dos dois falou, mas, quando seus olhos se encontraram, Johnny sorriu para a irmã.

Quando a enfermeira picou o braço de Johnny com a agulha, o sorriso desapareceu. Ele viu o sangue passando pelo tubo.

No momento em que a transfusão estava quase terminando, a voz de Johnny, levemente trêmula, quebrou o silêncio: - Doutor, quando vou morrer?

Foi então que o médico entendeu por que Johnny havia hesitado, por que seu lábio tremera quando concordou em doar seu sangue.

Ele pensou que doar sangue à irmã o levaria à morte. Naquele breve momento, ele havia tomado uma grande decisão.


 

ENTREGA POSTERIOR

Cathy Miller

Histórias Para o Coração 122

 

 

O inverno nunca havia sido tão rigoroso. Do aconchego de sua poltrona, Stella observava a violenta precipitação dos flocos de neve açoitados pelo vento. Ela receava ficar perto da janela, com um temor injustificado de que a nevasca pudesse atingi-Ia, cortar-lhe a respiração, atraí-Ia para fora, para o caos. As casas do outro lado da rua estavam quase ocultas pela fúria arrebatadora dos flocos de neve. Com um gesto distraído, a anciã alisou a capa que cobria os braços da poltrona, sem tirar os olhos do espetáculo que se desenrolava do outro lado da vidraça.

Quando conseguiu desviar o olhar da cena, levantou-se com muito esforço da poltrona e aguardou alguns instantes para equilibrar-se e firmar os pés no chão. Endireitando as costas e vencendo a dor que ameaçava deixá-Ia com o corpo curvado para a frente, ela dirigiu-se com determinação para a cozinha.

Ao chegar à porta da sala contígua, ela parou, incapaz de lembrar-se do motivo que a conduzira até ali. O vento sibilante ameaçava atravessar o cano da chaminé acima do fogão e entrar na pequenina casa. Stella fixou os olhos castanhos no relógio na prateleira acima do fogão. A hora - 15h15 - a fez lembrar-se de que se dirigira à cozinha para retirar alguma coisa do freezer para preparar uma sopa. Outra refeição solitária que ela não tinha vontade nenhuma de preparar e, muito menos, saborear.

De repente, ela segurou a maçaneta da porta da geladeira e encostou a testa naquela superfície branca e fria, enquanto uma onda de auto piedade ameaçava subjugá-la. A perda de seu querido Dave naquele verão causava-lhe um sofrimento grande demais, difícil de aguentar. Como poderia suportar aquela angústia, aquele vazio do dia-a-dia? Sua garganta começou a doer, e ela fechou os olhos com força para conter as lágrimas.

Stella forçou-se a endireitar o corpo e sacudiu a cabeça em atitude de autopunição. Repetiu sua lista de agradecimentos. Tinha saúde, uma casa pequenina e renda suficiente para viver o restante de seus dias. Tinha livros, assistia à TV, fazia trabalhos manuais.

Gostava de cuidar do jardim na primavera e no verão, caminhar pelo parque deserto no final da rua e contemplar, da janela da cozinha, os pássaros do inverno ajuntando-se ao redor do comedouro. Mas hoje tudo está triste, ela pensou pesarosa, enquanto a nevasca batia na parede da cozinha, no lado leste da casa.

- Ah, Dave, que falta você me faz! Eu nunca fiz caso das tempestades quando você estava aqui.

O som de sua voz provocou um eco na cozinha. Ela ligou o rádio que estava no balcão ao lado de uma fileira de caixas de madeira muito bem alinhadas, começando com as mais altas e terminando com as mais baixas. Um coral de alegres músicas natalinas subitamente tomou conta da cozinha, mas aquilo só serviu para aumentar sua solidão.

Stella havia-se preparado para a morte do marido. A partir do momento em que o médico diagnosticou câncer terminal, ambos tiveram de enfrentar a luta inevitável para passarem juntos a maior parte do tempo que lhes restava. Dave sempre manteve suas finanças em ordem. Stella não tinha problemas dessa natureza na viuvez. Havia apenas aquela terrível solidão... dias sem nenhum propósito.

Eles não tiveram filhos por opção. A vida lhes deu satisfação e conforto. Ambos se contentavam com suas carreiras agitadas e viviam felizes um com o outro.

Tiveram muitos amigos. Tiveram. Essa palavra era bem apropriada para o momento atual. É muito difícil perder a pessoa que amamos de todo o coração. Mas, ao longo dos anos, ela e Dave precisaram enfrentar, reiteradas vezes, a morte de amigos e conhecidos. Todos eles tinham mais ou menos a mesma idade - aquela idade em que o corpo humano começa a desistir de tudo, morrer. Mas era necessário enfrentar - eles eram velhos!

E agora, no primeiro Natal sem Dave, Stella estava sozinha.

Mabel e Jim a convidaram para passar os feriados natalinos com eles na Flórida, mas viajar seria pior que ficar sozinha em casa.

Além de sentir falta do marido, ela também sentiria falta da neve, do inverno e do aconchego de seu lar.

Com os dedos trêmulos, ela abaixou o volume do rádio para ouvir a música bem baixinho. Olhou para a geladeira rapidamente e decidiu que um prato de sopa quente seria uma refeição reconfortante naquela noite.

Para sua surpresa, Stella viu que o carteiro havia deixado correspondência em sua casa. Ela não ouvira o barulho das cartas sendo colocadas por debaixo da porta. Pobre carteiro, andando na rua sob esta neve! "Não há neve, nem tempestade que..." Com um inevitável estremecimento de dor, ela curvou-se para pegar os envelopes brancos e úmidos do chão. Entrou na sala de estar e sentou-se na banqueta do piano para abri-los. Eram, na maioria, cartões de Natal, e seus olhos sorriram tristemente diante da familiaridade das paisagens tradicionais e das mensagens cheias de amor. Com os dedos doloridos pela artrite, ela os arrumou cuidadosamente ao lado dos outros em cima do piano. Os cartões eram as únicas decorações de Natal da casa. Faltava apenas uma semana, mas ela não tinha ânimo para montar uma árvore simples nem o presépio que Dave confeccionara com as próprias mãos.

De repente, mergulhada naquela solidão, Stella cobriu o rosto enrugado com as mãos, apoiou os cotovelos nas teclas do piano, provocando um som forte e desafinado, e deixou que as lágrimas corressem livremente. Como seria possível atravessar o Natal e o inverno inteiro? Seu desejo era deitar-se na cama e cobrir-se com uma pilha de cobertores, e só sair de lá quando a primavera e seus amigos retornassem.

A campainha da porta tocou forte, abafando o som desafinado do piano. O toque foi tão inesperado que Stella teve de sufocar um grito de surpresa. Quem poderia ter tido a ideia de visitá-Ia em um dia como aquele? Enxugando as lágrimas, ela percebeu pela primeira vez quanto a sala estava escura. A campainha tocou de novo.

Usando o piano para equilibrar-se, ela se levantou e dirigiu-se para a porta de entrada, acendendo a luz da sala de estar. Abriu a porta de madeira e olhou, cheia de compaixão, pela tela da porta de proteção contra tempestades. Na varanda, açoitado pelo vento e pela neve, estava um jovem desconhecido, cuja cabeça descoberta mal podia ser vista por causa do grande pacote que ele carregava nos braços. Ela desviou o olhar para a rua, mas só avistou um pequeno carro, que não lhe deu nenhuma pista sobre a identidade do desconhecido. Voltando a olhar para o jovem, Stella notou que as mãos dele estavam sem luvas, e as sobrancelhas erguidas, com um ar esperançoso que começou a desaparecer por causa da neve que se formava no vidro. Reunindo coragem, a anciã abriu uma fresta da porta, e ele afastou o rosto do pacote para falar com ela.

- Sra. Thornhope?

Ela fez um movimento afirmativo com a cabeça. Seu braço começava a tremer de frio e pelo esforço de manter a porta aberta contra o vento. Ele prosseguiu, dizendo o que ela já esperava:

- Trago uma encomenda para a senhora.

A curiosidade afastou o receio instalado em sua mente. Ela abriu mais a porta, o suficiente para o desconhecido passar, e recuou um pouco para dar-lhe espaço. Ele entrou trazendo consigo uma rajada de vento gelado. Sorrindo, colocou cuidadosamente a encomenda no chão e pegou um envelope do bolso. Enquanto ele lhe entregava o envelope, um som partiu de dentro da caixa. Stella deu um salto.

O jovem riu desculpando-se e curvou-se para levantar as abas da tampa da caixa e segurou-as para que Stella pudesse olhar dentro.

Ela aproximou-se cautelosamente e olhou para baixo.

Era um cão! Para ser mais exato, um pequenino cão de pêlos dourados, da raça Labrador. O jovem segurou o trêmulo cãozinho nos braços e explicou:

- Ele é seu, senhora. Tem seis semanas de idade e é um cão doméstico.

O cãozinho abanou a cauda, feliz por ter sido libertado do cativeiro, e começou a lamber o rosto de seu benfeitor.

- Tínhamos a intenção de entregá-lo na véspera de Natal - ele prosseguiu com um pouco de dificuldade, tentando desviar o rosto das lambidas do cãozinho -, mas hoje é o último dia de expediente no canil. Espero que a senhora não se importe por ter recebido o presente antecipadamente.

Estarrecida e sem poder raciocinar com clareza, incapaz de formar frases coerentes, ela gaguejou:

- Mas... eu não... isto é... quem...?

O jovem colocou o animal no capacho entre eles e apontou para o envelope que ela continuava a segurar.

- Há uma carta aí dentro explicando tudo, e muito mais. O cão foi comprado em julho, quando a mãe dele ainda estava prenhe, para ser oferecido como presente de Natal. Se a senhora puder aguardar um instante, vou buscar mais algumas coisas que deixei no carro.

Antes que Stella pudesse dizer alguma coisa, ele já havia partido, retornando momentos depois com uma caixa enorme de alimentos para cães, uma correia e um livro intitulado Como Cuidar de Seu Cão Labrador. O cãozinho ficou o tempo todo sentado aos pés de Stella, fungando feliz e olhando para ela com seus olhos castanhos.

O jovem já se preparava para ir embora. Palavras aflitas brotaram dos lábios dela:

- Mas quem... comprou este cãozinho?

Parado na porta entreaberta, ele deu a resposta que quase foi levada pelo vento, que despenteava seus cabelos:

- Seu marido, minha senhora.

E desapareceu de vista.

 

Acarta explicava tudo. Esquecendo-se completamente do cãozinho aí:> ver aquela grafia tão familiar, Stella caminhou como uma sonâmbula até sua poltrona perto da janela. Sem se dar conta de que o cãozinho a havia seguido, ela forçou os olhos rasos de água a lerem a carta do marido. Ele a escrevera três meses antes de morrer e a deixara com os proprietários do canil para que fosse entregue posteriormente com o cão. Na carta, ele dizia que aguardava com ansiedade o dia em que ambos voltariam a ficar juntos. Era seu último presente de Natal para ela. A carta continha palavras de amor, incentivo e conselhos para que ela fosse forte. E ele havia enviado aquele animal para fazer-lhe companhia.

Lembrando-se do cãozinho pela primeira vez, ela surpreendeu-se ao vê-lo sentado e olhando para ela, com uma espécie de sorriso cômico na boca. Stella pôs as páginas de lado e estendeu a mão para pegar aquele animalzinho de pêlos dourados. Havia imaginado que ele era mais pesado, mas tinha o peso e tamanho da almofada do sofá. Ela o segurou nos braços, e ele lambeu-lhe o queixo; depois, aninhou-se perto do pescoço dela. As lágrimas voltaram a correr diante dessa troca de afeto, e o cão ouviu o choro sem se mexer.

Finalmente, Stella o colocou no colo e olhou para ele solenemente.

Ela enxugou as lágrimas e tentou sorrir.

- Bem, criaturinha, aqui estamos, você e eu.

Com a língua rosada de fora, o cachorrinho fungou concordando.

O sorriso de Stella tornou-se mais radiante, e ela desviou o olhar para a janela. Era hora do crepúsculo, e a nevasca parecia ter abrandado. Através dos flocos de neve que agora caíam com mais suavidade, ela avistou as lâmpadas de Natal que enfeitavam as beiras dos telhados das casas vizinhas. Os acordes da música "Alegria do Mundo" ecoavam da cozinha.

De repente, Stella foi tomada por uma enorme sensação de bênção e de paz, como se estivesse recebendo um abraço carinhoso.

Seu coração batia penosamente, mas de alegria e de surpresa, não de sofrimento ou de solidão. Ela nunca mais se sentiria sozinha.

Voltando a atenção para o cão, ela lhe disse:

- Sabe de uma coisa, meu amiguinho? Tenho uma caixa no porão de que você vai gostar muito. Dentro dela, há uma árvore e alguns enfeites e luzes que vão deixar você encantado! E acho que aquele antigo presépio também está lá. Vamos procurá-los? O cachorrinho latiu feliz, como se tivesse entendido cada palavra.


 

NAS TRINCHEIRAS

Stu Weber

Histórias Para o Coração 129

 

 

Você já deve ter ouvido a comovente história sobre a grande amizade entre dois soldados nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Dois colegas serviam juntos em meio à miséria de um deplorável campo de batalha na Europa. (Há uma versão que identifica os dois como irmãos.) Eles passaram meses nas trincheiras, no frio e na lama, sob o tiroteio dos inimigos e o comando de seus superiores.

De tempos em tempos, uma das tropas inimigas investia contra a outra e retornava às suas trincheiras para cuidar de seus ferimentos, enterrar seus mortos e aguardar o momento de repetir o ataque.

Durante esse período, muitas amizades tiveram início em meio à desgraça. Dois soldados tornaram-se amigos íntimos. Dia após dia, noite após noite, medo após medo, eles conversavam sobre a vida, a família, a esperança ou sobre o que fariam quando (e se) conseguissem sair do horror daquela guerra.

Em uma daquelas investidas infrutíferas, "Jim" tombou gravemente ferido. Seu amigo Bill conseguiu retornar à relativa segurança das trincheiras. Jim ficou estendido no chão sob os clarões das explosões noturnas. Entre as trincheiras. Sozinho.

O tiroteio continuava. O perigo havia atingido seu ponto máximo.

Aquele lugar entre as trincheiras era o mais perigoso de todos. Mesmo assim, Bill queria ficar perto de seu amigo, consolá-lo, animá-lo como só os amigos sabem fazer. O oficial encarregado não permitiu que Bill saísse da trincheira. Era perigoso demais. Porém, assim que o oficial virou as costas, Bill saiu da trincheira. Sem importar-se com o cheiro de pólvora no ar, os abalos provocados pelos tiroteios e as batidas fortes de seu coração, Bill chegou ao local onde Jim estava.

Algum tempo depois, ele conseguiu levar Jim de volta para a segurança das trincheiras. Tarde demais. O amigo estava morto. Ao ver o corpo de Jim, o oficial perguntou com ar de cinismo a Bill se "valeu a pena". Bill respondeu sem hesitação:

- Sim, senhor, valeu. As últimas palavras de meu amigo valeram a pena. Ele olhou para mim e disse: "Eu sabia que você viria".


 

A FOTOGRAFIA AMASSADA

Philip Yancey

Histórias Para o Coração 131

 

 

Em um feriado, fui visitar minha mãe, que mora a uns 1.200 quilômetros de minha casa. Lembramo-nos dos tempos antigos, como as mães e os filhos costumam fazer. Inevitavelmente, a velha caixa de fotografias foi retirada do armário, deixando à mostra uma pilha de retratos, registros de uma série de acontecimentos de minha infância e adolescência: fantasias de cowboys e de índios, traje de Coelho Pernalonga da peça do curso primário, meus animais de estimação, vários recitais de piano e formaturas do curso primário, secundário e da faculdade.

Entre essas fotografias, encontrei a de um bebê, com meu nome escrito no verso. Era um retrato comum. Eu era parecido com qualquer outro bebê: bochechas redondas, pouco cabelo e olhar desfocado e arredio. A fotografia, porém, estava amassada e mutilada, como se tivesse sido mordida por um animal doméstico. Perguntei à minha mãe por que ela guardava uma fotografia naquele estado, uma vez que havia muitas outras intactas.

Existe um pormenor a respeito de minha família que você precisa saber: quando eu tinha dez meses de idade, meu pai contraiu poliomielite na região lombar da coluna vertebral. Ele morreu três meses depois, logo após meu primeiro aniversário. Ele ficou totalmente paralisado aos 24 anos, com os músculos tão fracos a ponto de precisar viver dentro de um enorme cilindro de aço, que lhe permitia respirar artificialmente. Recebia poucas visitas. Na década de 1950, o pavor que as pessoas sentiam da poliomielite era o mesmo que hoje sentem em relação à Aids. A única visitante fiel era minha mãe, que se sentava em um determinado lugar para que ele pudesse vê-la por um espelho instalado ao lado do pulmão artificial.

Minha mãe explicou-me que guardava aquela fotografia como uma relíquia, porque, diante a enfermidade de meu pai, ela a colocou no aparelho de respiração artificial. Ele pediu fotos dela e dos dois filhos, e minha mãe teve de encaixá-las entre dois botões do aparelho. Era por isso que minha foto estava tão estragada. Vi meu pai raras vezes depois que ele deu entrada no hospital, porque não era permitida a entrada de crianças nas alas reservadas a pacientes com poliomielite. Além disso, eu era um bebê e, se tivesse conseguido entrar, não teria guardado sua fisionomia na memória.

Quando minha mãe me contou a história da fotografia amassada, eu tive uma reação estranha e inesperada. Para mim, parecia esquisito demais imaginar alguém se preocupando comigo, alguém de quem eu nem me lembrava. Durante os últimos dias de vida, meu pai passou suas horas de agonia olhando para aquelas três fotografias de sua família, de minha família. Não havia mais nada ali para ser visto. O que ele fazia o dia inteiro? Orava por nós? Sim, claro. Ele nos amava? Sim. Mas como uma pessoa completamente paralisada pode manifestar amor, principalmente quando seus filhos são impedidos de visitá-Ia?

Hoje penso sempre naquela fotografia amassada, porque ela é uma das únicas ligações que tenho com aquele homem desconhecido que foi meu pai, um desconhecido que morreu com dez anos menos do que tenho agora. Alguém de quem eu não me lembro, que praticamente não conheci, passava o dia inteiro pensando em mim, dedicando-se a mim, amando-me o mais que podia. Talvez um dia eu tenha tempo, muito tempo, para restabelecer um relacionamento cruelmente interrompido logo depois de ter começado.

Estou contando esta história porque a emoção que vivenciei quando minha mãe me mostrou aquela fotografia amassada foi a mesma que senti naquela noite de fevereiro, no alojamento da faculdade, quando, pela primeira vez, acreditei em um Deus de amor. Eu me dei conta que Alguém estava lá. Alguém observa a vida enquanto ela se desenrola neste planeta. E mais, Alguém que me ama está lá. Foi uma estranha sensação de esperança, uma sensação tão nova e poderosa que fazia valer a pena aceitar os desafios da vida.


 

CEDER

Autor Desconhecido

Histórias Para o Coração 134

 

 

Ceder não significa parar de me preocupar; significa que eu não posso resolver os problemas da outra pessoa.

Ceder não significa isolar-me; significa que não posso controlar a vida da outra pessoa.

Ceder não é tornar as coisas mais fáceis, mas extrair lições das consequências de nossos atos.

Ceder é admitir que tenho limitações, o que significa que o resultado final não depende de mim.

Ceder é não tentar modificar ou culpar outras pessoas; eu só posso modificar a mim mesmo.

Ceder não significa deixar de prestar assistência; significa continuar a demonstrar interesse.

Ceder não é jogar a culpa no outro, mas ter espírito de solidariedade.

Ceder não é julgar, mas admitir que a outra pessoa é um ser humano.

Ceder é não se intrometer tentando resolver problemas alheios; é permitir que as pessoas encontrem as soluções por conta própria.

Ceder é deixar de ser protetor; é permitir que a outra pessoa enfrente a realidade.

Ceder não é rejeitar, mas aceitar.

Ceder não significa resmungar, censurar ou discutir; significa aceitar as próprias falhas e corrigi-las.

Ceder não significa adaptar tudo conforme meus desejos, mas aceitar cada dia como ele é e apreciar cada momento.

Ceder é não criticar nem controlar o outro, mas tentar me transformar na pessoa que eu gostaria de ser.

Ceder não é arrepender-se do passado, mas adquirir experiência e viver para o futuro.

Ceder é temer menos e amar mais.


 

O PODER DO AMOR

Allan Loy McGinnis

Histórias Para o Coração 136

 

 

Victor Frankl, um judeu vienense, foi prisioneiro dos alemães durante mais de três anos. Transferido de um campo de concentração para outro, chegou a passar vários meses em Auschwitz. O Dr. Frankl contava que logo aprendeu uma forma de sobreviver: teria de barbear-se diariamente, por mais enfermo que estivesse, mesmo que precisasse usar um caco de vidro como lâmina.

Existia uma razão para isso: todas as manhãs, os prisioneiros tinham de apresentar-se para a revista diária. Os enfermos que não tinham condições de trabalhar naquele dia eram enviados para as câmaras de gás. Se o prisioneiro estivesse barbeado, com aspecto sadio, suas chances de escapar da morte naquele dia seriam maiores.

A parca ração diária para um trabalho tão pesado consistia de 300g de pão e 800ml de uma sopa rala de aveia. Eles dormiam em prateleiras, cujas tábuas tinham pouco mais de dois metros de largura. Em cada prateleira, dormiam nove homens. Esses nove homens tinham apenas dois cobertores para repartir entre eles.

Três apitos agudos os despertavam para iniciarem o trabalho às três horas da madrugada.

Certa manhã, enquanto eles marchavam para colocar os dormentes da ferrovia sobre o chão coberto de gelo a quilômetros de distância do campo de concentração, os guardas que os escoltavam gritavam o tempo todo e os empurravam com a coronha de seus rifles. Quem estivesse com o pé machucado apoiava-se no braço do companheiro.

O homem ao lado de Frankl sussurrou, escondendo a boca sob a gola da camisa:

- Se nossas esposas nos vissem! Espero que elas estejam em melhor situação nos campos de concentração femininos e não saibam o que está acontecendo conosco.

Frankl escreve:

"Aquelas palavras trouxeram-me lembranças de minha esposa.

Enquanto percorríamos cambaleantes aquela distância enorme, escorregando no gelo, apoiando-nos uns nos outros, arrastando nossos companheiros e sendo arrastados, nada foi dito, mas nós dois sabíamos: cada um de nós estava pensando em sua esposa. Vez por outra, eu olhava para o céu, onde as estrelas desapareciam pouco a pouco e a luz rosada da manhã começava a brilhar atrás das maciças nuvens escuras. Minha mente, porém, visualizava a imagem de minha esposa, e essa imagem tinha uma nitidez fantástica. Eu a ouvia conversando comigo, via seu sorriso, sua expressão sincera e encorajadora." Um pensamento veio-me à mente: pela primeira vez na vida, eu enxerguei a verdade declamada em versos por muitos poetas e proclamada como sabedoria final por muitos filósofos. A verdade é: o amor é o derradeiro e mais sublime objetivo ao qual o homem pode aspirar. Então compreendi o significado do maior segredo que a poesia humana, a fé e o pensamento humanos precisam divulgar: a salvação do homem é alcançada por meio do amor e no amor.

 

1 Coríntios 13.13 NVI


 

O PRESENTE DOS MAGOS

O. Henry

Histórias Para o Coração 138

 

 

Um dólar e 87 centavos. Só isso. E 60 centavos dessa quantia eram em trocadinhos. Moedas economizadas de uma em uma, ou de duas em duas, depois de muitas pechinchas ao dono da mercearia, ao verdureiro e ao açougueiro até que o rosto da pessoa ficasse corado de vergonha após aquela silenciosa admissão de avareza que costuma estar implícita nessas situações. Della contou o dinheiro três vezes. Um dólar e 87 centavos. No dia seguinte, seria o Natal.

Não havia mais nada a fazer a não ser afundar-se no pequeno sofá e chorar. E foi o que Della fez. Esse comportamento induz à reflexão de que a vida é feita de soluços, choros contidos e sorrisos, sendo que os choros contidos sempre predominam.

Enquanto a dona da casa passa gradualmente do primeiro para o segundo plano, dê uma olhada no local. Um apartamento mobiliado, alugado a 8 dólares por semana. Não foi difícil descrevê-lo com precisão, mas vamos acrescentar ainda que se enquadrava nos ideais de um bando de mendigos.

No vestíbulo de baixo, havia uma caixa de correio, onde nunca eram colocadas cartas, e um botão de campainha que nenhum ser mortal tocava. Havia também no local um cartão de visitas com um nome: "Sr. James Dillingham Young".

O nome "Dillingham" fora muito conhecido durante um período anterior de prosperidade, quando seu dono recebia 30 dólares por semana. Agora, com a renda reduzida a 20 dólares, as letras do nome "Dillingham" estavam quase apagadas, como que pensando seriamente em reduzir-se a um modesto e despretensioso "D".

Porém, todas as vezes que voltava para casa e subia a escada que dava acesso a seu pequeno apartamento, o Sr. James Dillingham Young era chamado de Jim e recebia um abraço amoroso da Sra.

James Dillingham Young, já apresentada a vocês como Della.

Até aí, tudo bem.

Della parou de chorar e empoou um pouco o rosto com uma esponja gasta. Aproximou-se da janela e observou, com ar inexpressivo, um gato cinzento andando sobre uma cerca cinzenta de um quintal cinzento. Amanhã seria dia de Natal, e ela possuía apenas 1 dólar e 87 centavos para comprar um presente para Jim. Durante meses, economizou cada moeda que pôde, e o resultado era esse. Uma renda de 20 dólares por semana não dura muito tempo.

As despesas foram maiores do que ela calculara. Era sempre assim.

Apenas 1 dólar e 87 centavos para comprar um presente para Jim.

O seu Jim. Ela passara horas felizes planejando comprar um lindo presente para ele. Algo bem refinado, raro e valioso, digno da honra de pertencer a Jim.

Havia um aparador com espelho alto que cobria o espaço de parede entre as duas janelas da sala. É comum ver um móvel desses em apartamentos de 8 dólares por semana de aluguel. Ao observar seu reflexo em uma rápida sequência de faixas longitudinais, uma pessoa muito magra e ágil podia ter uma ideia razoável de seu aspecto. Della, por ser esguia, havia dominado essa arte.

De repente, ela se afastou da janela e postou-se diante do espelho. Seus olhos estavam brilhantes, mas, em seguida, seu rosto perdeu a cor. Ela soltou rapidamente os cabelos deixando-os cair por inteiro.

Havia duas propriedades na família James Dillingham Young das quais ambos tinham muito orgulho. Uma delas era o relógio de ouro de Jim, que pertencera a seu pai e a seu avô. A outra eram os cabelos de Della. Se a rainha de Sabá morasse no apartamento do outro lado do poço de ventilação, Della penduraria seus cabelos na janela para secá-los, só para protestar contra as joias e presentes de Sua Majestade. Se o rei Salomão fosse o porteiro, com todos os seus tesouros empilhados no porão. Jim tiraria seu relógio de ouro do bolso todas as vezes que passasse por ele, só para vê-lo arrancar as barbas de inveja.

E agora, os lindos cabelos ondulados e brilhantes de Della caíam ao redor de seu corpo, formando uma cascata marrom. O comprimento chegava até o joelho, envolvendo-a como se fosse um belo vestido. Em seguida, ela ergueu os cabelos com nervosismo e rapidez. Após um leve vacilo, endireitou o corpo, enquanto uma lágrima ou duas caíam no surrado carpete vermelho.

Entra em cena o velho casaco marrom; entra em cena o velho chapéu marrom. Dando uma voltinha para admirar-se e com um brilho nos olhos, ela atravessou a porta, desceu correndo a escada e chegou à rua.

Parou diante de uma placa e leu: "Mme. Sofronie. Comércio de Cabelos de Todos os Tipos". Della subiu apressada um lance de escada e parou, ofegante. A senhora, uma mulher gorda e de pele muito branca, pouco cordial, não parecia chamar-se "Sofronie".

- A senhora compraria os meus cabelos? - perguntou Della.

- Eu compro cabelos - disse a madame. - Tire o chapéu para eu dar uma olhada.

Os cabelos ondulados marrons caíram em forma de cascata.

- Vinte dólares - disse a madame erguendo os cabelos volumosos com mãos hábeis.

- Negócio fechado - disse Della.

Oh, as duas horas seguintes foram de pura embriaguez. Esqueçam a metáfora confusa. Ela vasculhou as lojas à procura de um presente para Jim.

Por fim. o encontrou. Tinha sido feito especialmente para Jim e para mais ninguém. Não havia nada semelhante em qualquer outra loja, e não se esqueçam de que Della havia virado todas do avesso. Era uma simples corrente de platina para relógio, de traçado modesto, exibindo seu valor pela peça em si e não por enfeites espalhafatosos - como todas as coisas boas deviam ser. Era digna do relógio. Assim que viu a corrente, Della teve a certeza de que a compraria para Jim. Era parecida com ele. Modéstia e valor a descrição aplicava-se a ambos. Ela pagou 21 dólares e voltou apressada para casa com 87 centavos. Com seu relógio preso àquela nova corrente, Jim poderia orgulhosamente ver as horas em qualquer empresa. Apesar de o relógio ser grande, Jim consultava as horas discretamente por causa da velha correia de couro que fazia as vezes de corrente.

Quando Della chegou ao apartamento, a euforia deu lugar à prudência e ao bom senso. Procurou os frisadores de cabelo, acendeu o gás e começou a trabalhar para reparar os estragos provocados pela generosidade acompanhada de amor. O que sempre é uma tarefa insidiosa, caros amigos - uma tarefa monumental.

Após 40 minutos, a cabeça de Della estava coberta de pequenas peças de ferro para frisar os cabelos, que a deixaram parecida com um garoto de rua. Ela olhou-se no longo espelho com atenção e ar de crítica.

Se Jim não me matar, ela pensou, antes de olhar uma segunda vez para mim, vai dizer que estou parecida com uma corista de Coney Island. Mas o que eu poderia fazer... oh, o que eu poderia fazer com 1 dólar e 87 centavos?

Às 19 horas, o café estava coado e a frigideira colocada sobre a parte posterior do fogão, pronta para fritar a carne picada.

Jim nunca se atrasava. Della pegou a corrente e sentou-se em um dos cantos da mesa~ perto da porta por onde ele sempre entrava. Em seguida, ouviu os passos dele subindo o primeiro lance da escada.

Seu rosto empalideceu por alguns instantes. Della tinha o hábito de murmurar pequenas orações sobre as coisas simples do cotidiano, e naquele momento ela orou: Por favor, Deus, peço-te que ele continue me achando bonita.

A porta foi aberta. Jim entrou e fechou-a. Parecia abatido e muito circunspecto. Pobre homem! Tinha apenas 22 anos e a responsabilidade de sustentar uma família! Precisava de um novo sobretudo e estava sem luvas.

Assim que fechou a porta, Jim ficou tão imóvel quanto um cão de caça ao sentir o cheiro de uma codorniz. Seus olhos fixaram-se em Della com uma expressão que ela não conseguia entender, e isso a deixou aterrorizada. Não era uma expressão de raiva, nem de surpresa, nem de desaprovação, nem de horror, nem de outra emoção que ela estava preparada para ver no rosto do marido. Ele simplesmente olhava firme para ela com aquela expressão estranha no rosto.

Della afastou-se repentinamente da mesa e foi ao encontro dele.

- Jim, querido - ela choramingou -, não me olhe desta maneira.

Cortei meus cabelos e os vendi porque não poderia passar o Natal sem ter um presente para lhe dar. Eles vão crescer novamente...

Você não se importa, não é? Eu tive de fazer isso. Meus cabelos crescem rápido. Diga "Feliz Natal! ", Jim, e vamos voltar a ser felizes. Você não sabe que coisa linda, muito linda, maravilhosa, eu comprei para lhe dar.

- Você cortou os cabelos? - perguntou Jim penosamente, como se não tivesse entendido o óbvio, mesmo depois de um grande esforço mental.

- Cortei-os e vendi-os - disse Della. - Você não gosta mais de mim? Mesmo de cabelos curtos, sou a mesma pessoa, não sou?

Jim olhou ao redor da sala com curiosidade.

- Você disse que seus cabelos desapareceram? - ele perguntou com ar meio abobalhado.

- Não adianta procurá-los - disse Della. - Eles foram vendidos.

Hoje é véspera de Natal, meu jovem. Seja bondoso comigo, porque fiz isso por sua causa. Talvez os fios de cabelo de minha cabeça estivessem contados. - A voz dela tinha agora uma súbita doçura.

- Mas ninguém pode contar o meu amor por você. Posso fritar a carne, Jim?

Jim pareceu despertar do transe em que se encontrava e passou os braços ao redor de Della. Vamos nos afastar durante dez segundos 1 e desviar os olhos com discrição para um objeto qualquer do apartamento. Oito dólares por semana ou um milhão por ano - que diferença faz? Um matemático ou uma pessoa muito inteligente daria a resposta errada. Os magos levaram presentes valiosos, mas não tinham nada a ver com o momento presente. Essa sombria assertiva será ilustrada mais adiante.

Jim tirou um pacote do sobretudo e o colocou em cima da mesa.

- Não se engane a meu respeito, Dell - ele disse. - Não há corte t de cabelo, nem xampu, nem maneira de barbear que me faça igualar à minha menina. Mas, se você desembrulhar este pacote, vai saber por que estou divagando um pouco.

Dedos brancos e ágeis rasgaram a fita e o papel. E, a seguir, um grito de alegria, de êxtase; e, depois, um suspiro, uma rápida mudança de comportamento feminino para lágrimas e gemidos, necessitando imediatamente de toda espécie de amparo por parte do chefe da casa.

Porque ali estavam Os Pentes - um conjunto de pentes para serem colocados dos lados da cabeça e atrás, aqueles que Della namorara tanto tempo em uma das vitrinas da Broadway. Pentes lindos, de tartaruga, com enfeites de pedras preciosas - um ornamento para ser usado nos lindos cabelos de antes. Ela sabia que eram pentes caros e os desejara de todo o coração, sem a mínima esperança de possuí-los. E, agora, eram dela, mas as madeixas que deveriam ser enfeitadas com aqueles lindos e almejados ornamentos não mais existiam.

Della os segurou de encontro ao peito, e finalmente conseguiu olhar para cima com uma expressão indefinida, dar um sorriso e dizer:

- Meus cabelos crescem muito rápido, Jim!

Em seguida, ela levantou-se, ágil como um gato, e deu um grito:

- Oh, oh!

Jim ainda não havia visto seu lindo presente. Ela o segurou na palma da mão para que ele o visse. O frio metal precioso parecia refletir o brilho do espírito ardente de Della.

- Não é linda, Jim? Rodei a cidade inteira à procura dela. A partir de agora, você vai ter de consultar as horas centenas de vezes por dia. Dê-me seu relógio. Quero ver como ele fica com a corrente.

Em vez de entregar-lhe o relógio, Jim afundou-se no sofá, colocou as mãos atrás da cabeça e sorriu.

- Dell- ele disse -, vamos deixar os presentes de Natal de lado por algum tempo. Eles são lindos demais para serem usados neste momento. Vendi o relógio para conseguir dinheiro e comprar os pentes. E, agora, acho que você deve fritar a carne.

Os magos, conforme você sabe, eram homens sábios maravilhosamente sábios - que levaram presentes para o Bebê na manjedoura. Eles inventaram a arte de oferecer presentes de Natal.

Por serem sábios, seus presentes também foram sábios, talvez com a possibilidade de poderem ser trocados em caso de duplicidade. E aqui eu relatei de modo imperfeito a você uma crônica comum de dois jovens tolos, que sacrificaram insensatamente, um em prol do outro, os maiores tesouros que tinham em casa. Mas, para os sábios de nossos dias, digo que, dentre todos os que oferecem presentes, esses dois foram os mais sábios. Dentre todos os que dão e recebem presentes, os que agem como eles são os mais sábios. Por todos os lugares onde andam, são os mais sábios. Esses são os magos.

ACREDITANDO UM NO OUTRO

Steve Stephens

Histórias Para o Coração 145

 

 

Em 1910, De Witt Wallace desenvolveu uma nova ideia para uma revista. Consistia de uma coleção de artigos condensados, à qual ele deu o nome de Reader´s Digest [Seleções]. De Witt elaborou um exemplar de amostra e o enviou a todas as editoras do país. Ninguém demonstrou interesse. De Witt ficou terrivelmente desanimado.

Por volta da mesma época, ele conheceu Lila Bell Acheson, filha de um pastor presbiteriano. Em breve, ambos se apaixonaram perdidamente. Lila acreditou no sonho de DeWitt. Não permitiu que ele desistisse e o incentivou a prosseguir com sua ideia maravilhosa de publicar a revista. Encorajado pela confiança que Lila depositava nele, De Witt enviou uma circular pelo correio a todas as pessoas consideradas assinantes em potencial.

Em outubro de 1921, Lila casou-se com De Witt. Ao retomarem da lua-de-mel, eles encontraram uma pilha de cartas de pessoas interessadas em assinar a revista. Juntos eles trabalharam no Volume 1, Número 1, que foi publicado em fevereiro de 1922.

De Witt incluiu Lila Bell Acheson como cofundadora, coeditora e coproprietária. A revista expandiu-se ao longo dos anos. Agora, impressa em pelo menos 18 idiomas, a Reader´s Digest é a revista de maior vendagem no mundo inteiro.

De Witt e Lila foram mais que marido e mulher; foram amigos verdadeiros. Incentivaram e apoiaram um ao outro. Acreditaram um no outro. Trabalharam lado a lado para concretizar seu sonho, e sempre se respeitaram mutuamente. De Witt disse certa vez:

- Foi Lila quem transformou a revista em realidade.

Imagino que Lila tenha dito o mesmo a respeito de De Witt.

Sim, o amor acredita em todas as coisas. Ele idealiza sonhos praticamente impossíveis, incentiva enquanto estão sendo levados adiante e aplaude quando se tornam realidade.


 

ATO DE AMOR

Alice Gray

Histórias Para o Coração 147

 

 

Esta é a história de uma mãe que voltou para casa após um árduo dia de trabalho. Sua filhinha apareceu na porta e correu para abraçá-la.

- Mamãe, mamãe, aconteceram muitas coisas hoje e quero contar tudo a você.

Depois de ouvir algumas frases, a mãe fez um gesto indicando que ouviria o restante da história mais tarde, porque precisava preparar o jantar. Durante a refeição, o telefone tocou, e a mãe teve de ouvir outras histórias da família, mais longas e contadas em voz mais alta que a da menina. Depois que a cozinha foi arrumada e as dúvidas sobre os deveres de casa de seu irmão foram solucionadas, a menina tentou novamente contar as novidades à mãe, mas já havia chegado a hora de ir para a cama.

A mãe dirigiu-se ao quarto da filha para ajeitar suas cobertas e ouviu-a orando. Quando ela se curvou para afagar seus cabelos encaracolados e beijar-lhe o rosto, a menina olhou para cima e perguntou:

- Mamãe, você me ama mesmo quando não tem tempo para me ouvir?


 

VOLTE PARA CASA

Max Luccado

Histórias Para o Coração 148

 

 

A casa pequenina era simples, mas adequada. Consistia de um único cômodo grande e localizava-se em uma Tua de terra.

Sua cobertura de telhas vermelhas era igual à de várias outras de um bairro pobre na periferia de uma cidade brasileira. Era uma casa confortável. Maria e a filha, Cristina, haviam feito o que podiam para dar um toque colorido às paredes cinzas e um ar de limpeza ao chão duro e empoeirado: um antigo calendário, uma fotografia desbotada de um parente, um crucifixo de madeira. A mobília era modesta: duas camas toscas, uma pia para lavar o rosto e um fogão de lenha.

O marido de Maria morreu quando Cristina ainda era bebê. A jovem mãe, que se recusou obstinadamente a casar-se novamente, conseguiu um emprego para poder criar a filha pequena. E agora, 15 anos depois, o pior já havia passado. Embora o salário de Maria como empregada doméstica não lhe permitisse comprar uma ou outra futilidade, era suficiente para proporcionar alimentos e roupas a ela e à filha. Agora, porém, Cristina já tinha idade para conseguir um emprego e ajudar a mãe.

Algumas pessoas diziam que Cristina herdara o espírito de independência da mãe. Ela resistia à ideia tradicional de casar-se jovem e de constituir família. Não porque fosse incapaz de conseguir um marido. Sua pele morena e olhos castanhos atraíam um grande número de admiradores à sua porta. Ela possuía um jeito todo especial de jogar a cabeça para trás e contagiava a todos com suas gargalhadas. Possuía também aquela certa magia, inerente a poucas mulheres, que fazem os homens se sentirem reis só por estarem perto delas. Mas era aquele ar de curiosidade que mantinha os rapazes ao alcance de sua mão.

Ela dizia sempre que queria conhecer uma cidade grande.

Sonhava em trocar seu vilarejo pobre e empoeirado pela vida exuberante da cidade. Aquela ideia deixava sua mãe horrorizada.

Maria sempre mencionava a Cristina as dificuldades de se morar em uma cidade grande.

- Lá, você vai ser uma desconhecida. Os empregos são difíceis de conseguir, e a vida é cruel. Além disso, se você for morar lá, o que vai fazer para ganhar a vida?

Maria sabia exatamente o que Cristina faria ou teria de fazer para ganhar a vida.

Por isso um dia, com o coração apertado, acordou certa manhã e viu a cama da filha vazia. Imediatamente entendeu que Cristina havia partido. E imediatamente decidiu o que deveria fazer para encontrá-la. Colocou algumas roupas em uma sacola, pegou todo o dinheiro que possuía e deixou sua casa para trás.

A caminho do ponto de ônibus, ela decidiu fazer uma última coisa: tirar uma fotografia. Entrou em um pequeno estúdio, fechou as cortinas, e gastou tudo o que podia em fotografias. Com a bolsa cheia de pequenos retratos branco e preto, ela entrou no ônibus com destino ao Rio de Janeiro.

Maria sabia que Cristina não tinha meios de ganhar dinheiro.

Sabia também que a filha era teimosa demais para desistir. Quando o orgulho se choca com a fome, o ser humano é capaz de fazer coisas realmente  inconcebíveis. Sabendo disso, Maria começou suas buscas.

Bares, hotéis, boates, qualquer canto que abrigasse pessoas de rua ou prostitutas. Percorreu todos esses lugares e, em cada um, deixava uma foto sua - pendurada em espelhos de banheiro, pregada em quadro de avisos de hotéis, presa em cabinas telefônicas. E, no verso de cada foto, ela escreveu um bilhete.

Pouco tempo depois, o dinheiro e as fotografias acabaram, e Maria teve de voltar para casa. Vencida pelo cansaço, ela chorou quando o ônibus começou a longa viagem de volta para seu vilarejo.

Algumas semanas depois, Cristina estava descendo a escada de um hotel. Seu rosto jovem tinha um ar cansado. Seus olhos castanhos não mais brilhavam com a euforia da juventude. Só estampavam sofrimento e medo. As gargalhadas desapareceram. Os sonhos transformaram-se em pesadelo. Como seria bom, ela pensara milhares de vezes, trocar aquele grande número de camas pela segurança de seu leito aconchegante. Porém, em vários sentidos, o seu vilarejo estava longe demais.

Quando ela chegou ao pé da escada, seus olhos avistaram um rosto conhecido. Ela olhou mais uma vez, e lá estava, no espelho do saguão uma pequena fotografia de sua mãe. Os olhos de Cristina começaram a arder, e ela sentiu um aperto na garganta enquanto atravessava o saguão e pegava a foto. No verso, estava escrito este convite irrecusável: "Não importa o que você fez, não importa em quem você se transformou. Por favor, volte para casa." Ela voltou.


 

UM DIA

Charles R. Swindoll

Histórias Para o Coração 153

 

 

UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, as coisas vão ser bem diferentes. A garagem não ficará lotada de bicicletas, de trilhos de trenzinhos elétricos sobre madeira compensada, de cavaletes rodeados de tábuas, pregos, martelo e serra, de "projetos experimentais" inacabados e da gaiola do coelho. Poderei estacionar os dois carros nas vagas certas e nunca mais tropeçarei em pranchas de skate, pilhas de papéis (guardados para colaborar com as obras assistenciais da escola) ou sacos com comida para coelhos - tudo espalhado pelo chão.

UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, a cozinha ficará incrivelmente arrumada. A pia não ficará cheia de pratos sujos, a lixeira não ficará abarrotada de elásticos e de copos de papel, a geladeira não ficará lotada de frascos de leite, e nunca mais perderemos as tampas dos vidros de geleia e de ketchup e dos potes de manteiga de amendoim, de margarina e de mostarda. A jarra d'água não será recolocada vazia, as fôrmas de gelo não ficarão fora durante a noite, o liquidificador não ficará sujo, seis horas a fio, de resíduos de vitamina preparada à meia-noite, e o mel ficará dentro do seu pote.

UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, minha querida esposa terá tempo para vestir-se vagarosamente. Terá tempo para um banho quente demorado (sem receio de ser interrompida por gritos assustados), tempo para cuidar das unhas da mão (e dos pés, se desejar!) sem ter de responder a uma dúzia de perguntas e de revisar a grafia correta das palavras, tempo para cuidar dos cabelos durante a tarde sem ter de marcar um horário espremido entre uma visita ao veterinário para levar um cão doente ou uma ida ao ortodontista para levar uma criança de mau humor por ter perdido seu boné.

UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, o aparelho chamado "telefone" ficará desocupado, sem parecer ter nascido grudado ao ouvido de um adolescente. Ele simplesmente ficará lá... silencioso e, por incrível que pareça, pronto para ser usado! Não ficará melado de batom, saliva, maionese, migalhas de salgadinhos ou com palitos de dentes enfiados nos pequenos orifícios.

UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, eu serei capaz de enxergar através dos vidros do carro. Impressões digitais de mãos e pés, lambidas e sinais de patas de cachorro (ninguém sabe como) serão inexistentes. O banco traseiro não ficará em completa desordem, não nos sentaremos mais em cima de pedrinhas e lápis de cor, o tanque de combustível estará sempre cheio e (glória a Deus!) não terei de limpar mais uma vez a sujeira do cachorro.

UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, poderemos voltar a conversar normalmente, isto é, conversar como qualquer pessoa normal. As frases não serão intercaladas de grosserias. "Legal!" será uma expressão em desuso. Não haverá batidas na porta do banheiro acompanhadas de "Ande logo, estou apertado!" e "É a minha vez" não necessitará da presença de um árbitro. E aquele artigo de revista será lido sem interrupções e, depois, discutido longamente, sem que o pai e a mãe tenham de esconder-se no sótão para terminar a conversa.

UM DIA, QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM, não vamos mais precisar correr atrás do rolo de papel higiênico. Minha esposa não vai perder as chaves. Não esqueceremos a porta da geladeira aberta. Eu não vou ter de inventar novas maneiras de desviar a atenção das máquinas que vendem gomas de mascar... nem ter de responder à pergunta "Papai, não é pecado você dirigir a 75 quilômetros por hora quando a placa diz que o limite é de 55?.... nem prometer dar um beijo de boa-noite no coelho... nem ter de ficar acordado até altas horas esperando a chegada deles... nem ter de pedir licença para falar durante o jantar... nem ter de suportar socos de brincadeira, mas que são realmente doloridos.

Sim, um dia, quando as crianças crescerem, as coisas vão ser bem diferentes. Elas começarão a partir, uma após a outra, e a casa voltará a ficar em ordem e talvez até com um toque de elegância. O tinir da porcelana e da prata será ouvido em ocasiões especiais. O som do fogo crepitando na lareira ecoará por todo o saguão da casa.

O telefone estará estranham ente mudo. A casa estará sossegada... calma... sempre limpa... e vazia... e passaremos o tempo aguardando a chegada de um dia, mas lembrando-nos do ontem. E pensando:

"Talvez a gente possa cuidar dos netos para que esta casa volte a ter vida!"

 

 

 

Nenhum sucesso na vida - ser presidente de uma nação, ser rico, frequentar faculdade, escrever um livro ou qualquer outra coisa - é capaz de sobrepujar o sucesso do homem que tem a sensação do dever cumprido e cujos filhos e netos se levantam e o chamam abençoado.

THEODORE ROSEVELT, 1917

 


 

MAIS PAPAI

John Trent

Histórias Para o Coração 156

 

 

Recentemente, uma mulher segurou meu braço após uma palestra que fiz a respeito da enorme necessidade que temos de autoafirmação.

- Dr. Trent, posso contar-lhe minha história? - ela perguntou.

- Na verdade, é uma história a respeito do que meu filho fez com minha neta e que ilustra o que foi dito aqui, a importância da autoafirmação.

- Meu filho tem duas filhas - ela prosseguiu -, uma com cinco anos e outra com aquela "terrível" idade de dois anos.

Quando uma avó usa a palavra "terrível" para descrever um neto ou uma neta, podem acreditar, porque é verdade!

- Nesses últimos anos, meu filho tem levado a menina mais velha para passear com ele, mas só levou a mais nova recentemente. No primeiro passeio com ela, levou-a para tomar o café da manhã em uma lanchonete.

Quando chegaram as panquecas, meu filho achou que o momento seria propício para dizer à filha quanto ele a amava.

- Jenny - ele disse à filha - quero que você saiba quanto eu a amo e como você sou especial para a mamãe e para mim. Oramos por você durante anos, e, agora que está aqui e se transformou em uma menina tão linda, estamos muito orgulhosos de você.

Depois de dizer isso, ele parou de falar e esticou o braço para pegar o garfo e começar a comer, mas não chegou a colocá-lo na boca. A menina pôs a mão sobre a do pai. Ele olhou para a filha e, com voz meiga e suplicante, ela disse:

- Mais, papai... mais.

Ele pousou o garfo na mesa e prosseguiu, apresentando outros motivos que o levavam a amar tanto a filha, e, em seguida, fez menção de pegar o garfo novamente. Pela segunda vez... terceira vez... e quarta vez, ele ouviu as palavras:

- Mais, papai... mais.

Aquele pai quase não conseguiu saborear o desjejum naquela manhã, mas sua filha recebeu o sustento emocional de que tanto necessitava. Alguns dias depois. ela correu espontaneamente em direção à mãe e disse:

- Eu sou uma filha muito especial, mamãe. Foi o papai que disse.


 

O QUE É UMA AVÓ?

Carta de um aluno da terceira série

Histórias Para o Coração 159

 

 

Avó é uma senhora que não tem filhos para cuidar. Ela gosta dos filhos e filhas das outras pessoas. O avô é igual à avó, só que é homem. Ele faz passeios com os meninos e conversa com eles sobre pescaria e outros assuntos interessantes.

As avós não têm nada para fazer a não ser ficar paradas. São muito velhas para brincar ou correr. Basta que elas nos levem ao mercado onde existe um cavalinho de brinquedo e tenham bastante dinheiro para gastar. E, se nos levarem para passear, devem passar devagarinho para observar coisas como folhas bonitas e lagartas.

Elas nunca devem dizer "ande mais depressa".

Geralmente, as avós são gordas, mas não tão gordas que não consigam amarrar nossos sapatos. Elas usam óculos e roupas de baixo esquisitas. Podem tirar da boca os dentes e as gengivas.

As avós não precisam ser espertas, precisam apenas responder a perguntas do tipo "Por que Deus não é casado?" ou "Por que os cachorros perseguem os gatos?".

As avós não falam linguagem de criancinha igual às visitas, porque é difícil de entender. Quando elas lêem para nós, não pulam trechos nem se importam de contar a mesma história outra vez.

Todos deveriam ter uma avó, principalmente se não tiverem televisão, porque elas são as únicas pessoas adultas que têm tempo para nós.


 

PAREDES

Richard A. McCray

Histórias Para o Coração 160

 

 

A fotografia do casamento sobre a mesa zombava deles, daqueles dois cujas mentes não mais se entendiam.

 

Entre eles, uma enorme barricada, que um tiroteio de palavras ou a mais pesada artilharia não seriam capazes de derrubar.

 

Em algum momento da vida, entre o nascimento do primeiro dente do filho mais velho e a formatura da filha mais nova, eles se afastaram um do outro.

 

Ao longo dos anos, cada um desembaraçou lentamente aquela bola de fios emaranhados chamada "eu", e, à medida que tentavam desatar os nós apertados, cada um escondeu do outro o que estava procurando.

 

Às vezes, ela chorava à noite e, sussurrando, implorava à escuridão que lhe dissesse quem ela era.

Ele, deitado a seu lado como um urso hibernando, não se dava conta do inverno que ela atravessava.

 

Um dia, depois de terem feito amor, ele quis dizer a ela que tinha medo de morrer, mas, temeroso de desnudar sua alma, resolveu falar da beleza dos seios dela.

 

Ela se matriculou em um curso de arte moderna, tentando encontrar-se nas cores pinceladas na tela, queixando-se dos homens às outras mulheres, dizendo que são insensíveis.

 

Ele subiu em um túmulo chamado "O Escritório", embrulhou sua mente em uma mortalha de números, e enterrou-se no meio dos clientes.

 

Lentamente, a parede entre eles foi subindo, cimentada pela argamassa da indiferença.

 

Um dia, quando ambos tentaram se tocar, encontraram uma barreira impossível de atravessar, e, recuando diante da frieza da pedra, cada um afastou-se do estranho do outro lado.

 

Quando o amor morre, ele não morre em momentos de ira, nem quando corpos ardentes perdem o calor.

 

Fica estagnado, ofegante, exausto, expirando aos pés de uma parede que não consegue escalar.


 

GENEROSIDADE

James Dobson

Histórias Para o Coração 162

 

 

Meu pai sempre esteve pronto a ajudar os que tinham fome. Ele era um evangelista que viajou a vários lugares para realizar reuniões de avivamento. As viagens eram caras, e o dinheiro que possuíamos era suficiente apenas para as necessidades básicas.

Um dos problemas era a maneira como as igrejas pagavam os pastores e evangelistas naquela época. Os pastores recebiam salário durante o ano inteiro, mas os evangelistas eram pagos somente quando trabalhavam. Por conseguinte, a renda de meu pai cessava abruptamente durante os feriados do Dia de Ação de Graças, do Natal, das férias de verão ou de qualquer período em que ele precisasse descansar. Talvez tenha sido por isso que o dinheiro era escasso quando ele ficava em casa. Mas isso não impedia meu pai de ser generoso.

Eu me lembro de vê-lo partir para falar em uma igreja pequenina e voltar para casa dez dias depois. Minha mãe o recebeu com entusiasmo e perguntou sobre o avivamento. Ele sempre se empolgava ao falar desse assunto. Nessas ocasiões, minha mãe o deixava falar e, depois, perguntava sobre o dinheiro. As mulheres têm a mania de preocupar-se com essas coisas.

- Quanto eles lhe deram? - ela perguntou.

Tenho gravada na memória a expressão de meu pai, quando ele sorriu e olhou para o chão.

- Eu... - ele gaguejou.

Minha mãe afastou-se e o encarou.

- Ah, já entendi - ela disse. - Você devolveu o dinheiro novamente, não?

- Myrt - ele disse -, o pastor de lá está atravessando um momento difícil. Seus filhos necessitam de muita coisa. Fiquei com o coração partido. Os sapatos das crianças estão furados na sola e, numa dessas manhãs frias, uma delas foi para a escola sem agasalho. Achei que devia deixar com eles os 50 dólares que recebi.

Minha boa mãe olhou atentamente para ele por alguns instantes e sorriu.

- Se Deus pediu a você que fizesse isso, tudo bem.

Após alguns dias, o inevitável aconteceu. A família Dobson ficou completamente sem dinheiro. Não havia reservas para lançarmos mão. Foi então que meu pai nos reuniu no quarto para passarmos alguns momentos em oração. Eu me lembro daquele dia como se fosse ontem. Ele orou em primeiro lugar.

"Oh, Senhor, tu prometeste que, se fôssemos fiéis contigo e com teu povo em tempos de bonança, não te esquecerias de nós em tempos de necessidade. Temos tentado ser generosos com aquilo que nos deste, e agora estamos implorando tua ajuda." Um menino muito sensível de dez anos, chamado Jimmy, observou e ouviu atentamente o que se passou naquele dia. O que vai acontecer?, ele pensou. Será que Deus ouviu a oração do papai?

No dia seguinte, um cheque inesperado de 1.200 dólares chegou, pelo correio. Verdade! Foi assim que aconteceu, não apenas uma, mas várias vezes. Eu vi o Senhor devolver a meu pai tudo o que ele deu aos outros. Não, Deus não fez de nós uma família rica, mas minha fé tempos de juventude aumentou consideravelmente. Aprendi que não podemos exceder a Deus em generosidade.

Meu pai continuou a agir da mesma maneira durante a meia-idade e depois dos 60 anos. Eu me preocupava querendo saber como ele e minha mãe sobreviveriam após a aposentadoria, porque o dinheiro era escasso e não podia ser poupado. Se meu pai conseguisse muitos dólares, com certeza os distribuiria aos necessitados. Eu me perguntava como eles viveriam com a ninharia que era paga aos pastores e evangelistas jubilados. (Como viúva, minha mãe recebia apenas 80 dólares e 50 centavos por meu pai ter trabalhado 44 anos na igreja.) É tremendamente injusto o tratamento que os pastores e evangelistas jubilados e suas esposas recebem.

Certo dia, meu pai estava deitado na cama, enquanto minha mãe se vestia. Ela olhou para ele, e ele estava chorando.

- O que houve? - ela perguntou.

- O Senhor acabou de falar comigo - ele respondeu.

- Você quer me contar o que Ele falou?

- Ele me falou sobre você.

Minha mãe pediu-lhe que contasse qual foi a mensagem do Senhor.

Meu pai disse:

- Foi uma experiência estranha. Eu estava deitado aqui pensando em muitas coisas. Não estava orando nem pensando em você quando o Senhor me disse: "Eu vou cuidar de Myrtle." Nenhum deles entendeu a mensagem, deixando-a guardada na lista das coisas imponderáveis. Cinco dias depois, meu pai teve um ataque cardíaco de grandes proporções e faleceu após três meses.

Aos 66 anos de idade, aquele homem bondoso cujo nome eu levo, partiu para encontrar-se com Cristo, a quem ele amou e serviu durante todos aqueles anos.

Foi emocionante testemunhar a maneira como Deus cumpriu sua promessa de cuidar de minha mãe. Mesmo quando ela estava sofrendo em fase terminal do mal de Parkinson e necessitando de constantes cuidados a um custo astronômico, Deus a sustentou. A pequena herança que meu pai deixou à sua esposa multiplicou-se nos anos após sua partida. Foi suficiente para pagar tudo o que elã necessitou, inclusive os incessantes cuidados de que precisava.

Deus também esteve com ela de outra maneira, carregando-a e protegendo-a em seus braços até o dia em que a levou consigo. Em suma, meu pai nunca chegou perto de exceder a generosidade de Deus!


 

QUANDO VOCÊ PENSOU

QUE EU NÃO ESTAVA OLHANDO

Mary Rita Schilke Korzan

Histórias Para o Coração 165

 

 

Quando você pensou que eu não estava olhando, eu o vi pendurar minha primeira pintura na geladeira e quis fazer outra.

Quando você pensou que eu não estava olhando, eu o vi dar comida a um gato de rua e achei muito bom alguém gostar de animais.

Quando você pensou que eu não estava olhando, eu o vi preparar o meu bolo favorito e descobri que pequenas coisas são muito significativas.

Quando você pensou que eu não estava olhando, eu o ouvi proferir uma oração e acreditei que existe um Deus com quem eu posso sempre conversar.

Quando você pensou que eu não estava olhando, senti seu beijo de boa-noite e me senti amada.

Quando você pensou que eu não estava olhando, eu vi lágrimas em seus olhos e aprendi que, nos momentos em que nos sentimos magoados, é bom chorar.

Quando você pensou que eu não estava olhando, eu vi que você se preocupa comigo e desejei ser a melhor pessoa possível.

Quando você pensou que eu não estava olhando, eu olhei... e quis agradecer todas as coisas que vi quando você pensou que eu não estava olhando.


 

CRESCER

Marilyn K. McAuley

Histórias Para o Coração 166

 

 

Danny tinha apenas três anos de idade quando ele e seu pai vieram morar conosco durante um ano. Todas as manhãs, ficávamos em pé na porta para jogar beijos de despedida ao vovô e ao papai quando eles saíam para trabalhar. Em seguida, Danny e a vovó entravam de volta na casa para construir arranha-céus com tijolinhos de brinquedo e fazer longas viagens a lugares maravilhosos lendo livros e mais livros. Mais tarde, caminhávamos pela estradinha em direção à rodovia para pegar a correspondência diária e ouvíamos o sussurro do vento por entre os galhos dos altos pinheiros.

Certa noite, depois de voltar do trabalho, o vovô pegou Danny no colo e disse:

- Vamos comer um hambúrguer.

No carro, enquanto fazíamos o percurso de 45 minutos até a cidade, cantamos e conversamos. De repente, houve um grande silêncio. Depois de pensar um pouco, Danny disse:

- O vovô tem um emprego, e o papai tem um emprego. Quando eu crescer, vou ter um emprego.

- Muito bem, Danny - disse o vovô.

Após mais alguns instantes de reflexão, Danny complementou:

- E, quando a vovó crescer, ela também vai ter um emprego.


 

MESMO QUANDO ESTÁ ESCURO

Ron Mehl

Histórias Para o Coração 167

 

 

Ele era um homem forte que estava enfrentando um inimigo muito mais forte. Sua jovem esposa ficou gravemente enferma e faleceu, deixando o homenzarrão sozinho e uma filha loirinha, de olhos grandes, que ainda não havia completado cinco anos.

A cerimônia fúnebre na pequena capela da cidade foi simples e carregada de dor. Após o sepultamento no pequeno cemitério, os vizinhos do homem reuniram-se ao redor dele.

- Por favor, venha com sua filha passar alguns dias conosco disse alguém. - Vocês não devem voltar para casa ainda.

Mesmo diante de tanto sofrimento, o homem disse:

- Obrigado, meus amigos, pela oferta generosa. Mas nós precisamos voltar para casa. Minha filhinha e eu precisamos enfrentar esta dor.

Assim, o homenzarrão e a menina voltaram para casa, que agora parecia vazia e sem vida. O pai colocou a cama da filha em seu quarto, para que eles pudessem passar juntos a escuridão da primeira noite.

Os minutos passaram lentamente, e a menina estava tendo grande dificuldade para dormir... a mesma de seu pai. O que pode afligir mais o coração de um pai que ver uma criança soluçando de saudades da mãe que nunca mais vai voltar?

A menina continuou a chorar noite adentro. O homem esticou o braço para tentar consolá-la da melhor maneira possível. Após alguns instantes, a menina conseguiu parar de chorar. Pensando que a filha já estava dormindo, o pai olhou para cima e orou, com a voz entrecortada:

- Eu confio em ti, ó Pai, a noite está escura demais!

Ao ouvir a oração do pai, a menina começou a chorar novamente.

- Eu pensei que você estivesse dormindo, querida - ele disse.

- Eu tentei, papai. Estava triste por você. Eu tentei de verdade.

Mas não consegui dormir. Papai, você já viu uma noite tão escura assim? Por que, papai? Eu não posso ver você. Está escuro demais.

- Em seguida, por entre as lágrimas, a menina disse baixinho:

- Mas você me ama mesmo quando está escuro, não é verdade, papai? Você me ama mesmo quando eu não posso enxergar você, não é verdade, papai?

Como resposta, o homem pegou a filha da cama com suas mãos enormes, colocou-a de encontro ao peito e segurou-a carinhosamente até ela dormir.

Quando ela se aquietou, o homem voltou a orar. Assumiu para si todo o choro da filha e o transferiu para Deus.

"Pai, a noite está escura demais. Não posso te enxergar. Mas tu me amas, mesmo quando está escuro e eu não posso te enxergar, não é verdade, Pai?" Naquelas horas tão tenebrosas, o Senhor o tocou dando-lhe novas forças para prosseguir. Ele sabia que Deus continuaria a amá-Io, mesmo no escuro.


 

VOCÊ TEM UM MINUTO?

David Jeremiah

 

 

Uma mãe que acabara de ler um livro sobre a arte de educar filhos... estava convicta a respeito de alguns de seus fracassos como mãe. Ao sentir isso, ela subiu a escada para conversar com o filho. Quando chegou ao pavimento superior da casa, escutou a barulheira da bateria que estava sendo tocada com força no quarto do filho. Ela queria dizer-lhe uma coisa, mas, quando bateu na porta, sentiu-se acovardada.

- Você tem um minuto? - ela perguntou, assim que o filho abriu a porta.

- Você sabe que sempre tenho um minuto para você, mãe respondeu o garoto.

- Sabe, filho, eu... eu... eu adoro a maneira como você toca bateria.

- Você gosta? - disse o garoto. - Que bom! Obrigado, mãe.

Ela afastou-se do quarto e dirigiu-se para a escada. Depois de descer alguns degraus, ela se deu conta de que não dissera o que desejava. Resolveu voltar e bateu outra vez na porta.

- Sou eu novamente! Você tem mais um minuto? - ela perguntou.

- Eu já disse que sempre tenho um minuto para você, mãe.

Ela entrou e sentou-se na cama.

- Quando estive aqui antes, eu tinha uma coisa para lhe dizer e não disse. O que eu queria dizer era que... seu pai e eu... achamos que você é um ótimo filho.

- Você e meu pai? - ele perguntou.

- Sim, seu pai e eu.

- Que bom, mãe! Muito obrigado.

Ela saiu do quarto e, mais uma vez, depois de ter descido alguns degraus se deu conta de que havia chegado perto de dizer o que desejava, mas não dissera ao filho que o amava. Subiu novamente a escada e voltou a bater na porta do quarto. Desta vez, ele a ouviu chegando. Antes que ela tivesse tempo de perguntar, ele gritou:

- Sim, eu tenho um minuto!

A mãe sentou-se na cama mais uma vez.

- Sabe, filho, tentei duas vezes e não consegui. Eu subi até aqui para lhe dizer isso. Eu amo você. Eu amo você de todo o coração. Eu não vim aqui dizer que seu pai e eu amamos você, mas que eu amo você.

- Mãe, isso é bom demais! Eu também amo você! - ele disse.

dando-lhe um grande abraço.

Ela saiu do quarto e estava chegando ao topo da escada quando ouviu o filho perguntar, com a cabeça para fora da porta:

- Mãe, você tem um minuto?

Ela riu e disse:

- Claro!

- Mãe, você acabou de voltar de um seminário?


 

ORAÇÃO DE UM PAI

John Ellis

 

 

Querido Pai celestial, podes me perdoar por eu ter magoado meus filhos?

Por ter nascido em lar humilde, pensei que uma casa grande fizesse com que meus filhos se sentissem importantes. Eu não me dei conta de que eles só precisavam de meu amor.

Pensei que o dinheiro Ihes trouxesse felicidade, mas ele os fez pensar que os bens materiais são mais importantes que as pessoas.

Pensei que, se lhes desse umas surras de vez em quando, eles seriam valentes, capazes de se defender sozinhos. Com isso, eu cessei de buscar sabedoria para poder discipliná-los e ensiná-Ios.

Pensei que, se os deixasse agir por conta própria, eles seriam independentes. Só consegui fazer com que meu filho mais velho se considerasse pai do mais novo.

Pensei que, se encobrisse todos os problemas da família, eu estaria mantendo a paz no lar. Eu os ensinei a fugir em vez de liderar.

Pensei que, se fingisse em público que minha família era perfeita, eu estaria transmitindo respeitabilidade a meus filhos. Eu os ensinei a viver uma mentira e a guardar segredo a respeito da verdade.

Pensei que tudo o que precisava fazer como pai seria ganhar dinheiro, estar sempre presente em casa e suprir todas as necessidades materiais de meus filhos. Eu lhes ensinei a maneira errada de ser pai. O problema é que eles vão ter de aprender sozinhos o que é ser um pai de verdade.

E, querido Deus, Espero que consigas ler esta oração. A maior parte das palavras ficou borrada por minhas lágrimas.


 

FÉRIAS DE VERÃO

Bruce Larson

 

 

Tenho um grande amigo em Montgomery, Alabama. Poucos anos atrás, esse amigo me contou uma história inesquecível de umas férias de verão que ele planejou para a esposa e filhos.

Impossibilitado de acompanhá-los por motivos profissionais, ele os ajudou a planejar cada dia da viagem, na perua da família, a um acampamento de férias, desde Montgomery até a Califórnia e a costa oeste, e de volta a Montgomery.

Ele conhecia muito bem o caminho e sabia o momento exato em que a família estaria atravessando as Montanhas Rochosas. Assim, meu amigo pegou um avião até o aeroporto mais próximo daquele local e alugou um carro com motorista para levá-lo ao ponto da estrada que era passagem obrigatória para todos os carros. Ele ficou sentado várias horas à beira da estrada aguardando a chegada da perua da família. Quando a avistou, foi para o meio da estrada e fez um sinal com o dedo polegar pedindo carona à família, que imaginava que o pai estivesse a quase 5.000 quilômetros de distância.

- Coleman - eu disse a meu amigo -, eu não ficaria surpreso se eles tivessem acelerado estrada afora de tanto susto ou que tivessem morrido de ataque cardíaco. Que história incrível! Por que você inventou toda essa cena?

- Bem, Bruce - ele disse -, um dia eu vou morrer, e, quando esse dia chegar, quero que meus filhos e minha esposa digam: "O papai era um sujeito muito divertido."

Vejam só, pensei. Aqui está um homem cujo objetivo é divertir e proporcionar felicidade a outra pessoa. Esse pensamento me fez imaginar o que minha família vai dizer de mim após minha morte. Tenho certeza de que vão dizer: "O papai era um sujeito legal, mas se preocupava demais em apagar as luzes, fechar as janelas, inspecionar a casa e cortar a grama." Mas eu também gostaria que eles dissessem que o papai era um sujeito que fez da vida uma grande diversão.


 

PARA MEU FILHO ADULTO

Autora Desconhecida

 

 

Minhas mãos trabalhavam sem parar;

Eu não tinha tempo para brincar com seus joguinhos, quando você me pedia.

Eu não tinha tempo para você durante o dia.

Lavava suas roupas, costurava e cozinhava;

Mas quando o caderno de desenhos você pintava

E queria que brincássemos juntos, só nós dois,

Eu sempre lhe dizia: "Depois. meu filho, depois."

 

Eu arrumava suas cobertas antes de me deitar,

Apagava a luz depois de ouvir você orar.

Em seguida, saía do quarto de mansinho...

Eu gostaria de ter ficado mais um pouquinho.

 

Porque a vida é curta, os anos passam rapidamente...

E um menino cresce rápido, tão de repente.

E agora ele não está mais a meu lado.

Contando-me histórias ou um segredo guardado.

Não há mais desenhos para pintar;

Não existem mais joguinhos para brincar.

Nem beijos de boa-noite, nem as orações de antes.

Tudo isso pertence a tempos tão distantes.

Minhas mãos, outrora ocupadas, não têm mais o que fazer.

Os dias são longos, difíceis demais para preencher.

Eu gostaria de voltar no tempo e com você repartir

As pequenas coisas que você costumava me pedir.


 

27 COISAS QUE NÃO SE DEVE DIZER AO CÔNJUGE

Steve Stephens

 

 

Não há nada mais penoso que a falta de um bom diálogo com a pessoa que você ama. É por meio do diálogo que estabelecemos uma ligação recíproca e que nossos espíritos se tocam.

Se, porventura, essa ligação for contaminada, em breve todo o relacionamento ficará envenenado. É apenas uma questão de tempo.

E, para que exista um bom diálogo, é necessário saber o que não' se deve dizer, em vez de saber o que se deve dizer...

Portanto, eu reuni alguns amigos íntimos e pedi-Ihes que relacionassem o que não se deve dizer ao cônjuge. Esta é a lista que me foi apresentada:

 

Eu já lhe disse isso.

Você é igual à sua mãe.

Você sempre está de mau humor.

Parece que você não pensa.

A culpa é sua.

O que há de errado com você?

Você só sabe reclamar.

Você não gosta de nada que eu faço.

Você tem o que merece.

Por que você nunca me ouve?

Você não pode ser um pouco mais responsável?

O que você tem na cabeça?

É impossível viver com você!

 

Não sei como eu consigo aguentar você.

Mesmo que eu repita mais de mil vezes, não vai adiantar nada.

Posso fazer o que eu quiser.

Se você não gosta, vá embora.

Você não sabe fazer nada certo?

Aquilo foi uma estupidez.

Você só pensa em si mesmo(a).

Se você me amasse de verdade, faria o que peço.

Você não passa de uma criancinha.

Uma reviravolta até que seria bom.

Você merece receber uma dose de seu veneno.

Qual é o seu problema?

Eu não consigo entender você.

Por que você sempre está com a razão?


 

37 COISAS QUE SE DEVE DIZER AO CÔNJUGE

Steve Stephens

 

 

Um casamento feliz é um porto seguro onde podemos relaxar e nos recuperar das tensões do dia-a-dia. Precisamos ouvir coisas positivas de nosso companheiro ou companheira. Da mesma forma que eu reuni alguns amigos para relacionarem uma lista do que não se deve dizer ao cônjuge, eles também sugeriram o que gostariam de ouvir.

Belo trabalho!

Você é maravilhoso(a).

O que você fez foi muito bom.

Você está deslumbrante hoje. Eu não me completo sem você.

Agradeço tudo o que você tem feito por mim em todos esses anos.

Você está em primeiro lugar na minha vida, antes dos filhos, da carreira, dos amigos, de tudo.

Estou feliz por ter-me casado com você.

Você é o(a) meu (minha) melhor amigo(a).

Se tivesse de começar tudo de novo, eu me casaria com você.

Corno quis ter você ao meu lado hoje!

Senti sua falta hoje.

Não consegui parar de pensar em você hoje.

É bom acordar a seu lado.

Você sempre será o meu amor.

Adoro ver o brilho em seus olhos quando você sorri.

Como sempre, você está com uma ótima aparência hoje.

Eu confio em você.

Eu sempre posso contar com você.

Você faz com que eu me sinta bem.

Estou muito orgulhoso(a) por ter-me casado com você.

Sinto muito.

O erro foi meu.

Do que você gosta?

Em que você está pensando?

Quero ouvir com atenção.

Você é muito especial.

Não posso imaginar viver sem você.

Eu gostaria de ser um(a) companheiro(a) melhor.

O que posso fazer para ajudar você?

Ore por mim.

Estou orando por você hoje.

Eu aprecio cada momento que passamos juntos.

Obrigado(a) por me amar.

Obrigado(a) por me aceitar.

Obrigado(a) por ser meu (minha) companheiro(a).

Você torna meus dias mais brilhantes.

DE MAIOR VALOR

Jerry B. Jenkins

 

 

Um amigo meu, pai de duas filhas, admite que não se importa de amedrontar um pouco os rapazes. Suas filhas sentem-se constrangidas quando ele pede para ficar alguns momentos a sós com os namorados delas, e acham que seria melhor ele transmitir aos rapazes a ideia de que é um pai legal, não um pai mesquinho e protetor. Mas existem certas situações que merecem um tratamento meio desajeitado. Os rapazes podem pensar que esse tipo de pai é superprotetor. Contudo, para os pais que têm filhas, isso não existe.

Outro amigo meu usa a analogia de um carro esportivo para expressar-se com mais precisão. Ele diz ao rapaz:

- Se eu tivesse um carro esportivo raro e caríssimo e lhe emprestasse para dar uma voltinha com ele, você tomaria muito cuidado, não é verdade?

- Oh, claro que sim, senhor.

- E você cuidaria melhor dele do que do seu, certo?

- Sim, senhor.

- Eu também não deveria imaginar que você sairia por aí cantando pneus, deveria?

- Não, senhor.

- Então, deixe-me dizer uma coisa, de homem para homem, para que as coisas fiquem bem claras. Para mim, minha filha tem um valor infinitamente maior que qualquer carro. Você entende aonde quero chegar? Eu a estou emprestando a você por algumas horas, e não gostaria de saber que ela foi tratada com menos cuidado ou respeito que recebe de mim. Sou responsável por ela. É minha filha.

Eu estou confiando em você. E essa confiança não admite uma segunda chance. Entendeu?

A essa altura, o rapaz deve estar imaginando por que não escolheu outra garota para sair. Ele se limita a balançar a cabeça positivamente, incapaz de falar. Na maioria das vezes, leva a moça para casa antes do horário prometido. Talvez a filha se queixe da atitude do pai, mas, no fundo, sente-se amada e querida, e você pode ter certeza de que ela se casará com um homem que a tratará dessa maneira.


 

UM FILHO QUE CAUSOU TANTAS LÁGRIMAS

Ruth Bell Graham

 

 

Santo Agostinho não foi sempre uma pessoa piedosa. Sua mãe, Mônica, ensinou-lhe as doutrinas do Cristianismo e orava por ele, mas a mente incrível de seu filho a deixava atormentada. Certo dia, quando era adolescente, ele avisou que estava abandonando sua fé em Cristo para seguir uma heresia moderna P Passou a ter uma vida imoral. E Agostinho nunca fez as coisas pela metade. Foi o melhor e o primeiro aluno no colégio e tornou-se o melhor e o primeiro nas festas mundanas da juventude.

Eu não conseguia distinguir a diferença entre o claro brilho da afeição e a escuridão da luxúria... Eu não conseguia permanecer dentro do reino da luz, onde a amizade liga uma alma a outra...

E, assim, eu poluí o riacho da amizade com as águas imundas da luxúria.2 Não dei ouvidos ao clangor dos grilhões de minha mortalidade, ao castigo do orgulho que existia em minha alma, e afastei-me de Ti, e Tu me deixaste sozinho. Fui atirado de um lado para o outro, vivi de maneira dissoluta e desregrada, mergulhei fundo em minhas fornicações, e Tu preservaste a Tua paz, oh, Tu, minha alegria tardia!...3

Cada um de nós tem uma maneira própria de pecar. Alguns se deixam enganar porque seu pecado é socialmente aceitável; afinal, aquele pecado não é tão grave assim. Outros sofrem as consequências porque seu pecado não é aceito pela sociedade; vão parar na cadeia ou são desprezados pelas pessoas que costumavam chamá-los de amigos. A história de Agostinho é igual à nossa:

A perda da fé sempre ocorre quando os sentidos começam a despertar. Nesse momento crítico, em que os instintos naturais afloram, na maioria das vezes a consciência das coisas de natureza espiritual fica ofuscada ou totalmente destruída. Não é a razão que afasta o jovem de Deus, é a carne. O ceticismo só serve para criar desculpas para a nova vida que ele está levando.

Mônica, contudo, continuou a orar. Orava pelos pecados e pela heresia do filho. Orava pela luta do filho com Deus. E Agostinho sabia disso.

Passaram quase nove anos, nos quais eu chafurdei na lama do mais profundo abismo e na escuridão da hipocrisia... Durante todo esse tempo, aquela viúva casta, piedosa e sensata... não cessou de orar a Ti, suplicando em meu favor. E suas orações chegaram à Tua presença; contudo, Tu continuaste a permitir que eu me envolvesse cada vez mais naquela escuridão.

Aqueles anos não foram fáceis para Mônica. Qualquer mãe que tenha um filho perdido na escuridão sabe disso. Foram anos de sofrimento. Finalmente, ela recorreu ao bispo, um homem devoto que conhecia muito bem a Bíblia, e pediu-lhe que conversasse com Agostinho para apontar seus erros. O bispo recusou-se.

Naquela época, Agostinho tinha a fama de ser um ótimo orador e debatedor.

Em vez de conversar com Agostinho, o bispo dirigiu sábias palavras de conforto a Mônica, dizendo que uma mente tão inteligente como a de seu filho enxergaria o caminho certo por meio das decepções. Citou o próprio exemplo - ele havia sido maniqueísta.

Mônica não se sentiu confortada com aquelas palavras. Continuou a implorar ao bispo em meio a rios de lágrimas. Finalmente, cansado diante da tenacidade daquela mulher e, ao mesmo tempo, sem saber o que fazer diante de tanto sofrimento, o bispo disse:

- Vá, vá! Deixe-me em paz. Continue a viver sua vida. Não é possível que um filho, que lhe causa tantas lágrimas, possa se perder.

Palavras ásperas entremeadas de bondade e compaixão.

O filho rebelde continuou a fugir de sua mãe e de Deus. Fugiu durante muitos anos. Um dia, porém, Agostinho deu ouvidos a Santo Ambrósio, bispo de Milão, o religioso mais conceituado da época.

Exausto depois de tantos anos de fuga, convicto e quebrantado, Agostinho arrependeu-se e aceitou Jesus.

Segundo os historiadores e estudiosos cristãos, Santo Agostinho modificou o curso da História. Suas obras foram e continuam sendo mais lidas do que as de quase todos os outros autores ao longo dos séculos. Ele também é capaz de falar à geração atual como que transmitindo uma mensagem de coração para coração. Santo Agostinho levou a bom termo as esperanças e as orações piedosas de sua mãe. Alguns dizem que ele foi uma ferramenta usada por Deus para manter acesa a chama do Novo Testamento quando o Império Romano desmoronou. Pouco tempo depois que o Filho Pródigo voltou para casa, sua mãe lhe disse que não tinha mais motivos para viver. Passara a vida inteira desejando vê-lo voltar e aceitar Jesus. Nove dias depois, ela morreu.

O pai do Filho Pródigo do livro de Lucas estava tão ansioso por ver o filho retomar que o avistou quando "vinha ele ainda longe".

Mônica fez o mesmo. Ela o seguia de longe enquanto ele fugia; reclamava de seus modos rebeldes quando ele voltava para casa. Nunca parou de orar pelo filho que lhe causou tantas lágrimas. Agostinho aprendeu com ela uma lição que muitos filhos pródigos têm aprendido a respeito de nosso Pai celestial: "A única maneira de um homem se perder é afastando-se de Ti; e, se ele afastar-se de Ti, para onde irá? Ele só poderá fugir de Tua misericórdia rumo à Tua ira. " Deus deseja ardentemente mudar as pessoas, afastando-as do foco de sua ira e levando-as em direção à sua misericórdia. É terrivelmente penoso ver um filho ou uma filha escolher o próprio caminho e segui-lo, mas devemos fazer o mesmo que a mãe de Agostinho. Foi assim que Jesus nos ensinou. Espere por eles, ore por eles e nunca pare de orar por eles. E, depois, olhe para a estrada com esperança. Talvez você possa ver seu filho, aquele que lhe causou tantas lágrimas, surgindo em meio a uma nuvem de poeira no horizonte.


 

CONCEDE-ME UM FILHO

General Douglas A. MacArthur

 

 

Concede-me um filho, ó Senhor, que seja forte o suficiente para entender quando está fraco, que seja corajoso o suficiente para admitir que está com medo: um filho que tenha orgulho e que não se curve diante de uma derrota honesta, e que seja humilde e cavalheiro diante da vitória.

Concede-me um filho cuja espinha dorsal não se dobre: um filho que te conheça - e que saiba que a pedra fundamental do conhecimento é conhecer a si mesmo.

Conduze-o, eu oro, não no caminho da facilidade e do conforto, mas sob a força e o aguilhão das dificuldades e desafios. Permite que ele aprenda a permanecer firme na tempestade: permite que ele aprenda a ter compaixão pelos que caem.

Concede-me um filho cujo coração seja límpido, cujos objetivos sejam altos: um filho que saiba dominar-se e não que tente dominar outros homens: um filho que aprenda a rir, mas que também nunca desaprenda a chorar; um filho que pense no futuro, sem nunca esquecer o passado.

E depois que meu filho for tudo isto, eu oro, acrescenta-lhe um pouco de senso de humor, de modo que ele possa ser sempre sério, mas que nunca se comporte de maneira muito séria. Dá-lhe humildade para que ele possa sempre lembrar-se da simplicidade da verdadeira grandeza, da mente aberta para a verdadeira sabedoria, da humildade da verdadeira força. E, depois, permite que eu, seu pai, me atreva a murmurar: "Minha vida não foi em vão."


 

GRANDE DAMA

Tim Hansel

 

 

Lembro-me dos tempos em que eu estava na quarta série e você costumava ficar acordada até altas horas só para me fazer uma fantasia de Zorro para a festa de Halloween. Eu sabia que você era uma boa mãe, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me de quando você tinha dois empregos, de quando você corria para o salão de beleza em frente a nossa casa para que nossa família não passasse necessidades. Você trabalhava horas a fio e, mesmo assim, conseguia sorrir o tempo todo. Eu sabia que você trabalhava muito, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me do dia em que cheguei tarde em casa... na verdade, era perto de meia-noite, talvez um pouco mais, e eu lhe contei que ia representar o papel de rei na peça da escola no dia seguinte. Você ficou entusiasmada e deu um jeito de criar um manto púrpura de rei com pele de arminho (feita de algodão com leves pinceladas de tinta preta). Depois de todo aquele trabalho, eu esqueci de me virar no palco, e ninguém viu o resultado de todo o seu esforço. Mesmo assim, você foi capaz de rir, amar e apreciar aqueles momentos. Eu sabia que você era uma mãe inigualável, que podia transmitir ânimo em qualquer situação, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me de quando parti a cabeça ao meio pela sexta vez consecutiva, e você disse ao pessoal da escola:

- Ele vai ficar bom. Só não pode esforçar-se muito. Vou voltar mais tarde para ver como ele está.

O pessoal da escola e eu sabíamos que você era durona, mas eu não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me dos tempos do grupo escolar e do ginásio quando você me ajudava a fazer os deveres de casa, quando você fazia roupas para eu usar nas festas da escola, quando você assistia a todos os meus jogos. Naquela época, eu sabia que você faria de tudo para ajudar seus filhos, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me do dia em que levei 43 colegas para casa às 3h30 da madrugada, quando eu trabalhava na Young Life [uma organização cristã de jovens] e perguntei a você se eles poderiam passar o resto da noite em casa e tomar o café da manhã. Lembro-me de que você se levantou às 4h30 para fazer esse trabalho heroico. Naquela época, eu sabia que você era uma mãe alegre e generosa, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me de quando você assistia a meus jogos de basquete e de futebol no ginásio e ficava tão empolgada que chegava a bater na pessoa à sua frente com aquelas bolas de lã coloridas. Lembro-me até de ver você torcendo por mim no meio da quadra ou do campo. Naquela época, eu sabia que você era uma pessoa incentivadora, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me de todos os sacrifícios que você fez para que eu fosse estudar na faculdade de Stanford - de seus trabalhos extras, das encomendas que você me mandava regularmente, das cartas que me transmitiam a certeza de que eu não estava só. Eu sabia que você era uma grande amiga, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

Lembro-me do dia da formatura em Stanford, quando decidi trabalhar por 200 dólares por mês para cuidar de crianças do ministério de jovens Young Life. Embora você e papai tivessem pensado que eu havia voltado ao primeiro degrau da escada, você continuou a incentivar-me. Lembro-me de quando você foi me ajudar a instalar-me no pequeno apartamento de um cômodo. Você deu um toque especial, de amor, a uma moradia tão simples. Naquela época - e em várias outras - eu me dei conta de que você era muito criativa, mas não imaginava que fosse uma grande dama.

O tempo passou, eu fiquei mais velho, casei e constituí família.

Você assumiu o papel de avó, apesar de nunca ter envelhecido.

Naquela época, eu sabia que Deus havia esculpido um lugar especial na vida quando a criou, mas não imaginava que você fosse uma grande, uma grande dama.

Sofri um acidente. A vida tornou-se difícil para mim. Mas, como sempre, você permaneceu a meu lado. Algumas coisas, pensei, nunca mudam, e fiquei profundamente grato por- isso. Eu me dei conta do que já sabia havia muito tempo - que você era uma ótima enfermeira - mas não imaginava que fosse uma grande, uma grande dama.

Escrevi alguns livros e, aparentemente, os leitores gostaram deles. Você e papai ficaram tão orgulhosos que chegaram a oferecer exemplares dos livros a seus amigos, só para mostrar as proezas de um de seus filhos. Naquela época, eu me dei conta da grande promotora de vendas que você era, mas não imaginava que fosse uma grande, uma grande dama.

Os tempos mudaram... os anos passaram, e um dos homens mais notáveis que conheci morreu. Ainda me lembro de você no culto fúnebre, em pé e com o corpo ereto, usando um lindo vestido roxo e dizendo às pessoas:

- Somos uma família muito abençoada e estamos agradecidos por essa "vida tão bem vivida".

Naqueles momentos, eu vi uma mulher que conseguia permanecer firme e agradecida em meio a circunstâncias tão difíceis. Comecei a descobrir que você é uma grande, uma grande dama.

Neste último ano, quando você teve de viver mais sozinha que nunca, tudo o que observei e passei em todos aqueles anos juntou-se e transformou-se em uma coisa nova para mim. Agora seu riso é mais feliz, sua força é mais intensa, seu amor é mais profundo e estou descobrindo que você é verdadeiramente uma grande, uma grande dama.

Obrigado por ter-me escolhido para ser um de seus filhos.


 

SE TIVÉSSEMOS ANDADO MAIS DEPRESSA

Billy Rose

 

 

Havia um rapaz que cuidava, com o pai, de um pequeno pedaço de terra. Várias vezes por ano, eles lotavam o velho carro de boi com legumes e dirigiam-se até a cidade mais próxima para vender sua produção. Com exceção do nome e dos cuidados dedicados ao pedaço de terra, pai e filho tinham poucas coisas em comum. O homem mais velho levava a vida de maneira pacata. O mais novo estava sempre com pressa... era "dinâmico".

Certa manhã ensolarada, eles se levantaram bem cedo, atrelaram o boi ao carro e iniciaram a longa viagem. O filho imaginou que, se eles andassem mais depressa, rodando o dia inteiro e a noite inteira, conseguiriam vender a mercadoria no início da manhã seguinte. Com essa ideia em mente, ele cutucava o boi com uma varinha, insistindo para que o animal andasse mais rápido.

- Vá com calma, filho - disse o pai -, para você ter vida mais longa.

- Se chegarmos ao mercado antes dos outros, vamos ter mais chances de conseguir preços melhores - argumentou o filho. O pai não replicou. Cobriu os olhos com o chapéu e começou a cochilar. Ansioso e irritado, o rapaz voltou a cutucar o boi para que ele andasse mais rápido, mas seus passos continuavam no mesmo ritmo.

Depois de levarem quatro horas para percorrer um trecho de mais de seis quilômetros, eles chegaram diante de uma casinha. O pai despertou, sorriu e disse:

- Aqui é a casa de seu tio. Vamos entrar para cumprimentá-lo.

- Mas já estamos uma hora atrasados - queixou-se o apressadinho.

- Alguns minutos a mais não vão fazer diferença. Meu irmão e eu moramos tão perto, mas só nos vemos raramente - disse o pai, com voz pausada.

Impaciente e zangado, o rapaz ouviu os dois homens conversarem e rirem por quase uma hora. No restante da viagem, o pai assumiu o comando do carro de boi. Quando eles chegaram a uma bifurcação na estrada, o pai conduziu o carro para a direita.

- O caminho pela esquerda é mais curto - disse o filho.

- Eu sei - replicou o pai -, mas este é mais bonito.

- O senhor não se preocupa com o horário? - perguntou o jovem, com impaciência.

- Claro que me preocupo! É por isso que gosto de ver o que é bonito e de apreciar cada momento.

Ao longo do caminho sinuoso, havia lindas campinas, flores silvestres e um riacho de águas formando pequenas ondulações.

O rapaz não viu nada disso por estar zangado, preocupado e fervendo de ansiedade. Não chegou sequer a ver o lindo pôr-do-sol naquele dia.

No momento do crepúsculo, eles estavam passando por um imenso jardim colorido. Ao sentir o perfume das flores e ao ouvir o borbulhar das águas do riacho, o pai parou o carro.

- Vamos dormir aqui - ele disse, com um suspiro.

- É a última vez que viajo com o senhor - vociferou o filho. O senhor está mais interessado em ver o pôr-do-sol e em sentir o perfume das flores do que em ganhar dinheiro!

- Essa foi a coisa mais bonita que você disse nesse tempo todo - sorriu o pai.

Alguns minutos depois, ele estava roncando - enquanto o filho olhava para as estrelas. A noite arrastou-se lentamente, e o rapaz não conseguiu descansar.

Antes do alvorecer, o jovem sacudiu o pai para despertá-Io. Atrelaram novamente o boi ao carro e prosseguiram a viagem.

Depois de rodarem quase dois quilômetros, eles avistaram outro fazendeiro - um homem totalmente desconhecido - tentando tirar seu carro de boi de uma vala.

- Dê uma mãozinha a ele - cochichou o pai.

- Para perdermos mais tempo ainda? - explodiu o rapaz.

- Relaxe, filho... você também poderia ter caído em uma vala.

Devemos ajudar quem precisa, não se esqueça disso.

O rapaz olhou para o outro lado, zangado.

Já eram quase 8 horas da manhã quando eles conseguiram tirar o carro de boi da vala. De repente, um grande clarão iluminou o céu, seguido de um ruído semelhante ao de um trovão. O céu estava escuro atrás das montanhas.

- Parece que está chovendo muito na cidade - disse o pai.

- Se tivéssemos andado mais depressa, já teríamos vendido toda a nossa mercadoria - resmungou o filho.

- Vá com calma... para ter vida mais longa, para apreciar a vida por mais tempo - aconselhou o bondoso pai.

A tarde já estava terminando quando eles chegaram ao topo da montanha, de onde se avistava a cidade. Eles pararam e ficaram olhando para baixo durante um longo, longo tempo. Nenhum dos dois proferiu uma só palavra. Finalmente, o jovem pousou a mão no ombro do pai e disse:

- Agora entendo o que o senhor queria dizer, pai.

Eles deram meia-volta com o carro de boi e começaram a afastar-se lentamente do local onde antes existia a cidade de Hiroshima.

 


 

O MARTELO, A LIMA E A FORNALHA

Charles R. Swindoll

 

 

Foi o encantador Rutherford quem disse, em meio a dolorosas provações e magoas:

- Louvado seja Deus pelo martelo, pela lima e pela fornalha!

Vamos pensar nisso. O martelo é um instrumento útil e jeitoso. É uma ferramenta essencial e de grande serventia para fincar os pregos no lugar. Cada martelada força-os a se aprofundar, enquanto a cabeça do martelo os golpeia.

Mas, se o prego tivesse sensibilidade e inteligência, nos contaria o outro lado da história. Para o prego, o martelo é um patrão bruto e implacável - um inimigo que adora dominar pela força. Essa é a visão que o prego tem do martelo. É correta, exceto por um detalhe.

O prego se esquece de que tanto ele como o martelo são dominados pelo mesmo operário. O operário decide que "cabeça" deverá ser martelada... e que martelo será usado para fazer o trabalho.

Essa decisão depende da soberania do carpinteiro. Deixemos o prego de lado, mas sempre nos lembrando de que ele e o martelo são dominados pelo mesmo operário e que seu ressentimento vai desaparecendo à medida que ele se rende ao carpinteiro sem queixar-se. A mesma analogia se aplica ao metal que suporta o desgaste da lima e o calor da fornalha. Se o metal esquecer-se de que ele e as ferramentas são objetos dos cuidados do mesmo artesão, isso aumentará o ódio e o ressentimento. O metal deve ter em mente que o artesão sabe o que está fazendo... e que faz o que é melhor.

As mágoas e as decepções são semelhantes ao martelo, à lima e à fornalha. Apresentam-se de todas as formas e tamanhos: um romance rompido, uma enfermidade prolongada que leva à morte prematura, um objetivo não alcançado na vida, um lar ou casamento desfeito, uma amizade desfeita, uma criança desobediente e rebelde, um diagnóstico médico aconselhando "cirurgia imediata", uma repetição de ano no colégio, uma depressão que não desaparece, um hábito que não podemos dominar. Às vezes, as mágoas surgem inesperadamente... outras vezes, surgem depois de muitos meses, minando lentamente como se corroessem a terra.

Será que estou me dirigindo a um "prego" que começou a ressentir-se dos golpes do martelo? Você está à beira do desespero, pensando que não tem condições de suportar mais um dia de mágoas?  É isso que o abate? Por mais dificuldade que você tenha em acreditar nisso hoje, o Mestre sabe o que está fazendo. Seu Salvador conhece até onde você pode chegar. Os golpes, os desgastes e os pontos de fusão existem para remodelá-Io, não para destruí-lo. Seu valor aumenta cada vez mais quando Ele passa longo tempo debruçado sobre sua vida.


 

TRÊS HOMENS E UMA PONTE

Sandy Snavely

 

 

Aponte passou a ser uma espécie de boa amiga para mim. Quando comecei a atravessá-Ia todas as manhãs a caminho do trabalho, ela era o sinal de que minha longa viagem estava quase no fim. Porém, depois de algum tempo, comecei a observar as pessoas que a atravessavam a pé. A Ponte de Ross Island é uma das poucas de Portland que permite o trânsito de pedestres e de veículos. Havia um jovem negro por quem eu passava quase todas as manhãs. Seu rosto inteligente e bonito demonstrava determinação e motivação. Comecei a orar por ele, por seu dia e por sua vida.

Quando não o via na ponte, eu me preocupava. Agora, ele não passa mais por ali. Eu gostaria de saber onde ele está, como está. Seria um estudante? Teria terminado o curso no colégio? Teria ficado doente por ter enfrentado os dias frios e impiedosos do inverno? Ou teria comprado um carro e passara a percorrer diariamente, como eu, aquele trecho sobre quatro rodas?

Há também o homem idoso que, vez por outra, é visto carregando uma enorme cruz de metal no ombro e um cartaz nas costas onde se lê: "Jesus salva o pecador do inferno". Sinto sempre um nó no estômago quando o vejo. Ele não é uma pessoa por quem eu possa orar com tanta facilidade como oro por meu jovem amigo negro.

Talvez porque minha fé não seja tão ousada quanto a dele. Talvez porque a cruz que ele carrega, embora aparentemente grande e pesada, seja transportada com a ajuda de um carrinho com rodas.

Existe alguma coisa naquela cena que me deixa perturbada.

Mas a imagem que está gravada mais fundo em minha memória é a de um homem sem teto e seu cão. O homem estava com a barba

por fazer e os cabelos desgrenhados. Usava uma velha jaqueta de camuflagem do exército, calça e botas militares. Seus cabelos eram compridos e ainda não tinham tons grisalhos de velhice. Sua mochila era muito pesada, forçando seus ombros para a frente. Embora a cena fosse comum naquele local, cheguei à conclusão de que era o cão que transmitia tanto amor a ela. Era um cão Labrador preto, grande, velho e visivelmente leal. Também carregava uma mochila. A mochila tinha bolsos, cujos pesos eram distribuídos proporcionalmente de cada lado do corpo. O homem e seu cão deixavam transparecer uma imagem comovente de verdadeira amizade. Quantas vezes em minha vida eu desejei que meus fardos fossem carregados de maneira tão carinhosa.

Meu jovem amigo negro me fez pensar em orar em seu favor, porque ele era carente, espiritualmente falando. O senhor idoso com a cruz ilustrou de modo cruel a necessidade de bondade e de autenticidade quando falo de minha fé. Mas foi o homem sem-teto e seu cão que me fizeram lembrar do profundo anseio que cada alma sente, do grito de cada coração: ter alguém ao nosso lado cujo amor seja tão incondicional e tão desinteressado que se recuse a censurar ou julgar os "comos" e os "porquês" da carga, mas que nos acompanhe e nos ajude a carregar nosso fardo. Existe um enorme privilégio tanto em se ter uma carga para carregar como em ser o carregador da carga, tanto em necessitar de ajuda como em prestar ajuda.

Em minha caminhada pela vida, sei que haverá muitas pontes para eu atravessar. Quer seja tentando prosseguir, quer lutando ao lado de um amigo para chegar ao outro lado, vou guardar em meu coração as preciosas lições que aprendi com os três homens e a ponte.


 

INCRÍVEL

David Jeremiah

 

 

Aconteceu por volta das 12 horas do Dia das Mães. De acordo com uma notícia divulgada em todo o país, Michael Murray, de 27 anos, resolveu levar seus dois filhos ao hospital de Massachusetts, onde a mãe deles estava trabalhando como enfermeira no centro cirúrgico. A família queria levar um presente do Dia das Mães para ela: um colar de ouro com a inscrição "Mãe Número Um" e uma rosa. Depois de cumprirem a missão, o pai e os dois filhos retornaram à garagem interna e escura para pegar o carro.

Murray pôs Matthew, de três meses, no assento de bebê, colocou-o em cima do teto solar do carro e dirigiu a atenção à irmãzinha de Matthew, de 21 meses, para prender o cinto de segurança ao redor dela. Distraído, Murray sentou-se no banco do motorista e deu partida, esquecendo-se de Matthew no teto do carro.

Saindo lentamente da garagem escura, Murray dirigiu o carro pelas ruas movimentadas em direção à rodovia interestadual 290.

Apesar do trânsito pesado, ninguém buzinou nem chamou-lhe a atenção para dizer que havia alguma coisa errada. Ao entrar na via expressa que corta a cidade, Murray acelerou até atingir a velocidade de 80 km/h. De repente, ele ouviu um barulho no teto. Foi quando o assento de bebê, com Matthew amarrado nele, começou a escorregar. Ele conta:

- Olhei para o lugar no carro onde Matthew deveria estar e depois para o espelho retrovisor. Vi meu filho escorregando em direção à pista, preso ao assento de bebê. E foi ali que ele caiu. No meio da pista, onde outros carros deveriam passar...

O assento de bebê voou do teto do carro, caiu na pista e foi deslizando com quase a mesma velocidade dos veículos que vinham no mesmo sentido. O dono de um antiquário chamado James Boothby, que vinha atrás do carro de Murray, acompanhou o desenrolar de toda a cena. Viu o peque nino Matthew voar do teto do carro e cair na pista.

Ele conta:

 

Vi uma coisa no ar. A princípio, pensei que alguém tivesse atirado um objeto pela janela do carro. Em seguida, notei algo parecido com uma boneca. Quando a boneca abriu a boca, eu me dei conta de que era um bebê caído na pista. Ele deu um ou dois saltos sobre o asfalto, mas não chegou a se inclinar. Simplesmente caiu na pista e deslizou um pouco. Pisei com força no freio e atravessei o carro na estrada para que nenhum outro veículo conseguisse passar. Saltei do carro, corri e avistei um bebê, sem nenhum arranhão, preso ao assento. Peguei-o nos braços e entreguei-o a seu pai, que estava petrificado.

 

Essa história verdadeira tem de ser creditada a um milagre nota 10, que eu e você já conhecemos. Deus interveio naquela situação para que não acontecesse uma incrível tragédia.


 

LUTAS

Recontada por Alice Gray

 

 

Quando ele era menino, adorava borboletas. Oh, não para capturá-las nem para  colocá-las  em molduras,  mas para admirar  seus desenhos e hábitos.

Agora, depois de adulto e tendo um filho recém-nascido, ele voltou a ficar fascinado por um casulo encontrado à margem de um caminho no parque. Um ramo havia despencado da árvore, e o casulo preso a ele caiu intacto ao chão.

Conforme havia visto sua mãe fazer, o homem enrolou o casulo com extremo cuidado em um lenço e o levou para casa. O casulo passou a morar temporariamente dentro de um pote de conservas de boca larga com furos na tampa. Foi colocado sobre a estante acima da lareira para  poder  ser  visto  facilmente  e  protegido  do gato curioso da família, que  adoraria  ver aquela  bolinha  de fios de seda entre suas patas.

O homem observava o casulo com atenção. O interesse de sua esposa durou apenas alguns minutos, mas ele continuou a examiná-lo. A princípio, quase imperceptivelmente, o casulo movimentou-se. O homem aproximou-se mais um pouco e viu que o casulo estremecia pela atividade que havia dentro dele. Nada mais aconteceu. O casulo continuou grudado ao ramo e não havia nenhum sinal de asas.

De repente, o estremecimento intensificou-se, fazendo o homem imaginar que a borboleta morreria de tanto lutar para sair. Ele tirou a tampa do pote, pegou uma espátula afiada na gaveta de sua escrivaninha e fez uma minúscula incisão no lado do casulo.

Quase que imediatamente, uma asa apareceu seguida da outra. A borboleta estava livre!

Ela parecia feliz por estar livre e caminhou ao redor da boca do pote e pela beira da estante sobre a lareira. Mas não voou. O homem imaginou que as asas necessitassem de tempo para secar, mas o tempo passou e a borboleta não saiu do lugar.

Preocupado, o homem chamou um vizinho, professor de ciências no colégio. Contou-lhe que havia encontrado o casulo e que o colocara no pote. Relatou a respeito do estremecimento do casulo enquanto a borboleta tentava sair. Quando ele descreveu a pequena incisão que fez no casulo, o professor o interrompeu:

- Ah, então o motivo foi esse. A luta é que dá ·forças para a borboleta voar.

O mesmo acontece conosco. Às vezes, são as lutas na vida que fortalecem nossa fé.


 

VOCÊ QUER SER CURADO?

Kay Arthur

 

 

"Você quer ser curado?" Superficialmente, parece uma pergunta tola! A princípio, pensamos: "Quem  não gostaria de ser curado?".

Enquanto faço essas perguntas, minha mente voa até um homem sentado diante de um dos portões da Cidade Velha de Jerusalém. Recentemente, um homem sentado no chão chamou-me a atenção, enquanto eu saía da Cidade Velha em direção ao tráfego barulhento dos ônibus lotados de árabes até a porta, enquanto eu ouvia os sons das buzinas dos impacientes motoristas de táxi, enquanto eu via o brilho do sol desaparecendo em meio às ruas estreitas, muradas e apinhadas da Cidade Velha. Ele ficava conversando alegremente com os outros colegas mendigos até aparecer um turista.  Naquela altura, a conversa cessava, e ele levantava os olhos tristes em silêncio e estendia a mão pedindo uma esmola. Com a outra mão, ele levantava a perna da calça para exibir uma ferida aberta - uma ferida arroxeada, coberta de manchas brancas purulentas que brilhavam ao sol.

Meu coração de enfermeira me fez parar. Eu queria curvar-me e cobrir a ferida aberta para protegê-la da poeira levantada pelos carros que passavam em velo c id a d e pelo portão. Sua  perna  necessitava de  cuidados.  A  ferida  deveria  ser  lavada ,  medicada  e  tratada por alguma pessoa de sensibilidade. Se não recebesse cuidados, aumentaria de tamanho até alcançar o osso, e talvez aquele homem perdesse  a perna!

Atraída por suas súplicas, parei para examinar a perna e olhei dentro de seus olhos tristes, mas minha amiga puxou-me gentilmente pelo braço,  forçando-me a seguir  nosso rumo. Eu  era uma turista e não entendia nada dessas coisas. No caminho, ela me contou que aquele homem não queria ser curado. Ganhava a vida com aquela ferida. Uma pessoa que ficava sentada ali, em meio ao pó e à sujeira de Jerusalém,  recebendo  a  piedade  das  pessoas  acompanhada de algumas moedas, não tinha necessidade de enfrentar as responsabilidades como qualquer outro cidadão de Israel.

Aquele me digo ferido poderia ter sido curado. As portas do hospital estavam abertas para ele e havia remédios para tratá-lo, mas o mendigo não queria sarar. Quando me virei para trás com curiosidade, dirigi um último olhar a alguém que poderia estar em condições melhores.

O homem mencionado em João 5 estava enfermo havia 38 anos. Não sabemos por quanto tempo ele ficou estendido ao lado do tanque de Betesda. Só sabemos que, quando Jesus passou por ali e perguntou-lhe se ele queria ficar curado, o homem teve de fazer uma escolha: continuar com a mesma vida ou aceitar ser curado.

Imagine, querido leitor, se Jesus lhe perguntasse se você gostaria de ficar curado - emocional, física e espiritualmente. O que você responderia?


 

HERANÇA

Sally J. Knower

 

 

A velha cadeira de balanço rangeu e estalou quando Jenny a empurrou com a mão. As molas do assento haviam furado a almofada de crina de cavalo e estavam à mostra. Apesar da iluminação fraca do sótão, ela podia enxergar a madeira manchada e o verniz descascado. Ela arrastou aquela relíquia até a escada e começou a descer com a cadeira, degrau por degrau, equilibrando-se desajeitadamente por causa de seu ventre volumoso. Quando chegou ao pé da escada, ela esticou os músculos das costas.

- Jenny Lester, o que você fez? Você não devia ter descido a escada com essa cadeira - repreendeu Audrea Lester.

- Não se preocupe, eu estou bem, mãe Lester.

O bebê contorceu-se e chutou em sinal de protesto. Sorrindo, ela passou a mão de leve na barriga para agradar aquele ser rebelde lá dentro e disse a ele:

- Espere um pouco. Um dia, vou balançar você na cadeira da vovó Lester.

Clara e Harry Lester compraram a cadeira de balanço logo após o casamento, em 1889. Ela foi adquirida em uma loja de móveis usados em Lincoln, Nebraska, e transportada de carroça até a fazenda do casal nos arredores de Fairbury. Harry poliu a madeira.

Clara revestiu o encosto e o assento com almofadas de crina de cavalo. Até as crianças nascerem, somente visitas especiais, como o reverendo Jorganson, sentavam-se nela. Depois, Clara a colocou entre o fogão de lenha e a mesa na cozinha, um cômodo da casa com muitas utilidades.

Clara apossou-se da cadeira para embalar as crianças. Ela as deixava ali balançando, enquanto mexia a panela para evitar que o cozido queimasse. Entre o preparo de um pote de geleia em conserva e outro, ela dava um empurrãozinho na cadeira, à qual as crianças ficavam presas com uma toalha para que não caíssem.

Quando seu terceiro filho contraiu febre escarlate e começou a delirar, ela arrastava a cadeira para todos os lugares aonde ia.

Deus, se é verdade que estás aí, ela suplicava em tom afrontoso, ajuda-me a cuidar deste pequenino. Quando ele ficou curado, lágrimas de alívio molharam seu avental. Deus, acredito que tu és real. Obrigada por ter teres salvado meu filho. Agora ele é teu, Senhor; e eu também.

A cadeira tornou-se seu altar e seu pódio. Ela se sentava com as pernas cruzadas e inclinava o corpo em direção à lâmpada para ler a Bíblia. Depois, colocava-a de frente para um dos cantos da sala a fim de isolar-se para orar.

A cadeira acompanhava o ritmo das cantigas de ninar e dos hinos de louvor. Acompanhava também as batidas de seu pé quando Harry extraía uma música de sua concertina.

Clara remendava as meias de seus filhos e abria vagens de feijão sentada na ampla almofada da cadeira de balanço. Quando os netos nasceram, eles se balançavam nos braços da cadeira.

Sentada na cadeira, ela cativava sua descendência contando histórias de aventuras verdadeiras, como aquela sobre o dia em que o cão raivoso entrou correndo na fazenda sem morder ninguém, ou sobre o tornado que arrancou as telhas da casa e ninguém ficou ferido. Contava a história de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que sobreviveram depois de ficarem dentro de uma fornalha ardente, e a história de Davi, quando ele matou Golias.

A cadeira foi colocada perto do leito de Harry, enquanto ele lutava contra o câncer. Clara sentava-se atenta ao lado dele e segurava-lhe a mão. Depois que ele morreu, ela levou a cadeira para perto do fogão, perguntando a si mesma se um dia voltaria a sentir-se aquecida.

Os impostos aumentaram, mas o dinheiro não. Os recursos de Clara começaram a diminuir. A fazenda precisava ser vendida. Ela sentou-se na cadeira, balançando para a frente e para trás, enquanto as peças, os equipamentos e os móveis eram leiloados. Cada objeto que ia embora parecia uma parte dela que estava sendo arrancada.

Clara ficou apenas com a cadeira. Levou-a consigo quando foi morar com o filho mais novo, Robert, e sua esposa, Audrea.

Audrea abriu espaço para colocar a cadeira. Não combinava com a mobília francesa provençal da casa da cidade. Ela acolheu a sogra, mas Clara sentia-se desconfortável, como se fosse um grão de milho dentro de um sapato domingueiro.

Foi, então, que Jimmy nasceu. O último neto a ser embalado nos seus braços e a puxar seus cabelos. À medida que ele crescia, ela encolhia. A baixa oxigenação no cérebro apagou, aos poucos, sua memória. Ela só se lembrava de Deus e de sua cadeira. Ruídos estranhos - motores de carro, buzinas e brecadas bruscas interrompiam-lhe o sono. Clara passava horas agitadas, embrulhada em um cobertor, orando e desejando voltar para casa.

Após sua morte, a velha e desgastada cadeira foi deixada no quarto de Jimmy. Ele adorou a ideia. Usava-a para caçar tigres.

Usava-a como charrete puxada por cavalos. Fazia os deveres de casa sentado nela, ao mesmo tempo em que ouvia o som barulhento de seu rádio. Ali, ele sonhava e planejava seu futuro.

A cadeira começou a estalar sob o peso de um menino que se transformou em homem.

Quando ele foi para a faculdade, seu velho quarto ficou destinado a hóspedes e servia como sala de leitura. A cadeira de balanço sumiu.

Uma colega com o rosto cheio de sardas chamou a atenção de Jimmy, e ele tornou-se seu namorado quando estava no último ano.

Os dois se casaram. Jenny trabalhava enquanto ele frequentava o seminário. Recebeu o primeiro convite para ser pastor de uma igreja na mesma época em que ia ser pai.

O primeiro filho do casal começou a crescer no ventre de Jenny.

- Eu gostaria de ter conservado a cadeira de minha avó - disse Jimmy, acariciando o ventre de Jenny. - Você poderia embalar nosso filho nela.

- Ou nossa filha - contra-argumentou Jenny.

- A velha cadeira de balanço era especial. Fiquei muito orgulhoso quando ganhei aquela cadeira. Eu gostaria de saber onde ela está agora.

- Mãe Lester - perguntou Jenny na primeira ocasião em que viu a sogra depois daquela conversa com o marido. - O que foi feito da cadeira de balanço que Jimmy tinha no quarto dele?

- Está no sótão - respondeu Audrea.

- Eu gostaria de vê-la. Tive uma ideia.

- Vou mostrá-Ia a você. Está mal conservada. Você vai ver que o enchimento está saindo para fora da capa da almofada e a madeira está manchada - disse Audrea assim que acendeu a luz do sótão.

Jenny passou a mão pelo encosto da cadeira.

- As manchas não são tão fortes. Acrescentaram um toque especial à cadeira. Vai dar um pouco de trabalho, mas acho que ela pode ser restaurada. Posso tentar? Eu gostaria de fazer uma surpresa a Jimmy. Seria um ótimo presente de aniversário.

- Você pode fazer o que quiser com ela. Pode até trabalhar nela no antigo quarto de Jimmy.

Enquanto mãe Lester arrumava o quarto de visitas, Jenny desceu a escada com a cadeira. Estava ansiosa demais para iniciar o trabalho.

A linda cor de carvalho reapareceu depois que Jenny lixou cuidadosamente a antiga superfície. A madeira brilhou sob a nova camada de verniz. Jenny prendeu as molas no lugar. Ficaram escondidas debaixo de uma nova capa.

No dia da festa de aniversário de Jimmy, Jenny passou uma fita ao redor do espaldar da cadeira, como se fosse a faixa de "Miss América".

- Que arte você está aprontando, Jenny Lester? - perguntou Jimmy quando ela o conduziu escada acima até seu antigo quarto.

- O seu sorriso diz tudo.

- Feche os olhos até eu abrir a porta. Melhor ainda, cubra os olhos com as mãos. - Ele obedeceu sem pestanejar. - Não vale espiar por entre os dedos!

- Você está parecendo uma criança feliz - disse Jimmy, rindo. Tem certeza de que já está na idade deter um filho?

- Está bem - ela disse depois de tê-lo posicionado em frente à cadeira. - Pode olhar. Feliz aniversário!

- A cadeira de balanço da vovó Lester! Oh, querida, que maravilha! - ele exclamou enquanto passava a faixa de Miss América ao redor do corpo de Jenny.

Naquela noite, em casa, Jimmy colocou a cadeira ao lado da cama de casal e sentou-se nela com Jenny no colo.

- É melhor eu sair daqui - disse Jenny quando a cadeira começou a ranger e a estalar. - Ela está reclamando.

- Não - disse Jimmy enquanto Jenny tentava levantar-se. Você não vai a lugar nenhum. Ela não está reclamando. Está apenas conversando conosco.

- Quer dizer que ela também fala? Parece que tem vida própria - brincou Jenny.

- Ela representa uma herança - disse Jimmy. - Quando nosso filho nascer, vou contar a ele sobre a herança de fé que começou com a vovó Lester e atravessou quatro gerações para chegar até ele.

- Ou ela - contra-argumentou Jenny, sonolenta.


 

VELHICE - CHEGA MAIS CEDO DO QUE VOCÊ PENSA

Anônimo

 

 

Ela chega mais cedo do que você pensa - tudo fica mais distante agora do que era antes.

A esquina ficou duas vezes mais longe - e, no caminho, apareceu uma subida.

Observo que desisti de correr para pegar o ônibus - agora, o ponto ficou mais distante.

Parece que estão construindo escadas com degraus mais altos que antigamente, e você já notou como as letras dos jornais diminuíram?

Parece um absurdo pedir que alguém fale mais alto... todos falam tão baixo que mal consigo ouvi-los.

As roupas ficaram muito apertadas, principalmente nos quadris.

É praticamente impossível amarrar meus sapatos.

As pessoas estão mudando parecem mais jovens do que quando eu tinha a idade delas.

Por outro lado, as pessoas de minha idade estão muito mais velhas do que eu.

Outro dia, encontrei uma antiga colega de classe; ela estava tão velha que nem se lembrou de mim.

Eu me pus a pensar nessas coisas enquanto penteava os cabelos hoje de manhã.

Olhei no espelho e não me reconheci. Já não fazem mais espelhos como antigamente...


 

A ORQUESTRA

Judy Ursehel Straalsund

 

 

Havia uma cidade com uma orquestra. A Orquestra tinha todos os tipos de instrumentos que você pode imaginar.

De banjos a gaitas de fole, de flautins a pianos, de castanholas a cornetins.

Era uma honra e um privilégio fazer parte da Orquestra, apesar de não haver nenhuma exigência para ingressar nela. O Maestro havia convidado qualquer pessoa para participar, com uma condição: o contrato era para o resto da vida. Alguns músicos recusaram-se a fazer parte por temer que um contrato dessa natureza pudesse sufocar sua criatividade artística. Outros se preocuparam imaginando o que aconteceria se não gostassem da música que o Maestro escolhesse para eles tocarem.

O Maestro entregou a todos os seus músicos a partitura de uma peça que Ele havia composto chamada Grand Finale e pediu-lhes que a praticassem para tocá-Ia no Dia do Concerto. Cada setor da Orquestra assumiu seu papel com seriedade e estudou sua parte com esmero. Mas os músicos notaram que alguns setores da Orquestra estavam ensaiando a peça de maneira diferente.

- Vejam aqueles violinos - queixou-se o setor dos pistons. - Não existe harmonia nem motivo para eles tocarem daquela maneira.

Cada vez eles tocam diferente. Por que eles não fazem como nós, praticando as escalas e os estudos? Eles nem conhecem os princípios musicais básicos!

- Vou dizer uma coisa - resmungou um dos violinistas ao observar o ensaio dos pistons. - É difícil de acreditar que eles sempre fazem a mesma coisa. Deve ser cansativo demais! Por que eles não fazem como nós, permitindo que a alegria da música os conduza?

- Vocês acreditam nisso? - disse um dos percussionistas, com um suspiro. - Os fagotistas ficam o tempo todo naquela sala de estudos abafada e, depois, voltam para casa. Eles não têm experiência em tocar para outras pessoas. Ficaram parados no tempo.

- Chegamos até a duvidar de que eles assinaram o contrato disseram os fagotistas. - Aqueles percussionistas são muito ocupados.

Saem todas as noites e frequentam os piores lugares possíveis.

Devem ter pouco tempo para praticar.

Certo dia, os músicos tiveram a oportunidade de se reunir.

A conversa, é claro, girou em torno da maneira como cada um interpretava a partitura.

- É uma marcha de vitória - disse o trompetista, com convicção.

- Deve ser tocada com ar solene e triunfal.

- Não, não - afirmou o harpista. - É uma canção de amor... doce, alegre e terna.

- Que loucura! - interrompeu o clarinetista. - É um hino... para ser tocado com reverência e adoração.

Embora cada setor tivesse ensaiado várias vezes separadamente, os músicos não chegaram a um acordo na hora do ensaio geral.

Ninguém sabia como a peça ficaria no conjunto. E eles discordaram de maneira tão violenta sobre o momento e as condições da execução que acharam melhor não continuar a discutir o assunto.

A cidade ainda tem sua orquestra. Os grupos de músicos continuam a ensaiar. Mas aqueles que os ouvem se perguntam:

Estarão eles prontos para tocar juntos quando o Maestro levantar a batuta no Dia do Concerto?


 

RENDA-SE!

Billy Graham

 

 

Certo dia, enquanto brincava com um vaso muito valioso, um garotinho colocou a mão dentro dele e não conseguiu tirá-Ia.

Seu pai tentou ajudá-lo, mas não obteve êxito. Eles já estavam pensando em quebrar o vaso quando o pai disse:

- Vamos, meu filho, faça mais uma tentativa. Abra a mão, estique os dedos da maneira como estou fazendo e puxe-a com força.

Para sua surpresa, o garotinho disse:

- Não posso, papai. Se eu esticar os dedos, minha moeda vai cair dentro do vaso.

Sorria, se você quiser... quase todos nós somos iguais a esse garotinho, tão apegados às pequenas coisas do mundo que não podemos aceitar a libertação. Renda-se! Solte-a e permita que Deus conduza a sua vida.


 

DESGOVERNADOS

Cliff Schimmels

 

 

Em uma manhã de inverno, um ano antes de eu ingressar na escola, meu pai me convidou para ajudá-lo a alimentar as vacas. Achei que seria divertido. Vesti roupas grossas, calcei minhas luvas de couro amarradas por cordões, e saí com meu pai para assumir meu lugar no mundo do trabalho.

Era uma manhã agradável. Apesar do frio, o sol brilhava com intensidade, e o chão estava coberto com uma camada de neve.

Arreamos a dupla Babe e Blue e subimos a montanha com uma carroça cheia de feno. Quando encontramos as vacas, descarregamos o feno e iniciamos o caminho de volta para casa. De repente, meu pai teve uma ideia:

- Você gostaria de dirigir a carroça? - ele perguntou.

Eu respondi de maneira tipicamente machista. Gosto de dirigir qualquer coisa: carros, caminhões, carrinhos de golfe ou carroças puxadas por burros. Penso que isso me dá poder. Há uma sensação muito grande de poder quando estou no controle de alguma coisa maior do que eu, e isso faz bem ao meu ego masculino.

Peguei as rédeas, prendi-as nas mãos conforme meu pai me mostrou, e seguimos lentamente para casa. Piquei emocionado.

Estava no controle. Estava dirigindo. Mas a caminhada lenta deixou-me entediado. Decidi que, enquanto eu estivesse no controle, devíamos acelerar mais. Aticei os cavalos, e eles começaram a correr. A princípio, eles trotaram, e eu achei que o ritmo estava bom. Chegaríamos mais rápido em casa. Mas Babe e Blue tiveram outra ideia. Decidiram que, se corressem, chegaríamos mais rápido ainda.

Os cavalos puseram em prática sua ideia e começaram a correr.

De acordo com o que me lembro, eles estavam correndo rápido demais, como cavalos no hipódromo, porém essa observação deve conter um certo grau de exagero. Mas eles estavam correndo. A carroça sacolejava ao cruzar a esburacada estrada de terra. Quando passamos voando pelas campinas, concluí que estávamos em perigo e comecei a fazer o melhor que podia para reduzir a velocidade daqueles cavalos desgovernados. Puxei as rédeas com tanta força que cheguei a sentir cãibras nas mãos. Gritei e supliquei, mas de nada adiantou. Babe e Blue continuavam a correr.

Olhei de relance para meu pai e vi que ele estava sentado calmamente, olhando a pastagem e observando o mundo passar por ele. Naquela altura, eu estava apavorado. As rédeas cortavam minhas mãos, e lágrimas corriam por meu rosto quase congelado por causa do frio. E meu pai continuava tranquilo, observando o mundo passar por ele.

Finalmente, no auge do desespero, eu me virei e disse a ele da maneira mais calma que consegui:

- Pegue as rédeas, papai, não  dirigir.

Agora que sou mais velho e as crianças me chamam de vovô, eu me lembro daquela cena pelo menos uma vez por dia. Independentemente de quem somos, da idade que temos, de nossa experiência ou influência, existe sempre aquele momento em que nossa única reação é nos virarmos para o Pai e dizer:

- Pegue as rédeas, não quero mais dirigir.


 

SIGNIFICATIVO

Joni Eareckson Toda

 

 

Todas as manhãs, Connie abre a porta do quarto de Diane e começa a longa rotina de exercitar sua amiga paralítica e de dar banho nela.

Os raios de sol atravessam as persianas, inundando o quarto com seu brilho suave e dourado. As cobertas estão no mesmo lugar desde que Connie as arrumou por cima de Diane na noite anterior. Apesar disso, ela sabe que sua amiga já acordou.

- Você está pronta para levantar?

- Não... ainda não - soa a voz fraca debaixo das cobertas.

Connie dá um longo suspiro, sorri e sai fechando a porta.

A história se repete a cada manhã no apartamento de Connie e Diane. t>- rotina raramente muda. Os raios de sol já estão banhando a metade da manhã quando Diane está pronta para sentar-se em sua cadeira de rodas. Aquelas longas horas na cama, porém, são significativas.

Em seu santuário silencioso, Diane vira levemente a cabeça no travesseiro e olha para o painel de cortiça pendurado na parede.

Seus olhos esquadrinham cada cartão pregado com percevejo.

Cada fotografia. Cada pedaço de papel preso com alfinete. O silêncio é quebrado quando Diane começa a murmurar.

Ela está orando.

Algumas pessoas olham para Diane - rígida e imóvel- e balançam a cabeça de um lado para o outro. Ela necessita que alguém lhe dê comida, que alguém a conduza na cadeira de rodas. As limitações causadas por esclerose múltipla aumentam a cada ano. Seus dedos estão curvos e imóveis. Sua voz não passa de um sussurro. As pessoas olham para ela e dizem:

- Que situação. A vida dela não tem sentido. Ela não pode fazer nada.

Mas Diane é uma mulher confiante, convencida de que sua vida tem um significado. Suas orações intercessoras são importantes.

Ela move as montanhas que bloqueiam o caminho dos missionários.

Ela ajuda a abrir os olhos das pessoas espiritualmente cegas do sudeste da Ásia.

Ela afasta o reino das trevas que obscurece os becos e ruas dos baderneiros da região leste de Los Angeles.

Ela ajuda mães sem-teto... mães ou pais solteiros... crianças que sofrem maus-tratos... adolescentes sem esperanças... meninos com deficiência física... e anciãos agonizantes ou esquecidos na casa de repouso na rua onde ela mora.

Diane trabalha na linha de frente, levando adiante o evangelho de Cristo, amparando as pessoas piedosas e fracas, transmitindo entusiasmo a crentes em dúvida, dando força a outros guerreiros da oração e amando seu Senhor e Salvador.

Essa mulher humilde e serena enxerga o seu lugar no mundo; não interessa se outras pessoas não reconhecem sua Importância no grande esquema das coisas. Ela é igual a Emily, personagem do livro Our Town [Nossa Cidade], que indica seu endereço da seguinte forma:

 

Grovers Comer

New Hampshire

Estados Unidos da América

Hemisfério Ocidental

Planeta Terra

Sistema Solar

O Universo

Mente de Deus

 

Na mente de Deus... que é o lugar mais significativo que você pode habitar, não importa se você trabalha sentada diante de uma máquina de escrever, diante do volante de um ônibus, diante de uma mesa em uma sala de aula, em uma cadeira perto da mesa da cozinha ou deitada na cama e orando. Sua vida está oculta com Cristo.

Você enriquece a herança dele. Você é seu embaixador. Nele, sua vida tem profundidade, significado e propósito, não importa o que você faça.

Alguém disse: "O objetivo desta vida é tornar-se a pessoa que Deus pode amar perfeitamente para satisfazer sua sede de amor. Ser é mais importante que fazer. O cantor é mais importante que a canção. Precisamos parar de fugir pelo alçapão, porque este é o nosso lugar." Oro para que você descubra a importância que tem como filho ou filha do Rei. Talvez você não seja capaz de entender o significado de cada acontecimento, mas saiba que todo acontecimento é significativo. E você é importante.


 

A VOLTA PARA CASA

Recontada por Alice Gray

 

 

Um médico missionário passou 40 anos de sua vida cuidando dos habitantes dos povoados primitivos da África. Um dia, ele decidiu aposentar-se. Enviou um telegrama para sua terra natal dizendo que voltaria de navio e informou a data e o horário da chegada.

Enquanto cruzava o Atlântico, ele fez uma retrospectiva de todos aqueles anos que passou ajudando a curar o povo da África, tanto física como espiritualmente. Em seguida, seus pensamentos passaram a girar em torno da grande recepção que o aguardava nos Estados Unidos, depois de 40 anos de ausência.

Quando o navio atracou no porto, o coração daquele homem encheu-se de orgulho quando ele viu a recepção que havia sido preparada em sua homenagem. No meio de uma grande multidão, havia um enorme cartaz com estes dizeres: "Bem-vindo de volta ao lar". Assim que ele desceu do navio e pôs os pés no cais, aguardando uma enorme ovação, seu coração ficou apertado. Imediatamente, ele se deu conta de que a multidão não se reunira ali por sua causa, mas para prestar homenagem a um ator de cinema que viajara no mesmo navio.

Depois de aguardar alguns instantes, angustiado, o homem viu que não havia ninguém à sua espera. A multidão dispersou-se, e ele ficou sozinho. Olhando em direção ao céu, ele proferiu estas palavras:

- Oh, Deus, depois de ter dedicado todos estes anos de minha vida para ajudar os necessitados, seria demais pedir que apenas urna pessoa... urna única pessoa... estivesse aqui aguardando minha chegada?

Na quietude de seu coração, ele pareceu ouvir a voz de Deus murmurar:

- Você ainda não voltou para casa. Quando você voltar para mim, será bem-vindo.

 

MATEUS 19.29 NVI


 

EU PEDI

Anônimo

 

 

Eu pedi força a Deus, para poder alcançar o que queria.

Ele me fez fraco, para que eu aprendesse a obedecer...

 

Eu pedi saúde,

 

para poder realizar grandes coisas.

 

Recebi doença,

 

para que eu pudesse fazer coisas melhores...

 

Eu pedi riquezas, para poder ser feliz.

Recebi pobreza, para que eu pudesse ser sábio...

 

Eu pedi poder, para receber elogios dos homens.

Recebi fraqueza, para que pudesse sentir a necessidade de Deus...

 

Eu pedi tudo,

 

para poder desfrutar a vida.

Recebi vida,

 

para que eu pudesse desfrutar tudo...

 

Não recebi nada do que pedi, mas recebi tudo o que esperava.

Apesar de ser como sou, Minhas orações foram respondidas.

 

Sou, dentre todas as pessoas, a mais ricamente abençoada!


 

PARA ONDE VOCÊ CORRE?

Kay Arthur

 

 

Um amigo meu conta um fato acontecido com seu pai quando caçava cervos nas florestas do Oregon.

 

Carregando o rifle no braço, seu pai caminhava por uma velha estrada que havia sido invadida pelas árvores da floresta. A noite aproximava-se, e ele estava pensando em retornar ao acampamento, quando ouviu um barulho em um arbusto. Antes que ele tivesse tempo de apontar o rifle. um vulto marrom e branco apareceu na trilha bem à sua frente.

Meu amigo ri muito quando conta esta história.

- Tudo aconteceu tão rápido que meu pai não teve tempo de pensar. Olhou para baixo e lá estava um pequeno coelho selvagem marrom, cansado demais, enroscado em suas pernas, entre as botas. O corpo inteiro do animalzinho tremia, mas ele continuou ali. sem se mexer.

- Foi um fato muito estranho. Os coelhos selvagens têm medo de gente, e é difícil alguém vê-los... e muito menos assim, agarrado nos pés...

- Enquanto papai se refazia do susto, outro personagem entrou em cena. Mais adiante na estrada. Talvez a uns 200 metros, uma doninha saiu inesperadamente do meio do arbusto. Ao ver meu pai e sua presa enroscada em suas pernas, ela parou apoiada nas patas traseiras, ofegante, olhos vermelhos brilhando.

- Foi então que meu pai compreendeu que estava presenciando um pequeno drama de vida ou morte na floresta. O coelho selvagem, exausto pela perseguição, estava apenas a alguns instantes da morte.

Meu pai era sua última esperança de refúgio. Esquecendo-se de seu medo e cautela naturais, o animalzinho enroscou-se instintivamente nele para proteger-se dos dentes afiados do inimigo implacável.

O pai de meu amigo não decepcionou o coelho. Apontou o rifle e atirou no chão, bem perto da doninha. O animal deu um salto de mais de meio metro no ar e correu em direção à floresta o mais rápido que pôde.

O coelho continuou imóvel por alguns instantes, enroscado nas pernas do pai de meu amigo enquanto o céu escurecia. O homem dirigiu-se carinhosamente ao coelho:

- Para onde ela foi, criaturinha? Acho que ela não vai aborrecer você por uns tempos. Parece que levou um grande susto hoje.

O coelho afastou-se correndo de seu protetor rumo à floresta.

Para onde. amado leitor. você corre em tempos de necessidade? Para onde você corre quando os predadores dos problemas, das preocupações e do medo o perseguem?

Onde você se esconde quando seu passado o persegue como um lobo implacável, querendo destruí-lo?

Onde você busca proteção quando as doninhas da tentação, da corrupção e do mal ameaçam subjugá-lo?

A quem você recorre quando sua energia está exaurida... quando a fraqueza mina seu corpo e você não consegue mais fugir?

Você recorre a seu Protetor, àquele que permanece de braços abertos, aguardando sua chegada para que você usufrua toda a segurança que Ele pode dar?


 

O MALABARISTA

Billy Graham Recontada por Alice Gray

 

 

Ele nasceu na Itália e veio para os Estados Unidos, ainda jovem. Aprendeu malabarismo e tornou-se famoso no mundo inteiro.

Finalmente, resolveu aposentar-se. Queria retornar a seu país natal e fixar residência lá. Vendeu todas as suas propriedades, comprou uma passagem de navio para a Itália, investiu o resto do dinheiro em um único diamante e escondeu-o em sua cabina do navio.

Durante a viagem, ele mostrou a um menino como fazer malabarismo com maçãs. Em breve, havia um grupo de pessoas ao redor dele. O orgulho do momento subiu-lhe à cabeça. Ele correu até sua cabina e pegou o diamante. Explicou ao grupo que aquela pedra representava uma vida inteira de economias e começou a fazer malabarismo com ela, com movimentos cada vez mais ousados.

Em um determinado ponto, ele atirou o diamante muito alto, e as pessoas prenderam a respiração. Conhecendo o valor do diamante, elas pediram-lhe que não repetisse a façanha. Levado pela euforia do momento, ele o atirou mais alto ainda. Novamente, as pessoas prenderam a respiração e suspiraram de alívio quando ele conseguiu pegá-lo.

Tendo total confiança em si mesmo e em sua habilidade, o malabarista disse às pessoas que atiraria o diamante para cima mais uma vez e tão alto que a pedra desapareceria da visão de todos por alguns instantes. Novamente, as pessoas pediram-lhe que não repetisse a façanha.

Cheio de confiança depois de tantos anos de experiência, ele atirou o diamante para o alto. A pedra desapareceu por alguns instantes. Em seguida, reapareceu brilhando à luz do sol. Naquele exato momento, o navio balançou e o diamante caiu no mar, perdendo-se para sempre.

Todos nós ficamos muito tristes por aquele homem ter perdido seus bens materiais. Mas Deus considera a nossa alma muito mais valiosa que todas as riquezas do mundo.

Assim como o homem dessa história, a maioria de nós faz malabarismo com sua alma. Confiamos em nós mesmos, em nossa habilidade e em nossa experiência. Existem pessoas a nosso redor implorando para não nos arriscarmos, porque elas reconhecem o valor de nossa alma.

Mas continuamos a fazer malabarismos mais uma vez, sem jamais saber quando o navio vai balançar, levando nossa chance embora para sempre.


 

UMA VIDA SOLITÁRIA

AUTOR DESCONHECIDO

 

 

Ele nasceu em um vilarejo humilde, filho de uma camponesa.

Cresceu em outro vilarejo humilde, onde trabalhou em uma carpintaria até completar 30 anos. Depois disso, passou três anos como pregador itinerante.

Nunca escreveu um livro.

Nunca dirigiu um escritório.

Nunca teve família nem casa própria.

Não frequentou a faculdade.

Nunca viajou para lugares além de 300 quilômetros de distância do local onde nasceu.

Não realizou nada que pudesse ter sido relacionado a grandeza.

Não teve nenhuma credencial, a não ser sua presença.

Tinha apenas 33 anos quando a opinião pública se voltou contra ele. Seus amigos o abandonaram. Ele foi entregue a seus inimigos e sofreu a humilhação de passar por um interrogatório. Foi pregado na cruz entre dois ladrões.

Quando estava morrendo, seus executores repartiram entre si a sua roupa, a única coisa que ele possuía na Terra. Quando morreu, foi enterrado em uma sepultura emprestada, graças à piedade de um amigo.

Decorridos 19 séculos, Ele continua sendo a figura central da raça humana, o líder do progresso da humanidade.

Todos os exércitos que já marcharam, todos os navios que já navegaram, todos os parlamentos que já se reuniram, todos os reis que já reinaram - todos juntos - não exerceram tanta influência sobre a vida dos seres humanos como aquele que viveu Uma Vida Solitária.


 

CECIL B. DE MILLE

Billy Graham

 

 

Cecil B. De Mille contou-me, certa vez, que seu filme O Rei dos Reis, produzido na época do cinema mudo, foi visto por 800 milhões de pessoas, segundo seus cálculos. Perguntei por que ele não reproduziu O Rei dos Reis com som e em cores.

Ele respondeu:

- Jamais serei capaz de fazer isso, porque, se eu der a Jesus um sotaque sulino, os nortistas não o aceitarão como o seu Cristo. Se eu lhe der um sotaque estrangeiro, os norte-americanos e os britânicos não o aceitarão como o seu Cristo.

E ele complementou:

- Da maneira como Ele é apresentado no filme, os povos de todas as nações, raças, credos e tribos o aceitam como o seu Cristo.


 

LIÇÃO PRÁTICA

John MacArthur

 

 

Um pastor foi visitar um homem que não frequentava assiduamente a igreja. Ele estava sentado diante de uma lareira, observando o brilho dos carvões incandescentes. Era um dia frio de inverno, e a lareira estava bem aquecida. O pastor pediu ao homem que frequentasse a igreja com mais assiduidade para congregar-se com o povo de Deus.

Ao ver que seus pedidos pareciam não surtir efeito, o pastor pegou as tenazes ao lado da lareira, afastou a tela e começou a separar os carvões. Depois de constatar que todos estavam completamente separados, ele parou diante da lareira e ficou em silêncio. Em questão de minutos, os dois estavam gelados.

O homem entendeu a mensagem.


 

NO MOMENTO CERTO

Ron Mehl

 

 

Roger Simms tinha acabado de prestar o serviço militar e estava ansioso por tirar a farda de uma vez por todas. Na volta para casa, seguiu a pé pela estrada tentando conseguir uma carona, mas sua mochila pesada era um empecilho a mais para que alguém parasse. Ao fazer um sinal com o polegar para um carro que passava, ele perdeu as esperanças ao ver que se tratava de um carro preto, reluzente e caro, tão novo que tinha uma licença provisória colada no vidro traseiro... um tipo de carro cujo dono di6cilmente pararia para dar carona a alguém.

Porém, para sua surpresa, o motorista parou e abriu a porta do lado do passageiro. Roger correu até o carro, colocou sua mochila com cuidado no banco traseiro e sentou-se no banco de couro ao lado do motorista. Foi saudado com um sorriso amistoso de um senhor distinto, de cabelos grisalhos e pele bronzeada.

- Oi, filho. Você está de folga ou voltando definitivamente para casa?

- Acabei de servir ao exército e estou voltando para casa pela primeira vez depois de muito tempo - respondeu Roger.

- Você tem sorte se estiver indo para Chicago - disse o homem sorrindo.

- Não vou para tão longe assim, mas minha casa 6ca no caminho.

O senhor mora lá?

- Meu nome é Hanover. Sim, dirijo um negócio em Chicago.

Dito isso, eles seguiram viagem.

Depois de cada um ter contado resumidamente a história de sua vida e conversado sobre tudo o que existe debaixo do sol, Roger (que era cristão) sentiu um grande desejo de falar de Cristo ao Sr. Hanover. Mas a ideia de dar um testemunho a um empresário mais velho e rico, que devia ter tudo o que queria, era um tanto assustadora. Roger resolveu esquecer o assunto, mas, quando se aproximou de seu destino, ele se deu conta de que seria agora ou nunca.

- Sr. Hanover - Roger começou a dizer -, eu gostaria de conversar com o senhor sobre uma coisa muito importante.

Roger prosseguiu falando da salvação até chegar ao ponto de perguntar ao Sr. Hanover se ele gostaria de aceitar a Cristo como seu Salvador. Para grande surpresa de Roger, o Sr. Hanover dirigiu-se para o acostamento. Por um instante, Roger imaginou que seria atirado para fora do carro. Em seguida, aconteceu um fato estranho e maravilhoso: o empresário curvou a cabeça sobre o volante e começou a chorar, afirmando que desejava aceitar a Cristo em seu coração. Agradeceu a Roger e disse:

- Essa foi a coisa mais maravilhosa que já me aconteceu!

Em seguida, ele deixou Roger em casa e seguiu viagem rumo a Chicago.

Passaram cinco anos. Roger Simms casou-se, teve um filho e começou a dirigir um negócio próprio. Certo dia, enquanto arrumava a mala para fazer uma viagem de negócios a Chicago, ele encontrou, por acaso, o pequeno cartão de visitas, com letras douradas, que o Sr. Hanover lhe dera anos antes.

Quando chegou a Chicago, Roger procurou as Empresas Hanover na lista telefônica. Localizava-se no centro da cidade em um edifício comercial muito alto e de fina aparência. A recepcionista lhe disse que seria impossível ver o Sr. Hanover, mas, como Roger era um velho amigo, poderia conversar com a Sra. Hanover. Um pouco desapontado, ele foi conduzido a um elegante escritório onde havia uma senhora de uns 50 anos sentada diante de uma enorme mesa de carvalho.

Ela estendeu-lhe a mão.

- Você conheceu meu marido?

Roger contou que o Sr. Hanover havia sido muito bondoso ao lhe dar uma carona até sua casa.

Um olhar de interesse passou pelo rosto da mulher.

- Você saberia me dizer em que data isso aconteceu?

- Claro - disse Roger. - Foi no dia 7 de maio, cinco anos atrás, o dia em que fui dispensado do exército.

- E aconteceu alguma coisa especial durante a viagem... uma coisa diferente?

Roger hesitou. Deveria mencionar o testemunho que deu? Teria havido alguma discussão entre o casal, que resultou em separação ou desquite? Porém, mais uma vez, ele sentiu o desejo de falar do Senhor.

- Sra. Hanover, seu marido aceitou a Cristo naquele dia. Eu lhe falei sobre a mensagem do evangelho. Ele dirigiu o carro para o acostamento e chorou. Em seguida, quis fazer a oração da salvação.

De repente, ela começou a chorar copiosamente. Depois de alguns minutos, conseguiu recompor-se para explicar o que acontecera: - Fui criada em um lar cristão, mas meu marido não. Orei pela salvação dele durante muitos anos e acreditava que Deus o salvaria.

Mas, logo após você ter descido do carro, no dia 7 de maio, ele morreu vítima de uma violenta colisão frontal. Não voltou para casa.

Pensei que Deus não tivesse cumprido sua promessa. Faz cinco anos que parei de viver para o Senhor, porque o culpava por Ele não ter cumprido sua palavra.

Eu me identifico com a Sra. Hanover. Talvez você também.

Existem longos e solitários períodos da vida em que parece que Deus simplesmente se tornou indiferente aos nossos apelos ou que está cansado e apático diante de nossas orações fervorosas.

A situação é semelhante à de alguém que vê um presente sob uma árvore de Natal, muito bem embrulhado, misterioso e inacessível. À medida que o tempo passa e as esperanças diminuem, começamos a questionar se Deus tem realmente algum presente para nós.

Talvez você esteja aguardando muito tempo para que ocorra uma transformação em sua vida. Talvez esteja aguardando uma mudança em seu estado de saúde, em seus relacionamentos, em seu cônjuge, em seus filhos, em seu trabalho, em suas finanças, em sua vida espiritual. E a impressão é a de que a situação não vai mudar nunca. Parece que o Natal nunca vai chegar. Parece que a luz nunca vai mudar. Parece que você pediu socorro ao Senhor mais de mil vezes e ele nunca respondeu.

Maria e Marta conhecem muito bem esse assunto. Elas viram seu irmão enfraquecer e definhar. Sua vida escapou-Ihes pelos dedos como se fosse grãos finos de areia. Elas não puderam fazer nada, e o Senhor não chegava.

Mas, de repente, Ele chegou. E já era tarde. Mas não era tarde demais, porque o que Ele tinha em mente era muito maior que os pensamentos, as esperanças e os sonhos que aquelas duas mulheres sequer imaginaram pedir.

Foi uma Coisa Muito Boa embrulhada em uma Coisa Muito Ruim.

E Ele próprio entregou a encomenda... no momento certo.

Ele sempre faz isso.


 

O SALTO

Recontada por Tania Gray

 

 

Após um longo dia de trabalho em um cubículo, o jovem só queria ir para casa relaxar e preparar-se para o expediente do dia seguinte. Enquanto caminhava em direção ao elevador, ele ouviu gritos e avistou uma coluna de fumaça negra e labaredas partindo do corredor. Ele foi tomado de pânico, e uma sucessão de pensamentos passou-lhe pela mente: Eu estou no sexto andar. Não vou conseguir descer. Vou morrer! O único local pelo qual ele poderia fugir era o corredor, mas estava em chamas. Seria impossível passar por ali. Enquanto os pensamentos passavam, velozes, por sua mente, ele ouviu a sirene do carro de bombeiros e lembrou-se de que, naquele andar, o escritório era todo rodeado de janelas altas. Tossindo, ele cambaleou até as janelas na esperança de ser resgatado rapidamente.

Porém, quando olhou para baixo, não enxergou nada por causa da cortina de fumaça que cobria a área. Através da fumaça e das chamas, percebeu que havia uma multidão perto dos bombeiros que gritava:

- Salte! Salte!

Uma onda de medo tomou conta do jovem. Pelo alto-falante, ele ouviu a voz de alguém, talvez de um dos bombeiros:

- Você só vai sobreviver se saltar. Não há outro meio. Instalamos uma rede de segurança. Não tenha medo.

A multidão continuava a gritar. O jovem sabia que não teria coragem de saltar sem conseguir enxergar a rede. Seus pés estavam colados no chão. De repente, ele ouviu a voz de seu pai pelo alto-falante:

- Está tudo certo, filho. Pode saltar.

Quando aquela voz familiar chegou aos ouvidos do jovem, o medo desapareceu. A confiança e o amor que havia entre pai e filho deram-lhe coragem para saltar com segurança na rede.

Você confia tanto assim no amor de nosso Pai celestial?

ENCONTRO MARCADO COM A MORTE

Recontada por Alice Gray

 

 

Há uma lenda antiga sobre um rico comerciante de Bagdá que enviou seu criado ao mercado. Enquanto tentava abrir caminho em meio à multidão, alguém o empurrou. Ao virar-se, ele viu uma mulher trajando uma longa capa preta e a reconheceu como sendo a Morte. a criado voltou correndo para casa do patrão e, com voz trêmula, relatou seu encontro com a Morte, dizendo que ela o havia encarado e feito um gesto ameaçador.

O criado suplicou ao patrão que lhe emprestasse um cavalo para que pudesse fugir para Samarra e esconder-se da Morte. O patrão concordou, e o criado partiu a galope.

Mais tarde, o comerciante foi ao mercado e viu a Morte rondando o local. a comerciante perguntou:

- Por que você fez um gesto ameaçador para meu criado e o assustou?

- Eu não fiz nenhum gesto ameaçador - respondeu a Morte. Apenas fiquei surpresa quando o encontrei em Bagdá, porque tenho um encontro marcado com ele esta noite em Samarra!


 

A HISTÓRIA DAS MÃOS EM ORAÇÃO

Autor Desconhecido

 

 

Por volta de 1490, dois jovens amigos, Albrecht Dürer e Franz Knigstein, queriam ser artistas, mas estavam enfrentando muitas dificuldades. Por serem pobres, eles trabalhavam para sustentar-se, enquanto aprendiam; pinta; quadros.

O trabalho tomava grande parte do tempo deles e, por conseguinte, o progresso nos estudos era lento. Um dia, chegaram a um acordo: tirariam a sorte, e aquele que perdesse trabalharia para sustentar os estudos do outro. Albrecht foi o vencedor e continuou a estudar, enquanto Franz trabalhava em um serviço pesado. Pelo acordo, quando Albrecht se tornasse famoso, sustentaria Franz nos estudos.

Albrecht partiu para as cidades da Europa para concluir os estudos. Hoje, o mundo todo sabe que ele não tinha apenas talento; era um gênio. Quando ficou famoso, ele voltou para cumprir sua parte no acordo com Franz. Logo a seguir, porém, Albrecht constatou o preço enorme que Franz havia pago. Por ter trabalhado com as mãos executando tarefas pesadas para sustentar o amigo, Franz ficou com os dedos rígidos e tortos. Suas mãos, antes esguias e sensíveis, estavam arruinadas para sempre. Ele não podia mais realizar as delicadas pinceladas necessárias para produzir uma bela pintura. Apesar de não poder concretizar seus sonhos artísticos, ele não se tornou uma pessoa amargurada. Ao contrário, alegrou-se com o sucesso do amigo.

Um dia, Dürer encontrou Franz casualmente e o viu ajoelhado, com as mãos retorcidas em atitude de oração, suplicando silenciosamente pelo sucesso do amigo, embora ele próprio não pudesse mais ser um artista. Albrecht Dürer, o grande gênio, fez um esboço rápido das mãos de seu fiel amigo e, mais tarde, completou a magnífica obra-prima conhecida como As Mãos em Oração.

Hoje, as galerias de arte de todos os lugares exibem as obras de Albrecht Dürer, e essa obra-prima em particular retrata uma eloquente história de amor, sacrifício, trabalho e gratidão. Nela, os povos do mundo inteiro também encontro conforto, coragem e força.


 

O SEGREDO DOS PRESENTES

Paul Flucke

 

 

A história de que Gaspar, Melquior e Baltazar levaram presentes ao rei recém-nascido tem sido contada ao longo dos séculos. Ah, você vai dizer, todos conhecem essa história. Eles levaram ouro, incenso e mirra. É assim que a história é contada.

Mas ela está incompleta. Ouça o restante. Você vai conhecer o segredo dos presentes.

Os que estavam mais próximos, viram o primeiro dos três visitantes parar na porta: era Gaspar, um homem rico trajando uma bela capa de veludo enfeitada com peles de excelente qualidade.

Antes de Gaspar parar ali, eles não podiam ver que era o anjo Gabriel que guardava o lugar santo.

- Todos os que entrarem devem ter um presente para oferecer – disse Gabriel a Gaspar. -Levantando com esforço a linda caixa pesada, Gaspar disse:

- Eu trouxe barras do mais fino ouro.

- Seu presente - disse Gabriel - precisa ser algo que faça parte de você, algo que seja precioso à sua alma.

- Foi exatamente o que eu trouxe - disse Gaspar.

Porém, quando se ajoelhou para depositar o ouro diante do bebê, ele parou e endireitou o corpo. Em sua mão não havia ouro, mas sim um martelo. A cabeça grosseira e preta do martelo era maior que a mão de um homem; seu cabo, de madeira robusta, tinha o comprimento do antebraço de um homem. Gaspar começou a gaguejar, completamente aturdido, o anjo disse suavemente:

- O que você tem nas mãos é o martelo de sua ganância, usado para destruir a riqueza daqueles que trabalham arduamente para você poder levar uma vida de ostentação e construir uma mansão para morar, enquanto seus servos moram em choupanas.

Envergonhado, Gaspar abaixou a cabeça e fez menção de partir.

Mas GabrieI impediu-lhe a passagem:

- Não, você não ofereceu seu presente.

- Um presente como este? - disse Gaspar, horrorizado. - Ele não é digno de um rei!

- Foi por isso que você veio - disse Gabriel. - Não pode levar o presente de volta. É pesado demais. Deixe-o aqui para que você não seja destruído por ele.

- Mas como? Essa criança não tem condições de levantá-Io do chão - protestou Gaspar.

- Ele é o único que pode - replicou o anjo.

Perto da porta, estava Melquior, o sábio que tinha barba comprida e rugas na testa para evidenciar sua sabedoria. Ele também parou diante da porta. - O que você trouxe? - perguntou Gabriel.

- Incenso, a fragrância das terras secretas e dos tempos passados - respondeu Melquior.

- Seu presente - advertiu Gabriel - precisa ser algo que seja precioso à sua alma.

Melquior ajoelhou-se reverentemente e pegou um frasco de prata de dentro de seu manto. Mas o frasco em sua mão já não era de prata. Era tosco e manchado, feito de argila comum. Atônito, ele tirou a tampa do frasco e cheirou o conteúdo.

- É vinagre! - resmungou MeIquior.

- É disso que você é feito - disse Gabriel. - Amargura. O vinho azedo se deteriorou por causa da inveja e do ódio que você carrega dentro de si, lembranças de mágoas antigas, ressentimentos acumulados e raiva latente. Você buscou sabedoria, mas encheu sua vida de veneno.

 

Melquior curvou os ombros, desviou o olhar e tentou esconder o frasco de argila. Gabriel tocou o braço de Melquior:

- Espere, você precisa deixar seu presente aqui.

Melquior deu um longo suspiro de sofrimento.

- Mas este é um presente desprezível - ele protestou. - E se a criança levá-lo à boca?

- Você deve deixar essa preocupação a cargo do céu - replicou Gabriel. - Lá, até o vinagre é útil.

O terceiro visitante apresentou-se: Baltazar, líder de muitas legiões e flagelo de cidades muradas. Ele segurava uma caixa de metal.

- Eu trouxe mirra - ele disse -, a recompensa mais preciosa de minha conquista mais arrojada. Muitos lutaram e morreram por causa disso, a essência da mais rara erva.

- E ela é a essência de sua vida? - perguntou Gabriel.

O soldado inclinou-se para à frente, curvou a cabeça até quase tocá-Ia no chão e apresentou seu presente. Mas o que ele depositou aos pés do bebê era a sua lança.

- Não pode ser! - ele murmurou com voz rouca. - Algum inimigo deve ter feito um feitiço. Isso é mais verdadeiro do que você pensa - disse Gabriel. Mil inimigos fizeram feitiços contra você e transformaram sua alma em uma lança. Vivendo apenas para vencer, você foi vencido. Cada batalha que você ganha leva a outra, e assim por diante.

Baltazar pegou a lança e virou-se para sair.

- Não posso deixar isso aqui.

- Tem certeza? - perguntou Gabriel.

- Claro - murmurou o guerreiro. - Ele é um bebê. A lança pode espetar sua carne.

- Você deve deixar esse medo a cargo do céu - replicou Gabriel.

Existe outra história que conta que eles foram vistos mais uma vez, anos depois, em uma colina solitária nos arredores de Jerusalém.

Mas não se preocupe. Esse é um fardo que o céu toma conta como só o céu pode fazer.


 

VENDENDO GADO

Howard Hendricks

 

 

Logo após ter sido fundado em 1924, o Seminário [de Dallas] quase sucumbiu. Chegou ao ponto de decretar falência.

Todos os credores estavam prontos para penhorá-Io às 12 horas de um determinado dia. Naquela manhã, os fundadores do seminário reuniram-se na sala do presidente para suplicar a ajuda de Deus.

Harry Ironside estava presente naquela reunião de oração. Quando chegou sua vez de orar, ele disse de maneira simples: Senhor, sabemos que o gado daquelas inúmeras colinas é teu. Suplicamos que vendas algumas cabeças e nos envies o dinheiro.

Naquele exato momento, um texano alto, usando botas e camisa esporte, entrou no escritório do seminário.

- Olá! - ele disse à secretária. - Acabei de vender dois vagões de gado em Fort Worth. Estou tentando fazer uma transação comercial, mas não está dando certo. Acho que Deus deseja que eu dê este dinheiro ao seminário. Não sei se vocês precisam dele ou não, mas aqui está o cheque.

A secretária pegou o cheque e, sabendo que algum assunto crítico estava sendo tratado, dirigiu-se à porta da sala da reunião de oração e bateu timidamente. O Dr. Lewis Sperry Chafer, fundador e presidente do seminário, abriu a porta e pegou o cheque da mão dela. Quando viu o valor, constatou que era a soma exata da dívida.

Em seguida, reconheceu a assinatura no cheque. Era do pecuarista.

Virando-se para o Dr. Ironside, ele disse:

- Harry, Deus vendeu o gado.


 

E SE EU ME CANSAR DE FICAR NO CÉU?

Larry Lihby

 

 

Se você está pensando que pode cansar-se ou aborrecer-se de ficar no céu... não se preocupe! Tente imaginar uma coisa comigo. Imagine que você é um passarinho que vive em uma pequenina gaiola feita de metal enferrujado. Dentro da gaiola, há um pratinho de alimento, um espelho pequeno e um minúsculo poleiro para você se balançar.

Um dia, uma pessoa bondosa pega sua gaiola e a leva para uma floresta grande e linda. A floresta é banhada pelos raios do sol.

Árvores altas, imponentes, cobrem os montes e vales até onde sua vista consegue alcançar. Há cascatas volumosas, amoreiras cobertas de amoras maduras, árvores frutíferas, tapetes de flores silvestres e um lindo e imenso céu azul para você voar. E, além de tudo isso, há milhões de outros passarinhos...

pulando de galho em galho comendo tudo o que gostam criando suas famílias cantando a plenos pulmões durante o dia inteiro.

E agora, passarinho? Você acha que vai querer continuar dentro de sua gaiola? Acha que vai dizer: "Oh, por favor, não me solte.

Vou sentir falta de minha gaiola. Vou sentir falta de meu pratinho com sementes. Vou sentir falta de meu espelho de plástico e de meu pequenino poleiro. Vou me cansar de ficar naquela enorme floresta. " Seria uma tolice, não? Também é uma tolice pensar que não teremos nada para fazer no céu!


 

O APLAUSO DO CÉU

Max Lucado

 

 

Em breve você estará em casa. Talvez ainda não tenha notado, mas está cada vez mais perto de casa. Cada momento é um passo dado. Cada respiração é uma página virada. Cada dia é um quilômetro percorrido, uma montanha escalada. Você está mais perto de casa do que imagina.

Antes que você perceba, seu dia marcado chegará; você descerá a rampa e entrará na Cidade. Verá rostos familiares aguardando por você. Ouvirá seu nome ser proferido por aqueles que o amam.

E, talvez, digo talvez - no fundo, atrás da multidão - Aquele que preferiu morrer a viver sem você retirará as mãos feridas de dentro de seu manto celestial e... aplaudirá.

 


 

COMPAIXÃO

Charles Swindoll

Histórias Para o Coração 2 13

 

 

Uma menina, cuja amiguinha morrera, contou à sua família que havia ido confortar a mãe enlutada.

- O que você disse? - perguntou o pai da menina.

- Nada - ela respondeu. - Eu me sentei no colo dela e chorei com ela.


 

EU QUERO AQUELE

Charles Stanley

Histórias Para o Coração 2 15

 

 

Li, certa vez, a história de um fazendeiro que queria vender alguns cachorrinhos. Ele confeccionou uma placa, oferecendo os animais, e pregou-a em um poste ao lado de seu jardim. Enquanto pregava a placa no poste, alguém puxou seu casaco. Ele olhou para baixo e viu um garotinho segurando alguma coisa e mostrando um largo sorriso no rosto.

- Senhor - ele disse -, quero comprar um desses cachorrinhos.

- Bem - disse o fazendeiro -, esses cachorrinhos são de uma raça especial e custam muito caro.

O menino abaixou a cabeça por alguns instantes. Em seguida, olhou para o fazendeiro e disse:

- Tenho 39 centavos. Com esse dinheiro, posso dar uma olhada?

- Claro - respondeu o fazendeiro. Ele assobiou e chamou: - Dolly.

Aqui, Dolly.

Dolly saiu de sua casinha e desceu a rampa, seguida por quatro bolinhas felpudas. Os olhos do menino brilharam de alegria.

Em seguida, saiu mais uma bolinha felpuda da casinha, visivelmente bem menor que as outras. O cachorrinho desceu a rampa e correu, mancando. o mais rápido que podia, tentando alcançar os outros. Era. sem dúvida alguma. o menor da ninhada.

O garotinho encostou o rosto na cerca e gritou, apontando para o menor:

- Eu quero aquele!

O fazendeiro abaixou-se e disse:

- Filho, você não deve querer aquele cachorrinho. Ele nunca será capaz de correr e brincar como você gostaria.

Ao ouvir isso, o garotinho curvou-se e levantou uma perna da calça, deixando à mostra um suporte de aço que passava pelos dois lados de sua perna e se prendia a um sapato especial. Olhando para o fazendeiro, ele disse:

- Veja, senhor, eu também não corro muito bem, e ele vai necessitar de um amigo como eu.


 

ELE NECESSITAVA DE UM FILHO

Autor Desconhecido

Histórias Para o Coração 2 17

 

 

A enfermeira acompanhou um jovem cansado e ansioso até o leito de um senhor idoso.

- Seu filho está aqui - murmurou a enfermeira ao paciente.

Ela teve de repetir as palavras várias vezes até o paciente abrir os olhos. Ele havia recebido uma forte dose de sedativo, em razão de uma dor no peito causada por um ataque cardíaco. Com a vista turva, ele viu o jovem em pé, perto do balão de oxigênio.

O paciente estendeu a mão, e o jovem apertou-a com força para transmitir-lhe uma mensagem de ânimo. A enfermeira colocou uma cadeira ao lado do leito. O jovem passou a noite toda segurando a mão do ancião e proferindo delicadas palavras de esperança. O moribundo não disse nada, limitando-se a segurar com força a mão do seu filho.

Quando o dia começou a clarear, o paciente morreu. O jovem colocou a mão sem vida no leito e saiu para avisar a enfermeira.

Enquanto a enfermeira tomava as providências necessárias, o jovem permaneceu ali, esperando. Ao terminar sua tarefa, a enfermeira virou-se para lhe dar os pêsames. Mas ele a interrompeu:

- Quem era aquele homem? - perguntou o jovem.

Perplexa, a enfermeira replicou:

- Pensei que fosse seu pai.

- Não, ele não era meu pai. Nunca o vi em toda a minha vida.

- Então por que você não me contou isso quando o levei até ele? perguntou a enfermeira.

O jovem respondeu:

- Eu sabia que ele necessitava da companhia de seu filho, e seu filho não estava aqui. Quando percebi que o seu estado era tão grave que ele não poderia saber se eu era ou não o seu filho, compreendi quanto ele necessitava de mim.


 

PEQUENINA FLOR

James McCutcbeon

Histórias Para o Coração 2 19

 

 

Fiorello LaGuardia foi prefeito de Nova York na pior época da Grande Depressão e durante toda a Segunda Guerra Mundial. Ele era chamado pelos cidadãos apaixonados por Nova York de "Pequenina Flor", porque tinha apenas 1,60m de altura e sempre usava uma flor vermelha na lapela. LaGuardia era urna figura pitoresca, que costumava andar nos carros de bombeiros da cidade, invadir botequins com a polícia, e levar um orfanato inteiro a um jogo de beisebol. Quando os jornais de Nova York entravam em greve, ele se dirigia a urna emissora de rádio e lia a seção recreativa da edição de domingo para as crianças.

Numa noite muito fria, em janeiro de 1935, o prefeito apareceu num tribunal noturno que atendia o bairro mais pobre da cidade. Naquela noite, LaGuardia dispensou o juiz e assumiu o seu lugar. Após alguns minutos, uma senhora vestida com trajes esfarrapados foi trazida diante dele, acusada de ter roubado um filão de pão.

A senhora contou a LaGuardia que seu genro abandonara o lar, deixando sua filha doente e seus dois netos passando fome. Mas o padeiro de quem ela havia roubado o pão recusava-se a retirar a queixa.

- Eles são péssimos vizinhos, Excelência - disse o homem ao prefeito. - Ela precisa ser punida para que isso sirva de lição às outras pessoas da redondeza.

LaGuardia deu um longo suspiro. Virou-se para a mulher e disse:

- Eu preciso punir a senhora. A lei não permite exceções. Dez dólares ou dez dias na cadeia.

Enquanto pronunciava a sentença, o prefeito enfiou a mão no bolso, retirou uma nota, atirou-a dentro de seu famoso sombreiro e disse:

- Aqui estão os dez dólares da multa que eu cancelo neste momento; e agora vou multar cada pessoa desta sala, em 50 centavos, por viver em uma cidade onde uma cidadã necessita roubar pão para dar de comer a seus netos. Sr. Bailiff, faça a coleta das multas e entregue-as à ré.

No dia seguinte, os jornais de Nova York noticiaram que os US$47.50 arrecadados foram entregues à assustada senhora que havia roubado um 6lão de pão para alimentar seus netos, sendo que 50 centavos dessa quantia foram pagos pelo padeiro, que tinha o rosto ruborizado de vergonha, enquanto cerca de 70 pessoas acusadas de pequenos delitos ou violações das leis de trânsito e alguns policiais de Nova York, que se sentiram privilegiados em contribuir com 50 centavos, levantavam-se para ovacionar o prefeito.


 

UM ATO SIGNIFICATIVO

R. C. Sproul

Histórias Para o Coração 2 21

 

 

Tive um colega na faculdade, vítima de paralisia cerebral. Ele conseguia andar, mas com grande dificuldade, porque suas pernas e braços movimentavam-se em todas as direções, sem a coordenação motora que transforma a caminhada em uma tarefa simples e normal. Suas palavras eram balbuciadas, lentas e pausadas, exigindo grande atenção do ouvinte para entendê-Ias. Contudo, não havia nenhum problema com sua mente. E sua personalidade vibrante, bem como seu sorriso espontâneo, serviam de estímulo aos colegas de classe e a todos os que tinham contato com ele.

Certo dia, ele se aproximou de mim angustiado por causa de um problema, pedindo-me que orasse em seu favor. Durante a oração, proferi algumas palavras rotineiras como estas: Ó Senhor, ajuda este homem a vencer o seu problema. Quando abri os olhos, meu colega estava chorando, em silêncio.

Perguntei-lhe o que havia de errado, e ele respondeu, gaguejando:

- Você me chamou de homem. Nunca ninguém me chamou de homem antes.


 

INFORMAÇÕES, POR FAVOR!

Paul Villiard

Histórias Para o Coração 2 22

 

 

Quando eu era criança, minha família era proprietária de um dos primeiros telefones da vizinhança. Eu me lembro bem da lustrosa caixa de carvalho instalada na parede embaixo da escada. O fone reluzente ficava dependurado do lado da caixa. Lembro-me até do número: 105. Eu era pequeno demais para alcançar o telefone, mas costumava ouvir, fascinado, quando minha mãe o utilizava. Certa vez, ela me levantou para que eu pudesse falar com meu pai, que estava viajando a negócios. Foi um momento mágico!

Depois, descobri que, em algum lugar dentro daquele aparelho sensacional, morava uma pessoa maravilhosa. O nome dessa pessoa era "Informações, por Favor! ", e não havia nada que ela não soubesse.

Minha mãe sempre recorria a ela para saber o número do telefone de alguém; quando nosso relógio não funcionava, "Informações, por Favor!" fornecia imediatamente a hora certa.

Minha primeira experiência pessoal com aquele "gênio da caixa" ocorreu, certo dia, quando minha mãe se encontrava na casa de uma vizinha. Enquanto eu brincava com a caixa de ferramentas no porão, dei uma martelada no dedo. A dor foi terrível, mas de nada adiantava chorar porque não havia ninguém em casa para me consolar. Caminhei pela casa chupando o dedo machucado até chegar perto da escada. O telefone! Corri para pegar o banquinho na sala de visitas e arrastei-o para perto do telefone. Subi no banquinho, tirei o fone do gancho e encostei-o na orelha.

- Informações, por Favor! - eu disse, tentando alcançar o bocal, um pouco acima de minha cabeça.

Após um clique ou dois, uma voz clara falou ao meu ouvido:

- Informações.

- Eu machuquei o dedo - choraminguei ao telefone.

Agora que eu tinha com quem falar, as lágrimas começaram a correr.

- Sua mãe não está em casa? - foi a pergunta.

- Não, estou sozinho - respondi por entre as lágrimas.

- Está saindo sangue?

- Não. Dei uma martelada no dedo e está doendo.

- Você sabe abrir a geladeira? - ela perguntou.

Respondi que sabia.

- Então, pegue um pedacinho de gelo e segure-o em cima do dedo.

Vai parar de doer. Mas tome cuidado com o gelo - ela me advertiu.E não chore. Vai dar tudo certo.

Depois disso, passei a ligar para "Informações, por Favor! ", para conseguir qualquer coisa. Pedi ajuda para minhas lições de geografia, e ela me disse onde ficava a cidade de Filadélfia e o Orinoco o romântico rio que eu viria a explorar quando crescesse. Ela me ajudou na aritmética e me contou que o esquilo - que eu pegara no parque no dia anterior - comia frutas e nozes.

E chegou o dia em que Petey, nosso canarinho, morreu. Liguei para "Informações, por Favor!" e lhe contei minha triste história.

Ela ouviu e repetiu aquelas palavras que os adultos costumam dizer para consolar uma criança. Mas eu estava inconsolável: Por que os passarinhos, que cantam tão bonito e alegram a família inteira, acabam se transformando em um montinho de penas com os pés para cima no fundo de uma gaiola?

Ela deve ter percebido a intensidade de minha tristeza, porque disse em voz baixa:

- Paul, lembre-se sempre de que existem outros mundos em que podemos cantar.

Eu me senti melhor.

No dia seguinte, lá estava eu ao telefone.

- Informações - disse a voz que eu agora conhecia bem.

- Como se escreve "consertar"? - perguntei.

- No sentido de consertar alguma coisa? C-O-N-S-E-R-T-A-R.

Naquele momento, minha irmã, que tinha o péssimo hábito de me assustar, saltou da escada em minha direção e gritou:

- Iaaaaaaa!

Eu caí do banquinho e arranquei, sem querer, o fone da caixa com todos os fios. Minha irmã e eu ficamos aterrorizados. "Informações, por Favor!" não respondia mais, e eu não sabia se a magoara por ter arrancado o fone da caixa.

Minutos depois, apareceu um homem na varanda.

- Sou funcionário da companhia telefônica. Eu estava trabalhando lá embaixo, nesta rua, e a telefonista me disse que deve haver algum problema com este número de telefone. - Ele pegou o fone da minha mão e perguntou:

- O que aconteceu?

Eu lhe contei o que havia acontecido.

- Bem, podemos resolver esse problema em um minuto ou dois.

Ele abriu a caixa do telefone, deixando à mostra uma confusão de fios e molas, e começou a mexer no fio principal do telefone, prendendo tudo com uma pequena chave de fenda. Depois de levantar e abaixar o gancho algumas vezes, ele falou ao telefone.

- Oi, aqui é Pete. Está tudo em ordem com o 105. A irmã do garoto o assustou, e ele puxou os fios da caixa.

O homem desligou, sorriu, deu um tapinha em minha cabeça e atravessou a porta.

Tudo isso aconteceu em uma cidadezinha a noroeste do Pacífico.

Quando eu tinha nove anos, mudamos para Boston - do outro lado do país -e passei a sentir falta de minha mentora. "Informações, por Favor!" pertencia àquela velha caixa de madeira da outra casa, e eu nunca pensei em tentar procurá-Ia naquele novo e imponente telefone que ficava na mesinha do hall.

Mesmo quando cheguei à adolescência, as lembranças daquelas conversas dos tempos de infância nunca me abandonaram; em momentos de dúvidas e dificuldades, eu me lembrava da voz serena que me transmitia segurança quando eu ligava para "Informações, por Favor!" e obtinha a resposta certa. Hoje eu entendo a paciência, a compreensão e a bondade daquela pessoa que perdia o seu precioso tempo com um garotinho.

Alguns anos mais tarde, quando eu estava a caminho da faculdade, no Oeste, meu avião pousou em Seattle. A conexão com o vôo seguinte levaria cerca de meia hora. Passei 15 minutos ou mais ao telefone conversando com minha irmã, que agora era uma senhora casada, mãe e se sentia feliz. Em seguida, sem pensar no que estava fazendo, disquei para a telefonista de minha cidade natal e disse:

- Informações, por Favor!

Como se fosse um milagre, ouvi novamente a voz clara e firme, que eu conhecia tão bem:

- Informações.

Eu não tinha planejado nada, mas me ouvi dizendo:

- Por favor, poderia me informar como se escreve a palavra " consertar"?

Depois de uma longa pausa, ouvi a voz delicada responder:

- Acho - disse "Informações, por Favor!" - que seu dedo já deve estar curado.

Eu ri.

- Quer dizer que você continua aí. Acho que você não faz idéia do significado que teve em minha vida durante todo aquele tempo...

- Acho - ela replicou - que você não sabe o significado que teve em minha vida. Não tive filhos e ficava aguardando, ansiosa, suas ligações. Bobagem, não?

Não era bobagem, mas eu não disse isso. Eu lhe contei que pensei nela com muita freqüência durante aqueles anos e perguntei se poderia ligar novamente quando voltasse a visitar minha irmã, depois do encerramento do primeiro semestre.

- Por favor, ligue. Peça para falar com Sally.

- Até logo, Sally. - Parecia estranho que "Informações, por Favor!" tivesse nome. - Se eu encontrar algum esquilo, vou dizer a ele para comer frutas e nozes.

- Faça isso - ela disse. - E espero que num desses dias você vá conhecer o Orinoco. Bem, até logo.

Três meses depois, eu estava de volta ao aeroporto de Seattle. Uma voz diferente atendeu:

- Informações.

Pedi para falar com Sally.

- Você é amigo dela?

- Sim - respondi. - Um velho amigo.

- Lamento muito informar, mas Sally só trabalhava meio expediente nos últimos anos porque estava muito doente. Ela morreu há cinco semanas.

Antes que eu tivesse tempo de desligar, ela continuou:

- Espere um momento. Você disse que seu nome é Villiard?

-Sim.

- Bem... Sally deixou um recado escrito para você.

- Que recado? - perguntei, quase adivinhando do que se tratava.

- Aqui está. É o seguinte: "Diga a ele que eu continuo a achar que existem outros mundos em que podemos cantar. Ele vai entender." Agradeci e desliguei. Eu entendi o que Sally quis dizer.


 

O DOM DE BEETHOVEN

Philip Yancey

Histórias Para o Coração 2 27

 

 

Conta-se que Beethoven era um homem tido como pouco sociável. Em razão de sua surdez, ele considerava a conversa uma prática difícil e humilhante. Quando soube da morte do filho de um amigo, Beethoven correu para a casa desse amigo, dominado pelo sofrimento. Ele não tinha palavras de conforto para oferecer, mas viu um piano na sala. Durante a meia hora que se seguiu, ele tocou piano, extravasando suas emoções da maneira mais eloquente que podia.

Assim que terminou, ele foi embora. Mais tarde, o amigo comentou que nenhuma outra visita havia sido tão significativa para ele.


 

ABANDONADO

Autor Desconhecido 1904

Histórias Para o Coração 2 29

 

 

O menino estava sentado tão próximo à senhora de roupa cinza que todos tinham certeza de que ele era alguém de sua família; por isso, quando, inconscientemente, ele encostou seus sapatos enlameados na ampla saia da mulher que estava à sua esquerda, ela virou-se para a senhora de cinza e disse:

- Desculpe-me, maJa.me, mas a senhora poderia ter a bondade de ordenar a seu filho que tenha modos? Ele está sujando minha saia com seus sapatos enlameados.

A senhora de roupa cinza corou um pouco e empurrou levemente o menino.

- Meu filho? - ela disse. - Por favor, ele não é meu filho.

O menino demonstrou inquietação. Era tão peque nino que não podia encostar os pés no chão. Então, esticou-os diante de si, como se fossem dois varais para dependurar roupas, e olhou para eles com ar de culpa.

- Sinto muito ter sujado sua roupa - ele disse à mulher à sua esquerda. - Espero que seja fácil limpar.

- Ah, não tem importância - ela disse. Ao ver os olhos do menino fixos nos dela, complementou: - Você está indo para aquele lado da cidade sozinho?

- Estou, senhora - ele disse. - Sempre vou sozinho. Não tenho ninguém para ir comigo. Meu pai morreu, e minha mãe morreu também. Moro com a tia Clara, no Brooklyn, mas ela diz que a tia Anna também precisa ajudar a tomar conta de mim. Por isso, uma vez ou duas vezes por semana, quando ela está cansada e quer ir a algum lugar para descansar, me manda passar uns dias com tia Anna. Estou indo para lá agora. Às vezes, eu não encontro tia Anna em casa, mas espero que ela esteja lá hoje, porque parece que vai chover, e eu não gosto de ficar andando na rua debaixo de chuva.

A mulher sentiu certo desconforto na garganta e disse, um tanto hesitante:

- Você é muito pequeno para andar por aí sozinho.

- Eu não me importo - ele disse. – Eu nunca fico perdido. Mas às vezes, me sinto sozinho durante a viagem. Quando vejo alguém que poderia ser meu parente, fico bem perto dessa pessoa, só para fazer de conta que é verdade. Esta manhã eu estava fingindo que era parente desta senhora que está do meu lado e me esqueci de tomar cuidado com meus pés. Foi por isso que sujei a roupa da senhora.

A mulher passou o braço ao redor do rapazinho e puxou-o para perto dela com tanta força que quase chegou a machucá-lo. Os olhares lançados por todas as outras mulheres que ouviram aquela confidência sincera deram a entender que ela permitiria que o menino limpasse os sapatos em sua melhor roupa e que isso a deixaria satisfeita.

 


 

ENQUANTO VOCÊ PRECISAR DE MIM

Wendi Fay Green Do Grupo de Cantores Cristãos Contemporâneos "Sierra"

Histórias Para o Coração 2 31

 

 

Sou autora de letras para músicas, e a maioria das canções que escrevo são inspiradas em minha vida. No entanto, em algumas ocasiões, eu escrevo uma canção que reflete as experiências de outras pessoas. Esta canção nasceu de uma situação difícil vivida por uma amiga muito especial.

Minha querida amiga, JoDee, estava em viagem de férias e havia pedido à sua mãe, Charlene, que ficasse em sua casa tomando conta de seu filhinho de três anos, enquanto ela estivesse fora. Num determinado dia, o filhinho de JoDee tropeçou acidentalmente numa lata de gasolina, na garagem da casa. Charlene levou-o para brincar no quintal e retomou à garagem para limpar o chão. Enquanto ela estava na garagem, a gasolina espalhou-se e pegou fogo, por causa do aquecedor de água quente. Em questão de segundos, a casa explodiu, levando Charlene à morte. Quando JoDee telefonou-me para contar o que havia acontecido, ela não conseguia parar de chorar.

Charlene era muito especial para mim. Ela e JoDee haviam permanecido no hospital, acompanhando-me durante as 16 horas que antecederam o nascimento de meu filho, Cooper. JoDee pediu que eu comparecesse ao funeral e dissesse algumas palavras sobre sua querida mãe. Voei até o Texas, onde elas moravam, e assisti ao ofício fúnebre, ao lado de JoDee e de sua família. Quando voltei para casa, escrevi esta canção, porque aquele tinha sido um desses momentos da vida em que é muito difícil encontrar palavras para serem ditas. Tudo o que pude fazer foi amparar JoDee, chorar com ela, e orar para que o maravilhoso conforto do Espírito Santo estivesse com ela e com sua família, durante aquele período tão doloroso.

Esta canção é difícil de ser cantada porque, nela, eu conto a história de JoDee e de Charlene. Quando cantada em nossas apresentações, ela transforma o momento em algo comovente e maravilhoso. Costumo dizer às pessoas que esta é uma canção de amizade, que fala sobre estar presente em todas as situações. Todos nós já estivemos de um lado ou do outro, em circunstâncias difíceis da vida. Precisamos nos ajudar uns aos outros - chorar juntos, orar juntos, sentar lado a lado, em silêncio, amar muito. Espero que esta canção nos inspire a fazer isto!

 

Enquanto Você Precisar de mim

 


 

"QUERO SER IGUAL AO JOE!"

Tony Campolo

Histórias Para o Coração 2 33

 

 

Joe era um bêbado que se converteu milagrosamente, em uma Missão. Antes de sua conversão, ele ganhou a fama de ser um alcoólatra sem recuperação, que passaria sua miserável existência em um gueto. Porém, após sua conversão e uma nova vida com Deus, tudo mudou. Joe tornou-se a pessoa mais zelosa que aqueles que eram ligados à Missão conheceram. Joe passava dias e noites trabalhando na Missão, fazendo tudo o que precisasse ser feito. Nada do que lhe fosse pedido era considerado por ele uma tarefa humilhante. Quer fosse limpar o vômito de um bêbado que ingeriu violentas doses de álcool, quer os imundos vasos sanitários dos banheiros masculinos, Joe fazia o que lhe pediam com um sorriso no rosto, como se estivesse grato pela oportunidade de ajudar. Diziam que ele alimentava homens fracos que vagueavam pelas ruas e os levava para a Missão, conseguindo roupas limpas e um leito para aqueles que não tinham forças para cuidar de si mesmos.

Certa noite, quando o dirigente da Missão estava proferindo sua mensagem evangelística à costumeira audiência composta de homens mal-humorados e cabisbaixos, houve um que levantou a cabeça, caminhou pelo corredor em direção ao púlpito e ajoelhou-se para orar, clamando a Deus para ajudá-lo a mudar de vida. O bêbado arrependido gritava repetidas vezes:

- Ó Deus! Quero ser igual ao Joe! Quero ser igual ao Joe! Quero ser igual ao Joe! Quero ser igual ao Joe!

O dirigente da Missão curvou-se e disse ao homem:

- Filho, acho que você deveria orar: "Quero ser igual a Jesus!" O homem olhou para o dirigente com uma expressão estranha no rosto e perguntou:

- Ele é igual ao Joe?


 

MADAME, A SENHORA E RICA?

Marion Doolan

Histórias Para o Coração 2 34

 

 

Elas haviam atravessado a porta, refugiando-se da tempestade, e permaneciam abraçadas para se protegerem - duas crianças vestidas com casacos grandes e esfarrapados.

- A senhora tem jornais velhos, madame?

Eu estava atarefada. Queria dizer não, mas olhei para os pés daquelas crianças. Sandálias pequenas e franzinas, encharcadas da chuva de granizo.

- Entrem. Vou dar-lhes uma xícara de chocolate quente.

Não houve diálogo. As sandálias encharcadas deixaram marcas nas pedras da lareira.

Servi-Ihes chocolate e torradas com geleia para fortalecê-las contra o frio lá fora. Em seguida, retomei à cozinha e recomecei meu trabalho de preparar o orçamento da casa...

O silêncio na sala da frente causou-me espanto. Resolvi olhar.

A menina segurava a xícara vazia diante de si, olhando para ela. O menino perguntou com voz inexpressiva:

-Madame... a senhora é rica?

- Eu, rica? Misericórdia! Claro que não!

Olhei para as capas surradas de minha mobília.

A menina colocou a xícara no pires... com muito cuidado e comentou:

- As xícaras da senhora combinam com os pires.

Sua voz era fraca e cansada, com uma fome que não vinha do estômago.

As crianças saíram, segurando os fardos de jornal para se protegerem do vento. Não me agradeceram. Não precisavam agradecer. Elas tinham feito mais do que isso. Conjuntos simples de xícaras e pires azuis. Mas combinavam. Provei as batatas e mexi o molho. Batatas com molho substancioso de carne, um teto para morarmos, meu marido com um emprego fixo - estas coisas também combinavam.

Recoloquei as cadeiras da lareira no lugar e arrumei a sala de estar. As marcas de lama das pequeninas sandálias continuavam nas pedras da lareira. Resolvi não limpá-Ias. Queria que estivessem ali.

caso viesse me esquecer novamente de que era muito rica.


 

PARA MEU VIZINHO

Madre Tereza

Histórias Para o Coração 2 36

 

 

Certa noite, um homem chegou a nossa casa e me disse:

- Há uma família na minha rua com oito filhos. Faz dias que eles não comem.

Peguei um pouco de comida e fui até lá.

Quando me aproximei daquela família, vi os rostos das criancinhas desfigurados pela fome. Não havia mágoa ou tristeza naqueles rostos;

apenas sofrimento causado por uma fome terrível.

Entreguei o arroz à mãe. Ela dividiu o arroz e saiu levando a metade. Quando voltou, perguntei-lhe:

- Aonde você foi?

Ela me deu uma simples resposta:

- Fui à casa de meus vizinhos. Eles também estão com fome!

...Não me surpreendi com a atitude daquela senhora, porque as pessoas pobres são realmente muito generosas. O que me surpreendeu foi que ela sabia que seus vizinhos estavam com fome. Como regra geral, quando estamos sofrendo, concentramo-nos tanto em nós mesmos que não temos tempo para os outros.


 

UM RAPAZ CHAMADO BILL

Rebecca Manley Pippert Adaptação

Histórias Para o Coração 2 37

 

 

O nome dele é Bill. Ele não penteia os cabelos, usa camiseta furada, calça jeans e anda descalço. Esse foi, literalmente, o seu guarda-roupa durante os quatro anos que estudou na faculdade.

Ele é muito inteligente, um pouco excêntrico, e muito, muito esperto. Converteu-se ao Cristianismo quando estudava na faculdade.

Em frente ao campo, do outro lado da rua, existe uma igreja de bela aparência e muito conservadora, que deseja expandir seu ministério aos alunos, mas não sabe ao certo como proceder.

Certo dia, Bill decide ir até lá. Ele chega descalço, de camiseta e calça jeans e, como sempre, com os cabelos despenteados. O culto já havia começado, e Bill caminha pelo corredor à procura de um lugar.

A igreja está lotada, e ele não encontra um lugar para se sentar. As pessoas olham para ele um pouco constrangidas, mas ninguém diz nada.

Bill aproxima-se cada vez mais do púlpito. Quando percebe que não há nenhum lugar vago, ele se senta no chão, em cima do carpete.

(Embora este tipo de comportamento seja perfeitamente aceitável em reuniões informais da faculdade, acreditem em mim, nunca antes havia acontecido naquela igreja!) As pessoas demonstram nervosismo, e a tensão no ambiente é visível.

A essa altura, o pastor observa um diácono vindo dos fundos do templo, caminhando lentamente na direção de Bill. O diácono é um homem de mais de 80 anos, tem cabelos cinza-prata, e usa terno com colete e um relógio de bolso. Ê um homem piedoso - muito elegante, muito respeitado, muito cortês. Apoiado em uma bengala, ele se dirige ao jovem, enquanto todos dizem a si mesmos: Não se deve censurar a atitude do diácono. Não se pode esperar que um homem, na idade dele e com a sua experiência, entenda o que se passa na cabeça de um universitário sentado no chão.

Demora um certo tempo para o homem chegar perto do jovem. A igreja permanece em completo silêncio, quebrado apenas pelo som da bengala daquele irmão. Todos os olhares concentram-se nele; não se ouve a respiração de ninguém. As pessoas estão pensando: O pastor não poderá pregar o sermão enquanto o diácono não fizer o que tem em mente.

Agora, elas vêem o ancião derrubar a bengala no chão. Com grande dificuldade, ele se abaixa, senta-se ao lado de Bill e participa do culto ao seu lado, para que ele não se sinta sozinho. Todos se emocionam.

Depois de readquirir o controle, o pastor diz:

- O que vou pregar agora jamais será lembrado por vocês. O que vocês acabaram de ver jamais será esquecido.


 

DANÇA DE OUTONO

Robin Jones Gunn

Histórias Para o Coração 2 39

 

 

Ela estava no parque esta tarde, a pouca distância de sua tutora.

Os traços de seu rosto revelavam que, embora o porte físico fosse o de uma jovem, sua mente sempre continuaria a de uma criança. Meus filhos corriam, saltavam e peneiravam a areia, com seus dedinhos perfeitos e bem coordenados. Brincando entretidos com uma pá, eles não notaram que o vento mudara de direção. Mas ela notou. As fortes rajadas do vento de outono revolviam as folhas cor de âmbar.

Chamei meu filho, um menino muito ativo, e peguei minha filha pela mão. Está na hora de ir. A mamãe ainda tem muitas coisas a fazer hoje. Meu filho, com suas bochechas rosadas, empertigou o corpo e olhou fascinado, com os olhos arregalados, a dança da menina com síndrome de Down. Ela colhia as folhas do chão e jogava-as por cima da cabeça, como se fosse uma chuva cintilante e jubilosa de outono.

A cada giro com o corpo, ela pulava e cantava, com voz deficiente vinda do fundo do coração - um cântico de louvor especial Àquele cuja respiração faz as folhas despencarem das árvores.

Rápido. Vamos embora. Já prenderam os cintos de segurança?

Dou partida no carro. Pelo espelho retrovisor, eu olho para a menina mais uma vez, através de meus olhos embaçados. Em seguida, lágrimas surgem. Não são lágrimas de piedade por ela. As lágrimas são por mim. Porque sou muito orgulhosa para louvar publicamente o meu Criador.

Sou uma pessoa inteira, normal e inteligente, e choro porque nunca serei capaz de conhecer a maravilhosa misericórdia que liberta uma criança como aquela e a leva a dançar no meio das folhas de outono.


 

UMA SEGUNDA CHANCE

Billy Graham

Histórias Para o Coração 2 43

 

 

A Escola Técnica da Georgia estava jogando contra a Universidade da Califórnia, no Rose Bowl (jogo de futebol americano, disputado, depois da temporada, entre os melhores times) de 1929. Durante a partida, um jogador recuperou uma bola perdida, mas confundiu-se e correu na direção errada. Quando seu companheiro de time o segurou para detê-lo, ele se atrapalhou e fez um gol contra. No intervalo, os jogadores correram para o vestiário e sentaram-se, aguardando o que o treinador diria. O jovem que fizera o gol contra sentou-se isolado dos outros, colocou uma toalha em cima da cabeça e chorou.

No momento em que os jogadores estavam prontos para retornar ao campo para o segundo tempo, o treinador os surpreendeu ao anunciar que não haveria alteração no time para aquele segundo tempo. Todos os jogadores deixaram o vestiário, menos o que tinha feito o gol contra. Ele não saiu do lugar. Quando o treinador olhou para trás e o chamou novamente, viu o rosto do jovem molhado de lágrimas. O jogador disse:

- Treinador, eu não posso jogar. Eu prejudiquei o senhor. Desgracei a Universidade da Califórnia. Não tenho coragem de enfrentar os torcedores novamente.

O treinador pousou a mão no ombro do jogador e disse:

- Levante-se e volte ao campo. O jogo ainda não terminou.

Quando penso nesta história, digo para mim mesmo:

- Que treinador!

Quando leio a história de Jonas [na Bíblia] e as histórias de milhares de pessoas como ele, digo:

- E pensar que Deus me daria outra chance!


 

ETERNA HARMONIA

John MacArthur

Histórias Para o Coração 2 44

 

 

Séculos atrás, correu pelo mundo a história do chefe de uma determinada tribo que era superior aos chefes de todas as outras tribos. Na época em que o poder era medido pela superioridade da força física, a tribo mais poderosa de todas era a que possuía o chefe mais forte.

Mas o chefe tribal de que estamos falando também era conhecido por sua sabedoria. No intuito de ajudar seu povo a viver em segurança e em paz, ele emitiu leis abrangendo todos os aspectos da vida tribal.

Fazia cumprir essas leis rigorosamente e adquiriu a fama de ser um juiz imparcial.

Apesar das leis, havia problemas na tribo. Um dia, chegou ao conhecimento do chefe que alguém da tribo estava cometendo pequenos furtos. Ele reuniu o grupo.

- Todos aqui sabem que as leis foram feitas para proteger vocês, para ajudar vocês a viverem em segurança e em paz - ele os fez lembrar, com grande tristeza no olhar por causa do amor que lhes dedicava. - Esses furtos precisam parar. Todos nós temos tudo aquilo de que necessitamos. a castigo será aumentado de 10 para 20 chibatadas em quem for surpreendido furtando os furtos, porém, continuaram a chefe voltou a reunir o grupo.

- Por favor, ouçam-me - ele pediu. - Esses furtos precisam parar. O ambiente entre nós está ficando cada vez pior, a castigo será aumentado para 30 chibatadas.

Apesar disso, os furtos não cessaram, a chefe reuniu mais uma vez o grupo.

- Por favor, eu estou suplicando. Para o bem de vocês, os furtos precisam parar. Eles estão causando muito sofrimento entre nós, a castigo será aumentado para 40 chibatadas.

O povo conhecia o grande amor do chefe pela tribo, mas apenas os que estavam mais próximos dele viram uma lágrima correr por seu rosto quando ele dispersou o grupo.

Finalmente, um homem disse que a pessoa havia sido identificada.

A notícia espalhou-se. Todos se reuniram para ver quem era.

Um murmúrio de espanto foi dado por todos quando a pessoa foi apresentada entre dois guardas. O rosto do chefe empalideceu de susto e sofrimento.

A ladra era sua mãe, uma senhora idosa e frágil.

O que ele vai fazer? - pensou o povo em voz alta. Será que ele faria cumprir a lei, ou o amor por sua mãe o impediria de cumpri-la?

O povo aguardou, conversando em voz baixa, com a respiração ofegante.

Finalmente, o chefe falou.

- Meu amado povo. - Sua voz ficou embargada. Quase que sussurrando as palavras, ele prosseguiu. - Estou fazendo isto pela nossa segurança e paz. Devem ser aplicadas 40 chibatadas; o sofrimento que este delito nos causou foi grande demais.

Ele fez um movimento afirmativo com a cabeça, e os guardas fizeram sua mãe dar um passo à frente. Um deles retirou cuidadosamente o manto dela, deixando à mostra as costas ossudas e arqueadas. O homem designado para aplicar o castigo começou a desenrolar o chicote.

Nesse momento, o chefe deu um passo à frente e também retirou seu manto, deixando à mostra os ombros largos, bronzeados e firmes.

Carinhosamente, ele passou os braços ao redor de sua querida mãe, protegendo-a com o próprio corpo.

Enquanto ele murmurava algumas palavras com o rosto encostado ao da mãe, suas lágrimas misturavam-se às dela. Ele fez outro movimento afirmativo com a cabeça, recebendo uma chibatada após outra.

Foi um momento singular. Mas, nele, o amor e a justiça entraram em eterna harmonia.


 

VOCÊ É DEUS?

Charles Swindoll

Histórias Para o Coração 2 46

 

 

Logo depois do término da Segunda Guerra Mundial, a Europa começou a ajuntar os cacos que restaram. Grande parte da Inglaterra fora destruída e encontrava-se em ruínas. Talvez o lado mais triste da guerra tenha sido assistir às criancinhas órfãs morrendo de fome nas ruas das cidades devastadas.

Certa manhã muito fria de Londres, um soldado americano estava retomando ao acampamento. Quando ele virou a esquina dirigindo um jipe, avistou um menino com o nariz pressionado contra o vidro de uma confeitaria. Lá dentro, o confeiteiro sovava a massa para uma fornada de rosquinhas. Faminto e com os olhos arregalados, o menino observava todos os movimentos do confeiteiro. O soldado parou o jipe junto ao meio-fio, desceu, e caminhou em silêncio até o local onde o menino se encontrava. Através do vidro embaçado pela fumaça, ele viu aquelas rosquinhas quentes e de dar água na boca sendo retiradas do forno. O menino salivou e deu um leve gemido quando o confeiteiro as colocou no balcão de vidro com todo o cuidado.

Em pé, ao lado do menino, o soldado comoveu-se diante daquele órfão desconhecido.

- Filho... você gostaria de comer algumas rosquinhas?

O menino assustou-se.

- Ah, sim... eu gostaria!

O soldado entrou na confeitaria e comprou uma dúzia de rosquinhas; colocou-as dentro de um saco de papel e dirigiu-se ao local onde o menino se encontrava sob a neblina gelada da manhã de Londres. Ele sorriu, entregou-lhe as rosquinhas, e disse simplesmente:

- Aqui estão.

Quando o soldado se virou para se afastar, sentiu um puxão em sua farda. Ele olhou para trás e ouviu o menino perguntar baixinho:

- Moço... você é Deus?


 

SR. ROTH

Autor Desconhecido

Histórias Para o Coração 2 49

 

 

Um senhor idoso apareceu na porta dos fundos da casa que alugamos. Cautelosos, entreabrimos a porta e vimos seus olhos vítreos e seu rosto enrugado brilhando sob a barba curta e grisalha. Ele segurava uma cesta de vime contendo alguns legumes com aspecto pouco atraente. Desejou-nos um bom dia e ofereceu seu produto. Estávamos preocupados em fazer uma compra rápida, para aliviar nossa piedade misturada com medo.

Para nosso aborrecimento, ele retornou na semana seguinte, apresentando-se como Sr. Roth, o homem que morava no barraco no fim da rua. Quando nossos temores cessaram, aproximamo-nos mais dele e compreendemos que não era o álcool, mas a catarata, que deixava seus olhos com aquele aspecto vidrado. Nas visitas subsequentes, ele chegou arrastando os pés calçados com sapatos diferentes um do outro e tirou uma harmônica do estojo. Com o olhar fixo em uma glória futura, ele começou a tocar hinos antigos, entre uma conversa e outra que entabulamos sobre legumes e religião.

Em uma das visitas, ele exclamou:

- O Senhor é tão bondoso! Saí de meu barraco hoje cedo e encontrei, na porta da frente, uma sacola cheia de sapatos e roupas.

- Isto é maravilhoso, Sr. Roth - dissemos. - Estamos felizes pelo senhor.

- E sabem o que é mais maravilhoso ainda? - ele perguntou. Ontem conheci algumas pessoas que podem usar os sapatos e as roupas.


 

EU NÃO ACREDITO EM UMA SÓ PALAVRA

Howard Hendricks

Histórias Para o Coração 2 50

 

 

Quando cheguei à quinta série, eu carregava comigo todos os problemas de um garoto que se sentia inseguro, carente de amor e de mal com a vida. Em outras palavras, eu era um furacão destruidor. Porém, a Srta. Simon, minha professora, aparentemente imaginava que eu desconhecesse o meu problema, porque costumava dizer-me:

- Howard, você é o aluno mais mal comportado desta escola!

Eu gostaria que você me dissesse alguma coisa que eu ainda não sabia! - pensava comigo mesmo, enquanto continuava a melhorar (ou piorar) a opinião dela a meu respeito...

É desnecessário dizer que a quinta série foi, provavelmente, o pior ano de minha vida escolar. Finalmente, recebi o diploma - por motivos óbvios. Mas as palavras da Srta. Simon continuavam a soar em meus ouvidos: "Howard, você é o aluno mais mal comportado desta escola!" Você pode imaginar quais eram as minhas expectativas quando entrei na sexta série. No primeiro dia de aula, minha professora, a Srta. Noe, começou a fazer a chamada, e não demorou muito para dizer meu nome.

- Howard Hendricks - ela disse bem alto, desviando os olhos da lista para o lugar em que eu estava sentado com os braços cruzados, apenas aguardando o momento de entrar em ação. Ela olhou para mim por alguns instantes e prosseguiu: - Tenho ouvido falar muito de você. - Em seguida, sorriu e complementou: - Mas eu não acredito em uma só palavra!

Vou contar-lhe uma coisa. Aquele momento foi o ponto decisivo, não apenas em minha educação, mas também em minha vida. De repente, inesperadamente, alguém acreditou em mim. Pela primeira vez na vida, alguém enxergou potencial em mim. A Srta. Noe incumbiu-me de tarefas especiais. Ela me solicitava pequenos serviços.

Convidava-me para ir a sua casa depois da escola para me dar aulas de reforço sobre leitura e aritmética. Ela me desafiava a alcançar padrões cada vez mais altos.

Eu não queria desapontá-Ia por nada deste mundo. Certa vez, envolvi-me tanto com um dever de casa que fiquei acordado até lh30 da madrugada para terminá-Io! Meu pai apareceu no hall e perguntou:

- O que houve, filho? Você está doente?

- Não, estou fazendo meu dever de casa - respondi.

Ele piscou e coçou os olhos para ter certeza de que estava acordado.

Ele nunca me ouvira dizer tal coisa antes...

O que fez a diferença entre a quinta e a sexta séries? O fato de alguém estar disposto a dar-me uma chance. Alguém se dispôs a acreditar em mim e me desafiou a ter expectativas mais amplas.

Aquilo foi um risco, porque não havia garantias de que eu mereceria a confiança da Srta. Noe.

Todos apreciam o bom trabalho de um mentor, principalmente quando seus esforços resultam em sucesso - um atleta famoso, um empresário próspero, um advogado brilhante, um comunicador de grande talento. Mas quantos de nós desejamos dar início a esse trabalho?


 

UM BULE DE CHÁ ESPECIAL

Roberta Messner

Histórias Para o Coração 2 52

 

 

Uma multidão impaciente de quase 200 pessoas, ávidas por encontrar uma pechincha, acotovelava-se na imensa sala de estar da antiga propriedade rural da família Withers. A temperatura abafada, de cerca de 33°C, não impediu nenhuma delas de sair à cata de uma boa oferta de verão.

A senhora que conduzia as vendas, uma conhecida minha de longa data, observava os madrugadores e movimentava a cabeça em sinal de aprovação.

- Você está gostando da bagunça? - ela me perguntou, dando uma risadinha.

Concordei com um sorriso.

- Eu não deveria estar aqui. Preciso chegar ao aeroporto em menos de uma hora - admiti. - Em meus tempos de adolescente, vendi cosméticos nessas imediações. E Hillary Withers era minha cliente favorita.

- Então corra até o sótão - ela sugeriu. - Há uma boa quantidade de antigos cosméticos lá.

Apressada, eu me espremi entre a multidão cada vez maior e subi a escada até o terceiro pavimento. No sótão, havia apenas uma pequenina senhora idosa supervisionando várias mesas lotadas de sacos de embalagem amarelados, de todos os tamanhos.

- O que a trouxe até aqui? - ela perguntou enquanto abria um vidro de perfume. - Não há nada aqui em cima, a não ser alguns produtos antigos da Avon, da Tupperware e das Escovas Fuller. Dei um longo e precavido suspiro. A fragrância inconfundível do perfume "Aqui Está Meu Coração" transportou-me ao passado, quase 20 anos atrás.

- Que coisa! Isto aqui foi escrito por mim! - exclamei quando pousei os olhos em uma fatura grampeada em uma das embalagens. O conteúdo intacto conservava mais de cem dólares em cremes e colônias. Tinha sido minha primeira venda para a Sra. Withers.

Naquele remoto dia de junho, eu tinha percorrido a larga avenida de três pistas durante quase quatro horas, mas nenhuma dona-de-casa convidou-me a entrar. Quando toquei a campainha da última casa, estava preparada para receber mais um não.

- Com licença, madame, sou sua nova representante da Avon gaguejei, assim que a pesada porta de madeira entalhada foi aberta. Tenho alguns ótimos produtos e gostaria de mostrá-Ios à senhora.

Quando, finalmente, reuni coragem para encarar aquela mulher em pé na soleira da porta, me dei conta de que se tratava da Sra.

Withers, a radiante e corpulenta soprano do coro de nossa igreja.

Eu admirava seus lindos vestidos e chapéus, sonhando que um dia também usaria roupas da moda. Dois meses antes daquele dia, eu tinha viajado a uma cidade distante para ser submetida a uma cirurgia do cérebro. A Sra. Withers me enviou lindos cartões com votos de ponto restabelecimento.

- Roberta, minha querida, entre, entre - disse a Sra. Withers, com voz melodiosa. - Estou precisando de um milhão de coisas. Que bom você ter vindo me visitar.

Entusiasmada, acomodei-me no sofá branco imaculado e abri o zíper de minha bolsa de tecido grosso, abarrotada de amostras de todos os tipos de cosméticos que poderiam ser adquiridos por cinco dólares. Quando entreguei o catálogo de vendas à Sra. Withers, senti-me a garota mais importante do mundo.

- Sra. Withers, temos dois tipos de creme: um para peles coradas e outro para peles pálidas - expliquei com palavras confiantes recém-estudadas. - E eles também são excelentes para combater rugas.

- Ótimo, ótimo - ela disse alegremente.

- Qual dos dois a senhora gostaria de comprar? - perguntei, ajeitando a peruca que escondia a enorme cicatriz de minha cirurgia.

- Oh, vou querer um de cada - ela respondeu. - E que perfumes você tem aí?

- Experimente este, Sra. Withers. Eles recomendam que se coloque uma gota no pulso para obter melhor efeito - eu instruí, apontando para seu pulso onde havia uma pulseira de ouro e brilhantes.

- Estou gostando de ver, Roberta! Você conhece muito bem estas coisas. Deve ter estudado durante dias. Que moça inteligente você é!

- A senhora acha mesmo?

Naquele remoto dia de junho, eu tinha percorrido a larga avenida de três pistas durante quase quatro horas, mas nenhuma dona-de-casa convidou-me a entrar. Quando toquei a campainha da última casa, estava preparada para receber mais um não.

- Com licença, madame, sou sua nova representante da Avon gaguejei, assim que a pesada porta de madeira entalhada foi aberta. Tenho alguns ótimos produtos e gostaria de mostrá-Ios à senhora.

Quando, finalmente, reuni coragem para encarar aquela mulher em pé na soleira da porta, me dei conta de que se tratava da Sra.

Withers, a radiante e corpulenta soprano do coro de nossa igreja.

Eu admirava seus lindos vestidos e chapéus, sonhando que um dia também usaria roupas da moda. Dois meses antes daquele dia, eu tinha viajado a uma cidade distante para ser submetida a uma cirurgia do cérebro. A Sra. Withers me enviou lindos cartões com votos de pronto restabelecimento.

- Roberta, minha querida, entre, entre - disse a Sra. Withers, com voz melodiosa. - Estou precisando de um milhão de coisas. Que bom você ter vindo me visitar.

Entusiasmada, acomodei-me no sofá branco imaculado e abri o zíper de minha bolsa de tecido grosso, abarrotada de amostras de todos os tipos de cosméticos que poderiam ser adquiridos por cinco dólares. Quando entreguei o catálogo de vendas à Sra. Withers.

senti-me a garota mais importante do mundo.

- Sra. Withers, temos dois tipos de creme: um para peles coradas e outro para peles pálidas - expliquei com palavras confiantes recém-estudadas. - E eles também são excelentes para combater rugas.

- Ótimo, ótimo - ela disse alegremente.

- Qual dos dois a senhora gostaria de comprar? - perguntei, ajeitando a peruca que escondia a enorme cicatriz de minha cirurgia.

- Oh, vou querer um de cada - ela respondeu. - E que perfumes você tem aí?

- Experimente este, Sra. Withers. Eles recomendam que se coloque uma gota no pulso para obter melhor efeito - eu instruí, apontando para seu pulso onde havia uma pulseira de ouro e brilhantes.

- Estou gostando de ver, Roberta! Você conhece muito bem estas coisas. Deve ter estudado durante dias. Que moça inteligente você é!

- A senhora acha mesmo?

- Tenho certeza. E o que você planeja fazer com o dinheiro ganho?

- Estou economizando para fazer o curso de enfermagem na faculdade - respondi, surpresa com minhas palavras. - Mas hoje estou pensando em comprar uma malha de lã para dar de presente de aniversário à minha mãe. Ela sempre me acompanha nos exames médicos, e, quando viajamos de trem, uma malha de lã é sempre útil.

- Que maravilha, Roberta, quanta consideração por sua mãe! E que produtos você tem para oferecer como presente? - ela perguntou.

Em seguida, solicitou dois de cada um dos que recomendei.

O extravagante pedido totalizou US$117.42. Será que a Sra. Withers queria mesmo gastar tanto dinheiro? Mas ela sorriu e disse:

- Vou aguardar a entrega de meu pedido, Roberta. Você disse que será na próxima terça-feira?

Eu já estava me preparando para sair quando a Sra. Withers disse:

- Você parece estar com fome. Gostaria de tomar um chá, antes de ir?

Aqui em casa, consideramos o chá uma "bebida com o brilho do sol".

Concordei com um movimento de cabeça e acompanhei a Sra.

Withers até sua reluzente cozinha, repleta de todos os tipos de novidades. Observei, fascinada, enquanto ela preparava um chá - como eu havia visto no cinema - só para mim. Ela encheu cuidadosamente a chaleira com água fria, esperou levantar fervura, acrescentou as folhas de chá e aguardou exatamente cinco longos minutos.

- É para que o aroma se desprenda - ela explicou.

Em seguida, ela pegou uma bandeja de prata onde colocou um delicado conjunto de xícaras de porcelana, um abafador de tecido para o bule, tentadores biscoitinhos de morango e outros petiscos deliciosos. Em nossa casa, às vezes, tomávamos chá gelado em copos de geléia, e, agora, eu me sentia uma princesa convidada para o chá da tarde.

- Desculpe-me, Sra. Withers, mas não existe um modo mais rápido de preparar chá? - perguntei. - Em casa, usamos chá em saquinhos.

A Sra. Withers passou o braço ao redor de meu ombro.

- Existem coisas na vida que não devem ser feitas às pressas - ela confidenciou. - Aprendi que deixar o chá em infusão em um bule especial é semelhante a ter uma vida correta. Dá um pouco mais de trabalho, mas sempre vale a pena. Veja seu exemplo, com todos os seus problemas de saúde. Você é "macerada", com determinação e ambição, da mesma forma que um bule de chá especial. Muitas pessoas em seu lugar teriam desistido; mas você, não. Roberta, você pode conseguir qualquer coisa que tenha em mente.

Minha viagem ao passado terminou abruptamente, no momento em que a senhora do sótão abafado e úmido me perguntou:

- Você também conheceu Hillary Withers?

Limpei o suor que escorria em minha testa e respondi:

- Sim... certa vez, vendi um destes cosméticos para a Sra. Withers.

Mas não entendo por que ela nunca os usou nem os repassou para alguém.

- Ela repassou grande parte - disse a senhora, com a voz um tanto emocionada. - Mas alguns foram esquecidos e terminaram aqui.

- Mas por que ela comprou os produtos e não os usou? perguntei.

- Ah, ela comprava uma marca especial de cosméticos para uso próprio. - A senhora abaixou a voz e disse em tom confidencial:

- Hillary tinha um carinho especial pelos vendedores de porta em porta. Ela nunca os dispensava. Costumava dizer-me: "Eu poderia dar dinheiro a eles; mas o dinheiro em si não compra auto-estima.

Por isso, dou a eles um pouco de meu dinheiro, empresto um ouvido amigo e compartilho meu amor e minhas orações. Nunca se sabe até onde alguém pode chegar se for movido por um pouco de incentivo.

Fiz uma pausa, lembrando-me do quanto minhas vendas aumentaram após a primeira visita à Sra. Withers. Comprei a malha de lã para minha mãe com a comissão da venda e ainda fiquei com um pouco de dinheiro para pagar minha dívida na faculdade. Cheguei a receber vários prêmios como vendedora distrital e nacional. Consegui terminar a faculdade com meu dinheiro e realizei o sonho de ser enfermeira. Posteriormente, recebi grau de mestrado e doutorado.

- A Sra. Withers preocupava-se mesmo com os vendedores? perguntei àquela senhora, apontando para as dezenas de embalagens amareladas sobre a mesa.

- Ah, sim - ela me assegurou. - Fazia isso sem que ninguém soubesse.

Paguei as minhas compras - um conjunto de cosméticos que vendi à Sra. Withers e um pequenino medalhão de ouro em formato de coração. Coloquei o medalhão na corrente de ouro em meu pescoço. ~ Em seguida, rumei para o aeroporto; mais tarde, naquele mesmo dia, eu faria uma palestra em um congresso médico em Nova York.

Quando cheguei ao salão de convenções do elegante hotel, caminhei até a tribuna e examinei minuciosamente uma profusão de rostos especialistas da área de saúde, vindos de todas as partes do país. De repente, senti-me tão insegura quanto naquele dia longínquo, quando bati, de porta em porta, para vender cosméticos em um bairro de pessoas abastadas e desconhecidas.

Será que vou conseguir?, pensei.

Com os dedos trêmulos, segurei o medalhão. Ele se abriu, deixando à mostra uma fotografia da Sra. Withers. Ouvi novamente suas palavras carinhosas, porém enfáticas: "Roberta, você pode conseguir qualquer coisa que tenha em mente." - Boa-tarde - comecei a dizer vagarosamente. - Obrigada por terem me convidado para falar sobre como devolver a saúde pública ao seu devido lugar. Costuma-se dizer que o trabalho de enfermagem significa tornar visível o amor. Mas, nesta manhã, aprendi uma lição inesperada sobre o poder do amor silencioso manifestado em segredo. O tipo de amor manifestado não para ser exibido, mas para o bem que ele pode fazer na vida das outras pessoas. Alguns de nossos gestos mais importantes de amor geralmente passam despercebidos. Um dia, eles vão florescer - quando seu aroma se desprender.

A seguir, contei a meus colegas a história de Hillary Withers. Para minha surpresa, recebi um estrondoso aplauso. E pensar que tudo começou com um bule de chá especial...


 

PALAVRAS DE INCENTIVO

Susan Maycinik

Histórias Para o Coração 2 57

 

 

- Posso falar com a gerente?

- A súbita pergunta de minha amiga à garçonete me surpreendeu. Nosso jantar em uma pizzaria popular havia transcorrido sem nenhuma anormalidade, e eu me perguntava o que Eileen tinha em mente.

A gerente se aproximou de nossa mesa alguns minutos depois.

- Em que posso ser útil? - ela perguntou hesitante, como se estivesse esperando mais uma reclamação de uma cliente zangada.

- Eu só queria lhe contar que a garçonete que nos atendeu hoje foi excelente - Eileen começou a dizer, descrevendo, em seguida, as várias coisas que a atendente havia feito e que tanto a impressionaram.

Evidentemente, a gerente ficou aliviada - e encantada. O mesmo aconteceu com a garçonete, que estava em pé, ao lado da mesa.

Nós quatro rimos e conversamos por alguns minutos. Eileen havia transformado em sucesso o dia de duas mulheres esforçadas... e fez com que ficasse gravada em minha mente uma impressão indelével do poder das palavras positivas.

Quando pensamos em nossas palavras, é fácil nos concentrar nas pessoas que gostaríamos de censurar. Felizmente, existem certas frases que quase sempre têm um momento certo de ser proferidas palavras que transmitem amor e incentivo. Aqui estão algumas delas:

 

"Seu trabalho foi excelente."

"Posso orar por você neste momento?"

"Como você realmente está?"

"Suas palavras me ajudaram."

"Eu estava errado(a)."

"Obrigado(a) por me conduzir/servir."

"Eu ofendi você?"

"Gosto da maneira como você _____”.

"Em que posso ser útil?"

"Conte-me sobre seu dia, seu trabalho, seus filhos..."

"Por favor, perdoe-me."

"Deus é tão grande a ponto de "Estou orgulhoso(a) de você."

"Você está se desenvolvendo bem."

"Por favor, venha jantar conosco."

"Senti sua falta."

"Estou muito feliz por você."

"Orei por você hoje." "Deve ter sido muito difícil!" "Aceito com satisfação!"

 

Em resumo, se existem palavras que voei gostaria de ouvir, tenha certeza de que elas também servem para encorajar os outros.


 

TRÊS CARTAS DE TEDDY

Elizabeth Silance Ballarian

Histórias Para o Coração 2 59

 

 

A carta de Teddy chegou hoje, e, agora que já a li, vou guardá-la em meu baú de cedro, com as outras coisas que são importantes para a minha vida.

"Eu queria que a senhora fosse a primeira a saber." Sorri ao ler estas palavras, e meu coração se encheu de um orgulho que eu não deveria sentir.

Não vejo Teddy Stallard há 15 anos, época em que ele foi meu aluno na quinta série. Eu estava no início de carreira e começara a lecionar havia apenas dois anos.

Não gostei de Teddy, desde o primeiro dia que ele entrou em minha classe. Os professores (embora nem todos saibam fazer a diferença) não devem demonstrar preferência por nenhum aluno e, acima de tudo, não devem demonstrar antipatia por uma criança, por qualquer criança.

Contudo, todos os anos aparecem uma ou duas crianças pelas quais não podemos deixar de sentir certa afeição, porque os professores são humanos, e faz parte da natureza humana gostar de pessoas espertas, bonitas e inteligentes, quer tenham dez ou 25 anos de idade. E, às vezes, com pouca freqüência, felizmente, há um ou dois alunos com os quais o professor não consegue ter um bom relacionamento.

Eu me considerava perfeitamente capaz de lidar com meus sentimentos em tais situações, até o dia em que Teddy entrou em minha vida. Naquele ano, não havia nenhum aluno especial do qual eu gostasse; mas Teddy era, certamente, um menino com quem eu não me simpatizava.

Ele era um garoto sujo. Não de vez em quando, mas sempre. Seu cabelo caía por cima das orelhas, e ele precisava afastá-Io dos olhos para conseguir escrever. Naquela época, o cabelo comprido, não era moda! Além disso, seu corpo exalava um odor que nunca consegui identificar.

Sua aparência física era horrível, e seu intelecto deixava muito a desejar. No final da primeira semana, eu já sabia que ele não acompanharia os demais alunos. Além de não acompanhar, era lento demais! Comecei a afastar-me dele imediatamente.

Qualquer professor vai dizer que se sente mais do que satisfeito quando ensina uma criança inteligente. É muito mais compensador para o ego. Porém, qualquer professor que se preze deve canalizar o trabalho para o aluno inteligente, no intuito de estimulá-Io, enquanto dedica maior empenho às crianças mais lentas. Qualquer professor pode fazer isso. A maioria faz, mas eu não fiz. Não naquele ano.

A bem da verdade, concentrei-me em meus melhores alunos e deixei que os outros os acompanhassem dentro do possível. Embora me sinta envergonhada por ter de admitir, eu nutria um perverso prazer em usar a caneta vermelha; e, todas as vezes que eu corrigia as provas de Teddy, as cruzes vermelhas (e havia muitas) eram sempre um pouco maiores e um pouco mais acentuadas do que o necessário.

"Insatisfatório!" - eu escrevia, com letras floreadas.

Apesar de não ridicularizar o garoto, minha atitude era visível aos outros alunos, porque ele passou rapidamente a ser a "ovelha negra" da classe, o excluído: aquele que não era digno de ser amado.

Teddy sabia que eu não gostava dele, mas não sabia por quê. Eu também não sabia - nem naquela época, nem agora - por que sentia tamanha antipatia por ele. Só sei que ninguém gostava dele, e eu não fiz nenhum esforço para mudar essa situação.

Os dias foram passando. Comemoramos o Festival de Outono e o Dia de Ação de Graças, e eu continuava a usar minha caneta vermelha com grande satisfação.

Quando o Natal se aproximou, eu sabia que Teddy não teria condições de se recuperar a tempo de passar para a sexta série. Ele repetiria o ano.

Para justificar-me, eu relia seu currículo escolar, de tempos em tempos. Suas notas haviam sido muito baixas nos quatro primeiros anos, mas ele nunca foi reprovado. Como ele conseguiu essa façanha, eu não sabia. Resolvi concentrar-me nas anotações sobre sua personalidade.

Primeira série: Teddy demonstra ter futuro, em razão de seu trabalho e atitudes; mas o ambiente em seu lar não é bom. Segunda série: Teddy poderia ser melhor aluno. A mãe está doente e em estado terminal. Ele recebe pouca ajuda em casa. Terceira série: Teddy é um menino amável. Prestativo, mas muito sério. Lento para aprender. A mãe morreu no fim do ano. Quarta série: Muito lento, porém bem comportado. O pai não demonstra nenhum interesse pelo filho.

Bem, ele foi aprovado quatro vezes. Mas certamente repetirá a quinta série! Faça alguma coisa por ele! - eu disse a mim mesma.

Chegou o último dia de aula, antes do Natal. Nossa pequenina árvore em cima da mesa de leitura estava enfeitada com papel e pipoca. Havia muitos presentes amontoados embaixo dela, à espera do grande momento.

Os professores sempre recebem vários presentes no Natal, mas, naquele ano, os meus foram em número muito maior e eram muito mais requintados. Não houve um só aluno que não me tivesse trazido um presente. Cada pacote desembrulhado provocava gritos de alegria, seguidos de efusivos agradecimentos àquele que o oferecera.

O presente de Teddy não foi o último que peguei; estava no meio da pilha, acondicionado num saco de papel marrom, enfeitado com desenhos de árvores de Natal e sinos vermelhos, feitos por ele mesmo.

A boca do saco estava amarrada com fita adesiva invisível.

"Para a Srta. Thompson, de Teddy" - ele havia escrito.

Um completo silêncio abateu-se sobre o grupo, e, pela primeira vez, eu me senti observada e constrangida, porque todos estavam aguardando que eu abrisse o presente.

Quando retirei o último pedaço da fita adesiva, dois objetos caíram em minha mesa: um vistoso bracelete imitando jóia, no qual faltavam várias pedras, e um pequeno frasco de colônia barata - pela metade. Ouvi as risadinhas e os cochichos, e eu não tinha certeza se poderia olhar para Teddy.

- Não é lindo? - perguntei, colocando o bracelete no pulso. Teddy, você poderia ajudar-me a fechá-Io?

Ele sorriu com timidez, enquanto prendia o fecho, e eu levantei o braço para que todos admirassem o bracelete.

Ouvi alguns "ooohs" e "aaahs" hesitantes; mas, quando coloquei uma gota da colônia atrás da orelha, todas as meninas se enfileiraram para receber uma gota também.

Continuei a abrir os presentes, até chegar ao último da pilha.

Comemos alguns petiscos, e a sineta tocou.

As crianças se despediram com gritos de "Até o ano que vem!" e "Feliz Natal". Mas Teddy continuou sentado em sua carteira.

Depois que todos saíram, ele caminhou em minha direção, segurando firme contra o peito os livros e o presente que ganhou.

- A senhora é parecida com minha mãe - ele disse mansamente. O bracelete dela também fica muito bonito no pulso da senhora. Que bom que a senhora gostou! . Após essas palavras, ele saiu rapidamente. Tranquei a porta, sentei-me diante de minha mesa e chorei, resolvida agora, a oferecer a Teddy tudo o que eu, deliberadamente, lhe negara o carinho de uma professora.

Depois dos feriados de Natal, passei todas as tardes com Teddy, até o último dia de aula. Às vezes, trabalhávamos juntos. Outras, ele trabalhava sozinho, enquanto eu preparava as aulas ou as provas.

Lentamente, mas com determinação, ele alcançou o restante da classe. Na verdade, suas médias finais ficaram entre as mais altas da classe. Apesar de saber que Teddy se mudaria para outro Estado quando as aulas terminassem, eu não sentia preocupação em relação a ele. Teddy havia atingido um estágio que o levaria a manter um bom nível no ano seguinte, em qualquer colégio que estudasse. Ele havia desfrutado uma boa dose de sucesso, e, conforme aprendemos no curso de magistério, "o sucesso consolida o sucesso".

Só recebi notícias de Teddy 7 anos depois, quando encontrei sua primeira carta em minha caixa de correio.

 

Prezada Srta. Thompson, Eu queria que a Senhora fosse a primeira a saber. Vou receber o diploma como segundo aluno da classe, no próximo mês.

Cordialmente, Teddy Stallard

 

Enviei-lhe um cartão de congratulações e um pequeno presente: um conjunto de caneta e lápis. Eu gostaria de saber o que ele faria após receber o diploma.

 

Quatro anos depois, chegou a segunda carta de Teddy.

 

Prezada Srta. Thompson, Eu queria que a senhora fosse a primeira a saber. Fui informado de que vou receber o diploma como primeiro aluno da classe. O curso na faculdade não foi fácil, mas eu gostei. - Cordialmente, Teddy Stallard

 

Enviei-lhe um belo par de abotoaduras de prata, com suas iniciais, acompanhado de um cartão. Estava tão orgulhosa dele que parecia que ia explodir!

E hoje... chegou a terceira carta de Teddy.

 

Prezada Srta. Thompson, Eu queria que a senhora fosse a primeira a saber. A partir de hoje, sou o médico, Dr. Theodore Stallard. Que ta!!!??

Vou me casar em julho. No dia 27, para ser mais exato. Eu gostaria que a senhora comparecesse e se sentasse no lugar onde minha mãe se sentaria. Não tenho mais família, porque meu pai morreu no ano passado.

Cordialmente, Teddy Stallard

 

Não sei ao certo que tipo de presente se deve enviar a um médico, quando efe conclui a faculdade de medicina. Talvez seja melhor aguardar e levar um presente de casamento. Mas a carta não pode esperar.

 

Prezado Ted, Parabéns! Você conseguiu, e conseguiu com o próprio esforço! Apesar de pessoas como eu, e não por minha causa, o seu dia chegou.

Deus o abençoe. Estarei presente ao casamento quando os sinos estiverem tocando!


 

DAR E RECEBER

Billie Davis

Histórias Para o Coração 2 66

 

 

Uma professora da rede pública de ensino deixou claras para mim as ideias complexas a respeito de dar e receber.

Evidentemente, ela notou alguma coisa sobre a maneira como eu segurava o livro na aula de leitura e concluiu que eu deveria fazer um exame de vista. Ela não me enviou a uma clínica; levou-me a seu oftalmologista, não para fazer-me caridade, mas como uma amiga.

Fiquei tão intrigada com os exames que não me dei conta exatamente do que havia acontecido, até o dia em que ela me entregou os óculos, na escola.

- Não posso ficar com eles. Não tenho dinheiro para pagar - eu disse, constrangida, diante da pobreza de minha família.

Ela me contou uma história:

- Quando eu era criança, uma vizinha comprou óculos para mim.

Ela disse que eu deveria pagar por eles, no dia em que eu comprasse óculos para outra menina. Portanto, veja só. Os óculos foram pagos antes de você nascer.

Em seguida, a professora me disse as palavras mais agradáveis que já ouvi:

- Algum dia, você vai comprar óculos para outra menina.

Ela viu em mim alguém que faria isso. Tornou-me responsável.

Acreditou que eu teria algo a oferecer a outra pessoa. Aceitou-me como membro do mesmo mundo em que ela vivia. Saí daquela sala, segurando firme os óculos, não como alguém que recebeu uma caridade, mas como uma mensageira confiável.


 

O PROFESSOR DAN

PAMELA REEVE

Histórias Para o Coração 2 67

 

 

Oi, professor Dan! - disse, em coro, a classe lotada de alunos da pré-escola.

Dan tem a aparência de um avô, com seus cabelos grisalhos, um grande sorriso no rosto e olhos azuis que revelam um caráter bondoso.

Ele sorri e cumprimenta as crianças. Duas vezes por semana, ele faz uma breve visita àquela escola, antes de se dirigir a outra sala de aula.

Ele passa pela garagem transformada em pré-escola, entra na casa e segue até o hall. Pára diante de uma porta aberta. É uma classe sem quadro-negro e sem quadro de avisos. Não existem fileiras de carteiras nem sineta. É um quarto extra da casa, onde há uma mesa grande para computador, um computador novo, duas cadeiras e um sofá.

Seu aluno, Jason, está sentado diante do computador. Os cabelos ondulados e escuros se agitam de um lado para o outro enquanto Jason acompanha com o corpo os movimentos do seu cantor de rock favorito. Longos dedos tocam um piano imaginário enquanto ele ouve a música.

Dan aguarda.

Jason é um menino puro. Muitas pessoas diriam que a vida não foi justa com ele; Jason passou parte de seus 18 anos sofrendo de convulsões. Quando ele chegou à puberdade, as convulsões aumentaram tanto, em frequência e intensidade, que ele precisou passar a receber aulas em casa. Sua fala é lenta e moderada. Os passos são trôpegos. Sua capacidade de transformar pensamentos em palavras é demorada por causa do problema que afeta seu cérebro.

Dan, um professor aposentado, com especialidade em ensino para excepcionais, passa dois dias por semana lecionando para Jason, que acaba de iniciar seus estudos no curso médio, e é mais alto que seu professor, que mede 1,80m. O formato quadrado do rosto de Jason confere-lhe uma fisionomia bonita. Ele gosta de provocar os outros e adora fazer brincadeiras. Também possui perfeito entendimento do que é certo e errado, e sua fé em Deus é firme.

Os movimentos de Jason são um tanto desencontrados quando ele se vira para ver Dan. Ambos têm esperança de que Jason não terá nenhuma convulsão durante os 90 minutos de aula.

Com voz grave e tranquila, ele cumprimenta o professor.

- Oi, D-an.

- Como você está hoje? - Dan pergunta.

- Ó-timo. Sen-ti a su-a fal-ta outro di-a. Que b-om que vo-cê já sa-rou.

- Eu preferia ter vindo a ficar em casa cuidando de uma gripe.

- A gri-pe é ter-rí-vel.

- Ótimo, Jason. Estou gostando de ver você usar palavras novas.

Acho que "terrível" é uma de suas prediletas, não?

Jason sorriu. - Eu gos-to de ter-rí-vel.

- Bem, podemos começar?

Como qualquer outro adolescente faria, Jason protela um pouco.

- Vo-cê sa-bia que não es-tão mais fa-zen-do ba-na-nas?

- Por que, Jason? Por que não estão mais fazendo bananas?

Jason ri e bate na mesa com a palma da mão. - Por-que nin-guém faz ba-na-nas. E-las nas-cem na ba-na-nei-ra.

Ele pega sua pequena toalha e enxuga a boca. Seus olhos brilham ao ver q~ Dan gosta da brincadeira.

- Esta foi boa, Jason. Eu caí mais uma vez.

Dan sentiu-se muito orgulhoso por Jason ser capaz de fazer esse tipo de brincadeira, fazendo sempre a pergunta certa.

Depois de conversar sobre os acontecimentos recentes, Jason deve escrever três frases sobre o que eles falaram. O tempo passa... cinco minutos... dez... Nada acontece.

Dan aguarda.

Olhando para a cabeça curvada de Jason, ele diz:

- Jason, você está pensando no que deseja escrever?

Ele não responde. Olha para o teclado. Lentamente, começa a digitar uma palavra. Depois de 25 minutos, ele consegue digitar três frases. Gramaticalmente, elas não são frases completas - apenas frases de cinco a dez palavras.

Dan ouve Jason ler as frases em voz alta. Ambos conversam sobre as modificações que podem ser feitas. Jason não gosta de cometer erros. Ele tenta, de todas as maneiras, ser perfeito. Sua mente é ágil.

O problema é transformar os pensamentos em palavras. Apenas uma palavra está correta. Eles fazem uma pausa de cinco minutos. O dia está indo bem.

- Vamos olhar seu dever de casa.

- De-ver de ca-sa é ter-rí-vel!

- Acho que você aprendeu bem essa palavra.

Depois das lições, Jason escolhe um jogo educativo, no computador, para desafiar Dan. Novamente, Jason vence.

- D-an, faz qua-se dois a-nos que vo-cê é meu pro-fes-sor.

Isso é muito significativo para Jason. Dan tem levado solidariedade à vida de Jason - algo de que ele necessitava após ter tido quatro professores em um só ano.

Os 90 minutos terminaram. Dan pergunta:

- Qual é o seu dever de casa para quinta-feira?

- Ter-rí-vel ma-te-má-ti-ca - ele responde.

Os dois riem. Dan pega sua maleta, e Jason o acompanha até a porta.

- Até quinta-feira.

- A-deus, Dan.

Jason permanece em pé, na porta, e acena. Ele aprecia o tempo que passou com Dan, porque é tratado com dignidade e respeito.

--Dan coloca a maleta no banco traseiro do carro. Quando ele se vira, Jason está vindo em sua direção. A garoa fina molha sua camiseta.

- Jason, tome cuidado - adverte Dan, falando com calma. Devagar! Cuidado para não cair!

Jason acabou de se recuperar de uma cirurgia na mandíbula resultado de uma queda.

Jason continua a andar, e Dan vai ao encontro dele.

O rapaz aproxima-se de Dan e dá-lhe um enorme abraço. Jason nunca havia demonstrado esse tipo de sentimento. Dan retribui o abraço e o conduz carinhosamente de volta a casa. Enquanto caminha em direção ao carro, Dan ouve:

- Eu a-mo vo-cê, D-na. O professor Dan afasta-se dali. Lágrimas umedecem os cantos de seus olhos. Se Jason tivesse sido seu único aluno, já teria valido a pena ser professor.


 

O RESTAURADOR

Ruth Reli Graham

Histórias Para o Coração 2 71

 

 

Ele construiu uma casa imponente para si mesmo, numa das ilhas do Caribe. É uma casa digna de ser contemplada, com vistosas colunas de ferro com sinais de ferrugem, restauradas por meio de uma engenhoca doméstica. A Casa Imponente é uma obra-prima feita com sucata.

Além de ser colecionador e vendedor de sobras de metal e de antiguidades, ele também é um homem fascinado por objetos de louça quebrados, escavados do jardim de sua casa. Seus amigos, John e June Cash, comentaram, sorrindo, que foi a primeira vez que ouviram falar de uma venda feita no jardim, em que o homem vendeu o próprio jardim. Ele ajuntou cuidadosamente os cacos e os colou. Poucos deles conseguiram formar uma peça inteira. Eles simplesmente continuam a fazer parte da coleção de alguém que se preocupa em ajuntá-Ios.

Quando manifestei interesse, ele me ofereceu um prato azul e branco, colado com muito cuidado - faltando alguns pedaços.

- Você me faz lembrar Deus - eu disse.

Pela expressão de seu rosto, percebi que o havia chocado, e apressei-me em explicar:

- Deus cola carinhosamente os cacos da vida. Às vezes, um deles se perde irremediavelmente. Mesmo assim, Deus ajunta os que Ele pode e nos restaura.


 

VISÃO DE LONGO ALCANCE

Howard Hendricks

Histórias Para o Coração 2 72

 

 

Quando eu era menino, gostava de andar a esmo pelo parque perto de casa e observar alguns homens idosos jogando damas.

Certo dia, um deles convidou-me para jogar. A princípio, o jogo parecia fácil. "Comi" uma peça dele e, depois, outra. De repente, ele pegou uma peça e foi saltando várias outras pelo tabuleiro, até chegar ao lado oposto, e gritou:

- Fiz uma dama!

Após dizer isso, ele "comeu" todas as minhas peças.

Naquele dia, aprendi o que significa visão de longo alcance.

Ninguém se importa em perder algumas peças se estiver com os olhos fixos no lado oposto do tabuleiro, ou seja, no território da dama.


 

O CASACO VERMELHO

Melody Carlson

Histórias Para o Coração 2 73

 

 

Era um dia frio e ventava muito. O outono chegava ao fim, tendo o inverno em seu encalço. Ela foi buscar Abby na escola, e ambas pegaram o ônibus rumo ao centro da cidade. Abby usava um casaco que pertencera à sua prima, Linda Sue. Estava em boas condições de uso, com a gola de pele de coelho um pouco surrada. As duas saltaram do ônibus, e ela segurou a mão de Abby, para chegarem ao outro lado da rua. O vento revolveu uma folha de jornal e atravessou seu ralo casaco marrom - o mesmo casaco que ela comprara pouco antes da guerra. A moda havia mudado, desde então, e as barras subiam e desciam, como se fossem um elevador. Agora, pouco havia sobrado do casaco para ser alterado de acordo com a moda, e sua saia aparecia por baixo dele, como se fosse franzida.

John voltou para casa em setembro, e o único emprego que conseguiu foi o de vigia no hospital. Ele esperava começar a estudar à noite, em janeiro; o estudo parecia ser a porta de entrada para um emprego melhor. Ultimamente, ele havia poupado algum dinheiro e, naquela manhã, lhe entregou 12 dólares, dizendo:

- Vá até a loja Harricks e compre um bom casaco de inverno para você.

Ela aceitou o dinheiro, imaginando que seria muito difícil encontrar um casaco por 12 dólares. Sabia que as intenções dele eram boas, mas teria sido bem melhor se o dinheiro ficasse guardado debaixo do colchão, para acudi-Ios em tempos de necessidade. O Senhor sabia que eles teriam muitos desses dias pela frente.

Ela e Abby entraram na Harricks e, de repente, ela se lembrou de que costumava fazer compras ali com sua mãe, quando o dinheiro era farto, antes de casar-se com John, contra a vontade da família. Agora, a loja parecia um local estranho, e ela se sentia uma intrusa.

- Posso ajudá-la? - perguntou uma mulher de formas arredondadas, que esticava um par de luvas sobre o balcão.

- Não, obrigada. Eu só queria dar uma olhada.

De nada adiantaria contar que estava à procura de um casaco, tendo apenas 12 dólares na bolsa. A mulher poderia achar graça.

Ela atravessou a loja, fingindo olhar muitas coisas bonitas. Abby apontou para um vestido de baile azul-pavão e disse:

- Aquele vestido ficaria lindo em você, mamãe.

Ela acariciou os cabelos lisos e castanhos da filha, da mesma cor que os seus, e sorriu. Finalmente, chegaram aos fundos da loja, e ela deu meia-volta, pronta para desistir, sentindo um alívio misturado com desapontamento. Em um dos cantos, porém, havia um cavalete com vários artigos pendurados e uma tabuleta onde se lia: Liquidação.

Ela olhou para o cavalete, e uma peça vermelha lhe chamou a atenção.

Era um casaco de lã em um lindo tom vermelho, ou melhor, vermelho-escuro. Ela retirou o cabide do cavalete e procurou o preço na etiqueta. Apesar de ser artigo de liquidação, deveria custar muito caro.

- Mamãe, a etiqueta diz que ele custa 12 dólares! - disse Abby, com alegria, segurando a manga onde havia uma etiqueta amarela. Você pode comprar este casaco, mamãe. Veja só o preço!

- Ora, acho que ele está com a etiqueta errada. É muito bonito.

Deve ter havido algum engano.

- Experimente, mamãe. Veja se serve - disse Abby, puxando a manga do velho casaco dela.

- Acho que o manequim não é o meu.

Em seguida, ela tirou o casaco velho e vestiu o vermelho. Não sabia explicar por que razão, mas o casaco tinha a textura de mel. Era maravilhoso.

- Serviu, mamãe. E é lindo. Você parece uma princesa.

Abby puxou-a em direção ao espelho. Parecia um artigo fino, provavelmente fino demais. E talvez aquele tom vermelho, apesar de ser lindo, fosse muito berrante para uma mulher de quase 30 anos.

Ela pendurou o casaco de volta no cabide e afastou-se um pouco, para examiná-lo novamente. Era um modelo bonito, com casas bem-acabadas e botões grandes de madrepérola. A textura de mel era resultado do forro macio e resistente de cetim.

- Você vai comprar o casaco, mamãe?

- Ah, não sei, Abby. Acho que deve haver algum engano. Este casaco é muito bem-feito. O preço marcado na etiqueta deve estar errado. Casacos como este não ficam pendurados no setor de liquidação, principalmente no mês de novembro.

- A etiqueta diz que ele custa 12 dólares e deve estar certa. - Abby cruzou os braços e bateu os pés no chão com impaciência. - Papai disse que você deveria comprar um casaco. É melhor você comprar este aqui.

Ela sorriu para Abby, colocou o casaco no braço e dirigiu-se ao balcão, onde uma senhora idosa estava sendo atendida. A vendedora colocou cuidadosamente dentro de uma caixa um chapéu de feltro marrom com uma longa pena preta e registrou o preço na máquina. A gaveta abriu-se automaticamente.

- São 32 dólares - disse a vendedora.

A senhora preencheu o cheque em um piscar de olhos. Pegou a caixa e despediu-se da vendedora.

- Posso ajudá-la? - perguntou a vendedora gentilmente, com as mãos estendidas na expectativa de pegar o casaco.

- Não, eu... eu acho que vou dar mais uma olhada.

Ela se afastou e examinou mais uma vez o casaco. O preço na etiqueta devia estar errado. Se um chapéu sem graça valia 32 dólares, como o casaco poderia custar só 12?

- O que você está fazendo, mamãe? - queixou-se Abby, acompanhando-a de volta ao setor de liquidações.

- Querida, eu sei que houve um engano. Não se pode comprar um casaco como este por 12 dólares. Não há razão nem para perguntar.

Nós ficaríamos com cara de bobas.

- Mas a etiqueta diz...

- Silêncio, querida, não faça uma cena aqui.

Ela olhou ao redor. Agora, havia várias compradoras por perto. Ela reconheceu Lily Andrews, uma senhora da igreja. Estava morando havia pouco tempo na cidade, e seu marido era médico. A Sra. Andrews sorriu para elas e caminhou em direção ao cavalete. Parecia estranho que uma pessoa tão abastada demonstrasse interesse por artigos em liquidação. A Sra. Andrews parou perto do casaco vermelho e tirou-o do cavalete.

- Posso ajudá-la? - perguntou a vendedora.

- Que casaco lindo! E custa só 12 dólares?

- Exatamente. É do ano passado. Alguém o devolveu em julho, acredite se quiser. Uma mulher o guardou durante o inverno inteiro e nunca o usou. Nem chegou a tirar a etiqueta. O proprietário da loja quis ficar livre deste casaco porque ele saiu de moda. O preço é uma pechincha...

Ela não quis ouvir mais nada. Pegou Abby pela mão e a conduziu para fora.

- Mas mamãe, aquele casaco é seu...

- Silêncio, querida...

As lágrimas fizeram seus olhos arder por causa do vento frio que soprava lá fora. Ainda era cedo para que o ônibus retornasse, mas elas o aguardaram sentadas no banco do ponto do ônibus, encostando-se uma na outra para se aquecerem.

- Por que você não comprou o casaco, mamãe? - A voz de Abby era triste.

- Eu não sei, querida...

Como dizer à filha que ela havia sido uma tola? Além de tola, orgulhosa demais para perguntar. Como explicar a John que sua filha de oito anos tinha mais percepção do que ela própria? Ela tremia de frio. Merecia passar outro inverno com aquele casaco velho e surrado. Serviria de lição para ela!

- Com licença - disse alguém.

Ela ergueu a cabeça e viu Lily Andrews. - Pois não.

- Sei que isto vai parecer muito estranho. E, creia-me, não costumo fazer coisas como esta. Mas senti um forte impulso de dar isto a você.

Não tenho ideia do motivo... - disse ela entregando-lhe uma sacola.

- Eu não estou entendendo...

- Nem eu. Mas foi como se Deus me tivesse pedido para fazer isto.

Sei que é muito estranho, e você vai pensar que sou louca... - É estranho mesmo. - Ela olhou dentro da sacola. - Eu quase comprei este casaco alguns minutos atrás. Por favor, quero pagar por ele. - Ela pegou a bolsa para abri-la.

- Não, por favor. Senti a necessidade de dar este casaco a você.

Não quero que me pague. Sinto muito. Devo estar parecendo uma louca...

O rosto da Sra. Andrews estava vermelho e havia lágrimas em seus olhos.

- Mas eu não posso ficar com ele. Parece um ato de caridade.

- Não, não é um ato de caridade. Dê o dinheiro a alguém que esteja necessitando, se você quiser. Só sei que devo dar este casaco a você.

Sinto muito se estou parecendo maluca. Talvez eu me sinta muito sozinha, mas é a primeira vez que ouvi Deus me dizer para eu fazer alguma coisa. Você precisa aceitar. Pense no casaco como se fosse um presente de Deus. Como a fé.

Esta história aconteceu quatro décadas atrás. Ela usou o casaco durante muitos invernos. Ele ficou tão fora de moda que até Abby pediu que ela o deixasse de lado. Mas ela nunca quis desfazer-se dele. Ficou guardado em um baú durante muitos anos, e ela só se lembrou dele na semana anterior, quando o Dr. Andrews morreu. Ela queria fazer alguma coisa especial por sua amiga Lily. Agora, estava, cuidadosamente, cortando retalhos para fazer uma manta para sua boa amiga colocar em cima das pernas. Esperava que a manta a aquecesse e servisse para lembrá-Ia de que a fé pode ser encontrada nas pequenas coisas, como, por exemplo, casacos de lã vermelhos e amizades que atravessam anos.

 

 

 

As cores dos quadrados e triângulos da manta estão amontoadas sobre o seu colo, como se fossem joias. Retalhos amarelos da cor de ouro, verdes e vermelhos. Ela passa a mão sobre uma pilha de retalhos de lã

vermelho-escuros e sorri. Esta é exatamente a cor da fé.

 


 

A JOVEM VIÚVA

Alice Gray

Histórias Para o Coração 2 78

 

 

Seu marido morreu em um acidente, e ela ficou sozinha com dois filhos pequenos para criar. No início, foi cercada de amigas preocupadas e solidárias. Elas lhe traziam refeições, enviavam cartões, telefonavam, oravam. Então, as semanas se transformaram em meses, e, agora, parecia que o mundo inteiro havia esquecido o que tinha acontecido. Ela ansiava por ouvir o nome do marido ser mencionado nas conversas, ansiava por conversar sobre seus passos largos durante as caminhadas, sobre a vivacidade de seu riso fácil e o calor de suas mãos fortes entre as dela. Ela queria que os vizinhos viessem até sua casa pedir emprestadas as ferramentas dele, ou que algum rapaz mais velho fosse jogar basquete com seus filhos.

Era o início da manhã do primeiro aniversário da morte do marido.

O orvalho ainda estava úmido sobre a relva quando ela atravessou o gramado do cemitério. De repente, ela avistou alguma coisa perto do túmulo dele. Alguém havia estado lá antes dela, e deixou ali um pequeno buquê de flores recém-colhidas, amarradas com uma fita.

Um ato de gentileza e carinho que tocou seu coração solitário como se fosse um terno abraço. Com lágrimas correndo pelo rosto, ela leu o bilhete sem assinatura. As palavras diziam simplesmente: "Eu também me lembrei."


 

A HISTÓRIA DE MICHAEL COMEÇA

AOS SEIS ANOS DE IDADE

Charlotte Elmore

Histórias Para o Coração 2 79

 

 

Desesperada, perguntei se ele poderia ser submetido a um novo teste. Ela meneou a cabeça e disse não. Na tentativa de mostrar quanto Michael era "normal", comecei a contar a ela todas as coisas que meu filho sabia fazer bem. Ela, porém, não deu atenção aos meus comentários e levantou-se, dispensando-me.

- Michael vai ficar bem - ela disse.

No final daquele mesmo dia, depois que Michael e Linda, sua irmãzinha de três anos, estavam dormindo, contei a Frank, entre lágrimas, o que ficara sabendo. Depois de discutirmos o assunto, concordamos que nosso filho estava acima de um teste de QI.

Concluímos que a fraca pontuação de Michael no teste devia ter sido um engano.

Da mesma forma que eu, Frank não podia acreditar que nosso filho fosse "quase retardado". Ele me contou algumas coisas que Michael tinha feito recentemente que provavam que nosso filho era inteligente... Frank disse que, certa noite, Michael demonstrou interesse nas plantas de engenharia que ele estava projetando. Frank pegou alguns blocos para fazer casinhas de brinquedo e desenhou duas plantas bidimensionais. Em seguida, ele pediu a Michael que separasse os blocos próprios para cada desenho. Frank disse que ficou satisfeito ao ver a facilidade com que nosso filho conseguiu separar os blocos e montar casinhas com base nos diagramas que acompanhavam o brinquedo.

Em 1962, mudamo-nos para Fort Wayne, Indiana, e Michael ingressou no Colégio Luterano Concórdia. Suas notas garantiram-lhe vaga nos cursos preparatórios para a faculdade, que incluíam Biologia, Latim e Álgebra. Quando nosso filho estava na primeira série, fomos informados de que ele jamais seria capaz de aprender álgebra. Biologia passou a ser sua matéria preferida. Ele começou a contar a todos que iria ser médico.

Michael ingressou na Universidade de Indiana, em Bloomington, em 1965, como aluno do curso pré-médico. No meio do ano, após ter obtido uma média de 3,47, ele conseguiu fazer parte da lista do reitor, e o conselheiro do corpo docente lhe concedeu permissão especial para assistir a um número de aulas maior que o recomendado.

Michael conquistou os créditos necessários para ser aceito na Escola de Medicina da Universidade de Indiana, em Indianápolis, no final daquele ano.

Durante seu primeiro ano na Faculdade de Medicina, Michael foi submetido a um novo teste de QI e alcançou 126 pontos, ou seja, 36 pontos a mais do que ele alcançara no teste anterior, um nível aparentemente inatingível para ele.

No dia da formatura - 21 de maio de 1972 -, Frank, Linda e eu comparecemos à cerimônia e abraçamos nosso Dr. Mike! Depois de encerrada a solenidade, contamos a Michael e a Linda sobre o baixo número de pontos atingido por Michael, quando ele foi submetido a um teste de QI, aos seis anos de idade, e o que havíamos planejado fazer. A princípio, os dois pensaram que estivéssemos brincando. A partir daquele dia, Michael, às vezes, olha para nós e diz com um largo sorriso:

- Meus pais nunca me contaram que eu não poderia ser médico...

Isto é, só me contaram depois que recebi o diploma na Faculdade de Medicina!

Esta é a maneira de nosso filho nos agradecer a fé que depositamos nele.

Costuma-se dizer que, no decorrer da vida, as crianças tornam-se naquilo que os adultos esperam delas. Se você chamar uma criança de "idiota", talvez ela passe a representar esse papel. De vez em quando, nós nos perguntamos o que teria acontecido se tivéssemos tratado Michael como uma criança "quase retardada", impondo limites aos seus sonhos.


 

MAIS UMA CHANCE

H. Stephen Glenn e Jane Nelsen

Histórias Para o Coração 2 81

 

 

Jonas Salk, o grande cientista descobridor da vacina contra a poliomielite, compreendeu o conceito de ser corajoso. Certa vez, alguém lhe perguntou:

- Depois de ter conseguido esta façanha extraordinária, que pôs fim à palavra poliomielite em nosso vocabulário, como o senhor encara seus 200 fracassos anteriores?

Sua resposta (parafraseada) foi:

- Eu nunca tive 200 fracassos na vida. Minha família nunca os considerou fracassos. Eles serviram de experiência para que eu pudesse aprender mais. Acabo de realizar minha 201ª descoberta.

Ela não teria sido possível se eu não tivesse aprendido com as 200 experiências anteriores.

Winston Churchill também foi um homem de coragem. Ele não se intimidava diante de seus erros. Quando cometia um, ele o analisava cuidadosamente. Alguém lhe perguntou:

- Sir Winston, qual foi a sua experiência na escola que melhor preparou-o para liderar a Grã-Bretanha nas horas mais sombrias?

Winston pensou por alguns instantes e respondeu:

- Quando fui repetente no curso médio.

- O senhor considerou isso um fracasso?

- Não - replicou Winston. - Tive duas oportunidades para acertar.


 

CHEGAR JUNTO

Stu Weber

Histórias Para o Coração 2 82

 

 

Corríamos todos os dias; mas aquela corrida foi especial.

Estávamos transpirando desde o momento em que saímos da cama, antes do amanhecer, mas agora o suor gotejava por todos os poros de nossos corpos. Evidentemente, tratava-se de um treinamento físico na escola de soldados da tropa de choque do exército norte-americano, e esperávamos que o esforço fosse enorme. Até mesmo que chegasse à exaustão. Mas, naquela manhã, não estávamos correndo de camiseta.

Estávamos correndo com a farda completa. Como de costume, a palavra de ordem era: "Saiam juntos, corram juntos, trabalhem juntos e cheguem juntos. Se vocês não chegarem juntos, nem precisam se preocupar em chegar!" Em algum lugar, ao longo da corrida, em meio ao esforço, à sede e ao cansaço, meu cérebro registrou alguma coisa estranha em nossa formação. Notei que, duas fileiras adiante de mim, um soldado corria fora do compasso.

Ele era um rapaz grandalhão, ossudo e ruivo, chamado Sanderson.

Suas pernas movimentavam-se com rapidez, mas suas passadas estavam desencontradas das nossas. De repente, a cabeça dele começou a pender para um lado e para o outro. O rapaz estava se esforçando demais. Quase a ponto de perder o equilíbrio.

Sem perder o passo, o soldado à direita de Sanderson esticou o braço e pegou o rifle do companheiro exausto. Agora, um dos soldados estava carregando dois rifles nas costas. O dele e o de Sanderson. O grandalhão ruivo conseguiu correr mais um pouco.

Mas, enquanto o pelotão continuava a avançar, a mandíbula do rapaz arriou, seus olhos ficaram vidrados e as pernas movimentavam-se como pistons. Em seguida, sua cabeça começou a pender novamente.

Desta vez, o soldado à sua esquerda esticou o braço, retirou o capacete de Sanderson, colocou-o debaixo do braço e continuou a correr. O pelotão prosseguiu. Nossas botas batiam na trilha de terra com som cadenciado. Toc-toc-toc-toc-toc-toc.

Sanderson estava passando mal. Muito mal. Estava arqueado, prestes a cair. Mas não caiu. Dois soldados atrás dele levantaram a mochila de suas costas, e cada um segurou uma alça com a mão livre.

Sanderson reuniu as forças que ainda lhe restavam. Endireitou os ombros. E o pelotão continuou a correr. Sempre em frente, até a linha de chegada.

Saímos juntos. Retomamos juntos. E todos nós nos fortalecemos com ISSO.

Chegar junto é melhor.


 

PRIORIDADES

Tony Campolo

Histórias Para o Coração 2 84

 

 

Quando eu era garoto, conheci um homem que, para mim, parecia ser maior que a vida. Seu nome era Edwin E. Bailey.

Ele dirigia o observatório astronômico do Instituto Franklin, da Filadélfia. Eu ia ao Instituto Franklin quase todos os sábados, só para passar um pouco de tempo com ele. Sua mente enciclopédica fascinava-me. Ele parecia conhecer um pouco de tudo.

Minha amizade com Ed Bailey durou até o dia em que ele morreu, vários anos atrás. Fui visitá-lo quando ele esteve internado no hospital, após ter sofrido um grave derrame cerebral. Na tentativa de conversar sobre algumas amenidades, comecei a falar dos lugares em que fiz palestras e contei que viera direto do aeroporto pra- visitá-lo.

Ele me ouviu atentamente e, em seguida, disse-me de maneira um tanto sarcástica:

- Você viaja pelo mundo inteiro para atender pessoas que, daqui a dez anos, não se lembrarão de seu nome. Mas não reserva tempo para as pessoas que realmente se importam com você.

Aquelas palavras simples me atingiram em cheio e mudaram minha vida. Decidi, a partir de então, não permitir que meu tempo fosse gasto com pessoas para quem eu não fizesse diferença, enquanto negligenciava aquelas para quem eu era insubstituível.  Recentemente, um amigo meu recebeu um telefonema da Casa Branca, convidando-o a falar com o presidente dos Estados Unidos.

Ele recusou, porque prometera passar aquele dia com sua netinha na praia. O país sobreviveu sem ele, o presidente não sentiu sua falta, e sua netinha passou momentos preciosos com o vovô.

As prioridades sempre devem ser respeitadas.


 

POR QUE SOU UMA MÃE ESPORTISTA

Judy Bodmer

Histórias Para o Coração 2 91

 

 

Hoje é um sábado do mês de maio. Eu poderia estar em casa, acomodada no sofá, assistindo a um bom filme de mistério. No entanto, estou sentada em um banco frio de metal, na arquibancada de um campo de beisebol. Um vento gelado atravessa minha jaqueta de inverno. Sopro as mãos para aquecê-Ias, arrependida de não ter trazido minhas luvas de lã.

- Sra. Bodmer! - É a voz do treinador de meu filho. - Pensei que a senhora gostaria de saber. Seu filho vai começar a jogar, hoje, no campo da direita. Ele esforçou-se muito este ano. Achamos que merece a oportunidade.

- Obrigada - eu digo, orgulhosa de meu filho, que deu o máximo de si a esse homem e a esse time. Sei quanto ele queria começar a jogar. Estou feliz porque seu esforço está sendo recompensado.

De repente, sinto-me nervosa por ele. Vou até a lanchonete e peço um chocolate quente. De volta ao meu lugar, seguro o copo entre as mãos, deixando que a fumaça aqueça meu rosto.

Trajando uniforme branco com listras azuis, o time entra em campo. Todos os jogadores são mais ou menos parecidos. Procuro o número da camisa de meu filho. Ele não está ali. É Eddie quem está no campo da direita. Procuro mais uma vez, sem acreditar. Sim, é Eddie, o jogador mais inexperiente do time. Como pode ser? Olho para o treinador, mas ele está concentrado no jogo. Quero correr até lá e perguntar o que houve, mas sei que meu filho não gostaria desta minha atitude. Aprendi, ao longo dos últimos oito anos, como as mães devem comportar-se. E conversar com o treinador, durante o jogo, é definitivamente inaceitável.

Meu filho está agarrado à cerca que protege o banco das bolas desviadas e grita palavras de incentivo a seus companheiros. Tento adivinhar seus pensamentos, mas sei que ele aprendeu, como a maioria dos homens, a esconder seus sentimentos.

Sinto o coração despedaçado. Tanto esforço, tanto desapontamento.

Não compreendo o que leva os garotos a passarem por situações como esta.

- É isso aí, Eddie - grita alguém por perto. É o pai de Eddie. Posso vê-Io sorrindo, orgulhoso do filho. Movimento a cabeça de um lado para o outro, porque já vi o mesmo homem sair da arquibancada quando seu filho deixou cair uma bola ou fez um arremesso errado.

Mas, por enquanto, ele parece orgulhoso. Seu filho está em campo. O meu está sentado no banco.

Quando chega o quarto turno, sinto os dedos da mão enrijecidos por causa do frio, e os pés amortecidos, mas não me importo. Meu filho está sendo chamado para jogar como rebatedor. Olho para o banco de reservas. Ele se levanta, pega alguns capacetes e escolhe um. Por favor, eu oro, permite que ele consiga dar uma rebatida indefensável.

Ele pega um bastão e se posiciona no campo. Eu me agarro ao banco de metal enquanto ele se aquece, coloca as luvas e se dirige ao quadrilátero onde o rebatedor deve ficar. O arremessador tem a aparência de um homem adulto. Eu me pergunto se alguém conferiu sua certidão de nascimento.

Primeiro ponto para o adversário.

- Faça uma boa impulsão! - eu grito.

A bola vai ser arremessada.

- Fique atento! Fique atento!

Segundo ponto para o adversário.

O arremessador prepara-se para lançar a bola. Prendo a respiração.

Terceiro ponto para o adversário.

Meu filho abaixa a cabeça e se dirige lentamente para o banco de reservas. Desvio o olhar, sabendo que não há nada que eu possa fazer.

Faz oito anos que me sento aqui. Já tomei litros e litros de um café de gosto horrível, comi minha quota de cachorros-quentes feitos às pressas e pipocas salgadas demais. Já sofri por causa do frio e do calor, engoli poeira e fiquei debaixo de chuva.

Há quem se pergunte por que uma pessoa sensata passaria por tudo isso. Não é porque desejo realizar meus sonhos de ser uma atleta famosa, por intermédio de meus filhos. Também não é porque me sinto orgulhosa deles. Ah! sim, houve momentos de orgulho. Já vi um ou outro filho meu fazer o gol da vitória no futebol, destacar-se no beisebol, e fazer cestas memoráveis no basquete. Mas, na maioria das vezes, tenho tido decepções.

Já fiquei em casa com eles, aguardando um telefonema de alguém que os convocasse para jogar no time. Telefonemas que nunca chegaram. Presenciei meus filhos sentados no banco de reservas, jogo após jogo, e, quando entraram em campo, bateram a bola para fora. Já me sentei em salas de espera de pronto-socorros quando um deles teve de engessar a perna ou tirar uma radiografia do tornozelo inchado. Tenho visto treinadores gritando com eles. Tenho me sentado aqui, ano após ano, observando tudo e fazendo perguntas a mim mesma.

O jogo está terminado. Estico as pernas e tento me mexer para aquecer meus pés congelados. O treinador vai ao encontro dos jogadores. Eles dão uma espécie de grito de guerra e se dispersam para falar com seus familiares. Observo o pai de Eddie dando um tapinha nas costas do filho, com um largo sorriso no rosto. Meu filho quer comprar um hambúrguer. Enquanto eu o aguardo, o treinador aproxima-se de mim. Não consigo olhar para ele.

- Sra. Bodmer, quero que saiba que seu filho é um ótimo garoto.

- Por quê? - eu pergunto, aguardando que ele explique por que despedaçou o coração de meu filho.

- Quando eu disse a seu filho que poderia iniciar, ele me agradeceu e recusou. Pediu-me que desse a sua vez a Eddie, porque aquilo seria muito mais significativo para o seu companheiro.

Eu me viro e vejo meu filho dando uma mordida no hambúrguer.

Compreendo, então, por que eu gosto de ficar na arquibancada. De onde mais eu poderia ver meu filho transformar-se em um homem?


 

PARA QUEM DEIXAREI MEU REINO?

Donald E. Wildmon

Histórias Para o Coração 2 94

 

 

Conta-se que um rei muito poderoso estava ficando velho. Ele concluiu que era chegada a hora de escolher, entre seus quatro filhos, um herdeiro do trono. Então, chamou-os, um de cada vez, para discutir a sucessão de seu reinado.

Quando o primeiro filho entrou na sala do trono e se sentou, o rei dirigiu-se a ele:

- Meu filho, estou muito velho e não vou viver por muito tempo.

Quero entregar meu reino ao filho que estiver mais capacitado a recebê-Io. Responda-me: Se eu o nomeasse meu sucessor, o que você daria para o reino?

Aquele filho era muito rico. Assim que foi feita a pergunta, ele respondeu:

- Sou um homem muito abastado. Se o senhor me nomear seu sucessor, darei toda a minha riqueza; e este será o reino mais rico do mundo.

- Obrigado, filho - disse o rei, dispensando o rapaz.

Quando o segundo filho entrou, o rei se dirigiu a ele:

- Meu filho, estou muito velho e não vou viver por muito tempo.

Quero entregar meu reino ao filho que estiver mais capacitado a recebê-Io. Responda-me: Se eu o nomeasse meu sucessor, o que você daria para o reino?

Aquele filho era muito inteligente. Assim que a pergunta foi feita, ele respondeu:

- Sou um homem de grande inteligência. Se o senhor me nomear seu sucessor, darei toda a minha inteligência; e este será o reino mais inteligente do mundo.

- Obrigado, filho - disse o rei, dispensando o rapaz.

Quando o terceiro filho entrou, o rei se dirigiu a ele:

- Meu filho, estou muito velho e não vou viver por muito tempo.

Quero entregar meu reino ao filho que estiver mais capacitado a recebê-Io. Responda-me: Se eu o nomeasse meu sucessor, o que você daria para o reino?

Aquele filho era muito forte. E, assim que a pergunta foi feita, ele respondeu:

- Sou um homem de grande força. Se o senhor me nomear seu sucessor, darei toda a minha força; e este será o reino mais forte do mundo.

- Obrigado, filho - disse o rei, dispensando o rapaz.

O quarto filho entrou e foi cumprimentado pelo rei, da mesma maneira que os outros três.

- Meu filho, estou muito velho e não vou viver por muito tempo.

Quero entregar meu reino ao filho que estiver mais capacitado a recebê-Io. Responda-me: Se eu o nomeasse meu sucessor, o que você daria para o reino?

Aquele filho não era rico, nem inteligente, nem forte. Então, ele respondeu:

- Meu pai, o senhor sabe que meus irmãos são muito mais ricos, mais inteligentes e mais fortes do que eu. Enquanto eles passaram anos cultivando esses atributos, eu tenho vivido no meio do povo deste reino. Fui solidário com as pessoas, na doença e na tristeza.

E aprendi a amá-Ias. Receio que a única coisa que eu tenha para dar ao seu reino seja o meu amor pelo povo. Sei que meus irmãos têm muito mais a oferecer. Portanto, não ficarei desapontado se não for nomeado seu sucessor. Simplesmente continuarei a fazer o que sempre tenho feito.

Quando o rei morreu, o povo aguardou com ansiedade a notícia de quem seria o novo rei. E uma grande alegria, como nunca foi vista, tomou conta do reino quando o povo soube que o quarto filho do rei havia sido nomeado como seu sucessor.


 

A MENSAGEM NO QUADRO-NEGRO MÁGICO

Liz Curtis Higgs

Histórias Para o Coração 2 96

 

 

Todos os lugares da sala de espera do Departamento de Trânsito estavam ocupados enquanto eu aguardava para renovar minha carteira de motorista. Crianças de todas as idades andavam de um lado para o outro, explorando o local, da mesma forma que meus filhos pequenos.

Na época, Lillian era um bebê de colo (apesar de nunca parar no colo), e Matthew tinha quatro anos e já estava começando a escrever algumas palavras. Ele nunca saía de casa sem levar seu quadro-negro mágico. E aquela manhã não foi diferente.

Incentivei meu filho, um pouco tímido, a dirigir-se ao centro de uma sala onde havia várias crianças brincando com uma pilha de livros e alguns joguinhos. Matthew foi até lá, arrastando seu quadro-negro mágico. Uma criança mais nova estava virando as páginas de um livro colorido, pelo qual Matthew passou a se interessar. Instantes depois, meu filho arrancou o livro da mão da criança e começou a folhear as páginas coloridas do livro, deixando o garotinho sem ter com que brincar.

Até aquele momento, eu me limitei a observar o desdobramento do pequeno drama. Mas agora era chegado o momento de entrar em cena.

- Matthew! - eu disse em voz baixa, porém firme. - O que você fez não foi bonito. Peça desculpas ao garotinho e devolva o livro a ele imediatamente.

Com ar de desolação, Matthew esticou o braço para devolver o tão precioso livro ao garotinho, que reagiu como qualquer outra criança daquela idade reagiria, dizendo algo parecido com" Odeio você! " e se afastou correndo.

Agora Matthew estava realmente desolado; havia aborrecido sua mãe e deixara um menino zangado com ele. Matthew sentou-se, por alguns instantes, olhando para um ponto fixo enquanto raciocinava rápido. Em seguida, pegou o quadro-negro, escreveu alguma coisa nele e, sem dizer nada, levantou-o para que a outra criança o visse.

O garotinho não lhe deu atenção, é claro, porque não sabia ler.

Mas eu sabia. "Sinto muito", ele havia escrito. Tão simples! Tão profundo! Matthew não conseguiu proferir as palavras, mas as escreveu. Ao ver que o garotinho não reagiu conforme o esperado, Matthew levantou o quadro-negro outra vez, com uma expressão de súplica no rosto. Mas de nada adiantou.

As outras mães que estavam na sala começaram a observar o silencioso menino de quatro anos, cabelos cor de trigo, segurando um quadro-negro onde se lia: "Sinto muito." Não fui a única a piscar os olhos para conter as lágrimas.

 

 

O homem nunca revela seu caráter de modo tão claro

como quando fala do caráter de outra pessoa.

JEAN PAUL RICHTER


 

CONCURSO DE BELEZA

Carla Muir

Histórias Para o Coração 2 98

 

 

Uma próspera empresa de produtos de beleza pediu aos habitantes de uma cidade grande que enviassem fotografias, acompanhadas de uma breve carta explicativa, das mulheres mais belas que eles conheciam. Em poucas semanas, milhares de cartas foram enviadas à empresa.

Uma carta, em particular, chamou a atenção dos funcionários e foi encaminhada ao presidente da empresa. A carta era escrita por um menino que, evidentemente, foi criado em um lar com problemas, em algum bairro de extrema pobreza. Este é um trecho da carta, com as devidas correções de grafia:

"Na minha rua mora uma mulher bonita. Eu vou à casa dela todos os dias. Ela me faz sentir o menino mais importante do mundo.

Jogamos damas juntos, e ela ouve meus problemas. Ela me entende e, quando vou embora, sempre diz, bem alto na porta, que sente orgulho de mim." O menino terminava a carta dizendo: "Esta fotografia mostra que ela é a mulher mais bonita do mundo. Espero ter uma esposa tão bonita quanto ela." Intrigado com a carta, o presidente pediu para ver a fotografia da mulher. Sua secretária lhe entregou a foto de uma mulher sorridente, sem nenhum dente na boca, de idade avançada, sentada em uma cadeira de rodas. O ralo cabelo grisalho estava preso em formato de birote, e as rugas que marcavam seu rosto eram suavizadas pelo brilho que vinha de seus olhos.

- Não podemos usar a fotografia desta mulher - explicou o presidente, sorrindo. - Ela mostraria ao mundo que nossos produtos não são necessários para uma mulher ser bela.


 

BUQUÊ

DAVID SEAMANDS

Histórias Para o Coração 2 99

 

 

Certa vez, alguém perguntou a Corrie ten Boom como ela lidava com todos os cumprimentos e elogios que recebia, sem tornar-se uma pessoa orgulhosa. Ela respondeu que considerava cada elogio recebido como uma linda flor de caule longo. Depois de sentir deu perfume por alguns instantes, ela a colocava no vaso com as outras flores. Todas as noites, antes de deitar-se, ela pegava o findo buquê e o oferecia a Deus, dizendo:

- Obrigada, Senhor, por permitir que eu sinta o perfume das flores, elas te pertencem.

Corrie ten Boom descobriu o segredo da genuína humildade.


 

MEDALHA OLÍMPICA DE OURO

Catherine Swift

Histórias Para o Coração 2 100

 

 

Sábado, 5 de julho de 1924, foi o dia em que teve início a oitava Olimpíada dos tempos modernos. Depois que a Grécia sediou a primeira versão dos jogos, em 1896, Paris foi a próxima cidade onde eles aconteceram, em homenagem ao barão francês responsável pelo seu restabelecimento. Na primeira Olimpíada participaram 13 países.

Desta vez, havia 45, e o estádio estava lotado com 60 mil espectadores.

Em meio aos acenos e gritos de aplauso, ouviu-se o som agudo das gaitas de fole, e os Highlanders (montanheses) da Rainha da Escócia entraram no estádio. Eles chamaram a atenção com seus saiotes xadrez balançando e seus chapéus de pele de urso. Por um momento, o público pareceu hipnotizado pela cena e pelo som; mas, quando a equipe da Grã-Bretanha entrou marchando atrás da banda, os gritos de aplauso foram mais altos ainda...

Naquela época, ainda não tinha sido introduzida a cerimônia da tocha olímpica. mas milhares de pombos foram soltos para voar pelo país inteiro, com a finalidade de anunciar o evento.

Depois dessa parte, foi proclamado o juramento olímpico e, em seguida, os 4 mil competidores lotaram o gramado. Mais gritos de aplauso. Estava aberta a oitava Olimpíada. Enquanto tudo isso se passava, Eric Liddell sofria grande pressão para correr os 100 metros.

Na verdade, o sofrimento não cessara desde alguns meses antes, quando ele disse que não correria em um domingo. Mas, agora que ele estava em Paris, a crítica passou a ser mais contundente.

Eric foi ao encontro de Harold Abrahams, a última esperança dos britânicos de ganharem uma medalha na corrida dos 100 metros, e desejou-lhe sucesso. Harold era judeu, e seu dia de descanso religioso era o sábado. Eric respeitava isso e compreendia que era certo Harold correr no domingo, embora fosse errado para ele próprio. No domingo, 6 de julho, o jovem Abrahams, aluno da Universidade de Cambridge, posicionou-se para a corrida eliminatória dos 100 metros. Naquela mesma hora, Eric Liddell estava falando para uma congregação, na Scots Kirk (uma igreja), do outro lado de Paris. Harold foi classificado nas duas eliminatórias. No dia seguinte, ele estava pronto para a semifinal. Eric encontrava-se entre os espectadores para aplaudi-lo na vitória. Chegou à corrida final. e Harold saiu-se vitorioso. Alcançou a linha de chegada em 10,6 segundos. O estádio irrompeu em aplausos. Nenhum europeu havia conquistado uma medalha de ouro naquele evento, e o próximo vencedor só apareceria 66 anos depois.

Em seu íntimo, Eric deve ter sentido uma ponta de arrependimento - mas a inveja não fazia parte de sua personalidade. Ele estava feliz pelo sucesso de Harold.

Agora, ele se sentia livre da crítica e em condições de concentrar-se em suas duas corridas. As eliminatórias para a corrida dos 200 metros foram marcadas para a terça-feira. Eric e Harold foram classificados para a final no dia seguinte.

Quarta-feira foi outro dia de intenso calor. Eric estava posicionado ao lado de Harold e quatro americanos. Os dois britânicos tiveram uma boa largada, mas, primeiro um, depois o outro, ficaram para trás.

Dois americanos alcançaram a linha de chegada, recebendo um a medalha de ouro, e o outro, a medalha de prata. Eric ficou em terceiro lugar, e Harold chegou no sexto e último lugar.

Isto poderia parecer desastroso, mas foi um verdadeiro sucesso para Eric. A Escócia nunca havia conquistado uma medalha de bronze numa corrida de 200 metros. E toda a Grã-Bretanha nunca conquistara mais que um terceiro lugar e uma medalha de bronze.

Chegou à quinta-feira, dia das eliminatórias dos 400 metros.

Eric saiu-se bem. Não chegou a brilhar, embora seu tempo tivesse melhorado em cada eliminatória. No dia seguinte, ele melhorou mais ainda na semifinal. Mesmo assim, apenas conseguiu a classificação. No dia anterior, numa das eliminatórias, Imbach, da Suíça, bateu o recorde mundial ao vencer a corrida em 48 segundos.

Havia seis finalistas: dois americanos, um canadense, e os dois britânicos: Guy Butler e Eric Liddell...

Como sempre, Eric apertou a mão dos competidores desejando-lhes boa sorte. Este era um ritual que os dirigentes estavam começando a impor, embora o povo ainda achasse estranho ver um atleta desejando boa sorte a seu rival - mas eles não conheciam o homem que havia dentro de Eric...

Nos últimos instantes antes da largada, enquanto os atletas estavam se aquecendo, um som agudo tomou conta do estádio, sem nenhum aviso. Os tambores e as gaitas escocesas dos Highlanders da Rainha começaram a tocar "Os Campeões Estão Chegando".

O organizador da equipe britânica, Sir Philip Christison, havia notado certo desânimo entre os patrocinadores britânicos e imaginou que um pouco de música poderia incentivá-Ios. Talvez animasse Eric Liddell também. Afinal, ele era escocês e o som das gaitas de fole certamente faria seu sangue correr mais rápido nas veias - no exato momento em que ele mais necessitava.

...Finalmente, a música cessou. O tenso silêncio só foi quebrado pelo estampido do tiro de partida, e Eric assumiu a dianteira.

Ninguém podia acreditar no que estava vendo. Imediatamente ele ganhou três metros de distância, correndo naquele estilo feio que lhe era peculiar. Ele parecia um nadador debilitado, tentando permanecer na superfície e esforçando-se para receber um pouco de ar; lutando com braços e pernas.

Todos sabiam que ele não conseguiria manter aquele ritmo. Um atleta especializado em 100 metros não podia fazer o que ele estava fazendo. Mesmo assim, ele prosseguiu. Guy Butler também estava dando tudo de si. Por alguns instantes, o público pareceu hipnotizado.

De repente, o inesperado aconteceu. Fitch, um dos americanos, passou à frente de Butler e começou a aproximar-se cada vez mais de Eric, que ainda mantinha a liderança. Porém, novamente o inesperado: Eric começou a correr mais rápido ainda.

Ele foi se aproximando cada vez mais da linha de chegada sem vê-la. Sua cabeça estava jogada para trás, com os olhos fitando o céu. Uma profusão de bandeiras britânicas foi erguida entre os espectadores, que as agitavam incentivando-o à vitória.

De repente, depois de um tempo que pareceu levar séculos, a corrida dos 400 metros terminou. Eric Liddell alcançou a linha de chegada com uma vantagem de cinco metros sobre Fitch, seguido de Guy Butler, que, apesar de machucado, chegou em terceiro lugar e ganhou a medalha de bronze.

Os gritos da multidão podiam ser ouvidos por toda a Paris. De repente, uma voz ecoou no alto-falante, para anunciar que Eric havia batido um novo recorde mundial de 47,6 segundos. Desta vez, os aplausos foram tão ensurdecedores que pareciam atravessar o Canal da Mancha...

Sir Philip Christison tinha certeza de que o comovente som das gaitas de fole e dos tambores, naquele dia, haviam incentivado o jovem escocês de 22 anos. Eric, porém, sabia que o motivo era outro.

Seu sucesso foi conseguido graças a algumas palavras simples escritas em um pedaço de papel.

- Nos dias que antecederam as corridas, um massagista foi nomeado oficialmente para cuidar dos atletas britânicos. Ele conhecia Eric muito bem e gostava imensamente dele.

Na tentativa de demonstrar quanto admirava o atleta, o massagista aproximou-se de Eric no momento em que ele saía do hotel, rumo ao Estádio Colombes, e lhe entregou uma folha de papel dobrada.

Posteriormente, em um dos poucos momentos tranquilos daquele dia, Eric desdobrou a folha de papel, onde se lia: "No antigo livro se lê: Aquele que me honrar, eu o honrarei'. Meus melhores votos de sucesso constante." Para os Jogos Olímpicos de 1924, foi criado um lema especial, que dizia: "Citius! Althius, Fortius", cujo significado é "Mais Rápido, Mais Alto, Mais Forte". E não havia outro atleta mais merecedor desse lema do que Eric Liddell.


 

A BARRA DE DOCE

Doris Sanford

Histórias Para o Coração 2 104

 

Havia uma senhora que trabalhava num escritório que se localizava num dos altos edifícios de Londres. Todos os dias, à hora do café, ela descia até a lanchonete, que ficava no primeiro andar, e comprava uma barra de doce Kit Kat, na máquina automática, e uma xícara de café. Aquele dia não foi diferente. Depois de encontrar uma mesinha vazia num dos cantos, e nela acomodar-se, ela curvou o corpo para procurar alguma coisa na bolsa. Quando ergueu os olhos, havia um cavalheiro sentado diante dela, na mesma mesinha.

Ele segurava uma xícara de café, uma rosquinha e estava levando à boca o Kit Kat que ela comprara. Ele não se desculpou, não ofereceu nenhuma explicação. Simplesmente comeu o doce.

Ela ficou surpresa e irritada; mas não disse uma só palavra.

Tomou o café o mais rápido possível. No entanto, quanto mais pensava no assunto, mais zangada ela ficava. Finalmente, a senhora levantou-se para sair e passou a mão no restante da rosquinha que ele estava comendo, enfiando-a na boca. As únicas palavras que ela encontrou para dizer foram:

- E agora? Você aprendeu a lição?

Ela marchou de volta para o escritório, onde abriu novamente a bolsa. Para seu enorme espanto, lá estava, bem à vista, o Kit Kat que havia comprado!


 

O QUE VOCÊ ESTÁ OUVINDO

Tim Hansel

Histórias Para o Coração 2 105

 

 

Um indiano caminhava pelo centro de Nova York, acompanhado de um amigo que morava naquela cidade. De repente, o indiano disse:

- Eu ouvi um grilo!

- Ora, você está maluco - replicou o amigo.

- Não, eu ouvi um grilo. Ouvi, sim! Tenho certeza.

- Agora é meio-dia. Aqui há pessoas andando apressadas, carros buzinando, táxis dando freadas bruscas, barulhos comuns da cidade.

Tenho certeza de que você não ouviu grilo nenhum.

- Claro que ouvi.

O indiano parou um pouco para prestar atenção. Em seguida, caminhou até a esquina, do outro lado da rua, e começou a olhar ao redor. Finalmente, num dos cantos, ele avistou um arbusto plantado em uma jardineira de cimento. Embaixo da folhagem havia um grilo.

O amigo ficou atônito. Mas o indiano disse:

- Não, meus ouvidos não são diferentes dos seus. Depende do que estamos ouvindo. Veja, eu vou lhe mostrar.

Ele enfiou a mão no bolso, retirou um punhado de moedas de vários tamanhos e as jogou no concreto.

Todos os que estavam até a distância de um quarteirão viraram a cabeça para olhar.

- Você entendeu o que quero dizer? - perguntou o indiano, recolhendo as moedas do chão. - Tudo depende do que você está ouvindo.


 

A BOA AÇÃO

Recontada por Nola BerteIson

Histórias Para o Coração 2 107

 

 

Jeff, de 11 anos de idade, com o restante do grupo dos escoteiros fizeram uma "boa ação" para terminar um projeto e receber um distintivo pelos serviços prestados. Os meninos reuniram-se na casa do Sr. e da Sra. Meyers e passaram algum tempo retirando a neve e o gelo da varanda e da calçada do casal de idosos.

Mas, por um motivo ou outro, Jeff não ficou satisfeito. Ele sentiu que havia certa hipocrisia no serviço feito e resolveu discutir o assunto com o chefe do grupo dos escoteiros:

- Eu acho que não ajudei muito aquele casal. Parece que fizemos a boa ação só para ganharmos pontos para o jogo.

- É melhor você voltar lá e ver com os próprios olhos o que pode fazer para ajudar o casal - sugeriu o experiente chefe. - E, se você não contar a ninguém, também não vai ganhar "pontos" por isso.

Para Jeff, aquilo parecia ser a solução perfeita. Passaram vários dias antes que Jeff se cingisse de coragem para retornar àquela casa.

Quando, finalmente, bateu à porta da residência do casal, ele estava nervoso, mas determinado a levar até o fim a uma boa ação.

Foi a Sra. Meyers quem abriu a porta. Depois de ouvi-Io com atenção, ela recusou educadamente a oferta de Jeff para ajudar.

Contudo, o Sr. Meyers estava ouvindo o diálogo de longe.

- Você pode nos ajudar em uma coisa - ele disse, com voz animada, fazendo um gesto para que Jeff o acompanhasse à cozinha. O Sr.

Meyers estava realizando vários trabalhos que necessitavam da ajuda de braços e pernas vigorosos. Jeff foi encarregado de transportar objetos do porão para cima e vice-versa e subir na escada para alcançar as prateleiras e os cantos mais altos. Naquela noite, quando caiu na cama, Jeff estava muito cansado. Porém, mais satisfeito com seu trabalho atual do que quando ajudou a retirar a neve.

No dia seguinte, depois das aulas, Jeff retomou à casa dos Meyers.

Desta vez, o casal estava disposto a aceitar sua ajuda para várias tarefas.

Dias depois, ele retomou à casa pela terceira vez. - Hoje não há nenhum serviço - disse a Sra. Meyers.

Jeff sentiu-se melindrado por alguns momentos. Mas, em seguida, ouviu o Sr. Meyers dizer com um brilho nos olhos:

- Hoje temos uma surpresa para você.

Após ter dito isto, eles o conduziram a uma pequena sala de jantar, onde havia uma mesa elegantemente arrumada para três pessoas, com toalha de renda, flores e uma bandeja de prata contendo biscoitinhos em formato de triângulos. Jeff ficou realmente surpreso.

Lembrando-se das boas maneiras, puxou uma cadeira para a Sra.

Meyers se sentar.

- São biscoitinhos de pobre - disse a Sra. Meyers, passando a bandeja de prata a Jeff.

- Por que a senhora chama estes biscoitinhos assim? - ele perguntou, pensando no nome estranho dado àqueles petiscos.

Quem respondeu foi o Sr. Meyers:

- Depois que a gente compra todos os ingredientes, fica pobre!

Iniciou-se, então, uma hora ou mais de risadas e conversas.

Enquanto o casal lhe mostrava fotografias e contava histórias da família que agora morava longe, o coração de Jeff enterneceu-se ao compreender a solidão que havia naquela casa. Ele decidiu passar por lá com frequência para" dar uma ajuda".

Durante o tempo em que cursou o ensino médio, Jeff continuou a encontrar motivos para visitá-los. Sempre havia alguma coisa para ele fazer. No intervalo entre cortar a grama, varrer as folhas, limpar a neve, capinar o jardim e vários outros serviços dentro de casa, os três conversavam e riam, sentindo quanto eram mutuamente importantes.

Chegou o dia em que Jeff alistou-se no Exército para servir a seu país. As cartas substituíram ~ conversas face a face. Em todos os feriados, Jeff aguardava com ansiedade a chegada de um pacote dos Meyers - uma porção generosa de biscoitinhos de pobre.

O Sr. Meyers morreu enquanto Jeff estava no Exército. Jeff sentiu muito aquela perda. Quando voltou para casa, ele retomou o hábito de "dar uma passada só para ajudar um pouco". Ele sabia que, sem o Sr. Meyers, a Sra. Meyers se sentia mais sozinha do que nunca. E ela continuou a servir os biscoitinhos de pobre, na bandeja de prata, na mesma sala de jantar. Foi comovente ver que ela continuava a colocar três pratos na mesa para as ocasiões especiais em que, juntos, eles tomavam chá.

Jeff ficou noivo e marcou o casamento. A Sra. Meyers não queria faltar à cerimônia por nada deste mundo. Saiu de casa naquele dia levando um presente - um tapete feito de sobras de lã, que ela própria tecera, e uma porção dupla de biscoitinhos de pobre. Dentro do pacote, havia a receita dos biscoitinhos. Aquela foi a última porção de biscoitinhos que ela fez; a Sra. Meyers morreu alguns meses depois.

Durante muitos anos, Jeff manteve sua promessa de nunca contar a ninguém sobre o "projeto especial" de ajudar os Meyers. Ele achava que, se chamasse a atenção para si, estragaria a "boa ação".


 

POR TRÁS DE UM DESENHO RÁPIDO

Joni Eareckson Tada

Histórias Para o Coração 2 110

 

 

Há muitos anos, havia um famoso artista japonês chamado Hokusai, cujas pinturas eram cobiçadas pela realeza. Um dia, um nobre pediu ao artista que fizesse uma pintura de seu precioso pássaro. Ele deixou o pássaro com Hokusai, e o artista disse ao nobre para retomar depois de uma semana.

Sentindo falta do pássaro, o nobre estava ansioso por retomar ao estúdio do artista no final da semana, não apenas para recuperar sua ave favorita, mas também para ver a pintura. Quando lá chegou, o japonês pediu-lhe humildemente que retomasse depois de duas semanas.

As duas semanas transformaram-se em dois meses - e, depois, em seis meses.

Um ano mais tarde, o nobre irrompeu no estúdio de Hokusai, recusando-se a esperar mais e exigindo o pássaro de volta e a pintura.

Conforme o costume japonês, Hokusai curvou-se diante do nobre, retornou à sua mesa de trabalho, e pegou um pincel e uma grande folha de papel feito de palha de arroz. Em poucos instantes, Hokusai desenhou o pássaro, sem nenhum esforço, exatamente como ele era.

O proprietário do pássaro ficou atônito diante da pintura.

Em seguida, disse com raiva:

- Por que você me fez esperar um ano se podia ter aprontado a pintura em tão pouco tempo?

- O senhor não entendeu - replicou Hokusai.

Ele levou o nobre a um cômodo onde as paredes estavam cobertas de pinturas do mesmo pássaro. Nenhuma delas, contudo, expressava a graça e a beleza do último trabalho...

Esta lição deve aplicar-se também à tela de nossa vida... Se quisermos ter alguma coisa de valor verdadeiro e duradouro em nosso caráter, ela não será conseguida com facilidade.

Nunca é fácil.


 

ÂNDROCLES E O LEÃO

Recontada por Cassandra Lindell

Histórias Para o Coração 2 111

 

Com o coração acelerado e as pernas doendo, ele chegou à floresta; Ândrocles sabia que não existia nenhum outro lugar seguro. Ele poderia sobreviver ali - encontrar raízes e frutos, livrar-se de animais ferozes. Ândrocles tinha poucas opções - se fosse preso, seria executado como escravo fugitivo.

Ele imaginava como seria a angústia de viver se fosse descoberto.

Cada pinha que caía mansamente na relva verde e macia sob seus pés era o suficiente para sobressaltá-Io. Sua cabeça movimentava-se de um lado a outro para que os olhos arregalados pudessem enxergar os soldados.

Ele necessitava de um abrigo. A chuva pairava no ar, e em breve anoiteceria. Através das árvores, ele avistou uma abertura nas rochas.

Imaginando que pudesse dormir ali apenas por uma noite, Ândrocles rumou naquela direção.

De repente, ele parou. Deitado à direita da abertura, havia um leão. Movido pelo instinto, Ândrocles correu, orando para que o animal estivesse de estômago cheio.

Ao perceber que não estava sendo perseguido, ele diminuiu o ritmo dos passos e parou. Quando olhou para trás, ele viu que o leão não saíra em sua perseguição. O único movimento do animal foi girar a cabeça para olhar para o homem - com ar de tristeza -, assim Ândrocles pensou.

Lentamente, ele começou a retornar ao local. O leão estava machucado. Ândrocles dirigiu-se a ele carinhosamente, acariciando-lhe a juba e as costas à procura do ferimento. Finalmente, o encontrou - um corte profundo na perna traseira do leão, que estava sangrando por algum tempo sem nenhum sinal de que o sangue estancaria. O homem rasgou um pedaço de sua túnica e limpou a ferida. O leão estremeceu e deu um gemido. Finalmente, adormeceu.

Naquele instante, a chuva começou a cair. Ândrocles entrou na caverna e caiu no sono imediatamente. A longa corrida para fugir da cidade o deixara exausto. Minutos depois, ele despertou, no exato momento em que o leão entrou na caverna e aproximou-se dele, arrastando a perna e desabando no chão com a respiração ofegante.

A caverna era grande, e o homem e o animal moraram juntos ali, durante várias semanas. Ândrocles encontrou uma fonte de água fresca nas proximidades. Os dois caçavam e ajuntavam o alimento de que cada um necessitava.

Um dia, enquanto pegava água na fonte, Ândrocles sentiu um objeto afiado pressionando o seu pescoço.

- Não se mexa - uma voz impiedosa ordenou. - Existe uma boa recompensa pela vida de um escravo fugitivo, você sabe. Levante-se bem devagar.

Forçado a voltar para a cidade, Ândrocles pensou em seu amigo leão, sabendo que nunca mais o veria. Ele foi conduzido à presença do imperador para ser julgado e recebeu a sentença de morte. Os soldados o levaram a uma cela de pedra construída debaixo da arena, onde deveria permanecer até o dia da execução.

Finalmente, ele foi levado à arena. O povo lançou-lhe todo o seu ódio e começou a aplaudir com entusiasmo quando foi solto um leão que não havia recebido alimento por vários dias. Os soldados o cutucavam e o instigavam, para provocar a ira do animal, que rugiu ao ver o homem e correu em direção à sua presa.

Ândrocles sabia que não teria nenhuma chance. Mesmo assim, ele retesou os músculos para lutar, pronto para ser ferido. Como a situação foi diferente quando ele cuidou de um leão machucado, em vez de cutucá-Io e instigá-Io! Ândrocles fechou os olhos, à espera de sentir o peso do animal sobre seu corpo e receber o primeiro golpe mortal.

Em vez de dor lancinante, ele sentiu a língua do leão lambendo-lhe o rosto, no momento em que o animal o atirou no chão. Ândrocles abriu os olhos - estava frente a frente com seu amigo da floresta.

Mesmo após dias de fome e tortura, em vez de investir para matá-Io, o leão começou a balançar a cauda como se fosse um cão amigo.

O povo mergulhou em silêncio. O imperador estava atônito.

Mandou chamar Ândrocles, e o homem contou a sua história.

- Ândrocles e seu amigo leão estão livres - declarou o imperador.

- Uma amizade e uma gratidão tão surpreendentes entre inimigos ferrenhos devem ser grandemente recompensadas.


 

INTRIGA

BILLY GRAHAM

Histórias Para o Coração 2 114

 

 

Conta-se a história de uma mulher inglesa que compareceu perante o pastor de sua igreja com um problema de consciência.

O pastor sabia que aquela mulher tinha o péssimo hábito de fazer intrigas - falava mal de quase todos do povoado.

- Como eu posso me retratar? - ela suplicou.

O pastor lhe disse:

- Se a senhora quiser ficar em paz com sua consciência, terá de pegar um saco, enchê-lo de penas de ganso e atirar uma pena na varanda da casa de cada pessoa que a senhora difamou.

Depois de realizar o trabalho, ela voltou a conversar com o pastor.

- É só isso que eu devia fazer? - a mulher perguntou.

- Não - respondeu o velho e sábio pastor. - Agora, a senhora precisa recolher todas as penas que foram atiradas e trazê-las a mim.

Depois de um longo tempo, a mulher retomou de mãos vazias.

- O vento levou todas as penas embora - ela disse.

- Minha bondosa senhora - disse o pastor -, o mesmo acontece com a intriga. Palavras maldosas são fáceis de serem atiradas; porém, jamais somos capazes de trazê-las de volta.


 

MUDANDO DE LADO

Zig Ziglar

Histórias Para o Coração 2 116

 

 

Um menino foi abordado por três grandalhões. Qualquer um deles poderia dar-lhe uma surra, e os três estavam deixando claro que tinham aquele plano em mente. O menino, que era muito esperto, afastou-se um pouco dos três grandalhões e traçou uma linha na terra. Depois, deu alguns passos para trás, fitou o líder do grupo nos olhos e disse:

- Quero ver se você consegue atravessar esta linha.

Sem pestanejar, o grandalhão passou para o outro lado.

O menino sorriu e disse:

- Agora, nós dois estamos do mesmo lado.

 

 

 

O cão tem muitos amigos porque ele movimenta a cauda em vez de movimentar a língua.


 

O VESTIDO

Margaret Jensen

Histórias Para o Coração 2 117

 

 

Mary era uma jovem que acalentava o sonho de amar e servir a Deus. John, agitado e impaciente em seu novo pastorado na zona rural de Wisconsin, sentia saudades das bibliotecas e da agitação de Nova York ou de Chicago, onde cursara o seminário. A mente brilhante de John só pensava em livros. Mary via beleza em tudo - no aroma da terra recém-arada, no cântico de um passarinho, nos primeiros indícios da primavera, nas cores do açafrão e das violetas. Mary cantava para o vento e ria com os passarinhos.

Cultivava, porém, um desejo secreto: queria ter um vestido novo para a primavera. Não um vestido discreto ou preto, apropriado para uma esposa de pastor, mas um vestido de tecido leve e esvoaçante, com renda na gola e nas mangas, e com um cinto largo.

Mas não havia dinheiro para isso! Ela começou a fazer planos.

Guardaria moedas em uma caixa até conseguir dinheiro suficiente para comprar um novo lampião de querosene para John e material para o vestido novo. Aproveitaria a renda de um antigo vestido de veludo guardado no baú. Algum dia, ela faria um vestido de veludo azul para sua filhinha Louise.

Chegou o dia em que o ruído da máquina de costura se fazia ouvir como música, enquanto Mary cantava e costurava. Louise, de cabelos dourados, brincava com carretéis vazios e alfinetes. A pequena casa brilhava de tão limpa. O novo lampião ocupava um lugar de honra na mesa de leitura de John.

Com ar de brincadeira, Mary soltou seus longos cabelos castanhos e os escovou sob o sol da manhã. Em seguida, colocou o vestido novo cor-de-rosa, de tecido leve, com violetas e rendas. Prendeu o cinto nas costas e começou a dançar enquanto Louise dava gritos de alegria. Era primavera! Ela era jovem, tinha apenas 23 anos, uma vida nova dentro de si e Louise para acalentar e amar. A igreja rural, os carrancudos imigrantes que aravam a terra, e o longo inverno impiedoso haviam isolado a jovem esposa em seu mundo de poesia e música. Mas ela aprendera a amar as pessoas fervorosas e compartilhava suas alegrias e tristezas. Hoje, ela dançava alegre e descontraída em seu novo vestido esvoaçante.

Um puxão tão rápido quanto o clarão de um relâmpago obrigou Mary a girar o corpo e ter de encarar o rosto irado de John, cujas frustrações acumuladas desencadearam toda a fúria que havia dentro dele.

- Dinheiro gasto com futilidades! Não há bibliotecas, não há livros... ninguém para conversar, a não ser para falar de vacas e galinhas, plantação e colheita.

A raiva de John irrompeu como um vulcão em erupção, e ele rasgou o vestido até transformá-Io em tiras. Assim que o acesso de fúria chegou ao fim, o silêncio aterrador que se seguiu foi quebrado pelo galope do cavalo de John. Cavalgando com o vento batendo no rosto, ele canalizou o restante de sua raiva para as vacas e galinhas, que fugiam assustadas do caminho. Seu coração ansiava por galopar de Wisconsin até o centro de Nova York - até sua querida biblioteca.

Acocorada em um canto, Mary apertava Louise e o vestido em frangalhos entre os braços. Tremendo de medo e de raiva, ela não conseguia sair do lugar. Exaurida demais para chorar, sentia um enorme vazio dentro dela e uma saudade indescritível de sua mãe. Não havia ninguém a quem recorrer naquela região longínqua. Mary lembrou-se do Salmo 34.4: "Busquei o SENHOR, e ele me acolheu;

livrou-me de todos os meus temores." Em seguida, as lágrimas brotaram, intensas e profundas, e ela clamou ao Senhor.

Mary começou a pensar em uma maneira de fugir. Improvisaria uma cama no sótão e levaria Louise para dormir com ela. John dormiria sozinho. Ela dobrou o vestido estraçalhado e o escondeu no baú. O pastor Hansen chegaria para visitar as igrejas das imediações, e Mary decidiu aguardar aquele dia para mostrar o vestido a ele.

Depois, pediria a ajuda dele para abandonar John e retornar à casa de sua mãe. Com uma determinação silenciosa, ela colocou o vestido escuro, prendeu muito bem os cabelos, como convinha a uma esposa de pastor, e arrumou a mesa para o jantar. Quando John retornou tarde da noite, encontrou seu jantar no forno. Mary estava dormindo no sótão, com Louise aninhada em seus braços.

John jantou em silêncio e procurou por Mary. Quando a encontrou no sótão, ele ordenou-lhe que voltasse para sua cama e colocasse Louise no berço. Mary colocou Louise com muito cuidado no berço e, obedientemente, voltou para sua cama. A fúria de John havia passado, mas ele desconhecia o rastro de devastação que ficou pelo caminho.

A vida prosseguiu em sua rotina, mas a canção deixou de existir; e, agora, os passos de Mary eram pesados de amargura. Ela aguardava em silêncio, ruminando seus planos.

A chegada do pastor Hansen trouxe uma nova alegria a John.

Agora, os dois pastores conversavam sobre livros, teologia e as conferências que seriam realizadas na igreja. Mary os servia em silêncio. Ninguém podia imaginar a angústia que existia por trás daquele rosto bondoso enquanto ela assistia aos cultos ao lado de crentes fervorosos, sem prestar a mínima atenção aos sermões.

a último dia da visita estava se aproximando, e Mary ainda não havia tido a oportunidade de conversar a sós com o pastor Hansen. Seria necessário encontrar uma abertura, talvez na tarde de domingo, enquanto John estivesse visitando um membro da igreja impossibilitado de comparecer ao templo, e enquanto o pastor Hansen estivesse meditando sobre o sermão da noite. Com a mente girando, ela decidiu prestar atenção ao sermão da manhã, e talvez usar os comentários do pregador para introduzir a sua conversa com o pastor Hansen.

- a texto desta manhã é encontrado em Marcos 11.25. "E, quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai..." a perdão não é opcional, mas uma decisão definitiva de perdoar, em obediência ao mandamento de Deus. A sensação vem depois, uma sensação de paz. Quando apresentamos diante de Deus as nossas mágoas e desespero, Ele derrama seu amor e compaixão nas feridas abertas e nos cura.

Ah, não!, Mary chorou intimamente. Não posso perdoar e não vou conseguir esquecer.

A sermão prosseguiu:

- Alguém deve estar pensando: Eu nunca vou esquecer, mesmo depois de perdoar. Você tem razão. Não pode esquecer, mas não precisa sentir-se destruído pela lembrança. O amor de Deus e seu perdão têm o poder de amortecer a memória até que as marcas desapareçam. Quando perdoamos, devemos destruir a evidência e deixar que o amor tome conta de nossa mente.

John e o pastor Hansen foram para casa no carro do diácono Olsen. Mary subiu em sua charrete, prendeu o chapéu preto com um lenço e segurou Louise de encontro ao peito. Enquanto a mula Dolly trotava animadamente pela estrada, lágrimas quentes começaram a rolar pelo rosto de Mary.

Ela sabia o que deveria fazer. Obedeceria a Deus. Sem esperar para desatrelar Dolly, ela desceu rápido da charrete e colocou Louise no berço. Com as mãos trêmulas, retirou o vestido estraçalhado do baú. O jantar do domingo estava no forno. Mary atiçou o fogo e colocou mais lenha. Preparou o café automaticamente e arrumou a mesa. A evidência deve ser destruída. A frase martelava em sua memória. Eu o perdôo, John. Ela pegou o vestido estraçalhado com uma das mãos e abriu a tampa do forno com a outra. As lágrimas estalavam no fogo enquanto ela observava o vestido sendo queimado lentamente.

O verdadeiro perdão destrói a evidência. As palavras estavam tão vivas em seu coração que ela não ouviu os passos de John.

- Mary, o que você está fazendo?

Com a voz trêmula pelos soluços, ela respondeu:

- Estou destruindo a evidência.

E, para si mesma, ela disse: - Minha oferta a Deus.

Foi, então, que John se lembrou! Pálido e abalado, ele murmurou:

- Por favor, perdoe-me!

Cinqüenta e oito anos depois, quando John já havia partido para morar com o Senhor, deixando uma saudade imensa, Mary teve um sonho. Três anjos apareceram diante dela e disseram:

- Venha, vamos fazer uma comemoração.

Dobrado ao meio, sobre o braço de um dos anjos, havia um lindo vestido.


 

PARENTES DISTANTES

Carla Muir

Histórias Para o Coração 2 121

 

 

Um velho solitário morava no meio das montanhas do Colorado.

Quando ele morreu, alguns parentes distantes vieram da cidade para pegar seus pertences. Assim que chegaram, viram apenas uma velha choupana com uma ti casinha" ao lado. Dentro da choupana, perto de um fogão de pedra, havia uma panela velha e algumas ferramentas que o homem usava em seu trabalho de mineração. Uma mesa rachada e uma cadeira de três pernas estavam encostadas a uma minúscula janela. O lampião de querosene servia de enfeite para a mesa. Em um canto escuro da choupana, via-se um catre coberto com uma colcha puída.

Eles pegaram alguns objetos sem valor e prepararam-se para partir.

Quando estavam se afastando com o carro, um velho amigo do dono da choupana, montado em uma mula, acenou para eles.

- Vocês permitem que eu pegue o que sobrou na choupana de meu amigo? - ele perguntou.

- Fique à vontade - eles responderam.

Afinal, eles pensaram, o que poderia haver de valor naquela choupana?

O amigo entrou na choupana e caminhou em direção à mesa.

Passou a mão por baixo e levantou uma das tábuas do piso. Ali estava todo o ouro que seu amigo havia descoberto nos últimos 53 anos - o suficiente para ter construído um palácio. O velho solitário morreu, deixando o segredo apenas para o amigo. Quando o amigo olhou pela janela e viu desaparecer a nuvem de poeira atrás do carro dos parentes, ele disse:

- Eles deveriam ter conhecido melhor o velho.


 

MAIS QUE UM EMPREGO

Charles Swindoll

Histórias Para o Coração 2 122

 

 

Um jovem entrou apressado em um posto de perguntou ao gerente se ali havia um telefone gerente movimentou a cabeça afirmativamente e disse:

- Claro! Fica logo ali.

O jovem colocou algumas moedas, discou e aguardou uma resposta.

Finalmente, alguém atendeu.

- Ah!... - ele disse, com voz grave -, o senhor teria emprego para um homem jovem, honesto e trabalhador?

O gerente do posto ouviu a pergunta de longe. Depois de alguns instantes, o rapaz disse:

-Ah! o senhor já tem um empregado jovem, honesto e trabalhador?

Está bem, obrigado.

Com um largo sorriso no rosto, ele desligou o telefone e dirigiu-se para o seu carro, assobiando e visivelmente satisfeito.

- Ei, espere um pouco! - gritou o gerente. - Não pude deixar de ouvir sua conversa. Por que você está tão feliz? Achei que o sujeito do outro lado da linha tivesse dito que já tinha um empregado e que não precisava de você.

O jovem sorriu e respondeu:

- Veja só, eu sou o jovem honesto e trabalhador. Estava só testando meu patrão!


 

UM JOVEM GUERREIRO

Stu Weber

Histórias Para o Coração 2 123

 

 

Qual é a aparência de um homem de bem com a vida? Não posso deixar de me lembrar da afirmação de um jovem que mora perto de nós - um rapaz de 16 anos, que cursa o segundo ano do curso médio.

Seus pais se divorciaram quando ele tinha oito anos. O pai saiu de casa e nunca mais voltou. O padrasto, um homem cruel e desumano, trata-o muito mal. Ordena que ele "cale a boca" o tempo todo. Diz que ele é inútil, idiota e que nunca será nada na vida.

Mas, quando alguém pergunta ao jovem qual é o seu sonho, seus olhos adquirem um brilho especial. Vejam só qual é a resposta dele:

- Eu gostaria de descobrir onde meu pai verdadeiro mora. E gostaria de me mudar para a casa vizinha à dele, sem que ele soubesse quem eu sou. Gostaria, também, de ser seu amigo. Já fui amigo dele um dia, e talvez fosse bom continuarmos a amizade.

-Esse mesmo jovem, que tem tido todos os tipos de dificuldade na vida, recebeu o convite para escrever um ensaio sobre o tema "O que é um homem?" O breve ensaio está reproduzido a seguir - escrito por um jovem que nunca contou com a presença de um homem na vida, um homem verdadeiro, no sentido exato da palavra. Penso que existem coisas tão inerentes, tão enraizadas, tão intrínsecas, tão fundamentais que até mesmo um jovem, que nunca teve na vida o exemplo de um homem para seguir, é capaz de colocá-las em palavras. Aqui está o que ele escreveu:

 

- O homem verdadeiro é bondoso.

- O homem verdadeiro é zeloso.

- O homem verdadeiro afasta-se das brigas provocadas por machos idiotas.

- O homem verdadeiro ajuda sua esposa.

- O homem verdadeiro cuida dos filhos quando eles estão doentes.

- O homem verdadeiro não foge dos problemas.

- O homem verdadeiro mantém sua palavra e cumpre suas promessas.

- O homem verdadeiro é honesto.

- O homem verdadeiro não infringe as leis.

 

Esta é a visão que um jovem solitário tem de um homem verdadeiro.

Um homem que tem autoridade e vive sob a autoridade.

Esta é a visão de um Jovem Guerreiro.

 

Caráter é o que você é no escuro.

 

DWIGHT L. MOODY


 

A CAIXA DE LÁPIS

Doris Sanford

Histórias Para o Coração 2 127

 

 

Eu estava concentrada em meu escritório, preparando a palestra que faria naquela noite em uma faculdade no outro lado da cidade, quando o telefone tocou. Uma mulher, que eu não conhecia, presentou-se dizendo que era mãe de um menino de sete anos e que ela estava morrendo. Contou-me que sua terapeuta a aconselhara ... não revelar este fato ao filho, uma vez que isso seria traumático demais para a criança. Mas aquele conselho não lhe pareceu correto.

Sabendo que eu trabalhava com crianças que sofreram perdas familiares, ela pediu meu conselho. Eu lhe disse que, geralmente, o nosso coração é mais esperto que o cérebro e que ela deveria saber u que era melhor para o seu filho. Convidei-a a assistir à minha palestra naquela noite, uma vez que eu falaria sobre como as crianças enfrentam a morte. Ela prometeu que compareceria.

Mais tarde, eu me perguntei se a reconheceria durante a palestra.

Minhas dúvidas foram dissipadas quando avistei uma mulher frágil sendo conduzida por dois adultos até a sala onde seria realizada conferência. Na palestra, expliquei que as crianças percebem a verdade antes que alguém lhes conte e que, quase sempre, esperam até sentir que os adultos estejam preparados para expor os fatos antes que elas mencionem suas preocupações e dúvidas. Eu disse que, de modo geral, as crianças lidam melhor com a verdade do que com negação dos fatos, mesmo que tal negação tenha o propósito de protegê-Ias do sofrimento. Disse também que devemos respeitar as crianças, fazendo com que elas participem da tristeza da família, sem que se sintam excluídas.

Ela ouviu o que necessitava. No intervalo, caminhou com muito esforço até a tribuna e disse entre lágrimas:

- Meu coração já dizia isto. Eu sabia que deveria contar a ele.

Ela prometeu que contaria tudo ao filho naquela noite.

Na manhã seguinte, recebi outro telefonema daquela senhora.

Apesar de sua dificuldade para falar, eu consegui ouvir a história contada em voz sufocada.

Na noite anterior, quando chegou a casa, ela despertou o filho e lhe disse com serenidade:

- Derek, eu preciso lhe contar uma coisa.

Ele a interrompeu, dizendo:

- Mamãe, você vai me contar que está morrendo?

A mãe o abraçou, e ambos soluçavam enquanto ela lhe dizia:

-Sim.

Depois de alguns minutos, o menino afastou-se da mãe, dizendo que havia guardado alguma coisa para ela. No fundo de uma de suas gavetas, ele havia guardado uma velha caixa de lápis. De dentro da caixa, ele tirou uma carta, escrita com letras um tanto ilegíveis:

"Adeus, mamãe. Eu sempre vou amar você." Quanto tempo ele esperou para ouvir a verdade, eu não sei. Só sei que dois dias depois sua mãe morreu. Dentro do seu caixão foram colocadas a caixa de lápis e a carta.


 

ELA É MINHA PRECIOSIDADE

Robertson McQuilkin

Histórias Para o Coração 2 129

 

 

Escrita seis anos depois de ter renunciado ao cargo de reitor do Seminário e Faculdade de Estudos Bíblicos, de Colúmbia, para cuidar de sua esposa, Muriel, que contraíra o mal de Alzheimer.

 

Dezessete verões atrás, Muriel e eu começamos nossa jornada rumo ao crepúsculo da vida. A meia-noite já chegou, pelo menos para ela, e, às vezes, eu me pergunto quando chegará o alvorecer. O mal de Alzheimer não deveria atacar tão cedo e atormentar por tanto tempo. Mesmo assim, em seu mundo silencioso, Muriel é uma mulher feliz, adorável. Se Jesus a levar para si, vou sentir muitas saudades de sua doce e meiga presença. Sim, houve momentos em que me irritei, mas não com frequência. Não faz sentido ficar zangado. Além do mais, talvez o Senhor tenha respondido à oração de minha juventude para amadurecer meu espírito.

Certa vez, no entanto, perdi a paciência de vez. Na época em que Muriel ainda conseguia ficar em pé e caminhar e que ainda não existia o recurso das fraldas descartáveis, houve alguns "acidentes". Eu estava ajoelhado ao lado dela, tentando limpar a sujeira do banheiro.

Teria sido mais fácil se ela não tivesse insistido tanto em me ajudar. Fui ficando cada vez mais irritado. De repente, na tentativa de fazê-la ficar imóvel, eu dei um tapa em sua panturrilha - como se isso fosse melhorar a situação. Não foi um tapa forte, mas ela se assustou. Eu também. Em nossos 48 anos de casados, eu nunca a havia tocado com raiva nem me dirigido a ela com ar de censura. Nunca cheguei sequer a pensar em fazer isso. Mas, agora, no momento em que ela mais necessitava de mim...

Chorando, eu lhe implorei perdão, apesar de saber que ela não conseguia entender as palavras e muito menos pronunciá-Ias. Recorri ao Senhor e confessei-lhe o meu arrependimento. Levei dias para superar aquele incidente. Talvez Deus tenha guardado aquelas lágrimas para debelar o fogo que voltaria a ser aceso um dia.

Recentemente, uma aluna casada me perguntou:

- O senhor nunca se sente cansado?

- Cansado? Eu me sinto cansado todas as noites. É por isso que vou dormir.

- Não, eu falei cansado no sentido de... - ela disse, movimentando a cabeça em direção a Muriel, que continuava sentada, em silêncio, em sua cadeira de rodas, com o olhar vago, como se estivesse dizendo:

"Não há ninguém em casa." Eu respondi à pergunta de Cindi:

- Não, eu não me sinto cansado. Eu adoro cuidar dela. Ela é minha preciosidade...

Dizem que o amor entre um casal desaparece quando não existe reciprocidade, quando ele deixa de ser físico, quando a outra pessoa não se comunica ou quando uma das partes não ajuda a outra a carregar o fardo. Sempre que ouço a ladainha sobre os elementos essenciais para um casamento feliz, eu desconsidero aquilo que minha amada não pode mais fazer e contemplo todo o mistério do amor.

Algumas pessoas custam a entender que amar Muriel não é tão difícil assim. Elas fazem perguntas sobre as coisas de que gosto, como meu trabalho, por exemplo.

- O senhor não sente falta de seu cargo de reitor? - um aluno me perguntou quando estávamos sentados em nosso pequenino jardim.

Eu lhe disse que nunca havia pensado nesse assunto. Por mais gratificante que meu trabalho possa ter sido, eu gostei de aprender a cozinhar e cuidar da casa. Não, eu nunca olho para trás.

Porém, naquela noite, eu refleti sobre aquela pergunta e recorri ao Senhor:

Pai, eu gosto do que utou fazendo e não tenho nenhum arrependimento. MM, quando o treinador deixa o jogador no banco de reservas é porque não o quer no jogo. Não necessito que me digas, é claro, mas eu gostaria de saber - por que não me mantiveste no jogo?

Eu não dormi bem naquela noite e despertei com um problema na cabeça. Na época, Muriel ainda conseguia movimentar-se. Então, saímos para nossa caminhada matinal ao redor do quarteirão. Ela não se sentia segura para andar sozinha, e caminhamos lentamente de mãos dadas como sempre fazíamos. Naquele dia, ouvi passos nos seguindo e olhei para trás. Avistei a figura conhecida de um andarilho.

Ele passou por nós com passos trôpegos; depois, virou-se e nos olhou de cima a baixo.

- Muito bem. Gostei - ele disse. - Gostei.

Em seguida, ele seguiu pela rua, murmurando consigo mesmo:

- Muito bem. Gostei.

Quando Muriel e eu chegamos ao nosso pequenino jardim e nos sentamos, aquelas palavras voltaram-me à mente. Foi, então, que eu entendi; o Senhor havia me falado por meio de um velho andarilho.

- Eras Tu que sussurravas no meu espírito: “Muito bem, gostei!” – eu disse em voz alta. – Eu posso estar sentado no banco de reservas, mas se estás gostando e dizes que é bom, é isso o que importa...

Acho que minha vida é mais feliz do que a vida de 95% das pessoas que vivem no planeta Terra.


 

O LANCE DECISIVO

Robert Strand

Histórias Para o Coração 2 132

 

 

O abastado barão inglês Fitzgerald tinha apenas um filho, que, evidentemente, era seu maior tesouro, o centro de suas afeições, o foco da atenção de sua pequena família.

O filho cresceu, mas, quando ele estava entrando na adolescência, sua mãe morreu, deixando pai e filho sozinhos. Fitzgerald sofreu muito a perda da esposa, mas dedicou sua vida para cuidar do filho. Com o passar do tempo, o filho contraiu uma doença grave e morreu antes de completar 20 anos. Nesse meio-tempo, a fortuna de Fitzgerald aumentou sensivelmente. Ele havia usado grande parte de sua fortuna na compra de obras de arte dos grandes "mestres" da pintura.

Após alguns anos, Fitzgerald adoeceu e morreu. Um pouco antes de sua morte, ele preparou cuidadosamente um testamento, incluindo instruções explícitas sobre a distribuição de seus bens. Toda a sua coleção de quadros deveria ser vendida em leilão. Em razão da quantidade e qualidade daquelas obras de arte, avaliadas em milhões de libras esterlinas, o leilão atraiu uma multidão de possíveis compradores, todos demonstrando grande interesse. Entre eles, havia vários curadores de museus e colecionadores particulares, ávidos por dar seus lances.

Os quadros foram expostos para visitação antes do início do leilão.

No meio deles, houve um que recebeu pouca atenção. Além de ser de qualidade inferior, foi pintado por um artista da cidade, desconhecido pelo público. Era o retrato do único filho de Fitzgerald.

Quando chegou o início do leilão, o leiloeiro pediu a atenção dos presentes. Antes que os lances fossem feitos, o advogado leu o testamento de Fitzgerald, onde havia instruções que diziam que o primeiro quadro a ser leiloado deveria ser o de "meu amado filho".

Por ser de qualidade inferior, o quadro não recebeu nenhum lance... ou melhor, recebeu apenas um! O único a dar o lance foi um velho criado da casa que conheceu o filho e o amava muito. O lance foi dado por motivos sentimentais. Ele comprou o quadro por menos de uma libra esterlina.

O leiloeiro interrompeu o leilão e pediu ao advogado que continuasse a leitura do testamento. Diante do fato inusitado, o público silenciou. O advogado leu estas palavras diretamente do testamento de Fitzgerald: "Quem comprar o quadro de meu filho ficará com minha coleção inteira. O leilão está encerrado!


 

O MELHOR QUE EU TENHO

Robert Fulghum

Histórias Para o Coração 2 134

 

 

De tempo em tempo, a caixa que contém aquelas bugigangas, os tesouros pessoais que sobreviveram a tantas "limpezas" e tentativas de ser jogados no lixo, atrai a minha atenção. Um ladrão que a examinasse não levaria nada - não receberia um centavo por nada daquilo. Mas, se um dia a casa pegar fogo, a caixa irá comigo quando eu sair correndo.

Um dos objetos da caixa é um pequeno saco de papel. Uma espécie de lancheira. Embora a boca do saco esteja fechada com fita adesiva, grampos e vários clipes, há um rasgo em um dos lados através do qual é possível ver o seu conteúdo. Esse saco de papel está sob meus cuidados há uns 14 anos, mas pertence à minha filha, Molly. Assim que chegava da escola, quando ela era criança, começava a empacotar os lanches do dia seguinte. Certa manhã, Molly entregou-me dois sacos de papel, no momento em que eu me aprontava para sair de casa. Um continha o lanche. O outro estava fechado com fita adesiva, grampos e clipes.

- Por que dois?

- O outro tem uma coisa especial.

- O que é?

- Algumas coisinhas para você levar para o trabalho.

Ao meio-dia, enquanto eu abria apressadamente o meu lanche verdadeiro, rasguei o outro saco que Molly me dera e despejei o conteúdo na mesa. Elásticos para prender cabelo, três pedrinhas, um dinossauro de plástico, um toco de lápis, uma conchinha, dois biscoitos em formato de animais, uma bolinha de gude, um batom usado, uma bonequinha, duas barras de chocolate e algumas moedinhas totalizando 13 centavos.

Eu sorri. Que graça! Levantei-me preparado para enfrentar os assuntos importantes da tarde e limpei a mesa, jogando tudo no cesto de lixo - as sobras do lanche, as coisinhas de Molly, tudo. Não havia nada ali que me pudesse ser útil.

Naquela noite, Molly aproximou-se de mim enquanto eu lia o jornal.

- Onde está o saco?

- Que saco?

- Você sabe. Aquele que dei para você hoje cedo.

- Ficou no escritório. Por quê?

- Esqueci de colocar um bilhetinho dentro - ela disse, entregando-o a mim. - Quero tudo de volta.

- Por quê?

- São coisinhas minhas, papai, coisinhas de que gosto muito. Achei que você gostaria de brincar com elas; mas agora quero tudo de volta. Você não perdeu aquele saco, não é mesmo, papai? - Lágrimas começaram a brotar nos olhos dela. - Traga de volta amanhã, está bem?

- Claro... não se preocupe.

Quando ela me abraçou, aliviada, eu abri bilhetinho, onde se lia:

"Eu amo você, papai."  E agora?

Molly me dera seus tesouros. Tudo o que aquela menina de sete anos mais prezava. Amor dentro de um saco de papel E eu não tinha entendido. Além de não entender, atirei tudo no lixo porque "não havia nada ali que me pudesse ser útil".

A viagem de volta ao escritório foi longa. Mas não havia outra coisa a ser feita. Cheguei antes da faxineira, peguei o cesto de lixo e derrubei o conteúdo em minha mesa... e encontrei os tesouros.

Depois de lavar o dinossauro coberto de mostarda e limpar os outros objetos com o desinfetante bucal que eu usava para eliminar o hálito com cheiro de cebola, alisei cuidadosamente o saco de papel, amassado em formato de bola, coloquei os tesouros dentro e retornei apressado para casa, como um gatinho machucado. Na manhã seguinte, devolvi o saco a Molly. Não houve perguntas nem explicações. Depois do jantar, pedi a ela que me falasse sobre o que havia dentro do saco. Foi uma conversa longa. Cada coisinha daquelas tinha uma história, uma lembrança ou estava ligada a sonhos e amigos imaginários.

Para minha surpresa, Molly devolveu-me o saco mais uma vez, alguns dias depois. Era o mesmo saco rasgado, contendo as mesmas coisas. Eu me senti perdoado. E digno de confiança. E amado. Nos meses seguintes, passei a levar os tesouros comigo de tempos em tempos. Eu mesmo não sabia por que não os levava diariamente.

Comecei a pensar neles como se fossem um prêmio para mim, e tentava ser bondoso na noite anterior para merecer levá-Ios comigo na manhã seguinte.

Com o passar do tempo, Molly dirigiu sua atenção para outras coisas... encontrou outros tesouros... perdeu interesse pela brincadeira... cresceu. E eu? Eu fui incumbido de guardar o saco de papel. Ela o colocou em minhas mãos um dia e nunca mais me pedi~ que o devolvesse. Eu o guardo até hoje.

Às vezes, penso em todas aquelas ocasiões agradáveis da vida em que não entendi o carinho que me era oferecido. Um amigo compara essa situação a "estar com a água na altura dos joelhos e morrer de sede". O saco de papel rasgado está lá, dentro da caixa. Lembrança de um tempo em que uma criança disse:

- Aqui está tudo o que tenho de melhor. Pode levar, é seu. Tudo o que é meu, dou a você.

Eu não entendi na primeira vez. Mas agora aqueles tesouros me pertencem.


 

ELE É LOUCAMENTE APAIXONADO POR VOCÊ

MAX LUCADO

Histórias Para o Coração 2 137

 

 

Se Deus tivesse uma geladeira, sua fotografia estaria grudada ali.

Se Ele tivesse uma carteira, guardaria sua fotografia dentro dela.

Ele lhe manda flores toda primavera e o brilho do sol todas as manhãs.

Sempre que você tem vontade de falar, Ele ouve.

Ele pode morar em qualquer lugar do universo, mas escolheu o seu coração.

Que tal aquele presente de Natal que Ele lhe deu em Belém?

E aquela sexta-feira no Calvário?

Acredite, Ele é Loucamente apaixonado por você.


 

COOOMPRAAAR!

Gary Smalley

Histórias Para o Coração 2 138

 

 

Depois de uma discussão com minha esposa, que terminou em lágrimas, assumi o compromisso sincero de entendê-la e ter um bom relacionamento com ela. Mas não sabia por onde começar.

De repente, tive uma ideia que, no meu entender, me indicaria para receber o prêmio de Marido do Ano. Eu poderia partir em uma aventura com Norma - fazer compras, por exemplo! Claro! Minha esposa adora fazer compras. Já que eu nunca me havia oferecido para acompanhá-la, esta seria uma boa oportunidade de demonstrar todo o meu carinho. Eu poderia contratar uma babá para ficar com as crianças e levar minha esposa a um de seus lugares preferidos: um shopping-center!

Não sei ao certo quais são as mudanças emocionais e psicológicas que ocorrem dentro de minha esposa quando ela ouve a palavra shopping, mas, quando lhe revelei a minha ideia, notei que algo dramático começou a acontecer. Seus olhos se iluminaram como uma árvore de Natal, e ela vibrou de euforia - a mesma reação que tive quando alguém me deu dois ingressos para assistir a uma partida decisiva da NFL (Liga Nacional de Futebol).

Na tarde do sábado seguinte, quando Norma e eu fomos juntos ao shopping, eu me deparei, pela primeira vez, com a barreira que separa os homens das mulheres quando se trata de uma boa comunicação.

Minha descoberta abriu as portas para que eu entendesse e me relacionasse melhor com Norma... Aqui está o que aconteceu: Assim que chegamos de carro ao shopping, Norma me disse que estava precisando de uma blusa nova. Depois de estacionarmos e nos dirigirmos à primeira loja de roupas, ela escolheu uma blusa e perguntou:

- O que você acha?

- Está linda! - eu disse. - Vamos levá-Ia.

Mas, na verdade, eu estava pensando: Ótimo! Se ela comprar essa blusa, vamos voltar para casa a tempo de eu assistir ao jogo da faculdade pela TV.

Ela, porém, pegou outra blusa e disse:

- E o que você acha desta?

- É linda também! Leve essa. Ou melhor, leve as duas!

Depois que ela examinou várias blusas, saímos da loja de mãos vazias. Entramos em outra loja, e ela fez a mesma coisa. Entramos em outra. E em outra. E em mais outra!

O entra-e-sai das lojas foi-me deixando cada vez mais ansioso.

Cheguei a pensar que não perderia apenas os melhores momentos do primeiro tempo do jogo. Perderia o jogo inteiro!

Após ela ter examinado uma centena de blusas, eu já tinha certeza de que sairia perdendo. Naquele ritmo, eu perderia todos os outros jogos! E foi o que aconteceu.

Em vez de pegar uma blusa na loja seguinte, ela pegou um vestido que servia para nossa filha.

- O que você acha deste vestido para Kari? - ela perguntou.

Sobrecarregada além dos limites de qualquer mortal, minha paciência se esgotou e eu explodi:

- O que você quer dizer com "O que você acha deste vestido para Kari"? Estamos aqui para comprar blusas para você, e não vestidos para Kari!

Como se isso não bastasse, saímos daquela loja sem comprar nada, e ela me perguntou se podíamos tomar um café! Fazia 67 minutos que estávamos no shopping, o que extrapolava meu recorde de saturação de meio hora. Eu não podia acreditar - ela ainda teve paciência para sentar-se e conversar comigo sobre a vida de nossos filhos!

Naquela noite, comecei a compreender a diferença mais comum entre os homens e as mulheres. Eu não estava comprando blusas... Eu estava caçando blusas! Eu queria escolher a blusa, mandar empacotá-Ia e voltar para casa, onde havia coisas importantes para fazer, como, por exemplo, assistir ao jogo de futebol de sábado à tarde!

Minha esposa, contudo, encarava a ida ao shopping por um ângulo oposto. Para ela, o significado era mais amplo do que simplesmente comprar uma blusa. Era um jeito de passar o tempo conversando comigo, longe das crianças e dos jogos de futebol de sábado à tarde.

Assim como a maioria dos homens, eu concluí que a ida ao shopping significava mais do que uma simples compra. Para minha esposa, significava cooompraaar!


 

ACONTECEU NO METRÔ DO BROOKLYN

Paul Deutshman

Histórias Para o Coração 2 142

 

 

O vagão estava cheio e parecia não haver nenhum assento vago.

Mas, assim que entrei, um homem sentado perto da porta levantou-se para descer, e eu ocupei seu lugar.

Moro em Nova York há um bom tempo para saber que não devo puxar conversa com estranhos. Porém, por ser fotógrafo, tenho o hábito de analisar o rosto das pessoas. E os traços 6sionômicos do passageiro à minha esquerda me chamaram a atenção. Ele devia ter perto de 40 anos e, quando levantou a cabeça, notei uma expressão de sofrimento em seus olhos. Ele estava lendo um jornal em húngaro, e me senti induzido a perguntar naquele idioma:

- Você se importaria se eu desse uma olhada em seu jornal?

O homem pareceu surpreso ao ver alguém se dirigir a ele em seu idioma e respondeu educadamente:

- Pode ler o jornal agora. Depois eu leio.

Durante a meia hora de viagem até o centro da cidade, tivemos uma boa conversa. Ele disse que se chamava Bela Paskin. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, ele era estudante de Direito.

Foi forçado a trabalhar no exército alemão e enviado para a Ucrânia.

Posteriormente, foi preso pelos russos e obrigado a enterrar os mortos alemães. Depois da guerra, ele percorreu centenas de quilômetros a pé até chegar a seu lar, em Debrecen, uma cidade grande localizada no leste da Hungria.

Eu conhecia Debrecen muito bem, e conversamos sobre a cidade por alguns instantes. Depois, ele me contou o resto de sua história.

Quando chegou ao apartamento que era ocupado por seus pais e irmãos, ele encontrou pessoas estranhas morando ali. Subiu a escada que dava acesso ao apartamento em que ele vivia com a esposa.

Também estava ocupado por estranhos. Ninguém ouvira falar de sua família.

Quando ele estava saindo, com o semblante carregado de tristeza, um menino gritou de longe:

- Paskin baesi! Paskin baesi! - cujo significado é "tio Paskin".

O menino era filho de um de seus antigos vizinhos. Ele foi até a casa do menino para conversar com seus pais.

- Sua família inteira está morta - disseram. - Os nazistas os levaram para Auschwitz, inclusive sua esposa.

Auschwitz era um dos mais terríveis campos de concentração nazista. Paskin perdeu todas as esperanças. Dias depois, abalado demais para continuar na Hungria, ele empreendeu nova viagem a pé, atravessando fronteiras e mais fronteiras, na calada da noite, até chegar a Paris. Conseguiu emigrar para os Estados Unidos em outubro de 1947, três meses antes de eu conhecê-Io.

Durante todo o tempo em que conversamos, achei que sua história me era familiar. Uma jovem que eu conhecera recentemente na casa de amigos também era de Debrecen; ela também havia sido enviada a Auschwitz e, de lá, foi transferida para trabalhar em uma fábrica alemã de armas. Seus parentes tinham sido mortos na câmara de gás. Posteriormente, ela foi libertada pelos norte-americanos e trazida para cá, em 1946, no primeiro navio de carga de refugiados.

A história dessa moça comoveu-me a tal ponto que anotei seu endereço e número de telefone, na intenção de convidá-la para conhecer minha família e ajudá-la a preencher o terrível vazio de sua vida.

Parecia impossível haver alguma ligação entre aquelas duas pessoas.... Mas, quando se aproximava a estação em que eu deveria descer, procurei ansiosamente por meu livro de endereços. Perguntei àquele homem, em um tom de voz que eu esperava fosse casual:

- O nome de sua esposa era Marya?

Ele empalideceu. - Sim! Como você sabe?

O homem parecia prestes a desmaiar.

- Vamos descer - eu disse.

Segurei-o pelo braço. Descemos na estação seguinte, e eu o conduzi a um telefone público. Ele parecia estar em transe quando disquei o número do telefone dela.

Marya Paskin demorou muito para atender. Fiquei sabendo, depois, que seu quarto ficava perto do telefone, mas ela não costumava atendê-lo, porque tinha poucos amigos e as ligações eram sempre para outra pessoa. Desta vez, contudo, não havia ninguém em casa.

Depois de deixar o telefone tocar várias vezes, ela atendeu.

Quando ouvi sua voz, eu me identifiquei e pedi-lhe que descrevesse seu marido. Marya demonstrou surpresa diante do pedido, mas o descreveu. Em seguida, perguntei onde ela morou em Debrecen, e ela me disse qual era o seu endereço ali.

Pedi-lhe que aguardasse na linha. Virei-me para Paskin e disse:

- Você e sua esposa moraram na rua tal, número tal?

- Sim! - ele exclamou. Seu rosto estava branco como um lençol, e ele tremia.

- Procure manter a calma - eu insisti. - Um milagre está prestes a acontecer. Pegue o telefone e converse com sua esposa!

Ele movimentou a cabeça afirmativamente, como se estivesse atordoado, com os olhos lacrimejantes. Pegou o telefone, ouviu a voz da esposa e gritou:

- É Bela quem está falando! É Bela! - ele repetia histericamente.

Ao ver que o pobre coitado estava tão eufórico a ponto de não poder falar com coerência, peguei o telefone de suas mãos trêmulas.

- Não saia daí - eu disse a Marya, que também parecia à beira do histerismo. - Vou levar seu marido até você. Chegaremos daqui a alguns minutos.

Bela estava chorando como um bebê e dizia sem parar:

- É minha esposa! Quero ver minha esposa!

A princípio, pensei em acompanhar Paskin, porque ele poderia desmaiar de emoção. Mas concluí que aquele era um momento no qual não deveria haver a presença de um intruso. Coloquei Paskin em um táxi, forneci o endereço de Marya ao motorista, paguei a corrida e despedi-me dele.

O encontro de Bela Paskin com a esposa foi tão comovente, tão cheio de emoções liberadas, que, tempos depois, nem ele nem Marya conseguiam recordá-Io com precisão.

- Eu só me lembro do momento em que me afastei do telefone, caminhei até o espelho, como se estivesse sonhando, para ver se meu cabelo havia embranquecido - ela disse posteriormente. - Só sei que, logo em seguida, um táxi parou em frente à minha casa e meu marido veio ao meu encontro. Não me lembro dos detalhes. É só isto que sei... que voltei a ser feliz depois de tantos anos...

- Até hoje - ela prosseguiu -, é difícil acreditar no que aconteceu.

Nós sofremos demais; ainda sinto muito medo. Cada vez que meu marido sai de casa, eu digo a mim mesma: "Será que alguma coisa vai tirá-lo de mim outra vez?" O marido dela está confiante de que nenhum mal terrível recairá sobre eles.

- A Providência nos uniu novamente - ele diz com simplicidade. - Tinha de ser assim.


 

OS AVÓS SÃO ENCANTADORES

Ema Bombeck

Histórias Para o Coração 2 146

 

 

Uma criança em idade pré-escolar, que mora em minha rua, estava curiosa a respeito dos avós. Ocorreu-me que, para uma criança, os avós são pessoas que apareceram sem nenhuma explicação, não têm deveres a cumprir e possuem poucas referências.

Eles parecem viver de acordo com o movimento da brisa.

Estas palavras, então, são destinadas aos pequeninos, que gostariam de saber o que significa ser um avô ou uma avó.

Os avós sempre estão dispostos a comprar doces para vocês, sementes de flores, cartões de felicitações de todos os tipos, fita adesiva transparente, espátulas, amendoim torrado e dez bilhetes para ganhar um pônei. (Também uma caixa de bala puxa-puxa, se eles usarem dentaduras.) Os avós ajudam você a lavar a louça quando é a sua vez de arrumar a cozinha.

Os avós são as únicas babás que não cobram hora extra depois da meia-noite - e não cobram nada antes da meia-noite.

Os avós compram presentes que sua mãe diz que você não precisa.

Os avós chegam três horas antes do seu batismo, da sua formatura ou do seu casamento; isso porque querem se sentar num lugar de onde possam ver tudo o que vai acontecer.

Os avós amam você desde quando você era um bebê careca, até ser um pai careca, e durante todo o tempo em que você teve cabelo. Os avós colocam um agasalho em você quando eles estão com frio, dão comida a você quando estão com fome e o levam para a cama quando estão cansados.

Os avós ficam orgulhosos quando você ganha o prêmio de melhor datilógrafa, o mesmo prêmio que outras 80 garotas já ganharam.

Os avós colocam numa moldura o desenho de sua mão, traçado por você, e penduram o quadro na sala de estar, decorada em estilo mediterrâneo, na casa deles.

Os avós lhe dão dinheiro escondido pouco antes do Dia das Mães.

Os avós ajudam você a abotoar as roupas, fechar o zíper e amarrar os sapatos, e dizem para você não ter pressa de crescer.

Quando você era um bebê, seus avós iam verificar se você estava chorando, mesmo quando você estava dormindo profundamente.

Quando uma criança diz: "Por que vocês não tiveram filhos?", os avós lutam para conter as lágrimas.


 

MAIS RICOS OU MAIS POBRES

Rochelle M. Pennington

Histórias Para o Coração 2 148

 

 

As esposas que moravam no Castelo de Weinsberg, na Alemanha, estavam cientes da riqueza que havia ali: ouro, prata, pedras preciosas e riqueza que ninguém podia sequer imaginar.

No ano de 1141 d.C., chegou o dia quando todo aquele tesouro ficou ameaçado. Um exército inimigo cercou o castelo e exigiu a sua posse, a tomada de toda a fortuna e a vida dos homens que ali moravam. Não havia nada a fazer, a não ser entregar-se.

Embora o comandante do exército vitorioso tivesse prometido que as mulheres e as crianças seriam libertas em segurança, as esposas que moravam no Castelo de Weinsberg recusaram-se a sair, a não ser com uma condição: elas exigiram que lhes fosse permitido encher os braços com o maior número de bens que conseguissem carregar.

Sabendo que as mulheres poderiam causar um estrago na imensa fortuna, o pedido delas foi atendido.

Quando os portões do castelo foram abertos, o exército do lado de fora comoveu-se às lágrimas. Cada mulher estava carregando seu marido.

De fato, as esposas que moravam no Castelo de Weinsberg estavam cientes de todas as riquezas que havia dentro dele.


 

CAIXAS SIMPLES DE MADEIRA

Martha Pendergrass Templeton

Histórias Para o Coração 2 149

 

 

Imagino que todos tenham vivido, na infância, um Natal mais marcante do que todos os outros. Para mim, esse Natal especial aconteceu no ano em que a fábrica Burlington, de Scottsboro, fechou as portas. Eu ainda era pequena. Não sei precisar qual foi exatamente o ano; a lembrança é como uma névoa em minha mente, mas os acontecimentos daquele Natal permanecerão para sempre em meu coração.

Meu pai, que havia sido empregado da Burlington, nunca deixou transparecer para nós que estávamos atravessando dificuldades financeiras. Afinal, as crianças vivem em um mundo de inocência, no qual o dinheiro e o emprego não passam de palavras soltas ao vento, e, para nós, a euforia do Natal jamais seria extinta. Só sabíamos que nosso pai, que normalmente trabalhava muito e até tarde da noite, agora estava sempre em casa; cada dia parecia ser um feriado.

Mamãe, uma dona-de-casa, estava procurando trabalho na fábrica de tecidos; mas os empregos eram raros. Depois de muita insistência, disseram-lhe que não havia vagas antes do Natal. Foi no caminho de casa, depois daquela angustiante entrevista, que ela acabou com o nosso único carro. O magro cheque do seguro-desemprego que papai recebia passou a ser a única fonte de renda de nossa família.

Para meus pais, o Natal trouxe montanhas de preocupações, suspiros infindos, lágrimas e muitas orações.

Não posso sequer imaginar o que aconteceu entre meus pais naqueles momentos em que seus pedidos foram atendidos. Talvez eles tenham demorado um pouco até que as ideias se formassem completamente. Talvez tenha sido uma mistura das ideias dos dois.

Não sei bem qual foi a ideia que deu certo, mas ela funcionou.

Juntos, eles economizariam dinheiro suficiente para comprar uma boneca Barbie para cada uma de nós. Para os outros presentes, eles confiariam nos seus próprios talentos, usando sobras de materiais.

Enquanto ainda era noite, mãos calejadas serravam, martelavam e pintavam; dedos ágeis confeccionavam roupinhas e mais roupinhas na máquina de costura: vestidos de noiva e camisolas para as bonecas...

roupas em miniatura para cada ocasião, produzidas sob o ruído da velha máquina de costura. Não faço ideia de onde estávamos enquanto todas aquelas coisas eram feitas. Mas, de alguma forma, meus pais encontravam tempo para trabalhar de corpo e alma em nossos presentes, e a euforia do Natal renasceu para a família inteira.

Na véspera daquele Natal, o sol estava se pondo no horizonte quando ouvi o ronco inesperado de um motor na entrada de nossa casa. Olhei para fora e mal pude acreditar no que via. Tio Buck e tia Charlene, o cunhado e a irmã de mamãe, vieram da Geórgia para fazer uma surpresa a nós. Amontoados no carro, como se não houvesse necessidade de ar para respirar, estavam meus três primos, minha "tia" Dean, que se recusava a ser chamada de "tia", meu avô e minha avó. Também não pude deixar de notar os inúmeros presentes para todos nós, muito bem embrulhados e amarrados com lindos laços. Eles souberam que aquele seria um Natal difícil para nossa família e vieram colaborar.

Na manhã seguinte, encontramos mais presentes do que poderíamos imaginar. E, apesar de não me lembrar exatamente de cada brinquedo, sei que havia uma montanha deles. Brinquedos! Brinquedos!

Brinquedos!

Foi então que, em meio a toda aquela alegria, papai decidiu que não nos entregaria seus presentes. Com tantos brinquedos, não havia motivo para nos dar as casinhas de boneca feitas por ele. Afinal, elas não passavam de caixas rústicas e vermelhas. Certamente, não eram tão bonitas quanto os presentes comprados em lojas, trazidos pela família de mamãe. Os risos encheram a manhã, e não desconfiamos de que nossos presentes estavam escondidos em algum lugar.

Quando mamãe perguntou a papai sobre os presentes, ele lhe disse o que pensava. Ela insistiu que ele nos desse os presentes. E assim, no final daquela tarde, depois que todas as visitas partiram, papai trouxe, com relutância, seus presentes de amor para a sala de estar.

Caixas de madeira. Caixas de madeira, pintadas de vermelho, com dobradiças, para que cada lado pudesse ser aberto e usado como uma casa. De cada lado havia um compartimento com tamanho suficiente para acomodar uma boneca Barbie. Um pequenino cavalete atravessava a caixa, com cabides para pendurar as roupinhas da boneca. Na parte externa, ele colocou uma alça, de modo que, quando a caixa fosse fechada por um ímã parecido com o sinal de igual, a casa pudesse ser carregada como se fosse uma maleta. Embora eu não me recorde de nenhum dos outros presentes que ganhei naquele dia, aquelas coisas ficaram gravadas indelevelmente em minha memória. Eu me lembro da textura da madeira, da exata tonalidade da tinta vermelha, do ímã que fechava a tampa, da alça escurecida pelo tempo e das dobradiças... Eu me lembro de ter pendurado carinhosamente as roupinhas nos cabides e do cuidado que tinha para não enroscar o cabelo da Barbie quando fechava a caixa. Eu me lembro de tudo o que foi possível ser registrado em minha memória, porque guardamos com carinho aquelas caixas, durante muito tempo, mesmo depois que nossas bonecas deixaram de existir.

Já vivi e apreciei muito 29 celebrações natalinas, cada uma delas com a euforia que lhe é peculiar. Cada uma recheada de amor e esperança. Cada uma trazendo presentes com os quais tanto sonhei. Mas poucos presentes se comparam àquelas caixas simples de madeira. Portanto, não é de admirar que meus olhos fiquem úmidos quando penso em meu pai, em pé, naquela manhã fria de Natal, perguntando a si mesmo se seu presente era suficientemente bom.

O amor, papai, é sempre suficientemente bom!


 

PESSOAS INCOMUNS

Jo Ann Larsen

Histórias Para o Coração 2 152

 

 

Larry e Jo Ann eram um casal comum. Moravam em uma casa comum de uma rua comum. Assim como qualquer outro casal comum, eles lutavam para viver de acordo com suas rendas e fazer o que era certo para os filhos.

Eles também eram comuns em outras situações; tinham suas brigas.

A maior parte da conversa entre eles girava em torno do que estava errado no seu casamento e na busca de descobrir de quem era a culpa.

Chegou o dia quando aconteceu uma coisa incomum.

- Jo Ann, você sabia que tenho uma cômoda mágica? Todas as vezes que abro as gavetas, elas estão cheias de meias e cuecas - disse Larry. - Quero agradecer o trabalho que você tem tido durante todos esses anos para mantê-las sempre cheias.

Jo Ann olhou espantada, por cima dos óculos, para o marido, e perguntou:

- O que você está querendo, Larry?

- Nada. Só quero que você saiba que gosto daquela cômoda mágica.

Não era a primeira vez que Larry fazia algo incomum. Então, Jo Ann esqueceu o incidente até alguns dias depois.

- Jo Ann, obrigado por ter corrigido os números dos cheques no livro caixa este mês. Havia 16 números errados e você corrigiu 15.

Isto é um recorde.

Sem acreditar no que ouvia, Jo Ann desviou o olhar dos remendos que estava fazendo.

- Larry, você está sempre reclamando que eu registro errado os números dos cheques. Por que você está me dizendo isto agora? - Por nada. Eu só queria que você soubesse que gostei de seu empenho.

Jo Ann sacudiu a cabeça e voltou a concentrar-se em seus remendos.

- O que houve com ele? – ela resmungou.

Contudo, no dia seguinte, enquanto estava preenchendo um cheque na mercearia, Jo Ann olhou mais uma vez no talão para confirmar se havia anotado o número certo do cheque.

- Por que passei, de repente, a me preocupar com esses números idiotas? - ela perguntou a si mesma.

Jo Ann tentou esquecer o fato, mas o comportamento estranho de Larry intensificou-se.

- Jo Ann, o jantar estava excelente - ele disse uma noite. - Gostei de ver que você está se esforçando. Aposto que nos últimos 15 anos você já preparou 14 mil refeições para mim e para as crianças.

- Que maravilha, Jo Ann! A casa está impecável. Você tem trabalhado muito para deixar tudo tão limpo. Obrigado, Jo Ann, por ser tão autêntica. Eu aprecio sua companhia.

Jo Ann foi ficando cada vez mais preocupada. Onde está o sarcasmo, a crítica? - ela pensava.

- Seus temores de que algo estranho estivesse acontecendo com o marido foram confirmados por Shelly, sua filha de 16 anos, que comentou:

- O papai deve estar meio pirado, mamãe. Ele me disse que eu estava muito bonita. Com toda esta maquiagem e estas roupas esquisitas que eu uso, ele me disse isso. Aquele não é o meu pai, mamãe. O que está havendo com ele?

Fosse o que fosse, Larry não desistiu. Dia após dia, ele continuava a concentrar-se no positivo. Passadas semanas, Jo Ann começou a acostumar-se com a maneira estranha do marido e, vez por outra, resmungava um "obrigada". Ela se orgulhava de ter vencido a situação até o dia em que algo tão peculiar aconteceu que a deixou completamente desnorteada:

- Quero que você descanse um pouco - disse Larry. - Vou lavar a louça. Tire as mãos dessa frigideira e saia da cozinha.

(Uma longa, longa pausa.) - Obrigada, Larry. Muito obrigada!

Agora, os passos de Jo Ann eram mais leves, sua autoconfiança aumentou e, de vez em quando, ela assobiava. Não havia mais momentos de mau humor.

Estou gostando do novo comportamento de Larry, ela pensava.

A história terminaria aqui se não tivesse havido outro acontecimento mais extraordinário ainda. Desta vez foi Jo Ann quem falou:

- Larry - ela disse. - Quero agradecer o trabalho que você tem tido para cuidar de nós durante todos esses anos. Acho que nunca cheguei a dizer quanto eu aprecio tudo isso.

Por mais que Jo Ann tivesse insistido em achar uma resposta, Larry nunca revelou o motivo daquela mudança radical em seu comportamento. Assim, este fato permanecerá como um dos mistérios da vida. Mas trata-se de um mistério que agradeço estar vivendo.

Veja só, Jo Ann sou eu.


 

50 PROMESSAS PARA O CASAMENTO

Steve Stephens

Histórias Para o Coração 2 155

 

 

1. Iniciar cada dia com um beijo.

2. Usar aliança o tempo todo.

3. Jantar fora uma vez por semana.

4. Aceitar as diferenças.

5. Ser cortês.

6. Ser gentil.

7. Oferecer presentes.

8. Sorrir com freqüência.

9. Tocar um no outro.

10. Conversar sobre projetos.

11. Escolher uma canção que seja tia nossa canção".

12. Acariciar as costas um do outro.

13. Rir das mesmas coisas.

14. Enviar um cartão sem nenhum motivo especial.

15. Fazer a vontade dele ou dela.

16. Ouvir com atenção.

17. Incentivar.

18. Agir de acordo com o jeito dele ou dela.

19. Conhecer as necessidades um do outro.

20. Preparar o café da manhã dele ou dela.

21. Trocar elogios duas vezes por dia.

22. Telefonar para ele ou para ela durante o dia.

23. Deixar a pressa de lado.

24. Andar de mãos dadas.

25. Trocar carinhos.

26. Pedir a opinião do outro.

27. Demonstrar respeito.

28. Ser cordial quando o outro chega em casa.

29. Cuidar da aparência.

30. Piscar um para o outro.

31. Celebrar os aniversários com uma grande comemoração.

32. Pedir desculpas.

33. Perdoar.

34. Planejar uma "fuga" romântica.

35. Perguntar: "O que posso fazer para deixar você mais feliz"?

36. Ser uma pessoa positiva.

37. Ser uma pessoa bondosa.

38. Ser vulnerável.

39. Atender rapidamente ao pedido do outro.

40. Conversar sobre o amor entre vocês.

41. Recordar os bons momentos da vida em comum.

42. Tratar os amigos e parentes do outro com cortesia.

43. Enviar flores no Dia dos Namorados e no aniversário de casamento.

44. Admitir os próprios erros.

45. Ser sensível aos desejos sexuais do cônjuge.

46. Orar um pelo outro diariamente.

47. Contemplar o pôr-do-sol ao lado do cônjuge.

48. Dizer, com freqüência: "Eu amo você."

49. Terminar o dia com um abraço.

50. Procurar ajuda fora do lar quando necessário.


 

O TESOURO

Alice Gray

Histórias Para o Coração 2 156

 

 

A garotinha muito esperta, de cabelos loiros e encaracolados, tinha quase cinco anos. Enquanto aguardava com a mãe na fila do caixa, ela avistou um colar de pérolas brancas e reluzentes, dentro de uma caixa comum cor-de-rosa.

- Oh, por favor, mamãe! Posso comprar? Por favor, mamãe, por favor!

A mãe verificou rapidamente o preço marcado na embalagem e virou-se para a garotinha de olhos azuis, que a fitava com grande ansiedade.

- Um dólar e noventa e cinco centavos. Quase dois dólares. Se você quiser realmente essas pérolas, acho que vai ter de fazer alguns trabalhos extras em casa para ganhar dinheiro suficiente para comprá-las você mesma. Ainda falta uma semana para o seu aniversário, e talvez você ganhe uma- nota de um dólar da vovó.

Assim que entrou em casa, Jenny esvaziou seu cofrinho de moedas e contou: 17 centavos. Depois do jantar, ela ajudou nas tarefas da casa um pouco mais que o normal e dirigiu-se à casa da vizinha, a Sra. McJames, para lhe perguntar se poderia arrancar algumas ervas daninhas do jardim, por dez centavos. No dia de seu aniversário, a vovó lhe deu a nota de um dólar, e, finalmente, Jenny ajuntou dinheiro suficiente para comprar o colar.

Jenny gostava demais de pérolas. Elas faziam-na sentir bem vestida e com aparência de adulta. Usava o colar em todos os lugares - na Escola Dominical, no jardim de infância e até para dormir. Só o tirava do pescoço quando nadava ou tomava banho de imersão. Sua mãe lhe disse que, se as pérolas molhassem, poderiam manchar o pescoço de verde.

O pai de Jenny era muito carinhoso. Todas as noites, quando ela ia dormir, ele parava tudo o que estivesse fazendo, ia até o quarto da menina, no andar de cima da casa, e lia uma história para a filha. Uma noite, assim que terminou a história, ele perguntou a Jenny:

- Você me ama?

- Claro, papai. Você sabe que sim.

- Então, me dê as suas pérolas.

- Ah, papai, as minhas pérolas, não. Você pode ficar com a Princesa, aquela égua branca de minha coleção. Aquela que tem a cauda cor-de-rosa. Você sabe qual é, papai? Aquela que você me deu.

Ela é minha favorita.

- Está bem, querida. O papai ama você. Boa-noite - ele disse, dando-lhe um beijo no rosto.

Cerca de uma semana depois, assim que a história terminou, o pai de Jenny perguntou novamente:

- Você me ama?

- Claro, papai. Você sabe que sim.

- Então, me dê as suas pérolas.

- Ah, papai, as minhas pérolas, não. Você pode ficar com a minha boneca. Aquela que ganhei no meu aniversário. Ela é linda, e você pode ficar também com o cobertor amarelo que combina com o pijaminha dela.

- Está certo. Durma bem. Deus a abençoe, pequenina. Papai ama você.

E, como sempre, ele a beijou no rosto.

Algumas noites depois, quando o pai entrou no quarto, Jenny estava sentada na cama, com as pernas cruzadas. Quando se aproximou, ele notou que o queixo da filha tremia, e uma lágrima silenciosa rolava por seu rosto.

- O que foi, Jenny? Qual é o problema?

- Sem dizer nada, Jenny estendeu a mãozinha para o pai. Ao abri-la, lá estava o colar de pérolas. Com a voz embargada, ela conseguiu dizer:

- Aqui estão, papai. São suas.

Com os olhos lacrimejando, o bondoso pai de Jenny pegou a bijuteria barata com uma das mãos e enfiou a outra mão no bolso, de onde tirou um estojo de veludo azul, que continha um colar de pérolas verdadeiras, e o entregou a Jenny. O colar sempre tinha estado em seu bolso. Ele estava apenas aguardando que a filha lhe desse a bijuteria para poder oferecer-lhe o tesouro verdadeiro.

O nosso pai celestial faz o mesmo conosco!

AQUELE CACO DE PORCELANA

Bettie B. Young

 

 

Um dia, quando eu tinha cerca de nove anos, minha mãe precisou viajar até a cidade mais próxima e incumbiu-me de cuidar de meus irmãos e irmãs. Assim que ela se afastou com o carro, corri até seu quarto e abri o armário para bisbilhotar.

Na primeira gaveta, debaixo de algumas roupas macias e cheirosas de adultos, havia uma pequena caixa de joias, feita em madeira. Eu me encantei com aqueles tesouros: um anel de rubi, que minha mãe recebeu de herança de sua tia predileta; brincos de pérola, que pertenceram à minha avó; a aliança de minha mãe, que ela tirava para lidar na fazenda quando ajudava meu pai.

Experimentei todas as peças, povoando minha mente com fantasias maravilhosas, sonhando em ser uma mulher bonita como minha mãe e usar aquelas joias delicadas.

De repente, notei que havia alguma coisa escondida debaixo do veludo vermelho que forrava a tampa da caixa. Levantei o tecido e encontrei um caco de porcelana branca.

Peguei-o sem entender por que motivo minha mãe guardava aquele caco. Apesar de ter um leve brilho sob a luz, ele não me dizia nada.

Alguns meses depois, enquanto eu arrumava a mesa para o jantar, nossa vizinha Marge bateu na porta. Mamãe estava ocupada no fogão e gritou para que ela entrasse. Ao ver a mesa arrumada, Marge disse:

- Ah! vocês estão esperando visitas. Eu volto outra hora.

- Não, entre - disse mamãe. - Não estamos esperando ninguém.

- Mas essa não é a sua melhor porcelana? - Marge perguntou.

- Eu nunca permito que as crianças manuseiem minhas louças finas!

Mamãe riu. - Hoje vou servir o prato preferido de minha família.

Se, quando temos convidados, nós arrumamos uma mesa especial, por que não fazer o mesmo com nossa família?

- Mas essa porcelana é linda demais! - exclamou Marge.

- Ora - disse mamãe -, alguns pratos quebrados não significam nada diante da alegria que sentimos quando os usamos. - Em seguida, ela complementou: - Além disso, cada trinca e cada caco tem uma história para contar.

Mamãe esticou o braço e retirou do armário um prato velho, com os cacos colados.

- Este aqui quebrou no dia em que trouxemos Mark da maternidade - ela explicou. - Que tarde fria e divertida foi aquela!

Judy tinha apenas seis anos, mas queria colaborar. Ela derrubou o prato no chão, quando o levava até a pia. A princípio, fiquei aborrecida, mas, em seguida, disse a mim mesma: "Não vou permitir que um prato quebrado estrague a felicidade que estamos sentindo com a chegada de mais um bebê." Todos nós nos divertimos muito colando os cacos!

Marge parecia que estava duvidando daquilo que ouvia.

Mamãe abriu o armário novamente e retirou outro prato. Ela o segurou e disse:

- Você está vendo esta beirada lascada? Aconteceu quando eu tinha 17 anos.

A voz dela abrandou-se.

- Estávamos no outono. Meus irmãos precisavam recolher o último fardo de feno e contrataram um moço para ajudá-los. Ele era magro, loiro e tinha braços fortes. E aquele sorriso maravilhoso. Meus irmãos gostaram dele e o convidaram para jantar. Quando meu irmão mais velho o fez sentar-se ao meu lado, fiquei tão constrangida que quase desmaiei.

De repente, ao se lembrar de que estava contando a história para sua filha e para uma vizinha, mamãe corou e concluiu, apressadamente:

- Ele me passou este prato e me pediu para servi-lo. Fiquei tão nervosa quando peguei o prato que ele escorregou e bateu na tigela.

- Parece uma lembrança que eu gostaria de esquecer - disse Marge.

- Oh, não - rebateu minha mãe. - Quando estava saindo, o moço aproximou-se de mim, segurou minha mão na dele e colocou dentro dela um caco de porcelana. Não disse uma só palavra. Apenas deu aquele sorriso lindo. Um ano depois, eu me casei com ele. E, até hoje, quando vejo este prato, eu me recordo com carinho do momento em que o conheci.

Ao me ver com os olhos fixos nela, mamãe piscou para mim. Em seguida, colocou cuidadosamente o prato atrás dos outros, num lugar reservado só para ele.

Eu não conseguia esquecer aquele prato lascado. Na primeira oportunidade, subi ao quarto de mamãe e peguei novamente a caixa de joias. Lá estava o caco de porcelana.

Depois de examiná-Io atentamente, corri até o armário da cozinha, subi em uma cadeira e peguei o prato. Conforme eu havia adivinhado, o caco que mamãe guardava com tanto carinho pertencia ao prato que ela quebrou quando conheceu meu pai.

Sabendo da história e respeitando-a, recoloquei cuidadosamente o caco na caixa de joias.

A história de amor que começou com aquele caco está completando 54 anos. Recentemente, uma de minhas irmãs perguntou a mamãe se aquele antigo anel de rubi poderia vir a ser dela um dia. Minha outra irmã gostaria de ficar com os brincos de pérola de vovó.

Quanto a mim, eu gostaria de herdar a joia mais preciosa de mamãe - lembrança de uma extraordinária vida de amor: aquele caco de porcelana.


 

UM TOQUE DE CARINHO

Daphna Renan

 

 

Michael e eu mal notamos quando a garçonete se aproximou e colocou os pratos em nossa mesa. Estávamos sentados em uma pequena lanchonete afastada do burburinho da Rua Três, em Nova York. Nem mesmo o agradável aroma dos blintzes (espécie de panqueca), colocados recentemente sobre a mesa, conseguiu desviar nossa atenção, e continuamos a conversar animadamente. Os blintzes ficaram mergulhados no molho por um bom tempo. Estávamos enlevados demais para pensar em comer.

Nossa conversa era animada e - por que não dizer? - profunda.

Rimos ao comentar o filme a que assistimos na noite anterior e discutimos o significado que havia por trás do texto que escrevemos para nosso seminário sobre literatura. Ele descreveu o momento em que deu um passo drástico rumo à maturidade quando se recusou a continuar sendo chamado de "Mikey" e passou a ser Michael. Teria ele 12 ou 14 anos? Michael não se lembrava. Só sabia que sua mãe começou a chorar e disse que ele estava crescendo rápido demais.

Quando, finalmente, demos uma mordida em nossos blintzes de blueberry (frutinha azul ou preta, de formato redondo), eu lhe contei sobre os blueberries que minha irmã e eu costumávamos colher quando visitávamos nossos primos no campo. Lembrei que quase sempre eu devorava minhas frutinhas antes de voltarmos para casa, e minha tia me advertia que eu poderia ficar com dor de estômago. É claro que isso nunca aconteceu.

Enquanto nossa agradável conversa prosseguia, meu olhar percorreu a lanchonete e parou em uma mesa de canto, onde havia um casal de idosos. O vestido de estampa florida que a mulher usava parecia tão desbotado quanto a almofada sobre a qual ela pousara sua bolsa surrada. O topo da cabeça do homem era tão liso quanto o ovo quente que ele mordiscava lentamente. Ela também comia em ritmo lento e monótono o seu mingau de aveia.

Porém, o que mais me chamou a atenção foi o silêncio aterrador que reinava entre eles. Tive a impressão de que existia um vazio melancólico naquela mesa. Enquanto a conversa entre mim e Michael, passava de risadas a sussurros, de confissões a afirmações, o silêncio comovente daquele casal era digno de nota. Que tristeza, pensei, não ter sobrado mais nada para dizer! Será que eles já haviam virado todas as páginas da história da vida de cada um? E se o mesmo acontecesse conosco?

Michael e eu pagamos a conta e nos levantamos para sair.

Quando passamos pelo canto onde o casal estava sentado, derrubei acidentalmente minha carteira no chão. Ao abaixar-me para pegá-Ia.

notei que, debaixo da mesa, a mão livre de cada um estava segurando carinhosamente a do outro. Eles estavam de mãos dadas o tempo todo!

Endireitei o corpo e recebi uma lição de humildade diante daquele gesto de afeto, simples, porém profundo, que eu acabara de ter o privilégio de presenciar. O carinho com que aquele homem segurava a mão cansada da esposa preencheu não penas o vazio que imaginei haver entre eles, mas o meu coração também. O silêncio entre eles não era do tipo constrangedor que ameaça preencher o vazio que se segue ao final de uma anedota contada no primeiro dia de namoro.

Não, o silêncio deles trazia o conforto, a tranqüilidade e o carinho que não necessitam de palavras para serem expressos. Provavelmente, eles já estavam acostumados a passar essas primeiras horas da manhã juntos, e talvez o dia de hoje não estivesse sendo diferente do dia de ontem. Mas eles se sentiam em paz com isso e em paz um com o outro.

Talvez, pensei enquanto Michael e eu saíamos da lanchonete, fosse até bom que isso acontecesse conosco um dia. Talvez isso fosse encantador!


 

QUANDO OS FILHOS CRESCIDOS VÊM NOS VISITAR

Erma Bombeck

 

 

Nos velhos tempos, eu era o tipo de mãe que fazia os filhos arrumarem seus quartos, prepararem os lanches e colocarem a roupa suja no cesto. Agora, quando eles chegam, deixo essas regras de lado. Pareço uma recepcionista de hotel à espera de uma boa gorjeta. Ando atrás deles o tempo todo perguntando: "Vocês estão com fome? Posso ajudar em alguma coisa? Vocês têm roupa suja para lavar?" Sento-me à mesa quando eles estão com fome. Enquanto cozinho seus pratos preferidos, fico sabendo que eles vão sair com amigos e observo, desanimada, quando os vejo comer meio quilo de pernil assado às 3 horas da tarde.

Quando eles me visitam, minha vida muda. Meu carro desaparece.

Minha máquina de lavar roupa fica ligada no máximo só com um par de meias e uma camiseta dentro dela. O telefone toca o tempo todo, e nunca é para mim.

No final de sua visita, separamos um dia para empacotar o lanche e nos dirigirmos ao aeroporto. Só quando volto para casa é que percebo como minha vida se tornou ordeira. Eu gosto de tranquilidade. O botão do aparelho de TV é resgatado no meio do cesto de roupas sujas e retorna a seu lugar. Os recipientes vazios de leite e suco são retirados da geladeira. As toalhas molhadas são colocadas na máquina de lavar. O banheiro retoma a seus padrões normais.

Meu mundo voltou a ser o mesmo. Então, por que estou chorando?


 

FUGINDO DOS PROBLEMAS

Christopher de Vinck

 

 

Finalmente, eu consegui. As crianças estavam falando alto demais, irritadas, impossíveis. Eu estava cansado e mal humorado. Minha esposa estava cansada e mal-humorada. Resolvi sair de casa e ter um dia só para mim. Queria ser paparicado por mim mesmo. Queria ter um dia em que eu pudesse fazer tudo o que desejasse. Eu ia viver intensamente aquele dia, da maneira que mais me agradasse. Não daria atenção a ninguém, a não ser a mim mesmo.

Saí de casa com 50 dólares no bolso. Que bom! Consegui!, eu disse a mim mesmo, enquanto dirigia meu carro pela auto-estrada rumo ao norte.

Parei num shopping e passei momentos emocionantes dentro de uma livraria, comprando uma coleção de poemas de Walt Whitman.

Depois de dirigir o carro por um bom tempo, parei no McDonald's e pedi dois hambúrgueres, uma porção generosa de batatas fritas "ó para mim e um refrigerante "ó para mim. Comi e bebi "em ser interrompido, sem ter de dar meu picles a alguém, sem ter de limpar a boca, o nariz ou o colo de ninguém. Em seguida, comprei o maior sorvete de chocolate que encontrei.

Eu estava livre. Estava longe de minha cidade. Fui ao cinema e assisti ao filme, sem ter de comprar pipoca, sem ter alguém sentado em meu colo, sem ter de levar alguém ao banheiro. Eu era um homem livre! Estava aproveitando aquela liberdade. E sentindo-me totalmente infeliz.

Quando voltei para casa, todos estavam dormindo. Enquanto eu me deitava em silêncio, minha esposa sussurrou:

- Sentimos sua falta.

- Eu também - respondi.

Nunca mais saí de casa para fugir dos problemas.


 

POR QUE MINHA ESPOSA COMPROU ALGEMAS

Philip Gulley

 

 

Quando eu tinha 23 anos, tomei a melhor decisão de minha vida. Pedi em casamento uma mulher bonita e engenhosa. E ela aceitou, contrariando os conselhos de suas amigas, de sua família e de uma boa parte dos habitantes do mundo ocidental. No dia do nosso casamento, as damas de honra usaram roupa preta.

Por oito anos, eu fui um exemplo de responsabilidade. Trabalhava muito. Enxugava a louça. Abaixava a tampa do vaso sanitário. Logo depois, minha esposa engravidou. Passei a frequentar cursos de gravidez e aprendi a ser solidário. Quando levamos Spencer para casa, eu me levantava à noite com minha esposa para alimentá-Io. E, quando ele regurgitava em mim, eu agia com bom humor.

Três meses depois do parto, Joan voltou a trabalhar fora, em seu emprego de meio expediente. Na manhã do primeiro dia de trabalho, ela me alertou para ficar de olho em nosso filho. Senti-me ofendido e disse a ela:

- Por favor, querida, será que já não provei que sou um pai confiável?

Por isso, penso que foi a desconfiança de minha esposa que me fez esquecer de levar meu filho comigo quando fui à mercearia naquela tarde.

Eu já estava a caminho da mercearia quando olhei ao redor. Ele não se encontrava ali! Corri para casa e o encontrei no berço, olhando-me com ar carrancudo. Eu sabia o que ele diria quando aprendesse a falar. Confessei meu erro a Joan em um jantar à luz de velas, presenteando-a com uma nova pulseira de prata.

Por ser cristã, Joan perdoou-me e deu-me mais uma chance. Na manhã seguinte, após ter-me algemado a Spencer, ela disse:

- Querido! eu confio em você.

Ao refletir sobre esta experiência, aprendi duas lições: A primeira é que ter filhos causa um dano irreparável às áreas do cérebro relacionadas com a memória; e a segunda... ah... qual é mesmo a segunda? Ah, sim, a segunda é: Às vezes, todos nós nos sentimos esquecidos.

Na verdade, aprendi a segunda lição quando era criança. Durante uma viagem de carro, minha família também se esqueceu de mim.

Estávamos de férias - cinco crianças, mamãe e papai - e paramos para comer no Stuckey' s. Eu estava no banheiro quando eles entraram no carro e partiram. Só depois de rodarem mais de 30 quilômetros foi que notaram a falta de um dos filhos. Fizeram uma votação e decidiram voltar para me buscar. A votação quase empatou, mas mamãe mudou de ideia no último minuto.

Às vezes, então, podemos nos sentir esquecidos. O texto mais triste da Bíblia é aquele quando Cristo pergunta a Deus por que Ele o abandonou. Se Cristo sentiu-se desamparado, como é que n6s podemos deixar de nos sentir esquecidos e abandonados?

Alguns estudiosos da Bíblia dizem que não foi isso que Jesus quis dizer, quando clamou na cruz. Eles dizem que Jesus estava citando a primeira frase do Salmo 22, e que repetiu aquelas palavras para confirmar a conclusão vitoriosa daquele salmo. Tenho um grande respeito pelos estudiosos da Bíblia, mas eles estão redondamente enganados a respeito disso. Penso que Jesus se sentiu esquecido. Contudo, o túmulo vazio nos prova que Ele foi lembrado.: O mesmo acontece conosco. E é isso que vou contar a meu filho assim que me lembrar de onde eu o deixei.


 

ATAREFADO DEMAIS

Ron Mehl

 

 

Nunca me esquecerei do dia em que vi, da sala de estar, nosso filho mais novo, Mark, chegando da escola debaixo de chuva.

Mark estava no terceiro ano e recebera permissão para ir de bicicleta à escola, localizada em nosso bairro. Naquele dia, cheguei mais cedo da igreja e estava sentado numa poltrona perto da janela. A chuva caía lá fora, e vi meu filho ao longe, caminhando com dificuldade debaixo d'água. Ele estava com as roupas completamente encharcadas e o cabelo grudado na cabeça. Assim que abri a porta, ele olhou para mim e deu um leve sorriso, com o rosto vermelho por causa do frio.

- Oi, papai! - ele disse. - Você chegou mais cedo.

- Oi, meu filho ! Você está encharcado até os ossos.

- É, eu sei.

- Mark, se você tivesse ido de bicicleta à escola, teria voltado para casa mais depressa. E não teria ficado tão molhado assim.

Ele olhou para mim com ar de timidez, enquanto os pingos da chuva escorriam do cabelo, molhando seu rosto.

- Eu sei, papai.

Fiquei desconcertado e continuei, como que ponderando com Mark:

- Filho, se você sabe, por que não foi de bicicleta?

Ele abaixou a cabeça e, de repente, eu compreendi. Rapaz, eu queria esconder-me debaixo da mesa e ficar ali por um bom tempo.

Ele me havia dito várias vezes que o pneu de sua bicicleta estava furado. Chegou a me pedir:

- Papai, você poderia consertar o pneu para mim?

- Claro, filho - eu havia respondido. - Não se preocupe. Vou cuidar disso imediatamente.

Mas não fiz nada. Esqueci-me completamente.

Enquanto meu filho continuava ali, na entrada da casa, encharcado e tremendo de frio, ele poderia ter dito: "Não fui de bicicleta porque alguém me prometeu que consertaria o pneu, mas não consertou." Ele tinha todo o direito de dizer isso. Mas não disse. Sua resposta permanece gravada indelevelmente no coração do pai dele.

- Ah, papai, eu sei que você é atarefado demais, tem muitas coisas para fazer e não quis aborrecer você mais uma vez.

Filho, eu pensei, seu pai não é atarefado demais, ele é egoísta demais.

Para mim, um pneu de bicicleta não representava nenhum problema importante - era apenas um item a mais em minha longa lista de "coisas para fazer". Mas, para Mark, significava mais do que um meio de transporte. Significava mais do que uma longa caminhada debaixo de chuva. Significava confiar que seu pai atenderia às suas necessidades.


 

QUANDO A LUA NÃO BRILHA

Ruth Senter

 

 

No leste da Pensilvânia, geralmente, há um luar brilhante nas noites claras do mês de maio. Porém, nesta noite a lua não apareceu. O céu está escuro. Observo círculos marrons sob a luz do hall, quando chegamos às 2 horas da manhã de Illinois. Minha mãe vem nos receber. Observo também círculos marrons sob os olhos dela. Marcas que nunca notei. Pele cansada e rugosa.

Mas lá está ela, minha mãe há 40 anos. Percebo um acúmulo de noites mal dormidas, enquanto ela aguardava a chegada dos filhos, como se os anos tivessem lançado sombras da lâmpada em seu rosto.

Vejo o passar dos anos nas veias pretas e azuis que, exatamente nesta semana, foram submetidas ao cateter do cardiologista. Ouço o passar dos anos - da mesma forma que o barulho do mar ressoa numa concha - no diagnóstico médico. "Muita cautela... coração dilatado... diminuir o ritmo..." Arregalo os olhos diante das incertezas. Ao longo da vida, mamãe tem sido uma mulher de pulso firme. O futuro tem sido uma promessa garantida - vários casamentos na família, nascimentos, formaturas, recitais de música, ordenações, Natal, Páscoa, Dia de Ação de Graças. O tempo tem sido um evento, não uma sequência.

Quando olho para mamãe, percebo que alguém deu corda no relógio. Agora, o tempo tem uma cadência. Os anos foram sendo adicionados. A história tem um começo e um fim. Tremo de frio na manhã gelada. Mas os braços de mamãe me envolvem calorosamente, e estou em casa. Uma filha de 40 anos tranquilizando-se diante do toque carinhoso da mãe. Não existe tempo para um toque carinhoso.

Os braços acolhedores não conhecem o passar dos anos.

Ouço o borbulhar da água fervendo na chaleira. Biscoitinhos de lascas de chocolate recém-saídos do forno esperam para ser devorados no prato de louça resistente que, um dia, serviu biscoitinhos preparados na cozinha da vovó Hollinger. Os biscoitinhos de lascas de chocolate feitos por mamãe e o prato de louça da vovó Hollinger transportam-me no tempo. Bebericamos chá de hortelã e rimos de uma história boba contada por papai. Nossas risadas nos fazem esquecer do relógio. Não existe tempo para risadas. Mamãe é a que mais ri. Círculos escuros. Círculos cansados, porém alegres. Seus filhos estão em casa.

Por alguns instantes, eu me esqueço das veias maltratadas pelo cateter e do tique-taque do relógio. Estou presa a coisas que não mudam - uma calorosa recepção matinal feita por minha mãe, biscoitinhos de lascas de chocolate recém-saídos do forno, prato de louça, chá de hortelã, relógio na cornija da lareira e risadas. Estou presa a um Deus que não muda. Sei que o Deus que governa o tempo está acima do tempo. Esta noite, vejo no rosto de minha mãe o estranho paradoxo entre o tempo medido e o tempo que não pode ser medido. Um raro vislumbre das coisas divinas.


 

DIA DOS PAIS: UMA HOMENAGEM

Max Lucado

 

 

Hoje é Dia dos Pais. Um dia para colocar perfume. Um dia de abraços, gravatas novas, telefonemas de longa distância e cartões requintados.

Hoje é o meu primeiro Dia dos Pais sem pai. Durante 31 anos, eu tive pai. Um dos melhores pais. Mas agora ele se foi. Está sepultado debaixo de um antigo carvalho, num cemitério no oeste do Texas.

Apesar de ele ter ido embora, sua presença está muito próxima principalmente hoje.

Parece estranho ele não estar aqui. Acho que é porque ele nunca tinha ido embora. Estava sempre por perto. Sempre disponível.

Sempre presente. Suas palavras não eram nenhuma novidade. Suas realizações, apesar de admiráveis, não eram extraordinárias.

Mas sua presença era.

Assim como uma aconchegante lareira de uma casa espaçosa, ele era um oásis reconfortante. Assim como um resistente balanço para crianças na varanda, ou um olmo frondoso no quintal, ele sempre podia ser encontrado... e tinha sempre um ombro amigo.

Durante os anos turbulentos de minha adolescência, papai foi uma parte previsível de minha vida. Enquanto uma namorada ia e outra vinha, papai estava presente. A paixão pelo futebol transformou-se em paixão pelo beisebol e voltou a ser pelo futebol, e papai sempre estava presente. Férias de verão, datas comemorativas da família, álgebra, primeiro carro, jogos de basquete longe de casa - tudo isso tinha uma coisa em comum: sua presença.

E, por ele estar presente, a vida transcorria calmamente. O carro sempre rodava em ordem, as contas eram pagas, a grama estava sempre aparada. Por ele estar presente, o riso era fácil e o futuro, garantido. Por ele estar presente, meu desenvolvimento foi aquele que Deus planejou para mim; um livro de histórias de leitura rápida através da magia e do mistério do mundo.

Por ele estar presente, nós, as crianças, nunca nos preocupamos com imposto de renda, caderneta de poupança, pagamento das contas do mês ou hipotecas. Estes eram assuntos restritos à escrivaninha de papal.

Temos um grande número de fotografias da família sem ele. Não porque ele estivesse ausente, mas porque estava sempre por trás da câmera.

Ele tomava decisões, apartava brigas, ria de uma boa piada, lia o jornal todas as noites, e preparava o café da manhã nos domingos. Não fazia nada diferente. Fazia apenas o que os pais devem fazer estar presente.

Ele me ensinou a fazer a barba e a orar. Ajudou-me a decorar versículos para a Escola Dominical e me ensinou que as coisas erradas devem ser punidas e as coisas certas têm sua merecida recompensa.

Ele nos deu o exemplo sobre a importância de levantar cedo e se manter afastado de dívidas. Sua vida exemplificou o complicado equilíbrio entre a ambição e a autoaceitação.

Penso nele quase sempre. Quando sinto a fragrância da colônia pós-barba "Old Spice", lembro-me dele. Quando vejo um barco de pesca, vejo seu rosto. E, vez por outra, não sempre, mas vez por outra, quando alguém conta uma boa piada, eu ouço sua risada. Ele tinha uma risada característica, sempre acompanhada de um largo sorriso e de sobrancelhas arqueadas.

Papai nunca me disse nada sobre sexo, nem me contou a história de sua vida. Mas eu tinha certeza de que, se quisesse saber, ele me contaria. Bastaria eu pedir. E eu sabia que, se necessitasse dele, ele estaria presente.

Como uma lareira aconchegante.

Talvez seja por isso que este Dia dos Pais está um pouco frio. O fogo da lareira apagou. Os ventos da idade engoliram a última chama maravilhosa, deixando apenas brasas douradas. Existe, porém, uma coisa estranha naquelas brasas: basta atiçá-las para que a chama volte a brilhar. Seu brilho será rápido, mas ela brilhará. E terá calor suficiente para afastar um pouco o ar frio e me fazer lembrar que ele ainda está... de maneira especial, muito presente.


 

AJUDANTE DE PAPAI

Ron Mehl

 

 

Um menino estava ajudando o pai a transportar alguns livros do sótão para um cômodo mais espaçoso, no pavimento inferior da casa. Era muito importante para o menino ajudar seu pai, embora ele estivesse mais atrapalhando e retardando as coisas do que colaborando. Mas aquele menino tinha um pai sábio e paciente, que sabia que era mais importante contar com a colaboração do filho pequeno do que transportar uma pilha de livros com eficiência.

Mas, entre os livros daquele homem, havia algumas obras de estudo muito volumosas, e o menino teve dificuldade para descer a escada com elas. A bem da verdade, o menino chegou a derrubar a mesma pilha de livros várias vezes. Ele sentou-se na escada e chorou de frustração. Não estava ajudando em nada. Não tinha força suficiente para carregar os livros grandes em uma escada estreita.

Era doloroso para ele pensar que não podia ajudar o pai.

Sem dizer uma só palavra, o pai pegou a pilha de livros do chão, colocou-a nos braços do menino. Em seguida, colocou o menino com os livros nos braços e desceu a escada. E assim eles continuaram a transportar os livros, divertindo-se por estar na companhia um do outro. O menino carregava os livros. O pai carregava o menino.


 

O PRESENTE

George Parler

 

 

Era a nossa vez de abrir os presentes naquela manhã de Natal.

A sala de visitas já estava coberta de papéis dilacerados pelas crianças, ávidas por verem os tesouros escondidos que as atormentaram por quase um mês. Agora, nós, os adultos, estávamos sentados ao redor da sala com os presentes a nossos pés, retirando lentamente os papéis de presente e, ao mesmo tempo, controlando nosso instinto infantil e tentando manter a dignidade diante dos adultos.

Minha esposa, Brenda, e sua família tinham o costume de trocar presentes cômicos. Isto sempre me deixava um tanto embaraçado no Natal ou no meu aniversário, sem saber que tipo de brincadeira me aguardava sob o papel de presente.

Uma de minhas filhas, Christy, com seis anos na época, estava sentada bem à minha frente. A euforia do momento reluzia em seu rosto. Ela se controlava ao máximo para não me ajudar a rasgar o papel de cada presente. Finalmente, chegou a vez de abrir o último.

E, com meu talento natural de Sherlock Holmes, deduzi que aquele deveria ser o presente cômico, porque com a família de minha esposa não havia a pergunta "se"; a pergunta era "quando". Com todos os olhares fixos em mim, decidi ir em frente - só para dar a eles a oportunidade de uma boa gargalhada - e rasguei o papel. E lá estava o presente... um aviãozinho de brinquedo com cerca de cinco centímetros de comprimento. Nossos convidados começaram a rir quando olhei para minha esposa com um sorriso malicioso e disse:

- Um aviãozinho de brinquedo? Faça-me o favor!

Brenda lançou-me aquele olhar - um olhar que sempre me dizia para eu me "mancar." Antes de abrir o presente, não li o nome escrito no cartão colado no papel. Quando peguei o papel do chão e li o nome, meu coração ficou despedaçado. No cartão, estavam escritas as seguintes palavras, com letras de criança: "Para o papai. Com amor, Christy." Nunca me senti tão desprezível como naquele momento.

Uma das experiências mais angustiantes de minha vida foi olhar para aquele rostinho e ver a alegria ser substituída por uma expressão de total constrangimento e humilhação. O medo em seus olhos revelava uma leve esperança de que ninguém descobrisse que o presente que seu pai havia achado tão ridículo foi dado por ela.

Aquela criança encantadora gastara o dinheiro que poderia ter sido usado para comprar objetos pessoais. Mas ela preferiu comprar um presente de Natal para o seu pai. E aquele não era um presente qualquer. Ela me viu brincar no computador com jogos que simulavam voos e deduziu que eu era fascinado por aviões.

Ajoelhei-me rapidamente e a abracei com todas as minhas forças, desejando dar tudo o que eu tinha para retirar aquelas palavras. Fiz uma débil tentativa de explicar que achei que o presente tinha partido da mamãe e, ao perceber que me enganei, as coisas mudaram de figura. Porém, nada do que eu dissesse poderia eliminar a mágoa daquele coraçãozinho. Eu precisava encontrar uma maneira de provar o que estava dizendo.

E provei. Peguei o aviãozinho de brinquedo e comecei a movimentá-lo, imitando o som do motor de um avião. Taxiei com ele na pista - o balcão da cozinha - e acelerei ao máximo para ele levantar voo. Meu objetivo era apagar a tristeza do rosto de minha filha - provocada por mim - e continuar até que o sorriso retornasse.

Brinquei o dia inteiro com o aviãozinho. Dediquei tanta atenção a ele que as outras crianças deixaram seus brinquedos de lado para brincar com meu aviãozinho de cinco centímetros. E, igual a uma criança egoísta, eu dizia:

- Não, este aqui é meu!

Não demorou muito para que o rostinho de Christy voltasse a sorrir. Mas não parei por ali. Q aviãozinho tornou-se um tesouro de grande valor para mim, e continua a ser até hoje, porque eu ainda o guardo comigo.

Guardo aquele aviãozinho principalmente porque ele me foi dado com muito amor por minha filha. Mas ele também me faz lembrar do poder das palavras.


 

UM TEMPO SÓ PARA A MAMÃE

Crystal Kirgis

 

 

Tudo o que eu necessitava naquela manhã era de meia hora sozinha, 30 minutos de paz e tranquilidade para conseguir manter minha sanidade mental. Nada de "mãe, faça isto", "mãe, quero aquilo", "mãe, ele me bateu", "mãe, eu derrubei suco no sofá".

Um tempo só meu, um banho quente de imersão, e nada mais.

Eu não deveria sonhar tão alto.

Depois de despachar os dois mais velhos para a escola, coloquei o mais novo em frente ao Barney e disse:

- Querido, preste muita atenção. Sua mamãe vai ficar louca. Ela está perdendo a cabeça. Está a ponto de ir para o hospício. Tudo isso porque ela tem filhos. Você está me entendendo?

Ele movimentou a cabeça afirmativamente, enquanto cantava:

- Barney é um dinossauro em nossa imaginação...

- Muito bem. Agora, seja um bom menino, fique sentado aqui vendo o Barney, enquanto a mamãe toma um banho quente, tranquilo e em paz. Não quero ser importunada. Quero que você me deixe sozinha. Durante 30 minutos, não quero ver você nem ouvir sua voz.

Entendido?

Outro movimento afirmativo com a cabeça.

- Bom-dia, meninos e meninas... - ouvi a bruxa dizer.

Segui para o banheiro com os dedos cruzados.

Observei a água encher a banheira. Observei o vapor embaçar o espelho e a vidraça. Observei a água ficar azul com os sais de banho.

Entrei na banheira.

Ouvi uma batida na porta.

- Mamãe! Mamãe! Você está aí?

Aprendi há muito tempo que deixar de responder à pergunta de uma criança não a faz desistir.

- Sim, estou aqui. O que você quer?

Houve uma longa pausa, enquanto meu filho tentava decidir o que queria.

- Hã... quero um lanche.

- Você acabou de tomar o café da manhã! Não pode esperar alguns minutos?

- Não, estou morrendo de fome! Preciso comer um lanche agora!

- Está bem. Pegue uma caixa de uvas passas.

Eu ouvi quando ele se dirigiu à cozinha e puxou as cadeiras e os banquinhos, tentando alcançar a prateleira onde estava a caixa de uvas passas. Senti o chão estremecer quando ele saltou do balcão e ouvi quando ele retomou à sala de TV.

- Oi, Susie! Você sabe me dizer qual é a cor da grama...?

Toe, toe, toe.

- Mamãe! Mamãe ! Você está aí?

Um longo suspiro. E, então, respondi:

- Sim, continuo aqui. O que você quer agora?

Uma pausa.

- Hã... também preciso tomar banho.

E ele estava certo.

- Querido, você não pode esperar até eu terminar?

A porta foi entreaberta.

- Não, eu preciso tomar banho agora. Estou sujo.

- Você está sempre sujo! Desde quando passou a se importar com isso?

A porta foi escancarada.

- Eu preciso mesmo tomar banho, mamãe.

- Não, não precisa. Vá embora.

Ele parou no meio do banheiro e começou a tirar o pijama.

- Vou entrar aí e tomar banho também.

- Não! Você não vai tomar banho comigo! Quero tomar banho sozinha. Quero que você vá embora e me deixe em paz!

Eu parecia a criança de três anos com quem argumentava naquele momento.

Ele subiu na beira da banheira, equilibrou-se ali e disse:

- Vou entrar aí com você, está bem, mamãe?

Comecei a gritar:

- Não! Isto não está certo! Quero tomar banho sozinha! Não quero ninguém aqui! Quero ficar sozinha!

Ele pensou por alguns instantes e disse:

- Está bem. Vou ficar sentado aqui e você vai ler um livro para mim. Não vou entrar, mamãe, enquanto você não terminar.

Em seguida, lançou-me um sorriso tão encantador que me nocauteou.

Passei o tempo que eu pretendia dedicar a mim naquela manhã lendo Um Peixe, Dois Peixes para um garotinho nu, de três anos, sentado na beira" da banheira, com as pernas dobradas, o queixo apoiado nos joelhos e um leve sorriso no rosto.

Por que contrariá-lo? Não vai demorar muito para que eu possa passar sozinha todo o tempo que eu quiser. E, então, acho que vou me sentir muito triste por não ter passado mais tempo com meus filhos.


 

LEGADO DE UMA CRIANÇA ADOTIVA

Autor Desconhecido

 

 

Havia duas mulheres que não se conheciam.

De uma, você não se lembra; a outra você chama de Mãe.

Duas vidas diferentes planejadas para fazer você ser gente.

Uma tornou-se sua estrela-guia; a outra tornou-se seu sol. A primeira lhe deu a vida; a segunda o ensinou a vivê-la.

A primeira lhe mostrou a necessidade de ser amado; a segunda lhe deu amor.

Uma lhe deu uma nacionalidade; a outra lhe deu um nome.

Uma lhe deu a semente do talento; a outra lhe deu um objetivo.

Uma lhe deu emoções; a outra acalmou seus temores.

Uma o viu sorrir pela primeira vez; a outra enxugou suas lágrimas.

Uma procurou um lar para você, porque não tinha condições de lhe oferecer esse lar; a outra orou para ter um filho, e sua esperança não lhe foi negada.

E agora você me faz, entre lágrimas, aquela antiga pergunta que tem atravessado os séculos:

Hereditariedade ou ambiente de qual deles você é produto?

De nenhum deles, meu querido - de nenhum.

São dois tipos diferentes de amor.


 

PRESENTE DE AMOR

James Dobson

 

 

Há algum tempo, um amigo meu castigou sua filhinha de três anos porque ela gastou um rolo inteiro de papel dourado, usado para embrulhar presentes. O dinheiro estava curto, e ele ficou furioso quando a menina tentou enfeitar uma caixa para colocar debaixo da árvore de Natal. Na manhã seguinte, a menina entregou um presente ao pai, dizendo:

- É para você, papai.

Ele se arrependeu de ter reagido de maneira intempestiva, mas sua raiva explodiu novamente ao constatar que a caixa estava vazia, e gritou com a filha:

- Você não sabe que quando a gente dá um presente a alguém deve colocar alguma coisa dentro da caixa?

A menina olhou para o pai, com lágrimas nos olhos, e disse:

- Ah! papai, a caixa não está vazia. Eu soprei beijinhos dentro dela.

A caixa está cheia de amor. Beijinhos de amor para você, papai.

O pai sentiu-se desprezível. Passou os braços ao redor da filha e lhe pediu perdão. Meu amigo me contou que guarda aquela caixa ao lado de sua cama há muitos anos. Todas as vezes que se sente desanimado, ele retira um beijinho imaginário da caixa e se lembra do amor que sua filhinha colocou ali dentro.

De uma maneira muito real, nós, os pais, recebemos um pacote dourado repleto de amor incondicional e de beijinhos de nossos filhos.

Este é o maior tesouro que alguém pode ter.


 

O CAMINHO DE UMA MÃE

Temple Bailey

 

 

A jovem mãe estava dando os primeiros passos na estrada da vida.

- O caminho é longo? - ela perguntou.

- Sim - respondeu seu Guia -, e difícil também. Você ficará velha antes de chegar ao fim dele. Mas... - ele parou e sorriu meigamente. O fim será melhor que o começo.

No entanto, a jovem mãe sentia-se feliz, porque não podia acreditar que existisse nada melhor que a fase da juventude da vida. Ela brincava com os filhos, colhia flores com eles ao longo do caminho, e banhava-se com eles nas águas cristalinas dos riachos. O sol lançava seus raios sobre eles, e a vida era boa. A jovem mãe dizia bem alto:

- Nada será mais encantador que estes momentos.

A noite chegou e, com ela, a tempestade, e o caminho ficou escuro.

Os filhos tremiam de medo e de frio, e a mãe os abraçou, cobrindo-os com seu manto.

Os filhos disseram:

- Oh, mamãe, não sentimos medo quando você está perto de nós.

A mãe disse:

- Isto é melhor que a luz do dia, porque eu ensinei meus filhos a ter coragem.

O dia amanheceu; havia uma colina à frente. Os filhos subiram a colina e se cansaram. A mãe também se cansou, mas continuou a incentivar os filhos:

- Um pouco mais de paciência e chegaremos lá.

Então, os filhos continuaram a subir. Quando chegaram ao topo, eles disseram:

- Não teríamos conseguido chegar até aqui sem você, mamãe.

E a mãe, quando se deitou naquela noite, olhou para as estrelas e disse:

- Este dia foi melhor que o último. Meus filhos aprenderam a ter forças diante das dificuldades. Ontem lhes ensinei a ter coragem; hoje lhes ensinei a ter força.

No dia seguinte, nuvens estranhas escureceram a terra - nuvens de guerra, de ódio e de desgraça. Os filhos tatearam no escuro e tropeçaram. A mãe disse:

- Andem de cabeça erguida e olhem para o alto, a fim de que seus olhos vejam a Luz além da escuridão.

Os filhos olharam para o alto e viram a Glória Eterna acima das nuvens estranhas. Ela os guiou através da escuridão e da desgraça.

Naquela noite, a mãe disse:

- Este foi o melhor dia de todos, porque, com minha ajuda, meus filhos aprenderam a ver a Deus.

Os dias foram passando, transformando-se em semanas, meses e anos. A mãe envelheceu, diminuiu de estatura e ficou com o corpo curvado. Seus filhos eram altos e fortes e caminhavam com coragem.

Quando o caminho era difícil de ser percorrido, eles a ajudavam; quando o caminho era áspero, eles a carregavam, porque ela era leve como uma pena. Finalmente, eles chegaram a uma colina e, além da colina, avistaram uma estrada reluzente e um portão de ouro escancarado.

A mãe disse:

- Cheguei ao fim de minha jornada. Agora sei que o fim é realmente melhor que o começo, porque meus filhos podem caminhar sozinhos e ensinarão o que aprenderam aos filhos deles.

Os filhos disseram:

- Você estará sempre caminhando conosco, mamãe, mesmo depois de atravessar o portão.

Eles a viram caminhar sozinha, e o portão fechou-se atrás dela.

Eles disseram:

- Não podemos ver nossa mãe, mas ela ainda está conosco. Uma mãe como a nossa é mais que uma lembrança.

TERNA INTUIÇÃO

Robin Jones Gunn

 

 

Eu o seguro em meus braços, jovem príncipe. Você dorme na doce paz celestial. Apesar disso, eu me pergunto se você ficaria tão calmo se soubesse a verdade: Eu sou sua mãe. E eu não tenho a menor ideia do que estou fazendo. Você é meu primeiro bebê. Meu único filho. Eu já estava me acostumando com a gravidez, e agora você está aqui! E você é tão, tão real!

Eu me preparei para sua chegada durante meses. Tenho lido livros.

Bem, só alguns. Algumas páginas. Ouvi conselhos e mais conselhos de minhas amigas. Elas são experientes, você sabe, porque já têm os seus bebês. Mas você é diferente. Você é o meu bebê. E elas não sabem nada sobre você.

Eu sei. Eu sei como você se mexe e dá pontapés. Já conheço seu cheiro, que é igual ao de um narciso recém-colhido. Sei como você faz beicinho quando está prestes a chorar. Sei que seu cabelinho ralo é a coisa mais macia que já tocou em meu rosto.

Apesar disso, tenho de admitir que ainda existem muitas coisas que eu não sei. No hospital, ensinaram-me como alimentar você.

Ontem, minha mãe me mostrou como dar banho em você. Eu não tenho ideia de como cuidar de erupções na pele causadas pela fralda.

Sinto náuseas quando vejo sangue. Não sei costurar. Não sou boa em finanças. Minhas habilidades matemáticas são abomináveis. E você precisa saber desde já - sinto arrepios ao ouvir alguém ranger os dentes.

No entanto, sei assar biscoitinhos. Sei fazer barracas dentro de casa em dias de chuva. E herdei de meu pai o maravilhoso senso de humor; por isso sei rir e sei fazer você rir.

Vou cantar doces canções para você, à noite. Vou orar por você todos os dias. Vou permitir que você traga para casa qualquer animal que encontrar, desde que você possa alimentá-Ia. Vou chamar todos os seus amigos imaginários pelos primeiros nomes. Vou colocar bilhetinhos de amor em sua lancheira e vou nadar no mar com você, mesmo depois de velha.

Talvez minha melhor qualificação para eu ser sua mãe esteja relacionada ao fato de eu compartilhar este privilégio com o melhor homem do mundo - o seu pai.

Os segredos para ser uma boa mãe não podem ser aprendidos enquanto tomamos café com nossas amigas. As mães não aprendem essa arte nos livros, nem por tentativas e erros. Para mim, essas ternas intuições são as que mais importam. São sabedorias eternas que só a mulher que é mãe conhece - quando ela carrega seu bebê nos braços, como você está agora nos meus. É desta maneira que Deus me ensinará a ser mãe com o coração.


 

RISCOS DESLIZANTES

Heather Harpham Kopp

 

 

Há alguns dias, minha mãe veio me visitar. Quando ela foi embora, você diria que ela estava encharcada. Ela diria que era eu quem estava encharcada.

Tom e eu a levamos à piscina de nossa cidade, onde existe um longo escorregador aquático. Insistimos para que ela tentasse escorregar ali, dizendo que seria divertido e seguro.

Ela hesitou, lembrando-me de que nunca havia saltado sequer de um trampolim.

Eu não me surpreendi. Minha mãe sempre foi uma pessoa tímida, não acostumada a correr riscos. Para ela, risco é passar por uma liquidação sem parar para dar uma olhada.

Mas as filhas sabem muito bem como manipular as mães; e eu não sou exceção à regra.

Antes que ela desistisse, Tom levou-a ao topo do escorregador.

Quando ela empalideceu, instantes antes de iniciar a aventura, Tom tentou tranquilizá-Ia. Ele disse que ela poderia escorregar na velocidade que desejasse. E afirmou que ninguém havia sido jogado para fora de um escorregador aquático, pelo menos naquele, em particular.

Imaginamos que ela deve ter duvidado daquelas palavras. Ela deve ter concluído que a maneira mais segura de escorregar seria de costas e com as pernas esticadas, para não ser ejetada.

Fiquei observando lá de baixo. Minha mãe escorregou tão rápido que quase não a vi. Você precisa entender que ela não é uma mulher pequena. Mede 1,70m e, conforme ela mesma diz, "come de tudo a que tem direito".

Mesmo assim, qualquer um podia ver sua boca escancarada e a expressão de susto em seu rosto. Quando minha mãe despontou no fim do escorregador, seus óculos, que ela escondera cuidadosamente na parte superior do maiô, voaram longe. O escorregador teve de ser fechado para que os salva-vidas pudessem ajudar minha mãe, aflita e quase sem enxergar nada, a encontrar os óculos.

Eu me senti péssima. Mas havia aprendido desde tenra idade que não vale a pena viver sem correr alguns riscos. E, às vezes, as pessoas necessitam de algumas cutucadas. Se forem bem-sucedidas, elas lhe agradecerão. Caso contrário, é melhor você se esconder no meio de uma piscina abarrotada de gente.

Aprendi minha primeira lição sobre correr riscos aos cinco anos de idade. Uma vizinha de nove anos queria que eu jogasse a arma de brinquedo de um menino dentro da caixa de correspondência, que ficava na esquina, do outro lado de nossa casa. Eu não via problema nenhum em fazer aquele trabalho sujo para a menina, mas resolvi dizer que não tinha permissão para atravessar a rua.

- E se eu carregar você? - ela disse, em tom de voz confiante. Assim, ninguém vai poder dizer que você atravessou a rua.

Aquilo me pareceu uma boa ideia.

Peguei a arma de brinquedo do menino e joguei-a dentro da caixa de correspondência. Porém, no caminho de volta, minha cúmplice derrubou-me acidentalmente, e eu bati com a cabeça no asfalto - foi a minha terceira sutura naquele verão.

Este é o problema de correr riscos. Nem sempre devemos nos arriscar; nem todas as cutucadas devem ser levadas a sério. Foi o que minha mãe me disse, naquela ocasião, e também quando ela me encontrou na piscina, escondida na parte reservada às crianças. Geralmente, os riscos que procuramos correr não terminam com um ou dois pontos na cabeça. São tipos de riscos que ferem nosso orgulho.

Como, por exemplo, uma descida pelo escorregador aquático. Ou um romance. Ou admitir uma verdade desprezível sobre nós mesmos. O fato é que existem coisas impossíveis de serem alcançadas sem riscos:

experiência, amor, honestidade, aventura.

Minha mãe devia estar aprendendo a mesma coisa. É a única explicação que tenho a dar. Você acredita que, depois de ter-se recuperado da aventura no escorregador, e depois de ter-me perdoado, ela revelou que gostaria de fazer uma nova tentativa?

- Você está brincando! - eu disse, incrédula.

- Só mais uma vez - ela disse. - Vou escorregar sentada, segurando nas laterais, e descer bem devagar.

É claro que minha mãe perdeu o equilíbrio assim que iniciou a descida e escorregou de costas. Apesar de todos os seus gestos frenéticos, ela não conseguiu sentar-se novamente.

Eu fiquei na parte inferior do escorregador à espera de minha corajosa mãe. E, pela primeira vez em minha vida, pedi a Deus que me fizesse ser mais parecida com ela.


 

FÉRIAS EM FAMÍLIA E OUTRAS

AMEAÇAS AO CASAMENTO

Philip Gulley

 

 

Quando nosso filho, Spencer, tinha seis semanas de idade, eu disse à minha esposa:

- Está na hora de sairmos de férias.

- Não é uma boa ideia - ela me advertiu, concordando depois, por confiar que eu já havia aprendido com os próprios erros.

Dirigimo-nos a um pequeno hotel, distante quatro horas de viagem de nossa casa. Spencer dormiu durante todo o percurso. Eu estava feliz da vida. Fizemos o registro na chegada. Dirigimo-nos ao nosso quarto. Eu estava mais feliz ainda. Os filhos não dão trabalho. As mães é que são alarmistas.

De repente, Spencer acordou.

No Livro do Apocalipse, João escreve sobre as sete pragas da ira divina, que vão desde úlceras no corpo até terremotos. João esqueceu-se de uma: o choro de uma criança.

Spencer não nos deu trégua, nem na hora do jantar. As pessoas mais velhas, com ar de avós, olhavam para nós e sorriam. Antes de meu filho nascer, eu pensava que elas sorriam porque gostavam de crianças. Agora entendo que elas sorriem porque seus filhos já cresceram.

Retomamos ao nosso quarto e fomos dormir. Spencer chorou a noite toda. Na manhã seguinte, no café da manhã, tentamos sair do restaurante sem ele, mas o gerente impediu nossa passagem. Maria e José deixaram Jesus para trás quando saíam de uma cidade. Esse tipo de coisa faz a gente pensar, não é mesmo?

O que aconteceu no caminho de volta para casa só pode ser atribuído à falta de dormir. Na tentativa de salvar nossa primeira viagem de férias em família, segui por uma estrada pitoresca. O governo chama essas estradas de "pitorescas" porque não têm condições de incluir em uma única placa as palavras "estrada sinuosa, que aumenta em três horas a viagem, e faz seu filho sentir náuseas". Nas férias do ano seguinte, depois de esquecida nossa experiência anterior, seguimos rumo a um pequeno hotel distante oito horas de viagem de nossa casa. Spencer não chorou nenhuma vez. Dormiu tranquilo todas as noites. Viajou no assento próprio para bebês, sem reclamar. Não ouvimos nenhum resmungo dele, isto porque existem algodões para a gente colocar nos ouvidos.

Aquelas férias não foram como planejamos, e só posso atribuir a culpa a alguns programas de TV que retratam um perfil errado da vida em família. Eu me lembro de ter assistido a um episódio da série Brady Bunch, no qual a família Brady viaja uma semana inteira sem precisar parar para usar o banheiro. Florence Henderson cantou no trajeto que cortava três Estados, e ninguém a atirou para fora do carro. Quando eu era menino, todas as vezes que saíamos de casa, meu irmão Glenn me dava um safanão por eu ter bafejado no rosto dele.

Prestamos um desserviço a nós mesmos quando esperamos que a vida em família seja uma nova versão da série Brady Bunch. A verdade é que a maioria das nossas famílias tem seus tropeços. E isso não é mau. Caso contrário, como poderíamos cultivar a fina arte do perdão?

Minha esposa perdoou-me depois de nossas primeiras férias. Na ocasião, ela disse:

- Você é assim mesmo. Vem de uma família de várias gerações de homens que não dão ouvidos às esposas.

Estamos economizando dinheiro para as próximas férias. Estamos pensando em férias nas montanhas.

- Lá existem muitos lugares para uma criança se perder - eu disse à minha esposa.

Ela sabe que estou brincando.

Na verdade, agradeço a Deus todos os dias a vida de meus filhos.

Todos os dias, isto é, alguns mais que outros.

 

QUANDO DEUS CRIOU OS PAIS

Erma Bombeck

 

 

Quando o bom Deus estava criando os pais, Ele começou a fazer um homem de estatura alta.

Um anjo, do sexo feminino, que estava por perto disse:

- Que tipo de pai é este? Se o senhor vai fazer crianças com a altura um pouco acima do chão, por que os pais precisam ser tão altos? Ele não vai poder jogar bolinhas de gude sem se ajoelhar, não vai poder colocar uma criança na cama, nem mesmo beijá-Ia sem ter de curvar o corpo.

E Deus sorriu e disse:

- Concordo, mas, se eu o fizer do tamanho de uma criança, quem ela vai ver quando olhar para cima?

E quando Deus fez as mãos do pai, elas eram grandes e vigorosas.

O anjo meneou a cabeça, tristemente, e disse:

- Mãos grandes são desajeitadas. Elas não conseguem prender alfinetes nas fraldas, abotoar botões pequenos, prender elástico nos cabelos nem retirar estrepes de madeira dos bastões de beisebol.

E Deus sorriu e disse:

- Eu sei, mas elas são grandes o suficiente para segurar tudo o que um menino retira do bolso no fim do dia e pequenas o suficiente para segurar e acariciar o rosto de uma criança.

E, depois, Deus modelou pernas longas e esguias e ombros largos.

O anjo quase teve um ataque cardíaco.

- Sei que estamos chegando ao fim da semana - ele disse. - O Senhor percebeu que fez um pai sem colo? Como ele vai segurar uma criança sem que ela caia no vão de suas pernas?

E Deus sorriu e disse:

- A mãe necessita de um colo. O pai necessita de ombros fortes para puxar um trenó, equilibrar um menino na bicicleta ou segurar uma cabeça sonolenta no caminho de volta para casa depois do circo.

Deus estava criando os maiores pés que alguém já havia visto quando o anjo não conseguiu conter-se.

- Não é justo. O Senhor acha, honestamente, que esses dois pés enormes vão conseguir sair rápido da cama quando o bebê chorar?

Ou atravessar um salão de festas de aniversário de uma criança sem esmagar pelo menos três delas?

E Deus sorriu e disse:

- Eles vão ser úteis. Você verá. Vão ter força para sustentar uma criança que deseja brincar de cavalinho, ou esmagar um rato que aparecer na casa de campo de verão, ou, ainda, exibir sapatos que dificilmente encontrariam pés tão grandes para calçá-Ios.

Deus trabalhou a noite inteira, concedendo ao pai poucas palavras, porém uma voz firme e cheia de autoridade, e olhos que enxergavam tudo, mas continuavam calmos e tolerantes.

Finalmente, como se estivesse meditando sobre seu trabalho, Ele acrescentou lágrimas. Em seguida, virou-se para o anjo e disse:

- Agora você está satisfeito ao ver que ele pode amar tanto quanto uma mãe?

O anjo silenciou.


 

ÓTIMA APARÊNCIA

Patsy Clairmont

 

 

Eu me lembro muito bem daquele dia. Foi uma dessas ocasiões em que tudo dá certo. Tomei um banho de chuveiro e arrumei o cabelo. Tudo transcorria do jeito que eu queria, como raramente acontece. Vesti minha malha nova cor-de-rosa, que me deixava com mais cor no rosto, já que eu ia precisar muito disso. Coloquei calça comprida cinza e sapatos de salto alto.

Olhei-me no espelho e pensei: Estou com ótima aparência!

Por ser um dia frio em Michigan, vesti minha capa cinza com enfeites cor-de-rosa nas lapelas. Eu estava colorida da cabeça aos pés.

Quando cheguei ao centro de Brighton, onde eu tinha algumas coisas a fazer, fiquei surpresa ao ver o trânsito congestionado.

Brighton é uma cidade pequena, mas possui uma loja enorme de alimentos. Normalmente, consigo estacionar em frente à loja, mais próximo à entrada.

Havia, porém, tanto movimento na loja que precisei estacionar a dois quarteirões de distância. Mas, quando tomamos a decisão certa, e o dia está maravilhoso, as inconveniências e os bloqueios não se tornam grandes problemas.

Pensei: Vou caminhar despreocupada pela rua para aproveitar o calor do sol. Desci do carro, andei um pouco, atravessei a rua e entrei na loja.

Quando eu estava passando pelos fundos da loja, vi meu reflexo nas portas de vidro do sistema de refrigeração. Confirmei que estava com ótima aparência. Enquanto apreciava minha silhueta no vidro, notei alguma coisa estranha se arrastando atrás de mim. Virei-me para trás e constatei que eram minhas meias de seda!

Lembrei-me de que, na noite anterior, num arroubo de Mulher Maravilha, eu tirara as meias e a calça comprida de uma só vez.

Ao me vestir naquela manhã, coloquei outras meias e a calça comprida por cima delas, sem retirar de dentro as meias que usara no dia anterior.

Creio que elas começaram a escorregar enquanto eu caminhava despreocupada pela rua para aproveitar o calor do sol. Lembrei-me do motorista de caminhão que parou para eu atravessar a rua. Quando olhei para cima, ele estava sorrindo. Pensei: Oh, que bom/ O mundo inteiro está  feliz hoje. Acenei para ele, sem me dar conta do que estava acontecendo.

Eu imaginava que, a esta altura da vida, eu já tivesse adquirido um pouco de maturidade. Mas, honestamente, quando olhei para trás e vi aquela... aquela coisa horrorosa, um único pensamento me veio à mente: eu queria morrer!

Eu sabia que eram minhas meias porque o pé direito estava enrolado em meu tornozelo. E sabia que estava muito bem preso, porque tentei livrar-me dele, fingindo que alguma coisa havia enroscado em meu sapato na rua, mas não consegui.

É difícil compreender como aquelas coisas que compramos dentro de caixinhas achatadas conseguem aumentar tanto de volume depois de serem usadas apenas uma vez. Naquela hora, pareceu-me ter um punhado de meias sobrando e nenhum lugar para escondê-Ias.

As prateleiras estavam lotadas de mercadorias, e minha bolsa era pequena demais. Assim, resolvi colocar as meias no bolso do casaco, que ficou volumoso do lado direito.

Resolvi jamais sair da loja. Eu conhecia os funcionários de todas as lojas da cidade e imaginei que, naquele momento, todos os seus empregados estivessem na janela, aguardando meu desfile de volta até o carro.

Olhei disfarçadamente ao redor e me dei conta de que aquele era o Dia do Idoso. Eles estavam sendo submetidos a um exame da pressão arterial. Decidi, então, entrar na fila para fazer o exame, a fim de continuar ali na loja.

A má notícia foi que ninguém notou que eu não deveria estar naquela fila. A boa notícia foi que minha pressão havia subido.

Geralmente, as enfermeiras medem minha pressão e dizem: "Sinto muito, mas faz dois dias que você morreu." Hoje, eu subi um pouco na escala.

Finalmente, eu me dei conta de que deveria ir embora. Passei sorrateiramente pela porta, caminhei pela rua, entrei no carro e rumei para casa.

Durante todo o trajeto, eu disse comigo mesma:

- NÃO VOU CONTAR A NINGUÉM QUE FIZ ISTO!

Cheguei a minha casa e desci do carro. Meu marido estava recolhendo folhas secas do jardim.

- Você sabe o que eu fiz?! - gritei.

Ele ficou muito orgulhoso quando soube que sua esposa havia atravessado a cidade arrastando as meias. Eu lhe disse que deveríamos nos mudar - para outro Estado - naquela mesma noite. Ele achou que seria uma medida extrema e- sugeriu que, em vez disso, eu passasse a andar três metros atrás dele. Depois de refletirmos um pouco, decidimos que eu andaria três metros na frente de meu marido, para que ele pudesse ver se eu estava em ordem.

Se você já fez alguma coisa que lhe tenha causado um profundo constrangimento, saiba que quanto mais você tentar não pensar no assunto, mais a situação ficará viva em sua memória. Enquanto eu caminhava pela casa, aquela cena me veio à mente várias vezes.

Finalmente, clamei ao Senhor: Tu que do pó criaste a beleza, não podes fazer nada com um par de meias de seda?

 


 

UM VENDEDOR DE RUA

CHAMADO CONTENTAMENTO

Max Lucado

 

 

Ahhh... uma hora de contentamento. Um instante precioso de paz. Alguns minutos de descontração. Todos nós temos momentos em que o contentamento vem nos visitar.

De manhã, bem cedo, quando o café está quente, e enquanto todos da casa dormem.

Tarde da noite, quando você beija os olhos sonolentos de uma criança de seis anos.

Num barco, no lago, quando as lembranças de uma vida bem vivida se tornam nítidas.

Na companhia de uma Bíblia surrada, com orelhas nos cantos das páginas, e até manchadas de lágrimas.

Nos braços do marido ou da esposa.

No jantar de Ação de Graças, ou sentado perto da árvore de Natal.

Uma hora de contentamento. Uma hora em que os prazos são esquecidos e as lutas cessam...

Infelizmente, porém, em nossas agendas apertadas, nas competições e nos olhares vigilantes, momentos como esses são tão comuns quanto macacos de uma perna só. Em nosso mundo, o contentamento é um vendedor ambulante, caminhando a esmo, à procura de uma casa onde possa bater, mas que raramente encontra uma porta aberta.

Esse velho vendedor passa devagar de casa em casa, batendo nas vidraças e nas portas, oferecendo suas mercadorias: uma hora de paz, um sorriso de aceitação, um suspiro de alívio. Suas mercadorias, porém, raramente são compradas. Estamos atarefados demais para ficar contentes...

- Hoje não, obrigado. Tenho muitas coisas para fazer - dizemos.

- Muitas metas para atingir, muitas conquistas para alcançar, muitos dólares para economizar, muitas promoções para conseguir. E, além do mais, se eu ficar contente, alguém poderá pensar que perdi a ambição.

E, assim, o vendedor de rua, chamado Contentamento, segue o seu caminho.

A maior parte de minha lista de tarefas estava por fazer.

Minhas responsabilidades me sobrecarregavam cada vez mais.

Telefonemas para dar. Cartas para escrever. Talões de cheques para conferir.

Porém, uma coisa interessante no meio dessa corrida desenfreada forçou-me a engatar o ponto morto. No momento em que arregacei as mangas, no momento em que o velho motor começou a roncar, no momento em que comecei a ficar de cabeça quente, minha filhinha, Jenna, precisou de ajuda. Ela estava com cólicas. Sua mãe estava no banheiro, portanto o pai dela precisou tirá-Ia do berço.

Ela está com três semanas de vida. A princípio, comecei a fazer as coisas com a mão direita, segurando-a com a outra. Você está rindo.

Já tentou fazer isso também? No momento em que me dei conta de que isso seria impossível, compreendi que não era o que eu estava querendo fazer.

Sentei-me e segurei-a com a barriguinha de encontro ao meu peito.

Ela começou a relaxar. Um grande suspiro escapou de seus pulmões. Seus gemidos transformaram-se em resmungos. Ela foi escorregando em meu peito até sua orelhinha ficar encostada ao meu coração. Foi, então, que seus braços amoleceram e ela adormeceu.

Nesse momento, o vendedor de rua bateu à minha porta.

Adeus, agenda. Até mais tarde, rotina. Voltem amanhã, prazos...

Alô, Contentamento, pode entrar!


 

MORTE E O ALVORECER

Pearl S. Buck

 

 

Não existe lugar para ele ficar, doutor - disse a enfermeira.

- As enfermarias estão lotadas.

- Coloque-o num quarto particular - disse o cirurgião, tirando seu avental branco.

- Os quartos particulares também estão lotados, a não ser aquele com dois leitos, onde se encontra o velho Sr. MacLeod. E ele está tomando oxigênio, sem esperanças de atravessar esta noite. Sua família espera sua morte a qualquer momento.

- Este rapaz não vai perturbá-Io. Só vai acordar amanhã cedo - disse o cirurgião, agora trajando paletó e chapéu. Era meia-noite.

Ele estava cansado e bateu à porta ao sair.

Se é que ele vai acordar, pensou a enfermeira, olhando para o rapaz. Ele era do tipo descuidado, cabelos loiros compridos demais, rosto afilado, corpo esguio, muito magro - o tipo do rapaz que está sempre correndo o risco de ser esmagado em acidentes de carro.

Debaixo das numerosas ataduras brancas, o rosto jovem tinha uma expressão sombria. Ninguém sabia quem ele era. Não havia nenhum documento que informasse sua identidade. O carro era roubado - pelo menos o proprietário ainda não havia sido identificado e, por certo, não era aquele rapaz de 18 anos - que podiam ser 17, talvez 16 -, ninguém sabia ao certo. Ele estava inconsciente quando chegou e sangrando muito. Por sorte, a cidade tinha um hospital - nem todas as cidades pequenas tinham um hospital.

- Levem-no para o 23 - disse a enfermeira aos atendentes.

Eles o levaram na maca, e ela os acompanhou. Aquela hora da noite, o hospital estava mergulhado em silêncio. Não se ouvia nem mesmo o choro de um bebê. Dentro de uma ou duas horas, antes do alvorecer, começariam as chamadas, campainhas tocando, pacientes suspirando e gemendo, um bebê acordando o outro.

O 23 também estava silencioso. Só se ouvia o ruído do oxigênio.

Sob a luz fraca do quarto, a enfermeira viu o Sr. MacLeod deitado ali.

Ela daria uma olhada nele antes de sair.

- Tomem cuidado com a cabeça do rapaz - ela disse aos atendentes.

- Já sabemos - disse o mais velho. - Vimos quando ele chegou.

- Não restou nada do carro - disse o outro.

Eles o deitaram na cama com mãos habilidosas e endireitaram seus braços e pernas.

- Mais alguma coisa, Srta. Martin? - perguntou o mais velho.

- Não, obrigada - ela respondeu.

Eles se afastaram, e ela cobriu o rapaz com um lençol de algodão.

Ele estava respirando, mas não muito bem. Ela mediu a pulsação.

Estava irregular, conforme era de esperar. Nada de sedativos, dissera o médico, depois da última injeção.

O telefone tocou no corredor, e ela foi atender. Uma só enfermeira à noite naquele andar era muito pouco, mas sempre foi assim. Não havia enfermeiras em número suficiente. O Sr. MacLeod deveria ter uma enfermeira só para ele. E, agora, aquele rapaz...

- Alô - ela disse em voz baixa.

- Srta. Martin? - A voz era clara, tranquila e cuidadosa, e ela a reconheceu.

- Sim, Sra. MacLeod.

- Não estou conseguindo dormir. Nenhum de nós está. Será que você poderia verificar se...

- Claro.

Ela pousou o fone na mesa e foi até o quarto. A respiração do rapaz havia melhorado um pouco, mas ela não olhou para ele. O Sr.

MacLeod estava completamente imóvel. Ela ficou em dúvida. Será que aquele homem tão idoso estaria respirando? Ela pegou o pulso dele e não conseguiu encontrá-Io. Correu de volta ao telefone.

- Sra. MacLeod?

-Sim.

- É melhor a senhora vir.

- Já estou de saída.

A enfermeira ligou para o médico de plantão.

- Doutor, chamei a família do Sr. MacLeod.

- Ah!... é o fim, não?

- Acho que sim.

- Estou indo até aí. Apronte a seringa hipodérmica.

- Pois não, doutor.

Ela arrumou a pequena bandeja, colocando as agulhas sobre um pano branco esterilizado. Nada daquilo seria útil, a não ser para fazer o senhor idoso ter tempo de dizer adeus à família. Mas essa era a regra, e somente um médico poderia quebrá-Ia. Ela levou a bandeja até o quarto e colocou-a na mesinha, sem fazer barulho. a senhor idoso continuava na mesma posição. a rapaz também. Mas, agora, o rapaz respirava melhor.

A enfermeira aumentou um pouco o fluxo do oxigênio. Acendeu o abajur de cabeceira e colocou mais duas cadeiras perto da cama.

No dia anterior, quando a Sra. MacLeod foi informada, na sala do médico, de que seu marido não atravessaria a noite, ela ficou tão branca quanto seus cabelos. Em seguida, disse:

- Eu só peço uma coisa: que vocês me chamem quando o fim estiver próximo. Não vou sair de casa.

E estas foram as instruções do médico para a enfermeira:

- Quando você notar que o fim está perto, chame a Sra. MacLeod.

a médico de plantão chegou. Ele era um jovem baixo e robusto, de rosto redondo e bondoso.

- Está tudo pronto, doutor - disse a Srta. Martin.

- Ótimo. Vou verificar.

a plantonista examinou rapidamente o paciente.

- Ele está bem perto do fim. Assim que eles chegarem, vou aplicar a injeção hipodérmica.

- Aqui está - disse a Srta. Martin.

- Isto não vai fazê-lo durar muito mais - prosseguiu o médico. Meia hora... talvez uma hora. Quem é o outro paciente?

- Acidente de carro.

- Hum... há muitos hoje em dia.

- É verdade.

Era uma conversa banal para despistar o assunto da morte - morte do jovem, morte do velho.

- Posso entrar? - perguntou a Sra. MacLeod, em pé na porta.

- Entre - disse o médico. - Vou aplicar uma injeção em seu marido... para reanimá-lo um pouco, a senhora sabe, para vocês poderem conversar.

- Obrigada, doutor.

Ela estava firme. Era uma senhora idosa, baixa, porém forte, com expressão controlada no rosto. Apenas a Srta. Martin notou que suas mãos pequenas e compactas tremiam quando ela tirou o chapéu.

- Sente-se, Sra. MacLeod.

- Estamos todos aqui - ela disse.

- Entrem, entrem. Não vão prejudicá-lo - disse o médico.

Eles entraram: o filho, um rapaz alto, com expressão de angústia no rosto; sua esposa, uma moça loira e esguia, que chorava, cobrindo a boca com um lenço; e a filha, jovem e bonita, de cabelos escuros como os do pai. A Srta. Martin conhecia todos: George, Ruth e Mary. Era uma família unida; qualquer pessoa podia notar. Os filhos optaram pela cirurgia, que foi um sucesso... isto é, prolongou a vida do pai por três meses, naquele quarto apertado.

- O que houve com aquele rapaz? - perguntou George, fazendo um movimento com a cabeça em direção ao outro leito.

- Ele está inconsciente - respondeu a Srta. Martin. - Não há outro lugar para colocá-lo. O hospital está lotado. Esqueça dele.

Ela estava esfregando álcool no braço esquelético do Sr. MacLeod.

O médico espetou a agulha na pele flácida.

- Vocês têm meia hora para ficar com ele, Sra. MacLeod. Vou aguardar do lado de fora.

- Obrigada, doutor - disse a Sra. MacLeod.

Ela esperou até que o médico e a enfermeira saíssem. Com um olhar, chamou os outros para perto de si. George e Ruth sentaram-se à beira da cama. Mary ajoelhou-se ao lado da mãe.

- Estamos todos aqui, Hal - disse a Sra. MacLeod, com voz clara. - George e Ruth jantaram conosco hoje. Comemos cordeiro ensopado, feito da maneira que você gosta. A horta está em franca produção. Colhi algumas cenouras esta tarde para o ensopado. Estava delicioso!

- Comemos torta de limão como sobremesa, pai - disse George. Ruth está aprendendo a fazer tortas com a mamãe. Eu não a forcei a fazer isso, não é mesmo, querida?

- Claro que não - disse Ruth. Ela não chorava mais, porém os lábios continuavam trêmulos.

- Ruth é uma boa cozinheira - prosseguiu George.

- Melhor do que eu era na idade dela - disse a Sra. MacLeod. Você se lembra da primeira torta que fiz, Hal? Queimou por cima e ficou crua por baixo! Era de cereja... a sua favorita. Eu quase chorei.

Mas você riu e disse que não tinha se casado comigo por eu saber fazer tortas.

- A cerejeira vai voltar a dar muitos frutos este ano, papai - disse Mary. Ela apoiou os cotovelos na cama, com os olhos fixos no rosto do pai. - Quando as cerejas amadurecerem, George vai cobrir a árvore com uma rede, como você costuma fazer. Os estorninhos já estão aguardando por elas.

George riu, e acrescentou:

- Aqueles estorninhos, papai! Nunca aprendem. Você se lembra da maneira como eles aparecem todos os anos, pousam em cima da rede, e ficam olhando para as cerejas ? Você disse que quase podia ouvir as pragas lançadas por eles. Bem, este ano vai acontecer o mesmo de sempre.

Mary falou com voz suave:

- Torta de cereja e piqueniques. Para mim, é quando o verão começa.

- Eu também gosto de piqueniques - disse a Sra. MacLeod. Apesar de minha idade, sinto que existe algo especial num piquenique.

Ficamos noivos durante um piquenique da Escola Dominical... seu pai e eu.

- Pai, você se lembra daquele piquenique no dia 4 de julho, no lago Parson's? - Era George quem falava. - Você me ensinou como lançar o anzol e, logo na primeira vez, pesquei uma perca. Gritei, chamando todo mundo para ver.

- Eu adoro o verão - disse Mary, com a voz sonhadora de sempre.

- Mas também gosto quando o outono chega. Você se lembra da nogueira, papai? Eu também gostava da escola; gostava mesmo. Não me olhe desse jeito, George, só porque você não gostava de estudar!

- Parem, vocês dois - disse a Sra. MacLeod, forçando um sorriso.

- Vocês não conseguem deixar de discutir?

No leito ao lado, as pálpebras do rapaz estavam tremendo, mas ninguém notou. Ele próprio não sabia que suas pálpebras tremiam.

Mergulhado nas profundezas de seu cérebro, ele ouvia som de vozes.

- Passamos bons momentos quando éramos crianças - disse Mary.

- Às vezes, eu gostaria de voltar no tempo, mamãe, para estar com você e papai.

- Silêncio - disse a Sra. MacLeod. - Ele está querendo dizer alguma coisa.

Eles se inclinaram para a frente, com as faces mal iluminadas pela luz fraca, olhos fixos no rosto sombrio do idoso. Seus lábios movimentaram-se, ele suspirou, abriu os olhos e olhou para eles, fitando um de cada vez.

- Querido - disse a Sra. MacLeod -, a casa está muito vazia sem você. Depois de lavarmos a louça do jantar, resolvemos vir até aqui.

Ela parou para ouvir. Ele virou a cabeça em sua direção.

- Martha... - A voz era dele, sussurrada e entre cortada.

- Sim, Hal, estou aqui, estamos todos aqui. Nossos filhos também quiseram vir, só para conversar.

Ela fez um movimento com a cabeça para eles.

- O pequeno Hal e Georgie lhe mandaram um beijo, papai - disse Ruth rapidamente. - Eles estão dormindo. Pedi a Lou Baker que tomasse conta deles. Ela é nossa vizinha, uma boa moça. O pequeno Hal disse que, assim que você voltar para casa, quer que veja o triciclo que você pediu que comprássemos para o aniversário dele.

- Ele já está pensando no Natal - disse George. - Ontem, me perguntou se você poderia comprar uma buzina para o triciclo.

- Eu vibro com o Natal! - Era novamente a voz sonhadora de Mary. - Em cada Natal, eu penso em todos os natais que passaram;

todos os de que posso me lembrar... de nossas meias penduradas na lareira. A sua e a de mamãe ficavam nas pontas, papai, e as minhas e as de George, no meio. E as cantigas de Natal à noite... como era encantadora a música que vinha de fora, enquanto eu estava deitada em minha cama quentinha!

Ela cantou em voz baixa: - Quem é esse estranho infante, de tão nobre geração...

No leito ao lado, os olhos do rapaz estavam entreabertos. Ele virou a cabeça, sem enxergar nada; mas, agora, as vozes eram claras. Ouviu alguém cantando.

- Eu... me... lembro... de... tudo - disse o Sr. MacLeod.

- Dia de Natal - disse a Sra. MacLeod, com os olhos tristes fixos no rosto dele. - Sempre foi uma data feliz. Eu nunca quis ter a companhia de outras pessoas no Natal. Bastava estarmos todos juntos. E agora temos o pequeno Hal e Georgie.

- Mary vai se casar qualquer dia destes - disse George. - E nossa família vai aumentar.

- Mas nada vai mudar - disse Mary. - Papai e mamãe estarão conosco sempre. Somos sua família, papai. Mesmo depois de adultos, nada mudou.

- Espero ser um pai tão bom quanto você - disse George.

Agora, o rapaz conseguia enxergar. Seus olhos estavam abertos.

Ele viu o outro leito. Um homem velho, muito velho, estava deitado ali, e havia pessoas ao redor dele.

- Bons filhos - disse o velho, com voz sonolenta. Ele parecia estar meio adormecido.

- Vocês dois sempre sabiam exatamente o que nós queríamos! - A voz de Mary era terna. - Eu me lembro da boneca que ganhei quando tinha nove anos, e do anel que encontrei na árvore quando tinha 15... meu primeiro anel..., Mas como vocês sabiam que eu queria um anel de esmeralda?

- Era uma pedra bem pequena - disse a mãe.

- E tinha um brilhante pequeno de cada lado. Eu o guardo até hoje e ainda gosto muito dele.

- Eu ganhei esquis quando tinha 12 anos - disse George -, mas não sei como você soube que eu os queria, papai, porque eu nunca lhe contei. Eu receava que fossem muito caros. Foi naquele ano que extraí o apêndice.

- O papai sempre presta atenção, principalmente quando o Natal está perto - disse a Sra. MacLeod.

- Mas como você sabia que, na formatura, eu estava mais interessada em ganhar um relógio à prova de choque do que um diploma?

- Ou que eu queria ir à Califórnia?

- Nós... sabíamos - disse o Sr. MacLeod. Sua voz era arrastada.

Suas pálpebras tremiam.

O rapaz, no leito ao lado, virou-se para enxergar melhor as pessoas. Aquele ferimento, aquele ferimento era horrível. Aonde ele estava indo quando colidiu com o caminhão? A lugar nenhum, a lugar nenhum. Ele não podia suportar mais nada. Estava fugindo de ninguém, de nada, de lugar nenhum. Rodando a esmo pelas ruas, porque ninguém se importava com o que ele fazia - não se lembrava de ninguém que lhe tivesse dado atenção. Natal... ele não se lembrava de nenhum.

- A Páscoa vai ser no próximo domingo - estava dizendo a Sra.

MacLeod. - Os narcisos já nasceram, e os lírios da Páscoa estão florescendo. Há seis deles este ano. Acho que até hoje nasceram só três de cada vez, não é mesmo?

O Sr. MacLeod fez um esforço para falar.

- Cinco - ele disse claramente.

- Vejam só! - disse a Sra. MacLeod, com orgulho na voz. - Ele se lembra mais do que eu. É verdade. Em um ano, nasceram cinco.

O rapaz no leito ao lado ouvia com atenção. Páscoa. Ele conhecia a palavra. As pessoas se aprontavam para ir à igreja. Mas para quê?

As pálpebras do Sr. MacLeod se fecharam. A Sra. MacLeod fez um sinal, e George dirigiu-se à porta do quarto.

- Entre, por favor, doutor.

O médico entrou na ponta dos pés e curvou-se sobre o Sr.

MacLeod. Sentiu sua pulsação. Nada. De repente, ele sentiu algumas batidas fracas e sacudiu a cabeça.

O rosto da Sra. MacLeod tornou-se lívido, mas sua voz continuava clara.

- É melhor vocês irem para casa dormir, meus filhos - ela disse. Vocês necessitam dormir... são jovens. Vou ficar mais um pouco com seu pai.

Eles se entreolharam, entendendo. Ruth esforçava-se para não chorar novamente.

- Espere para chorar depois que sair do quarto, querida - George lhe disse.

- Boa-noite, papai - ele disse. - Voltaremos amanhã cedo.

- Amanhã cedo, papai querido - disse. Ela inclinou-se sobre o pai, com o rosto cheio de ternura. - Na manhã reluzente, reluzente - ela finalizou.

Os olhos do pai se abriram, mas ele não disse nada.

Eles partiram; os três filhos. O médico os acompanhou, hesitante.

No leito do outro lado, o rapaz observava o casal de idosos. Meu Deus, eles eram velhos mesmo. O que aconteceria agora? Ele sentiu vontade de chorar, mas não por eles. Sentiu vontade de chorar por si mesmo, porque nunca teve um pai, porque sua mãe morreu quando ele era pequeno, porque nunca teve família. Este era o seu problema - ele não tinha família. Você pode nascer e crescer ao lado de muitas outras crianças num orfanato e pensar que está tudo bem; mas não está. A mulher idosa continuava a conversar com o homem idoso.

- Hal, tudo isto são lembranças... e você e eu temos muito mais coisas para lembrar do que as crianças. Você tem sido um bom marido, Hal. Um bom marido faz a esposa feliz. Não estou falando de prover o sustento da casa. Estou falando de você como homem, Hal.

Você me fez uma mulher feliz, Hal. E, por sermos felizes juntos, nós dois, nossos filhos também são felizes.

Ela fez uma pausa, controlou a voz e prosseguiu:

- Sempre que passo por aquele pequeno bosque, onde você me pediu em casamento, vejo nós dois ali, em pé, você segurando minha mão.

A mão dele estava procurando as dela, e ela a segurou entre as suas.

- Estou aqui. Oh! querido... querido... querido...

Sua voz embargou, e ela mordeu os lábios:

- Oh! Deus, ajuda-me...

De repente, sua voz voltou a ficar forte, e ela prosseguiu:

- Eu sempre vou ver nós dois juntos naquele bosque. Nunca vou passar por lá sem nos ver...

- Martha. - O nome foi proferido com voz muito fraca, mas ela OUVIU.

- Sim, Hal. Estou aqui. Vou ficar aqui.

Ele abriu os olhos de repente, a viu ali e sorriu.

- Uma... vida... boa... - Sua voz silenciou-se, e sua mão amoleceu entre as dela. Suas pálpebras se fecharam.

Agora, qualquer um podia ver que aquele homem estava morrendo.

O rapaz sentiu vontade de chorar. Ele não chorava desde quando era criança, uma vez em que um moço golpeou-o na cabeça. Ele não se importou com isso. Estava acostumado a apanhar, mas não daquele moço. E ele chorou porque gostava de imaginar que o moço era o irmão que ele não teve.

A Sra. MacLeod também estava chorando. Lágrimas rolavam por seu rosto. Depois de alguns instantes, ela recolocou a mão do marido no lugar. Abriu uma sacola, retirou de dentro um livro pequeno com capa de couro e, enquanto as lágrimas rolavam por seu rosto, começou a ler em voz baixa:

- "O Senhor é o meu pastor; nada me faltará..." O rapaz ouviu as palavras. Faziam parte da Bíblia. Ele as ouvira na Escola Dominical do orfanato. Mas elas não significavam nada para ele. Eram apenas palavras. As pessoas diziam palavras que não tinham nenhum significado. Agora, de repente, ele sabia o que elas queriam dizer. Elas davam a entender que o velho não precisava ter medo, mesmo que tivesse de morrer.

- "Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum..." Você não precisa ter medo, era o que a mulher estava dizendo ao marido. Você tem uma família, e nós o amamos. Ela sempre se lembraria daquele bosque e de seus encontros lá - ele e ela, muitos anos atrás, e ele a pediu em casamento, e ela aceitou, e eles se amaram;

e é assim que se forma uma família; e ele e ela tiveram filhos, e George teve filhos... e Mary os teria um dia...

O rapaz estava deitado de costas. Sua cabeça doía, mas não doía muito. Ele não sentia mais vontade de chorar.

- "E habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre" - estava dizendo a Sra. MacLeod.

Ela fechou o livro e permaneceu sentada por um longo tempo.

Em seguida, levantou-se, inclinou-se sobre o marido e o beijou nos lábios.

- Adeus, meu amor - ela disse -, até nos encontrarmos novamente.

Ela se dirigiu à porta. - Agora eu vou para casa, doutor.

O médico entrou no quarto e afirmou:

- Está tudo acabado. A senhora foi muito corajosa, Sra.

MacLeod.

- Não fui corajosa - ela disse. - E não está tudo acabado. A vida que iniciamos juntos continuará... na eternidade.

- Sim, é verdade - disse o médico, sem prestar atenção naquelas palavras.

Ela foi embora. Mas o rapaz entendeu o que ela quis dizer. Ele continuou deitado ali, pensando, olhando para o teto. Ele nunca soube qual era o significado da vida, mas agora ele o encontrara.

Era simplesmente amar alguém de maneira tão intensa a ponto de querer viver junto dessa pessoa e formar uma família. Para ele, não importava mais o fato de nunca ter sido amado ou de nunca ter amado ninguém. Ele poderia constituir uma família só sua.

- Ei, rapaz! - O médico debruçou-se sobre ele. - Há quanto tempo você está acordado?

- Há pouco tempo - respondeu o rapaz. - Talvez meia hora...

Ele deu um sorriso, um grande sorriso, mas o médico estava preocupado. - Não é bom você presenciar tudo isso.

O médico tocou a campainha, e a enfermeira entrou no quarto.

- Coloque um biombo aqui, enfermeira!

- Pois não, doutor.

O biombo foi colocado. Em seguida, chegaram dois homens com uma maca e levaram o idoso embora. O rapaz não disse nada. Ele sabia de tudo. A família estava reunida na casa que lhes pertencia, tomando o café da manhã. George deveria estar consolando a mãe, dizendo que ela ainda tinha os filhos e os netos a seu lado. Mas ela jamais se esqueceria do marido - nunca, nunca. Isso era uma certeza, porque eles se amaram e sempre se amariam.

O coração do rapaz se encheu de paz. Agora, ele sabia por que havia nascido. E não ia morrer... apenas dormir...

Ele despertou muitas horas depois. O quarto estava limpo, o biombo havia sido retirado. O leito ao lado estava vazio e com roupa de cama limpa. Os raios de sol atravessavam a janela. Ele estava sozinho, mas, pela primeira vez na vida, não se sentia sozinho. Não precisaria mais viver sozinho. Poderia ter uma família, agora que sabia como se formava um lar. Teria um emprego, encontraria uma moça, uma boa moça, uma moça encantadora, por que não? Aquela senhora idosa deveria ter sido uma moça encantadora. Ele também podia imaginar o senhor idoso quando era jovem - alto, magro, em pé no bosque, pedindo a moça em casamento. E ela aceitando imediatamente. Ele encontraria uma moça como aquela; alguém que soubesse cozinhar e enfeitar uma árvore de Natal. Um triciclo! Quando era criança, ele queria muito ter um triciclo. Foi a primeira coisa que lhe veio à mente a respeito do orfanato - o triciclo que nunca teve. É necessário ter pais para ganhar coisas como essa. E filhos - é possível ter filhos só nossos. Feliz foi aquele homem, que morreu com todo o conforto, tendo os filhos por perto para vê-lo partir! Ninguém, que teve tantos motivos para viver, se importaria de morrer...

A enfermeira entrou no quarto, trajando uniforme limpo e engomado.

- Que tal um bom desjejum, jovem? - ela perguntou com voz alegre.

O rapaz riu e se espreguiçou.

- Eu me sinto ótimo - disse. - Traga-me uma refeição de verdade, por favor. Estou morrendo de fome!


 

DESENVOLVENDO RAÍZES

Philip Gulley

 

 

Quando eu era criança, tive um vizinho, um senhor idoso, que se chamava Dr. Gibbs. Ele não se parecia com nenhum médico que eu conhecia. Todas as vezes que eu o via, ele estava usando um sobretudo de algodão e um chapéu de palha com aba frontal de plástico verde para proteger os olhos dos raios do sol. Ele sorria muito, um sorriso que combinava com seu chapéu - velho, enrugado e surrado. Nunca gritava conosco quando brincávamos em seu quintal. Eu me lembro dele como uma pessoa muito mais bondosa do que as circunstâncias permitiam.

Quando não estava salvando vidas, o Dr. Gibbs estava plantando árvores. Sua casa localizava-se numa área de 40.000 m2, e seu objetivo de vida era transformar essa área numa floresta. O bom médico tinha algumas teorias interessantes sobre a agricultura. Ele estudara na escola de horticultura, onde "não há lucro sem suor".

Nunca regava suas árvores novas, uma norma incompatível com a sabedoria convencional. Certa vez, eu lhe perguntei por que ele fazia uso dessa regra. Ele disse que regar as plantas causa problemas para elas e, dependendo da maneira como são regadas, as gerações posteriores vão ficando cada vez mais fracas. Assim, é necessário dificultar as coisas para as plantas e arrancar as ervas daninhas das árvores tenras.

Ele dizia que as árvores regadas ficam com as raízes rasas, e as que não são regadas precisam aprofundar suas raízes à procura de umidade. Eu deduzi que as raízes profundas são muito mais preciosas.

Portanto, ele nunca regava as árvores. Plantou um carvalho e, em vez de regá-Io todas as manhãs, ele o golpeava com um jornal dobrado. Pá! Pá! Eu quis saber por que ele fazia aquilo, e ele me disse que era para chamar a atenção da árvore.

O Dr. Gibbs foi morar no céu há dois anos, depois que saí de casa para estudar. De vez em quando, passo por sua casa e olho para as árvores que eu o vi plantar há uns 25 anos. Elas estão fortes como pedras. Grandes e robustas. Aquelas árvores acordam de manhã, batem no peito e erguem um brinde à vida.

Há dois anos, plantei duas árvores. Reguei-as durante todo o verão. Borrifei-as com água. Orei por elas. Dois anos de cuidados resultaram em árvores que esperam receber tudo de graça, sem o mínimo esforço. Sempre que um vento forte sopra, elas tremem e sacodem os galhos. Frágeis árvores!

Muito interessantes aquelas árvores do Dr. Gibbs! A adversidade e a privação pareciam lhes proporcionar muito mais benefícios do que a facilidade e o conforto lhes trariam.

Todas as noites, antes de me deitar, eu passo pelo quarto de meus olhos. Paro perto deles e observo seus pequenos corpos respirando vida. Costumo orar por eles. Quase sempre, peço que a vida deles seja fácil. Senhor, livra-os de problemas. Porém, ultimamente, tenho pensado que é tempo de mudar minha oração.

E isso tem a ver com os ventos frios inevitáveis que açoitam o nosso íntimo. Sei que meus olhos vão encontrar problemas pela frente. E orar para que eles não sofram é ingenuidade de minha parte. Haverá sempre um vento frio soprando em algum lugar.

Portanto, estou modificando minha oração rotineira. Porque a vida é difícil, independentemente de querermos ou não. De agora em diante, vou orar para que as raízes de meus olhos se aprofundem, de modo que eles extraiam força dos recursos ocultos do Deus Eterno.

Muitas vezes, oramos pedindo por facilidade; mas essa é uma oração raramente atendida. O que precisamos fazer é orar para ter raízes que se aprofundem no Deus Eterno, para que as chuvas e os ventos fortes não nos levem de roldão.


 

PERSPECTIVA

Marilyn McAuley

 

 

Uma menina estava visitando sua avó, no campo. Certa noite, elas se sentaram para apreciar as estrelas no céu - que possuíam um brilho que a menina nunca havia visto, já que morava na cidade, onde existem muitas luzes. Ela se encantou com a beleza e disse à avó:

- Se o céu é tão lindo do lado do avesso, como ele deve ser do lado direito?


 

TREM PARA BARCELONA

Jori Senter Stuart

 

 

A primavera chegou, eu tinha 18 anos, e a vida era maravilhosa.

Acabara de completar um semestre escolar, na Alemanha, e iniciaria o segundo período letivo na Inglaterra. Entre um semestre e outro, uma amiga e eu decidimos fazer um pequeno passeio turístico, e programamos uma viagem que cobriria oito países, em 28 dias.

Tínhamos acabado de passar alguns dias sob o sol dourado da pequena cidade de Nice, na Riviera Francesa. Agora, nossos francos estavam no fim - sinal de que era hora de arrumar as malas e prosseguir a viagem. Guardamos nossos parcos pertences em mochilas, e, como se fôssemos dois burros de carga, caminhamos com dificuldade até a estação ferroviária.

Quando chegamos à estação, a massa humana que aguardava os trens já atingia as ruas ao redor. Aparentemente, naquele início de primavera, todos os 50 mil estudantes das faculdades estavam tentando sair de Nice. Durante todo o tempo em que tentávamos abrir caminho até a bilheteria, ouvíamos estas palavras ameaçadoras: "greve de trens".

- Não há trens - confirmou o homem atrás do balcão. - Talvez daqui a um dia. Talvez daqui a uma semana.

Desanimadas, procuramos um lugar na estação para nos acomodarmos. Assim que o encontramos, fizemos uma análise da situação. Tínhamos comida suficiente para atravessar o dia. Água engarrafada, dois sanduíches de manteiga de amendoim e duas laranjas. Nossa reserva financeira consistia exatamente de 12 francos.

De repente, percebemos que estávamos muito longe de casa.

Sete horas depois, a cena quase não havia mudado, exceto que a multidão aumentara, os ânimos estavam mais exaltados, e o vozerio dos turistas frustrados alcançava as ruas. Adolescentes mal-encarados portavam-se inconvenientemente no meio da multidão, à procura de alvos fáceis. Senti-me mais confortada, ao ver um grupo de estudantes norte-americanos sentados perto de nós. Eles estavam entretidos, jogando cartas e escrevendo mensagens em cartões postais para seus familiares.

- Vou dar uma volta para ver se encontro um meio de sairmos deste lugar. - Minha amiga estava demonstrando impaciência. - Tome conta de nossas coisas. Vou dar alguns telefonemas.

Encostei minha jaqueta num pilar e tentei acomodar-me para passar a noite ali. A situação começava a se acalmar na estação.

De repente, ouvi uma voz, vinda de trás do pilar, sussurrando para mim:

- Não diga nada. Só quero seu dinheiro e seu passaporte, nada mais.

O homem saiu de trás do pilar e apareceu diante de mim. Era alto e tinha uma expressão ameaçadora no rosto. A aba do chapéu cobria-lhe os olhos.

- Sinto muito. Não entendo...

Eu esperava que ele se sentisse frustrado e desistisse.

Evidentemente, ele não era homem de desistir facilmente.

- Você sabe o que eu quero, americana. É melhor parar de fazer esse joguinho comigo, antes que eu me zangue de verdade...

Enquanto ele me dizia essas palavras, um rapaz do grupo de estudantes americanos que estava perto de nós agarrou-me pelo braço e começou a me levantar do chão.

- Nosso trem acabou de chegar. Pegue suas coisas e vamos embora antes que alguém tome o nosso lugar.

Uma garota loira, de rabo-de-cavalo, trajando camisa larga e calça jeans, estava carregando a mochila de minha amiga nos ombros e falava comigo o tempo todo.

- Aonde você foi? Procuramos por você o tempo todo... Vamos, temos de correr. Você nos dá licença, por favor? - Ela me puxou, e nós duas passamos pelo pretenso ladrão.

Ele ficou tão surpreso que não disse nada, mas tentou agarrar-me pelo braço. Minha benfeitora foi mais rápida do que ele e me empurrou para o meio da multidão.

Depois de um tempo, que pareceu uma eternidade, depois de tanto empurra-empurra, chegamos a um lugar onde havia menos gente.

Tremendo, coloquei minha mochila ao lado de um banco e me virei para agradecer àquela que acabara de me salvar. Porém, só avistei a mochila vermelha de minha amiga, encostada na parede. A moça loira, de rabo-de-cavalo, havia desaparecido no meio do povo.

De repente, ouvi alguém chamar meu nome.

- Jori! - Minha amiga vinha correndo em minha direção, pela plataforma. - Onde você estava? Por que não ficou perto do pilar?

Sentamo-nos no banco e comecei a lhe contar minha aventura. Fui interrompida pelo aviso vindo do alto-falante:

"Trem para Barcelona encostando na Plataforma 4! Trem para Barcelona encostando na Plataforma 4! " Olhamos para cima e vimos que estávamos na Plataforma 4!

Avistamos o farol da locomotiva rodando pelos trilhos em nossa direção.

Mais tarde, enquanto observávamos, pela janela do trem, as paisagens dos campos franceses, eu disse à minha amiga:

- E pensar que não tive a oportunidade de agradecer àquela moça!

Minha amiga disse simplesmente:

- Acho que ela sabe que você queria lhe agradecer.

Não sei de que forma, mas achei também que ela sabia.


 

CASTELOS DE AREIA

Max Lucado

 

 

Sol a pino. Maresia. Ondas ritmadas. Na praia está um menino.

Ajoelhado, ele cava a areia com uma pá de plástico e a joga dentro de um balde vermelho. Em seguida, vira o balde sobre a superfície e o levanta. Encantado, o pequeno arquiteto vê surgir diante de si um castelo de areia.

Ele continuará a trabalhar a tarde inteira. Cavando os fossos.

Modelando as paredes. As rolhas de garrafa serão as sentinelas.

Os palitos de sorvete serão as pontes. E um castelo de areia será construído.

Cidade grande. Ruas movimentadas. Ronco dos motores dos automóveis.

Um homem está no escritório. Em sua escrivaninha, ele organiza pilhas de papel e distribui tarefas. Coloca o fone no ombro e faz uma chamada. Como que num passe de mágica, contratos são assinados e, para grande felicidade do homem, foram fechados grandes negócios.

Ele trabalhará a vida inteira. Formulando planos. Prevendo o futuro. As rendas anuais serão as sentinelas. Os ganhos de capital serão as pontes. Um império será construído.

Dois construtores de dois castelos. Ambos têm muita coisa em comum. Fazem grandezas com pequeninos grãos. Constroem algo do nada. São diligentes e determinados. E, para ambos, a maré subirá, e tudo terminará. Contudo, é aqui que as semelhanças terminam. Porque o menino vê o fim, ao passo que o homem o ignora. Observe o menino na hora do crepúsculo.

Quando as ondas se aproximam, o menino sábio pula e bate palmas.

Não há tristeza. Nem medo. Nem arrependimento. Ele sabia que isso aconteceria. Não se surpreende. E, quando a enorme onda bate em seu castelo e sua obra-prima é arrastada para o mar, ele sorri. Sorri, recolhe a pá, o balde, segura a mão do pai e vai para casa. o adulto, contudo, não é tão sábio assim. Quando a onda dos anos desmorona seu castelo, ele se atemoriza. Cerca seu monumento de areia, a fim de protegê-lo. Impede que as ondas alcancem as paredes construídas por ele. Encharcado de água salgada e tremendo de frio, ele resmunga para a próxima onda.

- É o meu castelo - diz em tom de afronta.

O mar não precisa responder. Ambos sabem a quem a areia pertence...

E eu não sei muito sobre castelos de areia. Mas as crianças sabem.

Observe-as e aprenda. Vá em frente e construa, mas construa com o coração de uma criança. Quando chegar a hora do pôr-do-sol e a maré levar tudo embora - aplauda. Aplauda o processo da vida, segure a mão do Pai e vá para casa.


 

A COLCHA DE RETALHOS

Melody Carlson

 

 

Tenho uma colcha de retalhos feita pela avó de meu pai. Não é uma colcha bonita, e os tecidos que a compõem parecem ser bem antigos. Mas gosto muito dela.

Provavelmente, são sobras aproveitadas do avental da tia Fran, do vestidinho de Páscoa de Mary, ou da camisa predileta do vovô.

Têm formatos e tamanhos estranhos. Alguns formatos indefinidos possuem colchetes e curvas, longas tiras de tecido costuradas a duras penas com dezenas de pontos meticulosos. Há retalhos menores que a unha de meu polegar.

Alguns tecidos são muito simples e de cores desbotadas. Posso ouvir a voz cansada de uma mãe dizer: "Mas, querida, é um tecido muito durável", enquanto a filha dela franze as sobrancelhas diante de um vestido novo para ir à escola. Outros são de cores vivas e alegres, como, por exemplo, fragmentos de aniversários, férias de verão e tempos divertidos que se foram. Uns poucos retalhos mais requintados são macios como cetim, com alto-relevo ou bordados; parecem sussurrar lembranças de casamentos, bailes, primeiro beijo...

Minha bisavó era quase cega. Talvez isso explique por quais tonalidades foram combinadas a esmo e parecem gritar uma para a outra. Eu me pergunto se ela imaginava com o que suas criações se pareciam. Ou será que simplesmente usava o tato? Seus trabalhos possuem uma textura interessante - lisa, quase acidentada, tecidos leves costurados num retalho de veludo; e, por toda a colcha, há centenas de pontinhos feitos à mão, quase invisíveis, pregas sempre muito bem-feitas.

Se eu fosse cega, gostaria de fazer colchas como esta.

Recentemente, minha família foi transferida para outra cidade, e fiquei de cama, com gripe, enrolada na grande colcha de retalhos de minha bisavó. Senti pena de mim mesma e saudades das amigas que deixei para trás. No fundo, eu sabia que a culpa por esses sentimentos era minha - eu não havia decidido fazer novas amizades. Várias pessoas conhecidas pareciam querer aproximar-se de mim, mas eu estava com um pé atrás, hesitante...

Enquanto olhava para a colcha de retalhos, pensei nas amigas que tive através de toda a minha vida. Algumas pareciam um pouco grosseiras como um retalho de lã de trama resistente, mas com o tempo foram amaciando - ou eu me acostumei com elas.

Outras eram delicadas como seda e precisavam ser tratadas com muito cuidado. Algumas tinham um colorido vivo e alegre e eram companhias divertidas. Outras, muito especiais, tinham a textura macia e aconchegante da flanela e sabiam como me fazer sentir bem.

Boa parte de minhas amigas esteve a meu lado apenas por uns tempos. Ou fui eu que as deixei para trás, ou foram elas que me abandonaram! Apesar disso, em meu coração sei que são amigas para a vida toda. Se eu as encontrar na rua amanhã, nos abraçaremos, daremos boas risadas, e a conversa será interminável. Parece que tudo aconteceu ontem.

E é por isso que Deus as costurou em meu coração.

Enrolei-me na velha colcha, sentindo-me confortada e aquecida por minhas lembranças. Certamente, minha obra-prima - essa colcha de amigas que ajuntei ao longo da vida - ainda não está terminada. E eu gostaria de fazer novas amizades nesta-cidade. E, como minha bisavó, que confiava em seus dedos para guiá-Ia, eu gostaria de fazer o mesmo, pela fé.


 

LIXO PARA UNS... TESOURO PARA OUTROS

Ron Mehl

 

 

Por várias vezes, Bob havia tentado encontrar o caminho pelo fundo da garagem, e estava prestes a sair quando a avistou. Embora ela estivesse parcialmente escondida debaixo de uma toalha de mesa e um acolchoado velho, seu formato era inconfundível.

Tratava-se de uma motocicleta. E não era uma simples motocicleta... era uma Harley.

Evidentemente, não fazia parte dos produtos vendidos em liquidação naquela garagem, e aquilo chamou a atenção de Bob.

- A moto está à venda?

O homem encolheu os ombros e respondeu:

- Bem... por que não? Minha mulher diz que tudo está à venda.

Mas você precisa saber de uma coisa: A moto não roda desde que foi comprada. O motor não funciona. Ela não sai do lugar. Vale mais a pena comprar uma nova do que consertar esta coisa velha.

Bob concordava com a cabeça pacientemente. Mas procurou saber:

- Mesmo assim, quanto você quer por ela?

- Tenho certeza de que o pessoal do desmanche me daria 35 dólares pela lataria. O que você acha?

Bob olhou para aquela montanha de metal velho e enferrujado. O que sua esposa diria se ele a levasse para casa? Apesar disso... para um olho bem treinado, ela possuía potencial. Mesmo que a moto não rodasse, ele daria um polimento nela, para início de conversa. E poderia vendê-la por mais de 35 dólares. Só as peças valiam mais do que isso.

- Está bem - ele disse. - Eu lhe dou 35. Posso pegá-la amanhã?

De repente, a velha Harley já estava ocupando espaço na garagem de Bob. Depois de algumas semanas de protelação, ele resolveu telefonar para a Harley-Davidson só para saber quanto custariam as peças principais de reposição. A ligação foi transferida para uma pessoa do setor de peças, e ele fez algumas perguntas.

- Se você me fornecer o número de série - disse o vendedor -, eu poderei verificar para você.

Bob forneceu o número.

- Aguarde um instante.

Enquanto aguardava na linha, Bob ficou ouvindo música: rock da década de 1960. Bem apropriada! - ele pensou. Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, o homem retornou. E retornou bem a tempo. Mais uma música cantada pelos Trogs ou por Country Joe and the Fish, e ele teria desistido.

Agora, a voz do homem parecia diferente. Estranha. Ponderada.

Como se alguma coisa importante estivesse prestes a acontecer.

- Eu... eu vou precisar ligar de volta para você, está bem? Você poderia me fornecer seu nome completo, endereço e o número de seu telefone, por favor?

Por que ele precisa de meu nome e endereço? - pensou Bob. Mas, que mal poderia haver? Mal nenhum. Provavelmente, ele passaria a fazer parte de alguma lista de motociclistas. Bob forneceu as informações ao homem e desligou.

Após alguns minutos, porém, ele começou a ficar nervoso.

Arrependeu-se de ter fornecido informações pessoais por telefone. E se a moto estivesse envolvida em algum crime? E se fosse roubada? Estaria ele correndo o risco de ser processado? Talvez a polícia já estivesse a caminho - ou, quem sabe, um Anjo do Inferno, pronto para reclamar sua moto...

Bob permaneceu ansioso durante alguns dias, sem receber notícias do revendedor da Harley. Assim que suas preocupações começaram a se dissipar, o telefone tocou. Dessa vez, contudo, não era o funcionário do setor de peças; Bob se viu falando com um executivo da Harley. O homem parecia exageradamente amistoso, deixando Bob ainda mais intranquilo.

- Preste atenção, Bob - ele disse -, quero que você me faça um favor, está bem?

- Hum... bem, acho que sim.

- Bob, quero que você deixe o fone de lado, sem desligá-lo, retire o assento de sua moto e veja se existe alguma coisa escrita embaixo dele. Você me faria esse favor, Bob?

O homem falava como se fosse um controlador de tráfego aéreo instruindo o pouso de um 737.

Bob sentiu-se entre a cruz e a espada.

Mesmo assim, pegou uma chave de fenda, fez o que lhe foi dito, e retornou ao telefone.

- Sim - ele disse -, existe alguma coisa escrita ali. Está gravada, e diz: "O REI". Veja lá, existe algum tipo de problema com esta moto?

O que está havendo?

Houve um segundo ou dois de profundo silêncio do outro lado da linha. Bob sentia-se como alguém conversando por telefone a longa distância e ouvindo um alfinete cair no chão.

- Bob, meu patrão autorizou-me a lhe oferecer 300 mil dólares pela moto, com pagamento à vista. O que você acha? Podemos fechar negócio?

Bob estava tão atordoado que não conseguia falar.

- Eu... eu... preciso pensar um pouco - ele gaguejou.

Depois de desligar o telefone, ele começou a escorregar lentamente até sentar-se no chão da cozinha.

No dia seguinte, Bob recebeu um telefonema de Jay Leno, o principal entrevistador de programas noturnos de TV. Leno explicou que tinha "uma queda especial por Harleys" e ofereceu 500 mil dólares a Bob.

"O Rei" era nada mais nada menos do que Elvis Presley. O número de série deixara bem claro esse fato, e a gravação embaixo do assento eliminava qualquer dúvida. A moto que Bob resgatara como se fosse ferro velho, por 35 dólares, havia pertencido ao "Rei do Rock'n Roll".

E valia meio milhão de dólares - no mínimo. Depois de tantos anos à procura da "Grande Descoberta", Bob a encontrara, mas não havia reconhecido o que tinha em mãos.

Esta história serve para mostrar que aquilo que é lixo para uns é tesouro para outros. O valor da motocicleta, é claro, não estava na lataria nem nas peças. Ela nem sequer rodava! O valor não tinha nada a ver com a beleza da moto, com o material usado em sua fabricação, nem com seu desempenho... Tudo estava ligado ao fato de que ela pertencera ao "Rei". Ele a tocou, rodou com ela, teve orgulho dela. E o inexplicável valor que nossa cultura atribui a Elvis Presley - chegando a considerá-lo um deus - foi transferido para sua motocicleta. Existem pessoas dispostas a pagar uma pequena fortuna pelo privilégio de dizer "Eu possuo a motocicleta de Elvis Presley".

Bob não se deu conta de que possuía uma coisa de grande valor.

Não fazia ideia de quem tinha sido o proprietário anterior da moto.

Apenas viu alguma coisa barata à venda - uma oportunidade de obter um pequeno lucro. O que ele descobriu depois, é claro, foi que o proprietário era a coisa mais importante naquela velha Harley. Na verdade, o proprietário era tudo.

E o que fala mais alto quanto aos seus valores e aos meus?

Eles têm a ver com o material de que somos feitos? Ou estão baseados em nossa função na empresa ou em nossa situação econômica? São determinados pelo que podemos fazer e por nosso "desempenho"? ... O que me dá uma sensação de valor e importância "é saber que eu pertenço a Deus. Fui redimido pelo Filho de Deus, mediante o grande sofrimento e o alto preço que Ele pagou. Ele é meu proprietário... Ninguém pode contestar a marca do Rei.


 

COMECEM A ORAR

Charles Swindoll

 

 

O avião seguia para Nova York - um voo rotineiro, normal e muito maçante. Mas, dessa vez, ele provou ser o contrário.

Pouco antes da aterrissagem, o piloto notou que não conseguia engatar o trem de pouso. Ele acionou todos os controles possíveis, tentando engatá-Io várias vezes... sem sucesso. Em seguida, ele pediu instruções aos controladores de terra. Enquanto o avião voava em círculos sobre o campo de pouso, a equipe de emergência cobriu a pista com espuma. Os carros de bombeiro e outros veículos de emergência tomaram posição na pista.

Nesse ínterim, a cada manobra, os passageiros recebiam instruções com aquela entonação de voz calma e sem emoções que os pilotos sabem demonstrar com tanta perfeição. As comissárias de bordo caminhavam silenciosamente pela cabina de passageiros, com ar de frieza no rosto. Os passageiros foram instruídos a colocar a cabeça entre os joelhos e a agarrar com força os tornozelos antes do impacto.

Houve lágrimas e alguns gritos de desespero...

De repente, quando faltavam apenas alguns minutos para o pouso, o piloto anunciou pelo serviço de comunicação interna:

- Estamos iniciando a descida final. Neste momento, de acordo com o Código Internacional de Aviação estabelecido em Genebra, é meu dever informar-Ihes que, se os senhores acreditam em Deus, devem começar a orar.

Palavra de escoteiro... foi exatamente o que ele disse!


 

TRINCAS E FENDAS SECRETAS

Melody Carlson

 

 

Quando eu era criança, a casa de vovó - em imponente estilo vitoriano, dava-me a idéia de um castelo. Majestosa e branca, ela estava assentada sobre uma colina gramada, rodeada por um canteiro colorido de flores. As pessoas paravam para admirar, e até mesmo fotografar, o deslumbrante jardim de pedras de vovó. As três horas de viagem até aquela casa significavam muito mais que simplesmente visitar seu lar, onde havia pão de gengibre e flores bonitas; significava penetrar num mundo muito diferente do meu.

Na casa de vovó tudo era diferente, e eu encontrava um mundo secreto - um mundo onde só eu conhecia todos os recantos e fendas fascinantes. No verão, eu passava horas incontáveis explorando seus cantos secretos. Lembro-me do agradável aroma de terra depois da chuva de verão e da umidade do cimento frio que atravessava minhas bermudas finas de algodão quando eu me sentava nos degraus da escada atrás da casa de vovó. Uma profusão de brincos-de-princesa vistosos, com suas exuberantes cores arroxeadas, cobria os canteiros que rodeavam a escada. Eles pareciam lanternas japonesas em miniatura, e as abelhas voavam ao redor para recolher alimento.

Lembro-me da sensação de tocar num brinco-de-princesa fechado e o ruído que eu ouvi quando o apertei levemente com os dedos - e do zumbido abafado da infeliz abelha que aprisionei dentro do botão. Eu subia por aqueles degraus cercados de brincos-de-princesa até chegar à casa de Martha - uma vizinha de vovó. Da laje de seu quintal, ainda molhada pela chuva, subia um vapor que brilhava ao sol da tarde. Um pouco adiante do quintal, havia um pequeno jardim fechado por uma cerca da altura de uma criança. Eu me encostava na cerca e estendia os braços por cima dela, para inspecionar a misteriosa folhagem verde que florescia do outro lado. Um varal atravessava todo o jardim. Em uma das extremidades, pendia uma roldana que meu avô havia desenhado para colocar e retirar as roupas do varal sem ter de pisar no jardim de Martha. Ela e minha avó usavam o mesmo varal, aproveitando a mesma luz do sol.

Em sua sala banhada pelo sol, Martha colecionava blocos para construções de brinquedo, bonecas de madeira, livros de fotografias e um visor de fotos em 3D - tudo para seus jovens visitantes.

Naturalmente, ela servia bolinhos e chá; isso era uma fantasia para uma menina como eu.

Na mesma rua, morava Londy, a irmã de vovó. A casa de Londy me fazia lembrar a casinha da Branca de Neve. Cercada de árvores altas, e muito bem escondida, ela parecia ter brotado ali como um cogumelo gigante. Londy, uma mulher franzina, combinava com sua casa pequenina. Ela gostava de agitação e preparava deliciosos lanches em sua cozinha apertada. As torradas e as geléias feitas em casa eram servidas a seus convidados em pratos de porcelana coloridos, e ela nunca fazia distinção entre crianças e adultos - todos nós saboreávamos aquelas delícias nos mesmos pratos de porcelana; utensílios de plástico não existiam em sua cozinha.

Londy gostava de colher cores, e elas caíam em cascata dos vasos de porcelana de sua casa. Do lado de fora da janela de sua cozinha, cresciam rosas, groselhas e hortelã. A mistura de fragrâncias era quase inebriante, quando penetrava na casa, levada pela brisa quente do verão. A casa de Londy parecia uma casinha encantada para bonecas crescidas.

Na casa de vovó, eu era a primeira a levantar de manhã, porque sabia que vovô já havia preparado um delicioso e fumegante café da manhã, na aconchegante cozinha do pavimento inferior. Depois de bem alimentada, eu continuava sentada à mesa, em frente a uma enorme vidraça, contemplando os gerânios vermelhos que floresciam o ano todo na jardineira sob a janela. Eu tentava espiar a rãzinha verde que morava no meio dos gerânios e observava os beija-flores pairando sobre as caixas de flores. Programações e rotina não faziam parte dos verões daquela época.

Embora tudo permaneça como era, as pessoas se foram; e eu me sinto dividida entre o desejo de retomar para descobrir o tempo em que fez com o paraíso de minha infância e o medo de que o encanto, agora quebrado, só me traga desapontamentos. Os lugares de que me lembro, mesmo que não tenham mudado, jamais poderão ser encontrados novamente, porque meus olhos de criança enxergavam a colina como uma montanha e a casa como um castelo. E essas lembranças devem perdurar nos lugares secretos - escondidas nas trincas e fendas - apenas para serem visitados em nossa memória.


 

DE VOLTA AO RUMO CERTO

Sandy SnaveLy

 

 

Meu marido e eu gostamos imensamente de velejar. Demos ao nosso barco de 27 pés o nome de Mar Sensual, porque ele representa para nós a sedução que a água exerce em nosso espírito aventureiro. Quando a água está calma e o vento sopra tranquilo, velejar é uma experiência profundamente enriquecedora. Contudo, há ocasiões em que a água se torna violenta e o vento sopra terror através de nossas veias, como se fosse um inimigo invisível.

Certo dia, enquanto subíamos o rio Colúmbia em direção a Astoria, um fenômeno marítimo, conhecido apropriadamente como "fazedor de viúvos", interrompeu nossa pacífica viagem. Ondas de quase dois metros batiam em nós, uma após outra, e tivemos de nos firmar para enfrentar os solavancos.

De repente, Bud ouviu um som que parecia vir da proa. Ao esticar o corpo para enxergar através da água que o vento atirava à nossa volta, ele constatou que a âncora se havia deslocado do lugar e estava batendo contra o casco-do-barco. A cada pancada, aumentava o perigo de ser aberto um buraco na fibra de vidro, ameaçando nossa segurança.

Bud fez, então, a coisa mais assustadora que o vi fazer. Sem um colete salva-vidas ou uma corda de segurança, ele se dirigiu à extremidade da proa, deixando-me na cabina para manejar o leme enquanto ele resolvia o problema da âncora.

Um de meus pontos fortes na arte de velejar sempre foi minha habilidade em manter o barco no rumo certo - até aquele momento em que a vida de meu marido estava em risco, na beira do barco.

Ondas cada vez mais bravias batiam nele, como se fossem gigantescos ciganos do mar tentando abatê-lo. Focalizando os olhos em Bud, eu comecei imediatamente a planejar o que fazer para resgatá-lo caso ele caísse na água.

O som da voz de meu marido gritando para mim através da tempestade afastou meu medo e fez-me voltar a raciocinar:

- Retome ao rumo certo! Aponte o barco na direção do marcador!

Desviar os olhos de meu marido e focalizá-Ios no marcador foi, para mim, a ordem mais difícil de obedecer. Meus instintos não permitiam que eu virasse as costas àquilo que parecia ser a necessidade do momento e passasse a confiar nas regras da água. No entanto, quando obedeci ao comando de Bud, fui capaz de retomar o barco ao rumo certo. Bud prendeu a âncora no lugar e, mais uma vez, estávamos seguindo a direção correta.

Naquela tarde, nós dois aprendemos uma preciosa lição: O perigo ronda em cada esquina e somos tentados a desviar a atenção de nossos verdadeiros objetivos, a mudar as regras para resolver o que parece ser a crise mais iminente da vida.

Porém, existem princípios sólidos desenvolvidos para nos levar em segurança ao nosso destino, se estivermos dispostos a confiar neles e não nos desviarmos do rumo diante de medos repentinos.

Devemos estar determinados a estudar os mapas, seguir as regras, e firmar o rumo, ou cairemos de cabeça nas águas profundas quando as tempestades da vida nos atingirem.


 

O CÂNION DAS SEQUÓIAS

Cassandra Lindell

 

 

Meu avô cheirava a couro velho, terra fresca e suor. Usava camisa de algodão de manga curta, jeans presos por suspensórios e loção pós-barba Mennen. Quando eu era bem pequena, o chapéu de sua preferência era um que meu irmão e eu chamávamos de "chapéu de safári" - com copa cinza de plástico rijo e aba costurada com perfeição.

Vovô sempre achou que os cavalos eram essenciais à vida e colocou-me em cima deles desde tenra idade. Até hoje, quando estou montada em um cavalo, sinto-me importante e especial; a companhia de vovô também me dava essa mesma sensação. Acho que ele sempre soube que um dia me levaria ao Cânion das Sequoias e me mostraria que seu coração ainda pertencia àquele lugar. Quando ele e vovó se casaram, costumavam passar o verão nas Sierras.

Lembro-me do som dos cascos batendo no metal quando retiramos os cavalos do trailer para aquela primeira cavalgada no Cânion das Sequoias. Lembro-me do cheiro de couro e estrume que sentíamos enquanto colocávamos as selas nos animais. Ben resfolegava e fungava de satisfação, dançando na poeira.

Enquanto cavalgávamos, vovô apontou para os morangos silvestres ao longo da trilha; eu não tinha ideia de que eram tão pequeninos assim. Teriam passado despercebidos para mim.

Vovô conhecia a diferença entre o som da água gotejando ao longe e o som do vento batendo nas árvores. Eu não conhecia. Certa vez, achei que estava ouvindo som de vento. Vovô sorriu.

- Não é. Venha comigo.

Ele desceu a colina, saindo da trilha. Eu o acompanhei, sem saber para onde estava indo.

Logo depois, ele parou e empurrou para trás a aba de seu chapéu estilo cowboy. Puxei Ben para perto de mim e acompanhei o olhar de vovô.

Até hoje, nunca vi um lugar mais tranquilo que aquele. Abaixo de nós, um riacho corria sinuosamente pelas samambaias e lírios silvestres, caindo a uma altura de três metros, para formar uma piscina de água cristalina. Ao lado da piscina, havia uma praia arenosa e uma tora caída. Pensei no Jardim do Éden. Sentamo-nos ali, por um bom tempo, tempo suficiente para que a imagem ficasse gravada para sempre em minha mente. Quando necessito de alguns momentos de paz, fecho os olhos e vejo aquela piscina de água cristalina. Mais adiante na trilha, uma clareira no meio da mata fez brotar um grande sorriso nos cantos da boca de meu avô. Diante de nós, estendia-se uma praia com pedras do tamanho da mão fechada. Um riacho, tentando passar despercebido, seguia seu caminho por entre as pedras, antes de juntar-se ao outro, logo depois de passar pela clareira.

- Vamos acampar, montar nossa barraca ali. Sua avó estendeu um varal entre aquelas duas árvores... Acertei a cabeça de um cervo no alto daquele morro com um tiro.

Vovô reviveu para mim um mundo esquecido no passado.

- Há um riacho subterrâneo que corre bem ali - disse vovô, apontando novamente para um determinado lugar.

- Como você sabe?

- Veja aquela fileira de árvores novas. As sementes que caem crescem onde existe água.

De repente, quando a trilha começou a serpentear pela montanha, ficamos frente a frente com uma árvore caída no meio do caminho. Era uma sequoia. Uma árvore gigantesca. A árvore caída tinha, no mínimo, quatro metros de diâmetro - o que significava uma parede de quatro metros à nossa frente. Os galhos emaranhados pendiam na encosta do morro. Acima de nós havia-se formado um enorme buraco na terra, no lugar das imensas raízes.

Fiquei assustada. Teríamos de voltar. Vovô sentou-se e olhou para a árvore. Eu olhei para ele.

- Vamos ter de voltar? - perguntei, desapontada.

Ele continuou sentado, olhando para a árvore caída. Em seguida, com a rapidez de um raio, vovô rodopiou com o cavalo, cutucou-o com os calcanhares e gritou por cima do ombro:

- Vamos!

Vi seu cavalo escorregar nas folhas caídas e nos espinhos enquanto eles subiam a montanha. Eu não conseguiria subir aquela montanha.

Eu cairia. O cavalo cairia. Nós dois cairíamos.

O problema, porém, era que eu conhecia meu avô - ele aguardaria o dia inteiro no topo da montanha, se fosse necessário, até que eu o seguisse. Ele era conhecido por sua tenacidade. Vovô nunca desistiu da ideia de que o melhor caminho para aprender é tentar o impossível.

- Vamos! - Era a voz de vovô gritando novamente para mim. Deixe que o cavalo encontre o caminho. Se você não quer cair, ele também não vai querer cair.

Eu sabia que podia confiar em meu avô. Afinal de contas, ele passara a vida inteira no lombo de um cavalo e conhecia muito bem as montanhas.

Por isso, fiz a única coisa que podia: Agarrei-me na sela, soltei as rédeas - e fechei os olhos com força enquanto cutucava o cavalo com os calcanhares.

Ben saltou para a frente, subindo a montanha com dificuldade.

Foi uma cavalgada acidentada. Depois de alguns segundos, senti seus passos macios e abri os olhos. Lá estava meu avô, feliz, piscando para mim com seu rosto enrugado.

- Você fechou os olhos? Então, perdeu a melhor parte da cavalgada!

Aprendi muitas coisas naquele dia e em outras cavalgadas pelo Cânion das Sequoias. Ainda vejo, com muita frequência, a imagem daquela gigantesca sequoia atravessada na trilha. A vida também é assim. Seria ótimo para todos nós se houvesse apenas morangos silvestres e piscinas de água cristalina. Porém, deparamo-nos muitas vezes com lugares onde existe uma enorme árvore caída atravessando a trilha. Ela surge de repente, e ficamos diante de um terrível impasse.

Lembro-me também da alternativa que meu avô me ensinou. Posso desistir e retornar triste e derrotada - ou posso perseverar, soltar as rédeas e seguir Aquele que conhece o caminho para contornar qualquer obstáculo. A fé é assim.

E se mantivermos os olhos abertos? Não perderemos as melhores partes.


 

A VIDA COMEÇA AOS 80

Frank C. Laubach

 

 

Tenho boas notícias para você. Os primeiros 80 anos de vida são os mais difíceis. Os outros 80 são uma série de festas de aniversário.

Quando você chega aos 80 anos, todos querem carregar sua mala e ajudá-Io a subir escadas. Se você esquecer seu nome, o nome de outra pessoa, um compromisso, seu número de telefone ou a promessa de estar em três lugares ao mesmo tempo, ou ainda não se lembrar de quantos netos você tem, basta explicar que tem 80 anos.

Ter 80 anos é muito melhor que ter 70. Aos 70, as pessoas ficam furiosas com você por qualquer coisa. Aos 80, você tem a desculpa perfeita para tudo o que fizer. Se agir tolamente, é sua segunda infância. Todo mundo está à procura de sintomas de memória fraca. Ter 70 anos não é nada divertido. Nessa idade, todos esperam que você se isole em uma casa na Flórida e se queixe de artrite (que eles costumam chamar de lumbago), e você pede que todos parem de resmungar porque não consegue compreender o que dizem. (Na verdade, a esta altura da vida, você perdeu 50% de sua audição.) Se você sobreviver até os 80, todos se surpreenderão por você continuar vivo. Eles vão tratá-lo com respeito, pelo fato de você ter vivido tanto tempo. Mas a verdade é que eles ficam surpresos por você caminhar bem e falar com lucidez.

Portanto, por favor, companheiros, tentem chegar aos 80. É a melhor época da vida. As pessoas vão perdoá-Ios por tudo. Se vocês me perguntarem, vou dizer que a vida começa aos 80.


 

PONTO DE ÔNIBUS

Patsy Clairmont

 

 

Jason, nosso filho mais novo, tem dois objetivos na vida. Um é divertir-se, e o outro é descansar. Ele consegue fazer essas duas coisas muito bem. Portanto, eu não deveria ter-me surpreendido com o que aconteceu quando o despachei para a escola num dia de outono.

Assim que Jason saiu para pegar o ônibus, comecei, imediatamente, a me preparar para um dia agitado. A batida na porta foi uma surpresa e interrompeu o meu ritmo da manhã, coisa que nunca consigo manter. Corri até a porta, abri-a com força e me deparei com Jason.

- O que você está fazendo aqui? - interpelei-o.

- Abandonei a escola - ele me comunicou ostensivamente.

- Abandonou a escola? - repeti, sem acreditar, e falando a um decibel acima da capacidade dos ouvidos humanos.

Engolindo a raiva, tentei lembrar-me de algumas regras da psicologia materna. Mas tudo o que vinha à minha mente era "Quem não trabalha não come", "Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje", ou coisas do gênero. Mas isso parecia não se aplicar ao dilema de um menino de seis anos. Portanto, questionei:

- Por que você abandonou a escola?

Sem hesitar, ele proclamou:

- Ela é longa demais, difícil demais, chata demais!

- Jason - eu retorqui imediatamente -, você acabou de descrever o que é a vida. Vá para o ponto do ônibus!


 

TESOUROS NO CÉU

Bob Welch

 

 

Decentemente, quando nosso pastor proferiu um sermão extraído do Livro de Mateus, baseado no texto "Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem...", não pude deixar de pensar num leilão ao qual estive presente.

Não se tratava de um leilão comum. O público podia dar lances por objetos depositados em cofres de segurança e que foram esquecidos por seus proprietários. Numa determinada época, eles foram tão importantes que as pessoas pagaram para guardá-Ios em cofres de aço.

Diplomas, boletins escolares de crianças, cartas...

Lembro-me de ter visto desde coleções de moedas, relógios de bolso e joias até documentos e objetos pequenos, todos acondicionados em sacos plásticos.

Roupas de escoteiro remendadas, recibos de um hotel em Waikiki, desenho de um coelhinho feito por uma criança...

Eram pertences que não foram reclamados, aguardando ser leiloados, bens esquecidos ou negligenciados por pessoas que já haviam falecido.

Rosários, cartas, passagens de trem...

Cada invólucro continha um mistério. As pistas serviam mais para despertar curiosidade do que para oferecer respostas. Li os documentos de imigração de Udolf Matschiner, que chegou a Ellis Island em 1906. Teria ele encontrado na América o que procurava?

Duas bolinhas de gude, três pedrinhas e uma fivela de cinto...

Para que serviriam aquelas coisas? Representariam alguma recordação especial, uma pessoa especial?

Passaportes, telegramas, recortes de jornal...

Um artigo amarelado, de um jornal de 1959, publicado na cidade de Los Angeles, estampava a seguinte manchete: "Mãe de Vlahovich Chora pela Condenação do Filho." Seu filho havia sido condenado por assassinato. A mãe chorou, implorando ao juiz que poupasse a vida de seu filho. "Levem-me no lugar dele! ", ela gritava. "Matem-me!" O que teria acontecido? Será que ela viu o filho ser morto na cadeira elétrica de San Quentin?

Filmes sem terem sido revelados, certidões de nascimento, certidões de casamento...

Assuntos particulares da vida misturados a assuntos de domínio público da vida - um chumaço de cabelos loiros, uma prova de matemática de uma criança e um poema intitulado "O Sótão de Vovó", datilografado em uma máquina de escrever que tinha a letra e manchada com a tinta da fita.

Hoje, quando entrei no sótão da vovó, Dentro de um velho baú, bem dobrado, Eu vi um vestido cinza esvoaçante Com largas anquinhas de brocado cor-de-rosa E uma tira em alto-relevo dos dois lados Escondido bem no fundo daquele baú.

Encontrei um xale de seda muito lindo, Chinelos prateados, um ventilador da França, E também um pomposo convite para uma dança. Uma frase escrita de atravessado no programa Dizia: "Agatha querida, posso dançar com você?"

Era como se nós, que participávamos do leilão, tivéssemos recebido permissão para entrar em centenas de sótãos da vovó, sótãos de pessoas desconhecidas.

Diários, fotografias, marcas do pezinho de um recém-nascido...

Quando a morte chega, a maioria dos objetos diz muito sobre a vida. Eles também sugerem uma sensação de realização, uma constatação de que a vida na terra terminou, que não podemos levar nada conosco.

E o que nós vamos deixar para trás?

Um cofre de 15 x 30cm cheio de recordações diz muito sobre as coisas que valorizamos. Mas é apenas um pequeno detalhe quando comparado ao que fizemos ao longo da vida.

Em nosso mundo, onde só aquele que morre rico é considerado vitorioso, talvez devêssemos deixar para trás...

Um investimento naquilo que Deus tanto preza - as outras pessoas.

Uma vida guiada não pelos ventos caprichosos de nossa cultura, mas guiada pelas firmes promessas de Cristo.

E um exemplo para nossos filhos, para que sejam tudo aquilo que Deus planejou para eles.

"Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam", concluiu nosso pastor naquela manhã de domingo, "porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração".

Ah, o céu! O derradeiro cofre de segurança.


 

ESCONDE-ESCONDE

Brennan Manning

 

 

Certo dia, Yehiel, neto do rabino Barukh, estava brincando de esconde-esconde com outro menino. Ele se escondeu e aguardou que seu companheiro o achasse. Depois de 20 minutos, ele espiou de seu lugar secreto, não viu ninguém e voltou a esconder a cabeça. Após esperar por um longo tempo, ele saiu do esconderijo, mas não avistou o outro menino. Foi, então, que Yehiel se deu conta de que seu companheiro não havia procurado por ele desde o início. Chorando, ele correu para os braços do avô e se queixou da deslealdade do amigo. Lágrimas brotaram nos olhos do rabino Barukh quando ele se deu conta de que Deus diz a mesma coisa:

- Ninguém quer me procurar!


 

ACENDEDOR DE LAMPIÕES

Marilyn McAuley

 

 

Quando era moço, o acendedor de lampiões levava uma vida difícil, instável. Alguns anos depois de ele se tornar cristão, um amigo passou a ridicularizá-Io por seu novo estilo de vida. O acendedor de lampiões lhe disse, certo dia:

- Existe apenas uma explicação que eu posso dar: quando sigo pela rua apagando os lampiões, olho para trás e vejo tudo escuro. É assim que eu era antes de conhecer Cristo. Porém, quando continuo a seguir pela rua, os lampiões adiante de mim iluminam meu caminho.

É assim a vida com Cristo.

O ex-amigo perguntou:

- E depois que você apaga todos os lampiões?

O acendedor de lampiões respondeu:

- O dia já está clareando.


 

GRITOS SUAVES

Ruth Bell Graham

 

 

A gata teve seus filhotes na cama baixa de rodinhas, que ficava fino quarto de hóspedes, no pavimento inferior.

Achamos que os gatinhos não deveriam permanecer ali. Assim nós os colocamos dentro de uma caixa forrada com alguns panos velhos e os deixamos perto do fogão a lenha até encontrarmos um lugar mais apropriado para eles.

A gata, porém, tinha outros planos. Observamos, achando graça, quando ela entrou mansamente na cozinha, apoiou-se nas patas traseiras e colocou as dianteiras na beira da caixa, cheirando seus filhotes. Com sua habilidade natural, ela se debruçou sobre a caixa, pegou um gatinho pela nuca e o levou de volta ao lugar onde antes eles estavam.

O processo foi repetido até sobrar apenas um na caixa, o mais raquítico.

Ela não retomou. Devia estar exausta de tanto esforço ou brincando com os outros gatinhos.

Ficamos à espera.

Finalmente, a criaturinha no fundo da caixa deu um miado tão baixo que mais parecia um chiado, quase impossível de ser ouvido.

Imediatamente, e em completo silêncio, a gata apareceu, pegou o filhote pequenino pela nuca e o levou de volta ao quarto de hóspedes.

Três portas, dois quartos e dois corredores. Mesmo assim, ela OUVIU.

A cadela dinamarquesa teve seus primeiros filhotes (dois, para ser exata) debaixo de um arbusto do lado de fora da janela da cozinha. Depois de "pensar" um pouco, ela pegou o maior e o carregou até a casinha de cachorro (que ficava do outro lado da casa). Mas, por ser irresponsável, esqueceu de buscar o segundo.

Após algum tempo, o filhote número dois começou a ficar com fome e soltou uma espécie de gemido, quase inaudível, como fazem os cães recém-nascidos.

Antes de ver a mãe, eu a ouvi chegando tão rápido como o ribombar de um trovão. Ela parou perto do filhote deixado para trás, pegou-o pelo pescoço e o levou para junto do outro.

Em ambos os casos, os gritos foram muito fracos...

Nossas orações também não precisam ser proferidas em altos gritos de pedidos de socorro.

De acordo com a Bíblia, Deus responde aos nossos suspiros, às nossas lágrimas, aos nossos murmúrios. Até mesmo os nossos anseios podem ser interpretados como oração.


 

HERÓI ESPIRITUAL

James Dobson

 

 

Ele era um humilde pastor negro da Igreja Batista de uma cidadezinha do interior. Tinha perto de 70 anos e foi ministro do evangelho ao longo de toda a sua vida, depois de se tornar adulto.

Seu amor pelo Senhor era tão profundo que se refletia em tudo o que ele dizia. Quando o pastor e sua esposa foram informados de que ele tinha apenas alguns meses de vida, nenhum dos dois demonstrou pânico. Apenas pediram algumas explicações ao médico.

Depois de tomarem conhecimento do processo de tratamento e de suas consequências, eles agradeceram ao médico e partiram. A equipe de filmagem acompanhou o casal até o velho carro e viu de longe quando eles curvaram a cabeça e renovaram seu compromisso com o Senhor.

Nos meses subsequentes, o pastor nunca perdeu o equilíbrio. Nem falou muito sobre sua doença. Ele sabia que o Senhor estava no controle e não permitiria que nada abalasse sua fé.

As câmeras estavam presentes em seu último domingo na igreja.

Ele pregou o sermão da manhã e falou com franqueza sobre sua morte iminente. Pelo que me lembro, ele disse o seguinte:

"Alguns de vocês me perguntaram se fiquei zangado com Deus por causa desta enfermidade que tomou conta de meu corpo. Digo-Ihes, honestamente, que em meu coração não existe ressentimento algum, apenas amor pelo meu Deus. Ele não me enviou esta doença.

Vivemos num mundo pecaminoso, onde a enfermidade e a morte são maldições que o homem trouxe para si mesmo. E estou indo para um lugar melhor, onde não haverá mais lágrimas, nem sofrimento, nem angústia. Portanto, não sintam pena de mim.

"Além do mais", ele prosseguiu, "nosso Senhor sofreu e morreu por nossos pecados. Por que eu não deveria tomar parte em seus sofrimentos? " Em seguida, o pastor começou a cantar um hino, sem acompanhamento, com voz cansada e embargada.

Chorei enquanto aquele meigo homem cantava seu amor por Jesus.

Ele parecia estar muito fraco, e seu rosto estampava as devastações da doença. Porém, seus comentários foram os mais poderosos que já ouvi. Pelo que sei, suas palavras naquela manhã foram as últimas proferidas no púlpito. Ele foi morar na eternidade alguns dias depois, onde se encontrou com o Senhor, a quem servira durante toda a sua vida. Aquele pastor anônimo e sua esposa ocupam lugar de destaque entre meus heróis espirituais.


 

NAVEGANDO À DERIVA

Tony Evans

 

 

Conta-se a história de um menino que estava brincando com seu barquinho no lago. De repente, o barquinho se afastou dele. Um homem, que estava por perto, viu a cena e começou a atirar pedras na água, adiante do barquinho. O menino perguntou:

- O que você está fazendo?

De repente, algo muito interessante aconteceu. Quando as pedras bateram na água, produziram ondas que empurraram o barquinho de volta ao menino. Embora as pedras tivessem agitado a água tranquila do lago, elas alcançaram o efeito desejado.

É assim que Deus procede, às vezes. Quando nos afastamos de sua presença, Ele atira pedras adiante de nós para nos forçar a retomar à praia de seu amor.


 

APENAS VISLUMBRES

Alice Gray

 

 

Laurel sabia que estava morrendo, Durante algumas semanas conversamos frequentemente sobre o céu - como ele era e como seria morar lá. Quase sempre terminávamos a conversa chorando e trocando meigos abraços de esperança.

A parte mais difícil era imaginar algo que nunca víramos, algo sobre aquilo de que sabíamos muito pouco.

Foi, então, que me lembrei desta história:

Uma jovem de cabelos loiros e olhos azuis nasceu cega. Quando tinha 12 anos, os médicos realizaram um novo tipo de cirurgia em seus olhos que, se fosse bem-sucedida, lhe daria a possibilidade de enxergar. O resultado só seria conhecido alguns dias após a cirurgia.

Depois que as ataduras foram retiradas, os olhos daquela jovem precisaram ficar protegidos da luz. Ela aguardou o resultado no escuro.

A mãe passou longas horas respondendo às perguntas da filha sobre como eram tais e tais coisas e o que ela enxergaria. Ambas estavam tão empolgadas diante das possibilidades de êxito que quase não conseguiam dormir. O tempo todo, mesmo no escuro, elas conversavam sobre coisas bonitas - cores, formatos, beleza de todos os tipos.

Finalmente, chegou o momento em que os olhos da moça já tinham condição de suportar a luz que vinha de fora. Ela se sentou perto da janela por um longo tempo sem dizer nada. Lá fora, o dia de primavera era ideal - brilhante e cálido, com nuvens brancas e fofas decorando o céu azul. As flores que a brisa leve derrubava das cerejeiras cobriam o chão, dando a ideia de uma camada de neve cor-de-rosa. Açafrões amarelos enfeitavam orgulhosamente as laterais do caminho de tijolos que serpenteava no meio do gramado.

Quando a moça olhou para a mãe, lágrimas corriam por seu rosto.

- Oh, mamãe. Por que você não me disse que era tão lindo assim?

Contei esta história a minha amiga, com os olhos lacrimejantes. - Laurel, neste instante estamos sentadas no escuro, mas daqui a pouco você estará fazendo esta mesma pergunta a Deus.


 

UMA VISÃO DO PERDÃO

Gigi Tchividjian

 

 

Você já sentiu a necessidade de ser perdoado... ou, talvez, de perdoar?

Conheço muitas pessoas que ficam estagnadas no presente por estarem ligadas a alguma coisa do passado. Ou não são capazes de perdoar, ou não aceitam o fato de terem sido, realmente perdoadas.

- Certa vez, ouvi a história (ou melhor, a lenda) de um padre, de uma pequena paróquia do Meio-oeste dos Estados Unidos, que havia cometido um pecado na juventude e, segundo ele, um pecado terrível. Apesar de ter pedido perdão a Deus, ele passou a vida toda carregando o peso daquele pecado. Não sabia ao certo se Deus o perdoara.

Certo dia, ele ouviu falar de urna senhora idosa de sua paróquia que costumava ter visões. Contaram-lhe que, durante essas visões, ela conversava com Deus. Depois de algum tempo, o padre reuniu coragem suficiente para visitar aquela senhora.

Ela o convidou a entrar e lhe ofereceu urna xícara de chá. Quando a visita estava chegando ao fim, ele pousou a xícara na mesa e fitou a mulher nos olhos.

- É verdade que a senhora costuma ter visões? - ele perguntou.

- E ela respondeu. - É verdade também que... durante essas visões... a senhora conversa com Deus?

- Sim - ela tornou a responder.

- Bem... da próxima vez que a senhora tiver uma visão e conversar com Deus, poderia fazer-lhe uma pergunta?

A mulher olhou para o padre com ar de curiosidade. Ninguém antes lhe pedira nada parecido com isso.

- Sim, com muito prazer - ela respondeu. - O que o senhor gostaria que eu perguntasse?

- Bem - o padre começou a dizer -, a senhora poderia perguntar-lhe qual foi o pecado que este padre de sua paróquia cometeu quando tem?

Agora, visivelmente curiosa, a mulher concordou prontamente.

Depois de algumas semanas, o padre voltou a visitar aquela mulher.

Depois de outra xícara de chá, ele perguntou com cautela e timidez:

- A senhora teve alguma visão recentemente?

- Sim, tive - ela respondeu.

- A senhora conversou com Deus?

- Conversei.

- Perguntou a Ele qual foi o pecado que cometi quando era jovem?

- Sim, perguntei.

O padre, nervoso e demonstrando certo temor, hesitou por um momento antes de perguntar:

- E o que Ele disse?

A mulher olhou para o rosto do padre e respondeu tranquilamente:

- Ele me disse que não se lembra.

Deus não apenas perdoa os nossos pecados; Ele os esquece. A Bíblia diz que Deus leva os pecados consigo e os enterra no fundo do mar. E, conforme Corrie ten Boom costumava dizer, "Ele coloca uma tabuleta ali com os seguintes dizeres: 'É proibido pescar'."


 

PARDAIS ASSUSTADOS

Recontada por Alice Gray

 

 

O vento começava a ganhar velocidade naquela manhã fria de dezembro, enquanto Tommy, um menino de nove anos, e seu pai subiam o morro a pé, em direção à cabana do velho Sr.

Sweeney. Tommy sentiu o cheiro da fumaça da chaminé e sabia que estavam chegando. Ele puxou o gorro de tricô para cobrir as orelhas, imaginando como seria a cabana de um ermitão. Os amigos de Tommy gostavam de falar sobre aquele homem excêntrico e comentavam, em voz baixa, o comportamento estranho que ele passou a ter depois que sua esposa morreu. Menos de um mês após o sepultamento dela, o Sr. Sweeney vendeu sua casa na cidade e foi morar no mato, retornando apenas duas vezes por ano para comprar mantimentos.

Quando pai e filho fizeram a última curva, avistaram o Sr. Sweeney na varanda olhando na direção deles, como se estivesse aguardando companhia. Tommy surpreendeu-se ao ver que, embora a pequena cabana e o celeiro necessitassem de pintura, estavam em ordem e muito bem cuidados.

Tommy sentia-se orgulhoso por estar na companhia do pai. E, quando foi apresentado ao Sr. Sweeney, apertou-lhe com firmeza a mão. Seu pai entregou ao homem uma cesta com bolinhos e geleia feitos em casa, conversou sobre a súbita mudança no tempo e convidou o Sr. Sweeney a ir à igreja na véspera do Natal. Os olhos cansados do velho anuviaram-se, e ele movimentou a cabeça negativamente. Sua voz estava um pouco mais áspera quando ele disse que não comemorava o Natal desde a morte da esposa. Além do mais, ele não via nenhum motivo para Deus ter vindo à terra como homem. Agradeceu a visita e disse que seria melhor que eles se apressassem para ir embora antes da tempestade.

Naquela tarde, o frio aumentou e o vento soprou com mais força. O Sr. Sweeney estava sozinho na cabana quando um barulho estranho o alertou. Ao olhar para fora, ele viu um bando de pardais batendo na vidraça, tentando entrar na casa para fugir da tempestade. Sabendo que os passarinhos morreriam se não encontrassem um abrigo, o velho ermitão vestiu sua jaqueta de caça e saiu em direção ao celeiro. Abriu a porta e acendeu a luz, na esperança de que os pardais entrassem ali.

Ao ver que eles não entravam, ele atirou um pouco de fubá perto da porta para atraí-los, mas os passarinhos se dispersaram.

Flocos de neve caíam ao redor do celeiro. O Sr. Sweeney escondeu-se agachado do lado de fora, aguardando que os pardais entrassem. Nada do que ele fez foi capaz de atrair os passarinhos para dentro do celeiro. Eles estavam atemorizados e não entendiam que alguém queria ajudá-Ios. Exausto e profundamente desapontado, o Sr. Sweeney pensou: Se eu pudesse ser um pardal eles não teriam medo de mim. Eu poderia explicar que não quero prejudica-los. Só quero protegê-los da tempestade.

De repente, o Sr. Sweeney lembrou-se das palavras que sua esposa havia proferido: "Deus veio à terra como homem porque não havia outro meio de nos provar quanto Ele nos ama." Lágrimas correram pelo rosto daquele homem enquanto observava os pardais do lado de fora do celeiro.

 

Naquela noite, Tommy continuou a pensar no homem idoso, imaginando como seria passar uma noite de tempestade sozinho na cabana no alto do morro. O menino perguntou ao pai se eles poderiam voltar a visitar o Sr. Sweeney na manhã seguinte.

Talvez ele tivesse mudado de ideia a respeito do Natal. O pai sorriu e disse:

- Claro.

Tommy foi dormir e puxou o cobertor para perto do queixo. Pediu a Deus que enviasse um milagre para ajudar o Sr. Sweeney ir à igreja com sua família na véspera do Natal.

Tommy não sabia que seu Pai amoroso já havia respondido àquela oração.

CALMA NA TEMPESTADE

Ron Mehl

 

 

Uma mulher, que foi surpreendida por uma tempestade ameaçadora no meio do Oceano Atlântico, passou o tempo todo lendo histórias da Bíblia para evitar que as crianças pequenas, que estavam a bordo, se assustassem. Depois que o navio chegou a salvo ao porto, o capitão, que observara o comportamento daquela mulher durante a tempestade, aproximou-se dela e perguntou:

- Como a senhora foi capaz de manter a calma quando todos temiam que o navio naufragasse por causa da tempestade?

Quando a mulher ergueu a cabeça, ele viu a mesma tranquilidade em seus olhos, a mesma paz que ela mantivera durante toda a viagem. - Eu tenho duas filhas - explicou a mulher cristã. - Uma mora em Nova York. A outra mora no céu. Eu sabia que, em questão de horas, estaria vendo uma de minhas filhas. E, para mim, não importava qual delas seria.


 

UMA PARÁBOLA DA PERSPECTIVA DE DEUS

Casandra Lindell

 

 

Do céu, Bert examinou o desenrolar do tempo e viu as atrocidades levadas a efeito pelo ser humano. Absolutamente consternado, ele apontou para uma cena inenarrável e perguntou a Deus:

- Como podes permitir aquilo? Olha o que o demônio está aprontando lá embaixo!

- Não há ninguém melhor que o demônio para criar uma tragédia como aquela! - disse Deus.

- Mas, Senhor, aquele homem faz parte de teu povo... oh, aquele pobre homem!

- Eu dei aos homens a liberdade de escolherem entre o bem e o mal - disse Deus, com o semblante triste. - Independentemente da escolha, todos eles vivem juntos. Às vezes, os que escolheram seguir meu caminho são pressionados pelos que escolheram o outro caminho. - Deus sacudiu lentamente a cabeça. - É sempre muito doloroso quando isso acontece.

- Mas aquelas pessoas que estão ali não têm escolha - protestou Bert. - Elas estão sendo sufocadas pela desgraça! Isto não é opção!

- Bert - disse Deus pacientemente -, você já me viu deixar de premiar o sofrimento?

- Não... não, mas... - Bert desviou o olhar da cena, incapaz de suportar.

- Veja! - Deus passou o braço ao redor dos ombros curvados de Bert e o fez olhar novamente para baixo. - Olhe bem ali, perto da parede.

- Aquele? Ele parece quase morto. Está orando?

- Ah, Bert, você deveria ouvir as orações dele! - Um amor intenso brilhou nos olhos de Deus como se fosse o clarão de um relâmpago.

- Orações simples, partindo de um coração angustiado. Este é o triunfo sobre o mal. A confiança em mim... esta foi a escolha. - Deus sorriu em meio a lágrimas brilhantes de amor. - Ele não é magnífico?

Eles permaneceram em silêncio, e Bert começou a ver o que Deus Via.

- Agora preste atenção, Bert - disse Deus meigamente, sem desviar.

os olhos da cena.

Ele chamou Miguel, e o arcanjo apareceu.

- Desça e traga-o para cá, Miguel. - Lágrimas de alegria divina foram derramadas. - Vou providenciar a festa.


 

FAZENDO ACERTOS

Ron Mehl

 

 

Um velho capitão do mar, chamado Eleazar Hall, morava em Bedford, Massachusetts, durante a época das grandes embarcações movidas a vela. Ele era famoso, admirado e respeitado como o capitão mais bem-sucedido da época. Trabalhava muito e viajava por longos períodos. Foi o capitão que perdeu o menor número de homens e pescou mais peixes do que qualquer outro.

Sempre perguntavam ao capitão Hall sobre sua fantástica habilidade de viajar tanto tempo sem nenhum instrumento de navegação. Certa vez, ele partiu numa viagem de dois anos, sem voltar para casa, que era seu ponto de referência.

Eleazar respondia simplesmente:

- Ah! eu subo ao convés e presto atenção ao vento e aos cabos e cordas da embarcação. Sinto a direção da água, olho para as estrelas e estabeleço minha rota.

Bem, os tempos mudaram em Bedford. Grandes empresas seguradoras lá se instalaram, e seus proprietários disseram que não fariam seguro de navios se os capitães não tivessem um navegador a bordo devidamente treinado e autorizado. As pessoas temiam dar essa notícia a Eleazar. Mas, para surpresa de todos, ele disse:

- Se eu for obrigado, farei os cursos de navegação que forem necessários.

Eleazar diplomou-se com louvor e, por sentir muitas saudades do mar, partiu imediatamente numa longa viagem. No dia de sua volta, a cidade inteira lhe fez esta pergunta:

- Eleazar, o que você achou de navegar com todos aqueles mapas e cálculos?

Eleazar endireitou o corpo e deu um longo suspiro.

- Ah! - ele respondeu -, foi simples. Sempre que eu queria saber a posição do navio, ia até minha cabina, pegava os mapas e as tabelas, fazia cálculos e estabelecia minha rota de viagem com precisão científica. Depois, eu subia ao convés e prestava atenção ao vento e aos cabos e cordas da embarcação, sentia a direção da água, olhava para as estrelas e corrigia os erros que tinha cometido ao fazer os cálculos.

Quando ouvi esta história, eu orei: Senhor, quero conhecer-te desta maneira. Quero subir ao convés, prestar a atenção à tua manda voz em meu coração, refletir sobre tua Palavra eterna e, depois, fazer acertos em todos aqueles planos maravilhosos, lógicos e científicos que tracei para mim.


 

O TRAPEIRO

Walter J. Wangerin

 

 

Vi uma cena estranha. Deparei-me com uma história mais estranha ainda. Algo que minha vida, minhas andanças pelas ruas e minha língua ferina não me prepararam para enfrentar.

Silêncio, criança. Silêncio. Eu vou contá-la para você.

 

Amanhã de sexta-feira ainda não havia clareado quando avistei um moço bonito e forte, caminhando pelas vielas da parte baixa de nossa cidade. Ele empurrava um velho carrinho, cheio de roupas novas e coloridas, e gritava com voz clara de tenor:

- Trapos!

Ah! o ar poluído e os primeiros raios de luz empoeirados não combinavam com aquela voz melodiosa.

- Trapos! Troco trapos velhos por novos! Levo embora seus trapos!

Trapos!

Que maravilha!, pensei. O moço tinha dois metros de altura. Seus braços fortes e musculosos faziam lembrar dois galhos de árvores. De seus olhos faiscava inteligência. Será que ele não teria um trabalho melhor para fazer do que vender trapos numa cidade do interior?

Resolvi segui-Ia. Fui levado pela curiosidade. E não me decepcionei.

Logo depois, o trapeiro avistou uma mulher sentada na varanda dos fundos de sua casa. Ela chorava com um lenço no rosto, suspirando e derramando lágrimas em profusão. Seus joelhos e cotovelos formavam um triste X. Os ombros tremiam. Seu coração estava despedaçado.

O trapeiro parou de empurrar o carrinho. Sem dizer nada, ele caminhou até a mulher, contornando latas, brinquedos velhos e fraldas.

- Dê-me seu trapo - ele disse gentilmente. - Vou trocá-Io por outro.

O moço pegou o lenço da mulher. Ela ergueu a cabeça, e ele lhe entregou um pano de linho que brilhava de tão limpo e novo. A mulher olhou para o presente e, depois, para o moço, piscando sem entender nada.

Em seguida, quando voltou a empurrar o carrinho, o Trapeiro fez uma coisa estranha: cobriu o rosto com o lenço da mulher manchado de lágrimas e começou a chorar. O choro era tão triste quanto o dela.

Seus ombros tremiam. A mulher havia parado de chorar.

Que maravilha!, pensei.

Segui o Trapeiro como se eu fosse uma criança querendo desvendar um mistério.

- Trapos! Trapos! Troco trapos velhos por novos!

Pouco tempo depois, quando o céu começou a ficar acinzentado por trás dos telhados e eu consegui enxergar as tiras de cortinas penduradas nas janelas escuras, o Trapeiro encontrou uma menina com a cabeça enfaixada e olhar inexpressivo. As ataduras empapadas de sangue deixavam escapar um filete vermelho que lhe escorria pelo rosto.

O Trapeiro olhou para aquela criança com piedade e tirou um lindo boné amarelo de seu carrinho.

- Dê-me seu trapo - ele disse, passando o dedo no rosto dela. - Vou trocá-lo pelo meu.

A menina limitou-se a olhar para o moço enquanto ele desenrolava as ataduras e as amarrava na própria cabeça. O boné foi colocado na cabeça dela. E eu prendi o fôlego diante do que vi: o ferimento saiu grudado nas ataduras! Da testa do moço corria um filete de sangue mais escuro, mais grosso - o sangue dele!

- Trapos! Trapos! Aceito trapos! - gritava o Trapeiro forte e inteligente, chorando e sangrando.

A claridade do sol ofuscou o céu e, agora, ofuscava meus olhos; o Trapeiro parecia estar com muita pressa.

- Você vai trabalhar? - ele perguntou a um homem encostado a um poste de telefone. O homem balançou a cabeça negativamente.

O Trapeiro insistiu:

- Você tem um emprego?

- Você é louco? - esbravejou o homem.

Ao afastar-se do poste, ele deixou à mostra a manga direita de sua jaqueta - solta, com o punho enfiado no bolso. Ele não tinha um braço.

- Dê-me sua jaqueta - disse o Trapeiro. - Vou trocá-Ia pela minha.

Apesar de suave, que autoridade tinha sua voz!

O homem de um braço só tirou a jaqueta. O Trapeiro fez o mesmo - e eu tremi diante do que vi: o braço do Trapeiro saiu com a manga da jaqueta e, quando o homem a vestiu, tinha dois braços perfeitos, fortes como galhos de árvores; mas o Trapeiro tinha só um.

- Vá trabalhar - ele disse.

Depois disso, ele encontrou um bêbado, deitado inconsciente debaixo de um cobertor do exército - um velho, curvado, magro e doente. O Trapeiro pegou o cobertor e o enrolou em torno de si, deixando cobertores novos para o bêbado.

Agora eu tinha de correr para acompanhar os passos rápidos do Trapeiro. Embora estivesse chorando incontrolavelmente, sangrando na testa, puxando o carrinho com um só braço, tropeçando, caindo várias vezes, exausto, velho, muito velho e doente, ele caminhava com uma velocidade incrível. Com passos rápidos e largos, ele atravessou rapidamente as vielas, quilômetro após quilômetro, até chegar ao limite da parte baixa da cidade. Em seguida, caminhou mais apressado ainda.

Chorei ao ver a mudança ocorrida naquele moço. Chorei ao ver sua tristeza. Mesmo assim, eu precisava ver para onde ele estava indo com tanta pressa, talvez para saber o que o levava a fazer isso.

O Trapeiro, agora velho e pequenino, chegou a um aterro sanitário.

Ele chegou perto dos fossos de lixo. Eu queria ajudá-Io no que ele fazia, mas permaneci afastado, escondido. Ele escalou um morro.

Com muito trabalho, limpou um pequeno espaço no alto do morro. Em seguida, deu um longo suspiro. Deitou-se. Fez uma espécie de travesseiro com um lenço e uma jaqueta e pousou a cabeça ali. Cobriu o corpo esquelético com um cobertor do exército. E morreu.

Ah, como chorei ao presenciar aquela morte! Mudei dentro de um carro transformado em ferro-velho e chorei como alguém que não tinha mais esperanças - porque eu passara a amar o Trapeiro. Todos os outros rostos haviam-se misturado ao rosto maravilhoso daquele moço, e eu o amava muito; mas ele morreu. Chorei até adormecer.

E eu não sabia - e como poderia saber? - que dormi a noite inteira de sexta-feira, e continuei dormindo durante o dia e a noite de sábado.

De repente, na manhã de domingo, fui despertado abruptamente.

Uma luz - pura, forte, insistente - bateu em meu rosto amargurado, e eu pisquei, olhei e vi a última e a primeira maravilha. Lá estava o Trapeiro, dobrando o cobertor com muito cuidado, com uma cicatriz na testa, mas vivo! E. além de vivo, cheio de saúde! Não havia sinais de tristeza nem de idade em seu rosto, e todos os trapos que ele recolhera brilhavam de tão limpos.

Abaixei a cabeça e, tremendo diante de tudo o que presenciara, caminhei até o Trapeiro. Eu lhe disse qual era o meu nome, envergonhado demais porque, ao lado dele, eu não passava de uma triste segura. Em seguida. tirei as minhas roupas e lhe disse com voz de súplica:

- Vista-me.

Ele me vestiu. Meu Senhor, Ele me vestiu com trapos novos, e fiquei maravilhoso ao lado dele. Ao lado do Trapeiro, do Trapeiro, do Cristo!


 

OS SINOS ESTÃO TOCANDO

James Dobson

 

 

Gracie Schaeffler, urna enfermeira com quem trabalhei, cuidou de um menino de cinco anos, durante seus últimos dias de vida. Ele estava morrendo de câncer no pulmão...

A mãe do menino era cristã e o amava muito. Ela permaneceu ao lado do filho durante o longo sofrimento. Embalava-o no colo e conversava com ele a respeito de Deus. Instintivamente, aquela mulher estava preparando o filho para o momento final. Gracie contou-me que, ao entrar no quarto quando a morte estava se aproximando, viu o menino falar que ouvia sinos tocando.

- Os sinos estão tocando, mamãe - ele disse. - Eu posso ouvi-los.

Gracie pensou tratar-se de urna alucinação, porque ele já estava agonizando. Ela saiu do quarto e retomou minutos depois. Novamente, ele falava que estava ouvindo sinos tocando.

A enfermeira disse à mãe do menino:

- A senhora deve saber que seu filho está ouvindo coisas que não existem. Ele está tendo alucinações por causa da doença.

A mãe puxou o filho para perto de si, sorriu e disse:

- Não, Sra. Schaeffler. Ele não está tendo alucinações. Eu lhe disse que quando se sentisse assustado, sem conseguir respirar, deveria prestar atenção para ouvir os sinos do céu tocando para ele. É por isso que ele está falando o dia inteiro de sinos tocando.

A preciosa criança morreu no colo da mãe naquela noite, e ainda estava falando dos sinos do céu quando os anjos vieram buscá-la...


 

O PRESENTE

Gary Swanson

Histórias Para o Coração 3 15

 

Na sala de espera do consultório médico, a mãe, sentada em uma poltrona, uma imitação de couro, cutucava as unhas apreensivamente. Com o cenho franzido, observava seu filho, Kenny, de cinco anos, no tapete à sua frente.

Ele é pequeno e magrinho demais para sua idade, pensou ela. O cabelo liso do garoto. louro e macio, chegava até a altura da orelha. A cabeça estava envolta em gaze branca, que cobria seus olhos e apertava as orelhas.

O garoto balançava no colo um ursinho de pelúcia: o orgulho da vida desse menino, embora estivesse bem usado e já lhe faltassem um braço e um olho. A mãe já tentara se desfazer do ursinho duas vezes, propondo trocá-lo por um novo, mas como o garoto fazia espalhafato, acabou cedendo. Ela inclinou a cabeça um pouco e sorriu para ele.

Na verdade - suspirou ela - isso é tudo o que ele tem.

A enfermeira apareceu à porta e chamou: "Kenny Ellis". A jovem mãe pegou o garoto e seguiu a enfermeira até o consultório. O corredor cheirava a álcool e a ataduras. Desenhos de crianças revestiam as paredes.

- O médico estará aqui com vocês logo mais. Por favor, sentem-se - disse a enfermeira com um sorriso experiente.

A mãe colocou o garoto sobre a maca em que seria examinado e lhe disse gentilmente:

- Cuidado para não cair, meu docinho!

- Mãe, esta cama é muito alta?

- Não, meu querido, mas tenha cuidado!

a garoto abraçou seu ursinho ainda mais:

- Também não quero que o Cara-de-bravo caia no chão.

A mãe sorriu, mas esse sorriso transformou-se em uma expressão que traduzia sua preocupação. Ela arrumou o cabelo do garoto que caía sobre a face e acariciou, com o dorso de sua mão, a bochecha dele, macia e aveludada. Quando a música de fundo, ininterrupta, começou a tocar uma versão lúgubre de Noite silenciosa, ela relembrou o acidente pela milésima vez.

Ela sempre usara as bocas de trás do fogão, mas ali estava a água, na boca dianteira, fervendo para o mingau de aveia.

a telefone tocou, e ela foi à sala para atendê-lo. Era mais uma dessas ofertas para receber algo "inteiramente grátis", mas que na verdade era muito caro. No momento em que desligou o telefone, Kenny gritou na cozinha: um grito estarrecedor de dor, que a sobressaltou e fez o seu sangue de mãe gelar nas velas.

Relembrar isso a fez estremecer novamente, e ela limpou uma lágrima que descia sobre sua face. Havia seis semanas que esperavam por esse momento.

- Só poderemos retirar o curativo uma semana antes do Natal - dissera o médico.

A porta do consultório abriu e o Dr. Harris entrou. Bem animado, disse:

- Bom dia, Sra. Ellis! Como vai?

- Bem, obrigada! - retrucou, embora estivesse muito apreensiva para sustentar qualquer tipo de conversa.

O Dr. Harris inclinou-se sobre a pia e lavou demoradamente as mãos. Ele era bem cuidadoso com os pacientes, mas muito desleixado consigo mesmo. Quase nunca conseguia ter tempo para cortar o cabelo, liso e negro, que cobria o colarinho de sua camisa. A gravata, afrouxada, permitia que o colarinho ficasse aberto.

- Bem - disse ele, enquanto sentava em um banquinho vamos dar uma olhada nisto aqui!

Ele cortou suavemente a gaze e a desenrolou com cuidado.

a curativo foi retirado, mas ainda restavam dois pedaços de gaze, presos com esparadrapo, que cobriam os olhos de Kenny.

a Dr. Harris levantou bem devagar a borda do esparadrapo, procurando não ferir o garoto, pois a pele, nessa região, estava muito sensível.

Kenny abriu os olhos bem devagar, piscou diversas vezes, como se a luz repentina o tivesse ferido. A seguir, olhou para sua mãe e sorriu:

- ai, mamãe! - disse ele.

A mãe, sem fala e soluçando, envolveu Kenny em seus braços.

Não conseguiu dizer nada por algum tempo, pois abraçava o garoto e chorava de gratidão. Por fim, dirigiu-se ao Dr. Harris, com os olhos rasos de água, e disse:

- Não sei como poderemos pagar o senhor!

- Já discutimos este assunto antes! - retrucou o médico com um balançar de mãos. - Sei como as coisas são difíceis para a senhora e o Kenny. Fico feliz por tê-los ajudado!

A mãe enxugou as lágrimas com um velho lenço, ficou em pé e segurou Kenny pela mão. No entanto, enquanto dirigia-se li porta, Kenny se desvencilhou dela e ficou olhando, cheio de dúvidas, para o médico. A seguir, levantou o ursinho pelo único braço que possuía e o entregou ao médico.

- Fique com o meu Cara-de-bravo, pois ele deve valer muita grana.

O Dr. Harris, sensibilizado, pegou o ursinho e agradeceu:

- Muito obrigado! Isso certamente vale muito mais do que eu cobraria pelo tratamento.

Os dias que antecederam esse Natal foram especialmente agradáveis para Kenny e sua mãe. A noite, sentavam-se por longas horas para observar as luzes da árvore de Natal que piscavam sem parar. Kenny, após seis semanas em que tivera os olhos cobertos por aquele curativo, relutava em fechá-los para dormir. O fogo crepitando na lareira, a neve grudada no vidro da janela de seu quarto, embaixo da árvore dois únicos pacotes de presentes, enfim todas as cores e luzes do Natal o deixavam fascinado.

Então, à véspera do Natal, a mãe de Kenny atendeu à porta e, embora não houvesse ninguém ali, viu na soleira uma enorme caixa embrulhada em papel dourado e com um grande laço vermelho. Um cartão preso à fita indicava que a caixa era endereçada a Kenny Ellis.

Kenny, com um sorriso, desfez afobado o laço da caixa, abriu a tampa e retirou um ursinho - seu querido Cara-de-bravo.

A diferença é que agora tinha um novo braço, feito de veludo marrom, e dois olhos novinhos, feitos de botões, que brilhavam na luminosidade suave das luzes de Natal. Parece que Kenny nem se importou que o novo braço não combinava com o outro, pois apenas abraçou seu ursinho e deu um largo sorriso.

Na caixa, entre os papéis de seda que envolviam o ursinho, a mãe encontrou um cartão: “Querido Kenny, algumas vezes condigo dar um jeito em garotos e garotas que se machucam, mas a Sra. Harris teve de me ajudar a consertar o Cara-de-bravo. Ela é uma médica de ursinhos muito mais competente do que eu! Feliz Natal! Dr. Harrids.

- Mãe! Olha aqui mãe! - disse Kenny, com um sorriso, enquanto mostrava os olhos feitos com botões. - O Cara-de-bravo também pode enxergar de novo! Exatamente como eu!

 

 

 

 

Quando os Ventos São Turbulentos

 

Se sua vida está turbulenta – com os ventos de mudança, os ventos da adversidade, ou talvez, os ventos constantes das exigências e expectativas que deixam você se sentindo arrasado – anime-se. Minha mãe costumava dizer: “As raízes se aprofundam mais quando os ventos são turbulentos”. CHARLES R. SWINDOLL

 


 

A BOLSA VERMELHA

Louise Moeri Na Revista Virtue [Virtude]

Histórias Para o Coração 3 20

 

 

Sei que não devemos julgar as pessoas, mas achei impossível evitar essa atitude quando vi Kennie Jablonsky. Cheguei à conclusão de que ele era a pessoa errada para aquele tipo de trabalho.

Sou enfermeira plantonista, a responsável pela avaliação do desempenho dos trabalhadores do hospital Homeland Convalescent [Convalescentes da Pátria].

Kennie Jablonsky era um funcionário novo, alto e bem forte, de boa aparência, loiro, com o cabelo cortado à altura da nuca, e tinha olhos verde-escuros. Após algumas semanas de experiência, tive de admitir que era asseado, pontual e razoavelmente eficiente. No entanto, eu não gostava dele.

Kennie Jablonsky parecia um marginal. Eu conhecia a região onde ele morava - um reduto de gangues, drogas e violência. Seu linguajar era cheio de gírias; sua postura, esquisita; seu andar, apesar do molejo, controlado como o de um boxeador, e sua expressão, impenetrável como a porta de aço de um cofre de banco. Parecia que tinha uma tremenda força de vontade, cuidadosamente sob controle, pois queria ajustar-se a um grupo de trabalho altamente especializado de um hospital destinado a convalescentes.

A grande maioria de nossos pacientes chegava ali nos estágios finais de qualquer doença terminal ou devido à doença mais terminal de todas - a velhice. Os pacientes vinham quando já estavam fisicamente aleijados, fracos, confusos e derrotados, ou seja, incapazes de sobreviver sozinhos lá fora. Muitos deles já haviam perdido a capacidade de raciocinar com lógica, um infortúnio devido à saúde debilitada e à sociedade que, muitas vezes, é brutal e indiferente.

Maria B. era uma dessas pacientes. Os funcionários a chamavam de Maria B., pois era uma das quatro Marias da enfermaria Oeste. Aos 94 anos, Maria B. era frágil como o cristal. Ela perdera seu marido e irmãs e, se tinha filhos, eles já a haviam abandonado muito tempo atrás. Quando estava acordada, não ficava quieta.

Maria B. tinha uma obsessão, pois cismou que alguém havia furtado sua bolsa. Ela, sem nunca desistir de encontrá-Ia, a procurava horas a fio, noite e dia. A não ser que estivesse amarrada à cama ou à cadeira de rodas, saía para a rua ou entrava na enfermaria dos homens, ia à lavanderia ou à cozinha, sempre procurando sem cessar e insensatamente. Quando a impediam de continuar a busca, ela pedia que a colocassem em sua cadeira de rodas no corredor para fazer perguntas a qualquer pessoa que se aproximasse dela.

- Você pode me emprestar um pente? - perguntava ela. Perdi o meu, que estava na minha bolsa vermelha. Meu dinheiro também se foi. Onde está a minha bolsa? Onde está a minha bolsa? - repetia sem parar.

A mesma história todos os dias, até que ninguém mais prestava atenção às perguntas de Maria B., que não passavam de barulho de fundo, como o tinir dos carrinhos carregados de bandejas empurrados ao longo dos corredores, o zumbir do ar-condicionado ou o barulho do interfone.

Todos nós sabíamos que Maria B. não tinha uma bolsa. No entanto, vez ou outra, embora sempre estivéssemos extremamente ocupados, alguém parava para dar-lhe atenção apenas por simples gentileza ou preocupação pela ansiedade dela. No entanto, a maioria de nós apenas passava por ela com a fala costumeira: "Ê claro, Maria, se eu vir sua bolsa, certamente a trarei para você".

A maioria de nós, exceto um.

A última coisa que eu esperaria de Kennie Jablonsky era que desse atenção a Maria B., mas, por mais estranho que pareça, ele sempre tinha algo a dizer para ela.

- O que esse fulano quer? - perguntava-me, à medida que o observava.

Minha primeira suspeita era de que ele arrumara esse emprego só para furtar drogas. Eu achava que certamente havia descoberto um desordeiro.

Todos os dias que Maria B. parava Kennie para perguntar sobre sua bolsa, e ele lhe prometia que a procuraria, minhas suspeitas aumentavam. Por fim, cheguei à conclusão de que Kennie estava planejando algo que envolveria Maria B. Achava que ele, certamente, furtaria drogas e daria um jeito de escondê-Ias na cadeira de rodas dela. Depois desse primeiro passo, um cúmplice viria para levar a droga para fora do hospital. Tinha tanta certeza de que isso aconteceria, que decidi aumentar a segurança no departamento onde as drogas eram armazenadas.

Uma tarde, um pouco antes do jantar dos pacientes, vi Kennie andando pelo corredor com uma sacola de supermercado bem pesada.

Ê agora, pensei, enquanto deixava bem depressa minha escrivaninha. Fui atrás dele, mas percebi que necessitava de mais evidências. Escondi-me atrás de um carrinho de lavanderia, cheio de cestas, empilhadas.

Essa pilha de cestas era alta o suficiente para esconder-me, embora fosse possível ver Kennie claramente enquanto ele se dirigia à cadeira de rodas de Maria B.

Assim que alcançou Maria B., virou-se bruscamente e olhou sobre seus ombros. Escondi-me para que não me visse, mas eu ainda podia vê-Io, esquadrinhando atentamente o corredor, olhando de cá para lá. Era óbvio que ele não queria que ninguém visse o que estava fazendo.

Quando levantou a sacola, fiquei imóvel... até que retirou uma bolsa vermelha dela.

As mãos de Maria B. moveram-se rapidamente e ela cobriu o rosto com aqueles dedos frágeis, um gesto que traduzia toda a sua admiração e alegria. Ela, como uma criança faminta pronta para pegar um pedaço de pão, agarrou a bolsa vermelha. Ela a segurou por um momento, apenas para admirá-Ia, e, a seguir, a pressionou contra o peito, embalando-a como se fosse um bebê.

Kennie virou-se e olhou os arredores atentamente. Após certificar-se de que ninguém o observava, debruçou-se sobre Maria n. e abriu a bolsa para mostrar-lhe o pente vermelho, o pequeno porta-níqueis e um par de óculos de brinquedo. Lágrimas de alegria corriam pela face de Maria B. Pelo menos, achei que eram.

Lágrimas também banhavam meu rosto.

Kennie deu um tapinha amistoso no ombro de Maria B., amassou a sacola do supermercado, jogou-a no cesto de lixo mais próximo e foi para o fim do corredor, o local onde deveria desempenhar sua função.

Retomei para minha escrivaninha, sentei-me, abri a última gaveta e retirei dali minha velha e usada Bíblia. Abri em Mateus capítulo 7 e pedi ao Senhor que me perdoasse...

No fim de meu turno de trabalho, fiquei próximo à porta utilizada pelos auxiliares que chegavam ao trabalho ou pelos que estavam terminando seu turno. Kennie, com seu casaco e rádio, veio gingando ao longo do corredor.

- Oi Kennie! - disse. - Como está se saindo? Você acha que vai gostar deste trabalho?

Kennie ficou surpreso e, a seguir, encolheu os ombros.

- Esse é o melhor que encontrei e vou encontrar! - resmungou ele.

- Enfermagem é uma boa profissão! - arrisquei lhe dizer, pois uma idéia estava amadurecendo. - Você já considerou a possibilidade de ir para a universidade para graduar-se como enfermeiro?

- Tá brincando? - disse baixinho, entre dentes. - Sem chance!

Só estou aqui porque o curso de auxiliar de enfermagem foi gratuito!

Sabia que isso era verdade. Kennie colocou o rádio no chão e puxou o casaco.

- Universidade? Só se acontecer um milagre! Meu velho tá em cana, e minha mãe é viciada em cocaína!

Cerrei os dentes, mas mesmo assim fui capaz de sorrir para ele.

- Milagres acontecem! - disse-lhe. - Você iria para a universidade se eu encontrasse um meio de ajudá-Io com as despesas?

Kennie me encarou. Em um estalar de dedos o ar de marginal se desvaneceu e pude vislumbrar o que ele poderia vir a ser.

- Iria! - foi tudo o que disse.

No entanto, isso era o suficiente.

- Boa noite, Kennie! - disse-lhe enquanto ele segurava com força a maçaneta. - Tenho certeza de que poderemos fazer alguma coisa a esse respeito!

Tinha certeza, também, de que Maria B., no quarto 306 da enfermaria Oeste, dormia calmamente, abraçadinha à sua bolsa vermelha.


 

A FESTA DO SORVETE

Rochelle M. Pennington

Histórias Para o Coração 3 25

 

 

Parei na lanchonete e, embora ela estivesse lotada, comprei um sanduíche e consegui sentar-me próximo à mesa de lima família que celebrava, com um bolo de sorvete, o jogo de basquete de seu filho. Como os corredores eram extremamente estreitos, não demorou muito para que eu me sentisse parte da festa.

- Então, seu time deve ter vencido a partida hoje! - comentei.

O garoto sorriu e anunciou de todo coração:

- Não, perdemos de 24 a 2!

- Bem, então você deve ter feito a única cesta! - repliquei.

- Não, errei todos os oito arremessos que fiz, mas três deles acertaram o aro!

O garoto estava radiante, e eu bem confusa. Eles estavam celebrando uma derrota e oito arremessos perdidos! Raramente fico em uma situação na qual não sei o que dizer, mas, naquele momento, a única resposta que me aventurei a dar foi um olhar de perplexidade e um sorriso amarelo, totalmente forçado. Realmente, não sabia o que fazer!

O garoto, após outra boa colherada de bolo e ainda com um grande sorriso estampado em sua face, arrematou:

- Estamos celebrando, pois na semana passada eu perdi nove arremessos e todos eles nem sequer passaram próximo da tabela.

Papai me disse que o treino desta semana realmente valeu a pena.

Estou fazendo grandes progressos!


 

A NOBRE ARTE DE MUDAR DE DIREÇÃO

Histórias Para o Coração 3 28

 

 

O cata-vento no alto da torre da igreja, embora de ferro, seria facilmente destruído pela ventania, se não compreendesse a nobre arte de mudar de direção ao sabor do vento.

HEIRINCH HEINE


 

MOLLY

Barbara Baumgardner

Em HUMANE SOCIETY OF CENTRAL OREGON NEWSLETTER

[DIARIO DA SOCIEDADE HUMANITÁRIA DA REGIÃO CENTRAL OE OREGON]

Histórias Para o Coração 3 29

 

 

Quando levo Molly para dar uma volta, sou muitas vezes abordada por pessoas que dizem que um dia tiveram um cão  de raça - golden retriever. Chamo essas pessoas de corações afins, pois parece que não fazem objeção ao fato de Molly deixar pêlos ou babar em suas roupas sempre que paro para bater um papinho com elas. Os corações afins são muito mais tolerantes com os cães desgrenhados, que soltam pêlos e babam - e, geralmente, com as pessoas também. Molly está aprendendo a descobrir esses corações afins quando visitamos asilos, casa para crianças em custódia e hospitais.

Não tinha muita certeza de que Molly, com apenas 18 meses, fosse capaz de ficar calma o suficiente para torriar-se um "cão visitador" no programa da Sociedade Humanitária. Ela é uma golden típica: afetuosa, mas ativa, sempre abanando a cauda e pronta para brincar. Tom Davis a descreve muito bem em seu livro [Apenas Goldens], quando diz que "os goldens são imaginativos, meigos, inimigos da rotina... cheios de peculiaridades, apreciadores de brincadeiras e com muitas surpresas... e que certamente você gostaria que um golden desse uma festa, pois em apenas algumas horas dessa festividade ele já seria o centro das atenções".

A Molly é assim: o centro das atenções.

Ela não tinha muita certeza de qual seria seu papel quando começamos a realizar nossas visitas programadas.  Ela se agitava e batia com a cauda em todos à sua volta; um cão que abana a cauda com tamanho ímpeto e força pode machucar alguém ou derrubar tudo o que estiver sobre qualquer mesinha de centro. Pobre Molly, ainda achava que era possível  aconchegar-se  no colo das pessoas, mas as que visitávamos, ou estavam debilitadas demais pela saúde frágil ou eram muito pequenas para dar-lhe colo. Entretanto, como todos os goldens Molly tinha esse desejo inato de querer agradar-me. À medida que atendia e dava atenção às pessoas, ela percebeu que, caso se sentasse, algumas pessoas poderiam fazer-lhe agrados ou, melhor ainda, abraçá-la. Havia momentos em que deitava sua cabeça sobre um colo acolhedor.

Outro dia, em uma de nossas visitas, ela se comportou de forma bem profissional. Estávamos em um centro de tratamento, na ala destinada às pessoas que necessitam de muita ajuda. Uma mulher, presa à cadeira de roda, parecia tão  ausente  e distante que quase passamos por ela sem notá-la. Tinha as mãos aleijadas, retorcidas; sua cabeça pendia para o lado e seus olhos estavam fechados. Molly parou, e eu também.

A mulher, quando coloquei minha mão sobre o seu braço, respondeu ao meu toque. Então, peguei aquela mão retorcida e a coloquei sobre o dorso de Molly, para que ela tocasse seu pêlo macio. Quando sua mão, guiada pela minha, acariciou a cabeça de Molly, a mulher abriu  os  olhos  e  começou  a  sorrir.  Logo ela estava totalmente alerta e ria como uma criança, à  medida que continuei a passar a mão dela sobre o  corpo de Molly,  que se sentou próximo à mulher e colocou a cabeça sobre aquelas pernas presas à cadeira de rodas.  A seguir,  a mulher, sem ajuda

alguma, conseguiu inclinar-se para a frente a ponto de ser capaz de  envolver  o pescoço de  Molly  com  seus  braços.  Os  risos  de euforia dela chamaram a atenção das enfermeiras que estavam por perto. Essa mulher não era capaz de falar, mas foi capaz de transmitir seu coração afim, ao dar amor por meio do toque, da mesma maneira como Molly fazia.

Molly e eu visitaremos novamente essa mulher. Acho que Molly finalmente compreendeu que, quando faz essas visitas, ela

precisa deixar de ser o centro das atenções para ser apenas uma simples coadjuvante da alegria e da luz.


 

TODOS NÓS PRECISAMOS DE CUIDADOS

Max Lucado

Histórias Para o Coração 3 32

 

 

Que bom que você está ao meu lado. Sabe, algumas vezes, eu vomito.

Ninguém gostaria de ouvir isso em um avião, principalmente se quem disse isso for o passageiro sentado ao seu lado. Antes mesmo que tivesse colocado minha bagagem de mão no gavetão, o compartimento acima de minha cabeça, eu já sabia o nome, a idade e o itinerário dele.

- Meu nome é Billy Jack, tenho 14 anos e vou para casa visitar meu pai.

Comecei a dizer-lhe meu nome, mas ele foi mais rápido e falou antes de mim.

- Preciso que alguém cuide de mim. Fico sempre muito confuso.

Contou-me da escola especial que frequentava e dos remédios que tinha de tomar.

- Será que você pode me lembrar que tenho de tomar meu remédio logo mais?

Antes de acabar de colocar o cinto de segurança, ele parou uma aeromoça e disse-lhe:

- Não se esqueça de mim. Fico sempre confuso.

Após levantarmos voo, Billy Jack pediu um refrigerante e mergulhou a bolacha de água e sal no copo. Enquanto eu tomava meu refrigerante, ele não parava de olhar para mim e me perguntou se podia beber o resto que eu deixara no copo. Ele derramou um pouco de refrigerante e pediu desculpas.

- Tudo bem, não se preocupe! - disse-lhe, enquanto limpava o que ele sujara.

Quando começou a brincar com seu videogame, tentei tirar uma soneca. Foi nesse momento que ele começou a fazer barulho, pois procurava imitar um trompete.

- Eu também sei imitar o barulho do oceano - gabou-se ele, enquanto fazia um zunido com a saliva, ao comprimi-la aqui e ali entre os dentes e a bochecha.

(Na verdade, não soava como o oceano, mas eu não disse isso a ele.)

Billy Jack era uma criança em um corpo de adulto.

- Será que as nuvens podem bater no chão? - perguntou-me.

Comecei a responder, mas ele se virou para olhar através da janela como se jamais tivesse perguntado alguma coisa. Ele não demonstrava o menor constrangimento ao afirmar suas necessidades, e toda vez que a aeromoça passava por perto, ele a lembrava: "Não se esqueça de cuidar de mim".

Quando traziam a comida: "Não se esqueça de cuidar de mim".

Quando traziam mais refrigerantes: "Não se esqueça de cuidar de mim".

Quando qualquer aeromoça passava por perto, ele pedia com insistência: "Não se esqueça de cuidar de mim".

Realmente, não consigo me lembrar de um momento sequer em que Billy Jack não lembrou a tripulação de que ele necessitava de cuidados. O restante de nós não precisava disso. Jamais pedimos ajuda. Afinal, somos adultos, sofisticados e confiantes. Viajantes experimentados. A maioria de nós  nem  sequer  escutou as instruções para uma eventual aterrissagem de emergência.

(Billy  Jack pediu  que eu  as  explicasse para ele.)

O livro de Romanos, uma epístola que desafia os presunçosos e os autossuficientes, foi escrito para pessoas como nós. Confessar suas necessidades é um sinal de fraqueza, algo que relutamos em fazer. Acredito que Billy Jack teria compreendido a graça. Percebi que, na verdade, ele era a pessoa que corria menos risco em todo o avião. Se houvesse algum problema com o avião, ele seria o primeiro a ser socorrido. As aeromoças certamente passariam por cima de mim, que estava mais próximo da passagem, para alcançá-lo junto à janela. Por quê? Porque ele se colocara à mercê de alguém mais forte do que  ele.

Agora,  pergunto:  "Você faz isto?".

De uma coisa temos  certeza:  nós  não  podemos  nos  salvar.  Deus enviou seu Filho  primogênito  para  levar  você  para  o  eterno lar. Será que você está realmente no  domínio  da  graça?  Oro  para que esteja. Oro sinceramente para que esteja.

Apenas um comentário a mais. Billy Jack passou a última hora de voo com sua cabeça apoiada em meu

ombro, e as mãos, juntas, entre suas pernas. No momento em que pensei que adormecera, ele levantou a cabeça e me disse: "Meu pai vai me esperar no aeroporto. Estou louco de vontade de vê-lo, pois ele cuida de mim!".

O apóstolo Paulo certamente gostaria muito de conhecer Billy Jack.


 

CARTAS DE AMOR

Bob Welch

Histórias Para o Coração 3 35

 

 

Quase todo mundo sabe que a avó de Sally jamais mexeu em um computador. Ela também não gostava muito de faze telefonemas. Em vez disso, comunicava-se com sua família, já bem numerosa, por intermédio de algo melhor do que qualquer coisa que a alta tecnologia pode oferecer, até mesmo melhor do que e-mails.

Ela mantinha contato com todos nós pelo v-maiL - vó-mail.

Gram Youngbergh, que morreu no outono de 1997, aos 95 anos de idade, escrevia cartas. Milhares de cartas ao longo de várias décadas, a maioria das quais minha esposa guardou. Parte do legado de Gram foi a maneira como ele viveu, mas a outra parte dele foram as palavras que nos deixou - palavras que se tornaram uma extensão da mulher que as escreveu. Palavras que ajudaram a sustentar e a ligar as partes interdependentes de sua árvore genealógica, seu maior legado.

Elas nos revelam uma mulher simples, o sal da terra, que observava as idas e vindas diárias das pessoas com um entusiasmo minucioso. Como Emily, a jovem da peça Our Town [Nossa Cidade], de Thorton Wilder, que questiona se alguém, além dos "santos e poetas", realmente percebe as nuanças da vida à nossa volta. Gram era também como os "santos e poetas", pois sempre observava o "badalar do relógio, os girassóis da mamãe, os vestidos bem passados e os banhos de banheira, bem quentinhos ... ". Mais do que tudo, prestava atenção à família numerosa e aos amigos.

Em uma de suas cartas escreveu: Bud Payne ainda está preso em casa devido à ruptura do ligamento do joelho ... Max Coffey planeja ser o mecânico da equipe médica que irá ao Haiti em novembro ... meu Deus, como Brad e Paul cresceram!. ..

As cartas falam de uma pessoa para quem os outros eram prioridade, pois tinham grande importância para ela. Sempre escrevia mais a respeito dos outros do que de si própria. Van­gloriava-se com as vitórias de sua família e se compadecia das derrotas. Acolhia os novos membros da família como se fossem velhos amigos que, embora não tivessem nenhum vínculo de sangue, pertenciam ao núcleo familiar. Sempre se surpreendia mais com os feitos dos outros do que com os seus, não obstante estes fossem numerosos.

"Sally, estamos orgulhosos de você e Ann, que estão fazendo sua parte ao auxiliar os outros no Haiti ...

"Hoje, dei um jeito nos carrinhos de bombeiro de madeira, que serão doados a crianças necessitadas. Lixei-os e passei uma nova mão de tinta. Levei apenas 20 minutos para dar uma melhorada em cada um deles."

As cartas falam de uma pessoa que tinha o coração voltado para as crianças.

"Estou gostando muito de dar aulas na Escola Dominical. Tenho um grupo de oito crianças, entre cinco e seis anos, e elas são encantadoras."

"Os desenhos de seus filhos são incríveis. As vacas que Ryan desenhou são ágeis e alegres e transmitem vivacidade."

As cartas falam de alguém que se alegrou com a criação e

a generosidade do Senhor no clima, no solo, nas estações e no pôr-do-sol. Ela escrevia coisas como: "Estou ocupada com a colheita de verão dos índios. Adoro esta época do ano. Conge­lar o milho, secar as ameixas e acabar de fazer as conservas. A produção de maçãs - e de peras também - foi muito fraca, e as poucas frutas que pudemos colher estavam cheias de bicho e nada suculentas. No entanto, tivemos pêssegos em abundância e eles estavam deliciosos".

Em outra carta, podíamos ler: "Os termômetros estão na marca de -6°C e há uma camada de gelo cobrindo tudo. Neva nas montanhas, mas aqui ainda não!". Em outra: "Você tem visto os esplendorosos pôr-do-sol: um deles ontem, e outros durante a semana. É maravilhoso poder vê-los para apreciar o trabalho da mão do Senhor".

As cartas dela estavam repletas de receitas, notícias sobre as galinhas, o gado e as toupeiras, também novidades sobre costura ou festas comunitárias na igreja e, obviamente, sobre Pop. Ela sempre reservava parte de seu tempo para saber como estavam todos em nossa família. Ela adorava os pontos de exclamação e, em raras ocasiões (como quando soube que o marido de sua neta retornara para casa após o serviço militar), desenhava rostos com um grande sorriso.

Ela raramente reclamava. Bem, algumas cartas incluíam linhas emocionantes e nostálgicas, principalmente após a morte de Pop. Sentia-se só. No entanto, a maior parte do tempo tinha a estranha habilidade de ver o contorno prateado nas nuvens carregadas, pois aceitava o fato de que a dor e a perda faziam parte da vida, da mesma forma que a seca e o granizo faziam parte da lavoura.

Certa vez escreveu: "Pop está cansado, mas não temos do que reclamar".

Em outras cartas, em que exaltava as conquistas de outros membros da família, podíamos ler: "Na verdade, somos muito afortunados".

Se Gram estivesse viva, sei como reagiria a esses relatos entusiasmados que fazemos a respeito de sua vida. Reagiria da mesma forma que o fez certa vez, quando lhe disse que ela era um exemplo para a minha vida, e que eu me sentia muito feliz por fazer parte da família.

"Bob, obrigada por sua carta lisonjeira, mas para ser sin­cera, não mereço tanta honra, pois faço apenas o que é natural. Quando era criança, aprendi a fazer e a utilizar o que estivesse à mão. Então, faço apenas isso."

Décadas de cartas. Cartas cujos selos, apenas nos últimos 25 anos, subiram de oito centavos para 32. Cartas que, por algum tempo, enquanto se recuperava de uma fratura, foram escritas com a mão esquerda. Cartas que vinham assinadas Grame Pop, e, posteriormente, apenas Gram, até que pararam de chegar, mas só quando ela ficou fisicamente impossibilitada de escrever.

Cartas que nos faziam lembrar que Gram realmente tinha dois canteiros: um com cenouras e ervilhas e tomates e milho, e o outro com um filho e duas filhas e netos e bisnetos e sobri­nhos.

Paulo, ao escrever uma carta para a igreja em Corinto, diz: "Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens" (2Co 3.2; MELHORES TEXTOS). De certo modo, a vida de Gram foi uma longa carta de amor ende­reçada à família, aos amigos e a Deus. Uma carta extensa, de 95 anos.

Nada poderia deixá-la mais feliz do que saber que guar­damos essa longa carta em nossas carteiras e bolsas - melhor ainda, que a acolhemos em nosso coração - e que procuramos seguir o exemplo dela, dedicar a vida ao outro. Ela, certamente, gostaria que sempre buscássemos o melhor em cada um de nós e que fizéssemos o melhor com as circunstâncias disponíveis. E, é claro, sem jamais esquecer de parar para alegrar-se com a alvo­rada e o pôr-do-sol: "É maravilhoso poder vê-los para apreciar o trabalho da mão do Senhor".


 

DEUS NÃO CRIA JOÕES- NINGUÉM

Ruth Lee

Histórias Para o Coração 3 41

 

 

Aquele foi o último dia de um congresso, extremante proveitoso, de escritores cristãos. Alguém sugeriu que nos reuníssemos à noite no local reservado para a oração, em nosso dormitório, para que tivéssemos um momento dedicado a compartilhar.

Após o banquete, as mulheres reuniram-se na capela do segundo andar do dormitório. Estávamos todas de penhoar ou de pijama, e, portanto, não era possível observar nenhuma diferença entre nós. Alguém sugeriu que nos apresentássemos, mas sugeri algo diferente:

- Em vez de só falarmos nosso nome, por que não dizer algo sobre nós também?

Depois de apenas três dessas mulheres terem se apresentado e compartilhado algo sobre suas vidas, me arrependi de ter aberto " boca! Uma delas era diretora de enfermagem, a outra lecionava inglês na faculdade e a que estava ao lado desta acabara de terminar o doutorado. E eu ali, sentada no meio desse círculo de pessoas notáveis. Quem era eu?

Uma joão-ninguém. Bem, é verdade que eu era mãe e avó, mas não tinha nenhum cargo importante.

Após a apresentação de duas autoras, com livros publicados, e de outra mulher que afirmava ter algum tipo de fama, chegou a minha vez.

- Meu nome é Ruth - disse. - No entanto, sinto-me tão pequenina perante vocês, que acho melhor ir para meu quarto.

Como todas riram, continuei abrindo caminho:

- Acho que podem me chamar de produtora. Em 30 anos produzi uma terapeuta bem ajustada, especializada em vias respiratórias, um maquinista e outra feliz construtora de lares. Atualmente, estou também envolvida na co-produção de sete netos.

Contei-lhes como minha vida é agitada: cuidar do gado, de consertos de cercas ou orar para que chova e, a seguir, para que pare de chover. Mencionei as muitas horas que passo tomando conta de crianças enquanto tenho de dar conta dos afazeres domésticos - uma verdadeira batalha!

A seguir, falei de minha fome descomunal, fome de alimento espiritual e emocional que havia saciado naquele congresso.

Foi nesse momento, que do canto da sala, uma jovem tímida falou com voz firme:

- Será que você poderia virar para cá? Gostaria de ver seu semblante!

Fiz o que ela me pediu, e ela continuou:

- Quando escrever, quero me lembrar de sua fisionomia, pois busco alcançar mulheres como você com meu trabalho.

De repente, eu já não necessitava mais de títulos ou diplomas.

Havia um propósito para a minha vida. As palavras dessa jovem me ajudaram a perceber algo que já deveria saber. Deus não cria joões-ninguém. Todo mundo é importante para Ele.


 

A VISITA INESPERADA

Hartley E Daily Na Revista Sunshine [Luz Do Sol]

Histórias Para o Coração 3 44

 

 

O vale de Greenbriar estava praticamente escondido pelas nuvens baixas, responsáveis pela chuva intermitente.

Enquanto caminhava com dificuldade pelo curral, bem ao lado do celeiro, preparando-me para fazer as tarefas da tarde, dei uma olhada para a estrada que passava por nosso pedaço de terra e serpenteava ao longo do vale. Havia um carro parado à beira da estrada, um pouco mais à frente do pasto.

Obviamente, o carro devia estar com algum problema. Caso contrário, aquele homem tão bem vestido não estaria na chuva, procurando consertá-Io. Eu o observava enquanto fazia meu serviço. Era óbvio que o homem não era mecânico, pois se movia exasperada e afobadamente do capô levantado para o banco do motorista, tentava dar a partida e voltava a examinar o motor.

Anoitecia quando terminei meu serviço e fechei o celeiro. O carro ainda estava parado no mesmo local, então peguei uma lanterna e fui para a estrada. O homem, quando me viu, ficou surpreso e um pouco contrariado, mas parecia ansiar por minha ajuda. O carro era pequeno, da mesma marca que o meu, só que mais novo. Em alguns minutos, consegui descobrir o problema.

- É a bobina! - disse-lhe.

- Mas não é possível! - deixou escapar. - Faz um mês que troquei essa bobina.

Ele era bem jovem ainda, quase um garoto. Talvez tivesse apenas 21 anos. Parecia desesperado, à beira das lágrimas.

- Bem, senhor - ele disse com a voz entrecortada -, estou muito longe de casa e está chovendo. Tenho de fazer o carro funcionar. Preciso conseguir!

- Bem - disse-lhe - as coisas são assim mesmo! Bobinas são imprevisíveis. Às vezes duram anos a fio, outras queimam após apenas algumas horas de uso. Bem, posso pegar um cavalo e puxar o carro até o celeiro, para daí vermos o que é possível fazer. Tentaremos usar a bobina do meu carro. Se funcionar, conheço alguém que pode ajudá-lo. Ele mora bem perto, logo ali depois da curva. Certamente, ele terá uma disponível para vender.

Meu prognóstico estava correto, pois assim que colocamos a bobina de meu carro no dele, o motor funcionou imediatamente e começou a roncar como se fosse novinho em folha.

- Sem maiores problemas! - disse-lhe sorrindo. - Vou com você até a casa de Bill David, e ele lhe venderá uma bobina nova. Só vou avisar a Jane, minha esposa, e já volto.

Achei que o jovem, quando chegamos à venda de Bill David, comportou-se de forma estranha. Ele parou o carro atrás da loja, em um local bem ermo, e não saiu do carro. Desculpou-se dizendo que estava molhado e com frio: "Eis o dinheiro. Certamente você se importa de comprar a bobina para mim, não é mesmo?".

Quando acabamos de trocar a bobina, percebi que Linda, minha filhinha, estava vindo em nossa direção.

- Mamãe disse que o jantar está pronto! - disse e, a seguir, virou-se para o desconhecido. - Ela falou que é para você entrar e jantar com a gente.

- Ah! Mas eu não posso ficar aqui! - ele lamentou. - Além disso, não gostaria de dar trabalho a vocês. Bem, de qualquer forma, tenho de seguir. Obrigado, mas realmente não posso ficar.

- Que é isso! - disse-lhe. - Afinal, quanto tempo você se atrasará se sentar-se à mesa e comer conosco? Lembre-se, ninguém vem à casa de Jane na hora da refeição e sai de barriga vazia. Você não quer que ela se jogue na lama, em frente ao seu carro, e implore para que fique, não é mesmo?

Ele se deixou levar até nossa casa, embora ainda estivesse protestando. No entanto, pareceu-me que havia algo mais naquele protesto, além da simples educação.

Ele permaneceu bem quieto à mesa, enquanto eu agradecia pelo alimento. No entanto, durante a refeição ele parecia inquieto e mal tocou a comida, o que era quase uma ofensa para Jane, que se orgulhava de ser uma das melhores cozinheiras da região.

Assim que acabamos de comer, ele se levantou e disse que tinha de partir. No entanto, ele não conhecia Jane.

- Olhe aqui! - disse ela, enquanto olhava para mim para pedir apoio. - Ainda está chovendo muito, sua roupa está molhada e você deve estar com muito frio. Aposto como também está muito cansado, pois deve ter dirigido muito hoje. Fique aqui e amanhã você põe o pé na estrada, pois estará se sentindo bem melhor: descansado e com a roupa seca.

Fiz um leve sinal para ela. Nem sempre é aconselhável abrigar estranhos em casa. Infelizmente, há muitas pessoas nada confiáveis, mas gostei desse jovem. Tinha certeza de que ele não nos causaria nenhum problema.

Ele concordou em passar a noite conosco, embora ainda estivesse um pouco relutante. Jane o convenceu a ir para a cama e, depois, pendurou sua roupa próximo à lareira para que secasse.

Na manhã seguinte, ela passou toda a roupa dele e lhe serviu um bom café, que ele devorou com satisfação. Pela manhã, ele estava mais tranquilo, pois já não parecia tão agitado quanto na noite anterior. Antes de partir, agradeceu-nos prodigamente.

No entanto, quando partiu, algo estranho aconteceu. No dia anterior, ele se dirigia para o sul do vale, mas então tomou o rumo oposto, para o norte. Isso nos deu o que pensar, até que por fim decidimos que, na verdade, ele cometera um engano e pegara a direção errada.

O tempo passou, e nunca mais tivemos notícias desse jovem.

Aliás, não esperávamos mesmo que ele desse sinal de vida. Os dias se transformaram em meses, e os meses em anos. O período marcado pela depressão econômica acabou, e a guerra começou.

Com o tempo, até a guerra acabou. Linda cresceu e se casou. As coisas na fazenda estavam bem diferentes do que na época em que enfrentávamos dificuldades. Jane e eu levávamos uma vida calma e confortável, envolvidos pelo adorável vale de Greenbriar.

Outro dia, porém, recebi uma carta pessoal de Chicago, e em um papel de boa qualidade. Fiquei imaginando quem poderia ter me enviado uma carta de Chicago. Eu a abri e li o seguinte:

 

Caro Sr. McDonald,

 

Não sei se o senhor se lembra do jovem a quem ajudou, faz muitos anos, quando o carro dele quebrou.

Passou-se muito tempo, e imagino que já tenha ajudado muitas outras pessoas. No entanto, duvido que tenha ajudado alguém da maneira como me ajudou.

Sabe, aquela noite eu estava fugindo. Tinha, em seu carro, uma grande quantia de dinheiro que roubara de meu patrão. Quero que saiba que meus pais eram bons cristãos. Infelizmente, deixei de lado o ensinamento que recebi e comecei a me relacionar com pessoas erradas. Sabia que fizera algo abominável.

No entanto, sua esposa e o senhor foram muito gentis comigo. Naquela noite que passei em sua casa, comecei a perceber meus equívocos. Antes de o dia raiar, já havia tomado uma decisão. No dia seguinte, retomei. Procurei meu patrão e lhe contei tudo o que fizera. Devolvi-lhe todo o dinheiro e fiquei à mercê de sua misericórdia.

Meu patrão poderia ter-me processado, e certamente eu passaria muitos anos na cadeia. Ele, porém, é um bom homem, pois permitiu que continuasse trabalhando para ele. E eu nunca mais me desviei do bom caminho. Hoje, estou casado. Minha esposa é adorável e temos dois filhos queridos. Em minha vida profissional, consegui uma boa posição na companhia para a qual trabalho. Não sou rico, mas estou bem financeiramente.

Poderia recompensá-Io generosamente pelo que o senhor fez por mim naquela noite, mas não creio que é isso o que o senhor deseja, portanto estabeleci um fundo para ajudar outros que, como eu, tomaram a atitude errada. Espero que, dessa maneira, possa retribuir pelo que fiz.

Que Deus o abençoe, e também a sua bondosa esposa, que me ajudou mais do que o senhor poderia imaginar.

Entrei em casa e mostrei a carta a Jane. Pude perceber que, enquanto ela lia a carta, seus olhos ficaram marejados. Ela deixou a carta de lado e, com ar muito singular, citou a seguinte passagem: "...porque tive fome, e me destes de comer; [...] era forasteiro, e me acolhestes; [...] estava na prisão, e fostes verme" (Mateus 25.35,36).

 

Robert Fane


 

PESSOAS A QUEM NUNCA AGRADECEMOS

Steve Goodier

Histórias Para o Coração 350

 

 

Certo dia, William Stidger, quando ainda dava aulas na Boston University, pensou sobre as pessoas a quem ele nunca agradeceu: as que o educaram, as que o inspiraram ou as que cuidaram dele tão bem, a ponto de deixar uma impressão duradoura.

Uma dessas pessoas era uma professora, de quem havia muito ele não tinha notícias. No entanto, ele se lembrava de que ela se empenhara sobremaneira para que ele viesse a nutrir amor pelos poemas. William se tornou um apaixonado pela poesia, algo que sempre cultivou em sua vida, por isso, escreveu uma carta de agradecimento a ela.

A resposta que recebeu, em que a letra revelava a fragilidade de uma pessoa idosa, iniciava de maneira inesperada: "Meu querido Willianzinho". Ele ficou encantado. Afinal, hoje com mais de 50 anos, calvo e catedrático, não imaginava que ainda houvesse alguém que o tratasse de "Willianzinho". Eis a carta:

 

Meu querido Willianzinho,

 

Seria incapaz de lhe dizer o quanto sua carta foi importante para mim. Já tenho mais de 80 anos, moro sozinha, em um pequeno quarto, e eu mesma faço minha comida. Sou uma retardatária, como a última folha do outono que custa a cair. Talvez você fique surpreso de saber que lecionei por 50 anos, e sua carta foi o primeiro e único reconhecimento que recebi em minha carreira. Ela chegou em uma triste manhã de inverno e me alegrou sobremaneira, algo que não acontecia havia anos.

 

Embora não chorasse com facilidade, william derramou lágrimas sobre aquela carta. Essa professora era uma das pessoas de seu passado a quem nunca agradecera. Você também sabe disso.

Todos nós sabemos. O professor que fez diferença em sua vida; o técnico que você jamais esquecerá; o professor de música e o da Escola Dominical que nos ajudaram a ter confiança em nós mesmos. O líder dos escoteiros que se preocupava com você.

Todos nos lembramos de pessoas que modelaram nossa vida das mais variadas formas. Pessoas cuja influência nos transformou.

William Stidger encontrou uma maneira de demonstrar seu agradecimento - ele escrevia cartas.

 

 

Palavras gentis podem ser breves e fáceis de dizer,

mas seu eco é verdadeiramente eterno.

MADRE TERESA


 

ANJOS AO REDOR

Barb Irwin

Histórias Para o Coração 3 52

 

 

Em uma manhã de setembro de 1960, quando acordei, deparei-me com uma dura realidade: seis crianças famintas e apenas alguns centavos em minha bolsa. O pai delas nos abandonara.

A idade dos meninos variava de três meses a sete anos, e a menina tinha apenas dois anos. O pai, no entanto, nunca fora mais do que uma presença que as crianças temiam. Toda vez que elas escutavam o ringir dos pneus no cascalho da entrada de casa, arrastavam-se para debaixo da cama para se esconder dele. Ele, todas as semanas, sempre dava um jeito de deixar algum dinheiro, o suficiente para comprar os alimentos. Agora, depois que decidiu nos abandonar, não haveria mais surras nem comida. Naquela época, se existia no Estado de Indiana algum organismo responsável por benefícios sociais, eu ignorava essa existência, com certeza.

Esfreguei as crianças até que ficassem bem limpinhas e vesti o melhor vestido que tinha feito em casa como todos os outros. Coloquei as crianças no carro, um Chevy 51 todo enferrujado, e saí à procura de trabalho. Nós sete fomos a todas as fábricas, lojas e restaurantes de nossa pequena cidade. Nada! As crianças, amontoadas no carro, procuravam manter-se quietas, enquanto eu tentava convencer a todos que me davam atenção de que estava disposta a aprender ou a fazer qualquer coisa. Eu preci­sava de um trabalho. Mas, nada!

O último local que visitamos, a apenas alguns quilômetros de nossa cidade, era um antigo drive-in que fora transformado em parada de caminhão. Uma senhora idosa, Granny, dona desse estabelecimento, a Grande Roda, a todo momento espiava as crian­ças através da janela. Ela precisava de alguém para o turno da noite, das 11 da noite às 7 da manhã. Ela pagava 65 centavos por hora, e eu poderia começar a trabalhar naquela mesma noite.

Fui para casa o mais rápido que pude e chamei uma adoles­cente que trabalhava de baby-sitter. Nosso acordo seria que ela viria dormir no meu sofá e receberia um dólar por noite. Ela poderia até vir de pijama, pois, quando chegasse, as crianças já estariam dormindo. Isso era bom para ela, e para mim também, portanto fechamos negócio.

Naquela noite, eu e as crianças, quando nos ajoelhamos para fazer nossa oração, agradecemos a Deus por ter encontrado um emprego para a mamãe.

Assim, comecei a trabalhar na Grande Roda. Quando cheguei em casa pela manhã, acordei a baby-sitter e a dispensei após lhe pagar um dólar, retirado do dinheiro que ganhara de gorjetas - metade do que tirava em média toda a noite.

À medida que as semanas iam passando, as contas referentes ao aquecimento abalaram minhas pobres finanças, já que minha renda era diminuta. Os pneus do velho Chevy tinham a consistência de bexigas velhas e não eram capazes de reter o ar, portanto eu precisava enchê-los duas vezes por dia para ir ao trabalho e para voltar para casa.

Em uma manhã fria de outono, já bem cansada, eu me arras­tava para o carro para finalmente voltar para casa, quando achei quatro pneus no banco de trás. Pneus novos! Não encontrei nada além dos pneus novinhos em folha, nenhum bilhete ou coisa semelhante. Perguntei-me: "Será que os anjos resolveram morar em Indiana?".

Fiz um acordo com o dono do posto de gasolina mais próximo do local. Ele colocaria os pneus novos, e eu limparia o escritório dele. Lembro-me que demorei muito mais tempo para esfregar o chão do que ele precisou para trocar os pneus.

Passei a trabalhar seis noites em vez de cinco, mas ainda não era o suficiente. O Natal estava chegando e eu sabia que não teria dinheiro para comprar presentes para as crianças. Achei uma lata de tinta vermelha e comecei a consertar e a pintar brinquedos velhos. Escondi-os no porão para que Papai Noel pudesse entre­gar alguns presentes para as crianças no dia de Natal.

As roupas das crianças eram também uma fonte de preocupação. Fazia remendo em cima de remendo nas calças dos meninos até que se tornou impossível consertá-las.

Na véspera de Natal, os clientes habituais estavam tomando café na Grande Roda. Esses clientes eram os caminhoneiros Les, Frank e Jim, assim como um homem da cavalaria da polícia estadual, Joe. Alguns músicos, depois de uma apresentação em uma associação para militares reformados em que tocaram músicas populares modernas, estavam também ali. Os fregue­ses de sempre permaneciam sentados, batendo papo madrugada afora, e só foram embora para casa um pouco antes do dia ama­nhecer. Às sete horas daquela manhã de Natal, a hora de eu ir para casa, corri para o carro. Queria chegar em casa antes de as crianças acordarem para ter tempo de colocar os presentes, que estavam no porão, debaixo da árvore. (Havíamos cortado um pequeno cedro que crescia à beira da estrada, próximo ao depó­sito de lixo.) Ainda estava escuro e eu não conseguia enxergar direito, mas parecia que tinha algo no carro - ou será que era só impressão, uma peça que a noite escura estava me pregando? No entanto, embora fosse impossível precisar o que, parecia haver algo realmente diferente. Quando cheguei onde o carro estava estacionado, cautelosamente, dei uma olhada por uma das janelas. A seguir, meu queixo caiu! Estava pasma! Meu velho Chevy estava cheio, até o teto, de caixas de todos os tamanhos e formas.

A toda pressa, abri a porta do carro, subi no banco do moto­rista e ajoelhei para ver o banco de trás. Estiquei o braço, peguei a caixa que estava por cima de todas as outras e abri a tampa. Ela estava cheia de jeans, nos tamanhos 2 a 10! Olhei o conteúdo da outra caixa: cheia de camisetas que combinavam com os jeans. E fui abrindo uma e depois outra e mais outra. Ali tinha de tudo: doces, nozes, bananas, um enorme pernil para a ceia, vegetais em lata, batatas, pudim, gelatina, biscoitos, recheio de tortas, farinha e até uma sacola com artigos de limpeza, inclusive sabão em pó.

Não poderia deixar de mencionar os brinquedos, seis cami­nhões de brinquedo e uma boneca. Enquanto dirigia meu carro pelas ruas desertas, soluçando de gratidão, observei o nascer do sol da manhã de Natal mais maravilhosa de minha vida. Jamais esquecerei a alegria estampada na face de meus pequenos naquela preciosa manhã.

É, realmente havia anjos em Indiana naquele dezembro, e eles todos ficavam por ali, naquela parada de caminhões.


 

DO OUTRO LADO DO BIOMBO

Ruth Lee Na Revista Touch 1 [Contato 1]

Histórias Para o Coração 3 56

 

 

Ridícula! Era assim que me sentia. Nem sequer sabia o nome da mulher do outro lado do biombo e, tampouco, podia vê-Ia. No entanto, conversávamos de maneira bem íntima.

Minha mãe, semiconsciente devido a um derrame, estava em uma cama da enfermaria, e do outro lado do biombo havia uma desconhecida, que a enfermeira chamava de Claudine.

O médico nos recomendou que ficássemos com a mamãe e falássemos com ela para estimulá-Ia.

Claudine, do outro lado do biombo, respondia a todas as perguntas que eu fazia a minha mãe.

- Você está me ouvindo, mamãe?

- Estou sim, querida. Consigo ouvi-Ia - respondia Claudine.

- Eu amo você, mamãe!

- Que bom, querida! Eu também amo você! - dizia ela.

Uma enfermeira me disse que Claudine tinha uma doença terminal, um tumor cerebral que a estava matando aos poucos.

Extremamente deprimida, ela chorava a maior parte do tempo.

Alguns dias ficava fora do ar e não conseguia falar. Mas não demorou muito para eu perceber que em outros dias ela recuperava o controle parcial de seu raciocínio. Quando estava bem, ela me perguntava sobre seu filho que morava muito distante e não podia visitá-Ia com frequência. Conversávamos sobre a fazenda dele e os cachorros que tinha ali.

- Cachorros de caça! - dizia Claudine. - Beagles, bons para caçar coelhos selvagens. Nos momentos difíceis, Claudine, lançava o telefone no colo e implorava que telefonássemos para os velhos amigos dela.

- Será que você poderia discar o número para mim? - perguntava ela.

No entanto, devido ao esquecimento causado pelo tumor, ela não se lembrava dos números de telefone dos parentes e amigos.

Então, sem a menor hesitação, eu discava o número do hospital, que sempre estava ocupado.

- Veja, está ocupado! Você pode tentar mais tarde! - eu dizia.

Após verificar que estava ocupado ela conseguia descansar.

A enfermeira daquele andar começou a perceber meu envolvimento com Claudine e me disse:

- Se ela estiver lhe causando muito transtorno posso transferi-Ia.

- Não se preocupe comigo, deixe-a aí!

Até mesmo minha mãe, agora muito mais forte e sem necessidade de tanta atenção, achou que eu estava me envolvendo d,'mais com Claudine, que a cada dia estava mais fraca.

- Ela precisa de minha amizade - expliquei, e elas não poderiam negar a verdade contida nessa afirmação.

- Você vai se machucar - avisou-me a enfermeira. - Por que você acha que os familiares ficam distantes?

Eu sabia que ela não se referia apenas a Claudine, mas a lodos os pacientes terminais sob seus cuidados.

Um dia, no entanto, o filho dela veio visitá-Ia. O menino da Claudine. Ela, contudo, foi sedada um pouco antes de ele chegar ao hospital, e só conseguiu segurar a mão do filho e chorar. O rapaz chorou sem reservas.

Puxei o pano do biombo, para que ele tivesse privacidade.

Quando o horário de visita terminou, beijei a testa de minha mãe para despedir-me dela e, ao atravessar o quarto, tomei uma decisão.

- Bruce?! - perguntei. - Você é o Bruce?

- Sou! - respondeu-me. - Mas como você sabe?

- Sei muitas coisas a seu respeito - disse-lhe. - Sei sobre a sua fazenda, suas aspirações e seus sonhos! - disse-lhe e sorri ao perceber seu espanto.

- Conheço até seus cães, os beagles. Um deles chama-se Dolly, e o outro Cookie.

- Mas, como? - perguntou-me perplexo.

O rapaz olhou para aquela mulher toda retorcida sobre a cama.

- Ela não fica sempre nesse estado - disse-lhe. - Há momentos em que ela tem recordações alegres.

Sabia o que ele queria ouvir, portanto finalizei:

- Você conseguirá visitá-Ia, Bruce, e ela certamente o reconhecerá da próxima vez que vier.

As lágrimas inundaram seu rosto. Abri meus braços, e ele se apressou a aconchegar-se neles.

Já não me sentia mais ridícula. Aconchegar em meus braços e confortar um estranho parecia ser a coisa mais natural do mundo.

Estender a mão e compartilhar com os outros é algo que sempre nos reserva boas recompensas.


 

O PRESENTE DA SRA. HILDEBRANDT

Robert Smith

Histórias Para o Coração 3 63

 

 

Faz 30 anos que não a vejo, mas, em minha memória, na presença de forma muito especial quando recebo meu primeiro cartão de Natal.

Eu tinha 12 anos, e faltavam dois dias para o Natal. O pri­meiro véu branco dessa estação fazia crescer minha expectativa.

Vesti-me afobadamente, pois a neve me esperava. O que eu faria primeiro - um boneco de neve, escorregar montanha abaixo ou apenas jogar os flocos de neve no ar para vê-los tremular até cair?

Assim que mamãe parou a caminhonete na entrada de casa, chamou-me para ajudá-la com as compras. Depois que descarre­gamos todas as sacolas, mamãe me disse: - Bob, eis as compras da Sra. Hildebrandt.

Não era preciso nenhuma instrução complementar. Desde que eu me conhecia por gente, minha mãe fazia as compras para a Sra. Hildebrandt, nossa vizinha de 95 anos que morava sozinha, e eu as entregava na casa dela. Essa senhora sofria de artrite, o que dificultava sua locomoção, e só conseguia dar uns poucos passos com a ajuda de sua bengala.

Apesar da idade da Sra. Hildebrandt, praticamente aleijada e nem um pouco fã de beisebol, eu gostava de conversar com ela, melhor dizendo, de ouvi-la. Ela contava histórias fantásticas de sua vida -sobre a torre da igreja do bosque, os passeios a cavalo e de jipe aos domingos à tarde, e a fazenda da família que não tinha água corrente nem eletricidade.

Ela sempre me dava dez centavos, quando eu entregava suas compras, que, como de costume, eu recusava sem muito entu­siasmo, pois sabia que ela insistiria. E cinco minutos mais tarde, já estava do outro lado da rua, na loja de doces.

No entanto, dessa vez, à medida que me aproximava de sua casa com as sacolas, decidi que nosso encontro costumeiro seria diferente. Eu não aceitaria o dinheiro, pois este seria meu pre­sente de Natal para ela.

Toquei a campainha muito ansioso. De forma quase imper­ceptível, primeiro escutei o arrastar vagaroso e fatigado de seus pés, e o lento baque de sua bengala. Depois, ouvi o rangido, pre­cedido pelo matraquear da corrente, no momento em que a porta se entreabriu. Seus olhos brilhantes espiaram pela fenda.

-Oi, Sra. Hildebrandt -disse eu. -Sou eu, o Bob. Estou com suas compras.

-Oi, entre, entre -disse-me alegremente. -Coloque as sacolas na mesa, por favor!

Fiz o que costumava fazer, mas muito mais rápido do que o habitual, pois podia até ouvir a neve me chamando para brin­car!

Enquanto conversávamos, comecei a perceber como ela era solitária. Seu marido morrera havia mais de 20 anos, e ela não tinha filhos. Seu único parente vivo era um sobrinho que morava na Filadélfia, mas que nunca a visitava.

Ninguém a visitava no Natal, e não havia árvore, nem presen­tes, nem meias para os presentes.

Ela me ofereceu uma xícara de chá, como fazia todas as vezes que trazia suas compras. Bem, talvez a neve pudesse esperar.

Nós nos sentamos e conversamos sobre como o Natal era cele­brado quando ela era criança. Viajamos para bem longe e volta­mos no tempo, e uma hora passou sem que eu percebesse.

-Bem, Bob, você deve estar com vontade de brincar com a neve -disse-me ela enquanto pegava sua bolsa.

-Não, Sra. Hildebrandt. Não posso aceitar nada desta vez. A senhora pode usá-lo para coisas muito mais importantes - disse-lhe, procurando resistir.

Ela me olhou e sorriu.

-Que coisa mais importante poderia fazer com esse dinheiro do que dá-lo a um amigo no Natal? -perguntou-me, enquanto colocava 25 centavos na minha mão.

Tentei devolvê-lo, mas ela nem levou em consideração meu protesto.

Corri para a rua e fui para a loja de doces com minha pequena fortuna. Ainda não tinha ideia do que compraria -revista em quadrinhos, chocolate, refrigerante ou quem sabe um sorvete. No entanto, eu vi algo que chamou minha atenção - um cartão de Natal com uma igreja antiga, dessas que existem em alguns vilarejos, em um bosque. Parecia-se com aquela que a Sra. Hil­debrandt sempre descrevia para mim. Entreguei ao Sr. Beyer, o dono da loja, meus 25 centavos e pedi emprestado uma caneta para assinar meu nome.

-É para a namorada? -perguntou-me sorrindo.

Já ia começar a explicar que não era bem o caso, mas mudei de ideia e disse apenas: "É, acho que é!".

Quando caminhava pela rua, com meu presente, senti tanto orgulho de mim mesmo que parecia que havia quebrado um recorde mundial. Não, na verdade, eu me sentia melhor do que se tivesse conseguido realizar tal proeza!

Toquei a campainha da casa da Sra. Hildebrandt. Ouvi novamente o som quase inaudível que ela fazia ao arrastar os pés. A corrente balançou, e a porta entreabriu-se com um ran­gido. E dois olhos brilhantes deram uma espiada.

-Oi, Sra. Hildebrandt -disse-lhe, enquanto lhe estendia o cartão. -Feliz Natal.

As mãos dela tremeram, enquanto abria vagarosamente o envelope. Ela olhou atentamente o cartão e começou a chorar.

-Muito obrigada! -sussurrou ela. -Feliz Natal.

Poucas semanas depois, em uma manhã fria e tempestuosa, uma ambulância chegou à casa da nossa vizinha. Minha mãe me disse que a encontraram na cama, e que ela morrera em paz durante o sono. Ainda acesa, a luz do criado-mudo iluminava um solitário cartão de Natal.


 

O ESQUADRÃO DO AMOR

Virelle Kidder

Histórias Para o Coração 3 67

 

 

“Não acredito! Tudo, menos visitas” - resmunguei no momento em que dobrei a esquina e pude ver minha casa. Normalmente, eu ficaria contentíssima ao ver quatro carros parados na entrada de casa, mas depois de passar uma semana em vigília no hospital com uma criança doente, não queria visitas, pois sabia que minha casa estava a maior bagunça. Desliguei o carro e me arrastei para dentro de casa.

- O que você está fazendo em casa a esta hora? -disse minha amiga Judie, que estava na cozinha. -Achamos que chegaria só daqui a uma hora!

A seguir, ela se aproximou, me abraçou e perguntou ternamente:

- Como você está?

Será que esta era minha casa? Será que estava sonhando? Tudo estava tão limpo. E as flores, de onde surgiram? De repente, ouvi mais vozes e recebi mais abraços. Lorraine, sorrindo enquanto limpava gotas de suor de sua testa, saiu da saleta onde acabara de passar uma montanha de roupas limpas.

Regina deu um jeito na cozinha, mas só depois de ter passado aspirador de pó nos tapetes, ter encerado e tirado o pó da mobília em todos os cômodos da casa. Joan - ainda no andar de cima, lutava com a roupa de cama do beliche dos meninos, após ter arrumado todos os quartos que estavam em um estado caótico - cumprimentou-me de onde estava.

- Quando vocês chegaram aqui? - perguntei-lhes atônita.

Na verdade, essa foi a única coisa coerente que consegui dizer, pois logo após, com a voz entrecortada disse: "Como ... como ... fizeram tudo ... tudo isto?", comecei a chorar abertamente, e toda a minha resistência caiu por terra.

Passara uma semana orando pela saúde de um familiar, implorando a Deus para que eu sentisse Sua divina presença no hospital.

Em vez disso, Ele, por intermédio desses quatro anjos, cobriu nossa casa com um manto de ordem, beleza e amor.

- Você deve descansar um pouco Virelle -disse Lorraine com firmeza. Eis o jantar para hoje, e no freezer tem mais. A mesa estava arrumada com flores e guardanapos coloridos. Um pequeno banquete completo, com salada e sobremesa, fora preparado.

- Não se preocupe! - disseram elas. - Estamos orando. Deus está no controle de tudo.

Depois que minhas amigas foram embora, ainda soluçando, perambulei por todos os cômodos, um após o outro, e admirei a grandeza do presente, o tempo e o trabalho, que elas me deram.

Encontrei arranjos de flores em todos os cômodos ... e pequenos presentes em cada uma das camas. Mais lágrimas!

Na sala encontrei um bilhete sob um vaso cheio de peônias.

Era para eu ter chegado em casa e encontrar somente esse bilhete, a única identificação que teriam deixado: "O esquadrão do amor esteve aqui".

E eu sabia que Deus estava no controle de tudo.


 

A MADEIRA PARA LUTHER

Joe Edwards

Histórias Para o Coração 3 70

 

 

Havia quase quatro meses que Luther retornara da guerra. Agora estava trabalhando em um laticínio em Mount Vernon, no mesmo local onde sua esposa, Jenny, também trabalhava.

Nessa manhã ele estava no Miller Café, um pequeno estabe­lecimento na cidade que ficava ao lado do correio, à espera de que o correio abrisse. Sentado à mesma mesa estava seu amigo Fred Hill. Discutiam sobre a guerra no Pacífico, que ainda não acabara. Os pôsteres convocando os homens para o alistamento ainda revestiam as paredes do pequeno café.

Fred não servira o exército, porque, quando a guerra come­çou em 1941, os pais dele estavam muito doentes - o pai com problemas de coração, e a mãe com câncer. Ele era necessário ali, pois tinha de cuidar dos pais e trabalhar na fazenda. Seus pais morreram algum tempo depois, e a fazenda então era dele - dele e de Maggie.

Fred se sentia culpado, e sua culpa aflorava toda vez que algo relacionado à guerra ocorria: quando Luther, seu melhor amigo de infância, sobrevoou Miller em seu B-17, quando os corpos de Billie e Martin, os filhos dos Hobbs, foram enviados para a cidade natal deles, ou ainda quando Perry voltou para casa com dois ganchos em vez das mãos. Ele achava que não tinha feito a sua parte para ajudar seu país durante a guerra e, aos olhos pró­prios, sentia-se diminuído.

Hoje, porém, era Luther quem parecia abatido. Fred pergun­tou o que o estava preocupando:

- Você está muito abatido, Luther - disse ele. - Não consigo entender o que poderia deixá-lo assim. Você saiu ileso da guerra, tem uma esposa linda e um filho que está para nascer; além disso, tem um bom trabalho. Qual é o problema?

- A mãe de Jenny está muito mal - disse Luther. Teremos de acolhê-la em nossa casa e, quando o bebê chegar, não haverá espaço suficiente na casa.

- Você não poderia construir um cômodo a mais? - perguntou Fred.

- Não consigo comprar madeira. Parece que o estoque acabou - retrucou Luther. - Tentei comprar aqui, em Mount Vernon, Springfield e Joplin. Parece que não haverá nenhuma remessa enquanto estivermos em guerra. Só Deus sabe quanto tempo estaremos nessa situação.

-    Você já tentou a madeireira do Will?

-    Já, mas ele só trabalha com carvalho, e a madeira está verde. O bebê vai nascer em agosto, e não podemos esperar até a madeira secar. Além disso, não dá para construir um quarto todo com carvalho.

- Não mesmo! - concordou Fred. - Acho que o corredor abriu.

- É provável! - concordou Luther.

Os dois rapazes saíram do café e foram ao correio. Buford Patten, o encarregado pelo estabelecimento, levantou a porta até a altura da janela de atendimento e avisou que as cartas estavam em suas respectivas caixas. Luther e Fred pegaram a correspondência e foram embora - Luther para Mount Vernon, onde trabalhava, e Fred para a fazenda.

No fim da tarde, após tirar o leite das vacas, Fred sentou-se na varanda com Maggie. Ele comentou que os dias estavam ficando mais longos: "É possível fazer metade das tarefas diárias depois das cinco da tarde".

Maggie o avisou de que o rádio noticiara que choveria aquela noite: "É melhor guardar o carro de seu pai na garagem".

O pai de Fred, um pouco antes de sofrer o ataque do cora­ção, comprara um Ford 1941 novo, que agora pertencia a Fred. Este construíra uma nova garagem antes do Natal, e ficou feliz em saber que a fizera no momento certo - antes de o estoque de madeira acabar. Ele nem sabia disso, mas Luther o informara a esse respeito essa manhã.

Fred colocou o carro na garagem e trancou a porta. Deu a volta por trás da casa e voltou para a varanda na frente da casa. Algo o preocupava, mas não conseguia discernir exatamente o que o inco­modava. Procurou esquecer e sentou-se na varanda com Maggie até o cair da noite. Ali, puderam ver os relâmpagos a oeste, e o vento começou a soprar mais forte. Entraram para ouvir no rádio as notícias sobre a guerra e, logo depois, foram dormir.

Na manhã seguinte, Fred tirou a caminhonete da garagem para novamente buscar a correspondência. O ar da manhã estava ameno e claro, pois a chuva o havia limpado. O sol apare­cera, e ele se sentia bem. Quando chegou ao café Miller, Luther já estava lá.

- Ainda não achou a madeira, não é mesmo? - perguntou Fred.

- Ainda não. Perguntei para todo mundo no trabalho, e parece que ninguém sabe de nada. Não sei o que fazer.

Então, a causa que importunava Fred tomou forma. Sem hesi­tar, Fred disse que encontrara a madeira. Luther ficou extasiado: "Achou? Onde?".

Fred explicou que era de um amigo e que ele a daria para Luther, pois este era um veterano de guerra.

- Como ele não quer que você saiba quem ele é, eu terei de trazê-la para você. Parece que é madeira boa, abeto e pinho, cor­tada em diferentes comprimentos. Apesar de ter pregos nela, isso não atrapalhará sua construção. Vamos fazer o seguinte: você prepara o alicerce, e eu lhe trarei uma caminhonete cheia todos os dias. Depois, eu o ajudo a construir. Garanto que acabaremos antes de o bebê nascer.

Luther, enquanto dirigia a Mount Vernon, pensou com seus botões: "Isso é que é amigo l ". Nessa noite, trouxe em sua cami­nhonete sacos de cimento para o alicerce.

Luther escavou o solo e jogou o cimento. Quando tudo estava preparado para o alicerce, ele avisou Fred, que se prontificou a trazer o primeiro carregamento: "Eu já estarei em sua casa quando você chegar do trabalho".

Todo fim de tarde, Fred chegava à casa de Luther com um carregamento de madeira, e os dois homens trabalhavam na construção até não conseguirem enxergar mais nada devido à escuridão. Algumas vezes, Maggie também vinha, e as mulheres entravam e ficavam ouvindo o rádio, ou falando sobre bebês, ou ainda sobre a saúde da mãe de Jenny. A conversa delas era pon­tuada pelas batidas do martelo lá fora.

Em poucas semanas, já era possível ver o novo cômodo, com todo o acabamento e com o telhado. Luther, impressionado, per­guntou:

- Esse cara tem todo tipo de material!

Luther não insistiu, pois muitos dos camaradas, mais velhos, gostavam de ajudar anonimamente os jovens veteranos de guerra. Isso era muito comum.

O quarto estava pronto! As mulheres arrumaram o quarto e instalaram a mãe de Jenny ali. Os homens voltaram para seus afazeres.

Uma noite, à hora do jantar, Luther disse a Jenny que gosta­ria de fazer uma surpresa para o Fred e a Maggie, que foram tão prestativos na construção do novo cômodo.

Jenny teve uma ideia brilhante:

-A Maggie gosta daquelas espreguiçadeiras de madeira, como as que a tia Birdie tem no gramado. Por que não compramos duas dessas cadeiras?

Luther concordou: "Boa ideia!", e no sábado seguinte ele comprou as duas cadeiras e as colocou na caminhonete.

Quando ele chegou à fazenda de Fred e Maggie, não havia nin­guém em casa, pois eles tinham ido fazer compras em Springfield. Fred decidiu que colocaria as cadeiras na garagem, pois, se chovesse, estariam mais protegidas.

Ele deu a volta na casa com sua caminhonete e pegou o cami­nho que levava à nova garagem de Fred.

A garagem, no entanto, desaparecera! Só restou o alicerce, que indicava onde ela estivera.

Luther, com os olhos rasos de água, colocou as cadeiras na varanda e foi para casa.

Esses dois homens, agora com mais de 70 anos, ainda são amigos do peito. Eles, no entanto, nunca comentaram esse acontecimento.

Como poderiam? Não havia nada a dizer!

Texto, Carta

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.Texto

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

ESCREVA PARA A CAIXA POSTAL 222B

Barbara Baumgardner

Histórias Para o Coração 3 77

 

 

O que será que me levou a responder àquele anúncio? Solidão? O desejo de uma aventura? Ou a simples insanidade? Andando de lá para cá, dizia a mim mesma que isso era uma tolice, porém, como um joalheiro que esculpe um broche, único e com valor inigualável, escrevi minha resposta ao tentador anúncio.

Hesitei: Será que vou ter mesmo que responder a um anúncio para corações solitários?

Sempre acreditei que somente os que se sentem desesperada­mente sozinhos utilizavam esse tipo de anúncio - ou colocando um ou respondendo a um deles.

É isso o que eu sou, alguém desesperadamente solitária, pensei.

O que meus filhos diriam a respeito? Será que eles entenderiam que aquelas letras em negrito saltaram inesperadamente à vista? Fazendeiro cristão, 1,8Om, 90kg, com mais de 50 anos, trabalhador, saudável e em boa forma física, capaz de pescar, de acampar, de esquiar e de jantar fora. Quer conhecer uma mulher sincera, e sensata, entre 40-50 anos, atraente, organizada, afetuosa e honesta para um compromisso sério. Caixa Posta 222B.

Deus meu! Que mulher afetuosa, sensata, honesta sozinha poderia resistir? Bem, talvez não tão sensata.

Mais de 50? Quanto?, foi o início de minha carta. Sou uma mulher saudável trabalhadora e gosto de cozinhar, costurar, viajar e andar no deserto na hora do pôr-do-sol ou caminhar descalça na praia.

Não mencionei que não preenchia todos os requisitos do anúncio, mas não apresentei nenhuma razão para pensar que não poderia preenchê-los. Mas será que eu poderia?

Já tinha mais de 50, não era indiscutivelmente atraente, nem sempre organizada e muito incerta a respeito de um compromisso sério. O que eu realmente queria era um amigo. Será que, por não lhe dizer isso, fora desonesta?

Levantei a carta em direção ao céu e pedi a Deus: "Se o Senhor quiser que eu encontre esse homem, será que o traria para mim?". A seguir, coloquei o selo no envelope que estava sobre a escriva­ninha e enviei a carta.

Nas semanas seguintes, percebi que minhas mãos tremiam cada vez que o telefone tocava. Será que era ele? E se ele não gostasse de mim? E se ele se decepcionasse assim que pusesse os olhos em mim? Será que eu seria capaz de suportar isso?

Um dia, enquanto verificava minha roupa em frente ao espe­lho, virando de cá para lá, examinando a devastação causada pelos mais de 50 anos de idade nesta terra, observei meu rosto, magro e sombrio, que repousava sobre ombros e braços vigoro­sos. As mãos, grandes e fortes, que nunca sabiam o que fazer. Dez quilos de excesso de peso, a cintura grossa, coxas robustas, panturrilhas ásperas e volumosas e pés esqueléticos. Lembrei-me de um garoto, colega da 5ª série, que me disse que eu parecia um alpendre de tijolo: forte e útil, mas sem muita classe.

Lágrimas começaram a rolar sobre minha face, quando caí de joelhos ao lado da cama. Orei: "Ah! Meu Deus, olhe para mim! Estou um caco! Por que fui enviar aquela carta? Por favor, perdoe-me por enganar aquele homem, pois lhe descrevi a mulher que gostaria de ser, não a que sou".

Um domingo à noite, algumas semanas depois, minha amiga Jeanette convidou-me para irmos comer crepe depois do culto. Quando estávamos saindo da igreja, ela me apresentou a um amigo do grupo de solteiros que ela frequentava. Como íamos sair juntas, em um impulso perguntei a ele se não gostaria de juntar-se a nós, e ele aceitou.

As três horas seguintes foram dedicadas aos crepes, às risadas e ao bate-papo. Jim era divorciado, tinha muitos filhos, todos já criados, e, em sua fazenda, plantava alfafa para alimentar o gado. Era um homem agradável, alto, bonitão, atencioso e pare­cia ambicioso. Fiquei consternada quando ele nos contou sobre a sua solidão.

Depois de me despedir deles, e de uma noite muito agradável, assim que fechei a porta, comecei a pôr ordem na bagunça, pois achei que esse seria um bom momento para fazer isso. Come­cei pela correspondência dos últimos dias, que eu amontoara na escrivaninha da sala de jantar. Joguei no lixo toda correspondên­cia inútil - ofertas, propagandas etc. - e, em seguida, preenchi alguns carnês de contas a pagar. Foi quando encontrei a carta! Incrível! Minha resposta para o fazendeiro cristão não fora enviada. Imagine, toda aquela emoção por nada.

No entanto, uma suspeita insinuou-se em minha mente. As peças do quebra-cabeça começaram a se ajustar. As botas e a camisa xadrez que Jim estava usando; ele era um fazendeiro e se sentia só. Será que ele e o fazendeiro cristão eram a mesma pessoa?

Telefonei de imediato para Jeanette: "Você acha que ele seria capaz de colocar um anúncio no jornal para encontrar uma mulher? Você acha que ele usaria o apelido de fazendeiro cristão ?.." 

Jeanette caiu na risada: "Lógico! Todos do grupo de solteiros sabem que ele fez isso. Acho que até agora já recebeu cerca de 70 ou 80 respostas. Algumas delas bem bobas!".

Desliguei o telefone e senti um leve entusiasmo - uma tolice, é verdade - e fiquei atônita com nosso Deus, que permitiu que uma carta que nunca fora enviada fosse respondida. Só Deus e eu sabíamos disso.

Um dia, algum tempo depois do domingo em que saímos os três juntos, atendi a um telefonema e ouvi a voz de Jim, que me convidava para ir a uma feira de antiguidades. Disse-lhe que adoraria acompanhá-lo. Uau! Um encontro com um homem que tinha outras mulheres, - 70 ou 80 - as quais poderia convidar para sair.

Quando desliguei o telefone, senti-me embalada por uma doce afetuosidade. Depois, mais que depressa, fui para meu quarto, e meu coração parecia que ia explodir. O que usaria? Lá estava eu, mais uma vez, em frente ao espelho, observando aquela mulher de meia-idade, ainda desajeitada e com alguns quilinhos a mais, o rosto magro e os pés esqueléticos. Rindo, disse em voz alta: "O que você vê é o que você obtém".

No dia seguinte, ainda com o sol brilhando, saí para dar início a uma nova amizade com o fazendeiro cristão.

O que aconteceu na feira de antiguidades? Nós nos diver­timos muito. Se nos vimos outras vezes? É claro. Se nos casa­mos? Não, mas isso não tem importância. Adquiri mais confiança em mim mesma e aprendi algo também: se você tiver de encon­trar determinada pessoa, seja um amigo, seja um marido, você a encontrará, e pode ter certeza disso como você tem de que o sol nasce todas as manhãs. E isso acontecerá mesmo que sua carta, cuidadosamente escrita, esteja toda empoeirada e ainda repouse sobre uma escrivaninha.


 

GUARDAR O MELHOR PARA O FIM

Rocbelle M. Pennington

Histórias Para o Coração 3 82

 

 

Guardar o melhor para o enquanto fim! Esse antigo clichê cruzou meus pensamentos enquanto esperávamos pela sobremesa. Sem sombra de dúvida, seria maravilhosa e valeria a pena esperar.

Nessa noite, estávamos celebrando o Natal em nosso grupo de mulheres, e a reunião foi muito agradável. Depois da refeição, pre­cedida por algumas atividades breves, houve a troca de presentes.

Uma após a outra, nós nos levantamos para abrir o presente que fora colocado sobre a mesa diante de nós. Presentes peque­nos. Presentes simples. Velas, artigos de papelaria, sais de banho. Após serem abertos, todos aplaudiam educadamente cada um desses presentes.

Só quando a volta do círculo completou-se, em um processo bem organizado até que a última pessoa abrisse seu presente, foi que notamos que ela não tinha um presente ... e, subitamente, parece que todas nós percebemos isso ao mesmo tempo.

O nome dela era Dorothy, a pessoa mais velha de nosso grupo, mas o membro mais recente. Quando ela se mudou para nossa comunidade, juntou-se a nós. Essa seria sua primeira festa de Natal conosco, pois ainda não fazia um ano que frequentava nossa reunião.

Um silêncio pesado caiu sobre o ambiente enquanto esperá­vamos que alguém pensasse, e bem rápido, em alguma coisa que pudesse ser feita para que Dorothy não ficasse constrangida. E, de repente, alguém tomou a iniciativa -a Dorothy !

Ela se levantou, pegou sua bolsa, retirou um saco de papel marrom, desses que recebemos quando compramos pão, olhou seu conteúdo, embora parecesse vazio, e a seguir olhou para nós.

-Quero descrever meu presente para vocês. Recebi amor, benevolência e amizade de vocês. Sou grata por tudo isso. Obrigada.

Dorothy sentou-se ao som de retumbantes aplausos.

E, pela segunda vez, o velho clichê cruzou meus pensamentos:

O melhor realmente ficou por último.


 

MEU FILHO, MEU PROFESSOR E MEU AMIGO

Gloria Gaither Na Revista Christian Herald [Arauto Cristão]

Histórias Para o Coração 3 84

 

 

Desde o momento em que o segurei pela primeira vez - ainda sujo e molhado - até agora, quando o vejo sair para os compromissos que assumiu em sua vida, ser sua mãe foi a aventura mais impressionante, espantosa e encantadora. Naquele primeiro dia, eu ainda não sabia o que ser mãe significaria para mim, embora estivesse ansiosa para iniciar essa tarefa. Você parecia tão frágil, tão pequeno e tranquilo, tão entregue aos meus cuidados, dependendo de mim para a satisfação de todas as suas necessidades básicas, as necessárias para manter-se vivo. A princípio, achei que até poderia machucar ou quebrar você: "Certifique-se de que a cabeça está bem sustentada", disseram-me. No entanto, logo descobri que você era mais forte do que aparentava e dava de dez a zero em mim em várias áreas: no grito, no sono e na resistência. Na verdade, nos primeiros três meses cheguei a perguntar-me se algum dia voltaria a terminar uma refeição e a dormir uma noite inteira.

O ensinar iniciou-se imediatamente. Estudei para ser professora, mas jamais me deparei com um aluno com tanta fome de aprender quanto você. Antes que pudesse falar, seus olhos faziam perguntas, e suas mãozinhas se estendiam para tocar e aprender, saborear e ver. Logo, seu arrulhar ficou inquisitivo, pois toda sentença balbuciada tinha a entonação de uma pergunta. Suas primeiras palavras foram: "O que é isto? O que é isto?". Não demorou muito para que seu vocabulário crescesse e você começasse a pedir: "Ensine-me algo, mamãe. Ensine-me algo".

E eu parava tudo o que estava fazendo para lhe ensinar sobre números, nomes de coisas, texturas, formas, tamanhos, alimentos, mobiliário, animais de estimação, árvores, flores, estrelas e nuvens. Mas logo era você quem estava me ensinando... ensinando que a lição acabava, mas o aprendizado continuava.

Você me ensinou a ver os milagres - eram tantos que tropeçava neles todos os dias. Ensinou-me sobre a confiança, o prazer do êxtase. Você segurava um espelho que refletia minhas atitudes, pois sempre representava minhas reações. Ensinou-me o que significava viver o que se pregava, crer no que apregoava e interiorizar o que ensinava.

Ensinou-me o que Jesus quis dizer quando nos aconselhou a como as crianças, se quiséssemos entrar no Reino do céu. Por seu intermédio, descobri a razão pela qual Ele utilizou a metáfora do nascer para se referir à verdadeira conversão, pois você - que pós o nascimento estava todo sujo e molhado quando o segurei batizou naturalmente as coisas comuns como se fossem novidades e, com o derramar profuso de seu riso, lavou a impropriedade do cinismo dos adultos e a poeira da rotina maçante. Você fez novas as coisas velhas. Você me deu a desculpa que precisava para voltar a ser eu mesma, para saltitar ao longo das trilhas da mata ou escorregar nas encostas congeladas das colinas cobertas da neve recém-caída, e, na primavera, para chapinhar nas poças barrentas, feliz de estar descalça, ou para procurar adivinhar onde, no céu, surgiria a próxima estrela cadente.

Você me deu olhos para ver a realidade das pessoas de novo olhar para além da frágil fachada estampada em suas faces.

Você encontrou a criança no idoso, o desejo e a paixão há muito aprisionados por juntas endurecidas e olhos cansados, que já não enxergam bem. Você reconheceu a profundidade e a sabedoria na risada da adolescente, sua babá, viu a beleza das coisas comuns e a criatividade no tímido. Você me mostrou que a diferença entre as gerações é uma invenção artificial de nossa cultura e não tolerou a perversão doentia que ignorava a celebração de Deus em relação à variedade criada por Ele.

Eu o ajudei a aprender a engatinhar, a dar os primeiros passos, a andar, correr, nadar, dançar, andar de bicicleta e a dirigir. Eu o encorajei a aguentar em pé, andar sozinho, fugir do perigo, a dançar de alegria, atravessar os tempos difíceis e a continuar quando se sentia tentado a desistir. Estava lá esperando quando atravessava a rua, descia do ônibus escolar, retornava para casa depois de deixar a namorada em casa ou voltava da universidade, Na verdade, agora tudo o que posso fazer por você é estar lá, pois gradualmente você se transformou em uma pessoa independente - não mais como meu filho, porém como meu amigo.

DEUS UM CACHORRO E EU

Deborah Hedstrom

Histórias Para o Coração 3 87

 

 

Nunca me dei bem com cachorros. Eles latem, e eu fico afagos, e eu me aflijo com as pulgas, portanto fui totalmente surpreendida quando Deus colocou um cachorro em minha vida.

Tudo começou quando minha filha casada veio até aqui em casa e desfechou: "Não diga não até que eu acabe de explicar".

Como tinha experiência, pois havia mais de 20 anos era mãe de quatro filhos, já sabia que um pedido persuasivo estava pres­tes a ser feito. Olhei para minha filha que, embora sentada, estava bastante inquieta e disse: "Tudo bem! Sou toda ouvidos!".

Como lhe dei a oportunidade de expor seu pedido, as palavras saíram aos borbotões:

- Você sabe que Nathan e eu compramos um cachorro, não é mesmo? No entanto, não podemos ficar com ele em nosso aparta­mento. Como outros inquilinos têm cachorro em casa, pensamos que poderíamos ter um, mas recebemos um aviso de que só é possível ter cachorros com mais de um ano - explicou-me.

Fez uma breve pausa para respirar um pouco, e arrematou seu pedido com as seguintes palavras:

- Só precisamos de um lugar até conseguir um novo local para morar. Vamos nos mudar logo que der. Você pode deixá-lo no quintal. Nós traremos a comida para ele e cuidaremos dele.

Não sei bem a razão, mas concordei. Talvez fosse pelo fato de minha filha estar grávida. Qualquer que tenha sido o motivo, Perry veio parar em meu quintal.

Nesse ponto, os que apreciam cachorros podem até achar que já sabem o que aconteceu depois, mas não foi bem isso o que ocorreu. Não fui vencida por um focinho preto e aveludado e uma cauda sempre abanando, todos os dias, à porta de tela. Eu o alimentava de manhã, certificava-me de que tinha água e, de vez em quando, fazia-lhe um afago. Mas nunca cheguei a fazer mais do que isso!

Após manter os cachorros a distância por 45 anos, duvi­dava que o tratamento que dispensava ao Perry mudaria algum dia. Para suportar uma casa vazia sem os filhos que já haviam tomado seu rumo, comecei a empregar toda minha energia para manter a casa perfeita. Deus sabia que essa "perfeição" jamais preencheria o vazio em meu coração, portanto empurrou Perry para fazer parte de minha vida.

Depois de algumas semanas que o filhote estava em casa, percebi que ele parou de comer. Depois, que ele vomitara no quintal. Chamei minha filha e seu marido, embora soubesse que, com o trabalho que tinham e com o que ganhavam, não poderiam ajudar. No entanto, enquanto decidíamos o que fazer, eles confessaram que se esqueceram de vacinar o filhote. Temi pelo pior, mas disse: "Ele provavelmente ficará bom em alguns dias".

Mas ele não melhorou. Ao contrário, um dia, logo que levan­tei, deparei com um cãozinho tão fraco, que mal conseguia manter-se em pé. Quando tentou, sua cauda peluda, que normalmente se curvava para cima, bem acima de seu dorso, ficou caída entre as pernas traseiras. Embora ele não significasse nada para mim, sua doença me deixou com o coração sufocado. Quando me dei conta, percebi que estava pensando na doença e na morte de meu marido dez anos antes e sabia que não pode­ria deixar esse cachorro morrer. Comecei a chorar e coloquei o cãozinho no carro.

Minhas lágrimas fizeram com que o veterinário pensasse que eu era extremamente ligada ao animalzinho.

- Ele tem parvovirose - disse-me ele. - Essa doença ataca o aparelho digestivo e geralmente leva à morte.

Perguntei-lhe o que deveria fazer, mas ele me disse que isso dependeria de minha decisão. Dilacerada por minhas recordações, e cônscia de que esse cãozinho pertencia à minha filha, concordei com a internação por três dias para que fosse tratado pelo veterinário.

Três dias depois, Perry voltou para casa comigo. Embora estivesse bem melhor, era possível ver suas costelas sob a pele flácida e caída. Seu estado de saúde inspirava cuidados e, por­tanto, ele não poderia ficar lá fora, apesar de eu ainda me preo­cupar com os germes e as pulgas. Ao olhar para o cãozinho, tão fraco, resolvi que lhe daria um banho.

Nunca havia lavado um animal em minha vida e não tinha a menor ideia de como começar. No entanto, havia um boxe para o chuveiro, e a mangueira do chuveirinho era bem longa. Abri o boxe e chamei o cãozinho. Perry veio e submeteu-se a tudo - ao banho com xampu, ao enxágue, à toalha para secá-lo - sem a menor resistência.

Aliviada, pois sabia que não haveria pulgas espalhadas pela casa, eu estava mais propensa a deixar o cãozinho dentro de casa. No entanto, naquela noite fiquei preocupada, pois não .queria que Perry pulasse para a minha cama. Disse-lhe que isso seria um abuso. Ele foi até a porta do quarto e se deitou ao lado dela. Na manhã seguinte, quando acordei, Perry permanecia ali, guardando a entrada do quarto. Senti-me muito segura, e isso me surpreendeu. Desde a morte de meu marido e a época em que meus filhos saíram de casa, embora não sentisse muito medo, eu tinha plena consciência de que era uma mulher sozinha. Com a presença de Perry, senti-me menos vulnerável.

De repente, apesar de não saber nada sobre o cuidar e o treinar cachorros, vi-me às voltas com essas atividades. Toda vez que tinha alguma dúvida, eu chamava meu genro, mas, na maioria das vezes, tentava resolver tudo sozinha. Outras vezes, quando me dava conta, estava conversando com Perry: "Será que você gostaria de comer frango hoje?", ou: "Vamos andar mais um quarteirão?", ou ainda: "Está vendo este vidro cheio de coisas deliciosas? Bem, toda vez que fizer suas necessidades lá fora vai ganhar uma delas!".

Minha filha e seu marido vinham com bastante frequência à minha casa, mas com a chegada do bebê, com a impossibilidade de mudar de apartamento e com o turno de trabalho alternado, decidiram deixar Perry comigo. Esse cãozinho se tornou mais e mais uma companhia para mim. De manhã, ele se deitava perto de mim enquanto eu fazia os serviços domésticos e, depois, ficava ansioso à espera de nossos passeios.

Fiquei satisfeita quando o cãozinho esquelético engordou e se tornou um cachorro bonito, que muitas pessoas paravam para admirar. Ele era mestiço, pois o pai era um husky e a mãe um shar pen. Havia certamente puxado mais a seu pai, mas da mãe herdou a cor dourada e o ar expressivo.

Perry, porém, não foi o único que mudou. Certo dia, obser­vei que já não me apressava para lavar as mãos toda vez que o afagava. Brincava com ele, jogando algo para que fosse buscar e trazer de volta, e até permitia que, de vez em quando, a casa ficasse um pouco bagunçada. Nem eu acreditava no que estava acontecendo. Sorri muito no dia em que percebi que não mais me orgulhava das trilhas totalmente organizadas que deixava no

c􀀄pete após aspirar o pó. Perry as apagava assim que eu as faz􀀧. Minha casa, que um dia fora impecável, tinha brinquedos de borracha espalhados pelo chão e vasilhas para servir água e comida na cozinha.

Minha filha e seu marido já sabiam que agora Perry era tanto -ou quem sabe até mais -meu cãozinho quanto deles. Contudo, embora ainda não pudessem mantê-lo com eles, meu genro relu­tava em dar-me o cãozinho. Eu compreendia sua atitude, mas ela me abalou. Coloquei a coleira em Perry e saí para nosso passeio. Caminhava e orava: "Senhor, afeiçoei-me sobremaneira a esse cãozinho. Será muito penoso o dia em que tiver de devolvê-lo. Vou colocá-lo de novo no quintal, pois, mais uma vez, tenho de me acostumar a ter uma casa vazia".

Quando terminei de falar, parece que Deus sussurrou: "Você deixará que o medo a impeça de desfrutar a alegria que eu trouxe à sua casa por intermédio desse cãozinho?".

Perry virou-se e olhou para mim, quando comecei a chorar. Recuperei o controle e enxuguei as lágrimas na manga de meu moletom. Daí, disse ao cãozinho: "Tudo bem! Não se preocupe! Eu ficarei com você o tempo que o Senhor quiser, mesmo que isso signifique algum sofrimento quando tivermos de nós separar".

Quatro anos depois desse dia, eu ainda estou com o Perry. Com o tempo, meu genro percebeu que um cachorro grande não é apropriado para quem mora em um apartamento. Um dia, ele me disse: "O cãozinho é seu, minha cara!".

Não sei o exato momento em que percebi que Deus entendia o ,vazio que eu sentia e me ajudou a preenchê-lo. No entanto, fico surpresa quando penso em como o Senhor orquestrou os eventos para que, após 45 anos de: "Sai pra lá, seu cão!", eu chegasse a apreciar sobremaneira o abanar da cauda que me saúda todas as manhãs.


 

A AMIZADE É UM DIAMANTE

SALLY J. KNOWER

Histórias Para o Coração 3 93

 

 

A amizade é um diamante enterrado na terra;

um tesouro de grande valor.

Mas primeiro ele precisa ser extraído,

depois lapidado e polido.

É necessário picareta e pá e força,

saber esperar e suportar a dor,

até que sua graça possa ser vista;

um resplandecente presente de amor para der partilhado entre nós três:

primeiro Deus, a seguir você e, depois, eu.


 

O QUARTO DO CONSOLO

Mayo Matbers

Histórias Para o Coração 3 94

 

 

O quarto do consolo estará disponível a semana que vem? -perguntou minha amiga com voz extenuada e abatida. -Um descanso certamente me faria bem -completou ela.

Sorri, ao lhe assegurar que poderia utilizar o quarto de con­solo. Desliguei o telefone e fui até o cômodo que ela mencionara. O quarto de consolo surgiu quase por acidente, mas algo ficou óbvio para mim: as pessoas que o utilizam não vêm aqui por acidente, pois Deus as traz para nós quando mais necessitam de consolo.

Olhei ao redor do cômodo, passei minhas mãos suavemente sobre o papel de parede para sentir o desenho confortador. Cami­nhei até a cama antiga, estiquei a manta, enfeitada com alianças brancas e azuis, e me alegrei com a sensação familiar de conforto, que me apaziguou e envolveu como um edredom de penas.

A lembrança mais antiga que tenho dessa cama é de quando eu tinha três anos. Meus pais haviam trazido minha irmãzi­nha recém-nascida para a casa de minha avó, onde eu estava. Enquanto mamãe a deitava na cama, fiquei na ponta dos pés, espiando com entusiasmo por cima do colchão alto para que pudesse ter uma visão dela.

A cama, a cômoda e a penteadeira, tudo do mesmo estilo, ficavam, pelo que eu me lembro, no local que um dia foi a sala de visitas da espaçosa casa da fazenda de meus avós, em Missouri. Nos verões daquela época, quando todos os netos visitavam seus avós, "revezamento" era a ordem do dia. Nós nos revezávamos no balanço da varanda, na bicicleta e até mesmo nas tarefas domés­ticas. No entanto, na hora de dormir na cama da vovó, não havia revezamento algum. Até mesmo nas noites quentes e abafadas de verão, ela deixava que nos amontoássemos todos de uma vez ao redor dela. Os pequenos corpos suados ficavam alegremente colados uns aos outros, enquanto escutávamos histórias sobre os tempos antigos, até que, um após o outro, todos adormecêsse­mos.

Aquelas histórias bem tramadas me davam um grande senso de identidade familiar, além de me fazerem sentir orgulho e con­solo. E eu necessitava de muito consolo quando, no verão, as nuvens começavam a se formar no céu azul que se estendia sobre os campos de milho que rodeavam a fazenda. Eu tinha pavor dos temporais do Meio-Oeste, selvagens, fortes e barulhentos, que caíam quando nuvens densas apareciam no céu.

Eu olhava pela janela o clarão rápido e intenso dos relâmpagos através do céu. Após cada clarão contava os segundos até escutar o reboar do trovão. Vovó dissera que essa era a maneira

de saber a que distância a tempestade estava de nós.

O que eu mais detestava eram as tempestades na hora de dormir -quando tinha de subir para o meu quarto, pois estaria ainda mais perto do temporal. Era impossível dormir. À medida que os clarões cheios de nervuras dos relâmpagos ficavam mais brilhantes, o tempo entre a luz intensa que cortava o céu e o reboar do trovão era cada vez mais curto.

Até que, de repente, CLARÃO! BU-BUM! A luz e o som chegavam juntos! O temporal já chegou aqui! Bem em cima de mim!

Nesse momento, eu saltava da cama, com minha irmã grudada em mim, e dávamos de cara com meu irmão no corredor. Aí, nós três corríamos escada abaixo, todos tão próximos que mais pare­cíamos um só.

Ao escutar os pés ligeiros, vovó mais que depressa puxava as cobertas da cama, e nós pulávamos o mais rápido que podíamos para debaixo delas, procurando ficar bem juntinho a ela, agar­radinhos. Quando o trovão reverberava na casa que estremecia, vovó pulava dramaticamente e exclamava: "Uau! Este daí fez meus pêlos ficar em pé!". E nós, com a cabeça enterrada sob os travesseiros, não conseguíamos deixar de rir. Na cama da vovó sempre éramos consolados.

Ali, encontrei abrigo e consolo não só dos temporais, mas das tempestades da vida. Mágoas, coração partido, inseguranças -     tudo era curado ali. Quando eu tinha a sorte de ter a vovó só para mim na cama dela -o que não acontecia com frequência - contava-lhe os meus segredos mais íntimos, pois sabia que ela os levava a sério.

Quando meu pai, filho dela, morreu de câncer, eu tinha oito anos. No último dia de sua vida, em vez de passar aqueles últimos momentos com ele no hospital, vovó me acolheu em sua cama. Ao enrolar seu corpo em volta do meu, ela me infundiu o consolo que ainda não sabia que eu precisava.

Na universidade, quando terminei um noivado, algo que des­truiu meu coração e minhas esperanças, ela me consolou com sábias palavras: "O caminho para o amor nunca é sem obstácu­los, minha querida, mas você encontrará o seu na hora certa". Quatro anos mais tarde sua palavra se cumpriu.

Logo depois de meu casamento, vovó morreu, o que significou o término de uma fonte de amor e consolo ilimitados, do tipo que só uma avó pode dar, e a qual nunca seria substituída. Quando minha tia me telefonou para informar que o conjunto de mobílias do quarto da vovó seria meu, fui imediatamente a Missouri para trazê-lo para perto de mim. Embora as belas peças do mobiliário tivessem de ser guardadas, eu tinha esperanças de que algum dia teria um cômodo para elas em nossa casa.

O tempo voou, e os anos passaram rapidamente. Presa à alegre, mas frenética, tarefa de educar dois filhos, não tive muito tempo para pensar na mobília guardada no sótão. O presente me consumia em demasia para ter tempo de pensar no passado. Antes que percebesse, nosso primogênito estava arrumando suas coisas para mudar-se para uma nova fase de sua vida.

O dia em que Tyler saiu de casa, fui ao seu quarto vazio e me sentei no chão, e recordação após recordação passavam rapida­mente, como se cada uma delas fosse um tapinha amistoso nos ombros. Sua partida foi mais dolorosa do que eu antecipara. No eco desse cômodo, tentei aceitar essa porta que acabara de se fechar em minha vida.

De súbito, um pensamento me assolou. Levantei a cabeça e olhei o quarto de meu filho com novos olhos. Finalmente, teria um quarto para abrigar a mobília da vovó.

Nas duas semanas seguintes, dediquei-me àquele quarto, escolhendo com carinho a tinta, o papel de parede e as gravuras'. Lágrimas caíam na bandeja de tinta enquanto eu ponderava sobre todas as diferentes estações que temos de enfrentar· ao longo da vida. Quando acabei de pintar e colocar o papel de parede, meu marido arrastou a mobília, que estava no sótão, até o quarto e me ajudou a arrumá-la. Depois de tudo pronto, parei para apre­ciar o resultado desse empreendimento. Deixei que meus dedos deslizassem pelos sulcos no suporte dos pés daquele maravilhoso tesouro. Sentei-me em silêncio, e uma sensação familiar implorou por abraçar-me -a mesma sensação que eu tinha quando estava na cama, ao lado da vovó. Era como se ela estivesse ali comigo no quarto, consolando-me nesse novo estágio de minha vida.

Naquele instante, batizei o local -quarto de consolo. Ali mesmo onde eu estava sentada, orei: "Senhor, espero que todos os que ficarem neste quarto sintam o consolo que estou sentindo agora. Traze-nos pessoas necessitadas de consolo".

Nossa primeira convidada foi uma amiga que acabara de perder um irmão e dois grandes amigos. A seguir, um casal que enfrentava um ponto de transição na vida, mas não sabia que rumo tomar. Depois, uma jovem prima que necessitava de uma moradia temporária, e também um tio que morava fora da cidade e cuja esposa, após um enfarte, teve de ser levada às pressas para nosso centro médico. Desde o dia em que aquele quarto ficou pronto, Deus tem providenciado para que seja bem utilizado.

Há, porém, um visitante cuja chegada antevejo com muita ale­gria. Espero o dia em que meu filho retornará e trará consigo um neto. Aí, serei a avó que aconchegará seus netos naquela velha e antiga cama. Serei a pessoa que tecerá a trama das histórias do tempo de antigamente e oferecerei a eles o que minha avó me deu -consolo incessante e amor ilimitado.

 

 


 

ALGUÉM COM QUEM DIVIDIR

Em Tea Time With God

Histórias Para o Coração 3 99

 

 

Na virada do século passado, um homem escreveu em seu diário a história de um jovem vendedor de jornal, que conhecera em uma rua próxima à sua casa. Todos na vizinhança sabiam que esse jovem era órfão. O pai abandonara a família quando ele ainda era um bebê, e sua mãe morrera logo depois que ele começara a vender jornais. Todas as tentativas de colocar o jovem em um orfanato ou em uma casa de família que o acolhesse foram frustradas, pois o garoto se recusava a aceitar qualquer oferta de ajuda e fugia quando havia alguma tentativa de confiná-lo em qualquer desses lugares: "Posso cuidar de mim mesmo, obrigado!", dizia quando as senhoras gentis lhe perguntavam se já havia tomado o café da manhã. Na verdade, ele não aparentava passar fome, e sua persistência em vender pacote após pacote de jornais dava a impressão de que estava falando a verdade. No entanto, as ruas são um local solitário para morar, e o diário do homem reflete uma conversa que teve com o jovem a respeito de como organizar seu local de moradia. Um dia, quando parou para comprar seu jornal, o homem ganhou um pouco de tempo, enquanto procurava as moedas em seu bolso, e perguntou ao jovem onde ele morava. Disse-lhe que morava em uma cabina em um bairro pobre da cidade, próximo às margens do rio. Essa resposta surpreendeu o homem, que, ainda com mais interesse, fez mais uma pergunta: "Bem, quem mora com você?".

O jovem respondeu: "Só o Jim. Ele é inválido e não pode trabalhar. Ele é meu amigo".

Então, realmente surpreso, pois parecia que o jovem não só se sustentava, mas cuidava de alguém que não era capaz de contribuir em nada com os gastos, o homem observou: "Talvez você se desse melhor sem o Jim, não é mesmo?". A resposta do jovem, que transmitia certo desdém, foi um sermão lacônico: "Não, senhor. Se ele não estivesse lá, eu não teria ninguém à minha espera, quando volto para casa. Bem, o senhor não gostaria de viver e trabalhar sem ter alguém com quem dividir, não é mesmo?".

 

 

 

Vá com frequência à casa de seu amigo,

pois as ervas daninhas obstruem o caminho que não é utilizado.

RALPH W. EMERSON


 

A CARTEIRA

ArnoId Fine

Histórias Para o Coração 3 103

 

 

Em um dia gelado, quando voltava para casa, tropecei em uma carteira que alguém deixara cair na calçada.

Peguei-a e olhei o conteúdo à procura de alguma identificação para que pudesse avisar o dono. No entanto, a carteira tinha somente três dólares e unia carta amassada, que parecia estar ali havia anos.

O envelope estava gasto e a única coisa legível nele era o endereço do remetente. Comecei a abrir a carta, à espera de alguma dica. A seguir, vi a data — 1924. A carta fora escrita quase 60 anos antes de eu encontrá-la.

O papel da carta era azul, com uma pequena flor no canto esquerdo, e a letra era bonita e feminina. Era uma carta de rompimento que dizia ao endereçado, cujo nome parecia ser Michael, que ela não mais poderia vê-lo, pois a mãe a proibira. Mesmo assim, dizia a ele que sempre o amaria, e assinava a carta como, Hannah.

A missiva era muito bonita, mas não havia outra maneira de identificar o proprietário, a não ser pelo nome Michael. Talvez, se eu chamasse o auxílio à lista, a telefonista pudesse informar o endereço do remetente.

— Telefonista — disse eu — este é um pedido nada comum. Estou tentando achar o proprietário de uma carteira que encontrei na rua. Existe a possibilidade de você me dizer o telefone referente ao endereço que está no envelope dentro da carteira?

Eia sugeriu que eu falasse com a supervisora, que hesitou por um momento, mas disse a seguir:

— Bem, há um número de telefone registrado nesse endereço, mas não posso fornecê-lo.

Ela, no entanto, como cortesia, poderia fazer uma ligação para aquele número, explicar minha história e perguntar se aceitariam falar comigo. Esperei alguns minutos e, logo depois, a supervisora estava na linha novamente.

— Aceitaram falar com você!

Perguntei à mulher do outro lado da linha se ela conhecia alguma Hannah. Ela deu um suspiro antes de responder:

— Nossa! Compramos essa casa de uma família que tinha uma filha cujo nome era Hannah. Isso, porém, foi há 30 anos!

— Será que poderia me dizer onde eu localizo essa família? — perguntei.

— Lembro-me que Hannah colocou a mãe em um asilo alguns anos atrás. Talvez possam localizar a filha, se você entrar em contato com eles.

Ela me informou o nome do asilo, e telefonei imediatamente para lá. Disseram-me que a idosa senhora já morrera havia alguns anos, mas que tinham o telefone de onde a filha deveria estar morando.

Agradeci e telefonei para aquele número. A mulher que atendeu ao telefone explicou que Hannah estava em um asilo.

Que tolice, pensei. Por que estava fazendo tantos malabarismos para achar o proprietário de uma carteira que tinha apenas três dólares e uma carta de quase 60 anos?

Apesar disso, telefonei para o asilo onde, ao que tudo indicava, Hannah estava. O homem que atendeu ao telefone confirmou que havia uma Hannah ali.

Embora fosse dez da noite, perguntei se poderia ir vê-la.

— Bem — disse o homem — se você quiser arriscar, ela pode ainda estar na sala de convivência, assistindo à televisão.

Agradeci e fui até o asilo. À porta, a enfermeira da noite e o guarda me cumprimentaram. Fomos até o terceiro andar daquele prédio enorme. Na sala de convivência, a enfermeira apresentou-me a Hannah. Era uma senhora doce, com um sorriso acolhedor, cabelos prateados e olhos vivos. Contei-lhe sobre a carteira que encontrara e mostrei-lhe a carta. No momento em que ela viu o papel de carta azul com uma pequena flor no canto esquerdo, respirou profundamente e disse: — Meu jovem, esta carta foi meu último contato com Michael. Ela desviou o olhar por um instante, absorta em seus pensamentos, e a seguir disse suavemente: — Eu o amei muito. Na época, tinha apenas 16 anos, e minha mãe achou que eu era jovem demais. Ah! Mas como ele era bonito. Ele parecia o Sean Connery, o ator. É — continuou ela — Michael Goldstein era uma pessoa maravilhosa. Se você o encontrar, diga-lhe que, com frequência, penso nele. E — hesitou por um momento, quase mordendo o lábio, concluiu — diga-lhe que ainda o amo. Sabe — continuou, sorrindo, embora lágrimas começassem a brotar em seus olhos — eu nunca me casei. Acho que jamais alguém se equiparou ao Michael. Agradeci Hannah e me despedi dela. Peguei o elevador para G primeiro andar, e, enquanto estava parado perto da porta, o guarda me perguntou: — O senhor conseguiu ajudá-lo? Disse-lhe que Hannah tinha dado uma pista. — Pelo menos tenho um nome! — disse-lhe. — Acho que vou dar um tempo nesta busca. Passei quase um dia inteiro tentando achar o dono desta carteira. Tirei a carteira, que era bem simples, de couro marrom com debrum vermelho. Quando o guarda a viu, disse-me: - Ei! Espere aí! Esta é a carteira do Sr. Goldstein! Eu a conheço muito bem! É inconfundível em razão deste debrum vermelho! Ele sempre perde esta carteira. Eu já a encontrei pelo menos três vezes no saguão de entrada.

— Quem é o Sr. Goldstein? — perguntei, e minhas mãos ficaram trêmulas.

— Ele é um dos internos do oitavo andar. Esta certamente é a carteira de Michael Goldstein. Ele deve tê-la perdido em uma de suas caminhadas.

Agradeci o guarda e voltei rapidamente para o escritório da enfermeira. Contei-lhe o que o guarda acabara de dizer. Pegamos o elevador e continuamos a busca. Orei para que o Sr. Goldstein estivesse acordado.

No oitavo andar, o enfermeiro responsável nos disse:

— Acho que ele ainda está na sala de convivência. Ele gosta de ler à noite. É um senhor muito querido!

Fomos para o único cômodo que ainda tinha luzes acesas, e lá um homem lia um livro. A enfermeira aproximou-se dele e lhe perguntou se havia perdido a carteira. O Sr. Goldstein a olhou surpreso, pôs as mãos no bolso de trás e disse:

— É, ela não está aqui!

Eu entreguei a carteira ao Sr. Goldstein e, no momento em que ele a viu, sorriu aliviado e disse:

— É esta aqui mesmo! Devo tê-la deixado cair hoje à tarde.

Gostaria de lhe dar uma recompensa.

— Não obrigado! — respondi-lhe. — Mas tenho de dizer-lhe algo. Li a carta que está aí dentro, na esperança de encontrar algo que pudesse identificar o proprietário da carteira.

O sorriso dele se desvaneceu rapidamente.

— Você leu a carta? — perguntou-me.

— Não só li, mas acho que sei onde Hannah está.

— Hannah? — perguntou-me, após empalidecer só de ouvir o nome dela. — Você sabe onde ela está? Ela ainda é tão bonita quanto antigamente? Por favor, conte-me mais. Por favor!

— Ela está bem... tão bonita quanto na época em que a conheceu — disse-lhe suavemente. Aquele homem idoso sorriu em antecipação e perguntou: — Você poderia me dizer onde encontrá-la? Quero telefonar-lhe. Sabe — continuou, enquanto agarrava minha mão — eu estava tão apaixonado por aquela garota que, quando recebi esta carta, minha vida parecia não ter mais sentido. Nunca me casei. Acho que sempre a amei. — Sr. Goldstein — disse-lhe — venha comigo. Pegamos o elevador para o terceiro andar. Os corredores estavam escuros, e havia apenas uma ou duas lâmpadas noturnas acesas em nosso caminho até a sala de convivência, onde Hannah estava sozinha assistindo à televisão. A enfermeira foi até ela. — Hannah — eu disse suavemente, enquanto apontava o dedo para Michael —, você conhece este homem? Ela arrumou seus óculos, olhou-o por um momento, mas não disse urna palavra sequer. — Hannah! Sou eu, o Michael. Lembra-se de mim? — perguntou ele. — Michael! — suspirou ela. — Eu não acredito! Michael! É você? Meu querido Michael! Ele caminhou vagarosamente até ela, e eles se abraçaram. A enfermeira e eu saímos, e lágrimas banhavam nosso rosto. — Viu — disse eu — como o Senhor trabalha? Se for para ser, será! Cerca de três semanas depois recebi, em meu escritório, um telefonema do asilo. — Será que você poderia vir até aqui no domingo? Michael e Hannah vão se casar. Foi um casamento muito bonito, com todas as pessoas do asilo bem vestidas para comparecerem à cerimônia. Hannah usava um vestido bege claro e estava linda. Michael vestia um terno azul  marinho e parecia mais alto, pois estava aprumado. Fui o padrinho deles. O asilo providenciou um quarto só para eles. E se você nunca esperou que uma noiva de 73 anos e um noivo de 79 pudessem se comportar corno adolescentes, enganou-se, pois esse casal foi capaz de tão distinta jovialidade. Um desfecho perfeito para um caso de amor que durou quase 60 anos.

 

 

Se eu pudesse reinventar o alfabeto, poria o vocêu

— de você e eu — um ao lado do outro.

AUTOR DESCONHECIDO


 

UMA PASSAGEIRA ESPECIAL

Autor Desconhecido

Histórias Para o Coração 3 109

 

 

Os passageiros do ônibus olharam com simpatia quando aquela mulher, jovem e atraente, subiu com cuidado os degraus com o auxílio de uma bengala branca. Ela pagou a passagem e, utilizando as mãos para sentir a localização dos assentos, caminhou até o final do corredor, onde encontrou o assento que estava livre, conforme o motorista lhe dissera. Sentou-se, colocou sua maleta sobre o colo e apoiou a bengala na perna. Fazia um ano que Susan, com 34 anos, ficara cega. Devido a um erro de diagnóstico médico, ela perdeu a visão e, repentinamente, foi jogada em um mundo de escuridão, revolta, frustração e autopiedade. Susan fora uma mulher independente, mas agora se sentia condenada por essa terrível reviravolta do destino a tornar-se um fardo inconveniente e inútil para todos à sua volta. "Como isso foi acontecer comigo?", ela lamentava, com o coração compungido pela raiva. Ela sabia que não adiantava chorar ou esbravejar, pois a dura verdade é que sua visão jamais retornaria. Uma nuvem de depressão pairava sobre o espírito de Susan, que outrora fora tão otimista. Apenas viver o cotidiano era um exercício de frustração e exaustão. Só podia apoiar-se em Mark, seu marido. Mark era oficial da força aérea e amava Susan de todo o coração. Logo que ela perdeu a visão, ele a viu mergulhar no desespero e estava determinado a ajudar sua esposa a ganhar a força e a confiança de que necessitava para ser novamente independente. Mark, devido às qualificações de militar, recebera um bom treinamento para lidar com situações delicadas, embora soubesse que essa era a batalha mais difícil que teria de enfrentar.

Por fim, Susan sentiu-se apta a retornar ao trabalho, mas como poderia ir até lá? Ela costumava pegar o ônibus, mas agora tinha muito medo de sair sozinha. Mark se ofereceu para levá-la ao trabalho de carro todos os dias, apesar de trabalharem em pontos da cidade extremamente distantes e opostos.

De início, isso confortou Susan e ajudou Mark a dar vazão à necessidade que tinha de proteger a esposa cega, que se sentia totalmente insegura quanto a realizar a menor tarefa por conta própria. Logo, porém, Mark percebeu que esse acordo não era muito bom, pois, além de ficar muito caro, o ritmo era alucinante.

Ele teve de admitir para si mesmo que Susan teria de recomeçar a pegar o ônibus, mas ficava arrepiado de medo só de pensar em como lhe diria isso. Ela era frágil e estava com muita raiva. Como reagiria?

Como Mark previra, Susan ficou horrorizada com a ideia de pegar o ônibus novamente.

— Estou cega! — respondeu ela com amargura. — Como posso saber para onde vou? Parece que você está me abandonando!

Esse comentário partiu o coração de Mark, mas ele sabia o que deveria ser feito. Prometeu a Susan que pegaria o ônibus com ela todas as manhãs e tardes, o tempo que fosse necessário, até que ela se acostumasse com a viagem de ônibus. E foi isso exatamente o que aconteceu.

Durante duas semanas, Mark, em uniforme militar, acompanhou sua esposa ao trabalho, no caminho de ida e de volta. Ele ensinou Susan a utilizar mais os outros sentidos, particularmente a audição, para determinar onde estava e para adaptar-se ao ambiente. Ajudou sua esposa a tornar-se amiga dos motoristas de ônibus, que poderiam auxiliá-la a encontrar, ou reservar, um assento para ela. Ele a fez sorrir, até mesmo nos dias não tão agradáveis em que tropeçava quando descia do ônibus, ou quando deixava sua maleta cair. Todas as manhãs eles faziam o trajeto de ônibus juntos e, quando chegavam ao destino, Mark pegava um táxi para seu escritório. Embora essa rotina fosse ainda mais cara e exaustiva do que a anterior, Mark sabia que era só uma questão de tempo até ela ser capaz de pegar o ônibus sozinha. Ele confiava na Susan que conhecera antes que ficasse cega, que não temia nenhum desafio e que nunca, nunca mesmo, desistia de algo. Por fim, Susan decidiu que já estava preparada para fazer a jornada sozinha. Na segunda-feira de manhã antes de sair, abraçou Mark, o companheiro temporário em suas jornadas de ônibus e o melhor amigo. Seus olhos rasos de água agradeciam a fidelidade e a paciência dele, assim como o amor que ele lhe dedicava. Ela se despediu, e, pela primeira vez, tomaram rumos opostos, cada um para o seu trabalho. Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira... Não houve incidentes em nenhum dos dias em que pegou o ônibus sozinha. Susan sentiu-se muito bem consigo mesma. Ela conseguira! Estava indo para o trabalho sozinha! Na sexta-feira de manhã, Susan, como de costume, pegou o ônibus para o trabalho. Antes de descer do ônibus, enquanto pagava sua passagem, o motorista lhe disse: — Que inveja sinto de você! Susan não tinha certeza se o motorista estava falando com ela ou não. Afinal, quem neste mundo invejaria uma mulher cega que lutou apenas para encontrar ânimo a fim de viver o ano que passara? Curiosa, ela perguntou ao motorista: — Por que você diz que me inveja?

O motorista respondeu: — Deve ser muito bom sentir-se protegido e saber que estão cuidando de nós, como acontece com você! Susan não fazia a menor ideia do que o motorista estava falando e perguntou novamente: — O que você quer dizer? — Sabe, todas as manhãs desta semana, um senhor em uniforme, bem apessoado, ficou do outro lado da esquina, observando você, enquanto descia do ônibus — respondeu-lhe o motorista. — Ele se certifica de que você atravessou a rua seguramente e a observa até entrar no edifício em que trabalha. Daí, ele joga um beijo para você, faz continência e vai embora. Você é uma mulher de sorte! Lágrimas de alegria cobriram a face de Susan. Embora não pudesse vê-lo, ela sempre sentia a presença de Mark. Susan tinha muita sorte, pois ele lhe dera um presente mais poderoso do que a visão, um presente que não precisava ver para crer — o presente do amor que pode trazer luz onde antes havia escuridão.


 

LEVI E O DIA DOS NAMORADOS

J. Stephen Lang

Histórias Para o Coração 3 113

 

 

Quando Levi Carpenter propôs casamento a Letitia (Letty) McCluskey, em 1919, às vésperas do Ano Novo, ele disse o seguinte:

— Escolha o dia para nosso casamento, mas escolha um dia que seja fácil de guardar.

Ela escolheu o dia dos namorados.

Naquele ano de 1920, nevou muito no dia dos namorados em Fayetteville, no Tennessee. Letty sugeriu que adiassem o casamento:

— Vamos casar na semana que vem, assim todos os convidados poderão vir.

Levi não quis nem considerar a hipótese, pois estava convencido de que aquele dia era o mais apropriado, com ou sem neve. O casamento foi transferido às pressas da igreja para o gabinete pastoral, e havia apenas cinco pessoas presentes.

Como as estradas e ruas estavam intransitáveis, todo o esquema para flores, refrescos e roupas formais foi por água abaixo. No entanto, como em um passe de mágica, Levi conseguiu um buquê de rosas cor-de-rosa para a noiva. Quando encorajado a dizer onde as encontrara, disse somente que "tinha contatos". Quarenta e tantos anos mais tarde, ele disse ao seu bisneto (eu), que fora a esposa do pastor quem trouxera aquelas rosas da estufa que tinha em sua casa.

Quando cheguei a este mundo, Levi e sua namorada já tinham bem mais de 60 anos. Como morava a apenas alguns quilômetros deles, eu os via quase todos os fins de semana. Depois do dia dos namorados, sem falta, sabia que um enorme buquê de rosas cor-de-rosa estaria sobre a mesa de mogno do vestíbulo. Isto, porém, não era tudo. Próximo ao vaso estava a tentativa artística de Levi, repetida todos os anos: um grande floco de neve recortado de forma intricada em um pedaço de papel. Grudado nele havia um bilhete: A Letty, minha namorada há 44 anos. As palavras eram sempre as mesmas, mudava somente o número. Fiel à natureza, o floco de neve tinha sempre um formato diferente.

Aos nove anos, descobri um canto da cristaleira que abrigava cada um desses flocos de neve afetuosos e amorosos, a começar pelo primeiro cuja inscrição era: A Letty, minha namorada por um ano todo. Levi, o carpinteiro, era um homem tido como calado e frio, mas revelava seu coração a todos uma vez por ano.

Um dia, Levi sentou comigo e pacientemente me mostrou, passo a passo, como dobrar e cortar o papel em flocos de neve. No entanto, não demorou muito para que me sentisse mais frustrado do que artístico. Meus esforços resultaram em algo que mais parecia um ninho de rato do que flocos de neve. Isso me levou a cogitar: Será que meu bisavô realmente quer que eu aprenda o segredo?

Ele parecia sentir grande prazer em ser o único da família que tinha pendores artísticos. Sabia que seu irmão abastado, Claude, para comemorar o dia dos namorados, não só levara a esposa em uma excursão pelo Caribe, mas também a presenteara com um colar de pérolas durante o passeio. Claude apenas podia comprar presentes. Levi sabia fazer flocos de neve. E cada um desses flocos era um lembrete do dia do casamento, e da garota com quem se casara.

Ninguém jamais me disse no dia dos namorados: "Este é um grande dia para seus bisavôs", mas eu sabia que era. A única lem­brança que tenho deles se beijando c aquela em que, no dia dos namorados, meus pais e eu chegamos bem no momento em que Levi presenteava Letty com o floco de neve e as rosas.

Quando Letty percebeu que estávamos olhando, ficou corada e saiu bem depressa do cômodo, gritando; "Levi, seu malvado!”, mas não soava nada convincente.

Alguns anos depois, Levi deu a Letty o floco no qual escrevera: A Letty, minha namorada há 56 anos, mas ninguém tinha certeza se ela vira esse cartão. Ela estava viva e consciente, mas sedada, sob o efeito de fortes medicamentos, porém, quando ele lhe mostrou o floco de neve, ela apenas assentiu com um gesto vago. Ele o colocou sobre o criado-mudo, ao lado da cama do hospital, bem próximo do vaso com rosas cor-de-rosa.

Virou-se para Letty e disse: "Voltarei amanhã cedo, Letty” e, após uma pausa, acrescentou: "Meu amor”. Ela assentiu vaga­mente de novo.

Levi pegou-me pelo braço — algo raro — quando saímos do quarto. Alguns metros adiante, disse-me: "Menino, vá lá e traga aquele floco. As enfermeiras ou as moças da limpeza podem jogá-lo no lixo”.

Eu recolhi o floco, pois sabia que Levi queria levá-lo para casa e colocá-lo na cristaleira, com os outros. Se a Letty voltasse para casa, aí ele o mostraria para ela.

No dia dos namorados do ano seguinte, Levi e eu fomos ao cemitério levar um buquê de rosas cor-de-rosa. Havia uma fina camada de neve, que ele retirou da lápide dupla. Ele colocou as rosas no vaso da lápide, hesitou e, a seguir, colocou-as no vaso de vidro em que as trouxera.

— Que tolice, menino! — disse ele. — De que adianta colocá-las aqui onde ninguém as verá?

Ele deixou escapar um suspiro e, depois, emendou;

— Ela as verá de qualquer forma, onde quer que estejam. Voltaremos na primavera. Estou pensando em plantar uma roseira aqui, isto é, se a igreja permitir.

— De rosas cor-de-rosa? — perguntei.

— É lógico! — replicou ele. — Cor-de-rosa é uma cor bonita. Tome aqui... e leve-as de volta para o carro.

Peguei o vaso, procurando não olhar em seus olhos, pois sabia que sufocar uma lágrima seria muito mais difícil para ele se soubesse que eu o estava observando. Sentei-me no carro, o motor ligado, com o vaso de flores seguro em minhas mãos. Nesse momento, vi que Levi pegou algo no bolso de seu casaco e enfiou no vaso de pedra. Parecia um pedaço de papel, embora eu não pudesse ter certeza.

A neve começou a cair profusamente, e Levi correu para o carro.

— Acho que vai nevar bastante. É melhor irmos embora — disse ele.

Eu sabia que a única coisa sobre a qual não conversaríamos era o que estava em sua mente. Como uma nevada tão forte não o faria lembrar-se daquele dia 57 anos atrás? Aos 15 anos, ainda não experimentara a tristeza de um coração partido, mas, quando estava sentado com meu bisavô, quase chegava a sentir essa dor.

No ano seguinte, tirei minha carteira de motorista e fui ao cemitério sozinho pela primeira vez. Não havia neve nesse ano, e o dia estava apenas cinzento e muito frio.

A roseira que Levi e eu plantamos na primavera florescera maravilhosamente no verão, embora parecesse um tanto esquisita no momento, como todo o restante do cemitério, O dia da morte de Levi, havia quatro meses, fora gravado na lápide.

No Natal, meus pais haviam colocado no túmulo alguns bicos-de-papagaio sedosos, e eles ainda estavam ah. Já estão fora da estação, pensei.

Enquanto retirava os bicos-de-papagaio do vaso de pedra, algo chamou minha atenção. No fundo do vaso, entre o pedre­gulho, quase indistinto, vi um pedacinho de papel branco. De alguma maneira, após um ano de neve, chuva e ventania, o último floco de neve feito por Letty ainda estava intacto.

Peguei-o, pensando que poderia colocá-lo com os outros per­tences de meus bisavôs no porão da casa de meus pais.

No entanto, o papel não era um souvenir para mim. Era o pre­sente de aniversário de casamento que Levi fizera para Letty. Ele deveria ficar exatamente onde estava.


 

AMO VOCÊ, SEJA COMO FOR

Dr. Joe Harding

Histórias Para o Coração 3 118

 

 

Em uma sexta-feira de manhã, um jovem executivo final­mente resolveu pedir aumento de salário ao seu chefe. Antes de sair para o trabalho, ele contou à esposa o que faria naquele dia. Ele ficou nervoso e apreensivo o dia todo. No final da tarde, reuniu coragem para abordar o chefe, e, para sua ale­gria, este concordou em lhe dar aumento.

O marido, cheio de júbilo, chegou em casa e encontrou a mesa posta — o melhor aparelho de jantar e velas acesas. Sentiu o aroma de uma refeição especial e imaginou que alguém do escritório tivesse telefonado à esposa para contar-lhe a novidade. Quando a encontrou na cozinha, ele compartilhou os detalhes da grande notícia animadamente. Abraçaram-se e dançaram na sala, antes de sentarem para a maravilhosa refeição que sua esposa prepa­rara. Próximo ao seu prato encontrou um bilhete com letras artís­ticas e bonitas, em que estava escrito: “Parabéns, meu querido! Sabia que conseguiria o aumento! Este jantar é para mostrar-lhe o quanto eu o amo”.

Mais tarde, quando se dirigia à cozinha para ajudar sua esposa a servir a sobremesa, ele percebeu que havia um segundo bilhete, que caíra do bolso dela. Ele o recolheu do chão e leu: “Não se pre­ocupe por não ter conseguido o aumento! Você o merecia mesmo assim! Este jantar é para mostrar-lhe o quanto eu o amo”.

 

Aceitação total! Amor incondicional! Ela ficaria do lado dele de qualquer forma - suavizando as pancadas, curando as feridas e acreditando nele. Podemos ser rejeitados por muitas pessoas se formos amados apenas por uma.

 


 

DESMANCHANDO OS CASTELOS DE AREIA

Sue Monk Ktdd

Histórias Para o Coração 3 121

 

 

Em certo verão, bem ameno, meu marido e eu estáva­mos deitados sobre as toalhas na praia, lendo. Cada um fechado em seu mundo particular. Nos últimos tempos, isso era bem comum. Estávamos sempre muito ocupados, preocupados e caminhávamos em direções distintas. Eu esperava que o des­canso de umas férias fizesse alguma diferença, mas até aquele momento passamos a maior parte desse descanso apenas diva­gando em silêncio.

Tirei os olhos de meu livro para observar as ondas, uma após a outra, mas eu estava inquieta. Corri meus dedos pela areia e perguntei a meu marido:

— Quer fazer um castelo de areia?

Ele, na verdade, não queria, mas concordou para me agradar. Assim que começamos, ele ficou surpreendentemente absorto pelo projeto — nós dois, na verdade. Depois de algum tempo, estávamos trabalhando sobre o monte de areia, como se nosso castelo fosse ser fotografado para a revista Castelos de Areia, Sandy fez pontes sobre o fosso, enquanto eu coroava o topo do castelo com torres altas e esguias. Fizemos sacadas e janelas em arco, alinhadas com pequenas conchas. Parecia Camelot, o castelo da corte do rei Artur.

Nenhum de nós percebeu quando a maré mudou. Não perce­bemos as ondas subindo até que o açoite da água arrancou um naco de nosso castelo. Mas como as ondas voltavam com monó­tona regularidade, nossas mãos ficaram estáticas, e nossos olhos se perderam no horizonte. Sandy voltou para sua toalha de praia, e eu para a minha. Retornamos ao nosso silêncio.

Quando dei mais uma olhada à volta, o castelo de areia que construíramos com tanto estorço já havia sido totalmente levado pela maré alta. As pontes já tinham sido destruídas, e as torres estavam começando a se inclinar.

Olhei profundamente para aquele castelo de areia, e uma tris­teza imensa inundou meu ser. E, de repente, no meio daquele verão comum, tive um momento de pura revelação, sem que tivesse rogado por ela. Ali está meu casamento, pensei.

Olhei para o meu marido. O silêncio entre nós parecia claro e impenetrável. Era o silêncio vazio de pessoas de meia-idade e casadas — um casamento em que o barulho incessante da vida cotidiana ameaçava abafar a música da intimidade.

Deus amado, quando foi que a maré mudou? Quando foi que o empréstimo para comprar a casa própria e as roupas para lavar e a hora marcada com o ortodontista se tornaram mais importan­tes do que os longos e indescritíveis olhares que costumávamos trocar? Há quanto tempo não compartilhamos nossas dores mais profundas ou ficamos com as pernas tremendo devido a uma alegria envolta em espanto e riso? Como duas pessoas que se amavam permitiram que a distância se instalasse entre elas?

Pensei a respeito da atenção desmedida que dedicávamos a nosso relacionamento no início, e como, por fim, as exigências e a rotina interminável para administrar uma casa, educar dois filhos e equilibrar duas carreiras paralisaram nossas mãos e desviaram nosso olhar.

Aquela noite, depois que as crianças foram para a cama, meu marido encontrou-me parada na penumbra da varanda, obser­vando a noite.

- Você praticamente não falou nada a noite toda - disse-me ele.

- Desculpe-me! — murmurei. — É que estou pensativa.

- Você gostaria de compartilhar seus pensamentos comigo? — perguntou-me suavemente.

Virei-me e olhei para ele. Respirei fundo e disse:

- Estou pensando em nós. Acho que nosso relacionamento está sendo sufocado pelas exigências do dia-a-dia. Não demos o devido valor ao nosso casamento.

- O que você está falando? Temos um casamento muito com­promissado! — disse-me cheio de indignação.

- É claro que temos um casamento muito compromissado — concordei. — Mas parece que tudo o que temos são obrigações. Às vezes, parecemos dois estranhos vivendo sob o mesmo teto, pois cada um de nós segue seu caminho, bem separados.

Ele não disse uma palavra sequer. Agora eu já tinha falado, pensei. Virei o barco até o ponto em que ele estava prestes a soço­brar. Falei para meu marido que nosso casamento era algo muito próximo de um compromisso vazio. Meu Deus! Que coragem!

Nós nos olhamos. Era como se estivéssemos presos em uma bolha de dor que não queria estourar. As lágrimas inundaram minha face e abaixei a cabeça. Para minha surpresa, lágrimas também começaram a rolar no rosto dele.

E, de repente, com certeza o momento mais terno e afetuoso de meu casamento, Sandy, com seus dedos, seguiu o trajeto das lágrimas sobre minha face e, depois, tocou seu rosto também banhado em lágrimas, misturando, desse modo, nossas lágrimas.

Estranho como essas pequenas atitudes podem recriar o mistério da união entre duas pessoas. Sandy e eu descemos os degraus da varanda e fomos caminhar na praia sob o céu estrelado. Aos poucos, começamos a falar. Falamos demora­damente. Falamos sobre as pequenas agonias do casamento e a respeito das grandes batalhas que pessoas casadas têm de enfrentar. Falamos sobre os aspectos vulneráveis à corrosão e ao desgaste em nosso casamento e como eles vieram a acon­tecer. Falamos palavras doídas sobre nossas necessidades não satisfeitas.

Estávamos dissipando a escuridão que se instalara em nosso relacionamento. É verdade, essa era uma sensação desconfortá­vel e amedrontadora, como ficar flutuando no oceano sem um barco. No entanto, negociar com o caos e encarar a dor são as únicas atitudes que podem nos abrir um novo horizonte. Deus também está nas águas profundas e tenebrosas.

Por fim, já tarde da noite, com a sensação de que algo profundo e novo estava crescendo entre nós, eu disse sonhadora e romanticamente:

- Seria bom se algum dia fizéssemos novamente os votos de casamento.

- O que é que está errado agora? — disse meu marido.

Engoli seco. Será que as surpresas reservadas para essa noite

não teriam mais fim?

- Ma... mas o que diríamos? Quer dizer, já não me lembro bem dos votos de casamento. Por que simplesmente não dizemos o que está em nosso coração? — ele sugeriu.

Então, ali, sob a luz das estrelas e com o som do rebentar das ondas enchendo a noite, pegamos um na mão do outro e tentamos traduzir em palavras a música que voltara a ecoar entre nós.

- Prometo ouvi-la — disse ele. — Reservar um tempo para ver­dadeiramente compartilharmos.

- E eu prometo ser honesta e trabalhar para criar mais união entre nós — comecei a dizer.

Não me recordo de todas as palavras, mas lembro muito bem do sentimento por trás delas, a maneira como minha voz embar­gou e como sua mão segurou a minha mais estreitamente. Pensei, principalmente, que nossa atitude foi capaz de reconstruir o cas­telo, restaurar as pontes e erguer as torres.

Na manhã seguinte, deixamos as crianças em frente à televisão com o café da manhã, uma vasilha de cereal, e, a seguir, saímos para caminhar ao longo da praia. O sol derramou um mostrador dourado sobre a água do mar que parecia estar sempre apon­tando para nós, passo a passo. Conversamos enquanto andáva­mos, um pouco surpresos pelos acontecimentos da noite anterior, pois sabíamos muito bem que fazer promessas é uma coisa, mas cumpri-las é outra bem diferente. Não poderíamos abandonar nossas promessas recém-de cl aradas ali, derretendo à luz do luar. Deveríamos levá-las para casa, para que estivessem conosco em nossa rotina frenética, na secadora quebrada e nas migalhas de salgadinho debaixo da cama de meu filho.

Entramos na água alguns metros à frente, até a altura dos joe­lhos, e ficamos em pé, imersos no céu turquesa e na água cor de jade. Estávamos já para sair da água quando algo aconteceu. O focinho de um golfinho começou a surgir na água, cerca de dois metros apenas de onde estávamos, nos assustando de tal modo que caímos de costas na rebentação das ondas.

Sentamo-nos na água, ainda totalmente vestidos, e... com aquele golfinho ali, pulando e mergulhando diante de nós com seus rodopios prateados, um espetáculo tão maravilhoso e ines­perado, nós dois começamos a gargalhar até quase perder o fôlego. Não consigo lembrar-me de uma alegria tão rica e com­pleta quanto essa.

Por fim, nós dois, ainda nesse delírio de tanto rir e com nossas bermudas encharcadas, voltamos ao longo da praia onde alguns vestígios de castelos de areia salpicavam a areia. Olhei cada um deles. A seguir, comecei a ouvir uma voz que me sussurrava: "Quando o amanhã chegar, e a vida derrubar os muros de seu castelo, lembre-se do poder da dor sincera e das lagrimas que se misturam. Lembre-se da cura do riso profundamente compartilhado. Lembre-se do que é importante. Apegue-se a isso sempre".


 

O GRANDE AMOR

Jim Priest

Histórias Para o Coração 3 127

 

 

Enquanto andavam de cá para lá, no convés do luxuoso transatlântico, eles eram a personificação do romance. Andavam de braços dados, as cabeças coladas, compartilhando histórias e segredos e sorrisos. Pareciam apaixonados, isso era o que todos percebiam. No entanto, sob a superfície, onde ninguém poderia perscrutar, havia algo mais — aquilo que os olhos não podiam ver, os ouvidos não podiam escutar e as mentes não podiam compreender. Abaixo da superfície havia o compromisso profundo e duradouro entre eles, o que os unia de forma mais firme e mais inabalável do que os rebites que sustentavam o transatlântico à prova de naufrágios em que se encontravam. O nome deles era Isidor e Ida Strauss. Eles imigraram para a América, onde batalharam para conseguir um lugar ao sol no Novo Mundo até que acabaram por conseguir certo renome. Com suor e aborrecimentos, foram capazes de construir uma pequena loja de mercadorias em Nova York, a Macy´s. Estavam usufruindo as férias mais do que merecidas naquele transatlântico, o HMS Titanic, naquele dia de abril, em 1912. Desfrutavam a companhia um do outro. O que eles não sabiam ainda é que aquele seria o último dia em que se alegrariam juntos.

Em 14 de abril de 1912, tarde da noite, o Titanic — o transatlântico à prova de naufrágios — bateu em um iceberg e começou a afundar. Icebergs, obviamente, mostram apenas uma pequena fração de seu volume, pois a maior parte do imponderável pedaço de gelo fica sob a superfície do oceano — tão abaixo da supera-cie que olho algum poderia ver, ouvido algum poderia escutar e mente alguma poderia compreender tamanha imensidão e profundidade. À medida que o transatlântico começou a se inclinar e afundar, a vida dos que estavam a bordo mudou. Alguns, cheios de temor, engalfinhavam-se para ficar em segurança. Outros valorosos ajudavam os necessitados. Isidor e Ida Strauss caminhavam calmamente pelo convés, avaliando a situação antes de chegar ao local onde estavam os botes salva-vidas. A Sra. Strauss começou a entrar em um dos botes salva-vidas, mas repentinamente mudou de opinião. Virou-se para o marido e disse: — Vivemos juntos durante muitos anos, portanto, aonde você for, eu irei. Membros da tribulação escutaram o que ela disse e tentaram dissuadi-la. Ela, porém, não quis ouvir. Um dos membros da tripulação virou-se para o Sr. Strauss e disse: — Tenho certeza de que ninguém faria objeção a que um cavalheiro idoso, como o senhor, entrasse no bote. O Sr. Strauss, porém, era tão teimoso quanto sua esposa. — Não entrarei antes dos outros homens — disse ele. O assunto, portanto, estava resolvido. Nenhum dos dois iria sem o outro, e nenhum deles iria. A Sra. Strauss virou-se para sua criada e disse: — Pegue meu casaco de peles, pois já não preciso mais dele. A seguir, os dois, um casal idoso, caminharam até algumas espreguiçadeiras que estavam no convés e se sentaram ali, juntos, à espera do inevitável.

Como o iceberg, o casal Strauss tinha muito mais abaixo da superfície do que poderia ser visto por um observador casual. É bem verdade que eles demonstravam seu amor abertamente, mas isso era apenas o visível. Sob a superfície havia um sólido compromisso, que nada, nem mesmo a ameaça da morte, poderia abalar.

 

 

HMS HIS/HER MAJESTY´S SHIP, uma sigla que indica que o navio pertence à Marinha Britânica.


 

SEI QUAL É O MEU LUGAR

Boh Welch Na Revista Moody [Melancólico]

Histórias Para o Coração 3 130

 

 

O fotógrafo e eu saímos em uma tarefa de três dias para o jornal- agora tínhamos a rodovia à nossa frente e havíamos deixado nossa casa para trás.

Nós nos dirigíamos ao desfiladeiro de Columbia, onde o rio Columbia entalhou um caminho cerca de um quilômetro e meio de largura entre Washington e Oregon. Esse era o local que windsurfistas de todos os cantos do país escolheram para dançar na crista das ondas criadas pelos "ventos nucleares", e onde eu estaria longe dos compromissos massacrantes do horário comercial, prazos e rotinas, dos pequenos afazeres - pagar as contas, levar a roupa para a lavanderia, buscar o filme revelado etc. -, de ter de empurrar as crianças para o treino de beisebol e de certificar-me de que não esquecera as meias no chão do quarto.

Sinceramente, a despedida não fora nada agradável. Nossa família estava passando por uma crise financeira, e estávamos quase a zero. Nosso carro de 1981, já bem velho, dava sinais de desgaste. Estávamos todos cansados, irritados e, um tanto enfraquecidos espiritualmente.

Meu filho de oito anos tentou nos animar com sua versão desafinada de uma canção do musical Annie: "O sol nascerá amanhã, aposte seu último tostão que amanhã teremos sol."

Não funcionou.

Eu estava ocupado, arrumando minhas coisas para a viagem; minha esposa, Sally, estava inquieta, pois para ela meus três dias de liberdade significariam três dias de responsabilidades extras.

- Papai, você vai assistir à apresentação de canto da minha classe quinta-feira à noite? - perguntou-me Jason, meu filho de oito anos, em meio à confusão de minha partida.

Bill Cosby faria uma expressão engraçada e diria:

- É claro que sim! - e todos viveriam felizes para sempre.

No entanto, naquela manhã, eu não me parecia em nada com Bill Cosby.

- Desculpe-me, mas estarei fora da cidade - disse-lhe eu.

Após dar um beijo rápido em Sally, parti. Agora, algumas horas mais tarde, eu estava bem longe de minha família - distante da confusão, dos narizes escorrendo e da exigência de doar meu tempo a eles.

O fotógrafo e eu, enquanto estávamos na estrada, conversávamos sobre nossa vida particular. Ele tinha aproximadamente a mesma idade que eu - cerca de 35 anos - era casado, mas não linha filhos.

Contou-me que ele e a esposa visitaram recentemente o desfiladeiro. Demorei a reagir ao que ele acabara de falar, pois fora surpreendido por algo - ele e a esposa? Lembrei-me vagamente como era viajar somente com a esposa. Zarpar sempre que desse na cabeça. Sem pedidos para andar a cavalo bem na hora em que você está pronto para desmaiar a noite toda de tanto cansaço.

Sem quartos tão bagunçados, onde mais parece que um furacão passou por ali do que crianças cheias de vida. Sem reunião de pais e mestres à noite.

Além de não ter filhos, o fotógrafo não tinha de deparar-se com batatas fritas que estavam no piso de seu carro havia mais de seis meses, nem com figurinhas do Super-homem no painel do carro e, tampouco, com mapas de estradas em que praticamente um Estado inteiro fora suprimido por uma barra de chocolate derretida sobre ele.

Nos dois dias seguintes, apesar da ameaça de chuva, exploramos o desfiladeiro: escarpas de basalto que se erguiam a 300 metros de altura acima do rio Columbia, onde pranchas florescentes, semelhantes a mosquitos de néon, entalhavam um rastro na água.

A terra e a água eram intrigantes, e os windsurfistas também.

Havia milhares deles, quase todos nascidos no período de prosperidade econômica, entre 1946 e 1965. Eles acordavam tarde, ficavam o resto do dia na água, e aproveitavam a noite na cidade.

Praticamente, de cada quatro carros, um tinha bagageiro. As placas de carros de todas as partes do país pontilhavam as ruas.

Alguns desses carros com bagageiros pertenciam a pessoas de espírito livre, que viajavam ao sabor do vento e moravam na van; outros pertenciam a yuppie bem estabelecidos, que ali estavam apenas para passar o fim de semana ou as férias.

Observar esse grupo era como descobrir uma velha tribo.

Enquanto eu estava ocupado em minhas tentativas de consertar correntes emperradas de bicicleta, meus companheiros de geração apertavam-se, ao som do rock, em danceterias noite após noite.

Enquanto eu gastava meu salário em compras de supermercado, em contas do ortodontista e em fundos para a universidade, essas pessoas apenas tinham de decidir a cor da prancha de windsurfe que compravam.

Onde eu errara?

Em nossa última noite no local, o tempo ainda continuava nublado, o que aborrecia o fotógrafo, assim como espelhava o estado de espírito que se abatera sobre mim. Nós dois precisávamos da luz do sol, mas por razões distintas.

Quando, da janela do pequeno hotel, olhei o rio abaixo, senti um vazio, como se fosse uma pessoa totalmente deslocada, desambientada. Eu não pertencia a esse cenário. Nem à minha família.

Nem a lugar algum. À medida que o vento do desfiladeiro batia no rio, formando cristas brancas, o vento da liberdade também golpeava minha crença. Deus. Casamento. Filhos. Trabalho. Eu ancorara minha vida nessas convicções, mas parecia que elas estavam escapando pelo vão de meus dedos.

Será que eu cometera algum engano? Será que os limites das Escrituras se haviam tornado uma prisão que me sufocava? Será que eu me vendera ao rigor de minhas responsabilidades? Algum dia, quando estivesse mais velho, será que me depararia com a dura realidade do arrependimento por não ter vivido ao sabor do vento?

Eu já estava me arrumando para ir para a cama, quando vi um cartão em minha mala, enterrado embaixo de minhas roupas. Era da Sally. Vacas enfeitavam o cartão - a queda de minha esposa por bovinos - e as palavras ali eram breves e simples: "Eu o amarei até que as vacas voltem para casa".

Olhei o cartão por alguns instantes. Repeti as palavras.

Observei a mesma caligrafia que vira em cartas de amor trocadas na universidade, na certidão de casamento, em dois registros de nascimento e em um testamento. E, nesse momento, algo dentro de mim se enterneceu. A promessa de minha esposa penetrou em meu coração endurecido, levando-me a refocalizar minha perspectiva esvaecida. Em um instante, eu sabia exatamente qual era o meu lugar.

No dia seguinte, após duas horas de entrevistas, seis horas em um carro e uma corrida de três quarteirões, cheguei à escola de meu filho, ansioso e ofegante. A apresentação de canto começara havia 20 minutos. Será que eu perdera a canção de Jason?

Corri até a lanchonete. Estava abarrotada. Quase freneticamente, abri caminho entre a multidão de pais que obstruíam a entrada do local onde eu poderia ver de relance as crianças no palco. Foi nesse momento que eu as ouvi: 25 vozes de crianças do primeiro ano tentando alcançar as notas que só seriam capazes de alcançar dentro de cinco anos.

O sol nascerá amanhã, aposte seu último tostão que amanhã teremos sol...

Meus olhos buscavam Jason nesse grupo de crianças.

Por fim, consegui vê-lo: na fila da frente, como sempre, espremido entre duas meninas, cujos germens, a julgar pela expressão dele, estavam se arrastando sobre ele como formigas em um piquenique. Estava cantando, mas com menos entusiasmo do que quando tinha de arrumar seu quarto.

De repente, seus olhos viraram para a minha direção, e sua face se iluminou com aquele sorriso que um pai apenas vê em uma apresentação na escola, quando os olhares de pai e filho se encontram. Ele me vira, um momento que estará para sempre registrado em minha memória.

Mais tarde, em um mar de faces, avistei Sally e meu outro filho. Depois da apresentação, em meio a uma massa de pais e filhos, nós quatro nos encontramos, indiferentes à comoção que nos cercava. Não senti vazio algum, somente a união, a sensação de pertencer.

Nos dias que virão, retomarei minhas funções: consertar bicicletas, trabalhar em período integral, ser professor da Escola Dominical e marido - papéis que podem fazer um windsurfista bocejar.

Mas decidi que trocaria de bom grado algumas coisas: toda a liberdade temporal que encontraria ao deslizar ao longo do rio pela liberdade eterna de um Deus fiel; todo o luxo do interior de um carro impecável pelo sorriso de meu filho de oito anos ali na primeira fileira; o modo de vida livre do desfiladeiro de Columbia pela responsabilidade de cuidar da mulher que prometeu me amar até que as vacas voltem para casa.

 

 

Um casamento feliz é a união de dois bons perdoadores.

ROBERT QUILLEN

 


 

O ESPÍRITO DE ALEGRIA

NA REVISTA LADIES HOME JOURNAL

Histórias Para o Coração 3  136

 

 

Como vão os negócios, Eben?

O homem idoso estava lavando a louça após retornar à casa depois do trabalho.

— Tudo em ordem, Martha, tudo em ordem.

— A loja ainda está do mesmo jeito? Nossa, como gostaria de ir para lá de novo, ver o sol brilhar em seu interior e iluminar tudo ali. Como a loja está agora, Eben?

— A loja nunca mais foi a mesma desde que você saiu de lá, Martha.

Martha corou levemente. Uma esposa será algum dia velha demais para se emocionar com os elogios do marido?

Eben e Martha tiveram uma loja de miudezas por muitos anos, mas um dia Martha ficou doente e foi hospitalizada. Isso aconteceu dois meses atrás. Ela já saíra do hospital, mas jamais recuperaria as forças de novo — nunca mais seria parceira dele naquela pequena loja tão alegre.

Não consigo deixar de sentir uma vontade imensa de ver nossa pequena loja, pensou Martha uma tarde. Se for muito cuidadosa, acho que conseguirei chegar lá. Afinal, não é tão longe assim.

Levou um tempo enorme até que ela conseguisse chegar ao centro da cidade, mas, por fim, ela alcançou o início da rua onde a loja se localizava. De repente, ela parou bruscamente. Não muito longe dela, na calçada, estava Eben. Carregava um tabuleiro à altura da cintura, pendurado no pescoço por tiras. Nesse tabuleiro havia algumas carteias de botões para colarinho, outras com alfinetes e muitos maços de cadarços de sapato. Com voz trêmula, anunciava seu produto. Martha se apoiou contra o muro de um prédio próximo. Depois, olhou na direção da pequena loja. As vitrinas estavam repletas de frutas. Só então ela compreendeu o que acontecera. A pequena loja Fora vendida para pagar as despesas hospitalares. Virou-se e se apressou para sair dali o mais rápido que suas pernas enfraquecidas conseguissem. Ele ficará muito sentido se souber que descobri tudo - pensou ela, e as lágrimas molharam sua face. Ele guardou esse segredo, e agora eu é que guardarei um segredo. Ele nunca saberá que eu sei o que aconteceu com a nossa loja. Aquela noite, quando Eben chegou em casa, com frio e cansado, Martha fez alegremente a mesma velha pergunta: — Como vão os negócios, Eben? — Melhor do que nunca, Martha — respondeu ele com entusiasmo. E ela orou a Deus para que o abençoasse por seu espírito de alegria e pelo amor que dedicava a ela.

 

 

Nesta vida não podemos realizar grandes feitos.

Podemos apenas fazer pequenas coisas com grande amor.

MADRE TERESA

 


 

RECOMEÇOS

Patricia Wyman Na Revista Virtue [Virtude]

Histórias Para o Coração 3 138

 

 

Até a noite, Lee.

- Essa manhã, o beijo rotineiro de Mark nem chegou a tocar meu rosto. Ele seguiu em direção à porta, mas se virou antes de sair:

- Ah!, talvez eu tenha uma reunião hoje à noite. Se tiver, eu aviso você.

Não devolvi seu beijo nem dei uma resposta a seu comentário.

Sem notar que não correspondera a seu beijo nem lhe dera uma resposta, Mark fechou a porta e saiu.

Em um impulso, agarrei minha xícara de café, precipitei-me em direção à porta e a abri. Vi Mark dar a volta no canteiro de azaléias, até que, quando entrou na garagem, o perdi de vista.

Nos primeiros anos de nosso casamento, essa era a nossa tradição matinal. Eu ficava à porta até que ele tirasse o carro da garagem, buzinasse e acenasse adeus. Não houve nenhum aceno de mãos essa manhã, e meu olhar vagou solitário, pois ele não esperava mais que eu estivesse ali à porta.

Voltei para a cozinha e enchi novamente minha xícara, joguei uma malha de lã sobre meus ombros, fui para o quintal e me sentei no velho balanço. Esse quintal sempre me encantou. Esperava que estar ali, sentada, me ajudasse a recordar as lembranças de um tempo em que éramos mais felizes.

Embora estivéssemos bem no início da primavera, o sol aquecia meu rosto. As árvores começavam a brotar, e o orvalho matutino sobre as pétalas amarelas das forsítias refletia os raios de sol.

Olhei para o local onde ficava a cerejeira japonesa, sempre cheia de flores. Mark e eu a plantamos quando nos mudamos para essa casa, 20 anos atrás. Essa árvore, principalmente quando florescia, passou a representar muito além do que apenas a beleza que exibia e a sombra que proporcionava. A maturação da árvore acompanhava o crescimento de nossos três filhos.

Os ventos fortes, quase tão fortes quanto o de um furacão, assolaram nossa região no último outono e derrubaram a árvore.

Quando os paisagistas escavaram as raízes, senti como se minhas raízes estivessem sendo arrancadas.

Olhei a faixa nua de terra que restou e me lembrei o dia em que fiquei sabendo que iríamos mudar para essa casa.

Éramos casados havia seis anos e tínhamos três filhos - Mark Jr., Becca e Emily. Morávamos em um pequeno apartamento e estávamos amontoados ali, como roupas em uma mala extremamente cheia. Eu estava fazendo purê de batatas para o jantar, quando Mark deu um pulo em casa.

- Todos para a sala - Mark ordenou. - Tenho uma novidade para contar a vocês.

Ele andava de cá para lá, impaciente, à espera de que nos acomodássemos.

- Achei uma casa para nós. Precisa de uma reforma para arrumar uma série de detalhes, mas é uma casa muito boa. O melhor de tudo é que ela tem um quintal enorme e maravilhoso. Não, o melhor mesmo é que podemos comprá-Ia.

Naquela manhã ensolarada de primavera, percebi que a casa era tudo o que me sobrara.

Os filhos já haviam saído de casa, e cada um já cuidava de sua própria vida. Embora eu tivesse um emprego muito gratificante como enfermeira de um pediatra, ainda assim deparava-me com horas a fio de inatividade que não sabia como preencher, horas em que volta e meia tinha de enfrentar o sentimento de desolação e inutilidade que me assolava, eu sempre levara a sério minha função de mãe. Estava determinada a educar meus filhos em um lar espiritual. Passei uma boa parte de meu tempo tentando infundir valores em meus filhos.

Levava-os a treinos, jogos e aulas. Ajudava-os com a lição de casa e preenchia meus dias com centenas de outras coisas que as crianças em geral solicitam - coisas que parece que ninguém mais nos pede. É verdade que Mark ainda morava conosco fisicamente, mas emocionalmente estava a anos luz de distância.

O que mais me incomodava era não saber quando tudo começou. No momento em que notei sua distância, o abismo entre nós estava profundo e grande demais para ser atravessado.

- Chega! - disse eu e voltei para casa.

O telefone tocou no momento em que eu estava entrando na cozinha - as chamadas de Becca, todas as quartas-feiras de manhã, sempre no mesmo horário.

- Mãe, sei que você detesta festas surpresa, mas vou dar uma festa para você - disse-me ela.

- Algo muito gentil e carinhoso, Becca. Mas, mesmo que eu gostasse de festas surpresa, por que você organizaria uma para mim?

- Mãe! Pelas bodas de prata no mês que vem - disse-me, mas em sua ansiedade pareceu mais minha mãe do que minha filha. - Guarde sua festa surpresa para a celebração das bodas de ouro - retruquei.

E adicionei mentalmente: "Se chegarmos lá! ".

Após fazer o relatório sobre todas as maravilhas que meu neto estava fazendo, Becca despediu-se. Enquanto me trocava para ir ao trabalho, eu ainda pensava sobre essa misteriosa dor que estava destruindo meu casamento, que um dia fora bem saudável.

O pensamento que me recusara a enaltecer com considerações conscientes insistia em me perturbar até que eu disse para mim mesma: "Não, não pode ser devido a outra pessoa. Deus, por favor, não permita que seja outra pessoa".

As semanas seguintes transcorreram com poucas mudanças em nosso relacionamento. Éramos dolorosamente polidos um com o outro. Beijos rotineiros passaram a fazer parte de nosso ritual matutino, e Mark continuava tendo muitas reuniões até tarde da noite.

Um sábado, quando Mark sugeriu que saíssemos para jantar, comecei a desejar, apesar de todas as evidências contrárias, que nosso encontro servisse para reavivar algo em nosso coração.

Cheia de expectativa, dei-me ao luxo de paparicar-me: apliquei uma máscara facial, lavei o cabelo, tomei um banho de banheira com sais de banho, fiz as mãos e descansei por uma hora.

Decidi usar um conjunto bege de seda no qual havia três anos não conseguia entrar. Parece que minha apatia em relação a tantas coisas incluía a comida.

Enquanto Mark me ajudava a entrar no carro, disse-me que eu estava encantadora.

Infelizmente, o jantar foi por água abaixo. Depois que falamos sobre as crianças e o trabalho, nossa conversa ficou muito formal e bem estranha.

Na sobremesa, minhas esperanças renasceram, quando, uma vez mais, ele me disse: "Você realmente está muito bonita hoje, Lee". No entanto, naquela noite caímos no sono na posição habitual - de costas um para o outro e com um espaço enorme entre nós. Eu o toquei acidentalmente, mas logo me encolhi. Parecia ter feito algo indecente, como se tivesse tocado um estranho.

Minha mente continuava cochichando algo para mim: "Foi culpa daquela tempestade", mas eu sabia que, qualquer que fosse o problema que estávamos enfrentando, uma árvore que caíra não poderia ser a culpada.

Acordei às seis horas e saí bem cuidadosamente da cama.

Enrolada em um robe, velho e acolhedor, peguei meu café e fui sentar-me no balanço lá fora, no meio do chilrear dos pardais e dos canários-da-terra.

"Acabou", murmurei. "Nosso casamento realmente acabou...

mas eu não quero que acabe! Não posso deixá-Io acabar!".

Meu olhar voltou-se para o local onde a árvore estivera, e vi algo no solo. Coloquei minha xícara no chão, apertei bem o robe, fui até lá e me ajoelhei.

Pequenos brotos estavam forçando o caminho através da terra dura. Percebi que eram lírios do campo. Talvez, estivessem ali há muito tempo, escondidos entre as raízes da árvore, e eu ainda não os notara. Talvez tivessem sido forçados a permanecer dormentes por todos esses anos, cedendo lugar para as necessidades avassaladoras de uma árvore em crescimento.

Não interessa muito como apareceram por ali, mas a verdade é que algumas plantas pequenas se estendiam na direção do céu e do sol.

Meus pensamentos voltaram-se para o quintal de minha infância, cheio de lírios do campo. Quando minha mãe ficava na varanda para os admirar e sentir o doce perfume que exalavam, seu rosto expressava tranqüilidade e paz, a mesma expressão que tinha quando estava na igreja.

- Essas pequenas flores, em formato de sino, parecem muito delicadas - dizia ela -, mas na verdade são muito resistentes. Não importa se o inverno foi muito severo ou não, na primavera elas sempre brotam.

A seguir, abria os braços como se fosse segurar o quintal e tudo o que estava ali.

- Não dá para acreditar que esse exuberante crescimento de coisas belas começou apenas com algumas plantas! Creio que esse espetáculo é uma mensagem de esperança de nosso Senhor - dizia ela.

Entrei, preparei caprichosamente tudo o que Mark mais gostava de comer logo que acordava, arrumei uma bandeja e servi a ele o café da manhã na cama.

Debrucei-me sobre ele, dei-lhe um beijo e sussurrei: "Você não faz idéia de quanto eu o amo!".

Ele se assustou e despertou do sono profundo, deu uma espiada sob as pálpebras pesadas e perguntou com voz rouca:

- O que é isto? Qual o problema?

- Não tenho bem certeza - disse-lhe. - No entanto, estou disposta a consertar o que quer que esteja errado. E você?

- Lee, tem algo que quero contar para você.

- Agora não, Mark. Vamos planejar nossa viagem!

- Que viagem? - perguntou ele, enquanto apoiava seu corpo sobre um cotovelo.

- A das bodas de prata! Onde você quer ir?

- Lee, não é o que você está pensando... eu nunca...

- Nunca pensei que tivesse - emendei.

Estava ali com meu cabelo emaranhado, embrulhada em meu velho robe, quando Mark pegou minha mão e disse: "Você é tão bonita! ".

E o novo recomeçar prometido pelos lírios do campo criou raízes em meu coração.

 

 

 

Tudo, qualquer coisa que eu compreenda,

compreendo apenas porque amo.

LEO TOLSTOY


 

O GROU DOURADO

Patrícia Lorenz

Histórias Para o Coração 3 145

 

 

Como sou professora de origami (a antiga arte japonesa de fazer dobraduras em papel) no instituto de aprendizagem LaFarge, em Milwaukee, Wisconsin, pedi a Art Beaudry que nos representasse em uma exposição em um grande shoopping center da cidade. Ele resolveu levar uns 200 grous feitos de dobraduras de papel para distribuir para as pessoas que parassem em sua barraca.

Antes do dia da exibição, porém, algo estranho aconteceu.

U ma voz interior disse-lhe para fazer um grou em papel alumínio. A pressão foi tão forte que Art logo começou a rebuscar em sua coleção de papéis para origami até achar um pedaço de papel alumínio. "Por que estou fazendo isto?", perguntou-se. Ele nunca trabalhara com papel dourado, e esse não era o mais apropriado para fazer dobraduras, pois não dobrava tão bem nem ficava tão impecável quanto as manufaturadas com papel espelho, multicoloridos e mais firmes. Aquela voz, porém, continuava a perturbá-Io. Art limpou a garganta ruidosamente e tentou ignorá-Ia:

.. Por que papel alumínio? É muito mais fácil trabalhar com papel espelho", resmungou ele.

Naquela noite, no entanto, Art dobrou cuidadosamente e deu forma ao implacável papel alumínio dourado até torná-Io tão delicado e gracioso quanto um grou de verdade, prestes a alçar vôo.

Ele empacotou o primoroso pássaro na caixa com os outros grous, cerca de 200, feitos em papel colorido, nas semanas que antecederam a exibição.

No dia seguinte, no shoopping center, muitas pessoas pararam na barraca de Art para perguntar sobre origami, e ele fez então uma demonstração dessa arte: dobrou, desdobrou e dobrou novamente. Ele explicou os detalhes, inclusive a necessidade de dobras precisas.

Então, Art reparou em uma mulher que estava ali, em frente à barraca dele: aquela era a pessoa especial. Ele nunca a vira antes, e ela não disse uma palavra sequer enquanto o observava fazer um grou, em um pedaço de papel rosa-choque, com as asas bem acentuadas e graciosas.

Art deu uma olhada para ela e, antes que percebesse o que fazia, já estava com as mãos na grande caixa que continha o suprimento de grous de papel. Ali estava ele, o delicado pássaro em papel alumínio dourado que fizera na noite anterior. Ele o pegou e, cuidadosamente, o colocou na mão daquela mulher.

- Não sei bem por que, mas há uma voz aqui dentro que está me dizendo que devo dar-lhe este grou dourado. O grou é um antigo símbolo da paz - disse Art.

Enquanto a mulher envolvia cuidadosamente o pássaro frágil em sua pequena mão, como se ele estivesse vivo, não proferiu uma palavra sequer. Quando Art olhou para o rosto dela, seus olhos estavam rasos de água, e as lágrimas à beira de rolar sobre sua face.

Por fim, a mulher respirou profundamente e disse:

- Meu marido morreu três semanas atrás. Esta é a primeira vez que saio de casa. Hoje... - disse ela, enquanto enxugava os olhos com a mão que estava livre e então concluiu, bem baixinho, o que começara a dizer. - Hoje é o dia de nossas bodas de ouro.

A seguir a estranha disse:

- Obrigada por este lindo presente. Agora eu sei que meu marido está em paz. Você ainda não se deu conta? A voz que você escutou é a voz de Deus, e este grou é um presente que o Senhor me deu. Este foi o presente mais bonito dentre todos que poderia receber em minhas bodas de ouro. Obrigada por ter me escutado de todo coração.

E foi assim que Art aprendeu a ouvir com muito cuidado quando a voz em seu interior lhe diz para fazer algo, mesmo que não entenda a razão do pedido no momento em que é proferido.


 

O MOMENTO MAIS AGRADÁVEL DA VIDA

Eugene S. Geissler Em Thebestis Yettobe [O Melhor Está Por Vir]

Histórias Para o Coração 3 148

 

 

“Jo, você se lembra quando me chamou pela primeira vez de "marido amigo"? Isso foi há muitos e muitos anos, logo no começo de nosso casamento. Acho que de início essa maneira de expressar o que você sentia não me surpreendeu. Afinal, o que mais se pode esperar de um marido ou de uma esposa? Mas agora que estou mais velho, e você continua a me chamar desse modo, isso ganhou um tremendo significado para mim.

Passamos por muitas coisas juntos e sobrevivemos a todas elas. Agora, tudo o que podemos esperar é o cuidado que teremos um pelo outro.

Quando completamos 35 anos de casados, você escreveu:

"Meu marido amigo tinha 20 anos quando o conheci, portanto não tenho conhecimento, em primeira mão, de seus anos de vida anteriores. A pessoa que ele era aos 28 anos mereceu meu interesse imediato - não havia estranheza nem tensão - e ficamos amigos em nosso primeiro encontro. E ainda somos amigos".

Alguns dias atrás, celebramos discretamente 45 anos de casamento. Esse foi, na verdade, um dos melhores aniversários de casamento, não é mesmo? No dia seguinte, você me chamou de lado, embora não houvesse ninguém por perto que pudesse nos ver ou ouvir. Você me segredou: "Desde que nos casamos e depois, quando você estava no exterior, todos esses anos eu. Sempre quis lhe dar uma aliança de ouro. Você a usaria?".

Agora, sento-me aqui com minha aliança de ouro, que brilha para mim. Não faz nem 45 horas que a uso, mas parece que já está há 45 anos em meu dedo. Em uma ocasião posterior, quando eu lhe deixei um bilhete sobre o balcão da cozinha, fiquei feliz ao assiná-lo: "Seu marido amigo com a aliança de ouro".

Será que só estou mencionando o trivial? Ou, quem sabe, talvez não seja necessário dizer nada? Um marido e uma esposa, amigos, e que estão juntos por 45 anos, podem até saber o que o outro está pensando. Depois de um período tão extenso, sentar-se ao lado do outro em silêncio pode tornar-se um tipo de virtude, um som agradável, a linguagem da presença. Você acreditaria que de vez em quando temos a tendência de chamar esses momentos de "o momento mais agradável da vida"?

Há cinco anos, nossos filhos decidiram reformar a saleta para transformá-la em um cômodo especial só para nós dois. Fomos pegos de surpresa e não nos sentimos tão seguros a respeito dessa oferta. Você sabe como as pessoas, especialmente quando envelhecem, não gostam de mudanças no ambiente em que vivem. No entanto, aceitamos, pois esse foi um presente de Natal que nossos filhos amavelmente nos deram.

Esse cômodo é bem longo, embora seja estreito, com a frente para o sul e uma enorme janela. No canto à direita, bem estreito, fica a biblioteca. Ali está aquela poltrona confortável que você sempre quis, um local onde você passou muito tempo fazendo leituras. Ler é seu passatempo favorito, seu divertimento, sua terapia e seu refúgio.

Minha poltrona, que combina com a sua, fica do outro lado do cômodo, no canto próximo da estufa. Esse é meu porto seguro.

Um sofá, encostado na parede em frente à janela, permite que tenhamos uma boa companhia de vez em quando.

Aqui estamos, todos os dias, um de cada lado do cômodo, um de frente para o outro — você, a maior parte do tempo, na biblioteca, e eu, uma pessoa cheia de altos e baixos, meticulosa e bem aquém de você, do outro lado. Mas aqui há muitas coisas que acontecem entre nós. Oramos e muitas vezes tomamos o café da manhã e almoçamos aqui. Às vezes, interrompemos um ao outro com coisas para contar, descobertas e pensamentos profundos para compartilhar, brincadeiras para rir juntos e, até mesmo, desavenças que se iniciam e acabam aqui mesmo.

Estamos conscientes da necessidade e da preocupação que temos um pelo outro, assim como das promessas de um cuidar do outro, seja quem for que estiver apto a fazê-lo, quando esse tempo chegar. Algumas vezes, pedimos ao Senhor se podemos morrer quase juntos, para não ficarmos sozinhos por muito tempo. Agradecemos a Deus todos os dias por estarmos juntos.

Parece que hoje oramos muito mais pelos "idosos e enfermos" e, outro dia, tivemos de incluir "nós mesmos". Nenhum de nós é tão velho ou está tão enfermo para falar dessa maneira. Sabemos, porém, que esse tempo está chegando — o fim de tudo o que estimamos e apreciamos juntos. Ser honesto a respeito do que se encontra oculto diante de nós não nos impede de ter esses momentos passageiros de paz e serenidade de alma, os quais são um prazer antecipado das boas coisas que nos esperam quando estivermos na presença do Senhor.


 

O ANJO DE RUDY

Wilma Hankins Hlawiczka

Histórias Para o Coração 3 152

 

 

Entrei no pequeno supermercado, mas não estava realmente interessada em fazer compras. Não estava com fome. A dor de perder meu marido de apenas 37 anos ainda era muito cruel. E esse pequeno armazém guardava tantas doces lembranças.

Rudy veio muitas vezes aqui comigo e quase sempre fingia ter se perdido de mim para procurar algo especial. Sabia que ele estava aprontando alguma coisa. A seguir, eu o via em um dos corredores, vindo em minha direção com três rosas amarelas.

Rudy sabia que eu gostava de rosas amarelas. Agora, com o coração cheio de pesar, eu queria apenas comprar alguns itens e sair dali, mas até mesmo fazer as compras de supermercado se tornou uma atividade muito diferente desde que Rudy morreu. Passava mais tempo até fazer compras apenas para uma pessoa do que quando as fazia para nós dois. No balcão de carnes, eu procurava o menor filé, e o melhor, o que me trazia à lembrança o quanto Rudy gostava de filé. De repente, uma mulher veio para esse balcão e ficou ao meu lado. Ela era alta, magra e vestia um terninho em um tom de verde agradável e ameno. Observei-a quando pegou um grande pacote de costela, colocou-o em seu carrinho, hesitou e depois devolveu o pacote. Virou-se para ir embora, mas pegou o pacote novamente. Ela percebeu que eu a estava observando e sorriu.

- Meu marido adora costela, mas, francamente, está muito caro. Não sei se devo levar ou não.

Controlei minha emoção e fitei seus pálidos olhos azuis.

- Meu marido morreu há oito dias - disse-lhe.

Olhei o pacote em sua mão e procurei controlar o tremor em minha voz.

- Compre as costelas para ele e aproveite todos os momentos em que estiverem juntos.

Ela concordou com um gesto de cabeça. Observei a emoção no olhar dela enquanto colocava o pacote na cesta e empurrava o carrinho para outro local. Virei-me e empurrei meu carrinho para o balcão de laticínios. Ali fiquei na dúvida sobre a quantidade de leite que deveria comprar. Quando finalmente decidi, fui para a seção de sorvetes, próximo à entrada do supermercado. Poderia, pelo menos, comprar um cone de sorvete para mim.

Coloquei o sorvete no carrinho e dei uma olhada no corredor, lá na frente, próximo do caixa. Vi primeiro o terninho verde e só depois reconheci a mulher bonita vindo em minha direção. Em seus braços havia um embrulho e ela sorria, radiante. Eu poderia até jurar que uma auréola, muito suave, circundava seu cabelo loiro, enquanto caminhava em minha direção, olhando-me nos olhos. Quando chegou mais perto, vi o que carregava e lágrimas turvaram meu olhar.

- Isso é para você - disse-me, enquanto colocava três rosas amarelas, de hastes longas, em meus braços. - Não se preocupe, quando você passar no caixa, todos ali saberão que já estão pagas.

Inclinou-se para beijar meu rosto e, depois, sorriu novamente.

Eu queria lhe dizer o que ela fizera por mim, o que aquelas rosas significavam, mas eu, ainda incapaz de proferir uma palavra sequer, fitei-a enquanto se afastava. Meus olhos estavam rasos de água. Olhei as rosas, lindas, aninhadas em um papel de seda verde, e achei aquilo quase quimérico. Como ela poderia saber? De repente, tive um vislumbre da resposta, bem clara. Eu não estava só.

- Ah! Rudy, você não me esqueceu, não é mesmo? - suspirei e lágrimas brotaram em meus olhos.

Ele estava comigo, e ela era seu anjo.


 

O VELHO ED NUNCA ESQUECEU

Max Lucado em In The Eye Of The Storm [No Olho Do Furacão]

Histórias Para o Coração 3 157

 

 

Há umas coisas, para os simples espectadores, parecem um ritual vazio, mas para as pessoas que conhecem a razão de ser delas, podem parecer mais significativas do que a própria vida. Veja a história do velho Ed, da Flórida. Todas as sextas, no final da tarde, quando o sol, do tamanho de uma laranja gigante, está prestes a mergulhar na água, o velho Ed caminha sossegadamente ao longo da praia até chegar ao seu cais predileto. Suas mãos magras levam um balde cheio de camarões. Os camarões não são para ele, nem para os peixes. Muito peculiar, mas os camarões são para as gaivotas. Ed, absorto em seus pensamentos, vai até a ponta do cais. Quando chega ali, com esse balde, sem dizer absolutamente nada a ninguém nesse trajeto, inicia o ritual.

Em pouco tempo, o céu fica encoberto por uma massa de pequenos pontos que guincham e grasnam, todos dirigindo-se ao velho Ed, na ponta do cais. Quando estão bem próximos, eles envolvem o Ed com sua presença. O adejar das aves soa como o estrondear de um trovão. Ed fica ali e, enquanto alimenta os pássaros com camarões, parece resmungar: "Obrigado, muito obrigado!", de forma quase imperceptível. Em poucos minutos, o balde fica vazio, Ed permanece ali, em seus pensamentos, como

se tivesse sido arrebatado para outro tempo e local. A seguir, sem dizer palavra, volta calmamente para casa.

Quem, afinal de contas, é o velho Ed? Seu nome completo é Eddie Rickenbacker. Ele foi capitão na Segunda Guerra Mundial e pilotava um B-17, uma fortaleza voadora. Ele e outros sete companheiros foram enviados em uma missão para localizar o general MacArthur no Pacífico, mas o avião deles caiu na água.

Todos, milagrosamente, conseguiram sair do avião e alcançar o bote salva-vidas.

A bordo do salva-vidas, enfrentaram o sol e os tubarões. Mais do que tudo, tiveram de lutar contra a fome, pois esses oito homens comiam e bebiam o mínimo necessário, até que, no oitavo dia, a ração de emergência deles acabou. Era necessário um milagre para que sobrevivessem.

Esses homens dedicaram uma tarde para uma devocional, oraram e tentaram repousar. Enquanto Rickenbacker tirava um cochilo, com o chapéu sobre os olhos, algo pousou sobre sua cabeça. Era uma gaivota. Essa gaivota significava alimento... se ele conseguisse capturá-Ia... Conseguiu.

Ele retirou as penas da ave, e eles compartilharam o bocado juntos. Depois, usaram os intestinos como isca de peixe. Conseguiram sobreviver até serem encontrados, praticamente no limite de suas forças.

Tempos depois, o evangelista Billy Graham pediu que Rickenbacker contasse sua história, pois ficou sabendo que aquela experiência possibilitara que o capitão conhecesse nosso Salvador, Jesus Cristo. Rickenbacker disse a Billy Graham: "Não tenho explicação, a não ser que Deus enviou um de seus anjos para nos resgatar".

O velho Ed nunca esqueceu essa experiência. Ele jamais deixou de dizer: "Obrigado". Até morrer, todas as sextas-feiras, no fim da tarde, Ed ia ao velho cais, com um balde cheio de camarões e o coração cheio de gratidão pelo resgate, apenas para dizer:

"Obrigado. Muito obrigado. Obrigado mesmo".

 


 

MELHOR DO QUE UM TROFÉU

GRACE WITWER HOUSHOLDER

Histórias Para o Coração 3 159

 

 

Já no início da temporada, meu marido me disse que esse seria seu último ano como treinador de beisebol.

Depois de dez anos como treinador, ele amava tanto o beisebol e as crianças que não conseguia fazer nada pela metade. Os 100% de dedicação e os muitos treinos extraordinários cobravam um preço muito alto, físico e emocional. Ele me disse que já era tempo de virar espectador novamente.

Nos torneios, o time dele, formado por garotos de 10 e 11 anos, tinha o melhor desempenho da liga de beisebol. Eles haviam melhorado muito e parecia que, dessa vez, trariam troféus para casa.

No entanto, os jogadores foram assolados pela gripe naquela noite, à véspera da decisão.

Na última entrada defensiva, um dos jogadores que estava doente, o melhor batedor do time, não conseguiu rebater a bola.

Com lágrimas rolando pela face, disse ao treinador que não conseguia nem ficar em pé. Ele precisava deitar-se. O time teria de rebater fora de ordem e receber a terceira e última bola boa, o que os eliminaria.

Só eu sabia como seria doloroso para meu marido encerrar sua carreira de treinador com uma derrota dessas.

Três dias mais tarde, essa carta de um dos juízes do jogo apareceu no jornal local:

 

No torneio da liga principal de beisebol dos juniores, realizado após a temporada, presenciei uni exemplo maravilhoso do que o esporte deveria ser para a juventude. Antes do jogo, dois jogadores de uni dos times ficaram doentes, nuas, mesmo assim, queriam jogar. O treinador aceitou a decisão deles e as colocou na armação do time.

Na parte final da última entrada, o time estava vencendo por duas corridas, mas não conseguiu rebater duas bolas boas, quando o batedor seguinte, conforme a sequência da escalação do time, seria um dos jogadores vitimados pela gripe. Apesar de seu jogo de rebatidas violentas, houve um momento em que o rapaz não mais conseguiu vencer sua doença. Ele simplesmente não conseguia rebater. Conforme as regras oficiais do beisebol, que norteavam a partida, isso significava que o time teria de rebater fora de ordem e se submeter à terceira e última bola boa.

O treinador poderia ter questionado as regras e tentar persuadir o treinador do outro time a conceder uma bola boa a mais sem rebatida. Ele, porém, decidiu não fazer isso. Os jogadores desse time poderiam ter desprezado os companheiros de equipe que estavam indispostos, mas, em vez disso, os confortaram. Os fãs poderiam ter escolhido pleitear mudança com a comissão de dirigentes responsáveis e incitar o treinador a agir, mas eles escolheram consolar seus amigos.

Em uma época em que vencer parece ser a única possibilidade, ninguém do lado perdedor deu nenhuma desculpa ou apelou de forma ultrajante. Aceitaram a derrota conforme as regras do jogo.

O jogo de beisebol pode ser visto como uni microcosmo da vida real. Algumas vezes as rupturas podem ser a nosso favor; mas outras vezes não. Você pode obedecer às regras e encarar as consequências, ou pode não seguir as regras e prejudicar outra pessoa. O treinador demonstrou que, embora as regras possam às vezes não estar do nosso lado, elas não deixam de ser regras, e obedecê-las pode ser muito melhor do que perder a dignidade e comprometer o espírito do jogo. As crianças podem ter até chorado, pois a temporada para elas acabou, mas o que conquistaram naquela noite terá muna ação muito mais duradoura do que as lágrimas.

Um dia depois que esta carta foi enviada ao editor do jornal local, meu marido recebeu a seguinte carta de um dos jogadores de dez anos:

Obrigado por ter sido meu técnico. Você fez com que nos aperfeiçoássemos. Sei que a derrota foi um aborrecimento para você, pois havia vencido a temporada por dois anos consecutivos. No entanto, você nunca perdeu o controle, mas, quando isso quase acontecia, você sorria.

Meu marido e seu time entraram no torneio e queriam um troféu.

No entanto, conseguiram algo muito melhor.

 

*O juiz que escreveu esta carta foi Brian Mien.

 


 

O AMOR E O TAXISTA

Art Bachwald

Histórias Para o Coração 3 162

 

 

Outro dia, eu estava em Nova York e peguei um táxi com um amigo. Quando saímos do carro, meu amigo disse para o motorista:

— Muito obrigado pela corrida. Você foi fantástico. Dirigiu muito bem!

O taxista ficou estupefato por alguns instantes e, a seguir, disse:

— Você é um cara metido a sabichão ou o quê?

— Não, meu caro, não estou tirando uma da sua cara, não!

Apenas, admirei a maneira como conseguiu ficar calmo nesse trânsito infernal.

O motorista aceitou a explicação e foi embora.

— Qual é a sua? — perguntei.

— Estou tentando trazer amor para a cidade de Nova York — disse ele. — Acredito que essa seja a única maneira de salvar esta cidade.

— Como um homem apenas pode salvar Nova York? — perguntei surpreso.

— Apenas um homem não! Acredito que o taxista ganhou o dia com minhas palavras. Imagine que ele faça 20 corridas. Certamente será gentil para com esses 20 passageiros, pois alguém foi gentil com ele. Esses passageiros, por sua vez, serão mais gentis com os patrões ou balconistas ou garçons, ou, até quem sabe, com seus familiares. Por fim, essa boa vontade alcançará pelo menos mil pessoas. Bem, isso não é nada mal, não é mesmo?

— É, mas você depende desse motorista de táxi para continuar essa corrente da boa vontade!

— Não dependo apenas dele para alcançar meu objetivo, meu caro — disse meu amigo.

— Sei que esse sistema não é à. prova de insensatos, mas posso ter contato com dez pessoas hoje. Se dessas dez, eu conseguir fazer três delas felizes, posso afetar indiretamente a vida de outras três mil pessoas.

— Parece uma teoria ideal, mas não sei se funciona na prática — disse-lhe. — Se não funcionar, eu não perco nada. Dizer àquele homem que ele estava desempenhando bem o trabalho dele não me custou nada nem tomou meu tempo. Ele não recebeu uma gorjeta maior, nem menor. Se o elogio caiu no vazio, e daí? Amanhã com certeza encontrarei um taxista a quem poderei fazer feliz.

— Você é maluco! — disse-lhe.

— Isso só demonstra que você se tornou um cínico. Fiz um estudo a esse respeito. O que parece que está faltando para nossos carteiros, além de dinheiro, é claro, é que ninguém mais elogia o bom trabalho que estão realizando.

— Mas, na verdade, eles não estão fazendo um bom trabalho! — comentei.

— Eles não estão realizando um bom trabalho, porque ninguém se importa se estão fazendo ou não um bom trabalho. Por que não deveríamos fazer comentários gentis para eles? Estávamos passando por uma construção, e cinco operários almoçavam. Meu amigo parou.

— Vocês estão fazendo um trabalho muito bonito. Esta deve ser uma atividade difícil e perigosa.

Os operários, intrigados, olharam para meu amigo.

— Quando é que vocês acabarão esta obra? — perguntou ele.

— Em junho — resmungou um deles.

— Olhe, esta construção é grandiosa. Vocês devem ter orgulho dela, não é mesmo? — ele rematou.

Fomos embora e lhe disse:

— Nunca encontrei ninguém como você desde D. Quixote.

— Depois que esses homens digerirem minhas palavras, eles se sentirão muito melhor, e a cidade certamente se beneficiará com a alegria deles.

— Mas não é possível fazer isto sozinho! — disse-lhe. — Você é apenas um. — Mas a coisa mais importante é não desanimar — continuou ele. Fazer as pessoas da cidade voltar a ser gentis não é uma tarefa fácil, mas eu posso arregimentar outras pessoas para minha campanha...

— Você acabou de dar urna piscadinha para uma mulher bastante comum, sem nenhum atrativo especial — disse eu.

— É verdade, eu sei disso! — concordou ele. — E se ela for professora, os alunos dela terão uma aula muito mais agradável.


 

O REVIDE

Steven J. Lawson Emabsolutely Sure [Absolutamente Seguro]

Histórias Para o Coração 3 166

 

 

Um soldado cristão tinha o hábito de finalizar o dia com a leitura da Bíblia e oração. À noite, quando seus companheiros se reuniam na caserna para dormir, ele se ajoelhava ao lado de seu beliche e orava a Deus.

Os outros soldados, quando o viram fazer isso, começaram a fazer piadinhas sobre ele e a atormentá-lo.

Um dia, quando estava ajoelhado diante do Senhor, um antagonista jogou a bota nele e o acertou no rosto. Os outros soldados riram e zombaram, à espera de uma briga.

Mas não houve revide algum.

Na manhã seguinte, quando o soldado que agrediu esse cristão acordou, ficou surpreso ao descobrir algo ao pé de sua cama.

E todos também viram - ali estavam as botas do agressor, alinhadas e engraxadas.

 

 

 

A sabedoria está muitas vezes mais próxima quando

nos humilhamos do que quando nos exaltamos!

WILLIAM WORDSWORTH


 

AROMA DE NATAL

Barbara Baunzgardner

Histórias Para o Coração 3 168

 

 

Algumas vezes tento me lembrar do primeiro Natal. Mas a maior parte dessa lembrança parece apenas um filme em branco. O fragmento que consigo me lembrar inclui as risadas forçadas, os sorrisos falsos e a tentativa desesperada de me divertir.

O Natal chegara, exatamente na data, conforme o programado pelos calendários, apenas três meses após a morte de meu marido. Não houve lágrimas nem conversas referentes a sua ausência... apenas festividades vazias e sem significado. Às vezes, fico feliz por não me lembrar de mais coisas. Alguns disseram que isso era devido ao "choque da viúva", mas, com o tempo, essa ferida cicatrizaria.

Doze meses mais tarde, essa cura foi evidenciada pelo entusiasmo que brotava em mim enquanto me preparava para a fantástica e gloriosa celebração. Os filhos viriam: duas filhas, um genro e dois netos, todos concordaram em passar o Natal em minha casa.

Decorei todos os cantos da casa, exceto os que estavam fora de meu alcance. Bolas de Natal das mais variadas cores estavam penduradas nas folhas da seringueira que ficava na entrada, e pingentes de ouropel, que imitavam singelos, pedacinhos de gelo, balançavam preguiçosamente nos galhos úmidos da figueira. Fitas cassetes com músicas natalinas alegravam o ambiente. Bicos-de-papagaio, azevinhos e viços decoravam os quartos, a sala e até a banheira, pois foram colocados acima dela. Até mesmo o cão guardava diligentemente os meninos de pão-de-mel, pendurados na árvore de Natal, e rosnava sempre que o gato se aproximava deles. A melhor parte era o aroma de Natal que substituíra o cheiro de morte impregnado na casa por tanto tempo. Doces temperados com cravo e erva-doce e biscoitos com cobertura de limão produziam uma fragrância animadora e penetrante. Canudos de canela, puxa-puxa, bombas recheadas com creme cie manteiga e tortas de abóbora, amarelo-queimado. saíam da cozinha — que funcionava a todo vapor para produzir os aramas de Natal — para o freezer à espera da celebração do nascimento de nosso Salvador e da reunião da família e dos amigos. Esse ano, o aroma de Natal, sem os empecilhos de ter de transferir um patrimônio, fechar uma empresa ou ainda desfazer-se de roupas e ferramentas, pairava livremente no ar e se elevava até o forro. Esse ano, eu tinha muitas expectativas e mal podia esperar pelo momento em que teria a família reunida em casa para o Natal. No entanto, três dias antes da ceia, às sete da manhã, recebi o primeiro telefonema: "Mãe, espero que compreenda. O tempo aqui está gelado, muito abaixo de zero, e fiquei a noite toda acordada cuidando dos canos que congelaram e estavam quebrando. Não posso mesmo abandonar meu trailer ao sabor do tempo para ir para sua casa no Natal. Você vai ficar bem, se eu não for?". "É claro!", foi minha resposta, pois sabia que em Portland estava muito frio, batendo recordes de temperatura baixa para a época do ano, e o trailer de Jeri era velho e pouco protegido contra o frio. Jeri, ainda solteira, pagaria muito caro para consertar os danos causados pela tempestade se viajasse no Natal.

 

— Bem, celebraremos o Natal em outra ocasião — disse-lhe.

— Agora, você tem de cuidar de sua casa.

Recebi o segundo telefonema cerca de 20 minutos mais tarde.

— Mãe, com o fator vento, a temperatura está 45"C abaixo de zero. Não podemos abandonar as ovelhas e os canos de água para, ir até sua casa. Será que você poderia vir para cá no Natal?

— Minha querida, acho que agora já não dá mais para mudar de planos. Mas tudo bem. Espero que você, o Gregg e as crianças tenham um bom Natal. Colocarei. os pacotes de presentes de sua família no ônibus.

Quando desliguei, me senti muito só. Morava a apenas 216 km dessa filha e de meus únicos netos, mas não poderia passar o Natal com eles, pois já tinha compromissos com algumas pessoas aqui da minha cidade.

Convidara meu cunhado, viúvo também, a mãe dele de 84 anos para cear comigo no Natal. Um amigo do grupo de solteiros da igreja também aceitara o convite. Obviamente não os teria convidado se soubesse que minhas filhas não viriam para Natal Além disso, prometi para o homem que mora em frente de casa que lhe traria, às duas horas do dia de Natal, um prato com os quitutes da ceia. Esse homem, esquisitão e ríspido, estava com uns 80 e tantos anos. Ele cheirava a charuto e uma gosma marrom lhe cobria a barba, muito malcuidada. Não quis convidá-lo para a ceia, mas me dispus a levar-lhe um prato com tudo o que fosse servido. Ele, porém me disse: "Eu e Tish (o cachorro dele) não precisamos de nada". No entanto, a promessa de levar-lhe um prato tranquilizou minha consciência.

Eu havia também convidado uma amiga solteira com seu filho de oito anos para passar a véspera de Natal comigo e minha Família. Minha família, porém, agora não estaria mais presente à celebração.

— Por quê, meu Deus? — protestei em voz alta. — Por que não posso passar o Natal com minha família? O Senhor sabia que eles não poderiam vir. Por que não impediu que me comprometesse com todas essas pessoas?

A viúva, que morava na casa ao lado, chegara há pouco do hospital e a família dela saíra da cidade para a celebração do Natal, apenas depois de eu prometer dar uma olhada na enferma, cuidar da correspondência e alimentar o cão. Meu Deus, estou presa. aqui!

Não veria meus netos abrir os pacotes bonitos dos presentes e dar gritos de alegria. E minha filha estava louca por um desidratados de alimentos. "Senhor, comprei um para ela. Por que não posso vê-la abrir o pacote e ouvir seu grito de surpresa e alegria? Meu Deus, é Natal!".

Inesperadamente, uma misteriosa humildade silenciou meu coração que não cessava de reclamar. Sem palavras ou movimentos, o Senhor começou a me responder: "Sei que é Natal, Barbara. É, Meu aniversário! O que você fez para Mim?".

— Como assim, Senhor? — disse eu perplexa.

— O que você fez para Mim? — repeti a pergunta que ele fizera.

— De quem é o aniversário? — insistiu Ele. — O que você fez para Mim?

Foi nesse momento que todos os presentes caros debaixo da árvore perderam o valor e não tinham mais nenhuma importância.

— O que posso fazer para o Senhor? — perguntei, mas a resposta foi um silêncio profundo.

— Será que eu deveria convidar mais pessoas para Sua festa de aniversário?

Talvez eu deva cuidar com mais boa vontade da minha vizinha! Poderia convidar o senhor que mora em frente de casa a vir com seu cachorro e se sentar à mesa conosco.

Meu coração começou a agitar-se, antecipando tudo o que poderia acontecer.

— Há também aquele missionário que despedi no último verão, quando estava podando minhas árvores, pois não gostei da atitude dele.

Comecei a rir. — Se eu o convidasse para a ceia, isso certamente o deixaria perplexo e surpreso! Eu poderia também convidar o caixa do armazém que retirou a neve da entrada de casa na última nevasca. Ele está sozinho no momento e, com certeza, irá a um restaurante.

Minha alegria contagiou-me! Que grupo interessante de mortais deslocado, e abandonado. Uma reunião genial de aristocratas e renegados!

À medida que eu telefonava para todos os que estariam sozinhos no Natal, a lista começou a crescer. Não demorou muito para que minha mesa estivesse completa, mas era meu coração que estava realmente saciado e satisfeito.

O senhor que morava em frente de casa mal pôde falar, tamanha a emoção e surpresa que sentiu quando o convidei para unir-se ao grupo que viria para a ceia.

— Venham todos os fiéis! — cantava na maior altura. — Venham todos, até os infiéis, venham! — continuei cantando, enquanto amassava a massa de pão, o último, que poria para assar.

Não me lembro de jamais ter me divertido tanto no preparo de uma ceia de Natal quanto no dia em que doei meu Natal a Jesus, meu presente de aniversário para Ele. Assim, o aroma dessa festividade impregnou o ambiente como planejara, e o significado do Natal invadiu meu coração como eu jamais poderia antecipar.

Nunca recebi um presente tão precioso quanto aquele que vi ali: o missionário que encheu cinco vezes seu prato, enquanto eu percebia o sinal de aquiescência do Senhor.

— Sozinha no Natal? Nunca! É aniversário de Jesus, e vamos dar uma festa. Você também quer vir?

 


 

O SONHO DE UMA GAROTINHA

Jann Mitchell

Histórias Para o Coração 3 174

 

 

Apesar da longa espera, a promessa seria cumprida, e o sonho, realizado. No início da década de 1950, em uma pequena cidade no sul da Califórnia, uma garotinha colocou outra pilha de livros no pequeno balcão da biblioteca.

A menina era uma leitora ardorosa. Os pais dela tinham livros em todos os cantos da casa, mas estes nem sempre eram os que ela queria ler. Ela fazia uma visita semanal à biblioteca amarela com ornamentos marrom, o pequeno prédio de apenas um cômodo onde a secção infantil ocupava apenas um cantinho. Muitas vezes, ela se aventurava para fora desse cantinho em busca de alimentos mais substanciosos.

Enquanto a bibliotecária de cabelos brancos carimbava a data de devolução, o olhar cheio de ansiedade da garotinha pousava no livro exposto com destaque no balcão sinalizado como o Novo Lançamento. Ela ficava fascinada diante da maravilhosa sensação de escrever um livro que recebesse tamanho destaque e fosse exposto de modo que todos o vissem.

Naquele dia em particular, ela confessou seu objetivo.

— Quando eu crescer — disse ela — serei escritora. Vou escrever livros!

A bibliotecária desviou os olhos da atividade de carimbar e sorriu para a garotinha, não com condescendência, o que muitas crianças recebem, mas com encorajamento. — Quando você escrever esse livro — disse a bibliotecária —, traga-o para nossa biblioteca, e eu o colocarei em exposição no balcão, como este aqui. A garota prometeu que faria isso. À medida que crescia, seu sonho também se tornava maior. Ela conseguiu seu primeiro emprego na oitava série, escrevendo perfis de personalidades para o jornal local, e recebia por eles uma pequena quantia. O dinheiro recebido não significava nada em comparação com a magia de ver suas palavras no papel. Um livro era ainda uni objetivo bem distante. Ela era editora do jornal da escola, depois se casou e formou uma família. No entanto, o desejo ardente de ser escritora ainda existia no mais profundo de seu ser. Ela conseguiu um emprego de meio-período para divulgar as notícias referentes à escola no jornal do bairro, uma publicação semanal. Isso permitiu que sua mente permanecesse ocupada enquanto ninava nenês. Mas nada do livro. Depois, começou a trabalhar em período integral para um jornal de destaque. E até tentou trabalhar em revistas. Mas nada do livro ainda. Por fim, percebeu que tinha algo a dizer e começou a escrever um livro. Ela o enviou para duas editoras, que o recusaram. E, com tristeza, ela colocou o livro de lado. Alguns anos mais tarde, o antigo sonho, persistente e resistente, ficou ainda mais forte. Conseguiu um agente e escreveu outro livro. Ela tirou o outro da prateleira e logo os dois foram vendidos para uma editora. No entanto, o mundo das publicações de livros move-se de forma bem mais lenta do que as publicações diárias ou semanais, e ela teve de esperar dois longos anos. Um dia, uma caixa com exemplares doados ao autor foi entregue em sua casa; ela não se conteve de alegria e rasgou a caixa. Havia esperado muito tempo para ter seu sonho em suas mãos. A seguir, lembrou-se do convite daquela bibliotecária e da promessa que lhe fizera. É. claro que aquela bibliotecária já morrera havia muitos anos, e a pequena biblioteca fora demolida para que um prédio muito maior fosse levantado.

A garotinha, agora mulher feita, telefonou para saber o nome da bibliotecária responsável. Escreveu uma carta para contar-lhe o quanto as palavras de sua antecessora foram importantes para ela. Disse que estaria na cidade para a trigésima reunião de ex-alunos e perguntou se poderia levar os dois livros para doá-los à biblioteca. Isso significaria muito para aquela garotinha de dez anos, além de ser uma maneira de honrar todas as bibliotecárias que sempre encorajavam as crianças. A bibliotecária disse: "Venha", e ela foi, com um exemplar de cada um de seus livros debaixo do braço. Ela foi à biblioteca nova, bem em frente à sala de aula da antiga escola onde lutava com a álgebra, lamentando a necessidade de urna matéria totalmente inútil para uma escritora — e bem próximo do local onde ficava sua antiga casa, pois esta e os arredores dela, a vizinhança toda, tinham sido demolidos para ceder lugar a um centro cívico e a essa fantástica biblioteca. No interior do prédio, ela foi recebida afetuosamente pela bibliotecária que lhe apresentou um repórter do jornal do bairro — um descendente do jornal para o qual, havia muitos anos, implorara por urna oportunidade para poder escrever sua coluna.

A seguir, ela apresentou seus livros para a bibliotecária, que os colocou sobre o balcão com uma placa que explicava algo sobre o livro. Lágrimas banharam o rosto dessa mulher que acalentara um sonho desde que era bem menina. Depois, ela abraçou a bibliotecária e saiu, não sem antes posar para urna foto à entrada — urna prova de que os sonhos podem se tornar realidade, e as promessas podem ser cumpridas, mesmo que demorem 38 anos. A garotinha de dez anos e a escritora de agora posaram ao lado da placa, bem ao lado do balcão de leitores, que dizia: SEJA NOVAMENTE BEM-VINDA, JANN MITCHELL.

 

 

 

Ninguém deve consentir em rastejar;

quando sente um impulso para elevar-se.

HELEN KELLER


 

VOCÊ NÃO ME TRAZ MAIS FLORES

Autor Desconhecido [MAIS MIUDEZAS]

Histórias Para o Coração 3 178

 

 

O senhor que tomava conta do cemitério, pacato e abandonado, recebia todos os meses um cheque de uma mulher inválida, internada em um hospital não muito distante dali. O cheque era destinado à compra de flores, que deveriam ser colocadas no túmulo do filho dela, morto em um acidente de carro cerca de dois anos antes.

Um dia, um carro entrou no cemitério e parou em frente à guarita coberta de hera do prédio destinado à administração. Um homem dirigia o carro, e, no banco de trás, havia uma senhora extremamente pálida e com os olhos semicerrados.

- Esta senhora está muito doente para caminhar - o motorista falou para o idoso. - Será que o senhor poderia nos acompanhar até o túmulo do filho dela? Ela quer lhe pedir um favor. Bem, na verdade, ela está morrendo e, como sou um antigo amigo da família, me pediu que a trouxesse até aqui para que pudesse ver pela última vez o túmulo do filho.

- Esta é a Sra. Wilson? - perguntou o idoso.

O homem concordou com um gesto de cabeça.

- Bem, eu sei quem é. Ela é quem me envia um cheque todos os meses para que eu coloque flores frescas no túmulo de seu filho.

O idoso acompanhou o homem até o carro e sentou-se ao lado da mulher. Ela estava bem fraca e certamente não demoraria muito para morrer. Havia, porém, algo mais naquela face, conforme o idoso observou - os olhos pretos e sombrios escondiam a dor profunda e interminável.

- Eu sou a Sra. Wilson - suspirou ela. - Todos os meses nestes dois últimos anos...

- Eu sei - disse o idoso. - Fiz tudo conforme o que me pediu.

- Vim aqui hoje - continuou ela - porque os médicos dizem que tenho apenas algumas semanas de vida. Não vou achar ruim partir. Não há nada mais que me segure aqui. No entanto, antes de morrer, queria vir até aqui para dar uma última olhada e para fazer um acordo com você, pois gostaria que continuasse a colocar flores no túmulo de meu filho.

Ela parecia estar exausta, pois o esforço para falar exaurira suas forças. O homem seguiu pela rua de cascalhos e dirigiu o carro até o túmulo. Quando lá chegaram, a mulher, após fazer um grande esforço, levantou-se um pouco e olhou para fora da janela para ver o túmulo de seu filho. Não se ouviu um som sequer nos momentos seguintes, a não ser o canto dos pássaros nas árvores, altas e antigas, espalhadas entre os túmulos.

Por fim, o idoso falou:

- A senhora sabe, não é mesmo, que sempre lamentei que mandasse o dinheiro das flores.

A princípio, a mulher não demonstrou ter escutado o que ele dissera. A seguir, vagarosamente, virou-se para o idoso e disse:

- Lamenta? - suspirou ela. - Você se dá conta do que está dizendo? Meu filho...

- É claro que sei - interrompeu ele, gentilmente. - Mas, veja bem, pertenço a um grupo da igreja que, todas as semanas, visita hospitais, asilos e prisões. Nesses lugares encontramos pessoas que ainda estão vivas e necessitam de ânimo e alegria.

A maioria delas gosta de flores, pois podem vê-las e cheirá-Ias.

Aquele túmulo ali, sabe... não há nada vivo ali para ver e sentir a beleza das flores - disse ele, mas olhou em outra direção, pois sua voz ficou embargada.

A mulher não respondeu, mas continuou a olhar fixamente para o túmulo do filho. Após algum tempo, que mais parecia horas, ela levantou a mão, e o homem dirigiu de volta para o prédio da administração. Ali, o idoso desceu, e, sem palavra alguma, o homem e a senhora foram embora. O idoso, consternado, pensou: Eu a ofendi. Não deveria ter dito o que disse. Alguns meses mais tarde, porém, ele ficou surpreso ao receber uma nova visita dessa mulher. Ela mesma dirigia o carro, não havia nenhum motorista! O idoso mal podia acreditar no que via.

- Você estava certo a respeito das flores - disse-lhe ela. - Esta é a razão pela qual você não recebeu mais os cheques. Quando retornei ao hospital, suas palavras não saíam de minha mente, então, comecei a comprar flores para o hospital, que não tinha nenhuma. Senti enorme alegria ao ver que todos gostavam delas, embora desconhecessem o remetente. Isso os fez feliz, mas mais do que isso, isso me fez feliz.

Os médicos não sabem - continuou ela - como de repente minha saúde melhorou, mas eu sei!


 

O VIOLONCELISTA DE SARAJEVO

Paul Sullivan NA REVISTA HOPE [Esperança]

Histórias Para o Coração 3 181

 

 

Por ser pianista, fui convidado a apresentar-me com o violoncelista Eugene Frisen, em um Festival de Violoncelos, em Manchester, na Inglaterra. A cada dois anos, um grupo dos maiores violoncelistas do mundo e outros admiradores desse instrumento despretensioso - fabricantes de arcos, colecionadores, historiadores - reúnem-se para uma semana de workshops, aulas com os mestres do instrumento, seminários, recitais e festas. E, todas as noites, os 600 participantes se reúnem para um concerto.

Na noite de abertura, no Royal Northern College of Music, a apresentação foi apenas de obras para o violoncelo sem acompanhamento. No palco dessa magnífica sala de concertos, havia apenas uma cadeira, solitária. Nada de piano, de estante ou de pódio para o maestro. Esse seria um concerto em que ouviríamos música para violoncelo em sua forma mais pura e intensa. A atmosfera exalava a expectativa de todos, e havia muita concentração e antecipação no ar.

Yo Yo Ma, violoncelista mundialmente famoso, era um dos que se apresentariam nessa noite de abril de 1994. E, em relação à música que tocaria, havia uma história comovente por trás da peça.

Em 27 de maio de 1992, em Sarajevo, uma das poucas padarias que ainda tinham estoque de farinha estava fazendo e distribuindo pão para as pessoas famintas, afetadas pela guerra.

As 16h, uma fila enorme estendia-se por toda a rua. De repente, uma bomba caiu bem no meio da fila, matando 22 pessoas e espalhando carne, sangue, ossos e estilhaços por toda parte.

Ali perto morava um músico de 35 anos, Vedran Smailovic.

Antes da guerra, ele era violoncelista da Ópera de Sarajevo, uma carreira de prestígio que, pacientemente, Vedran desejava retomar. No entanto, quando, de sua janela, ele viu o resultado do massacre, percebeu que aquilo estava além de sua capacidade de absorver e suportar a dor da guerra. Angustiado, resolveu fazer o que melhor sabia fazer: música. Música para o povo, música ousada, música em um campo de batalha.

Nos 22 dias seguintes, às 16h, Smailovic vestia seu traje completo de gala, o mesmo que costumava usar nos concertos. Ele pegava o violoncelo e deixava o apartamento em meio à batalha que assolava a cidade. Colocava uma cadeira de plástico ao lado da cratera que a bomba fizera e tocava o adágio de Albinoni em sol menor, uma das peças mais sombrias e melancólicas do repertório clássico, em memória dos que ali morreram. Ele tocava para as ruas abandonadas, os caminhões destroçados e os prédios em chamas, assim como para as pessoas aterrorizadas que se escondiam no porão enquanto as bombas caíam e as balas zuniam. E, com a alvenaria explodindo à sua volta, fez sua resistência, corajosa e inimaginável, em favor da dignidade humana, dos mortos na guerra, da civilização, da compaixão e da paz. Embora o bombardeio tenha continuado, ele nunca se feriu.

Depois que os jornais contaram a história desse homem extraordinário, um compositor inglês, David Wilde, ficou tão comovido que decidiu também fazer o que melhor sabia fazer: música.

Ele compôs uma peça para violoncelo, sem acompanhamento,

Violoncelista de Sarajevo, em que, em comunhão com Vedran Smailovic, derramou todo o sentimento de ultraje, amor e irmandade que sentia.

Yo Yo Ma tocaria O Violoncelista de Sarajevo naquela noite.

Quando Yo Yo Ma surgiu no palco, inclinou-se diante da platéia e sentou-se calmamente na cadeira. A música espalhou-se pelo ambiente, inundando o teatro silencioso e criando um Universo sombrio e vazio, ominoso e assustador. Aos poucos, a música transformou-se em um furor - agonizante e agudo e cortante - que cativou a todos nós, até que, por fim, cedeu ao estrondo cavernoso da morte para finalmente voltar a silenciar.

Quando terminou, Yo Yo Ma permaneceu inclinado sobre li violoncelo, e o arco repousava sobre as cordas. Ninguém no teatro moveu-se ou fez algum som por um longo tempo. Era como se tivéssemos testemunhado aquele massacre horripilante.

Por fim, Yo Yo Ma olhou para a platéia, estendeu as mãos e fez um gesto para alguém subir ao palco. Um choque indescritível varreu o ambiente quando percebemos quem fora chamado:

Vedran Smailovic, o violoncelista de Sarajevo.

Vedran Smailovic levantou-se e caminhou no corredor, enquanto Yo Yo Ma deixou o palco para abraçá-Io. Os dois envolveram-se em um abraço exuberante. Todos no teatro explodiram em um frenesi caótico e emocional- aplaudindo, gritando e levantando vivas.

E, no centro disso tudo, aqueles dois homens que se abraçavam e choravam sem reservas. Yo Yo Ma, um príncipe suave e elegante da música clássica, impecável tanto em sua aparência quanto em sua apresentação, e Vedran Smailovic, vestido com um conjunto de motoqueiro, de couro manchado e esfarrapado.

Este, com seus cabelos longos e um enorme bigode que emolduravam uma face aparentando mais idade do que tinha, seu rosto, vincado pela dor, banhado em lágrimas.

Todos nós fomos desnudados, e nossa mais completa e profunda humanidade emergiu pelo encontro com esse homem que bramiu seu violoncelo para desafiar as bombas, a morte e a ruína.

O violoncelo era a espada de Joana D'Arc - a arma mais poderosa de todas.

Uma semana depois dessa apresentação, já de volta a Maine, toquei uma noite para os residentes locais de um asilo. Não pude deixar de comparar esse concerto com o esplendor daquele que testemunhei no festival. No entanto, a seguir, fiquei surpreso com as profundas similaridades. Com sua música, o violoncelista de Saravejo desafiou a morte e o desespero para celebrar o amor e a vida. E aqui estávamos nós, um coro de vozes ásperas e roucas acompanhadas por um velho piano, fazendo a mesma coisa. Não havia bombas ou tiros, mas a dor era real - a perda gradual da visão, a solidão arrasadora e todas as cicatrizes que acumulamos em nossa vida. Nós, porém, apenas alimentávamos as memórias que serviam para consolar. Mas, mesmo assim, cantávamos e aplaudíamos.

Foi nesse momento que percebi que a música é uma dádiva que todos nós dividimos igualmente. Não interessa se a criamos ou se apenas a ouvimos, ela é sempre uma dádiva que pode nos confortar, inspirar e unir, em geral quando mais precisamos dela - e menos esperamos que ela seja a resposta.


 

A MANTA DE BEBÊ

Winona Smith

Histórias Para o Coração 3 185

 

 

Em um sábado de primavera, embora muitas atividades clamassem por minha atenção, escolhi sentar-me para fazer crochê, uma atividade que eu apreciava, apesar de já ter achado que seria inatingível para mim.

Quase nunca me importo de ser desajeitada; aliás, até sinto certo orgulho disso. Mas devo admitir que essa particularidade me causou alguns problemas três anos atrás, quando quis ajudar em um dos projetos da igreja.

Fomos convidadas a fazer mantas de bebê em crochê, que, no Natal, seriam doadas para o centro de atendimento a grávidas em dificuldades. Eu queria participar, mas não sabia fazer crochê, e o fato de ser canhota também não ajudava em nada.

Imagino que querer é poder, pois algumas das mulheres se reuniram e me ensinaram um ponto de crochê. Era tudo o que eu precisava. Aprendi esse ponto, o ponto da vovó, e, pouco tempo depois, já tinha feito uma manta de bebê. Fiquei tão orgulhosa com essa pequena conquista, que inexplicavelmente pareceu tão importante, que fiz um bom número delas naquele mesmo ano.

Cheguei até a incluir em cada manta de bebê um bilhete de encorajamento, um poema que escrevera:

 

As meninas são doces em seus vestidos franzidos e cor-de-rosa.

Os meninos em macacão ficam divinos.

Não importa, porém, qual deles o Senhor dará a você,

Mas Ele não poderia achar uma mãe melhor para este bebê.

 

De repente, meus pensamentos foram interrompidos pelo soar do telefone. Apressei-me para atendê-lo, e, para minha surpresa e alegria, Karen Sharp, uma de minhas melhores amigas desde o ensino elementar, estava do outro lado da linha. Karen, o marido, Jim, e a filha deles, Kim, mudaram daqui alguns anos atrás. Ela estava telefonando para dizer que ficaria na cidade cerca de dois dias e gostaria muito de visitar-me. Fiquei emocionada ao escutar a voz dela.

Por fim, a campainha tocou. Quando abri a porta, nós duas gritamos, como fazíamos nos tempos de escola. Abraçamo-nos, e, a seguir, as perguntas começaram a jorrar. Depois, levei Karen para a cozinha, onde servi chá gelado para nós duas, e o bate-papo ganhou um novo ritmo, mais lento e calmo.

Para minha alegria, Karen parecia calma, descansada e, acima de tudo, confiante, qualidades que pensei que ela perdera nos meses que precederam a sua mudança. Fiquei imaginando o que teria acarretado essa mudança para melhor.

Enquanto conversávamos e recordávamos, Karen começou a explicar a verdadeira razão pela qual sua família mudara alguns anos atrás. Até esse momento, conforme contaram aos amigos, o motivo da mudança tinha sido uma oferta de trabalho irrecusável que Jim recebera. Embora aquele fosse o último ano de Kim no ensino médio, eles acharam que a mudança seria necessária. Aparentemente, essa não era a razão principal.

Karen abriu a bolsa e tirou uma fotografia. Quando me entregou, vi uma menina de dois ou três anos na foto.

— Essa é a minha neta, Kayla — disse Karen.

Mal pude acreditar.

— Você? Avó? — perguntei. — Não dá para acreditar.

— Bem — explicou Karen —, Kim estava grávida quando nos mudamos. Tínhamos acabado de descobrir, e Kim atravessava um momento difícil de aceitar. Ela chegou até a considerar o suicídio. Nós estávamos quase ficando loucos, portanto decidimos nos mudar na esperança de que ela se ajustasse mais facilmente à situação. Quando chegamos a nossa à nova casa, esperávamos que as perspectivas de Kim melhorassem, mas ela ficou ainda mais deprimida. Independentemente do que disséssemos ela se sentia uma inútil, uma derrotada. Mas encontramos a Sra. Barber, uma conselheira incrível especializada em gravidez. Ela ajudou Kim em momentos extremamente difíceis.

— Quando o momento do parto chegou — continuou ela — Kim ainda não decidira se queria ficar com o bebê ou não. O pai dela e cu oramos para que aceitasse aquele bebê. Estávamos preparados para oferecer ao bebê um lar afetuoso — afinal, esse seria nosso primeiro neto.

— Por fim — falou Karen — o dia chegou e Kim teve um bebê de 4,350 kg. A Sra. Barber, quando foi visitá-la no hospital, abraçou Kim e lhe disse que se orgulhava muito dela. A seguir, entregou-lhe um pacote, embrulhado em um papel de cor pastel, que continha uma manta de bebê de crochê, feita à mão.

Nesse instante de sua história, senti um nó na garganta, e meu corpo todo começou a tremer, mas tentei disfarçar e continuei ouvindo a história de Karen:

— Como disse, havia uma manta de bebê e um bilhetinho, que falava sobre as meninas e os vestidos franzidos, os meninos e os macacões, além de uma palavra de encorajamento sobre ser mãe para as novatas.

— Perguntamos quem havia feito as mantas — prosseguiu Karen. A Sra. Barber explicou que alguns centros de atendimento a grávidas doavam essas mantas para os bebês e as mães novatas. O centro para o qual trabalhava recebera um excedente de mantas de bebê de outro centro do Estado, e ela ficou feliz em poder dar uma manta de bebê para Kim. Kim ficou emocionada, pois urna estranha dedicara tempo e energia para fazer uma manta para seu bebê. Ela me disse que essa atitude a fizera sentir-se totalmente reconfortada. Mais tarde, ela me contou e a seu pai que esse pequeno poema aumentou sua confiança e a ajudou em sua decisão de ficar com Kayla. A história de Karen tem um final ainda mais feliz: um ano depois, Kim casou-se com um jovem que ama as duas, Kim e Kayla, de todo coração. Karen sorria enquanto contava a história, mas, a seguir, ficou circunspecta. — Meu único arrependimento é que, em vez de ir embora, não fui capaz de contar para nossos amigos daqui tudo o que estava acontecendo para conseguir o apoio e o conforto deles — disse Karen. — Temos tanto a agradecer — continuou ela. — Especialmente, o desfecho de tudo. No entanto, nossa maior gratidão é para com a pessoa gentil que fez a manta para o bebê de nossa filha. Gostaria apenas de abraçá-la e dizer o quanto nossa família a ama e a aprecia. Olhei mais uma vez a foto que estava em minhas mãos, daquela doce menina, depois, virei-me para Karen e lhe dei um grande abraço.

 

 

 

Nenhum suspiro dado, nenhuma dor sentida, nenhum pesar, fere a alma, mas a palpitação acompanha o pulsar do coração do Senhor.

AUTOR DESCONHECIDO

 

 


 

A NOITE EM QUE AS ESTRELAS CAÍRAM

Arthur Gordon

Histórias Para o Coração 3 191

 

 

Uma noite de verão em um chalé à beira-mar, um garoto percebeu que o estavam tirando da cama. Atordoado de sono, ouviu a mãe murmurar algo a respeito do tardio da hora e escutou o pai sorrir. A seguir, ele foi carregado, com a rapidez de um sonho, nos braços do pai — desceram os degraus da varanda e alcançaram a praia.

O céu estava coberto de estrelas fulgurantes.

— Olhe! — falou o pai.

E, enquanto falava, uma das estrelas moveu-se. Incrível! Ela riscou o atônito céu com uma faixa dourada como o fogo. E antes mesmo que o esplendor dessa se apagasse, outra estrela pulou de seu lugar, depois outra, e mergulharam no mar agitado.

— O que é isso? — murmurou o garoto.

— Estrelas cadentes — disse-lhe o pai. — Elas sempre aparecem em algumas noites de agosto. Achei que você gostaria de ver este espetáculo.

Isso era tudo: apenas o vislumbre inesperado de algo assustador e misterioso e lindo. De volta para a cama, porém, o garoto ficou por um longo tempo com os olhos bem abertos na escuridão, arrebatado pela ideia de que, ao redor da casa, a noite estava totalmente tomada pela música silenciosa das estrelas cadentes.

Décadas já transcorreram, mas ainda me lembro daquela noite, pois eu era o menino sortudo de sete anos cujo pai acreditava que uma nova experiência era mais importante para um garoto do que uma noite bem-dormida. Sem dúvida, em minha infância tive minha cota de brinquedos, mas estes já foram esquecidos. No entanto, lembro-me nitidamente da noite em que as estrelas caíram...

 

 

 

As crianças não se lembrarão de você pelas coisas, materiais que lhes proporcionou, mas pelo sentimento que roca teve por elas. 

RICHARD T. VANS


 

A CAIXA DE JÓIAS

Faith Andrews Bedford

NA REVISTA COUNTRY LIVING

Histórias Para o Coração 3 193

 

 

Celebramos hoje nosso aniversário de casamento, e meu marido me convidou para sair. Dei uma olhada no armário e escolhi um vestido de veludo verde-escuro, com mangas longas e gola alta. Ele fica maravilhoso com o colar de pérolas de minha mãe e os brincos pequenos, e de pérolas também, de minha avó.

Enquanto eu estava sentada à penteadeira, Eleanor, minha filha, sentou-se a meu lado. Ela adora me observar quando estou me arrumando para uma ocasião especial.

— Mãe — disse ela, olhando-me no espelho — posso escolher suas joias?

— É claro! — respondi.

Ela abriu a gaveta onde guardo minha caixa de joias e começou a examinar o conteúdo. Ali estão o colar de macarrão que ela me fez no jardim da infância e o broche que meu marido me deu quando ficamos noivos. Em uma caixinha, Eleanor encontra meu broche de escoteira e alguns distintivos.

Ela segura alguns pares de brinco e leva-os até o pequeno lóbulo de sua orelha, mas, a seguir, deixa-os de lado. Ela experimenta vários colares e balança a cabeça. Por fim, com um pequeno grito de alegria, agarra um par de brincos do Ceilão, longos e que se agitam ao menor movimento, enfeitados com pequenos cacos de espelho vistosos, obviamente um legado da década de 1970. Eu os usava com guizos e túnicas. Em outra caixa, ela encontra dois cordões de miçangas da mesma época. Ela enrola as miçangas em volta de meu pescoço e me entrega os brincos. Eu os coloco e balanço a cabeça. Os brincos reluzem. — Perfeito! — suspira ela com prazer. E, através da imagem refletida, rimos uma para a outra. À medida que Eleanor se vira rapidamente para sair do quarto e avisar o pai de que estou quase pronta, lembro-me do [empo em que tinha a idade dela e de como costumava observar, enlevada, minha mãe se arrumar para sair. Enquanto a via colocar o cordão francês, retorcido, pedia que me contasse a história de cada um de seus pertences. Em uma caixa aveludada repousava um lindo colar, de rubis-da-américa, e os brincos que combinavam com ele. Minha mãe me contou que eles eram de minha avó, que os usara na apresentação de Sarah Bernhardt em Boston. O colar de pérolas, um presente de casamento, fora dado pela madrinha de mamãe. Como eu, ela sempre usava o colar com os brincos de pérolas pequenos que sua avó deixara para ela. Eu herdei as duas joias. As coisas que mais me agradavam naquela gaveta eram os presentes que meu pai dera a ela. Em uma caixa aveludada, havia um colar de cristal, cujo brilho era como o dos diamantes de verdade, esplendoroso. Mamãe me contou que não eram diamantes, mas sempre achei que ela parecia uma princesa quando os usava. Quando papai viajou a negócios para o Arizona, ele trouxe para a mamãe um anel com urna turquesa, grande e quadrada, que se ajustou perfeitamente ao dedo anular de mamãe, mas, em mim, só cabia no polegar.

Quando ela completou 40 anos. ele a presenteou com brincos da Índia. O esmalte negro havia sido cortado para revelar as figuras de mulheres que dançavam, flexionadas em posições impossíveis, que eu e minha irmã tentávamos imitar, mas sem êxito.

Um Natal, quando eu tinha dez anos, economizei bastante dinheiro para comprar, em uma dessas lojas populares em que todos os artigos são vendidos pelo mesmo preço, um par de brincos de presente para a mamãe: dois sininhos vermelhos, de plástico, com as extremidades pulverizadas com purpurina prateada, pendurados em um pequeno arco. Mamãe usou aquele par de brincos o dia inteiro de Natal. Ela balançava a cabeça com frequência para mostrar que os sinos tilintavam de verdade.

Alguns dias depois, entrei no quarto dela em tempo de ajudá-la a fechar seu vestido de gala de tafetá preto-e-branco.

— Será que você poderia pegar os brincos para mim, minha querida? — pediu ela.

Abri a gaveta e separei as possíveis opções. O vestido dela era muito bonito, mas precisava de um pouco mais de cor. Com orgulho, peguei os pequenos sinos vermelhos de plástico.

— Combina perfeitamente! — disse-me ela, enquanto colocava os brincos.

Olhei para ela e pensei que ninguém poderia ser mais bonita do que ela.

A voz de meu marido me trouxe de volta desse devaneio.

— Já está pronta? — perguntou-me.

— Quase! — respondi, enquanto guardava o colar de mamãe e o par de brincos na caixa de joias.

Quando desci as escadas — as miçangas balançando e os brincos de latão refletindo a luz —, vi a face orgulhosa de Eleanor.

— Você está linda! — suspirou ela.

— Só porque você me ajudou! — respondi e lhe dei um beijo de boa noite. Quando eu voltar, ela já estará dormindo.


 

ATRAVÉS DOS OLHOS DO PAI

Lonni Collins Pratt NA REVISTA MOODY

Histórias Para o Coração 3 197

 

 

Vi o carro um pouco antes de ele bater em mim. Tive a sensação de flutuar e, a seguir, a escuridão arrebatou meus sentidos.

Na ambulância, abri meus olhos e, através das ataduras e das pálpebras inchadas, podia apenas ver fragmentos da luz. Ainda, mas pequenas partículas de sujeira e cascalho encrava-se em meu rosto sardento de 16 anos. Quando tentei tocá-lo com minhas mãos, alguém pressionou meu braço sobre a maca e sussurrou: "Não se mexa!".

O queixume da sirene arrastava-se friamente para algum lugar, e eu deslizei para o estado de inconsciência. Meus últimos pensamentos foram uma oração desesperada: "MEU DEUS QUERIDO, MEU ROSTO NÃO, POR FAVOR...“ De modo semelhante aos adolescentes, muito de minha identidade era extraído de minha aparência. A adolescência girava em torno de minha imagem exterior. Ser bonita significava ter muitos pretendentes e um grande círculo de amigos.

Meu pai sempre me dedicava muita atenção. Ele tinha quatro filhos, mas apenas uma filha. Lembro-me de um domingo em particular na igreja no qual, quando saímos do carro, meus irmãos – uma tríade mal ajambrada, vestida com roupas de veludo e usando topetes - saíram correndo na frente. Mamãe ficara em casa com o bebê doente.

Eu estava recolhendo minha pequena bolsa, os papéis da igreja e a Bíblia, quando meu pai abriu a porta. Olhei para ele que, conforme o coração daquela menina de sete anos, era o pai mais bonito e o mais perfumado de todos.

Ele estendeu sua mão e, com uma piscadela, disse-me: "A mão, minha princesa?". A seguir, ele me puxou para seus braços e disse que eu estava muito bonita.

- Nenhum pai é capaz de amar mais sua filhinha do que eu!- falou ele.

Em meu coração de criança, que ainda não compreendia o amor de um pai, eu pensava que ele me amava apenas por meu vestido e meu rosto bonitos.

Algumas semanas antes do acidente, ganhei o primeiro lugar em um desfile e me tornei a rainha do festival. Papai não fez muitos comentários. Ficou apenas ao meu lado, com os braços sobre meus ombros, radiante de alegria. Mais uma vez, eu era a garotinha bonita do papai e me aconchegava no calor de seu amor e aceitação.

Nessa mesma época, firmei um compromisso pessoal com Cristo. Em meio à assembleia de estudantes, sociedade de honra, desfiles e paradas, eu estava iniciando um relacionamento com Deus.

Nas horas seguintes ao acidente, vagava entre o estado de consciência e inconsciência. Sempre que ficava um pouco mais lúcida, cogitava acerca de meu rosto. Tive hemorragia interna e uma concussão séria, mas nunca me ocorreu que minha preocupação com a aparência era desproporcional.

Na manhã seguinte, embora pudesse abrir meus olhos, apenas um pouquinho, pedi que a enfermeira me trouxesse um espelho.

- Concentre-se em ficar boa, minha jovem! - disse ela, enquanto media minha pressão sanguínea, sem olhar para mim.

Essa recusa em trazer-me o espelho apenas inflamou minha determinação despropositada. Se ela não quer me dar um espelho, meu rosto deve estar pior do que imagino. Minha face coçava e parecia estar toda repuxada. Algumas vezes sentia uma queimação, e outras, dor. Eu não a tocava, pois o médico dissera que poderia infeccionar.

Meus pais também batalharam para que não houvesse espelhos por perto. À medida que eu cicatrizava internamente e recobrava minhas forças, tornei-me irascível, e era cada vez mais difícil de lidar comigo.

Em determinado momento, cinco dias após o acidente, implorei, a quarta vez em menos de uma hora, por um espelho.

Meu pai, bem bravo, disse-me:

- Não adianta pedir. Eu disse não, e meu não é não mesmo.

Gostaria de ter uma desculpa para o que disse a seguir. Apoiei-me sobre os cotovelos e, dos meus lábios, que mal podiam mover-se, chiei:

- Você não me ama. Agora que não sou mais bonita, você não me ama mais.

Meu pai olhou-me como se alguém lhe tivesse tirado a vida. Ele caiu na poltrona e cobriu o rosto com as mãos. Minha mãe foi até ele e pôs a mão sobre seus ombros, enquanto ele tentava controlar as lágrimas. Eu desabei sobre os travesseiros. Não pedi mais que meus pais me trouxessem um espelho. Em vez disso, na manhã seguinte, esperei até alguém responsável pela limpeza vir arrumar meu quarto.

A cortina estava fechada, como quando tomava banho de ....ponha na cama.

Será que você pode me emprestar um espelho? - perguntei. Devo ter perdido o meu.

Depois de uma breve busca, ela achou um e, discretamente, o entregou em minhas mãos.

Nada poderia ter me preparado para o que eu vi. A imagem que mais parecia um enorme joelho esfolado, rosa-choque, coberto por secreção, olhava para mim. Meus olhos e lábios estavam inchados e cheios de cascas de ferida. Quase nada de minha pele, de orelha a orelha, havia escapado aos efeitos desse acidente.

Meu pai chegou um pouco depois, com revistas e lições de casa debaixo do braço, e me encontrou olhando no espelho. Ele retirou meus dedos do espelho, um a um, e disse:

- Isto não é importante. Isto não muda nada do que realmente importa. Ninguém a amará menos!

Por fim, conseguiu puxar o espelho e o jogou em cima da poltrona. Depois, sentou-se à beira da cama, pego-me em seus braços e me segurou por um longo tempo.

- Sei o que você pensa - disse-me ele.

- Você não seria capaz - murmurei, desviando o olhar e voltando meus olhos para a janela.

- Isso não muda nada - repetiu ele.

Ele colocou as mãos em meu braço e correu eles, como se desenhasse uma linha.

- As pessoas que a amam já viram você em toda situação, inclusive nas piores, sabia?

- Tudo bem. Já me viram com bóbis ou com máscara facial, mas não com meu rosto em carne viva!

- Tudo bem. Então, vamos falar de mim – disse ele. Eu a amo. Nada jamais mudará esse sentimento, pois amo você, não seu exterior. Já troquei suas fraldas e vi sua pele com bolhas devido à catapora. Já limpei seu nariz que sangrava e segurei sua cabeça enquanto você vomitava na privada. Eu a amei quando você não estava nada bonita.

Ele hesitou por um segundo e, a seguir, continuar

- Ontem você estava feia não por causa de sua pele, mas devido ao fato de ter se comportado muito mal. Mas estou aqui hoje e estarei aqui amanhã. Os pais não deixam de amar seus filhos das marcas que a vida deixa neles. Você poderá se considerar uma pessoa abençoada se a vida marcar apenas seu sorriso.

Virei-me para meu pai, sentindo que ele pronunciaria simples palavras, as palavras certas, é verdade, mas que as proferira como um dever de pai – mentiras educadas.

- Então, olhe para mim papai – disse eu. Olhe para mim e diga que me ama!

- Jamais esquecerei o que aconteceu em seguida. Enquanto observava meu rosto arrebentado, os olhos dele ficaram rasos de água. Ele se inclinou vagarosamente em minha direção e, com os olhos abertos, beijou gentilmente meus lábios, cobertos de crostas e secreção.

Foi como o beijo que me envolvia todas as noites de minha infância, e o beijo que me aquecia todas as manhãs.

Isso aconteceu faz muitos anos. O único vestígio desse acidente é uma pequena cicatriz logo acima da sobrancelha. O beijo de meu pai e o que ele me ensinou, porém, deixaram uma marca sobre meus lábios que jamais será apagada.

 

 

 

O coração da mãe é a sala de aula dos filhos.

HENRY W ARD BEECHER

 


 

SOLO NOVO

Margareth Becker

Histórias Para o Coração 3 203

 

 

Lembro-me que o ar estava pesado, quando acordei naquela manhã. Esse quarto fica sempre abafado e úmido no verão. Fiquei deitada por um momento, acomodando-me aos sons do córrego, dos pássaros e das cigarras. Pensei em como esses sons são tão diferentes daqueles aos quais estou acostumada — buzinas de carro e do lamento maçante da borracha no asfalto.

Em minha casa no Tennessee, os sons eram de lutas: as pessoas correndo daqui para lá em busca de qualquer dólar ilusório; as pessoas apressando-se para ir a algum lugar por um momento de paz. Esses eram sons de uma jornada intempestiva.

Aqui, na casa para a qual meus pais vieram após se aposentar, os sons eram de acolhida, de uma jornada bem desfrutada. Não havia vizinhos gritando com as crianças, nem tráfego pesado de carros às 8h30 da manhã, a não ser o caminhão de transporte que ocasionalmente se dirigia à loja local para buscar papel. Acho que foi por essa razão que o tinido que ouvi, chamou minha atenção.

Que estranho!, pensei, a seguir, olhei para o relógio. São só nove horas! O que é isso? Escutei por um momento. Era um som metódico, cujo ritmo logo reconheci. Abri as cortinas para ver meu pai.

Sua face vermelha estava salpicada de suor, a expressão tensa pela determinação, e no meio do quintal ele enfiava urna enxada enferrujada no solo. Cerca de três metros em volta dele, formando um quadrado perfeito, havia terra vermelha escura, que recentemente fora revolvida. Demorei um pouco para perceber o que ele estava fazendo. O ano foi bem seco, e a grama, que um dia já parecia um carpete verde, havia desaparecido para dar lugar a faixas, todas separadas uma das outras, de restolho marrom. Esta não era a primeira vez que o via revolver a terra para plantar novas sementes.

Ele era um trabalhador diligente, e eu era evidência disso. Ele muitas vezes pegou a enxada para revolver minha vida — revirando o terreno baldio de meu coração, verificando minhas necessidades e plantando sementes de verdade ao longo do caminho. Quando me sentia derrotada, ele me fazia lembrar de minha força. Quando errava, a correção acontecia prontamente, e tudo terminava com um abraço seguro e confiante: o erro era esquecido. Quando necessitava de seus conselhos, ele os fornecia com

respeito e cuidadosamente. Ele até mesmo permitiu que algumas "ervas daninhas" crescessem ao longo do caminho para que ele pudesse mostrar-me o preço da liberdade e a importância de escolher com sabedoria.

Enquanto eu o observava, meus pensamentos retornaram ao passado. Lembro-me de aconchegar-me em seu colo, e ouvir histórias magníficas de reis e princesas de terras distantes. Recordo-me de suas mãos fortes me levantando do chão para receber um abraço seguro e reconfortante. Lembro-me de sua paciência inesgotável em relação a minhas perguntas sem fim... a sombra de seu corpo sobre a mesa de jantar, enquanto verificava minha lição de casa... o frescor do ar da noite na mão dele, quando a repousava sobre minha fronte febril... a gentileza de seu passo, todos os anos, quando os pais dançavam com as filhas na praça. Eu tinha muitas lembranças maravilhosas.

Enquanto olhava para ele naquela manhã abafada de verão, tive a sensação de que essa era a primeira vez que o estava vendo em minha vida: esse é meu pai, homem honesto e gentil, que passou toda a sua vida doando-se aos outros.

As lágrimas que afloraram nos meus olhos eram de surpresa. Pensei qual teria sido a lembrança que passou por meus pensamentos e feriu meu coração sem que eu percebesse. Certamente, essas eram todas recordações felizes, nada que pudesse me fazer chorar. Nada que justificasse o nó na garganta.

Olhei ao redor do meu quarto, sem fixar o olhar em nada. Procurei por uma resposta em meu interior. Alguns segundos mais tarde, olhei novamente para meu pai. A resposta eclodiu em meu peito, uma explosão calorosa, tão inesperada quanto familiar. Com clareza perturbadora, a verdade se revelou: quantos sábados de manhã eu já havia escutado esses mesmos sons — a batida seca da pá, o zumbido do cortador de grama, o golpe sucinto das tesouras de podar. Quantas vezes me virei de lado para dormir meia hora a mais? Quantos domingos, à tardinha, observei meu pai encurvar-se, de modo rijo, sobre o sofá, mais exausto com as atividades do fim de semana do que com o trabalho em período integral durante a semana?

Quantas vezes eu disse a meu pai: "Eu o amo?". Quantas vezes eu lhe assegurei que ele era um bom pai, generoso nas coisas necessárias, como amor, atenção e tempo? Quantas oportunidades deixei passar sem demonstrar a ele, da mesma forma que ele demonstrou todos os dias de sua vida, que eu me importava com ele?

Naquele momento, eu compreendi o amplo espectro de amor que é a sustentação do amor paterno: os detalhes, muitos e constantemente desapercebidos — a maneira silenciosa de cuidar. Pensei em como Deus, em Sua provisão de Pai, cuidou de mim nesse detalhe — Ele permitiu que esse homem seja meu pai. Poucas coisas já me deixaram tão agradecidas quanto o ato de respirar. Eu estava aqui, e ele também estava aqui — portanto, ainda havia tempo.

Saí rapidamente da cama, vesti shorts e coloquei os tênis. Limpei as lágrimas que banhavam meu queixo e inclinei a cabeça por um momento.

— Obrigada, meu Deus, pelo homem maravilhoso que o Senhor escolheu para ser meu pai.

Jamais esquecerei o olhar de meu pai, quando apareci com um ancinho de metal em minhas mãos.

— O que você está fazendo em pé tão cedo, Maggie? — perguntou ele.

— Vim ajudá-lo, papai. Ele sorriu afetuosamente, e a expressão de seu rosto — aquela que eu só vira algumas vezes nesses anos todos — era do tipo que escutava os arrependimentos não expressos em palavras e percebia a sensação de seriedade do momento, além de permitir que essa sensação passasse graciosamente; algo que apenas alguém com o vínculo de parentesco, de pai e de mãe, pode oferecer.

Começamos a revolver a terra para ter um solo novo, e, a cada puxada com o ancinho, eu sentia tamanha alegria e contentamento que só acontece quando há a restituição de um débito de amor que ficou para trás.


 

A ROUPA

Bill Butterworth

Histórias Para o Coração 3 207

 

 

Parte do sucesso que Rhonda e eu alcançamos em nosso casamento é a liberdade para explorar aspectos da vida que desafiam as regras tradicionais em relação ao gênero.

Eu cozinho - nada demais.

Ela conserta torneiras com vazamento - sem problemas.

Eu faço as compras do supermercado - e daí?

Ela manipula bem a serra de mesa, o serrote e a escavadeira - quem liga para isso?

Estas são as coisas que tornaram nosso casamento forte e estável.

Portanto, mal acreditei no que disse na semana passada, quando Jesse, uma tarde dessas, me pediu:

- Pai, preciso de urna roupa para a peça que estou ensaiando. - Não peça para mim. Vá e peça para a mamãe.

Nós dois, um pouco chocados, ficamos sentados ali.

- Por que, papai?

- Be... bem, eu não sei - gaguejei. - A não ser que seja porque eu não sei nada a respeito da última tendência das roupas ou porque não sei costurar ou porque você sempre pediu ajuda à sua mãe quando precisava de roupas - expliquei. - Por que você de

repente veio pedir minha ajuda?

Depois de uma longa pausa, meu filho, com certa relutância, admitiu:

— Mamãe não está em casa e preciso da roupa... para hoje à noite.

— Hoje à noite?

— É... — concordou ele, forçando um sorriso. — É que acabei de me lembrar.

Esta é uma situação em que os pais têm de tomar uma decisão rápida: será que dou um sermão a respeito do perigo de deixar tudo para a última hora, ou corro auxiliar meu filho como se fosse concorrer ao título Pai do ano?

Após uma breve oração, optei pela solução Pai do ano.

— Tudo bem — comecei a dizer, bem devagar. — Qual é a primeira coisa que precisamos fazer?

Jesse sentou-se ali por um segundo e sorriu. Essa foi a forma não-verbal de dizer muito obrigado por eu ajudá-lo.

— Bem, primeiro precisamos ir a uma loja popular e comprar um par de calças fora de moda, que pareçam feitas de juta. Juta?

— É... Sou lenhador da época medieval.

Por que não podia ser Moisés, ou o detetive Dirk. Tracy, ou até mesmo Bozo?, pensei. Roupão de banho, sobretudo ou até Mesmo roupa de palhaço eram fáceis de encontrar.

— Muito bem — disse eu. — Loja popular, nos aguarde.

Fomos de carro e compramos um belo par de calças de juta. No caminho de volta para casa, Jesse me passou o restante de minhas incumbências.

— Agora temos de fazer com que essas calças fiquem esfarrapadas e com cara de velhas. Você sabe como, buracos e recortes denteados no traseiro.

Quando chegamos em casa, Jesse pegou a camisa, as botas e o chapéu, enquanto eu pegava a caixa de costura, que estava no armário do quarto, no lado reservado para Rhonda.

Ao encontrar Jesse na saleta, peguei as tesouras e comecei a cortar a camisa e as calças. Enquanto cortava, Jesse e eu conversávamos, ríamos e nos divertíamos a valer. A cena era realmente engraçada: dois homens lidando com objetos de uma caixa de costura.

Felizmente, a roupa tinha de ter aparência de "lixo", conforme a explicação de Jesse. Esse não seria um lenhador comum, pois ele caprichou na pobreza da personagem.

— Seu pai é muito bom nessa atividade de rasgar roupas — gabei-me, enquanto Jesse experimentava as novas calças velhas.

— É isso aí, papai. Perfeito!

Bem, é dessa maneira que as mães se sentem ao finalizar uma das muitas tarefas que fazem para os filhos! Não cabia em mim de tanto orgulho. No ensaio completo, com roupas e cenário, debrucei para cochichar com uma das mães presentes:

— Fui eu quem rasgou as calças que ele está usando!

Ela me olhou de modo gentil, mas zombeteiro. Ela não poderia adivinhar que eu acabara de descobrir o segredo para ganhar o título de Pai do ano: seja como a mamãe.


 

A RUIVA E A MORENA

John William Smith

Histórias Para o Coração 3 210

 

 

Elas se sentaram bem à minha frente em um vôo da Southwest. Os que já viajaram por essa companhia sabem como os bancos são incrivelmente próximos —dava até para sentir o perfume delas. Acho que tinham a mesma idade e a mesma compleição física, mas toda e qualquer semelhança acabava aí.

Primeiro, chegou a morena. Estava vestida impecavelmente — roupas bonitas e elegantes. Tudo combinava. O cabelo sedoso, quando movia a cabeça, mostrava as mudanças sutis nas nuanças de cor, embora sempre refletisse a luz, de forma intensa, de qualquer ângulo. Cada detalhe estava no lugar certo — as unhas, longas e pintadas; o batom e a maquiagem, impecáveis. Era extremamente bonita. Carregava uma maleta chique de couro macio, que devia ter custado uma fortuna, dentro dela havia um laptop. Tinha também urna refinada sacola de compras, que, em um dos lados, estava escrito em letras garrafais, Macy's.

Tinha um lindo sorriso — um sorriso radiante que iluminava todo o seu rosto. Ela separou os lábios vagarosamente, de forma convidativa, e revelou seus dentes brancos e perfeitos, alinhados imaculadamente. Aquele fora um sorriso deliberado — certamente o praticara em frente ao espelho milhares de vezes. Usava três anéis que não eram do tipo grande e cafona, mas elegantes e, aparentemente, caros. Dois anéis estavam na mão direita, e um na esquerda. Não usava nenhum anel no dedo anular. Colocou a sacola de compras no compartimento acima da cabeça e sentou-se à janela com sua maleta. A ruiva carregava uma enorme sacola para fraldas, um carrinho portátil e dobrável, e um bebê. O cabelo volumoso — não estava desmantelado, mas ressecado. As roupas, com a marca K-Mart escrita por toda parte, modestas, ficavam folgadas em seu pequeno corpo. Não usava maquiagem nem carregava sacolas de compras. As unhas eram tão curtas que não dava nem para pintá-las, e ela usava apenas um anel, em seu dedo anular, o qual não era nada caro. Ela sorriu para a morena e perguntou se podia sentar-se a seu lado. Seu sorriso era encantador. Era esse tipo de sorriso que explode — um sorriso impossível de ser ensaiado. Ele aparecia em sua face tão rapidamente, que era difícil dizer quando e onde começara. E, antes que tivesse terminado, já invadira os olhos, amplificara as covinhas, enrugara o nariz, levantara as sobrancelhas, mostrando até as obturações nos dentes — e todos próximos a ela, sem perceber, quisessem ou não, sorriam de volta. Logo de cara dava para perceber que a morena não queria ser importunada, mas aquele sorriso a. convenceu. Ela não poderia resistir a um sorriso tão contagiante. Sorriu de volta, um pouco cerimoniosa, e disse que seria um prazer tê-la a seu lado. Disse isso, porém, com entusiasmo tão cordial que acho que ela se surpreendeu consigo mesma. Ainda não tínhamos visto o bebê, mas logo que a mãe se sentou ela (digo ela, pois o bebê tinha cara de menina) levantou a cabeça de debaixo da manta. Acho que tinha entre nove meses e um ano e era uma cópia fiel da mãe — não podia haver a menor dúvida de quem era a mãe desse bebê — inclusive o sorriso encantador.

A ruiva era prestativa e agitada. Escutei o suficiente da conversa delas para saber que ela visitara a mãe, pois esta ainda não conhecia o bebê, que a visita fora ótima, mas que não via a hora de chegar em casa e ver o marido. A morena era, toda ela, estilo executivo. Não era descortês, mas se expressava em tom preciso e breve. Disse o nome, a companhia para qual trabalhava, a posição e as universidades que cursou — disse à ruiva que o bebê era fofinho — mas, a seguir, abriu a maleta, tirou o laptop, ligou-o e começou a examinar alguns documentos de forma calculada, como se estivesse dizendo à ruiva que a conversa terminara.

A ruiva, porém, não pegou a deixa.

A ruiva era realmente agradável e possuía um tipo inato de entusiasmo e inocência, o que deixava a morena um tanto desconfortável. Conversava com facilidade e naturalidade sobre o marido, a casa e os vizinhos, além de contar para a morena todos os planos que tinha para o quarto do bebê. Ainda amamentava, e, a certa altura, teve de preparar-se para a hora da mamada. A morena observou, em total perplexidade, enquanto a ruiva, com desenvoltura e modestamente, fazia os preparativos para amamentar o bebê. Enquanto o bebê estava mamando, a ruiva precisou de algo e pediu que a morena, se ela não se importasse, pegar o que necessitava na sacola para fraldas. A morena fechou o laptop, guardou-o na maleta, fechou-a com zíper e pegou a sacola de fraldas.

Dez minutos depois, o bebê já acabara de mamar e estava pronto para brincar. A mãe o colocou sobre os ombros, deu palmadinhas nas costas até arrotar. A morena observava. Depois, o bebê sentou-se no colo da ruiva e arrulhava, gorgolejava, pegava tudo o que estava ao seu alcance e tentava colocar na boca. A morena não tirava os olhos da ruiva e do bebê.

A criança, sorrindo para a morena, ficou encantada com os brincos coloridos que balançavam, e procurou agarrá-los. A mãe segurou a mão do bebê e disse: "Não! Não!". A morena assegurou-lhe que não se incomodava: tirou os brincos e os entregou ao bebê, que os colocou imediatamente na boca. A mãe resgatou-os e, ao devolvê-los, mencionou gentilmente que não era aconselhável dar aos bebês coisas que pudessem engolir.

— Você se importaria se eu a carregasse um pouco?

Mal pude acreditar, pois fora a morena quem dissera isso.

(A coisa vai ficar interessante, pensei com meus botões.)

— Meu Deus, é lógico que não! Realmente não me importo, mas você tem certeza de que realmente quer segurá-la?

A morena, de forma tentadora, esticou os braços para a criança, e, tenho quase certeza, de que estava absolutamente certa de que o bebê a rejeitaria. Eu também pensei que isso fosse acontecer.

Esse era um momento importante e crucial, e eu estava tão entretido com tudo o que acontecia, que duvido que alguns dos outros observadores não tenham percebido meu total envolvimento com o desenrolar dos Fatos. O bebê, com alguma hesitação, olhou os braços esticados, a seguir olhou a mãe, que sorriu, uma forma de encorajá-la, e depois aquele sorriso explosivo inundou o rosto da criança, que se jogou nos braços da morena. Foi sensacional.

A morena colocou o rosto do bebê grudado ao seu, mas apertou tanto que achei que a criança choraria. No início, a morena estava um pouco desconfortável, mas logo pegou o jeito e, depois de um curto espaço de tempo, já estava segurando a criança como se fosse uma profissional experiente. Do meu lugar, não dava para ver o rosto da morena, mas eu conseguia imaginar a expressão de alegria e paz estampadas nele. Nos 20 minutos seguintes, essa mulher vestida de forma impecável arrulhava, falava como um bebê, dava palmadinhas, brincou de cocoricó, balançou e divertiu a criança.

Depois de cerca de dez minutos, o bebê vomitou — acho que seria mais acurado dizer regurgitou. A ruiva ficou horrorizada e tentou limpar com uma fralda. Desculpou-se de todas as maneiras possíveis e imaginárias e esticou o braço para pegar o bebê de volta. A morena — algo a seu favor — foi graciosa e assegurou que realmente não se importava, insistindo em continuar com o bebê no colo.

Quando o capitão anunciou que estávamos nos aproximando de nosso destino, a ruiva pegou o bebê de volta, e a morena tirou o estojo de maquiagem e passou o tempo restante retocando a aparência anterior, tipo executivo, como quando entrou no avião.

Quando saímos do avião, a morena se ofereceu para carregar o bebê no desembarque, onde recolheriam a bagagem, e a ruiva disse que ficaria imensamente grata. A ruiva colocou a sacola de compras da Macy's, a sacola para fraldas e a maleta de couro no carrinho dobrável, e elas conversaram da forma mais amigável e pessoal até a esteira de bagagem no desembarque. Eu as segui de perto, pois queria saber como essa história terminaria.

O marido da ruiva estava esperando por ela próximo à esteira de bagagem e, depois de se beijarem e se abraçarem, por um tempo bastante longo, ela apresentou a morena, que, de forma relutante, entregou o bebê para o pai. Enquanto esperavam pela bagagem, a ruiva e o marido ficaram bem próximos, com os braços envolvendo as costas um do outro — e o pai segurava o bebê com o braço livre. Em certo momento, o bebê esticou os braços para a morena. Ela começou a esticar seus braços para segurar a criança, mas controlou-se e, com algum esforço, colocou seus braços deliberadamente ao lado do corpo.

Primeiro chegou a bagagem da ruiva. O marido pegou as malas, e a ruiva virou-se para dizer adeus. A morena e a ruiva abraçaram-se afetuosamente, uma demonstração de emoção genuína e espontânea. A seguir, a morena pegou a sacola da Macy's e a entregou à ruiva, pedindo que a levasse com ela. Não consegui escutar toda a conversa, mas era óbvio que as duas estavam sem jeito, um pouco envergonhadas. A morena venceu, e a sacola da Macy's foi colocada na bagagem da ruiva. A seguir, a morena esticou os braços, colocou os dedos suavemente sobre a bochecha do bebê e sussurrou algumas palavras carinhosas de despedida.

Um pouco antes de sumirem de vista, a morena acenou, com as mãos, um adeus para o bebê, cujo rosto estava voltado para ela, e o bebê fez um sinal que poderia ser interpretado como uma despedida. Quando a morena voltou-se para a esteira, as lágrimas e a maquiagem borrada marcavam seu rosto. Ela não procurou limpá-las. Sua bagagem chegou, ela pegou um carrinho e a colocou nele.

Ela ficou ali por um bom tempo: limpou as lágrimas e a maquiagem borrada com os dedos — o que fez os borrões ficarem ainda mais visíveis —, compôs-se, segurou o carrinho e caminhou de forma determinada para a saída.

Imagino que a ruiva foi para sua casa, e a morena para seu escritório, mas ambas — tenho quase certeza — sentindo mais ardentemente o valor da maternidade.


 

CERIMÔNIA DE PREMIAÇÃO

EM SONS: A FATHER'S LOVE [FILHOS: O AMOR DE UM PAI]

Histórias Para o Coração 3 217

 

 

Durante muitos anos, empurrei e estimulei meu filho mais velho, Gordon, a tornar-se um aluno mais aplicado para que tirasse notas mais altas. Sempre ficava um pouco desapontado com ele, pois nunca chegara a alcançar meu padrão de excelência. Sabia que ele não era burro, mas não estava satisfeito com a média B em seu desempenho acadêmico. Não que eu tivesse sido um aluno excelente, mas esperava que ele apresentasse melhores resultados.

Quando Gordon estava no último ano do ensino médio, o corpo docente decidiu convidar os pais para urna reunião em que distribuiriam prêmios, para que nós, os pais, pudéssemos homenagear nossos filhos por suas várias conquistas. Fiquei perplexo com o convite. É óbvio que Gordon receberia um prêmio, mas não conseguia imaginar de que tipo.

Recebemos o programa assim que chegamos, e não encontrei nenhum prêmio que possivelmente poderia ajustar-se ao Gordon.

Comecei a ficar chateado. Será que nos convidaram apenas para preencher as cadeiras vazias? Teria de sentar-me ali e ver todos Os alunos que conseguiram urna média A andar ao longo do corredor e ser aplaudidos, enquanto meu filho permaneceria sentado ao fundo da sala. Por que ele não se esforçou mais? Por que ele era tão medíocre? Minha atitude ficava cada vez pior, à medida que a cerimônia se alongava.

No final, já estava bufando. No entanto, nesse momento o diretor foi até o microfone e anunciou: "Pela primeira vez este ano, estou apresentando um prêmio especial a um jovem que foi tão excepcional que não poderíamos omitir suas conquistas...".

Ele chamou Gordon para vir para a frente do auditório e, a seguir, passou alguns minutos para descrever o caráter excepcional de meu filho: gentileza em relação aos outros, integridade e espírito de liderança sereno.

- Nunca tivemos um aluno como o Gordon em nossa escola - disse o diretor. - E talvez não venhamos a ter outro como ele, portanto nós estamos entregando a você, Gordon, uma premiação, a última da noite, a taça do diretor por integridade, diligência e decência. Obrigado por tudo o que trouxe para nossa escola.

Qualquer pessoa que o tenha conhecido, jamais será a mesma após esse contato com você.

Naquele momento, percebi que o diretor estava falando comigo. Na verdade, nunca conhecera meu filho e, tampouco, o apreciava pelo que era. Sabia, no entanto, que assim que o apreciasse pelo que ele era, eu - seu pai - jamais seria o mesmo.

 

 

Para compreender o amor de um pai, você precisa criar seus filhos.

PROVÉRBIO CHINES

 


 

AS MÃOS DE PAPAI

Susan Fahncke

Histórias Para o Coração 3 219

 

 

Acordei no meio da noite e vi meu marido, Marty, embalando gentilmente nosso filho Noah. Fiquei por um momento à porta, olhando esse homem admirável com que tive a bênção de compartilhar minha vida, afagando amorosamente as bochechas rechonchudas e rosadas de Noah. Sentia em meu íntimo que havia algo realmente errado com Noah. Essa era mais uma das muitas noites em que Noah ardia em febre.

As lágrimas afloraram, enquanto observava meu bondoso marido mover a pequena bochecha de Noah, para que ficasse encostada em seu peito e, desse modo, ele pudesse sentir a vibração de sua voz, enquanto o ninava. Noah é surdo. Aprender a confortá-lo nos fez aprender uma maneira totalmente distinta de encarar as coisas. Para consolar nossos outros filhos, confiávamos em nossa voz, canções de ninar, brinquedos sonoros e música.

Com Noah, porém, precisávamos utilizar o toque, a manta macia dele, a vibração de nossa voz e, o mais importante de tudo, usar a linguagem de sinais para comunicar nossas emoções e transmitir uma sensação de conforto para ele.

Meu marido fez o sinal: "Eu o amor, com as mãos e, quando colocou a mão pequenina de Noah sobre a sua, vi uma lágrima rolar sobre seu rosto.

Já levamos Noah tantas vezes ao médico, que é impossível enumerá-las. Fazia uma semana e meia que Noah estava com febre alta que não cedia, o que era muito perigoso, apesar de tudo o que o médico e nós tentáramos fazer para baixá-la. Eu sabia, em meu íntimo, da maneira que só uma mãe pode saber, que Noah corria perigo.

Toquei levemente o ombro de meu marido, e, fixando os olhos um no outro, sentimos o mesmo medo e certeza de que Noah não estava melhorando. Ofereci-me para ficar ali, em seu lugar, mas ele balançou a cabeça, e, mais uma vez, fiquei perplexa com esse homem maravilhoso, o pai de meus filhos. Enquanto muitos pais entregariam aliviados as tarefas envolvidas no cuidado de um filho doente para dormir um pouco, meu marido permanecia teimosa e resolutamente com nosso filho.

Quando amanheceu, chamamos o médico, que nos pediu mais urna vez para ver Noah. Sabíamos que ele, provavelmente, internaria Noah no hospital. Portanto, organizamos tudo para deixar os outros filhos sozinhos, fizemos as malas para nós três e, chorando, fomos mais uma vez ao consultório do médico. Com o coração apreensivo e cheio de medo, esperamos em um pequeno cômodo, diferente do consultório com o qual já nos acostumáramos. Nosso médico, por fim, entrou no consultório, examinou Noah e nos deu a notícia que já esperávamos: Noah teria de ser

internado imediatamente.

Dirigimos até o hospital de uma cidade vizinha, e essa foi uma jornada surreal. Eu não conseguia focar em nada, pensar em nada e não parava de chorar. Meu marido tentou me animar, ao dizer que sentia no coração que Noah ficaria bem. Noah foi admitido no hospital, e fomos levados ao seu quarto imediatamente. Foi uma noite de tortura, cheia de testes horríveis que faziam a vozinha de meu pequeno filho ecoar nas paredes, pois ele gritava repetidas vezes.

Senti como se meu interior estivesse despedaçado. Meu marido nunca vacilou em sua fé. Ele não só confortou Noah e eu, mas também todos que ligavam para ter notícias de Noah. Ele era uma rocha.

Quando a primeira bateria de testes foi realizada, a enfermeira nos informou que o exame do líquido da medula espinhal seria feito. Suspeitavam de meningite. Marty e eu oramos por Noah. Entrelaçamos nossas mãos, seguramos nosso filho, e o amor de minha vida elevou sua voz ao Senhor, dizendo que estávamos gratos, pois ele confiara a nós Noah, esse espírito pequeno e sublime. Com lágrimas rolando sobre suas faces, ele humildemente pediu ao Senhor que curasse nosso filho. Conforto e gratidão invadiram meu coração.

Algum tempo mais tarde, o médico residente entrou ali e nos disse que os primeiros resultados dos exames de Noah estavam prontos: ele tinha gripe. Não seria preciso fazer o exame para meningite. Noah já estava no berço do hospital, balançando-se como se estivesse em um trampolim. A oração que meu marido fizera para Deus já estava sendo respondida.

Marty e eu, em meio às lágrimas, rimos um para o outro e esperamos até que Noah recebesse alta. Por fim, no meio da noite, nosso médico entrou e nos disse que seria bom levar Noah para casa. Arrumamos nossas malas o mais rápido possível e partimos.

Alguns dias depois, eu estava cozinhando, e Noah ainda se recuperava. Eu estava em paz e sabia que meu marido era o melhor pai que poderia querer para meus filhos. Dei uma olhada na sala e sorri quando, ao olhar para a sala, vi uma cena envolvente e cativante. Lá estava meu marido na cadeira do papai, a mais confortável, com Noah em seu colo. Eles estavam lendo um livro. O pai pegava as mãos pequeninas de Noah para ajudá-lo a formar os sinais para as palavras do livro. Os dois levantaram os olhos do livro e me pegaram olhando para eles. Meu marido e eu, ao mesmo tempo, falamos, um para o outro, em linguagem de sinais: "Eu amo você", e a seguir dissemos o mesmo para Noah.

Depois disso, Noah levantou seu bracinho e tentou sinalizar com a mãozinha rechonchuda: "Eu amo você", para seu pai. Observei com lágrimas em meus olhos, enquanto meu marido cuidadosamente ajudava, com suas mãos, nosso filho a formar com os dedinhos pequenos o sinal: "Eu amo você". A criança tinha mãos gentis. Mãos como as de seu pai.


 

QUESTÃO DE ORGULHO

Terry L. Pfleghaar

NA REVISTA HOMELIFE

Histórias Para o Coração 3 223

 

 

Bem, ela conseguiu! Ela realizou o sonho de sua vida, uma vida de apenas três anos e meio. Cortou o cabelo!

O pai dela e eu estávamos sentados em nossas cadeiras prediletas na sala, conversando. Era um diálogo intenso, que às vezes, quase beirava uma discussão calorosa. Em certos pontos, eu desviava meus olhos e, através da janela, fazia uma inspeção de nossa terra, alguns alqueires de belo esplendor invernal, um prazer para meus olhos. Depois, meu olhar retornava para fixar-se em meu marido e, mais uma vez, eu voltava a participar da conversa.

Um silêncio permeava o quarto, e podíamos ouvir, mais uma vez, o leve som que estivera pontuando intermitentemente nossa conversa nos últimos minutos. Que som era aquele? Apurei o ouvido. É claro, esse era um som familiar, o da porta do armário do banheiro quando alguém a fechava, o lugar onde eu guardava a lata de lixo. Virei-me para meu marido.

O som novamente! Espere aí, pensei. Até dá para entender abrir o armário uma ou duas vezes para jogar um lenço de papel no lixo, se ela estivesse assoando o nariz. Mas o que ela está fazendo?

— Querida — chamei. — O que você está fazendo aí?

Ela veio até a sala e, com um sorriso radiante, ficou perto da cadeira onde eu estava sentada. De início, não percebi por que ela estava tão radiante. Só pude ver minhas tesouras de cortar cabelo bem seguras na mão esquerda dela.

Os olhos da pequena brilharam, enquanto ela passava os dedos nos cachos escuros.

— Olhe meu cabelo, mamãe!

Olhei. Arregalei os olhos. Fechei os olhos e respirei fundo. Segurei a respiração. Não, meus olhos não estavam me enganando. Ela cortara o cabelo!

Embora estivesse chocada, fiz minha filha dar uma volta para ver o que ela fizera. Cortara os lados até as orelhas, mas em alguns pontos estava bem rente à cabeça. Consistente com a moda atual, ela permitiu que uma mecha de cabelo ficasse intacta, ondulando até a metade das costas.

O pai dela e eu a levamos ao banheiro. Lá, em camadas na lata de lixo, estava uma coleção elegante de fragmentos de sete centímetros de cabelos cor de chocolate. Cobri a máscara de horror estampada em meu rosto com as mãos. Minha pequena estava tagarela, muito orgulhosa de seu feito. Afinal, ela queria cortar o cabelo desde que tinha dois anos! Infelizmente, a mãe não estava tão feliz. Minhas emoções, devido à gravidez, estavam sob o comando dos hormônios, portanto corri para o quarto, joguei-me na cama e chorei.

Será que ela não sabia que o cabelo dela era um tesouro precioso? Será que ela não percebeu o que acabara de perder? Era grosso, invejado pelas amiguinhas dela, e admirado pelas minhas.

— Ela é tão bonita! Você deveria levá-la para fazer um teste para modelo! — sugeriam algumas pessoas desconhecidas.

É verdade, eu tinha de admitir que, em razão da maneira como aqueles cachos escuros enquadravam os olhos escuros e os cílios negros e longos, ela era o próprio retrato da ternura.

Sempre a encorajei a agradecer pelos elogios, pois temia que ficasse orgulhosa. É claro, que nunca percebi que eu era a orgulhosa. Não, eu não poderia ser. afinal esse não era meu cabelo.

Enquanto estava deitada na cama, sentindo pena de mim mesma, pude escutar o tagarelar infantil no hall.

— Você gostou do meu cabelo, papai? Nesse instante, algo ficou evidente para mim. Ela estava feliz! Eu estava sentindo pena de mim, não dela! Ela se tornara minha boneca de carne e osso, uma criação pessoal que manipulei e usei para minha glória secreta. Ela vinha pedindo para cortar o cabelo havia um ano, e eu chorava quase todas as vezes que a penteava. No entanto, Forcei-a a aceitar o molde que eu estabelecera para ela. Tinha de engolir meu orgulho e permitir que ela fosse uma pessoa independente, com suas próprias ideias e desejos. Afinal de contas, essa foi a maneira como Deus a fizera!

Enxuguei minhas lágrimas e alisei minha roupa amarrotada. Endireitei os ombros e fui para o hall. Ali estava minha queridinha, com os olhos castanhos brilhantes. Olhou-me cheia de expectativas:

— Mamãe, você não gostou do meu cabelo? Cortei todos os cachos que ficavam embaraçados.

Sorri e estiquei os braços para pegá-la no colo. Beijei as bochechas rosadas e passei os dedos no que restava dos cachos longos e macios, a fonte de meu orgulho.

— Gostei sim. Eu amo seu cabelo e amo você!


 

O MELHOR

Connie Lounsbury

EM LIFEWISE

Histórias Para o Coração 3 229

 

 

Ainda comentamos aquela manhã extremamente gelada de inverno em 1950, quando eu tinha oito anos.

Estava escovando meu cabelo, aconchegada perto do fogão a lenha, com meu irmão mais velho e três irmãs pequenas, pois tentava aquecer-me enquanto mamãe preparava o mingau de aveia. Escutamos alguns sons estranhos no andar de cima, como se fossem bolinhas de gude rolando pelo chão. Papai subiu para verificar o que estava acontecendo, mas, quando chegou ao meio da escada, gritou: "A casa está pegando fogo!".

Morávamos no campo, bem isolados, próximo a Orrock, em Minnesota. Não tínhamos telefone, portanto, antes de qualquer ajuda chegar, todos os nossos pertences e a casa foram consumidos pelo fogo. Fotografias da família, a máquina de costura de pedal da mamãe e alguns outros objetos pessoais — isso foi tudo o que conseguiram tirar da casa enquanto as meninas corriam para a casa dos vizinhos.

Naquele inverno, papai estava desempregado e, por conseguinte, não tínhamos nem dinheiro nem seguro para repor o que havíamos perdido na casa. Depois de ficarmos alguns dias com os parentes, papai conseguiu dinheiro emprestado para alugar urna velha casa de fazenda nas redondezas. Mamãe começou a gestão da casa com os móveis, as camas e os utensílios de cozinha que os parentes e amigos haviam doado.

Não tínhamos muitas coisas antes do incêndio, mas eu nunca sentira nossa pobreza. Agora, eu vestia o vestido de outra pessoa, sempre muito grande, em urna casa sem cores, sem cortinas, tínhamos uma mesa manchada de tinta, com cadeiras desemparelhadas, de diversas formas e tamanhos, toalhas usadas e uma espátula com o cabo quebrado — e isso tudo me levava às lágrimas. Havíamos ficado pobres, pessoas que não tinham o melhor.

Embora estivéssemos gratos por tudo que nos foi dado, aquela foi uma época difícil e sombria para nós.

Um dia, porém, uma vizinha nos deu um presente. Ela entregou para minha mãe um conjunto de fronhas novinhas, lindamente bordadas à mão. A visão dessas fronhas de algodão branco, dobradas de forma a mostrar o bordado floral em rosa, azul-violeta e verde, quase tirou meu fôlego. Mal podia acreditar que ela havia realmente nos dado algo tão bonito. Os outros nos deram o que não queriam mais, mas essa vizinha nos deu o melhor que tinha!

Quando tivemos aquela terrível experiência, o incêndio que consumiu nossa casa, não fazia muito tempo que morávamos nessa comunidade e, como nos mudamos logo dali, perdemos contato com os vizinhos. Hoje, quase 50 anos depois desse incidente, não lembro mais quem nos deu aquele lindo presente, mas jamais esquecerei a sensação de valor próprio que essa atitude foi capaz de resgatar. Acho que devemos ler algum valor para que alguém nos presenteie com algo tão bonito e precioso quanto aquelas fronhas bordadas à mão.

Esta é uma das minhas lembranças favoritas e, muitas vezes, é o exemplo que direciona minhas próprias ações. Esses vizinhos deram o melhor que tinham.


 

UM PAR DE CALÇADOS VELHOS

Thelda Bevens

Histórias Para o Coração 3 232

 

 

Essa manhã, foi a vez dos calçados dele. Eu estava cuidando do lixo, selecionando os artigos recicláveis, levando-os até o final da rua e dando uma olhada para ver se não havia me esquecido de nada. Como a lata de lixo estava apenas pela metade (outro indício de quanto as coisas tinham mudado), dei uma volta no local onde as tralhas se acumulam - a garagem.

O primeiro item que joguei fora foi a pá quebrada de retirar neve, a seguir o martelo com unha e cabeça, mas sem cabo, depois os pregos enferrujados, guardados em um pacote de papel todo rasgado, e duas pequenas caixas vazias onde um dia colocamos nossas ferramentas. E, depois disso tudo, ali estavam eles: o par de calçados velhos.

Tênis de marca, que um dia já foram brancos - hoje eram vermelhos de sujeira, proveniente de nosso quintal sem quase nada e sem jardim; respingados com tinta escura utilizada para pintar os ornamentos de nossa velha casa; manchas azuis, a tinta usada para pintar as varandas de nossa nova casa; cobertos de poeira e lama, quando, em dezembro, ele construiu degraus e corrimãos para agradar ao inspetor municipal; calçados imundos, feios, velhos, que eu já pedira mais de mil vezes para que ele jogasse fora, mas que ele guardava e usava e estimava. Acho que ele nunca jogou nada fora, pois era esse tipo de pessoa que sempre diz: "Você nunca sabe quando vai precisar disso". No entanto, agora que ele se fora e não precisava mais desses tênis, eu poderia jogá-las fora agora mesmo. No lixo. Puf!

A seguir, olhei para eles e vi os anos de trabalho ali estampados - a pintura, a reforma, a construção, os reparos, os buracos cavados, o serrar, as instalações e as coisas que criou. Muito do que fora e de como vivera, além das coisas que fazia e amava estavam nesses tênis velhos. E agora não havia ninguém para usá-las. E acho que ninguém mais poderia usá-las. Ele costumava calçá-Ias com firmeza e destreza e confiança. Como havia algumas coisas irônicas na vida: esses tênis velhos ainda estavam aqui, ao passo que quem os usara já partira.

No entanto - a decisão era minha. Se quisesse, poderia jogá-las fora agora mesmo. Eu realmente deveria jogá-las fora. Nada me impedia de fazer isso.

Coloquei-os cuidadosamente em cima do lixo que já estava na lata e fechei a tampa. Esperei. Mas eu não poderia fazer isso.

Tirei-os da lata de lixo, segurei-os, apreciei-os e chorei pelo homem que costumava usá-Ias.

Enquanto segurava esses calçados sem valor algum, eu os inclinei um pouco e houve um afluir de algo, que pensei que fossem pedrinhas, da ponta de um dos pés para o calcanhar. Pensei que esses pedregulhos fossem vestígios do passado, de buracos cavados ou de cascalhos espalhados, nos calçados. Olhei mais atentamente. Não! Não eram pedregulhos, mas algum tipo de noz depositada por um dos esquilos de nosso bosque - o suficiente para alimentar um esquilo econômico por alguns dias, talvez uma semana.

Bem, será que esses calçados eram mesmo sem valor? Não!

Meu querido Dar e os esquilos sabiam disso melhor do que eu! A utilidade desses tênis nunca foi questionada por meu marido. E agora o ponto de vista dele fora apoiado pela natureza.

Coloquei os tênis novamente no local onde os encontrei. Eles eram muito mais necessários como um recipiente para armazenar alimento para um esquilo do que como adorno para um monte de lixo malcheiroso. E, de alguma forma, não estou mais tão triste, mas reconfortada por essa conexão com a natureza. Agrada-me - e sei que isso também agradaria ao meu querido Dar - saber que agora uma bela criatura cinzenta anda em seus calçados.


 

A FAMÍLIA RICA

Eddie Ogan Na Revista Virtue [Virtude]

Histórias Para o Coração 3 235

 

 

Jamais esquecerei aquela Páscoa de 1946. Eu tinha 14 anos, Ocy, minha irmãzinha, 12, e Darlene, minha irmã mais velha, 16. Morávamos com mamãe, e nós quatro sabíamos o que significava abrir mão de muitas coisas.

Meu pai morrera cinco anos antes, deixando mamãe sem dinheiro e com sete filhos em idade escolar para criar. Mas em 1946, minhas irmãs mais velhas já tinham casado, e meus irmãos já haviam saído de casa.

Um mês antes da Páscoa, o pastor de nossa igreja anunciou que haveria uma oferta especial destinada a uma família pobre.

Ele pediu que todos economizassem e fizessem uma oferta sacrificial.

Quando chegamos em casa, conversamos para decidir o que seria preciso fazer. Decidimos comprar uns 25 quilos de batata e passar o mês todo apenas a batatas. Isso possibilitaria uma economia de 20 dólares nas compras de mercearia, que poderiam fazer parte da oferta.

Depois, achamos que, se ficássemos com as luzes apagadas o maior tempo possível e não escutássemos o rádio, poderíamos economizar na conta de eletricidade. Darlene procurou fazer faxina no maior número de casas possível, e nós duas trabalhamos de baby-sitter para quem quer que precisasse de nossos préstimos.

Com 15 centavos, poderíamos comprar um número suficiente de rolos de algodão para confeccionar três suportes de potes e vende-los por um dólar. Conseguimos arrecadar 20 dólares apenas com os suportes de potes.

Aquele foi um dos melhores meses de nossa vida. Contávamos o dinheiro todos os dias para saber quanto tínhamos economizado. À noite, sentávamo-nos no escuro e conversávamos sobre a maneira como a família pobre desfrutaria o dinheiro que a igreja doaria. Havia cerca de 80 pessoas em nossa igreja, portanto calculamos que a oferta final seria 20 vezes maior do que a quantia que conseguíssemos economizar. Afinal, todos os domingos o pastor lembrava os membros para economizar para a oferta sacrificial.

Um dia antes da Páscoa, Ocy e eu fomos ao armazém e pedimos ao gerente que substituísse nosso dinheiro trocado por notas novinhas de 20 e de dez. Corremos para casa para mostrá-Ias a mamãe e Darlene. Nunca tivéramos tanto dinheiro antes.

Aquela noite, estávamos tão entusiasmadas que mal podíamos dormir. Nem ligamos para o fato de que não teríamos roupas novas para a Páscoa. No entanto, conseguíramos uma oferta de 70 dólares. Mal podíamos esperar para chegar à igreja.

No domingo de manhã, chovia muito. Não tínhamos guarda-chuva, e a igreja ficava cerca de 1,5 km de casa, mas não dávamos a mínima para a chuva e as roupas molhadas. Darlene tinha um papelão nos sapatos para cobrir um buraco na sola. O papelão partiu-se, e os pés dela ficaram molhados. No entanto, nós nos sentamos altivamente na igreja. Escutei algumas adolescentes conversando sobre as meninas da família Smith, pois estavam usando vestidos velhos. Olhei-as e observei as roupas novas que vestiam, mas mesmo assim me senti muito rica.

Quando a oferta sacrificial foi recolhida, estávamos na segunda fileira, bem na frente. Mamãe colocou a nota de dez dólares, e nós meninas, uma nota de 20 cada. Quando voltamos para casa, cantamos durante todo o trajeto. No almoço, mamãe tinha uma surpresa para nós, pois comprara uma dúzia de ovos, e, com a batata frita, comemos ovos cozidos - nossos ovos de Páscoa.

Nessa mesma tarde, o pastor veio de carro até nossa casa.

Mamãe o recebeu à porta, falou com ele um momento e, a seguir, entrou em casa com um envelope na mão. Perguntamos o que era, mas ela não disse uma palavra sequer. Abriu o envelope, e o maço de notas caiu sobre a mesa. Havia três notas novinhas em folha de 20 dólares, uma de dez e 17 de um dólar.

Mamãe colocou o dinheiro de volta no envelope. Não dissemos nada, apenas olhamos para o chão. Antes, sentíamo-nos milionárias, mas agora pairava no ar a sensação de que éramos um lixo e realmente pobres.

Tínhamos uma vida tão feliz. Ficávamos tristes por todos os que não tinham pais como os nossos, e uma casa cheia de irmãos e irmãs e amigos, as outras crianças que sempre vinham nos visitar.

Achávamos engraçado dividir os talheres, e nunca saber quem comeria de garfo e quem ficaria com a colher à noite. Tínhamos duas facas que passavam de mão em mão, para quem precisasse delas.

Sabia que não tínhamos as coisas que as outras pessoas possuíam, mas nunca achei que éramos pobres. Nessa Páscoa, descobri que éramos. O pastor nos trouxera o dinheiro destinado à família pobre, portanto deveríamos ser pobres.

Não gosto de ser pobre. Observei meu vestido e sapatos, velhos e bem batidos, e fiquei com tanta vergonha que não queria mais ir à igreja. Provavelmente, todos lá já sabiam que éramos pobres! Pensei no pessoal da escola. Estava no primeiro ano do ensino médio e era uma das melhores alunas em uma classe com mais de 100 alunos. Fiquei imaginando se as crianças da escola também achavam que éramos pobres. Pensei que também poderia abandonar a escola, visto que já terminara a oitava série do ensino elementar. Na época, era tudo o que a lei exigia como educação obrigatória.

Nós nos sentamos em silêncio por um longo tempo. Depois, quando ficou escuro, fomos para a cama. Aquela semana toda, nós, as meninas, fomos à escola e voltamos para casa. Não conversávamos muito, pois nenhuma de nós estava animada para um bate-papo. Por fim, no sábado, mamãe nos perguntou o que queríamos fazer com o dinheiro. O que as pessoas pobres fazem com dinheiro? Nós não sabíamos. Nunca havíamos percebido que éramos pobres.

No domingo, não estava a fim de ir à igreja, mas mamãe disse que tínhamos de ir. Embora o dia estivesse ensolarado, não conversamos a caminho da igreja. Mamãe começou a cantar, mas ninguém a acompanhou, e então ela só cantou uma estrofe. Naquele domingo, o pregador era um missionário. Ele falou sobre as igrejas da África, feitas com tijolos de barro que secavam ao sol, mas que, mesmo assim, ainda necessitavam de dinheiro para comprar o telhado. Ele nos explicou que 100 dólares eram suficientes para colocar o telhado em uma igreja. O pastor disse:

"Será que não podemos fazer um sacrifício para ajudar essas pessoas pobres?".

Olhamos uma para a outra e, pela primeira vez em uma semana, sorrimos. Mamãe pegou a bolsa e retirou o envelope.

Ela o passou a Darlene, que o passou para mim, e eu o entreguei a Ocy, que o colocou na caixa de ofertas.

Quando contaram a oferta, o pastor anunciou que haviam recolhido um pouco mais de 100 dólares. O missionário ficou muito entusiasmado, pois não esperava uma oferta tão alta em uma igreja tão pequena.

Certamente, há pessoas ricas nesta igreja! - disse ele. De repente, algo nos surpreendeu! Da quantia, que era um pouco mais de 100 dólares, nós havíamos ofertado 87 dólares.

Éramos a família mais rica da igreja! Afinal, não foi isso que o missionário disse?


 

QUANDO OS DESCONHECIDOS

ATRAVESSAVAM NOSSA CIDADE

Ruth Lee NA REVISTA LIVE [MORAR]

Histórias Para o Coração 3 240

 

 

Aos sete anos, o fato de não ter mãe levou-me a estar muito tempo com minhas amigas. As mães delas sempre sorriam quando corrigiam meus modos, ou quando abrandavam as irritações que apareciam em momentos em que não eram necessárias.

Eu ouvia suas palavras. Sabia o que estavam fazendo quando me tratavam como se fosse filha delas: tentavam preencher o vazio da "ausência materna" em minha vida.

- Meninas! Meninas! Onde vocês estão? Vamos, apressem-se e voltem para casa.

Sabíamos o que o chamado de uma mãe indicava.

Quando estávamos seguras no interior da casa, podíamos olhar, através das cortinas de renda, o homem em farrapos, com um saco de juta jogado sobre os ombros, arrastando os sapatos velhos e gastos ao longo da calçada.

A rota do aço trazia uma procissão constante de trens que atravessavam a pequena cidade no Meio-Oeste onde cresci. Enquanto alguns passageiros viajavam confortavelmente em assentos de pelúcia castanha escura, outros se ajeitavam, espremidos, em cantos de vagões vazios, os destinados ao transporte de carga.

A Depressão estava perto do fim, ou pelo menos era o que os jornais diziam, mas em nossa comunidade rural tínhamos poucas evidências para apoiar essa afirmação, pois os homens nômades continuavam a bater à porta de nossas casas, pedindo um prato de comida em troca de algum trabalho.

Depois que os homens desconhecidos passavam, podíamos retomar nossa brincadeira, mas, muitas vezes, as brincadeiras não ocupavam mais minha mente. Despedia-me e ia para casa.

Quase sempre, quando chegava em casa, no limite da cidade, o homem que vira através das cortinas de renda na casa de minha amiga estava sentado com meu pai na porta dos fundos da cozinha, e, no colo do desconhecido, repousava um prato azul de madeira, muito cheio, com as sobras da noite anterior.

Certa vez, quando perguntei em frente a um desses desconhecidos: "Por que aquele mendigo velho está comendo em um de nossos melhores pratos?", meu pai me repreendeu com um olhar do tipo: "Vamos falar sobre isto mais tarde".

- Minha filha - explicou ele - a maioria desses homens que você vê atravessando a cidade está passando por um momento difícil. Muitos deles são homens de família tentando ganhar algum dinheiro - para enviar aos familiares ou para conseguir voltar para junto daqueles que eles amam.

Meu pai não tinha um diploma para colocar em um quadro e pendurar na parede, mas era um estudioso, um aprendiz que procurava entender a natureza humana. Ele percebia as pessoas de maneira diferente do que a maioria do povo, pois sempre buscava a razão que levava um indivíduo a agir de determinada forma. E, quando descobria o que havia no interior desse indivíduo, ele se empenhava para compreender o que essa pessoa poderia vir a ser, se apenas uma meia chance lhe fosse oferecida.

Hoje já sou adulta, e muitas coisas estão bem diferentes.

Nosso governo cuida da distribuição de comida, e acho que isso também é bom. Eu ainda encontro muitas pessoas que me lembram as mães de minhas amigas, que nos chamavam para o interior das casas fazendo-nos abandonar nossas brincadeiras, mas não conheço muitas pessoas que me lembram meu pai.


 

O PEQUENO AVENTAL

Charlene Ann Baumbich

Em Mama Sald Thered Be Days Like This

[Mamãe Disse Que Haveria Dias Assim]

Histórias Para o Coração 3 243

 

 

Todos nós temos pertences que não têm valor algum nesta vida, mas, no momento em que os vemos, muitas lembranças inundam nossa mente. Tenho muitos desses objetos e os mantenho sempre à vista. Alguns me confortam, outros me fazem rir. Sua abrangência é das mais variadas - de uma pedra a fotos.

Há pouco tempo, perdi um desses objetos: um canivete em uma bainha verde, que não media mais do que oito centímetros. A lâmina tinha o formato de um sabre e era incrivelmente afiada. Esse canivete pertenceu a minha avó, e eu gostava de tê-lo comigo.

Imaginava, com frequência, o que vovó deve ter feito com ele: fatiado, cortado, parafusado, aberto uma fenda ou espetado.

George e eu o usamos um pouco antes dele sumir. Estávamos de férias, fatiamos um salame e, logo depois, o canivete desapareceu.

Outro de meus objetos favoritos é uma pedra de cerca de 15 cm de diâmetro, que fica em um pedestal em nossa sala. Mamãe a fisgou no fundo de um lago na última vez que fomos pescar juntas.

Alguns meses depois da morte de mamãe, fui dar uma olhada em seus pertences. Examinei tudo o que havia no armário, cabide após cabide. Certos eventos e passeios foram acionados pelas roupas dela e, de repente, lá estava ele: o pequeno avental. Era uns desses aventais parecidos com os que as crianças usam, sem mangas, com laços nas costas e um bolso bem na frente. Provavelmente, era de algodão, mas não tenho certeza. Comecei a chorar imediatamente. Mal podia olhar para ele. A dor, muito próxima ainda, era aguda.

Mamãe gostava de se divertir e amava sua casa, seus afazeres e seus compromissos. Ela amava fazer as coisas para nós e, com frequência, usava aquele avental quando nos preparava algumas surpresas. Esse avental parecia um farol sinalizando lembranças que jamais aconteceriam.

O avental surrado está agora pendurado em meu escritório, uma lembrança silenciosa de um tempo bem utilizado com afazeres: descascar batatas; fazer sua especialidade, torta de abacaxi com merengue; plantar sementes de abóbora nos montículos de terra preta, cheia de nutrientes, que fazia com as mãos; passar o aspirador de pó afobadamente, quase em pânico, antes de a turma toda voltar para casa; presentear-nos com galinha caipira frita, purê de batatas e milho cozido (do quintal, é claro) e o melhor molho branco de frango, guarnecido com pedacinhos crocantes da gordura que grudara na panela, que alguém já experimentou.

O avental também traz à mente lembranças de sua coragem: quando enfrentou o vendedor de sapatos que tentava convencê-la de que a culpa por sua menina estar com bolhas no pé era nossa; ou quando atirou em uma raposa que invadiu nosso porão; quando dirigiu uma caminhonete de entregas, aos nove meses de gravidez, para ajudar o novo negócio de meu pai a não afundar; ou quando se tornou e uma mulher de negócios pela primeira vez, após os 50 anos de idade e, ainda, quando despejou uma vasilha de ponche sobre a cabeça de uma loira fatal que já flertara muitas vezes com meu pai...

O avental representa chá quente e melancia gelada. Lavar e passar roupa impecavelmente. Pirulitos quando ficávamos doentes, pipoca no domingo à noite e limonada fresca quando estávamos bem de saúde. Lembranças do aroma dos lírios do campo, com os quais mamãe, uma vez por ano, se perfumava, quando um novo lote de perfumes era lançado no mercado. Invoca lembranças de minha mãe segurando o primeiro neto bem junto ao peito e chorando.

E as risadas. Gargalhadas sem fim que brotavam tão rapidamente de seu espírito generoso e cheio de alegria.

Agradeço a Deus por esse símbolo de maternidade. E, como o canivete, o avental também desapareceu dia desses, pois, embora saiba que isso me entristece, sei que nunca perderei as lembranças gloriosas que os objetos sem valor nesta vida me trazem - na verdade, eles fazem menção de tudo o que importa neste mundo.

A GRAVURA

Barbara Baumgardner

Histórias Para o Coração 3 247

 

 

Eu mal acabara de completar 18 anos quando meu futuro marido me levou para pescar no rio Williamson, no sul de Oregon. Fizemos um piquenique no parque de Collier, onde ele gravou minhas iniciais, bem profundas, na casca de uma bétula.

Tirei uma fotografia para colocar em meu álbum.

Mais de 40 anos depois, retomei ao parque Collier, já viúva e desejosa de receber um abraço do passado. O parque fora expandido: plantaram grama e instalaram toaletes modernas. Meus olhos, cheios de expectativa, vasculharam as numerosas gravações esculpidas nas cascas do único bosque de árvores brancas do parque. Fotografei as árvores de todos os ângulos, na esperança de que uma delas, ao acaso, revelasse os vestígios, cobertos de folhas, de nosso amor nesse local.

Achei o guarda florestal e pedi ajuda: "Será que as árvores cresceram tanto que já não conseguia identificar minhas iniciais.

- Não - respondeu ele - mas a casca que foi ferida já cicatrizou e as iniciais esculpidas esticaram-se à medida que a árvore crescia, o que significa que seria muito difícil ler as iniciais.

As palavras desestimulantes desse guarda não me desencorajaram, e até reprimi algumas risadinhas infantis, típicas das meninas, enquanto continuava a busca de minha tatuagem feita na árvore. A cena era bem ridícula: apontava minha máquina fotográfica para todas as cicatrizes silenciosas, esculpidas nos troncos das árvores.

Um poema insinuou-se em minha mente:

Há 43 anos, meu noivo Esculpiu minhas iniciais em uma árvore.

Hoje retorno para achar a marca deixada Em um local adorável, o parque Collier.

Uma semana depois, quando revelei o rolo de filme e comparei com a fotografia que tirara 43 anos atrás, sabia que eu a encontraria. Era a única árvore com tronco duplo no pequeno bosque, agora repleto de bétulas frondosas. Ri e, a seguir, chorei.

E me recordei.

Imagino que agora, uma geração mais tarde, as pessoas que brincam no parque podem indagar a respeito da origem ou, quem sabe, critiquem a pessoa que utilizou um canivete afiado para registrar o amor que sentia por uma jovem. Entretanto, para mim, as marcas profundas no tronco da árvore são um lembrete das cicatrizes em meu coração, esculpidas pela lâmina afiada da morte. E como o pequeno bosque de bétulas frondosas, eu também tive minhas feridas curadas e removidas de forma maravilhosa.

 

 


 

OS LILASES PARA LEMBRAR

Faith Andrew Bedford NA REVISTA COUNTRY LIVING [MORAR NO CAMPO]

 

 

O ar suave da primavera fica impregnado pelas fragrâncias do primeiro corte de grama no ano. Maços dourados, bem caprichados, salpicam os prados, e as árvores frutíferas parecem estar revestidas com uma cobertura de baunilha. Da varanda de casa, olho através do vale para os picos das montanhas ao longe e percebo que o verde-claro das folhas novas avança ao longo das encostas, procurando alcançar o topo. Essa é a época para a primeira caminhada da estação em meio às flores selvagens.

Meu marido e eu dirigimos nossa caminhonete ao longo de uma antiga trilha de lenhadores, que serpenteia montanha acima.

Quando passamos sobre as pedras, balançando muito e deslocando o cascalho solto, os galhos rosa-pálidos, o galardão da montanha, escovam as janelas da caminhonete. A estrada acaba embaixo de um emaranhado de rododentros selvagens. Amarramos nossas botas de caminhada e enchemos nosso cantil com água de uma nascente que brota, borbulhante, sob uma pedra coberta por musgos.

Enquanto caminhamos, localizamos açucenas e orquídeas, falsos selos-de-Salomão e lírios. Sentimos a fragrância pungente das folhas dos pinheiros aquecidas pelo sol, enquanto passamos embaixo dos galhos inclinados das árvores altas.

Um caminho tênue leva a uma floresta de pináceas. Passamos por ele outras vezes, mas nunca o pegamos, só que, desta vez, decidimos explorá-Io. Agora, a floresta começa a se abrir e podemos ver a luz de uma clareira. No meio há uma chaminé de pedra, um remanescente de uma propriedade rural.

Senti o cheiro dos lilases antes de vê-los. A brisa ficou de repente suave e magnífica. Ao lado da chaminé, encontramos um velho celeiro rodeado por litorinas, um tipo de molusco; as flores azuis ficam esmaecidas quando em contraste com as folhas verdes brilhantes. Próximo a uma pedra grande e plana, que deve ter servido de degrau na entrada da casa, há um arbusto de lilases, cujos galhos, grossos e retorcidos, estão carregados de cones roxos. Recolho alguns para mim. O aroma me envolve e, por um momento, não estou mais em uma clareira na floresta, mas no jardim da casa de minha avó.

Os lilases eram as flores favoritas dela, e o quintal estava cercado dessas flores. No entanto, apenas quando tinha nove ou dez anos é que descobri que um desses arbustos era meu. Em uma tarde de primavera, muito parecida com essa, a vovó e eu estávamos colhendo flores para a sala de jantar. Quando estiquei o braço para cortar um lilás branco, ela disse: "Este é o deu arbusto, sabia?". Virei-me, surpresa.

Ela sorriu: "É mesmo, pois eu o plantei em sua homenagem, no ano em que você nasceu". Olhei o adorável arbusto, muito mais alto do que eu, e me senti muito importante.

Depois, vovó pegou minha mão e me apresentou a todos os outros lilases em seu jardim. Enquanto estávamos embaixo do maior deles, ela disse: "Plantei este no ano em que Jimmy nasceu". (Jimmy era meu pai. Sempre me assustava quando alguém chamava aquele homem alto e que estava ficando careca de Jimmy. Mamãe o chamava de Jim.) Fomos até um lilás vermelho escuro: "E este plantei em memória de seu avô, no ano em que morreu". O sorriso dela se dissipou por um momento e, a seguir, ela me levou para o jardim da frente.

Ao lado do portão, havia um lilás rosa escuro, apenas um pouco mais alto do que o meu.

- Este aqui, plantei no ano em que seus pais se casaram - disse a vovó. - Este com certeza vicejou.

E isso realmente havia acontecido. Alguns galhos estavam tão pesados com as flores, que a vovó teve de sustentá-Ios com forquilhas feitas com galhos podados da macieira.

Atrás do canteiro de flores havia dois lilases pequenos, um deles azul-violeta claro, e o outro, rosa-pálido. "Estes plantei para suas irmãs", disse ela, enquanto cortava um ramo de cada e os colocava em sua cesta. "O azul-violeta é da Ellen e chama-se Minueto. O pequeno, rosa, chama-se Brilho da Lua, e o plantei há três anos para a Beth." Minhas irmãs pequenas tinham apenas seis e três anos, mas certamente contaria a elas tão logo pudesse que tinham um lilás no jardim da vovó -lilases com nomes bonitos.

Quando me aproximei do terraço, vi um lilás pequeno com apenas algumas flores, poucas e pequenas. A cor deles era azul noite, e seu cheiro era exótico, quase picante. Nunca vira esse arbusto antes. Olhei para a vovó.

- Este se chama Noturno - disse ela - e o plantei para mim no outono passado em homenagem à minha aposentadoria, quando deixei de trabalhar na biblioteca.

Ela riu e acrescentou:

- Acho que também mereço.

Vovó, por muitos anos, ajudou as crianças de nosso vilarejo a encontrar o livro perfeito. Agora, poderia passar seu tempo fazendo o que mais gostava: ler e cuidar do jardim.


 

AS LUVAS DE MINHA MÃE

Sharron Dean McCann NA REVISTA VIRTUE [VIRTUDE]

 

 

EIas provavelmente foram feitas com fios duplos e retorcidos de algodão. Sei que eram pretas, brancas ou azul marinho e cheiravam a creme hidratante e pó de arroz. Mamãe as usava o tempo todo, mas aos domingos de manhã era quando mais apreciava as luvas de minha mãe. Amava a sensação escorregadia delas ciciando em meus punhos. Eu as colocava - dobrando as pontas, pois meus dedos curtos e rechonchudos não as preenchiam - e fingia que era uma dama.

No entanto, quando cresci, as luvas de minha mãe poderiam ter sido esquecidas se eu, quando criança, não resmungasse sobre todas as coisas boas que os meninos faziam. Sempre quis ser um deles.

- Os meninos acompanham os passos dos pais - murmurava.

- O que as meninas têm de fazer? Provavelmente, apenas acompanhar as luvas das mães.

Esqueci-me dessa maneira de pensar, mas a ideia retornou anos mais tarde, quando meus filhos começaram a brincar de se vestir como adultos. O que eu aprendera com minhas mãos enfiadas nas luvas de minha mãe?

Quando mamãe as usava, as pontas da mão esquerda ficavam vazias, e um dos dedos das luvas ficava oco da metade até a ponta. Muito antes de eu nascer, quando auxiliava na carroça de feno, as pontas dos dedos dela foram decepadas em um acidente com o forcado. Para mim, eles apenas eram os dedos dela, mas ela sempre odiou as pontas nodosas deles. Talvez, ela usasse luvas para cobrir a vergonha que sentia. Por meio desses dedos, porém, aprendi muito a respeito da vida.

Minhas primeiras memórias referem-se às transições na vida de minha mãe: ela vira três filhos partir para a guerra - e um deles jamais voltou - cuidou de um marido inválido, enviou a filha mais velha para a universidade, criou um filho adolescente e cuidava de mim, a rapa-de-tacho não planejada.

Quando perdeu o marido, ela se mudou conosco para a cidade e passou a reformar casas velhas - transformando-as em lares - para depois vendê-las e comprar outras para reformar. Ela também trabalhava fora, galgando os degraus do êxito: passou de costureira a encarregada - chefe em uma instituição para doentes mentais.

Não percebi tudo o que aprendi nesses anos até que tive de encarar o divórcio em minha vida. Certa manhã, enquanto tomava banho, comecei a chorar e cheguei a apoiar-me na parede devido aos soluços incontroláveis. Pensamentos começaram a assolar minha mente: Não podemos ir.

No entanto, logo a seguir, minha atitude já havia mudado:

 

É lógico que posso. Como sei disso? Onde aprendi que isso é possível?

 

Mas, de imediato, eu sabia que aprendera a sobreviver nas épocas difíceis ao andar com minha mãe, de mãos dadas com a luva. Íamos à igreja, ao mercado, aos eventos da escola da vovó e às festas do trabalho dela. Embora mamãe trabalhasse tempo integral, ainda encontrava tempo para fazer quitutes: pães caseiros, dourados e roliços, tortas fumegantes e feijão, macio e quente, enchiam nossa cozinha todos os sábados. Raras eram as ocasiões em que ela não fazia algo extra.

Ela levava os quitutes para os idosos, os doentes ou deficientes físicos. Eu ia com ela a esses lugares, e ficava sentada escutando quietinha. Esqueci o teor das conversas, mas lembro dos tique-taques suaves, da transmissão do jogo de beisebol no rádio, da limonada, dos biscoitos e dos comentários que mamãe fazia:

"Como isso foi bom para a Sra. Fulana de tal" ou "Não me custou nada fazer isso".

Em algum momento do verão de 1945, ou 1946, mamãe pediu que eu parasse de brincar para fazermos um passeio a pé, e começamos a dar a volta no quarteirão com uma cesta cheia de alimentos. Achei que íamos fazer um piquenique. Cobria mamãe de perguntas: "Por que estamos levando a cesta?"; "Para quem você vai dar?"; "Onde estamos indo?".

No início, ela apenas disse: "Vamos àquela casa ali".

Continuei a fazer perguntas. Por fim, disse-me: "Um amigo de seu irmão, o Garnett, casou-se com uma moça japonesa e a trouxe para morar aqui. Todos na cidade se recusam a vender para eles, portanto estamos levando alguns alimentos para que tenham o que comer". Sabia que meu irmão fora morto na guerra contra os japoneses.

Demorei muito mais tempo do que minha mãe para aprender a perdoar, mas, naquela caminhada curta de verão, aprendi a doar.

Mamãe hoje tem 92 anos. As luvas dela estão sobre a mesa, à espera de uma oportunidade para passear. Até os 85 anos, ela ainda as usava quando ia de carro, cheio de "senhoras que não sabiam dirigir", até a igreja. Além disso, ela ia todos os dias até à casa do irmão para dar-lhe comida.

Quarenta e quatro anos atrás, eu talvez até duvidasse do júbilo de ser mulher, mas agora tenho certeza: dificilmente uma menina pegará o caminho errado se acompanhar as luvas de sua mãe.

 

 

 

Apenas quando esquecermos de nós é que

faremos coisas que serão lembradas.

AUTOR DESCONHECIDO

 


 

O BALANÇO DA VARANDA

Brenda A. Christensen

 

 

Estava grávida de seis meses de nosso primeiro filho, quando compramos nossa casa - a casinha só nossa.

Era pequena, mas quase tão perfeita quanto a das histórias dos livros. O charme do estilo do início do século 20 não me cativou na primeira vez em que a vimos, pois o calor do verão agravava meu enjoo matinal, e diário, e facilitava a ofensiva dos pernilongos.

Meu marido gostou dela logo que a viu. Nós, no entanto, a vimos novamente quando a imobiliária realizou uma exibição em que todos eram bem-vindos a visitá-Ia a qualquer hora do dia.

Depois de arrastar a família dele e a minha para ver a casa, mudei de opinião. Parece que, de repente, vi as centenas de flores que rodeavam toda a área da casa, inclusive a jardineira que, na verdade, era o muro da frente de nossa varanda na entrada da casa.

O bordo frondoso que havia ali deve ter testemunhado todas as tempestades que assolaram nossa pequena cidade, mas ainda continuava firme, superando todas as vicissitudes de sua longa vida. As janelas enormes, embora manchadas pelos muitos anos de exposição à fumaça do tabaco e pelas várias camadas de tintas, seduziram-me ainda mais, assim como os dois assentos embutidos sob as janelas - com os quais sonhei minha infância inteira - onde poderia ficar e sonhar e almejar muitas coisas, ou escrever em meu diário. Seriam perfeitos para minha filhinha.

No entanto, o que realmente me convenceu de que essa era nossa nova casa foi o balanço da varanda. Isso era o mais importante em nossa busca por nossa casa: sem varanda para um balanço, sem acordo!

Tinha tantas lembranças agradáveis do balanço da casa de meus avós, onde me sentava horas a fio. Esse lugar necessitava apenas de uma cerca branca.

Nossa filha nasceu, e nossa casa também parecia estar criando vida - precisava apenas de alguns reparos. Passávamos muito tempo do lado de fora, quando o tempo começou a esquentar.

Dar a volta no quarteirão, brincar de pegador na grama e, obviamente, balançar na varanda - essas eram as atividades que preenchiam nossos dias. Perdi a conta das inúmeras vezes em que ninei minha filha naquele balanço, e também nossa segunda filha.

Aprendemos o abc, outras cantigas e rimas charmosas, inclusive algumas que inventamos. O balanço, devido aos pirulitos que derretiam em nossas mãos nas noites quentes de verão, quase sempre estava melado. Brincávamos e balançávamos, desenfreada e alegremente.

Olhávamos os carros passar ou a lua flutuando através dos galhos do velho bordo, enquanto nos embalávamos suavemente.

Eu me sentava naquele balanço para ver minhas filhas rir de alegria e júbilo, quando brincavam no jardim, pulavam nos montes de folhas ou corriam debaixo das gotículas dispersas com as quais o irrigador pulverizava a terra. Eu estava no paraíso.

Desde o dia em que compramos nossa pequena "casa de boneca", como o corretor de imóveis a chamava, planejávamos vendê-la. Meu marido e eu trabalhamos muito para fazer as reformas necessárias e pôr em dia a decoração. No entanto, cinco anos depois, já com duas filhas, tornamo-nos grandes demais para nossa casa. Havia chegado o momento de mudar para o interior, onde sempre sonhei em criar meus rebentos. Tudo o que pude fazer foi chorar o dia inteiro. Voltamos à casa uma vez mais para dar a última olhada, fazer uma refeição frugal e sentar pela última vez naquele balanço.

Acho que os últimos cinco anos de minha vida naquela casa passaram diante de meus olhos, como se fosse a experiência que algumas pessoas dizem que tiveram quando ficaram perto da morte. Chorei tanto, que mal pude ver a saída. Todos nós acenamos um adeus para a casa e fomos embora com o rosto banhado em lágrimas.

Isso aconteceu mais de dois meses atrás, e nunca mais passei ali perto, nem uma vez sequer, até recentemente. Eu realmente queria fazer uma visita a nossa vizinha, uma senhora idosa, de quem fiquei amiga.

Quando parei o carro em frente de nossa antiga casa, havia uma jovem mulher, mais menos da mesma idade que eu tinha quando tive minhas filhas, sentada no balanço da varanda, brincando com uma criança que ainda estava aprendendo a andar, atrás das flores que eu plantara no início dessa primavera. Cumprimentei-a: "Olá!", bem alto e bati à porta da vizinha.

Não conseguia tirar meus olhos dessa mãe e de seu filho, nem reter as lágrimas que começaram a rolar pelo meu rosto. Minha amiga não estava em casa, e fiquei tentada a apresentar-me à mulher, mas decidi que essa não seria uma boa ideia, pois sabia que não conseguiria manter meus olhos secos por muito tempo, talvez não fosse nem capaz de chegar a dizer meu nome antes de começar a chorar.

Portanto, entrei no carro e parti, mas ainda vi, pelo retrovisor, mãe e filho brincando na varanda da frente.

Chorei de tristeza por minha perda, mas de alegria pelo ganho dessa família. Chorei de felicidade pelo destino do balanço da varanda, que produzia lembranças felizes, como tenho certeza que aconteceu antes de mim e, conforme o que acabara de ver, ainda continuaria a fazer o mesmo sem mim.

 


 

O CELEIRO

Sharroll Deall MeCalln

 

 

No inverno, meu local favorito era o celeiro na hora do crepúsculo. Não o nosso celeiro, mas o do tio Ernie. O tio Ernie, a tia Audie e o cão collie, Mutty, eram nossos vizinhos, c tomavam conta de mim. Mutty e eu passamos nossos primeiros sete anos de vida juntos.

Sempre sabia quando era a hora de ir para o celeiro, pois Mutty vinha me procurar e, com seu focinho, me fazia abandonar o que eu estivesse fazendo. Depois de me empurrar e puxar para a porta, ela esperava pacientemente enquanto eu batalhava para pôr as perneiras, as botas, o casaco o chapéu e as luvas.

O celeiro não ficava distante da casa, mas entre essas duas construções havia uma cerca, uma enorme porteira e um portão para cães. Sempre passávamos debaixo do portão para cães e ficávamos juntas até chegarmos à porta do celeiro. Mutty, a seguir, corria e passava pela porteira que dava para o curral e se movia suavemente entre os animais, utilizando todos seus sentidos para tocá-Ios para dentro.

Enquanto ela fazia isso, eu corria para uma porta lateral, que dava para a parte principal do celeiro, e escalava o monte de feno. Tio Ernie dizia que os animais entravam na área coberta mais rapidamente se ninguém estivesse no caminho deles. Não me importava de ficar escondida, pois amava deitar-me no feno empoeirado para olhar, escutar, tocar e sentir os cheiros característicos desse lugar.

Meu celeiro não era um local para tirar o leite cheio de apetrechos e bem cuidado. Não era lavado com esfregão, nem era um lugar muito limpo. Não era um celeiro vermelho adequado, com montes de feno tão altos que só pudessem ser tocados com forcados e esteiras. a telhado do celeiro, bem no centro, comportava apenas uma parelha de cavalos e uma carroça carregada de feno. as lados eram inclinados e bem baixos, apenas um pouco mais altos do que o tio Ernie. Em um dos lados havia um estábulo para os cavalos, Lady e Tony, e quatro pilares para as vacas, Bess, Elsie, Maye June a outro lado inclinado era destinado às ovelhas.

Eu sabia que todos os animais já estavam no celeiro quando o mastigar ruidoso tinha início. a mastigar, as baforadas e as bufadas. Eles bufavam muito. Tio Ernie dizia que não podíamos dizer que esse barulho era um mugido ou um relincho, pois eram suaves e relaxados.

Quando o tinir das correntes indicava que as vacas já estavam presas aos pilares, Mutty vinha até o monte de feno me buscar. a celeiro exalava a mistura do ar frio da noite com os corpos quentes. Tio Ernie sentava-se em seu banquinho, encorajando seu quarteto de vacas Jerseys, bem avantajadas, a dar-lhe a parte gorda de leite puro. Enquanto ele tirava o leite das vacas, eu tinha de fazer minhas tarefas.

Eu corria para os baldes que ele preparava para eu alimentar os animais. Nunca cuidei muito do cocho, ou como tio Ernie dizia, da manjedoura dos bovinos, pois não gostava da cara das vacas.

Além disso, elas já estavam mastigando e lambendo e ruminando.

a retinir das correntes presas aos pilares e o gorgolejar da água, engolidas em um só fôlego, faziam parte dos sons do celeiro. Esvaziava, rápida e silenciosamente, os baldes na manjedoura destinados às ovelhas. Elas eram tão silenciosas e eu achava que também deveria me manter calada. A manjedoura era longa e estreita, abarrotada de corpos felpudos. As ovelhas calmamente abriam caminho com cutucadas leves e mastigavam serenamente o que eu colocava diante delas.

Apressava-me com as latas de leite para servir os gatos e Mutty, para poder passar bastante tempo com os cavalos. Eu gostava muito deles. Segurava o balde com aveia, destinado a eles, subia na manjedoura em frente da Lady e do Tony. Depois de despejar a aveia de um dos lados, pegava mais feno e colocava contra o focinho dos cavalos queridos. Eles mastigavam e bufavam, e eu sentia prazer de me sentar na manjedoura - parecia que nem se importavam com isso - e afagar a testa deles.

Quando todas as manjedouras estavam vazias, lambidas pelas línguas ávidas até ficarem limpas, e o tio Ernie já tinha acabado de tirar o leite das vacas, as luzes eram apagadas, e estávamos prontos para voltar para casa. Tio Ernie e eu ficávamos parados no silêncio escuro e saboreávamos o momento. Esse era um momento extremamente agradável, cheio de sons, cenas e aromas.

Cresci e abandonei o celeiro. Fazia anos que não via uma manjedoura, quando a enfermeira colocou meu primeiro filho em meus braços. Ele estava enrolado em um pedaço de pano grande, que o prendia como se fosse um indiozinho, e havia apenas uma pequena abertura para seu rosto. Disseram-me que não o desenrolasse. As regras dos hospitais das cidades grandes diziam que isso não era algo seguro, ou asseado, para o bebê.

Não era asseado? Esse pensamento desencadeou minhas lembranças. Lembrei-me de uma moça, Maria, que teve seu primeiro (ilho em uma manjedoura. Lembrei-me das manjedouras no celeiro do tio Ernie. Não era branco, nem esterilizado. Se alguma vez foram limpos, foi com o esfregar das línguas -longas, grossas e ásperas - de Tony, Lady, Bess, Elsie, Maye June. Com certeza, a manjedoura que Maria teve de utilizar era ainda mais rudimentar do que as de minhas lembranças.

Não era seguro? Deus veio ao mundo e quando nasceu não ganhou um berço azul em um berçário fechado com vidros, longe de qualquer toque ou cheiro de sua mãe. Ele tinha palha em uma manjedoura, que fora limpa com a língua de animais. Jesus, que veio para ser o Salvador do mundo, nasceu em um celeiro, em meio aos corpos quentes de animais, cheio de ruídos: o mastigar, as baforadas e as bufadas.

Esperei até a enfermeira sair. Depois, desenrolei meu primogênito. Contei os dedos das mãos e dos pés. Segurei-o bem próximo ao meu corpo e agradeci Àquele que há muito tempo, séculos atrás, dormiu em uma manjedoura, em um local que ainda é um dos meus favoritos: um celeiro no inverno.


 

UMA LUZ NA JANELA

Faith Andrews Bedford

NA REVISTA COUNTRY LIVING

 

 

O dia da mudança estava chegando ao fim. A van desceu a rua fazendo barulho e deixou-nos ali, com três crianças famintas, uma gata assustada e uma montanha de caixas para desempacotar. Nossa casa nova parecia abandonada e solitária. O vizinho mais próximo ficava a 1,5 km, rua abaixo. Era possível ver uma luz através da floresta, fraca e bruxuleante.

Nesse momento, escutei um barulho de rodas sobre o cascalho: um pequeno caminhão parou ao lado do celeiro. Quando abri a porta de minha casa, fui saudada por um sorriso caloroso. Nossa nova vizinha, Marian, trouxe-nos jantar, amizade e conselhos.

Meu pequeno caderno de endereço, cheio de nomes e números de que uma família necessita para ter bom êxito, não eram úteis nesse novo local. Fiz muitas perguntas a Marian. Qual era o melhor veterinário? Onde poderia achar esterco seco para o jardim? Havia um bom encanador na cidade?

Fiquei sabendo, para meu desalento, que o dentista mais próximo ficava a 60 km. Marian, porém, me assegurou que a estrada até lá era maravilhosa.

Ela estava certa. Quando nos dirigimos para o vale, bem abaixo, as montanhas estavam esplendorosas com as cores do outono. Bordos-doces margeavam o velho muro de pedra, e salgueiros debruçavam-se sobre o riacho que corria ao lado da estrada sinuosa. Vacas pastavam nos campos dourados. As minhas vacas prediletas eram as Galloways cintadas cuja faixa branca, bem no meio de seus corpos negros, me fazia pensar nos biscoitos de chocolate recheados com baunilha.

Saímos do consultório do Dr. Thomasson já anoitecendo. Quando passamos o limite da cidade, Drew perguntou-me: "Por que todas as casas têm uma vela de Natal à janela, se ainda nem comemoramos o dia 31 de outubro, o balloween?

Lembrei que a Festa da Maçã de Syndersville aconteceria na semana seguinte, e que havíamos planejado ajudar com a prensagem da cidra. Talvez essas velas fossem alguma tradição, parte das festividades.

Naquele fim de semana, quando chamei a gata para dentro, Kate não veio. Ela estava confusa desde que nos mudamos. Miava desamparada pela casa com a qual não estava familiarizada. Na manhã seguinte, ela ainda não havia aparecido.

Depois, quando o inverno chegou, as crianças ficaram preocupadas com Kate. Tentei consolá-las, dizendo que ela provavelmente já encontrara um bom celeiro, bem quentinho, para passar o inverno. E, como acontece com os ursos, ela estava hibernando.

A época de arar a terra foi adiada devido à grande quantidade de lama. Assim, as tarefas da primavera ficaram acumuladas. Por fim, em uma tarde agradável de março, quando os primeiros narcisos da tarde floresciam, as crianças e eu voltamos a Syndersville para comprar sapatos. Sarah não conseguia se decidir, não sabia se ficaria com os tênis brancos ou com os vermelhos. Eleanor demorou muito apenas para encontrar um par de sapatos de festa. Quando voltamos para casa, já era tarde e estava escurecendo.

— Olhe — disse Eleanor, quando nos aproximávamos da área periférica de Syndersvílle —, essas casas ainda têm a luz à janela.

Vimos que quatro ou cinco casas do lado esquerdo e três do lado direito tinham uma única vela acesa. Perguntei a Marian se ela sabia a razão, e ela me explicou:

— É uma tradição, sempre foi assim.

Depois, riu e completou:

— Esta é uma resposta habitual a muitas coisas que acontecem por aqui.

No mês seguinte, enquanto o Dr. Thomasson tratava os dentes das crianças, perguntei à enfermeira que trabalhava para ele se ela sabia a resposta para esse mistério.

Ela apenas deu de ombros e disse:

— É uma tradição, sempre foi assim. Disfarcei um leve sorriso.

— Com licença — disse alguém atrás de mim.

Virei-me, e uma senhora idosa que usava um vestido verde e estampado, gesticulou para mim, me chamando para que me sentasse ao seu lado no sofá da sala de espera.

— Terei muito prazer em lhe explicar sobre as velas. Sou Grace Harding e moro na última casa do lado esquerdo. Sabe, a vermelha! — Sei sim! — disse eu.

— Fiquei encantada com suas aléias de forsítias, amarelas, quando estava vindo para a cidade.

— Quarenta anos atrás, quando me casei com Henry e vim morar aqui em Syndersville, as primeiras pessoas a nos dar as boas-vindas foram os Johnsons, Clem e Anna. Eles tinham uma casa de fazenda um pouco afastada da estrada.

Já reparara na construção, branca e esmerada, em meio aos celeiros e anexos. Parecia urna galinha cercada por seus pintainhos. — Eles tinham dois filhos, Arthur, o mais velho, um moço forte e prestativo que se parecia com o pai, e James, um tipo mais quieto. Este gostava muito de ler e hoje dá aulas em uma universidade estadual.

Ela sorriu para Sarah, que estava sentada ao meu lado, ouvindo atentamente a história.

— Quando nossos filhos eram pequenos, a filha deles, Mary, costumava tomar conta dos nossos, quando íamos ao cinema.

— Bem — continuou ela — quando a guerra nos atingiu, Arthur se alistou, o que deixou Anna desesperada — sabe como é, ele era o mais velho. Ele, porém, não mudou de ideia. James ficou para ajudar o pai a tocar a fazenda — suspirou ela.

— Muitos moços da cidade foram para a guerra.

Retomando a história, ela prosseguiu com sua narrativa:

— Arthur escrevia com frequência, e Anna lia essas cartas para os vizinhos. Tinha muito orgulho do filho, mas, mesmo assim, ela se preocupava com ele. As mães são assim mesmo.

Concordei com a cabeça.

— Cerca de um ano depois de ele ter partido, as cartas pararam de chegar, o que deixou Anna fora de si. Depois, um homem do escritório de guerra veio até aqui para dizer a Anna que Arthur desaparecera em um combate. Não sabiam se fora preso pelo inimigo, ou...

A voz dessa senhora ficou embargada, e ela olhava para Sarah, que segurava minha mão, bem firme.

— Naquele dia, Anna deixou a luz da varanda acesa a noite toda. Disse ao Clem que ela só apagaria a luz quando o Arthur voltasse para casa.

Alguns dias depois, notei que Ella Winter, no fim da rua, também deixara a luz acesa. E os Moores também acenderam uma luz. Quando anoiteceu, eu também deixei a luz da janela da frente acesa. Era o mínimo que poderia fazer.

— Quanto tempo a luz ficou acesa? — perguntei, embora temesse ouvir a resposta.

— Até ela morrer — respondeu a sra. Harding, com sua voz suave.

— Depois que Arthur desapareceu em combate, fui visitar Anna.

Quando estava para sair, percebi uma tira grande de adesivo sobre o interruptor da luz da varanda. Anna olhou para o adesivo e disse:

"Ninguém vai tocar neste interruptor. Uma manhã Clem tentou apagar a luz, mas eu o impedi. Disse-lhe que não dava a mínima para a conta de eletricidade".

A Sra. Harding olhou para Sarah e continuou a contar-nos sobre os acontecimentos:

— Alguns anos mais tarde, lançaram essas velas elétricas de Natal, e os vizinhos e eu começamos a deixá-las acesas em nossas janelas. Nós as acendemos para o Arthur.

Ela fez uma pausa e, a seguir, complementou:

— E para todos os outros.

— A casa da fazenda ainda está com a luz acesa? — perguntou Sarah.

— Está sim, minha querida — respondeu a Sra. Harding.

— James ainda mora na casa da fazenda, e a fita adesiva ainda está sobre o interruptor.

— A senhora acha que o Arthur ainda pode voltar para casa? — perguntou suavemente Sarah, e sua expressão era de preocupação.

— Pode ser que sim — disse a Sra. Harding baixinho.

Nessa noite, depois do jantai; ouvi um barulho no sótão e senti uma corrente de ar frio, o que era um sinal de que alguém tinha deixado a porta no topo da escada aberta.

— Quem está aí em cima? — berrei.

— Sou eu — respondeu Sarah, com a voz abafada.

Ela desceu com uma de nossas velas na mão.

— Sei que ainda não é Natal, mas eu realmente quero pôr essa vela na minha janela — disse ela, com uma expressão que era, ao mesmo tempo, esperançosa e resoluta.

— Para o Arthur? — perguntei.

— Bem, de certo modo — disse Sarah. — Mas principalmente para Kate. Talvez ela esteja perdida e precise de uma luz para que encontre o caminho de volta.

Não pude recusar esse pedido.

Depois de abraçá-la calorosamente, fui para a porta ver a vela.

Duas semanas depois, Kate voltou com três filhotes. Nunca saberemos onde andou esse tempo todo, mas ficamos muito felizes com seu retorno.

— Podemos deixar a luz acesa? — pediu Sarah, depois de acomodarmos Kate em sua cesta.

Concordei com um gesto de cabeça. Para Arthur, e para todos os outros.


 

O CONFORTO QUE A CRIATURA NOS PROPORCIONA

Bill Holton  NA REVISTA PETLIFE [VIDA DOS ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO]

 

 

Fred Cooke, em seus 45 anos como proprietário da agência funerária Cooke, confortou milhares de pessoas desoladas: pais, crianças e cônjuges. No entanto, há quatro anos, quando sua esposa morreu de câncer, Cooke precisou ser consolado. Sua filha sugeriu que ele comprasse um cão, pois achou que, desse modo, não se sentiria tão só. Cooke adotou um filhote barulhento de golden retriever e lhe deu o nome de Abigail.

Nessa época, Cooke morava em um apartamento que ficava em cima da agência funerária.

- Quase todos os dias, ele levava Abigail para o andar de baixo e a deixava brincar no escritório enquanto trabalhava.

No entanto, um dia Abigail escapou e ficou à procura de novos amigos para brincar.

Cooke achou Abigail na capela, aninhada aos pés de uma mulher sentada perto do caixão do marido. Cooke se desculpou profusamente pela intrusão e fez menção de levar Abigail embora.

- Ela tem mesmo de ir embora? - perguntou a viúva desolada.

É tão reconfortante ter a companhia dela.

Logo, Abigail pegou o hábito de fugir do escritório de Cooke para dirigir-se à sala dos velórios.

- Parece que ela percebe quem está sofrendo mais, e esta é sempre a pessoa a quem ela se dirige em primeiro lugar - disse Fred. - Ela se senta aos pés dos mais desolados, fica ali imóvel, mas olha para elas com uns olhos castanhos compassivos, e logo as pessoas param de chorar e começam a passar as mãos em seu pêlo.

Quando está de folga e não tem de "trabalhar", Abigail é um filhote muito brincalhão. Ela adora brincar ruidosa e descomedidamente: corre atrás de pedaços de gravetos e pega algumas guloseimas do prato de Cooke.

- No entanto, no momento em que entra na capela, torna-se totalmente diferente - diz Cooke. - Ela fica quieta e é respeitosa.

Parece que tem um sexto sentido que lhe indica como se comportar.

A única gafe que cometeu foi quando ainda era muito pequena, mas até mesmo nessa ocasião tudo acabou bem.

- Ela comeu os cravos de alguém - explica Cooke com simplicidade.

Cooke, mais do que depressa, se apressou para trocar as flores, mas a família não quis nem pensar no assunto.

- A tia Mary amava os cães - disseram os familiares. - Você não pode nem imaginar como ela teria rido se visse essas flores mastigadas.


 

A MISERICÓRDIA EM UMA CAIXA DE CORREIO

Nancy Jo Sullivan EM MOMENTS OF GRACE [MOMENTOS DE GRAÇA]

 

 

Já era tardinha naquele dia especial, o dia de nossos amados. Eu estava furiosa com a mamãe. Embora a discussão, bem tola por sinal, tivesse ocorrido algumas semanas antes, eu ainda a ruminava.

- Por que eu tenho de ser a pessoa a pedir desculpas? - dizia para mim mesma, enquanto assinava meu nome em um cartão que comprara apenas por simples obrigação.

- Não vou dizer: eu a amo! Sem chance! - disse, enquanto estampava um beijo no envelope.

Algumas horas depois, fui até o correio. Entre os tons cor-de-rosa de um pôr-do-sol, típico dessa época do ano, virei minha van para entrar em uma fila de carros, todos à espera de colocar um cartão na caixa de correio.

Os minutos passavam, mas os carros que estavam à espera se moviam, todos parados. Abri a janela e percebi que havia uma perua enferrujada na frente dessa fila de carros.

Será que o carro estava enguiçado ao lado da caixa de correio?

Logo, uma mulher bem vestida, com um conjunto vermelho, muito elegante, ficou impaciente com a espera. Ela buzinou com raiva, alto e demoradamente, sem tirar a mão da buzina, para a perua enferrujada.

Um homem idoso assustou-se com a buzina e saiu mancando da perua enferrujada. Segurando uma bengala que o ajudava a manter o equilíbrio de seu passo desigual, arrastou-se para a caixa de correio com um monte de cartões em envelopes vermelhos.

- Desculpe-me - disse ele para a mulher impaciente, mas com voz trêmula.

Em um instante, a mulher abriu a porta do carro, correu até onde o homem idoso e colocou os braços sobre os ombros dele.

- Sinto muito - disse ela.

E, sob a luz dos últimos raios de sol do dia, o homem gentilmente deu um tapinha nas costas dela, enquanto a outra mão repousava sobre a bengala.

Enquanto observava a cena através do pára-brisa, percebi que esses dois estranhos me proporcionaram uma nova perspectiva para a passagem que decorara havia muito tempo: "Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós (Mateus 6.14; MELHORES TEXTOS).

De repente, percebi que estava perdendo tempo, ao guardar rancor e falta de perdão em meu coração, à espera de que minha mãe me pedisse desculpas.

Ao colocar a mão na "buzina" do rancor, transferi toda a culpa por aquela discussão para minha mãe, recusando-me a reconhecer as palavras agressivas que disse a ela.

Eu precisava pedir que minha mãe me perdoasse.

Era necessário também oferecer a ela o mesmo tipo de misericórdia que testemunhara na caixa de correio: a misericórdia incondicional de Deus.

Quando o homem idoso e a mulher bem vestida partiram, a fila de carros começou a andar, em um ritmo constante, em direção à caixa de correio.

 

Com uma das mãos na direção, reabri o envelope do cartão para minha mãe.

A apenas um carro de distância da caixa de correio reescrevi rapidamente um novo cartão para minha mãe.

- Desculpe-me. Eu a amo, mamãe.


 

O RISO E AS JAQUETAS SALVA-VIDAS

N. C. Hass

 

 

Quem é este aqui? — perguntou minha amiga, apontando para a foto, presa na porta de minha geladeira, de um garotinho que olhava para trás.

— Ele é urna criança que conhecemos — respondi rindo.

Quando ela foi embora, olhei a foto novamente e sorri. Esse era um garoto cativante, cujo olhar, perspicaz e impaciente, parecia ordenar: Vamos, ande depressa com essa foto, tenho de viver aventuras, descobrir tesouros, capturar gigantes e piratas! Quem poderia imaginar que grande plano heroico sua imaginação tramava no dia em que a foto foi tirada? Qualquer que tenha sido esse plano heroico, ele estava completamente preparado para realiza-lo naquela indumentária escandalosa: boné de beisebol, óculos escuros enormes para seu rosto, chinelos e — por último, mas não menos chocante — uma jaqueta salva-vidas! Impossível não sorrir.

A energia dele emanava da foto, como se fosse pular da geladeira para minha cozinha.

Mal podia acreditar que ele já estava com três anos, embora lembrasse de seus primeiros dias como se fosse ontem. Os pais dele, Scott e Lisa: eram jovens, ainda solteiros, quando ele foi concebido. Lisa ainda estava escolhendo o que estudaria na universidade, e Scott, já no segundo ano, concentrava suas energias no futuro: terminar a universidade. Ficaram tão apavorados, que nem cogitaram compartilhar o "segredo" deles e o guardaram o máximo que puderam, buscando sozinhos uma solução, uma saída qualquer, para essa situação dolorosa.

Sabiam que, assim que revelassem o segredo deles, teriam de enfrentar a avassaladora realidade de sonhos desfeitos e decisões dolorosas. Eles queriam constituir família, mas não dessa forma. Acreditavam que as crianças necessitavam do alicerce sólido de um casamento robusto, mas não tinham certeza se podiam construir um relacionamento desse tipo.

Eles poderiam ter interrompido a gravidez. Outros teriam feito isso, e ninguém saberia de nada. Seria muito simples recomeçar de novo, como se nada tivesse acontecido. No entanto, por mais simples e segura que essa solução parecesse, Deus saberia de tudo. Resolveram deixar a criança nascer e enfrentar todas e quaisquer consequências.

Por fim, eles se apoiaram mutuamente para se prepararem a respeito de tudo que essa notícia poderia acarretar. Desapontamento e mágoas dos pais, choque e sussurros dos amigos da igreja, além de questões ainda mais estarrecedoras. Como pagariam pelo tratamento médico, uma vez que Lisa não tinha seguro-saúde? Como ela poderia educar uma criança e voltar para a escola se não se casassem? Como Scott assumiria as responsabilidades financeiras da gravidez e da educação dessa criança?

Nas semanas seguintes, agiam de forma maquinal, como autômatos. Scott abandonou a universidade, sem saber se algum dia voltaria a estudar. Começou a trabalhar como garçom, enquanto Lisa batia de porta em porta à procura de alguém que empregasse uma jovem grávida com pouca experiência e sem diploma.

A lista de opções ficava cada vez mais complicada. Será que os pais deles deveriam criar a criança? Será que deveriam considerar a possibilidade de entregar a criança para adoção? Nenhuma dessas soluções parecia ideal. Enquanto isso, eles continuaram passando por momentos agridoces dessa gravidez inesperada. A ultrassonografia revelou o sexo do bebê, um menino, as batidas do coração e os primeiros movimentos.

No entanto, à medida que Lisa ficava cada vez maior, os prazos os pressionavam cada vez mais, urgentes e implacáveis. Confusos com as decisões que apenas eles poderiam tomar, começaram a procurar os arquivos dos possíveis casais que poderiam adotar a criança, para examinar a quem poderiam confiar o filho deles. Como fazer uma escolha desse tipo?

Os pais deles também tiveram de enfrentar batalhas, rindo bravamente diante de fotos dos netos de outras pessoas e sufocando as lágrimas no chá de bebê. De início, preocuparam-se porque Scott e Lisa não se casariam e, depois, porque se casariam. Inseguros quanto à maneira de agir, já que eram os pais, fechavam o cerco, mas, a seguir, abriam mão e deixavam as coisas seguir seu rumo. Questionavam-se quanto à conduta que tiveram como pais desses jovens: será que falharam? Pediam a Deus que estivesse sempre presente com Seu amor e que fosse feita a vontade Dele.

Por fim, em uma manhã luminosa de verão, o belo filho de Scott e Lisa foi colocado nos braços deles. Agarrados ao calor agradável do bebê, eles foram mais uma vez dilacerados pela dor. No entanto, não tinham tempo a perder. Precisavam tomar uma decisão. Os dias seguintes foram os mais dolorosos de todos. Enquanto os pais desses jovens pediam a Deus que fizesse Sua vontade perfeita, Scott e Lisa, aos prantos, enfrentavam as lutas.

Então, após determinar bravamente o que seria melhor para o filho, eles o vestiram e o levaram a uma pequena igreja para oferecê-lo ao Senhor, para depois ir até a agência onde o entregariam ao casal que escolheram para cuidar dele.

O conflito terrível entre deixar partir e segurar os deixava em frangalhos. Enfrentaram momentos de profundo pesar e momentos de conjecturas sem fim.

O tempo os colocou em marcha, e retomaram a rotina de cura da vida. Tudo o que restou foi um capítulo de lembranças, e um armário cheio de orações em curso. Ocasionalmente, a agência enviava unia roto ou uma carta dando notícias do filho para Scott e Lisa.

Eles me deram essa foto, uma cópia, que agora estava em minha geladeira e me fazia sorrir toda vez que olhava para ela. A foto era muito pequena para conter esse pacote de energia divertido, de apenas três anos, que explodia com tanta emoção e alvoroço. Parecia que ele, realmente, pularia dali para alegrar minha manhã, informando-me a respeito de suas aventuras e me desafiando a acompanhá-lo.

É verdade, ria sempre que via o rosto entusiasmado. Aí começava a conversar com ele:

Como gostaria se você realmente pulasse dessa foto para minha vida! Eu o pegaria em meus braços e rodopiaria com você, voltas e mais voltas — com jaquetas salva-vidas, boné de beisebol, óculos escuros e tudo! Iríamos rodar e rir juntos — dos gigantes que conquistou e dos piratas que capturou. Rodaríamos e rodaríamos e riríamos de novo — das lembranças esmaecidas da dor que o gerou e das maravilhas do mundo que estão diante de você. Choraríamos de tanto rir na celebração rouca de sua vida.

E, quando já estivéssemos tontos de tanto rodar, eu o colocaria no chão, ajoelharia na sua frente e contaria algo para você:

Agora, você ainda não consegue perceber, mas Deus colocou planos maiores em seu coração e promessas mais incríveis em sua alma do que você jamais poderia imaginar. A sua vida é Dele, e sua maior aventura será descobri-lo e segui-lo para saber quais são os planos e propósitos que Ele tem reservado para você.

Prometo-lhe que esses são planos arrebatadores, cheios de esperanças e propósitos maravilhosos. Vá e capture-os. Vá e viva-os. Ah? E não esqueça de levar sua jaqueta salva-vidas — Nathaniel, meu primeiro neto'.

 

Os nomes foram alterados.

 

 

 

O quanto você pode caminhar na vida dependerá de sua delicadeza com as crianças, compaixão com os velhos, solidariedade com os batalhadores, tolerância com os fracos e fortes —

pois um dia você já terá sido todo,' estes.

GEORGE WASHINGTON CARVER

 

 


 

ENVELHECENDO

Dale Evans Rogers

EM TIME OUT, LADIES!

 

 

Deus, o Senhor sabe melhor do que ninguém que estou envelhecendo e, um dia, estarei idosa.

Não permita que me torne loquaz e, em particular, que adquira o hábito fatal de achar que devo fazer algum comentário sobre todos os assuntos e em todas as ocasiões.

Livra-me do desejo de tentar endireitar a vida dos outros.

Livra-me de recitar detalhes sem fim — dê-me asas para ir direto ao que interessa.

Peço graça suficiente para poder escutar as histórias de dor dos outros. Ajuda-me a suportá-las com paciência.

Fechas porém, meus lábios para minhas dores e feridas. Elas crescem, e meu amor por exercitá-las se torna cada dia mais doce à medida que o tempo passa.

Não ouso pedir por uma memória mais perspicaz, mas peço por humildade e a diminuição da convicção firme e inabalável quando minhas lembranças entrarem em conflito com as lembranças dos outros.

Ensina-me a gloriosa lição de que ocasionalmente eu posso estar enganada.

Conserva-me razoavelmente doce. Não quero ser uma santa — é tão difícil conviver com algumas delas — mas uma pessoa amarga é uma coroação das obras do diabo.

Torna-me previdente, mas não temperamental; prestativa, mas não autoritária.

Com a grande bagagem de sabedoria, seria uma pena não usá-la, mas o Senhor sabe que quero alguns amigos no final.

Dá-me a habilidade de ver as coisas boas nos lugares improváveis, e talentos nas pessoas inesperadas. E concede-me graça para lhes dizer isso.

 

 

Algumas pessoas, independentemente da idade, nunca perdem a beleza — esta simplesmente muda-se do rosto para o coração.

AUTOR DESCONHECIDO


 

UMA CRIANÇA DE FÉ

Deborah Hammons

NA REVISTA VIRTUE

 

 

Quando minha cunhada, Carla, teve um tumor cerebral, — eu tomei conta de seus filhos, Bobby e Pete.

Para mim, dobrar o número de meninos para cuidar implicou não só o dobro de agasalhos de moletom para lavar e meias para separar, mas o dobro de problemas e coisas com que me preocupar.

Acho que Bobby era quem mais me preocupava. Nosso filho mais velho, Jeremy, era bem independente, e Andrew e Pete brincavam juntos e, à noite, os dois dormiam na cama de Andrew. Bobby, porém, ficou meio largado, pulando de braço em braço para sentir-se amparado. Preparei um cantinho para ele dormir no quarto do Andrew, empilhando cobertores grossos e macios para servir de colchonete, e o envolvi em um edredom felpudo que serviu como cobertor. Ele ficou muito bem ali.

Todos pensaram que os meninos teriam momentos extremamente difíceis, devido à longa ausência dos pais. No entanto, o tempo se encarrega de tudo, e não demorou muito para que essa nova rotina fosse considerada algo normal.

Todas as noites, com as janelas fechadas por causa do frio, seguíamos o ritual para nos certificar de que todos estavam limpos, com os dentes escovados, de pijamas, as roupas guardadas no armário e a lição feita. Carla ou meu irmão ligavam todas as noites, corno uma visita a Bobby e Pete. Em meio a lutas, algo típico dos meninos, risos e gritos, eles eram levados à cozinha, e, através de pequenos furos no aparelho telefônico, do tamanho da cabeça de um alfinete, escutavam a voz da mãe. As perguntas da distante Minnesota — O que você fez hoje? Como você está? — eram respondidas por vozes frágeis.

Meninos que segundos antes estavam cheios de vida encolhiam-se e apenas eram capazes de sussurrar. A dor e a solidão evidentes na voz deles me deixavam atônita. Tinha vontade de agarrar o telefone e dizer: "Não, eles não estão assim! Brincam e riem e dormem a noite toda. Comem bem e leem e estamos todos muito bem". No entanto, naqueles momentos esparsos os meninos falavam a verdade. A solidão, nessa vida de separação parcial, os assolava.

Carla, em razão do brutal tratamento diário com radiação no hospital, estava depauperado, e sofrida, de tal forma que todos os momentos em que estava acordada era para vomitar. Ela reunia todas as forças que tinha para falar com os meninos naqueles poucos minutos, para que soubessem que ela estava bem. Dizia-lhes que agora estava careca, como o pai deles, mas que a mamãe voltaria para casa, talvez demorasse um pouco, mas prometia a eles que retornaria para casa.

Logo que eles desligavam o telefone, voltavam para nosso mundo correndo e aos pulos, amontoavam-se uns sobre os outros em uma investida física, como cãezinhos, ainda filhotes, que rolam pelo chão e vivem cada instante para si mesmos.

Mas se todos os segundos em que estamos conscientes podem ser uma oração, nossa vida naqueles três meses foi uma oração incessante.

Uma noite, Bobby disse que tinha de fazer um projeto para a escola. Empoleirado em um banquinho à mesa de jantar, ele nos contou a respeito da competição — Queda anual de ovos - em que cada aluno tinha de bolar uma maneira de impedir que um ovo, jogado de uma abertura no sótão, quebrasse.

Todos nós contribuímos com ideias, e Bobby, de olhos arregalados, ficou nos observando.

— O que você acha, Bobby? — perguntou meu marido.

— Acho que podemos pegar uma embalagem de leite longa vida, enchê-la de água e procurar colocar o ovo ali. Acho que assim ele não vai quebrar.

Nossas ideias tinham que ver com coisas que vimos outros tentar, como um pedaço de isopor esculpido de forma a proteger o ovo, ou um paraquedas preso à embalagem de leite, cheio de pipoca e com o ovo aninhado dentro dele. Nenhum de nós pensou em água.

— O que acontece com um ovo quando está na água? Ele afunda? — perguntou Jeremy.

— Vá e veja — disse meu marido. Todos largaram os pratos sobre a mesa e correram para a cozinha para jogar um ovo na água. Todos, menos Bobby. Ele continuou à mesa.

— Eu poderia usar elástico para segurar o ovo dentro da água — disse Bobby.

— Você poderia pôr sal na água — sugeriu Jeremy.

— Este projeto é meu e vou fazê-lo do jeito que eu quiser —declarou Bobby, da mesa de jantar.

Na cozinha, todos ficaram paralisados por um instante, mas, a seguir, meu marido disse;

— Você tem razão!

Os meninos retornaram à mesa e acabaram de jantar.

Bobby, com a ajuda de Jeremy e de seu tio Steve, conseguiu, de alguma maneira, deixar um ovo suspenso entre duas tiras de elástico e imerso em água em uma embalagem de leite longa vida. Naquele sábado, Bobby e Steve foram para o terraço, que fica na frente da casa, e nós, lá embaixo no pátio, ficamos olhando. O sorriso de Bobby, enquanto segurava a pesada embalagem de leite no ar, ia de orelha a orelha.

— Um, dois, três — contou meu marido — deixe cair!

A embalagem caiu no concreto. Partiu-se e a água, que saía pela base, espalhou-se. Bobby saiu, feito uma bala, escada abaixo e foi até onde estava a embalagem. De joelhos, examinou aquela embalagem partida e a água. Dentro, o ovo estava inteiro, intacto. Apenas um fio de líquido claro vazava do ovo.

— Uma rachadura — disse ele.

— Surpreendente! — exclamou Steve.

— Não achei que funcionaria. Acho que nenhum de nós pensou que daria certo. Os resultados, no entanto, não satisfizeram Bobby. Ele não abandonou a ideia inicial de como proteger o ovo, mas não queria que houvesse um dano sequer.

— Preciso de uma bexiga, dessas que compramos para festas de aniversário.

— Bexiga de gás? — perguntei. Bobby concordou com um gesto de cabeça.

— Mas daí você não vai precisar da água — disse o irmão dele, Pete.

— Precisarei de tudo — afirmou Bobby.

No dia em que haveria a Queda anual de ovos, levei Bobby, o ovo, a embalagem nova de leite, as tiras de elástico e a bexiga para a escola. Ele não experimentara a parafernália toda junta, mas ele tinha certeza de que funcionaria. Fiquei para assistir.

A professora de Bobby levou a classe pela qual era responsável para o refeitório, onde colocaram uma escada para que as crianças pudessem subir ao sótão da escola. Os alunos, um após o outro, deixaram o ovo cair pela abertura. Alguns ovos quebraram, outros racharam e outros conseguiram alcançar o objetivo. Os meninos pareciam ficar tão entusiasmados com os insucessos quanto com os êxitos.

Por fim, chegou a vez de Bobby. Ele pôs seu projeto na cesta equipada para levar os aparatos até o sótão e, a seguir, começou a subir a escada. Não estava conseguindo segurar bem nos degraus de madeira. Ele reajustou a mão para ter firmeza e olhou para os pés. Com cuidado, foi até a abertura. Na noite anterior, ele enfeitara a embalagem com estrelas vermelhas e azuis. Lá em cima, com os braços esticados e firmes, ele a afastou de seu corpo, e a bexiga de gás ficou flutuando acima da embalagem.

Por um segundo, segurei a respiração. As linhas não estavam esticadas, mas abauladas. E se quebrassem? A embalagem poderia escorregar. Queria que flutuasse suave e vagarosamente até o chão. No entanto, naquele momento tenso, tudo o que consegui imaginar foi a embalagem caindo de lado, e o ovo, quebrado. Queria, com todo meu ser, que a geringonça dele funcionasse. Tinha de funcionar, pois Bobby acreditara que funcionaria.

Ele deixou a embalagem cair. Ela oscilou e caiu rapidamente. A tentativa dele já havia terminado. Bobby desceu o mais rápido que pôde da escada e correu para retirar o adesivo que vedava a embalagem de leite. Enfiou a mão nela e segurou o ovo, inteiro. Nenhuma rachadura. Bobby, triunfante, sorriu, e os colegas aplaudiram.

Naquela noite, depois do jantar, da louça lavada, da arrumação, dos banhos, dos dentes limpos, dos cabelos penteados e da história do livro, o telefone tocou.

Bobby correu para atendê-lo.

— Alô? — disse ele. — Mãe, adivinhe? Meu ovo não quebrou.

Hoje, faz mais de três anos que os médicos descobriram o tumor — cujo crescimento e recrudescimento eram igualmente raros e inexplicáveis — em Carla. A cada seis meses ela visita o hospital para um check-up. Fingimos que é algo rotineiro, mas, toda vez que ela retorna para casa depois dessas visitas, respiramos aliviados. Os meninos estão ficando mais velhos. Nossa Vida familiar está tomando rumos distintos. Estou sempre ocupada com meus afazeres, levar Andrew e Jeremy para o futebol, a reunião dos escoteiros e a Escola Dominical. Aquele inverno é uma lembrança sombria para Pete e Bobby, um período em que os pais estavam distantes, e eles ficaram na casa dos primos. Para mim, porém, essa lembrança ainda representa o período em que Bobby nos mostrou a sua fé. Foi o inverno em que nos apoiamos mutuamente, para que nenhum de nós naufragasse.


 

DE BEN PARA DEUS

Glenda Barbre NA REVISTA CHRlSTIAN READER [O LEITOR CRISTÃO]

 

 

Para ajudar nosso filho a superar o trauma causado pela perda de seu peixinho vermelho, concordei que poderia enviá-Io, da maneira que quisesse, de volta para Deus. Esperava que fizesse um enterro apropriado para o peixinho vermelho em nosso jardim. Fiquei surpresa quando recebi um telefonema da encarregada da agência de correio de nossa região, que ficava na área rural.

- Será que você poderia vir até aqui? - perguntou-me ela.

Tenho de mostrar algo para você.

Fui para lá no mesmo instante.

- As pessoas esperam muito dos correios - disse-me ela, sorrindo. - Essa, porém, foi a encomenda mais surpreendente que já nos pediram para entregar!

Em um grande envelope, reconheci a letra de Ben, em maiúsculas azuis: DE BEN PARA DEUS. Dentro do envelope havia um peixinho vermelho murcho e morto.

 


 

COROS DE ANJOS

Cheryl Gochnauer

 

 

O Natal no asilo não foi tão ruim assim, pois ela estava fazendo novos amigos. Quando as crianças vieram cantar canções natalinas, ela usou a bengala para caminhar cuidadosamente até a sala de almoço a fim de ouvir a música alegre e jovial, mas um pouco abemolada, suave demais.

Ela amava observar o rosto radiante das crianças, lembretes formidáveis de juventude e energia. Nos dias após a apresentação, ela repassava a cena em sua mente e cantarolava as canções, enquanto se preparava para celebrar o nascimento de seu Senhor.

Anos depois, ela, em uma cadeira de rodas, foi levada à sala de almoço por sua enfermeira para escutar os pequenos anjos cantar. Como muitas outras mulheres do asilo, ela esperava ansiosamente pela visita anual das crianças. À enfermeira, por algumas semanas, tinha de lhe entregar o calendário para que, assiduamente, pudesse riscar os dias até a chegada das crianças. Ela não estava desapontada: os rostos eram diferentes e as canções, como de costume, desafinadas, mas o coração dessas crianças transbordava de afeição. Ela absorvia tudo, saboreando os sorrisos por muito tempo, até bem depois de terem partido.

A cada ano, pedia que a enfermeira a colocasse mais perto do coral, uma vez que as vozes estavam ficando cada vez mais distantes. Depois, houve a apresentação em que já não conseguia mais ouvir as crianças, embora ainda apreciasse ler os lábios e ver as faces expressivas, formando as palavras das canções que cantava em sua mente.

No entanto, à medida que o tempo passava, até mesmo o resto das crianças tornou-se pouco visível. Seus olhos a traíam, e ela ficou perdida em um mundo vago, com sons e imagens indistintos. Um dia, sua enfermeira gritou algo em seu ouvido — o som era fraco e abafado, mas mesmo assim ela pôde entender que ela acabara de fazer o convite para a apresentação das crianças.

- Não - respondeu ela. — Não quero ir.

Não quero olhar essas crianças me encarando, pensou ela. Não consigo andar; nem escutar e, tampouco, ver. Elas me ignorarão, pois sou uma coisa velha sem utilidade, que fica sentada nesta cadeira de rodas. Não, eu

realmente não quero ir.

Desanimada, percebeu que estava sendo levada para fora de seu quarto. Sentiu vontade de gritar: “Leve-me de volta!”, pois recordava dos espetáculos que presenciou antes de perder a visão, em que pessoas idosas como ela faziam o papel de tolas, gritando nos halls. Ela puxou o xale para que ficasse mais próximo a seu corpo e deixou a cabeça pender, desamparada.

Ela percebeu a imensidão da sala de almoço e sentiu a cadeira de rodas ser travada. Apesar de si mesma, após alguns minutos, começou a visualizar um coral, um conglomerado de centenas de faces de crianças, em que cada uma cantava ou tocava cuidadosamente sua música.

Vozes doces, suaves, ainda preenchiam sua mente, quando se lembrava de uma canção. Cantarolando suavemente para ela mesma, sorriu à medida que seu coração se enchia de emoção.

Antes que pudesse reprimi-la, uma lágrima escapou de seus olhos cegos. E, a seguir, algo aconteceu.

Uma pequena mão enfiou-se na sua e à apertou. Esse precioso toque foi como se o Senhor tivesse se transformado uma vez mais no menino Jesus. Ela esticou os braços e passou os dedos suavemente sobre o rosto da criança, tocando o arco de um amplo sorriso.

Abraçando-a, ela exclamou: “Deus o abençoe! Feliz Natal!”.

E foi mesmo feliz.

 


 

PERIGO À VISTA: TORNADO

Sarah Elizabeth Farrow

NA REVISTA VIRTUE

 

 

Quando abandonei minha carreira na agência de propaganda como redatora para ser mãe em tempo integral, senti que deveria justificar minha decisão tornando-me a melhor mãe possível. Comecei a viver pelo moto de minha caneca de café favorita: "Deus criou as mães, pois não pode estar em todos os lugares". Nunca questionei essa mensagem até que uma tempestade violenta nos atingiu.

Naquela tarde, o ar estava particularmente abafado, e meus quatro meninos, prostrados em frente à televisão, assistiam a um vídeo que eu alugara para aliviar o tédio de seu verão.

— Tenho algumas coisas para fazer na rua — disse eu. — Venham comigo, e depois tomamos um sorvete.

Minha sugestão trouxe apenas gemidos de protesto:

— Está muito quente, mãe. Queremos ficar em casa e acabar de ver o filme.

Pensei sobre o assunto por um momento e decidi que o mais velho, de 12 anos, poderia supervisionar os irmãos nesse tempo em que eu estaria fora de casa, pois, afinal de contas, tinha apenas de ir ao banco, à lavanderia e ao mercadinho.

— O Chris fica no comando. Comportem-se, e eu comprarei sorvete para vocês — disse enquanto me dirigia ao carro.

Absortos no filme, eles nem prestaram muita atenção à despedida.

Bem que esta tarde eu gostaria de estar prostrada como eles, pensei, enquanto examinava o céu carregado, bem cinzento. Talvez caia uma chuva refrescante à noite.

Embora eu quase nunca deixasse os meninos sozinhos, nem por alguns instantes, procurei me convencer de que eles ficariam bem e atribui a sensação estranha de inquietação que sentia ao tempo quente e úmido.

Grossos pingos de chuva começaram a cair enquanto eu estava no banco e o céu continuava a escurecer. Decidi não ir à lavanderia e racionalizar as compras no mercadinho, pois queria chegar em casa antes que a tempestade nos atingisse. Corria para cima e para baixo nos corredores do mercadinho e estava quase terminando minhas compras quando a tempestade chegou. Trovões reboaram e rajadas de vento faziam a chuva bater violentamente nas portas de vidro e janelas do mercadinho. Enquanto esperava na fila do caixa, comecei a ficar preocupada.

De início, minha preocupação girava mais em torno da casa do que das crianças. Será que deixariam o cachorro entrar? E será que fechariam as janelas? Será que ainda estavam assistindo ao filme e não repararam na tempestade? Meu marido e eu costumávamos brincar que, se uma bomba caísse enquanto estivessem em frente à televisão, nossos filhos nem a notariam. Hoje, no entanto, isso não era motivo de piada.

Depois de pagar pelas compras, tentei correr até onde estacionara meu carro. A chuva, com ventania, me ensopou em segundos, e os granizos enormes me levaram de volta ao mercadinho. Enquanto a tempestade ficava cada vez pior, eu, para aliviar a tensão, andava e conversava com as outras pessoas que também estavam presas ali.

Sirenes, que um dia avisaram sobre ataques aéreos, começaram a gemer, sinalizando que aquela não era uma tempestade de verão comum, mas que havia risco de sermos atingidos por um tornado. Então, comecei a realmente me preocupar com os meninos. Eles não sabiam onde eu estava, e minha tentativa de telefonar para casa foi impedida pela queda das linhas telefônicas. E sempre fico brava com eles, quando saem sem me dizer para onde vão, pensei. Será que estavam com medo? Preocupados comigo? Será que tiveram a brilhante ideia de parar o filme para assistir aos noticiários da televisão sobre o aviso de perigo de tornados? Que mãe que eu sou, culpava-me.

Em meio ao meu pânico, que só aumentava, um versículo veio à minha mente: "Aquietai-vos e sabei que sou Deus". Não tinha muita certeza em que salmo esse versículo se encontrava, até que pude verificar mais tarde (SI 46.10). No entanto, esse versículo me aquietou. De alguma forma, bem no meu íntimo, me tranquilizei a respeito dos meninos e da casa.

Quando as sirenes pararam de tocar, fui para o carro. A chuva continuava a cair torrencialmente. A visibilidade era ruim, as ruas estavam escorregadias, e os carros encalhavam em grandes poças e montes de granizo, mas toda vez que eu começava a querer entrar em pânico, aquele versículo voltava a minha mente: "Aquietai-vos e sabei que sou Deus". A rua principal, que normalmente seguiria para casa, parecia um rio. Portanto, procurei os caminhos que estavam em locais mais elevados para retornar para casa. Quase bati em outro carro, pois o motorista não me viu, embora meu carro estivesse com os faróis acesos. Por fim, parei em frente de casa, deixei as compras no carro e corri para dentro, ansiosa.

A casa estava escura e silenciosa. Temi que os meninos tivessem entrado em pânico e saído, mas para onde eles poderiam ir? A seguir, ouvi o rádio no porão. Todos os quatro estavam na lavanderia, e o cachorro e os gatos estavam com eles. — Nossa, mãe! — disse Chris. — Que tempestade!

— É mesmo! — os gêmeos concordaram.

— Estávamos assistindo ao filme, quando começou a ficar escuro.

O caçula abraçou-se a mim, bem apertadinho, enquanto Chris continuava a contar a experiência deles:

— O céu ficou tão escuro, foi de arrepiar! Aí achamos que era melhor deixar o Sombra entrar e começamos a fechar as janelas.

Quando ligamos a televisão e vimos que havia um sinal de perigo de tornado, viemos para cá.

Uma verificação rápida revelou que eles não só se lembraram do local mais seguro da casa, mas também não se esqueceram de fechar todas as janelas, apagar as luzes e até tirar o computador da tomada. Aquietai-vos, e sabei que...

Mais tarde — enquanto enxugava a água que entrara pela janela da cozinha antes que fosse fechada pelas crianças, examinei meu jardim destruído pelo granizo e usei o telefone do vizinho para informar que o meu estava quebrado — senti-me estranhamente aliviada, e não deprimida. Desde que meus filhos nasceram, eu sempre enchera a cabeça deles com instruções

e avisos: "Fiquem longe de árvores altas e da água durante as tempestades"; ou: "Olhe dos dois lados antes de atravessar"; ou ainda: "Nunca saíam de casa sem dizer onde estão indo". Na verdade, jamais confiara neles para que seguissem caminho por conta própria. No entanto, quando o perigo os ameaçou, e eu estava longe, eles não entraram em pânico e lembraram de tudo o que deveriam fazer.

Quando os meninos ficaram adultos, a lição que eu aprendera naquela tempestade jamais foi esquecida, além de que essa experiência ajudou a aquietar-me e saber que Deus é Deus nas muitas tempestades da vida. Aprendi que meu trabalho é ensinar e ser um bom exemplo; o deles e aprender e continuar a caminhada que a vida lhes preparou; e o de Deus é o de segurar a todos nós na palma de Suas mãos.

Nunca mais usei a caneca: "Deus criou as mães, pois não pode estar..." Eu a troquei por uma em que se pode ler: "Este é o dia que o Senhor fez; regozijemo-nos, e alegremo-nos nele" (SI 118.24, MELHORES TEXTOS). Agora, todas as manhãs, quando tomo café, há algo que me faz lembrar que tenho de tirar o foco de mim para direcioná-lo a quem ele pertence — Deus, o Pai! Alegro-me de que Ele é Deus e de que está em todos os lugares.


 

COMPARTILHAR

Autor Desconhecido

EM YOU GOTTA KEEP DANCING

 

 

Não há muito que eu possa fazer, mas posso dividir meu pão com você e, algumas vezes, compartilhar uma tristeza também.

Não há muito que eu possa fazer, mas posso sentar-me por uma hora com você e rirmos juntos e, algumas vezes, compartilhar os reveses também.

Não há muito que eu possa fazer, mas posso dividir minhas flores e meus livros com você e, algumas vezes, dividir a sua carga também.

Não há muito que eu possa fazer, mas posso compartilhar minhas canções e minha alegria com você e, algumas vezes, vir até aqui e rir com você.

Não há muito que eu possa fazer, mas posso compartilhar minhas esperanças e medos com você e, algumas vezes, derramar algumas lágrimas com você.

Não há muito que eu possa fazer, mas posso dividir meus amigos e minha vida com você e, muitas vezes, orar com você.


 

CONFIAR EM DEUS

VERDELL DAVIS

 

 

Quando duvido do amor do Senhor, apego-me a Sua sabedoria.

Quando não condigo entender a Sua sabedoria, agarro-me a Sua misericórdia.

Quando questiono a Sua fidelidade, valorizo a Sua graça.

Quando temo a Sua soberania, curvo-me diante de Sua Santidade.

E nisso meu coração pode repousar.

 

 


 

O OURO DO CÉU

Rhonda Reese

NA REVISTA CHRISTIAN READER

 

 

Mal podia fazer meu pedido: "Senhor, por favor, mostra-me algo especial que possa fazer por minha mãe", pedi ao Senhor um dezembro à tarde, cerca de dois anos atrás, quando a solidão e a preocupação me derrubaram mais uma vez.

Papai morrera um mês antes das festas de fim de ano, e eu me sentia tão desolada que queria evitar o Natal. No entanto, minha mãe, triste e deprimida, necessitava de apoio. Ela e papai estavam a quatro dias de celebrar 55 anos de casamento, quando o câncer levou meu pai.

Passou-se urna semana. Então, uma tarde enquanto eu escutava um programa de entrevistas sobre dinheiro no rádio, a apresentadora do programa leu um fax de urna ouvinte, uma compradora descontente. Parece que essa consumidora cansada passou uma tarde inteira abrindo caminho em meio ao aglomerado de pessoas que abarrotavam as lojas, ficando cada vez mais esgotada a cada passo. Ela se ressentia da pressão para comprar presentes para simples conhecidos.

A mulher dizia em seu fax: "Passei horas naquele shopping center. Minha cabeça estava estourando. Meus pés doíam. Meu estômago estava revirado. Minha atitude, devido a tantos abusos, era lamentável, pois apenas desejava que o Natal chegasse, e acabasse logo".

Bem, essa é uma sensação familiar, pensei eu. Também queria que as festas acabassem logo.

A mulher continuou sua história: "Depois de lutar muito contra a multidão, consegui, por fim, chegar ao caixa. Enquanto a fila andava, observei bebês chorando, casais discutindo e um bebê, que mal acabara de aprender a andar, tendo um acesso de raiva. Estava tão desiludida, que quase deixei tudo de lado e saí da loja".

"No entanto, observei duas crianças na fila, bem na minha frente. O menino deveria ter cerca de nove anos, e a menina, uns cinco, quem sabe. Nenhuma das duas crianças estava agasalhada de forma apropriada para o frio que fazia. O cabelo delas estava despenteado e, sinceramente, não cheiravam bem."

Meu pai cresceu em um ambiente pobre. Será que alguém sentiu o mesmo em relação a ele?

A saga daquela mulher ainda não acabara: "O menino segurava, bem apertado, alguns dólares em sua mão esquelética e, na mão cerrada da menina, moedas espiavam entre os vãos de seus dedos. Quando chegou a vez de pagarem, a menina colocou sobre o balcão, desajeitadamente, um par de sapatos altos dourados e brilhantes, o mais cafona que eu já. vira em toda a minha vida. Quando o caixa registrou o preço da mercadoria, as

crianças pareciam prestes a desabar no choro, pois não tinham o suficiente. De repente, sem me dar conta, eu já tinha me oferecido para pagar a diferença".

Revivi, repentinamente, uma lembrança em que meu pai deu dois dólares a um homem, frágil e trêmulo, na fila de um armazém. Nunca conversamos sobre o assunto, mas jamais me esqueci dessa cena.

A voz da narradora embargou, quando descreveu como as duas crianças ficaram radiantes de alegria: "O menino explicou que os sapatos eram para a mãe. A menina intrometeu-se e contou: 'Mamãe tem leucemia, e papai disse que ela vai para o céu logo, logo. No céu as ruas são de ouro, portanto estamos comprando sapatos que combinem com elas"'.

Em um silêncio ensurdecedor; percebi que Deus Ele me lembrava que meu pai agora andava em ruas de ouro. Será que sapatos dourados ajudariam minha mãe que estava com o coração despedaçado?

Antes mesmo de concluir meu pensamento, a mulher que contava essa história fez um último comentário: disse algo sobre o Natal ser a maneira como Deus embrulha um presente de amor para nos enviar do céu.

Um presente de Deus. O menino Salvador: O Salvador que tornou possível para aqueles que amamos andar em ruas de Lucro.

Em casa, achei um par de sapatos pequenos, de boneca. Após pintá-los e cobri-los com purpurina dourada, montei-os em uma base de mogno. Em um ímpeto de energia, vasculhei a gaveta para achar minha caneta de caligrafia e um pedaço de pergaminho dourado. Minhas mãos tremiam, enquanto escrevia: Partiu para andar em ruas de ouro. Depois de colar o pergaminho na madeira, sorri ao ver meu projeto concluído.

No Natal, o rosto de minha mãe iluminou-se quando desembrulhou os sapatos dourados e a explicação escrita à mão. Embora a ocasião ainda estivesse envolta em tristeza, os dias trouxeram alegria sempre que falávamos sobre o papai andando em ruas de ouro. Sabia que o Senhor guiaria mamãe e eu, à medida que começávamos a dar passos em direção à cura.


 

A CADEIRA VAZIA

Walter Burkhardt

EM TEU THE NEXT GENERATION

 

 

Essa é a experiência de um homem idoso, que estava à beira da morte. Quando o pastor veio ungí-Io, percebeu que havia uma cadeira vazia ao lado da cama do doente e lhe perguntou quem já viera visitá-lo naquele dia. O homem, debilitado pela doença, respondeu-lhe:

- Eu coloco Jesus nesta cadeira e converso com ele.

Contou ao pastor que, por vários anos, achava extremamente difícil orar, até que um amigo lhe explicou que orar era o mesmo que conversar com Jesus. Esse amigo lhe fez uma sugestão:

imaginar Jesus sentado em uma cadeira próxima a ele para que pudesse falar com o Mestre e ouvir o que Ele tinha para dizer.

- Desde essa época, nunca mais tive dificuldades para fazer minhas orações.

Alguns dias depois, a filha desse homem doente veio à casa do pastor para informá-lo que seu pai acabara de morrer.

- Ele parecia estar tão contente - disse ela - que o deixei sozinho por cerca de duas horas. Quando retomei ao quarto dele, já havia morrido. Observei, porém, algo estranho: sua cabeça não estava sobre a cama, mas sobre a cadeira vazia que estava ao lado da cama.


 

ESPÍRITO RENOVADO

Barbam Baumgardner

NA REVISTA RV COMPANION

 

 

Aquele foi um verão difícil. Minha irmã teve um derrame, minha mãe ficou ocupada com as idas e vindas ao hospital, e eu vendi minha casa grande, pois preferi escolher uma moradia em um pequeno condomínio fechado, em que há pessoas contratadas para aparar a grama. Cuidar de alguém, vender e mudar-se são atividades que cobram seu preço, e eu estava exausta: física, mental, emocional e espiritualmente.

Até mesmo nas horas difíceis e conturbadas daquele verão, reconheci que aumentava minha hostilidade em relação às circunstâncias que me impediam de dar uma escapadinha em minha nova casa sobre rodas. Eu não parava de me censurar, pois considerava minha atitude egoísta, mas não conseguia deixar de sentir certo pesar.

Quando tive alguns dias livres em meus compromissos, enviei um e-mail para urna amiga;

"Partirei amanhã de manhã para o litoral, onde passarei uns dois dias. Estou cansada e me sinto espiritualmente esgotada. Deus parece estar muito distante. Ainda bem que posso utilizar esses dois dias para repousar e encontrar uma resposta... em alguma praia, ou no pôr-do-sol ou até mesmo na quietude de meu coração. Por favor, ore por mim".

Fugi de meus problemas levando apenas Molly, meu cão, comigo.

Estacionei minha casa sobre rodas em um local apropriado para acampamentos, bem em frente à praia, próximo à cidade de Lincoln, no Estado de Oregon. Assim que cheguei, tirei os sapatos e andei descalça na areia. Brinquei como se fosse uma criança com Molly, o que me revigorou e me deu a sensação de liberdade. Respirei a brisa do mar, salgada e refrescante, e senti o cheiro da areia molhada. As gaivotas enchiam o ar úmido com chilreios e trinados, arremetendo e mergulhando algumas vezes acima de minha cabeça, e outras vezes ficando em fila sobre um pedaço de madeira à deriva como se fossem soldados de madeira, perfilados e em posição de sentido. Encantada com os arredores, senti corno se Molly e eu, além dos pássaros, fossemos as únicas criaturas vivas na face da terra.

No dia seguinte, sentei horas a fio para olhar as montanhas de água subindo e descendo, corno se fossem os movimentos da respiração ofegante de seres do fundo do mar. Quando a tempestade costeira varreu a enseada, o céu mudou de cor e de tonalidade.

A chuva tamborilava na cobertura metálica de minha casa sobre rodas. É, é verdade! Foi para isso que vim até aqui. Como era maravilhoso desfrutar os momentos extremamente necessários de cura e de repouso.

À tardinha, observei o pôr-do-sol, brilhante e vermelho, mudando de cor, rosa e, depois, amarelado e cinza. Logo, tudo foi substituído por um muro negro de ausência, de nada.

No dia. seguinte, faria 17 anos que meu marido morrera. Eu estava maravilhada com minhas novas experiências e o quanto já estava distante daquele período devastador e tempestuoso de minha vida. Assim, considerei: "Será que devo voltar para casa ou esticar esse descanso por mais um dia?".

Ao olhar através da janela, fiquei surpresa com um arco-íris no céu, pendurado sobre a enseada rochosa. O topo desse curso de cores brilhantes desaparecia em nuvens bem fofas, e parecia que a base fora cortada abruptamente por um par gigante de tesouras. Enquadrado no para-brisa de minha casa sobre rodas, ele me fez lembrar da promessa de Deus... a que diz que nunca mais enviaria uma tempestade violenta como aquela.

Ele já me resgatara de águas turbulentas e violentas quando fiquei viúva. Por que deveria duvidar que me resgataria dessa vez? Tão rápido quanto esse pensamento passou por minha mente, o arco-íris desapareceu no céu, e com ele lá se foram também minha desesperança e autopiedade.

Quando a areia começou a secar, corri para a praia cheia de alegria e com Molly em meu encalço... a mente, o corpo e o espírito renovados. Cavamos buracos na areia e nos revezamos na perseguição da bota. Deus me dera esse dia e essa praia e areia... e um cão marrom dourado que me ama quase tanto quanto Ele me ama.


 

ALEGRANDO A DEUS

Rutb Rell Grabam EM LEGACY OF A PACK RAT [O LEGADO DAS QUINQUILHARIAS]

 

 

Tio Eddie McCue, irmão de minha avó, morava em "Belvidere", no vale de Shenandoah, na Virgínia, o local conhecido da pré-Guerra Civil.

Certo dia, enquanto trabalhava na fazenda, ele tirou o casaco e pediu que Chunk, seu cão collie, tomasse conta dele.

Aquela noite, quando tio Eddie voltou para casa, ele se perdeu de Chunk. Ninguém o vira. Eles chamaram, mas o cão não respondeu. Desolados, jantaram e a seguir continuaram as buscas.

Já estava na hora de ir para a cama, e nada de Chunk. Na manhã seguinte, eles olharam para fora, esperançosos. Nem sinal do velho collie.

Quando chegou a hora de tio Eddie retomar ao trabalho, ele partiu para sua lida na fazenda. Em um campo distante, viu algo no chão - seu casaco que esquecera ali. E ao lado dele, estava Chunk, com a cabeça e as orelhas em pé, e a cauda felpuda balançado para cá e para lá, a maneira ardorosa de dar boas-vindas ao tio Eddie.

Isso aconteceu há muitos anos.

Hoje à noite, enquanto estou sentada na varanda, nosso velho pastor alemão está deitado aos meus pés. Ele levanta a cabeça volumosa quando escuta o estrondo distante de trovões, e late um aviso penetrante.

A seguir, à medida que a tempestade se aproxima, ele se levanta bruscamente e corre em direção a ela. A área consiste em uma pequena plataforma delimitada por uma cerca de trilhos, além da qual há um declive vertiginoso que deságua em uma ribanceira, engolfada por florestas que se infiltram sem pedir licença.

A tempestade nos alcançou, e o cão, de grande porte, luta furiosamente contra ela. Quando ela passa, ele retorna à varanda, acomoda-se alegremente aos meus pés, certo de que foi ele quem a afastou.

Esse pastor alemão nos foi presenteado por amigos que se preocupavam conosco. Ele fora treinado cuidadosamente para atacar, fazer buscas e salvamentos e obedecer.

Buscas e salvamentos nessa região montanhosa são algo bem conveniente. Outros cães que já tivemos foram usados com êxito para esse propósito.

Não consigo imaginar uma ocasião sequer em que tivéssemos dado a ordem de atacar. No entanto, cães bem treinados sentem quando há hostilidade ou reconhecem armas (ou, até mesmo, coisas que se parecem com armas), e neste caso seria aconselhável a pessoa permanecer imóvel.

O treinamento de obediência, porém, é o que nos dá verdadeiro prazer. Pare, sente, deite, vá embora, procure, fique em pé.

Um cão desobediente não apenas causa dor de cabeça, mas é um problema. Obediência em um cão é motivo de alegria.

Será que o mesmo não acontece com Deus e Seus filhos?

Há alguns filhos que foram treinados para atacar. Não mencionaremos nomes. Você deve conhecer alguns deles. No entanto, são habilidosos em seus ataques.

Há os que são treinados em buscas e resgates. (Eu incluiria o Exército de Salvação neste grupo.)

Há também os que foram treinados para obedecer.

Acho que essa, mais do que qualquer outra característica, é a que mais agrada a Deus. Obediência, apenas. Obediência alegre, ardente e sem questionamentos. Obediência que nos torna capazes de dizer, como o salmista: "Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu (SI 40.8; MELHORES TEXTOS) o ápice do treinamento do cristão.

Pois isso é o que mais alegra a Deus.


 

DOCINHO, EU ME ORGULHO DE VOCÊ

Lydia E. Harris

 

 

Em 26 anos de casada, sempre achei meu marido, Milt, um homem quieto e despretensioso. Portanto, fiquei surpresa quando ele anunciou seu plano: "Vou organizar uma reunião de oração no trabalho para O Dia Nacional de Oração".

Fiquei orgulhosa da coragem que ele demonstrou ao tentar algo novo; orgulhosa de sua aliança corajosa com Deus, e orgulhosa do exemplo que daria a nossos filhos.

Ele escolheu a hora - meio-dia - e o local - o mastro que ficava em frente ao prédio de seis andares. Ele anunciou o evento, colocando folhetos, que fez no computador, em todos os quadros de avisos do prédio. Juntos, oramos para que outros vissem o folheto e se juntassem a ele em oração.

- Quem são os cristãos nessa grande corporação? - nos perguntávamos. - Obviamente, dentre as centenas de funcionários, haveria outros cristãos que gostariam de participar dessa reunião de oração. Seria essa reunião o início de reuniões regulares de oração e estudo da Bíblia?

O Dia Nacional de Oração chegara. Orei a manhã toda: "Senhor, por favor, envie outros para orar com Milt. Não permita que ele fique ali sozinho. Não gostaria que se sentisse desencorajado ou envergonhado".

Naquela noite, quando Milt entrou em casa, eu o saudei com perguntas, ávidas e impacientes: "Quantos vieram? O que aconteceu?".

Ele me respondeu com um sorriso: "Havia outras três pessoas além de mim!".

Entusiasmada, falei: "Que bom! Quem eram elas?".

A resposta dele me surpreendeu: "O Pai, o Filho e o Espírito Santo! ".

Naquele dia, orgulhei-me de meu marido. E ainda sinto o mesmo orgulho. Admiro-o por orar sozinho em local público, enquanto os outros passavam apressados por ele. A inspiração que teve naquele dia me ensinou algo valioso: Nunca estamos sozinhos. A Trindade está sempre conosco.

 


 

PONTO DE CONVERSÃO

Bill Butterworth

 

 

Sem dúvida nenhuma, em minha jornada espiritual, a conversão real aconteceu em um domingo que antecedia o meu primeiro Natal novamente solteiro. O dia 25 de dezembro, que sempre significara uma retomada do ano, era agora uma ocasião complicada em que eu tinha de negociar "quem ficava com quem" e de "quando a quando", além de ter de negociar, da melhor maneira possível, as minúcias para ter um Natal especial para as crianças, embora estivesse um caco, com o coração totalmente partido.

Quando entrei no templo naquele domingo antes do Natal, o salão estava decorado, bem alegre, com guirlandas, laços e lamparinas. O foco central, no entanto, era a manjedoura de tamanho natural, colocada bem em frente ao púlpito. Palha natural margeava a manjedoura toda, e essa recriação, de onde o menino Jesus repousara naquela noite fria de inverno, estava magnífica.

Aquela manhã, quando Ed se levantou para pregar, eu já havia chorado muito, silenciosamente, com toda a sucessão de músicas natalinas. Cada uma dessas canções estava impregnada de memórias de Natais passados, quando tudo no mundo era muito melhor.

O que será que o Ed dirá este ano?, pensei, antes que ele começar a pregação. Há, por exemplo, tantas maneiras pelas quais alguém pode encontrar significado no ouro, no incenso e na mirra, assim como o fato de não haver lugar na hospedaria só poderia encontrar o significado referente à sua aplicação prática.

Ed escolheu aprofundar-se no Evangelho de Lucas, um texto referente à vida posterior de Cristo. Ele escolheu o versículo do capítulo quatro, quando Jesus já era um homem feito. No entanto, aquele versículo era especialmente relevante para a época de Natal... Isaías proferira essas palavras séculos antes da vinda do Messias.

 

ISAÍAS 61.1 (MELHORES TEXTOS)

 

Quando Ed terminou de ler as palavras do livro de Isaías.

foi como se não houvesse ninguém mais no culto de adoração.

Sentia como se ele estivesse falando diretamente comigo, e apenas comigo. Ele escolheu iniciar a pregação com uma frase-chave "... enviou-me a restaurar os contritos de coração".

- Este ano o Natal está sendo difícil para você? - perguntou Ed. - Você está com o coração contrito devido a alguma circunstância que o deixou em grande agonia?

Lágrimas rolavam sobre minha face, pois eu sabia que aquela era uma mensagem de Deus diretamente para mim. Lágrimas corriam em abundância em meu rosto umedecido, respondendo silenciosamente a Ed, o pregador: "É mesmo... é sim... meu coração está contrito".

Entretanto, Ed mudou de lugar: deixou o púlpito e colocou-se na frente dele, encostado à manjedoura. A seguir, agachou-se e disse:

- Se você está sofrendo, quero que faça algo para mim. Eu o convido a depositar seu fardo aqui na manjedoura. Lembre-se, Jesus Cristo veio para endireitar o que estiver fora de lugar no seu interior. Ele veio para cuidar do seu coração contrito.

Não me lembro muito bem o que aconteceu depois disso, exceto o fato de que em minha alma, entreguei a Cristo toda dor que minha crise havia criado. Não foi uma experiência que veio acompanhada por harpas, cordas ou arrepios, mas foi um encontro misteriosamente emocionante para mim. De muitas formas, foi uma experiência que nunca tivera antes.

O Natal foi tolerável, graças a Ele que veio cuidar de meu coração quebrantado. Fiquei extremamente agradecido por ter feito essa descoberta na época que poderia ter sido a mais tenebrosa do ano.


 

QUANDO O SENHOR DIZ: ORE!

Cheri Fuller

 

 

O missionário, a caminho de uma cidade onde distribuiria os suprimentos médicos, levantou acampamento do local onde passara a noite. Apagou o fogo, recolheu a barraca e pulou na bicicleta para continuar sua jornada pela selva africana. A cada duas semanas ele fazia essa jornada de dois dias a fim de pegar dinheiro em um banco e comprar medicamentos e suprimentos médicos para levar a um pequeno hospital de campo onde ele servia. Quando completava essas tarefas - retirar dinheiro e fazer compras - pulava em sua bicicleta novamente para a viagem de volta, outros dois dias.

Certa vez, o missionário chegou à cidade, retirou o dinheiro, fez as compras necessárias e já estava prestes a ir embora, quando viu dois homens brigando na rua. Como um dos dois homens estava gravemente ferido, o missionário parou, tratou e fez curativos nas suas feridas, além de compartilhar o amor de Cristo com ele. A seguir, o missionário retomou a jornada de dois dias para retornar para casa, acampando na selva para passar a noite.

Duas semanas depois, como de costume, o missionário fez a jornada para a cidade novamente. À medida que fazia as diversas coisas necessárias na cidade, um homem, ainda bem jovem, aproximou-se dele - o mesmo homem a quem o missionário ministrara em sua última visita à cidade.

_ Sabia que você carregava dinheiro e medicamentos - disse o homem - portanto, após você ter me ajudado aqui na rua, eu e meus amigos planejamos segui-Io até o local em que você acampa na selva. Planejamos matá-Io para furtar todo o dinheiro e medicamentos, mas, quando estávamos prestes a atacá-Io, vimos 26 guardas armados ao seu redor, prontos para protegê-Io.

_ Você deve estar enganado - disse o missionário. - Eu estava sozinho quando acampei aquela noite na selva. Não havia guardas, e ninguém mais estava ali comigo.

_ Mas, senhor, eu não fui o único que vi os guardas. Meus cinco companheiros também os viram. Nós os contamos! Havia 26 guardas, número muito grande para que déssemos conta deles. A presença deles nos impediu de dar cabo de você.

Alguns meses mais tarde, o missionário contou essa história para a congregação que se reunia na casa dele em Michigan.

Enquanto falava, um dos homens, que estava escutando, levantou-se, pois queria saber o dia exato em que ocorrera esse incidente na selva. Quando o missionário identificou o mês específico e o dia da semana, o homem que acabara de fazer essa pergunta "contou o restante da história".

_ Exatamente nessa noite do incidente na África - disse o homem - era ainda muito cedo aqui em Michigan, e eu estava no campo de golfe. Estava prestes a acertar a bola no buraco, quando senti um ímpeto forte de orar por você. Esse ímpeto era tão forte, que abandonei o campo de golfe e chamei alguns homens de nossa igreja para vir até aqui orar comigo. Peço a todos os homens que oraram comigo naquela manhã para levantar-se.

O missionário contou os homens, um após o outro. Havia 26 deles, o número exato de guardas armados que os agressores frustrados viram protege-lo.


 

TENHA PACIÊNCIA

Clark Cothern

THE HEART OF EVERY GREAT FATHER

 

 

Murle mergulhou um pouco a cabeça, manuseando o lenço branco do qual nunca se separava, enquanto respondia aos pedidos do pastor. A proposta apresentada não era de forma alguma o que um homem aposentado de 65 anos tinha em mente.

— É, eu sei que disse que ajudaria o senhor sempre que pudesse — admitiu Murle — mas...

Ele não terminou a sentença e agitava os braços em consternação, balançando o lenço de tal forma que este mais parecia uma bandeira de rendição.

— Pastor, eduquei duas meninas, que já estão bem crescidas agora. Não tenho bem certeza se saberia o que fazer com esse grupinho de garotos.

Os olhos dele tinham ar de um animal enjaulado. Obviamente, ele buscava uma maneira para escapar da jaula em que, repentinamente, se encontrava preso. O pastor Jim, no entanto, não estava a fim de deixá-lo escapar do anzol.

— Tudo o que tem a fazer — disse o pastor — é tratar esses meninos do mesmo modo que seu pai o tratava quando o levava para pescar. Vamos, Murle! O que me diz?

— Não há lugar em meu barco para tantas pessoas — disse Murle, enquanto limpava a testa, jogando uma última desculpa como isca, na esperança de que o pastor a morderia.

Sem chance!

— Leve dois de cada vez — disse Jim, sem hesitar.

— Macacos me mordam! O senhor já pensou em tudo, não é mesmo? — gargalhou Murle, embora essa não Fosse bem a resposta que gostaria de escutar.

— Bem, você fará isto?

— Pode mandar, pastor. Acho que sim, pelo bem que poderá resultar.

E, imediatamente, rematou:

— Todos, menos aquele guri, o Sammy.

Murle estava certo de que o pastor entenderia a objeção que fazia a respeito daquele menino.

Jim sorriu, uma demonstração de que compreendia. Ele conhecia o Sammy.

— Você começa a levá-los, dois de cada vez, e nós oraremos pelo Sammy — disse o homem mais moço ali, com um piscar de olhos.

 

Murle cumpriu sua promessa. Ele começou a levar os meninos para passear, dois de cada vez. A maioria desses pequenos pescadores não tinha muita influência do pai em casa. Mude proporcionava um toque de dignidade na vida desses garotos.

Seis semanas depois, Murle começou a ocupar os sábados com peixes e garotos. Quando compareceu ao escritório pastoral, limpou nervosamente as gotículas de suor da testa, enquanto falava com o pastor:

— Ele veio correndo depois do culto esta manhã.

— Quem, Murle? — perguntou Jim, que observava o lenço tocar levemente a cabeça lustrosa do velho senhor.

— Aquele guri, o Sammy! Ele me fez um pedido: "Já que todos os outros garotos tiveram uma oportunidade, será que eu também não poderia ter uma chance?".

E, mais uma vez, erguia o lenço.

O pastor Jim levantou a sobrancelha e sorriu.

— Ah! As pescarias! E Sammy também quer ir a uma delas?

Hum... Bem, o que você acha da ideia?

E ele abaixou o lenço e. amassando-o, formou uma bola com ele. Mude balançou a cabeça.

— Sei não, pastor! O senhor conhece a peça rara. Ele sozinho já dá bastante trabalho. Aposto que consegue afundar dois barcos!

— Ore sobre o assunto e, a seguir, faça o que achar melhor, Murle — disse Jim com um sorriso, enquanto dava dois tapinhas calorosos no ombro do amigo.

Murle virou-se para sair.

— Pastor — chamou Murle, guardando o lenço no bolso de trás.

— H-á? — disse Jim, e parou à porta.

— Tudo bem, tudo bem... eu vou levar o guri, mas sozinho.

Com ele no barco, um já é demais!

— Muito bem, Murle! É isso aí.

Domingo de manhã, quando Jim escutou os pneus de algum veículo cantando lá fora, ficou de repente aprumado na cadeira de seu escritório pastoral.

Largou as notas do sermão que estava preparando e, enquanto seguia cm direção ao estacionamento, Murle entrou bufando e ralhando pela porta que ficava no fim do longo corredor. Durante todo o trajeto, ele não parou de dizer:

— Ele fez aquilo! Ele fez aquilo!

— Quem fez o que, Murle? — perguntou Jim, que sabia que o amigo estava muito nervoso, pois saíra tão rapidamente do caminhão que até esquecera o lenço.

— O guri, o Sammy. Ele fez aquilo. Não dá para acreditar.

O velho homem estava caminhando de lá para cá, esfregando nervosamente as mãos, para cima e para baixo, nos jeans.

— Mude, respire fundo e acalme-se. O que foi que ele fez? Você ainda nem saiu do estacionamento.

— Eu sei, eu sei! O pequeno bólido desembuchou e me perguntou: Gomo um garoto é salvo? Você sabe, não é? Como ganhar a vida eterna.

— E o que você disse? — perguntou Jim.

— Bem, disse que tínhamos de dizer para Jesus que somos pecadores e que não servimos para nada. Depois, temos de pedir perdão pelos nossos pecados e pedir que Jesus entre em nossa vida e seja nosso Chefe.

— Muito bem, Mude. Você falou a verdade. Mas ainda não entendo por que você freou daquela maneira?

— Bem, o bólido caiu de joelhos no assoalho do caminhão e começou a confessar todas as coisas ruins que já fez, todas as que ele se lembra. Ele ainda está lá! — disse Murle, enquanto balançava a mão vagamente na direção do estacionamento.

O pastor Jim riu e acompanhou Murle até o estacionamento, onde, juntos, ajoelharam-se com o pequeno Sammy e agradeceram a Deus por ele ter encontrado uma família. Aquele guri que não tivera muita influência paterna em sua vida tornou-se um filho de nosso Pai. E isso só aconteceu porque Murle doou seu tempo, uma dádiva que lhe custou algum sacrifício, a um guri.

 

O pequeno Sammy cresceu e se tornou um jornalista especializado em esportes em um destacado jornal da Flórida. Sammy escreveu uma coluna especial para o jornal no Dia dos Pais.

Era um tributo a um homem chamado Murle,

Posteriormente, depois de muitas pescarias, Murle partiu para a eternidade. No culto em sua memória, Sammy, agora casado e já com dois filhos, levantou-se, atrás do púlpito, para ler um tributo a seu amigo.

Esse foi o artigo que ele escreveu alguns anos atrás para celebrar o Dia dos Pais. O título? Mude a vida de um garoto. Leve-o para pescar

A vida de Murle demonstra que a paciência tem suas recompensas.

 

 

A essência da fé é deixar Deus ser Deus.

Jon Sobrino


 

UM LOCAL PARA DESCANSAR

Mayo Mathers

EM TODAY'S CHRISTIAN WOMAN MAGAZINE

 

 

Enquanto eu seguia ao longo da estrada na montanha, mantinha os faróis de meu carro alto, os quais pareciam ainda mais luminosos devido à densa noite escura. Olhava através do para-brisa salpicado pela chuva, incerta sobre o que dificultava minha visão: a chuva ou minhas lágrimas.

Ah!, meu Deus, por que isso aconteceu?, disse entre lágrimas. Estava voltando de uma visita à casa de meus pais e de minha irmã mais nova, que moravam distante, a algumas horas de viagem. Dezoito meses atrás, minha irmã sofrera um traumatismo craniano, que deixou sequelas graves, devido a um acidente de carro causado por uma combinação fatal: bebida e direção. Desde essa época, atenho-me ao menor sinal de progresso, cheia de esperanças irracionais quanto à recuperação dela. Nessa visita, porém, tive de encarar a realidade. Minha irmã jamais se recuperaria dessas sequelas. Ela necessitaria de cuidados para o resto de sua vida.

A dor e a tristeza me consumiam, enquanto eu serpenteava ao longo da estrada que cortava a montanha. Quando reduzi a marcha, escutei um barulho alto e seco. Assustada, tentei mudar para outra marcha, mas não aconteceu nada. O carro diminuiu o ritmo até parar completamente no acostamento.

Engoli meu medo, tranquei o carro e andei até o ralo de luz escondido atrás dos altos pinheiros. Descobri que era a janela de um pequeno chalé. Aproximei-me da varanda cuidadosamente, insegura quanto a bater à porta de alguém estranho tarde da noite.

Em resposta à batida rápida que dera, a porta abriu-se totalmente. Um homem de meia-idade cumprimentou-me: "Entre!". Fiquei próximo à porta, expliquei sobre meu carro e pedi permissão para fazer um telefonema. Quando peguei meu cartão de telefone, ele não aceitou: "Faço questão de pagar esta chamada. Há muitas pessoas que ficam encalhadas por aqui e batem à porta de minha casa. Esta é minha maneira de ajudar os outros".

Meu marido não respondeu ao telefonema, portanto perguntei se havia algum hotelzinho nas proximidades.

— Não há hotéis — disse ele — mas tenho uma ideia.

Antes que percebesse, ele me levou até uma pousada perto dali, que abrigava pescadores e cuja proprietária, uma senhora idosa, tinha um quarto disponível. Ela também se recusou a receber dinheiro de uma viajante que ficara encalhada nas montanhas.

O "quarto", na verdade, era uma cabina, e uma das paredes era totalmente de vidro e dava para um rio caudaloso — uma vista magnífica. Havia um sofá macio e uma cadeira em frente à lareira, que estava preparada, somente esperando eu riscar um fósforo.

Sentei-me ali — acolhida pelo calor do fogo aceso e relaxada pelo murmúrio do rio — e abri minha Bíblia no livro de Salmos. Minhas lágrimas esparramaram-se sobre a página: "Senhor, tu me sondaste, e me conheces. Tu conheces o meu sentar e o meu levantar... conheces todos os meus caminhos" (Salmo 139.1-3, MELHORES TEXTOS).

Enquanto meditava sobre essas palavras, Deus falou ao meu coração. Desde o início, Eu sabia tudo o que você encontraria em seu caminho. Eu lhe darei a força para suportar a tragédia que ocorreu com sua irmã e a guiarei em seu pesar, nas hoje à noite, pare e descanse comigo.

Antes de dormir, telefonei para casa e deixei uma mensagem na secretária eletrônica para meu marido: "O carro quebrou nas montanhas hoje à noite. Por favor, venha me buscar, mas não tenha pressa. Deus e eu estamos descansando".


 

ERA UM ANJO TRABALHANDO?

Billy Graham

Em UNTO THE HILLS

 

 

O expresso britânico cortava a noite, e o poderoso farol do trem perfurava a escuridão. A rainha Vitória viajava nesse trem.

De repente, o maquinista teve uma visão surpreendente. O facho de luz do motor revelou uma estranha figura, vestida com um casacão negro, que estava no meio dos trilhos e acenava as mãos. O maquinista puxou o freio, e, com um rangido, parou o trem bruscamente.

Ele e os outros funcionários do trem saltaram para os trilhos para saber o que os fizera parar. No entanto, não encontraram nem sinal da estranha figura. O maquinista, seguindo um pressentimento, caminhou por alguns metros pelos trilhos. Ele parou repentinamente e olhou, com horror, através da neblina. Uma ponte estava partida ao meio, pois tombara varrida pela força das águas de um rio que transbordara. Se o maquinista não tivesse dado atenção à figura estranha, o trem teria mergulhado no rio.

Enquanto a ponte e os trilhos estavam sendo consertados, os funcionários do trem, à procura do estranho sinaleiro, fizeram uma busca mais apurada nos arredores. No entanto, apenas quando chegaram a Londres foi que conseguiram resolver esse intricado mistério.

Na base da lâmpada mestra do motor, eles descobriram uma enorme mariposa morta. O maquinista a observou por alguns instantes e, a seguir, molhou suas asas e as colou no vidro que protegia a lâmpada.

Voltou à cabina, acendeu a luz e aí viu o "sinaleiro" no facho de luz, aquele que os avisara apenas alguns segundos antes de o trem alcançar a ponte destruída. Na neblina, a mariposa parecia uma imagem fantasmagórica, acenando os braços.

Quando contaram à rainha Vitória o estranho incidente, ela disse simplesmente: "Tenho certeza de que não foi um simples acidente, mas a maneira como Deus nos protegeu".

Não, a imagem que o maquinista viu no facho de luz do farol do trem não era um anjo... Deus, porém, possivelmente por intermédio do ministério de Seus anjos invisíveis, colocara a mariposa sobre o farol exatamente quando e onde foi preciso atuar. Realmente, ... aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos" (Salmo 91.11)


 

UM SOLO DE SORVETE

Barbara Baumgardner

 

 

Fracassei em minha primeira noite sozinha — meu primeiro solo. de cinema desde que fiquei viúva. Não foi difícil comprar o ingresso e as pipocas. Não tive maiores problemas até mesmo para me sentar em uma grande sala de projeção. Fiquei tão absorta no filme, que até me surpreendi quando as luzes acenderam e descobri que estava sozinha.

Enquanto me dirigia ao carro, as lágrimas brotaram. Não tinha ninguém com quem compartilhar um sorvete depois do filme, e, de repente, isso parecia algo multo, mas muito mesmo, importante.

Saí da garagem e entrei na cozinha, aos prantos. Aos berros, apresentei minha lamúria para Deus: "Quando isto vai terminar? Quanto tempo mais, Senhor, vai ser necessário até que eu aprenda a desfrutar as coisas sem um companheiro?". As ondas da solidão varreram meu ser mais uma vez e, por alguns instantes, cedi à maré de tristeza.

Quando parei de chorar, senti que estava melhor, mas ainda queria um sorvete. Embora me sentisse um pouco tola, fiz um convite: "Senhor, aceitaria tomar um sorvete comigo?".

Sentindo-me ainda mais tola, enchi duas tigelas com sorvete crocante que tinha no freezer e, em meio às risadinhas, perguntava-me: "Parece que estou realmente fazendo isto, não é mesmo?".

Lá fora, no terraço de casa, sob milhões de estrelas tremeluzentes, tomei prazerosamente o conteúdo das duas tigelas, saboreando cada colherada na companhia do Senhor. E, assim, lembrei-me de Sua promessa: Não vos deixarei órfãos; voltarei a vós. (João 14.1 8; MELHORES TEXTOS).


 

NOS BRAÇOS DE ABBA

Max Lucado

EM THE GREAT HOUSE OF GOD)

 

 

Há algum tempo, minha filha, Jenna, e eu passamos vários dias na velha cidade de Jerusalém. Uma tarde, ao sair da porta de Jaffa, ficamos atrás de uma Família de judeus ortodoxos — um pai e as três filhas pequenas.

Uma das filhas, com cerca de quatro ou cinco anos de idade, que estava um pouco atrás de seu pai, caiu e, como não podia vê-lo, gritou:

— Abba!

Ele parou e olhou ao redor. Apenas naquele instante, percebeu que havia se separado de sua filha.

— Abba! — gritou ela novamente. Ele a viu e, imediatamente, estendeu-lhe a mão. Ela segurou a mão do pai, e eu fiz algumas observações mentalmente, enquanto eles seguiam em frente. Eu queria observar a maneira como um abba agia.

Ele, enquanto desciam a rampa, segurou a mão da menina com firmeza. Quando chegaram a uma rua movimentada, ela desceu da calçada e foi além do meio-fio, então ele a puxou para trás. Quando o semáforo mudou, ele a conduziu, com as irmãs, através do cruzamento. No meio da rua, ele se abaixou, pegou-a nos braços e continuou sua jornada.

Não é isso o que todos nós precisamos? Um abba que nos escute quando o chamamos? Que nos pega pela mão quando nos sentimos inseguros? Que nos dirige nos tumultuados cruzamentos de nossa vida? Todos nós necessitamos de um abba que nos carregue em seus braços e nos leve para casa, não é mesmo? Todos nós precisamos de um pai. Há um Deus no céu que quer que você o chame de abba.


 

O CÍRCULO DA FÉ

DICK EASTWIN

NA REVISTA EVERY HOME FOR CHRIST

 

 

Maria era uma garota de dez anos que vivia em uma vila rural no centro do Chile. Quando a mãe dela morreu, Maria se tornou a "mulher da casa" e cuidava do pai, que trabalhava no turno da noite na mina do vilarejo. Maria cozinhava, limpava e fazia com que a refeição do pai estivesse pronta, quando ia para a mina à noite.

Maria amava o pai e se preocupava com ele, principalmente após a morte da mãe, pois percebeu como isso o deixou desesperado. Maria foi à igreja em um domingo e tentou levar o pai também, mas ele recusou o convite.

Uma noite, quando Maria estava embrulhando a marmita do pai, ela colocou junto um folheto evangelístico que recebera de um missionário, distribuído de casa em casa na área onde moravam. Maria orou para que o pai lesse o folheto e encontrasse o conforto que ela descobriu no grande amor de Deus.

À uma e meia da madrugada, Maria acordou com um terrível barulho — o apito de emergência da mina cortava a noite, chamando os habitantes da vila para que viessem correndo, com pás e mãos prestativas, ajudar a cavar para libertar os mineiros presos pelo desabamento.

Maria caminhou pelas ruas do vilarejo e foi em direção à mina, pois queria notícias do pai. Muitos homens retiravam freneticamente o entulho do túnel que desabara e aprisionara oito homens na mina. Um dos homens era o pai de Maria.

As equipes de emergência trabalharam à noite toda e, por fim, conseguiram vencer os obstáculos e alcançar os mineiros em uma caverna. Infelizmente, era tarde demais. Todos os oito mineiros haviam morrido sufocados.

Os homens que trabalharam no resgate estavam arrasados, mas, quando fizeram uma busca no local do acidente, notaram que os mineiros mortos estavam sentados em círculo. À medida que os homens observaram mais de perto, descobriram que o pai de Maria tinha um folheto evangelístico aberto sobre suas pernas. Esse folheto estava aberto na última página, aquela em que o plano da salvação era explicado claramente. Nessa página, o pai de Maria escreveu um bilhete especial para a filha:

 

Minha querida Maria,

Quando você ler este bilhete, já estarei no céu com mamãe. Li esse folheto e, a seguir, o li diversas vezes para os outros homens, enquanto esperávamos ser resgatados. Nossas esperanças para esta vida estão diminuindo, mas não para a próximo. Fizemos o que este folheto nos disse para fazer e oramos, pedindo que Jesus entrasse em nosso coração. Eu a amo muito, Maria, e um dia estaremos todos juntos no céu.


 

A RAZÃO PELA QUAL NOS IMPORTAMOS

 

 

Por favor, reserve um tempinho para ler em voz alta os versículos escritos na página a seguir. Embora haja centenas de versículos na Bíblia que nos falam do amor de Deus e da salvação, escolhemos esses que estão no livro de Romanos, no Novo Testamento.

Nós nos importamos com o que acontece com você, mas também nos importamos, e muito mais, com o local onde você passará a eternidade. Se você ainda não pediu que Jesus seja seu Salvador, por favor, considere a possibilidade de convidá-lo para entrar em sua vida agora.

Muitos anos atrás, costumávamos fazer uma oração bem simples:

 

Querido Jesus,

Acredito que o Senhor é o Filho de. Demo e que deu Sua vida como pagamento pelos pecados da humanidade. Acredito que ressuscitou dos mortos e que hoje ainda vive no céu onde está preparando um lugar para os que confiam no Senhor:

Não vivi minha vida de uma maneira que O honre. Por faval; perdoa meus pecados e entre em minha vida como meu Senhor e Salvador: Ajuda-me a crescer em conhecimento e em obediência ao Senhor.

Obrigado(a) por ter-me perdoado. Obrigado (a) por ter entrado em minha vida. Obrigado (a) por ter-me dada a vida eterna. Amém.

 

Se você foi sincero(a) em seu pedido a Jesus Cristo para ser seu Salvador, Ele nunca o(a) deixará ou o(a) abandonará. Nada — absolutamente nada — o(a) separará de Seu divino amor.

Que Deus abençoe você, meu/minha querido(a). Espero ansiosamente encontrá-lo (a) um dia no céu. ALICE E BÁRBARA


 

A MOEDA DO ALUNO

David R. Collins

Histórias Para o Coração do Homem 15

 

 

A situação era desanimadora.

Desde o primeiro dia em que entrou na sala de aula da sétima série, Willard P. Franklin vivia em um mundo à parte, excluindo seus colegas de classe e a mim, seu professor. Todas as minhas tentativas de criar um relacionamento amigável foram tratadas com indiferença. Até mesmo um "Bom-dia, Willard" era recebido com um resmungo quase inaudível. Seus colegas também não se saíam bem em suas tentativas.

Willard evitava a todos, não sentia vontade nem necessidade de derrubar as barreiras de silêncio que ele mesmo havia construído. Suas roupas eram limpas mas, definitivamente, bem fora de moda. Ele até que poderia ser um daqueles inovadores, que lançam novas tendências, já que suas roupas tinham a aparência de gastas bem antes que isso se tornasse popular...

Logo após o feriado do Dia de Ação de Graças, recebemos um anúncio a respeito da campanha anual de Natal.

- Natal é tempo de dar - disse eu. - Há alguns alunos na escola que não terão um final de ano feliz, a menos que todos contribuam para nossa campanha. Vocês nos ajudarão a comprar alimentos, roupas e brinquedos para essas pessoas necessitadas.

Tragam o dinheiro amanhã.

No dia seguinte, chamei os que tinham trazido a contribuição e, para a minha surpresa, descobri que todos haviam esquecido, exceto um: Willard P. Franklin. Com a mão no fundo do bolso da calça, ele caminhou até a minha mesa e, cuidadosamente, depositou uma moeda de cinco centavos na caixinha.

- Não preciso tomar leite no almoço - disse em voz baixa.

Por um momento, e só por um momento, sorriu. Eu o vi virar-se e voltar para sua carteira.

Naquela noite, depois da aula, levei nossa magra contribuição, uma única moeda de cinco centavos, ao diretor. Não pude deixar de revelar a identidade de quem a deu, contando-lhe tudo o que havia acontecido.

- Posso estar enganado, mas creio que Willard está pronto para se integrar ao mundo ao seu redor - eu disse ao diretor.

- Parece encorajador - ele concordou. - E tenho a impressão de que também podemos sair beneficiados por compartilhar um pouco de seu mundo. Acabo de receber a lista das famílias mais pobres de nossa escola. Dê uma olhada aqui.

Assim que comecei a ler, descobri que Willard P. Franklin e sua família eram os primeiros nomes da lista.

 

 

Minha grande preocupação não é se Deus está a nosso lado;

minha preocupação é estar do lado de Deus.

ABRAHAM LINCOLN


 

A PROPÓSITO, MEU NOME É JOE

Autor Desconhecido

Histórias Para o Coração do Homem 17

 

 

Era noite. VoItando para casa, ele trafegava por uma estrada de mão dupla. Embora desempregado, desde que a fábrica da Levi' s fechara, não havia desistido de procurar trabalho. Agora, com a chegada do inverno, o frio finalmente atingira sua casa.

Era uma estrada deserta. Seria capaz de dirigir por ela às cegas e, ainda assim, dizer o que vinha na pista contrária; o que era muito bom, já que as lanternas do carro estavam queimadas.

Começava a ficar realmente escuro, e uma nevada havia começado.

Ele quase não viu a senhora parada à beira da estrada. Percebendo que a mulher precisava de ajuda, estacionou o velho e barulhento veículo em frente ao Mercedes dela e desceu. Ela parecia preocupada, mesmo com um sorriso no rosto. Fazia cerca de uma hora que estava ali, e ninguém havia parado para ajudá-Ia. Estaria sujeita a uma agressão por parte dele? Não aparentava ser de confiança... parecia pobre e esfomeado. Notou que a mulher estava com frio e muito assustada e imaginou como se sentia.

- Estou aqui para ajudá-Ia - disse. - Por que não entra em meu carro para se aquecer enquanto espera? A propósito, meu nome é Joe.

Tratava-se só de um pneu furado, mas, para uma senhora, já era demais. Joe esfolou os dedos, enquanto tentava encaixar o macaco. Suas mãos estavam muito geladas para sentir qualquer dor. Rapidamente, o pneu foi trocado. Enquanto ele guardava 'o macaco no porta-malas, a senhora voltou, aquecida e calma.

Contou-lhe que era de St. Louis e que estava voltando para casa.

Agradeceu a ajuda e perguntou quanto lhe devia. Joe simplesmente sorriu e fechou o porta-malas.

A mulher pagaria qualquer quantia que ele pedisse; afinal, o que poderia ter-lhe acontecido se ele não tivesse parado?

Joe nunca pensava duas vezes quando se tratava de dinheiro, mas aquilo não era trabalho e, sim, uma ajuda a alguém em necessidade. Só Deus sabe quantos também lhe deram a mão no passado. Essa era sua filosofia de vida. Joe lhe disse que a melhor maneira de pagar seria oferecer ajuda ao ver alguém em necessidade, e acrescentou:

-... e pense em mim.

Alguns quilômetros à frente, aquela senhora avistou uma pequena lanchonete. Ela parou o carro e entrou para comer algo e aquecer-se um pouco antes de seguir viagem. Era um lugar sombrio. Do lado de fora, havia duas bombas de gasolina. A caixa registradora e o telefone não eram usados com frequência.

A garçonete lhe trouxe uma toalha seca para limpar a neve da cabeça e do rosto. Era uma moça com um doce sorriso, mesmo depois de um dia inteiro de trabalho em pé, grávida de oito meses - alguém que não deixava sua atitude ser influenciada pelo cansaço. Aquela senhora admirou-se de como alguém que tinha tão pouco pudesse ser tão prestativa para com uma estranha. Então, lembrou-se de Joe.

Terminou sua refeição e, assim que a garçonete foi buscar o troco para uma nota de cem dólares, saiu rapidamente. Quando a garçonete voltou à mesa, notou algo escrito no guardanapo.

O bilhete dizia: "Você não me deve nada. Eu também precisei de ajuda, e alguém fez por mim o mesmo que estou fazendo por você. Para dar-me o troco do dinheiro, basta não permitir que a corrente do amor termine em você." Naquela noite, deitada na cama, a garçonete pensou no dinheiro e no bilhete. Como aquela senhora adivinhara que ela e o marido precisavam tanto daquele dinheiro? O bebê estava chegando, e tudo estava muito difícil. Ela sabia quanto o marido se preocupava. Enquanto ele dormia, deitado ao lado dela, beijou-lhe o rosto e, suavemente, sussurrou:

- Tudo vai dar certo. Eu amo você, Joe.


 

LIÇÕES DE UMA CARTEIRA

Bruce McIver

Histórias Para o Coração do Homem 20

 

 

Assim que cheguei em casa, na Carolina do Norte, após o ataque cardíaco fulminante que papai sofreu, encontrei sua carteira já gasta pelo uso. Nela, havia alguns documentos e seis notas novinhas de 50 dólares. Nenhum cartão de crédito.

- Mamãe, o que todas essas notas novas estão fazendo na carteira do papai? - perguntei.

- Ele sabia que você e sua família planejavam passar férias aqui em casa e queria ter algum dinheiro na mão para que vocês não precisassem gastar nada enquanto estivessem conosco - ela respondeu.

Entre lágrimas, dei um sorriso. Eu deveria saber: papai era assim mesmo, e passaram-se anos sem que eu o percebesse.

George Sylvester McIver nasceu em uma cabana perto de Bear Creek, Carolina do Norte. Ele e mamãe deixaram a fazenda assim que se casaram e foram morar em uma pequena cidade, chamada Siler, que ficava a oeste, a 11 quilômetros de distância.

Papai foi trabalhar em uma fábrica de móveis e conviveu com o apito da fábrica por 45 anos. Ele não ganhava muito, pelos padrões de hoje, mas dinheiro nunca foi um assunto discutido em casa.

Exceto uma vez.

- Ollie - disse ele a mamãe, ao voltar do trabalho. - Passei pela mercearia e comprei o que você disse que precisava. Esses mantimentos custaram dois dólares e sessenta e oito centavos!

Temos que cortar as despesas.

Nessa ocasião, eu tinha sete anos de idade e assisti a essa cena com grande espanto:

- Uau ! Dois dólares e sessenta e oito centavos! Dá para comprar tudo o que eu quiser.

Olho para trás e me lembro que houve tempos em que o salário de papai era de dois dólares por dia, mas nós tínhamos o suficiente - e até mais. Morávamos em um bangalô branco que ele e mamãe tinham ajudado a construir com as próprias mãos. Tarde da noite, ela segurava o lampião de querosene, e papai dava os últimos retoques no teto. Nós plantávamos, ordenhávamos a vaca, fazíamos manteiga, criávamos e matávamos dois porcos por ano, preparávamos compotas de amoras e de cascas de melancia e tínhamos frango frito diretamente do quintal sempre que desejássemos. Eu não usava roupas caras, mas eram quentes e confortáveis. Meu travesseiro recheado de palha ou de penas era tudo o que um garoto da minha idade desejava na hora de dormir.

Sempre tínhamos uma moedinha de cinco centavos para comprar um chocolate ou um sorvete na sorveteria do Ed. Com uma moeda de dez centavos, também assistíamos ao show no Teatro Elder nas tardes de sábado. Papai sempre vinha com uma moeda de 15 centavos para que fôssemos assistir ao jogo de basquete da sexta-feira. Algumas vezes, ele me dava 25 centavos, e, com isso, além de ir ao jogo, eu podia comprar um refrigerante e um saco de pipocas.

E mais.

Quando eu tinha nove anos de idade, fui acometido de osteomielite, uma inflamação da medula óssea. Passei por três grandes cirurgias no quadril no Centro Médico Duke, onde fiquei internado por 69 dias. O custo das cirurgias e da hospitalização nunca foi mencionado perto de mim. Vários anos depois, quando eu já tinha minha própria família e era capaz de ter uma ideia do quanto se gasta com médicos, perguntei a papai como ele pôde arcar com todas as despesas enquanto estive doente.

- Não foi tão difícil - ele me respondeu. - Conseguimos sem qualquer dificuldade. - Com essas palavras, a conversa sobre o custo das cirurgias e da hospitalização foi encerrada.

Anos depois, após sua morte e ao encontrar sua carteira, mamãe e eu estávamos passeando pela cidade de Siler, acalentando memórias e relembrando gostosas experiências. Dobramos uma esquina e subimos uma rua, passando por uma casa que parecia familiar.

- Mamãe, essa casa não pertencia a papai? - perguntei.

- Sim, era dele - respondeu. Então, quase sem pensar, acrescentou: - Creio que foi essa a casa que ele vendeu para pagar as despesas do hospital.

Lágrimas brotaram de meus olhos - lágrimas de gratidão.

Quarenta e dois anos haviam se passado até obter a resposta para minha pergunta! Eu devia ter imaginado. Foi assim que papai viveu... e morreu.

As cédulas novas de 50 dólares encontradas em sua carteira revelaram tudo isso.

Ele sabia que estávamos vindo para casa.


 

LIVRANDO-SE DAS COISAS

Philip Gulley

Histórias Para o Coração do Homem

 

Um grande problema nos dias de hoje é a crescente dificuldade de livrar-se de coisas de que não precisamos ou que não queremos mais. Faz anos que tento livrar-me de uma dúzia de latas de tinta semivazias. Tentei desfazer-me delas colocando-as junto com o lixo, mas o lixeiro recusou-se a levá-Ias, alegando ser lixo tóxico. Não querem esse tipo de material nos aterros, mas não veem nenhum problema se isso permanecer no porão de minha casa, bem ao lado do quarto de brinquedos de meus filhos.

Sou grato a nosso governo que tem feito de tudo para manter os depósitos de lixo limpos.

Tenho um amigo fazendeiro que queria livrar-se de um velho vaso sanitário, mas o lixeiro também se recusou a levá-Io. Bem, meu amigo havia acabado de comprar um aparelho de TV e teve uma ideia brilhante. Acomodou o velho vaso dentro da embalagem da TV, colocou-a em sua caminhonete e foi até o shopping center da cidade. Estacionou o carro e deu um passeio de meia hora. Ao sair do shopping, surpresa: a embalagem da TV com o vaso sanitário dentro tinha sido levada. Pensei em fazer a mesma coisa com minhas latas de tinta.

Quando herdei a bancada de trabalho, toda de madeira, de vovô, tive que me livrar da minha velha bancada. Uma vez por mês, em nosso bairro, podemos colocar na frente de casa todo o lixo pesado. Teoricamente, é possível desfazer-se de qualquer coisa de maior porte que o lixeiro leva. Tirei minha bancada do porão e levei-a para o meio-fio. Tentando aproveitar a oportunidade de me ver livre de mais coisas, desci ao porão e, quando voltei com mais tranqueiras para colocar na calçada, vi uma mulher em pé, ao lado da minha bancada. Ela a segurava com um ar protetor, como se estivesse com medo de que alguém aparecesse para tirá-Ia de suas mãos.

- Você vai levar a bancada? - perguntei.

- Com certeza! - respondeu-me. - Meu marido foi buscar o caminhão.

- Também tenho uma mesa com um dos pés quebrado lá em meu porão. Gostaria de levá-Ia? - perguntei.

- Sim, levaremos qualquer coisa - ela me respondeu.

- Qualquer coisa? E tinta também?

- Claro, levaremos a tinta.

Eu não lhe disse que era lixo tóxico.

Quando a gente começa a livrar-se das coisas, é difícil parar.

Nos últimos tempos, tivemos muitos parentes distantes e pregadores itinerantes como hóspedes em nossa casa. Achamos melhor, em vez de colocar as pessoas para dormir no sofá, acomodá-Ias em uma cama apropriada. Telefonamos para o Exército de Salvação, e eles levaram embora os móveis que entulhavam o quarto de hóspedes. Gostaria de ter tido essa ideia dez anos atrás.

Eu andava em uma bicicleta toda torta. Quando mais jovem, isso não me incomodava, mas, agora, as minhas costas doem muito. Durante anos, tentei me livrar. dela, mas todas as pessoas para quem a oferecia já tinham uma bicicleta. Meu irmão, finalmente, concordou em tirá-Ia de minhas mãos, se eu lhe pagasse 50 dólares. Levei a bicicleta para a casa dele e disse que lhe daria o dinheiro assim que possível...

É incrível, mas as coisas das quais quero me livrar são as mais difíceis de descartar. Nos últimos dez anos, convivo com a triste situação de ter um temperamento colérico. Parece que vou explodir, quando me deparo com qualquer coisa para consertar dentro de casa. Suspeito que alguns desses casos de assassinato que ouvimos nos noticiários provavelmente aconteceram por causa de um vazamento na torneira. Sempre que tenho de consertar alguma coisa em casa, Joan sai com as crianças e só volta quando tudo está terminado. Eu não me orgulho dessa desagradável característica e, se encontrasse alguém disposto a tirar isso de mim, entregaria com prazer. Mas ninguém quer levar nossos erros. Cada um já tem os seus - assim como todo mundo já tem sua bicicleta.

Escrevendo sobre o fruto do Espírito, o apóstolo Paulo incluiu como o último da lista o domínio próprio. Amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e, é claro, domínio próprio. Tudo vai bem, até chegar o último. Bem que Paulo poderia ter terminado a lista um pouco antes.

No capítulo 5 de Gálatas, Paulo diz que aqueles que vivem enfurecidos não herdarão o reino dos céus. Se for assim, só o que vou herdar é a bancada do vovô.., Preciso me livrar de muitas coisas em minha vida que atravancam a minha alma e sufocam a presença de Deus.

Não estou falando de latas de tinta nem de mesas quebradas;

eu me refiro à cólera, que é tão tóxica a ponto de consumir a alma. Sou grato, pois sei que, nesses assuntos, Deus tem a última palavra. Seu perdão vem ao encontro de minhas falhas, e sua ternura, de meu temperamento.

 

 

 

A questão nunca deveria ser quem está certo, mas o que está certo.

GLEN GARDNER


 

A RESPOSTA DE ARTHUR BERRY

Dale Galloway

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Arthur Berry foi um famoso ladrão de joias na década de 1920. Era um ladrão diferente, porque roubava somente dos muito ricos. Na verdade, não escolhia os que eram apenas ricos, mas sim os membros da nata mais refinada da época. A história conta que Arthur rejeitou muitas joias, levando somente as mais finas e preciosas. Ele era um ladrão perito em artes. Como Arthur Berry roubava só a elite, ser alvo dele era motivo de status social. Esse tipo de popularidade causou sérios problemas para a polícia.

Bem, certa vez, durante um assalto, Arthur foi baleado e pego pela polícia. Em meio a dores por causa do ferimento, Arthur prometeu a si mesmo que nunca mais voltaria a roubar. Isso já era um começo. Mas acontecimentos estranhos fizeram Arthur fugir da prisão, e ele passou três anos foragido. Sua recaptura aconteceu quando uma mulher, com ciúme doentio, denunciou-o à polícia.

Ele passou os 18 anos seguintes atrás das grades. Enquanto estava na prisão, Arthur convenceu-se de que o crime não compensa e decidiu que nunca mais voltaria a roubar.

Assim que deixou a prisão, Arthur foi morar em uma pequena cidade em Nova Inglaterra. Ali, as pessoas nem suspeitavam de que ele tivesse sido um famoso ladrão de joias. Com muito esforço e trabalho social ativo, logo se tornou um dos cidadãos mais respeitados da cidade.

Tudo ia muito bem com Arthur até que alguém veio visitar a cidade e reconheceu-o como o famoso ladrão de joias. A notícia espalhou-se, e repórteres de grandes jornais correram até lá para entrevistar o ex-criminoso. Um jovem repórter fez a seguinte pergunta a Arthur:

- Sabemos que o senhor já roubou as pessoas mais ricas do mundo. Lembra-se de quem roubou a maior quantia?

Sem hesitar, Arthur respondeu:

- A pessoa de quem mais roubei foi Arthur Berry. Poderia ter contribuído para a sociedade sendo um negociador de ações da Bolsa de Valores, um professor ou um empresário bem-sucedido.

Certamente teria sido capaz de fazer qualquer dessas coisas, mas, em vez disso, passei dois terços de minha vida adulta na prisão roubando a mim mesmo.


 

UM COMEÇO

Gary Smalley e John Trent

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Conhecemos um casal rico de Dallas com grande dificuldade para ensinar os filhos a servir. Uma das razões era que as crianças sempre tinham tudo o que queriam. Estavam tão acostumadas a receber, que "servir" soava como uma atitude da Idade Média... ou de Marte.

O pai daquela família percebeu que era um pouco tarde para começar a ensinar isso aos filhos, mas, afinal de contas, antes tarde do que nunca.

Uma semana, aproximadamente, antes do feriado do Dia de Ação de Graças, ele comunicou à família:

- Vamos fazer algo diferente neste feriado.

Os adolescentes sentaram-se para ouvir. Sempre que o pai fazia esse tipo de anúncio, estava se referindo a algo exótico, do tipo velejar nas Bahamas.

Mas não foi assim dessa vez.

- Vamos à casa da missão para servir o jantar de Ação de Graças aos pobres e desabrigados - disse o pai.

- Nós vamos o quê?

- Você só pode estar brincando, não é? Diz que é brincadeira, papai.

Mas ele não estava brincando. Embora chateados, todos obedeceram à firme decisão do pai. O que será que estava acontecendo com o pai deles? Estava muito estranho... Servir na casa da missão! O que seus amigos iriam dizer?

Ninguém fazia a menor ideia do que aconteceria naquele dia. Nenhum deles pôde se lembrar de um dia mais feliz passado em família. Acotovelaram-se na cozinha apertada, serviram o peru e os molhos, fatiaram as tortas e reabasteceram inúmeras xícaras de café. Também brincaram com as crianças menores e ouviram as histórias dos mais velhos sobre o Dia de Ação de Graças.

O pai ficou extremamente feliz (ou melhor, surpreso?) com a atitude dos filhos. Mas tudo isso não podia ser comparado ao pedido feito semanas depois.

- Papai, queremos voltar à casa da missão para servir o jantar de Natal.

E foram. Como já era esperado, os adolescentes encontraram algumas das pessoas que haviam estado ali no Dia de Ação de Graças. Não conseguiram tirar da cabeça uma família necessitada em especial e, agora, seus rostos se iluminaram ao rever aquelas pessoas na fila, esperando pelo alimento. Desde então, têm mantido contato. Os adolescentes arregaçaram as mangas mais de uma vez para ajudar as famílias dos bairros mais pobres de Dallas.

Houve uma mudança marcante naquela casa. Os filhos passaram a valorizar tudo o que tinham. Os pais notaram que eles se tornaram mais sérios... mais responsáveis. Sim, foi um começo tardio. Mas foi um começo.


 

É A VERDADE?

Leslie E. Duncan

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Nunca vou esquecer a pergunta direta que meu pai me fez em seu gabinete assim que ficamos a sós. Ele me fitava atentamente. Seu olhar não era de acusação. Queria que eu lhe contasse a verdade sobre um sério erro que eu havia cometido.

Mas se lhe contasse tudo o que fiz, seria castigado.

Pensei por alguns instantes se devia negar tudo e confiar em que ele acreditaria mais em mim do que naquilo que as pessoas estavam dizendo ou falar logo toda a verdade.

- Ê verdade? - ele repetiu.

Seu tom de voz demonstrava mais amor do que condenação.

Ele falava comigo de homem para homem, embora nossas idades fossem muito diferentes. Hesitei por um instante.

- Sim, papai - quase sorri de alívio por minha resposta. _ Ê verdade. Eu fiz isso mesmo!

Não via a hora de saber qual seria o castigo por meu erro. Seu maior desejo era que os filhos se tornassem cristãos verdadeiros.

Já estava respirando mais aliviado, embora ainda não soubesse o que ele iria fazer.

- Filho - ele começou a dizer, enquanto estendia a mão direita para mim e colocava a esquerda sobre o meu ombro -, estou orgulhoso de você!

As lágrimas que brotaram em seus olhos me trouxeram a certeza de que ele estava sendo sincero. Perguntei-me o que estava querendo dizer. Afinal de contas, havia contrariado meu pai, ele ficara sabendo de tudo, e eu acabara de admitir meu erro. E, então, papai me dizia que estava orgulhoso de mim. Esse não parecia meu pai - o pastor.

- Estou orgulhoso de você - ele repetiu e explicou - porque você teve a coragem de contar a verdade, mesmo sabendo que seria castigado pelo que fez.

Arregalei os olhos. Percebi, então, algo que ainda não tinha notado: os valores que papai colocava acima de qualquer outra coisa. Naquele momento, estava aprendendo sobre o valor do caráter. "Ê verdade?" teve um significado muito mais profundo do que simplesmente saber o que eu tinha feito.

Ele cuidadosamente me explicou que eu sempre deveria dizer a verdade, a qualquer custo. Também disse que o castigo por dizer uma mentira, na tentativa de encobrir erros, seria mais severo do que o castigo por admitir o erro.

Eu me senti melhor, assim que disse a verdade. Conseguia pensar com mais clareza sobre o problema que precisava ser solucionado. O que aconteceu em seguida deixou-me mais surpreso ainda.

- Quero que me conte toda a verdade agora - ele continuou -, tudo o que você fez.

- O quê? - perguntei um pouco confuso.

Ele queria saber se eu achava que tinha feito a coisa certa.

Eu não estava disposto a negar. Por que negaria? Já havia dito a verdade e continuaria com a verdade. Afirmei que sabia que tinha feito algo que não deveria.

- O que você acha que pode fazer para demonstrar às pessoas, especialmente àquelas a quem você prejudicou, que está arrependido e que isso não se repetirá? - perguntou-me.

Pensei muito até descobrir como poderia demonstrar-lhes meu arrependimento e, também, como reparar meu erro.

- Mais uma coisa, filho - ele sorriu com orgulho.

Fiquei imaginando o que mais ele teria em mente antes que eu deixasse seu gabinete. Tantas coisas já tinham acontecido naquela nossa conversa.

- O que você fará para lembrar-se de não fazer isso de novo?

- ele me perguntou. - O objetivo do castigo é que nos arrependamos de nossos erros e que nos lembremos de não repetí-Ios.

Rapidamente, falei o que achava apropriado fazer. Ele ouviu com atenção.

- Já que você teve coragem de dizer a verdade, como isso se aplicaria a você? - perguntou.

Ele mudou o castigo que eu tinha sugerido para mim mesmo.

Não estava passando por cima de meu erro, mas estava me recompensando, de maneira sábia, por ter sido verdadeiro.

- Antes que você saia, vamos nos ajoelhar, falar com Deus e pedir que Ele nos ajude a não cometer os mesmos erros novamente. Deus sabe que mesmo a verdade mais dura é preferível a uma mentira agradável. O Senhor pode nos ajudar a ter sempre doces verdades em nossas ações e pensamentos diários.

De joelhos, juntos, meu querido pai orou de maneira simples e informal, falando com Deus sobre nossa situação - não só a minha. Com uma oração infantil, pedi perdão a Deus por tudo o que eu tinha feito e forças para não repetir meu erro.

A partir daquele dia, até sua morte, nunca mais tive medo de contar a verdade a meu pai. Eu pensava tanto nele e no respeito que tinha pela verdade que me sentia envergonhado de não lhe dizer sempre a absoluta verdade.


 

O ATRASO

Brennan Manning

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Alguns anos atrás, um grupo de cinco vendedores de computador viajou de Milwaukee até Chicago para participar de uma convenção regional de vendas. Todos eram casados, e cada um garantiu à esposa que voltaria a tempo para o jantar.

A reunião avançou no horário, e os cinco deixaram, apressadamente, o edifício em direção à estação de trem. Quando ouviram o apito do trem que já estava de partida, os vendedores correram em disparada pelo terminal. Sem querer, um deles tropeçou em uma mesinha, derrubando uma cesta de maçãs que um garoto de dez anos vendia para custear seus estudos e roupas.

Aliviados, os cinco conseguiram embarcar no trem, mas o último sentiu uma grande compaixão pelo menino, cuja banca havia sido derrubada.

Pediu a um de seus amigos que telefonasse para a esposa a fim de avisá-Ia que chegaria um pouco mais tarde. Desceu do trem, voltou ao terminal e, mais tarde, comentou que ficou feliz por ter feito isso. O menino era cego. O vendedor viu todas as maçãs espalhadas pelo chão. Ao recolhê-Ias, notou que várias estavam estragadas. Colocou a mão no bolso e disse ao menino:

_ Aqui estão 20 dólares pelas maçãs estragadas. Espero não ter acabado com seu dia. Deus o abençoe.

O vendedor já estava se afastando quando o menino perguntou:

- Você é Jesus?


 

O TESTE

ED AGRESTA

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Um dia, quatro alunos decidiram matar as aulas da manhã. Depois do almoço, disseram ao professor que faltaram porque o pneu do carro havia furado. O professor simplesmente sorriu e disse:

- Bem, vocês perderam o teste desta manhã, portanto tomem seus lugares e peguem os cadernos.

Ainda sorrindo, esperou que se acomodassem e, então disse:

- Primeira pergunta: Qual pneu furou?


 

PEDINDO PERDÃO

LUIS PALAU

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Quando voltei de uma viagem que fiz ao exterior, senti que algo não estava bem entre mim e um de meus filhos gêmeos, então, perguntei:

- Keith, fiz alguma coisa que o magoou?

Imediatamente ele me respondeu:

- Sim, pai. No Natal passado, você prometeu me dar um brinquedo que eu queria muito e não cumpriu sua promessa.

Na verdade, tinha me esquecido completamente disso. Eu fui mais fundo:

- Tem alguma coisa mais que eu fiz e que nunca lhe pedi perdão?

Novamente, sua resposta foi imediata:

- Lembra quando a mamãe disse que você tinha que ir ao hospital porque Stephen ia nascer? Você saiu correndo de casa e nos deixou aqui. Lembra?

Eu me lembrava.

- Bem, você foi embora e esqueceu a mala - ele continuou. Eu não acreditava como ele podia se lembrar de tantos detalhes!

- Depois que deixou a mamãe no hospital, você voltou e estava muito quieto. Quando entrou em casa, sua mala tinha sido aberta e todas as coisas estavam espalhadas pelo chão, e você me castigou.

Fiquei com o coração apertado.

- E não foi você que espalhou, foi? - perguntei.

- Não, não fui eu.

Eu me senti muito mal. Abracei Keith e lhe pedi perdão.

Naquele instante, nosso relacionamento foi restaurado. Mas sua honestidade me fez pensar sobre nosso outro filho, Kevin. Afinal de contas, poderia tê-la magoado também. Procurei por ele e lhe fiz a mesma pergunta:

- Kevin, fiz alguma coisa que o magoou e nunca lhe pedi perdão? Ou prometi a você algo que não cumpri?

Assim como seu irmão, a resposta de Kevin foi imediata:

- No Natal passado, você nos prometeu um brinquedo especial e não nos deu.

Kevin não fazia a menor ideia que eu tinha acabado de conversar com Keith sobre o mesmo assunto.

Embora o Natal já tivesse passado, levei meus dois filhos até a loja e lhes comprei o que havia prometido. A questão toda estava no fato de que eu tinha feito uma promessa e não havia cumprido minha palavra. Como pai, "pisei na bola".

Às vezes, tentar cumprir com todas as minhas obrigações e responsabilidades de marido, de pai e de evangelista parece impossível. Frequentemente, tenho uma agenda cheia de compromissos e fico fora de casa por semanas. Mas ouvi meus filhos e aprendi que cumprir minha palavra é uma das coisas mais importantes que posso fazer - a despeito da minha agenda latada.

 

 

HONRA

 

Ninguém jamais foi honrado por algo que recebeu.

A honra é a recompensa por aquilo que se deu.

 

CALVIN COOLIDGE

 


 

TRÊS BOLINHAS DE GUDE VERMELHAS

Autor desconhecido

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Durante os anos difíceis da Grande Depressão, em uma pequena comunidade a sudeste de Idaho, eu costumava parar na banca de legumes e verduras do irmão Miller, que ficava à beira da estrada. Ele vendia produtos frescos da estação.

Naquele tempo, comida e dinheiro eram escassos, por isso as pessoas geralmente trocavam mercadorias.

Certo dia, o irmão Miller estava colocando batatas em um saco para mim, quando notei um pequeno garoto de traços suaves, maltrapilho, mas limpo, lançando um olhar esfomeado a uma apetitosa cesta de ervilhas frescas selecionadas. Paguei as batatas, mas fui, também, atraído pelas ervilhas. Sou fã de creme de ervilhas com batatas. Enquanto as ervilhas estavam sendo pesadas, não pude deixar de escutar o diálogo entre o irmão Miller e o garoto maltrapilho.

- Olá, Barry, como vai?

- Aí, senhor Miller. Tudo bem. Tô só olhando as ervilhas. Tão parecendo boas.

- E são boas, Barry. Como vai sua mãe?

- Boa. Tá melhorando.

- Que bom! Quer alguma coisa?

- Não, senhor. Só tô admirando as ervilhas.

- Você gostaria de levar um pouco para casa?

- Não, senhor. Tô sem dinheiro pra pagar.

- E o que você tem para trocar por elas?

- Só tô com a bolinha de gude ágata. Não tem melhor por aqui. É premiada.

- Certo. Posso ver?

- Tá aqui. É de primeira.

- É, dá para se ver. Hummmmm, só que é azul, e eu prefiro as vermelhas. Você tem uma vermelha em casa?

- Não é bem vermelha... quase.

- Vamos fazer o seguinte: leve este saco de ervilhas com você I', na próxima vez que vier aqui, eu dou uma olhada na bolinha vermelha.

- Tá certo, senhor Miller, muito brigado.

A senhora Miller, que estava por perto, veio para me ajudar I', sorrindo, disse:

- Há mais dois garotos como ele em nossa comunidade. Todos vivem em meio a muita pobreza. Jim gosta de negociar com eles ervilhas, maçãs, tomates e outras coisas mais. Quando voltam com as bolinhas vermelhas (e eles sempre voltam), decide que não gosta muito das vermelhas e os manda de volta para casa com lima sacola de produtos, dizendo que retornem com uma bolinha verde ou, talvez, uma na cor laranja.

Deixei a banca sorrindo comigo mesmo e impressionado com aquele homem.

Pouco tempo depois, mudei para Utah, mas nunca me esqueci da história daquele homem e de suas barganhas.

Vários anos se passaram muito depressa. Recentemente, voltei a Idaho para visitar alguns amigos naquela comunidade e, enquanto estava lá, fiquei sabendo do falecimento do irmão Miller. Na noite do velório, meus amigos quiseram ir, e eu decidi acompanhá-Ios.

Assim que chegamos ao velório, entramos na fila para abraçar os parentes e falar algumas palavras de consolo. A nossa frente, estavam três rapazes. Um deles vestia uma farda do exército, e os outros dois tinham os cabelos bem curtos, usavam terno escuro e camisa branca - obviamente pareciam bancários, advogados, doutores, pastores, educadores ou administradores em potencial.

Eles se aproximaram da irmã Miller, que estava em pé, sorrindo com uma aparência tranquila, ao lado do caixão do marido.

Cada um dos rapazes abraçou-a, beijou-a, falou breves palavras e aproximou-se do caixão. Os olhos azuis dela, cheios de lágrimas, observavam cada um dos moços chegar perto do caixão e colocar algo sobre a fria e pálida mão do senhor Miller.

Cada um deles deixou o velório com os olhos cheios de lágrimas.

Quando chegou minha vez de falar à senhora Miller, eu me identifiquei e mencionei a história que ela havia me contado sobre as bolinhas de gude. Com um brilho nos olhos, pegou em minha mão e levou-me até o caixão.

- É uma coincidência maravilhosa - ela disse. - Aqueles três rapazes que acabaram de sair são os meninos dos quais eu lhe falei na ocasião. Eles me disseram quanto apreciavam as coisas que Jim negociava com eles. Agora que Jim não pode mais decidir a cor ou o tamanho da bolinha, vieram pagar a dívida. Nós nunca fomos ricos, mas hoje Jim se consideraria o homem mais rico de Idaho.

Com doçura, levantou os dedos sem vida do marido. Embaixo deles, havia três belíssimas e brilhantes bolinhas de gude vermelhas.


 

CONSELHO

Billy Graham

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Ouvi falar de um jovem presidente de uma companhia que disse à sua secretária que não queria ser interrompido, pois tinha uma importante reunião.

Um dos membros da diretoria veio até a secretária e lhe disse:

- Gostaria de falar com o senhor Jones.

A secretária imediatamente respondeu:

- Sinto muito, senhor, mas ele não pode ser interrompido; está em uma importante reunião.

O diretor ficou muito irritado. Abriu a porta com violência e deparou com o presidente de toda a corporação ajoelhado em oração. Gentilmente, fechou a porta e perguntou à secretária:

- Isso acontece sempre?

- Sim, todas as manhãs - ela respondeu.

- Não é de admirar que eu tenha vindo procurá-lo para lhe pedir um conselho! - exclamou o diretor.


 

O TERNO DA ADMOESTAÇÃO

Philip Gullley

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Um dos benefícios de pastorear uma igreja pequena é não ter de me preocupar com a roupa que vou vestir. Na maioria das vezes, uso calça jeans, exceto aos domingos, quando visto uma calça de sarja e um casaco esporte. No verão, uso camisas de manga curta. Um amigo meu me deu de presente uma gravata que tem o desenho de cachorros jogando pôquer.

Quando quero usá-Ia, tenho de sair escondido de casa e colocá-Ia no banheiro da igreja, pois, caso contrário, Joan não me deixará sair de casa com ela.

Tenho um terno só. É xadrez, de cor grafite. É o tipo de terno que se usa para fazer enterros; na verdade, foi por isso que o comprei. Por isso e, também, porque estava em liquidação. Também o uso para fazer casamentos. Quando uma igreja mais refinada me convida para pregar, eu visto esse meu terno. Ele vai para a tinturaria uma vez por ano; por aí, você já tem uma ideia do quanto ele é usado.

Em um domingo de manhã, eu estava me arrumando para o culto. Todas as minhas calças de sarja estavam no cesto de roupa suja. Tenho três calças idênticas que comprei em uma promoção, e todas estavam sujas. Alguns homens da igreja costumam ir ao culto de calça jeans, mas achei que não devia ir dessa maneira. Só sobrou meu terno. Assim, eu o vesti, escondi a gravata no bolso e fui para a igreja.

Coloquei-me à porta para recepcionar muitos irmãos que dão vigorosos apertos as pessoas. Temos de mão e abraços.

Naquele domingo, as pessoas chegaram, apertaram minha mão, me abraçaram e fizeram comentários sobre o meu terno. Expliquei a todos que minhas calças de sarja estavam sujas.

Uma das irmãs, Alice, é uma senhora de 91 anos de idade, cujo pai era um pastor quacre. Ela gostou de me ver vestindo terno.

Eu a fazia lembrar de seu pai, exceto pela gravata de cachorros.

- Está parecendo um pregador - ela disse.

Gosto muito de Alice e me agradou vê-Ia feliz.

Harold, um dos meus melhores amigos, chegou e, ao me ver de terno, disse:

- Puxa!

- O que você quer dizer com "puxa"? - perguntei.

- Você está usando seu terno da admoestação - Harold disse.

Toda vez que você usa esse terno, nós somos exortados.

Isso me incomodou. Parece comum ver pastores bravos com alguma coisa. Até sei por que as pessoas pensam assim. Uma vez, assisti a um pregador na televisão deixando o aparelho sem som.

O pastor parecia estar gritando o tempo todo. Por isso, tento projetar a imagem de um pastor manso e cuidadoso. Até me ofereci como voluntário para ficar no berçário da igreja uma vez por ano. E, agora, Harold estava falando sobre meu terno da admoestação.

No mês seguinte, vesti o terno novamente. Harold sorriu quando o viu, mas não disse nada. Quando me levantei para pregar, olhei diretamente para ele. Harold inquietou-se em seu lugar esperando pela ira de Deus. Em vez disso, preguei sobre o amor de Deus. No momento em que terminei a pregação, Harold estava exausto. Ele se prevenira contra a pregação, e isso havia sugado sua força.

Apesar dos gracejos sobre meu terno, Harold é uma pessoa doce, uma daquelas raras almas fiéis. Geralmente, um bajulador sempre quer algo em troca; Harold não é assim.

Ele é a pessoa mais sincera que conheço. Muitas vezes, confundimos mansidão com meiguice. Harold é tudo menos meigo.

Se ele discorda de algo, fala diretamente, sem rodeios; e a gente acaba nem se importando com o fato de que ele discordou.

Quando as pessoas não concordam comigo, tento fazê-las mudar de opinião; mas, quando Harold discorda de mim, avalio novamente minha posição.

Muitos de nós tomamos emprestadas as opiniões dos outros sem qualquer senso crítico. Harold pensa muito. Acho que é isso o que faz dele uma pessoa mansa. A verdadeira mansidão está firmada no conhecimento. Eu acho que Deus é manso porque Ele nos conhece muito bem. É fácil ser manso com as pessoas quando você conhece suas dores.

Quando me encontrei com Harold pela primeira vez, ele me disse que tinha morado em vários lugares do mundo, porque seu pai era militar. Harold também foi militar. Lembro-me de ter pensado, na ocasião, que talvez Deus nos. tivesse aproximado para que eu pudesse ensinar a Harold como ser um cristão manso e pacificador. Isso foi há quatro anos. Aprendi muito desde então.

Passo todas as noites de quinta-feira com Harold e mais quatro outros homens. Nós nos sentamos e lemos sobre a vida de antigos santos: Agostinho, Lutero e Calvino. Fico pensando se daqui a 400 anos as pessoas estarão lendo sobre Harold.


 

BEN E VIRGINIA

Gwyn Williams

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Em 1904, um acampamento de engenheiros civis foi montado na estrada de ferro próxima a Knoxville, Tennessee.

O acampamento da L & N tinha tendas para os homens, uma fogueira, um bom cozinheiro e o mais moderno equipamento topográfico disponível. Na verdade, trabalhar como jovem engenheiro civil para uma ferrovia, na virada do século, só tinha uma desvantagem: a falta de moças.

Benjamin Murrell era um desses engenheiros. Alto, reservado, com senso de humor e sensibilidade, Ben gostava do estilo de vida nômade. Sua mãe morreu quando ele tinha 13 anos, e essa perda prematura o fez tornar-se solitário.

Como todos os outros homens, Ben, às vezes, desejava ter a companhia de uma jovem, mas esses pensamentos ficavam somente entre ele e Deus. Em um dia especial, na primavera, uma maravilhosa notícia circulou pelo acampamento: a cunhada do chefe estava chegando para uma visita!

Os homens só sabiam três coisas sobre ela: tinha 19 anos, era solteira e bonita. Lá pelo meio da tarde, não se falava em outra coisa. Os pais estavam enviando a moça para lá a fim de que ela fugisse da epidemia de febre amarela, que assolava o sul do país.

Ela ficaria ali por três dias.

Alguém encontrou uma ferrotipia [fotografia positiva feita sobre uma fina chapa de ferro, com a superfície escurecida] da moça, que foi passada de mão em mão por todo o acampamento à vista com seriedade e aprovação.

Ben observou a preocupação de seus amigos com um sorriso maroto. Ele caçoou dos companheiros pela tolice. Afinal, era uma garota que nunca tinham visto.

- Olhe para ela, Ben. Dê só uma olhada e diga que não está interessado - um dos homens retrucou.

Ben somente sacudiu a cabeça e saiu rindo.

Nos dois dias que se seguiram, os engenheiros do acampamento L & N não conseguiram se concentrar. O trem chegaria no sábado de manhã, e eles discutiram o plano detalhadamente:

de banho tomado, cabelos cheios de brilhantina e esticados para trás, todos estariam lá para esperar o trem e dar as boas-vindas à jovem. Ela olharia a multidão e escolheria o mais bonito de todos para ser seu namorado. Que o melhor vença, eles decidiram. E cada um estava determinado a ser o vencedor.

Os homens estavam tão preocupados que não viram a expressão de Ben ao pegar, pela primeira vez, a foto de Virginia Grace.

Não notaram a maneira como ele segurou a foto em suas mãos, como se fosse um tesouro; também não perceberam que ele ficou, por muito tempo, olhando fixamente para ela. Eles nem repararam na expressão de seu rosto quando contemplou sua delicada beleza e, em seguida, levantou os olhos e viu o acampamento cheio de rivais. Tampouco perceberam quando Ben entrou em sua barraca, pegou uma mochila e deixou o acampamento, assim que o sol começou a se pôr desaparecendo atrás de uma montanha.

Na manhã seguinte, bem cedo, todos os homens do acampamento estavam reunidos na estação de trem. A família de Virginia, que tinha ido buscá-la, esforçava-se para não rir. Tinham cortes no rosto, já que estavam desacostumados a se barbear. A combinação de colônias baratas que exalavam era quase insuportável. Vários homens tinham parado pelo caminho para apanhar um buquê de flores silvestres.

Finalmente, o apito foi ouvido, e o tão esperado trem chegou na estação. Quando a delicada jovem apareceu na plataforma, um suspiro coletivo escapou dos pretendentes. Era muito mais bonita do que imaginavam. De repente, o coração daqueles homens afundou em desespero coletivo: ali estava, de braços dados, com ar de proprietário e um sorriso que ia de orelha a orelha, Benjamin Murrell. A maneira como a moça inclinava-se e sorria para ele demonstrou que qualquer esforço seria em vão.

_ Como você conseguiu isso? - mais tarde seus amigos quiseram saber.

_ Bem - ele respondeu -, eu sabia que não teria a mínima chance com todos vocês por perto. Tinha que chegar a ela primeiro, se quisesse sua atenção. Por isso, andei até a penúltima estação, esperei pelo trem e apresentei-me como um membro do comitê de boas-vindas.

_ Mas a estação mais próxima está a 27 quilômetros daqui!

alguém deixou escapar.

_ Você andou 27 quilômetros para esperar o trem? Isso levaria a noite toda!

- Foi o que fiz - ele afirmou.

Benjamin cortejou Virginia Grace e, em pouco tempo, estavam casados. Criaram cinco filhos e sepultaram um, de 12 anos.

Acho que não tentaram construir um romance eterno, do tipo que algumas revistas femininas descrevem. Não tinham encontros nas noites de sexta-feira. Na verdade, Ben passava tanto tempo no meio do mato trabalhando como engenheiro que só foi conhecer uma de suas filhas quando a garotinha já tinha completado um mês de vida. Ben não levava Virginia a restaurantes caros, e o presente mais romântico que ele deu a ela foi um pote de azeitonas. Se Virginia comprou, alguma vez na vida, uma camisola atraente para seduzi-lo, é um segredo que foi enterrado com ela até o dia de hoje.

O que eu sei é que eles construíram juntos um relacionamento de fidelidade, consideração e senso de humor, criando os filhos no conhecimento e no amor do Senhor e amando um ao outro em qualquer circunstância, Sou um dos bisnetos de Benjamin e Virginia. Infelizmente, ele morreu quando eu era bebê e não tenho lembranças dele. Nana (Virginia) morreu quando eu tinha 12 anos e ela, 85. Quando a conheci, era uma senhora enrugada que precisava de ajuda para andar. Usava um andador, e suas costas eram encurvadas por causa de osteoporose. Suas juntas doloridas ficavam inchadas devido à artrite, e sua vista embaçava em razão de um princípio de glaucoma. Algumas vezes, seus olhos brilhavam e dançavam com a vivacidade da garota que meu bisavô conheceu. Isso acontecia especialmente quando ela contava sua história favorita: como tinha sido bonita e como todo um acampamento foi esperar pelo trem em que estava disputando sua atenção. Era também a história de como um homem andou 27 quilômetros, durante toda a noite, para ter a chance de encontrar a mulher de seus sonhos e de pedi-la em casamento.


 

UMA CATEDRAL DE MOURÕES E HARLEYS

Neil Parker

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Tenho apenas duas regras que me servem de orientação para decidir se devo ou não realizar uma cerimônia de casamento: preciso conhecer os noivos antes e não faço casamentos em lugares extravagantes, como, por" exemplo, pulando de paraquedas ou debaixo d'água.

Certa vez, porém, eu quebrei as duas regras, e aquele foi o casamento mais significativo que já realizei.

Aceitei o convite com apenas dois dias de antecedência, porque o pastor que celebraria a cerimônia estava impossibilitado em razão de um problema na família. Recebi os detalhes do local (uma fazenda bem distante da cidade); sabia os nomes dos noivos e que eles haviam tido algumas conversas pré-nupciais com o outro pastor.

Também sabia alguma coisa sobre os convidados e o local escolhido para a cerimônia. Cento e quarenta motoqueiros haviam chegado para passar o fim de semana lá. E o casamento seria uma diversão a mais para eles - e uma surpresa para um punhado de convidados.

Confesso que fiquei apreensivo quando entrei na propriedade c tive o primeiro vislumbre do lugar. Dezenas de motocicletas espalhavam-se pelo estacionamento. A maioria era da marca Harley-Davidson, a preferida dos motociclistas sérios. Música alta tomava conta do local, partindo de dentro de uma das barracas e de uma área coberta no centro da propriedade. Havia barracas em profusão. Parecia um festival de metaleiros.

O único carro à vista era a minha Jetta. Estacionei-a e dirigi-me à casa.

Finalmente, para meu alívio, tudo parecia em ordem ali. Fui apresentado aos pais dos noivos enquanto a noiva se vestia. Ela aprontou-se rapidamente; para combinar com calça jeans e camiseta preta, bastaram apenas algumas flores no cabelo. O noivo foi-me apresentado como "Urso". Não foi difícil descobrir o motivo do apelido. Ele era no mínimo duas vezes maior do que eu. Tinha barba grande e espessa e muitas tatuagens no braço.

"Urso" até que era um apelido suave para ele.

Depois de verificar a certidão de casamento e constatar que tudo estava em ordem, dirigi-me à barraca principal. Por ser tímido e pacato, não costumo abrir caminho à força para passar, mas, mesmo assim, consegui chegar até a frente. Pedi um microfone, aguardei que a música cessasse, apresentei-me e comuniquei que estava ali para realizar um casamento. Não sabia qual seria a reação deles.

Vários motoqueiros dirigiram-se imediatamente ao estacionamento. O local foi tomado pelo ronco de motores possantes. Em seguida, com uma precisão quase militar, os motoqueiros rumaram para o centro da propriedade, em minha direção. A poucos metros de mim, eles pararam em fila dupla, um de frente para o outro, formando um corredor para a noiva passar, como se fossem guardas de honra. O ronco dos motores acelerados ao máximo ecoava por todo o vale.

Quando a noiva apareceu e começou a caminhar lentamente pelo corredor, os motoqueiros foram desligando os motores à medida que ela passava. Quando ela chegou ao fim do corredor, todos os motores estavam desligados, e o silêncio era total. Ela se dirigiu timidamente em direção ao Urso, cujos olhos marejavam lágrimas. De repente, os passarinhos começaram a cantar.

Formou-se um círculo ao redor dos noivos, composto de amigos, parentes e famílias dos Cavaleiros Sóbrios, todos recuperando-se do alcoolismo, todos motociclistas. Quando chegou o momento solene, eles curvaram a cabeça em atitude de oração.

A noiva me havia feito apenas um pedido.

_ Eu gostaria que o senhor fizesse um sermão - ela disse. Meus amigos querem ouvir uma palavra de Deus.

Amigos dela. E, naquela tarde, amigos meus. Em pé, em meio de um campo aberto, falando a uma congregação de pessoas com camisetas, jeans e tatuagens, diante de um casal de noivos que sabia exatamente o que estava fazendo e por que o fazia, em uma catedral de mourões e Harleys, agradecemos a Deus juntos.

 

IDENTIDADE EQUIVOCADA

EDWARD C. BOLAND

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Dois pastores conversavam sobre a prudência de se anotar os nomes dos noivos para que não se corresse o risco de esquecê-los na hora da cerimônia.

- Certa vez, esqueci e errei o nome do noivo – disse um deles.

Outro pastor, então contou:

- Uma vez, comecei a cerimônia e não conseguia me lembrar se o noivo chamava James ou John. Cochichei com ele: “Seu nome é James ou John?”

- James – ele respondeu.

Foi então que a noiva cutucou o noivo e disse:

- Seu nome é John.

 

 


 

A CAIXA DOURADA

James C. Dobson

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Algumas vezes, aprendemos muito com nossos filhos. Um amigo meu brigou com a filha de três anos por ter desperdiçado um rolo de papel de presente dourado. O dinheiro estava escasso, e ele ficou furioso quando a menina usou todo o papel para decorar uma caixa para presente que seria colocada debaixo da árvore de Natal. Apesar disso, a garotinha, na manhã seguinte, entregou a caixa ao pai e disse:

- Isso é para você, papai.

O pai ficou muito embaraçado por ter brigado com a menina no dia anterior. No entanto, tornou a se enfurecer no momento em que abriu a caixa e viu que estava vazia.

- Você não sabia que, quando se dá para alguém uma caixa de presente, costuma-se colocar algo dentro dela? - gritou o pai.

Olhando para ele com os olhos cheios de lágrimas, ela respondeu:

- Mas, papai, não está vazia. Eu joguei muitos beijinhos aí dentro e a enchi de amor. Tudo para você, papai.

O pai ficou arrasado. Abraçou a filhinha e implorou seu perdão. Esse meu amigo me disse que, durante anos, a caixa ficou ao lado de sua cama. Cada vez que ficava desanimado, retirava dela um beijinho imaginário e lembrava-se de todo o amor que a filha colocara ali.

De certo modo, todos nós, que somos pais, também temos uma caixa dourada repleta de beijos e de amor incondicional de nossos filhos. Esse é o bem mais precioso que alguém pode possuir.


 

O RETRATO

Ron Mehl

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Lembro-me da história de um homem muito rico que, juntamente com seu filho, amava colecionar artes. Eles viajavam por todo o mundo acrescentando os mais finos tesouros à sua coleção. Obras inestimáveis de Picasso, Van Gogh, Monet e muitos outros adornavam as paredes do imóvel da família. O senhor, viúvo, observava com orgulho seu único filho tornar-se experiente colecionador de artes. Os olhos treinados do filho igualmente aguçada para negócios faziam o pai sorrir de satisfação quando tratava com colecionadores de todo o mundo.

Certo ano, quando o inverno se aproximava, a guerra tomou conta daquela nação, e o jovem foi convocado para servir ao seu país. Poucas semanas depois, o pai recebeu um telegrama. Seu filho amado havia desaparecido durante uma ação militar. O colecionador de artes esperou por mais notícias temendo nunca mais rever o seu filho. Dentro de alguns dias, seus piores temores foram confirmados. O jovem tinha morrido enquanto tentava ..alvar um companheiro ferido.

Desiludido e solitário, o pai enfrentou a chegada do Natal com grande temor. O que ele celebraria? Sua alegria se fora.

Na manhã do Natal, uma batida na porta acordou o pobre homem angustiado. Enquanto caminhava para atender, as obras de arte nas paredes pareciam zombar dele. Que valor teriam agora sem o filho ali para compartilhar de sua beleza?

Ao abrir a porta, ficou surpreso ao ver um jovem fardado. Era um soldado com um grande pacote nas mãos. Ele se apresentou ao homem, dizendo:

- Fui amigo de seu filho. Na verdade, ele estava me resgatando quando morreu. Posso entrar? Tenho algo a mostrar ao senhor.

Os dois começaram a conversar, e o soldado contou como o filho daquele homem falava sobre artes e como amava colecionar obras-primas com o pai.

Timidamente, o soldado disse:

- Eu também sou um artista e, bem, gostaria de oferecer-lhe isto.

Ao desembrulhar o pacote, aquele senhor se deparou com o retrato do filho. Embora o mundo jamais considerasse aquilo a obra de um gênio, de alguma maneira a pintura captou a expressão do jovem. A semelhança era fantástica. Tomado pela emoção, o homem agradeceu ao soldado e prometeu pendurar o quadro sobre a lareira.

Algumas horas depois da despedida do soldado, o homem foi cumprir o que prometera. Uma fortuna em obras de arte clássica deu lugar àquele retrato. Terminada a tarefa, o homem sentou em sua cadeira e passou o dia de Natal com os olhos no presente que havia ganhado.

Durante os dias e semanas que se seguiram, o homem percebeu que, embora o filho não estivesse mais com ele, sua vida havia tocado a muitos. Ficou sabendo que o filho havia resgatado vários soldados feridos antes de ser atingido por uma bala.

O orgulho paterno e uma grande satisfação passaram a aliviar a tristeza daquele homem. O retrato do filho tornou-se a obra mais estimada, ofuscando qualquer interesse pelas obras mais desejadas por museus ao redor do mundo.

Ele contou aos vizinhos que aquele retrato tinha sido o melhor presente que já havia recebido.

Na primavera seguinte, o homem adoeceu e faleceu. Com a morte do famoso colecionador, o mundo das artes agitou-se à espera de um grande leilão. De acordo com a vontade do colecionador, todas as obras deveriam ser leiloadas no Natal, dia em que havia recebido o grande presente.

Chegado o dia, colecionadores de todo o mundo reuniram-se para dar lances e levar alguns dos mais espetaculares quadros já vistos. Muitos sonhos se realizariam nesse dia. Logo, muitos diriam:

- Sou dono da maior coleção do mundo!

O leilão começou com um quadro que não estava em nenhuma das listas de museu. Era o simples retrato de um jovem soldado...

filho do colecionador.

O leiloeiro iniciou os lances, mas a sala permaneceu em silêncio.

- Quem dará o lance inicial de cem dólares? - ele perguntou.

Minutos se passaram, e ninguém respondeu. Do fundo da sala ouviu-se uma voz rude, dizendo:

- Quem se importa com essa pintura? É só um quadro de seu filho.

Mais vozes concordaram.

- Esqueça esse quadro, e vamos ao que interessa.

O leiloeiro respondeu:

- Não. Temos que vender esse primeiro. Quem levará a tela do filho?

Finalmente, um vizinho daquele senhor disse:

- Você aceita dez dólares pelo retrato? É tudo de que disponho. Eu conhecia o menino, por isso gostaria de ficar com ele.

- Dez dólares - disse o leiloeiro. - Alguém dá mais?

Fez-se total silêncio. Então, o leiloeiro disse:

- Dou-lhe uma, dou-lhe duas, vendido!

E bateu o martelo. O auditório comemorou, e alguém, então, disse:

- Agora podemos continuar.

Naquele momento, o leiloeiro olhou para o auditório e, calmante, anunciou que o leilão estava terminado. Ninguém podia acreditar. Finalmente, alguém disse:

- O que você quer dizer com isso? Não viemos aqui atrás do retrato do filho de um velho. E todas essas obras de arte? Há milhões de dólares em jogo aqui. Exijo uma explicação!

O leiloeiro respondeu:

- É muito simples. De acordo com a vontade do pai, quem leva o filho... leva tudo.


 

PARA RICOS OU POBRES

Recontada por Rochelle M. Pennington

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Todas as esposas que viviam dentro dos muros do castelo de Weinberg, na Alemanha, sabiam das riquezas ali existente: ouro, prata, joias e uma fortuna incalculável.

Em 1141 d. C., todo aquele tesouro foi ameaçado. Um exército inimigo cercou o castelo para tomar a fortaleza, a fortuna e a vida dos homens que ali viviam. Não havia mais nada a fazer senão render-se.

Embora o comandante do exército inimigo tivesse imposto uma condição para que as mulheres e as crianças saíssem a salvo, todas se recusaram a deixar o castelo sem que, antes, suas famílias fossem atendidas também. Só deixariam o castelo caso pudessem colocar nos braços o maior número de bens que pudessem carregar. Sabendo que não conseguiriam levar grande quantidade a ponto de reduzir significativamente a fortuna, eles concordaram.

Quando os portões do castelo abriram, todo o exército comoveu-se. Cada mulher trazia o marido nos braços.

As esposas de Weinberg de fato conheciam as riquezas que aquele castelo abrigava.


 

A COR DO AMOR

Allison Harms

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Meu avô de 98 anos, apelidado de Pa, por nossa família, gosta de dar presentes em grande estilo.

Quando eu tinha dez anos de idade, Pa me deu um dos mais notáveis e, certamente, maiores presentes personalizados que alguém já recebeu. Esse presente me ensinou muito sobre o amor.

Em uma noite de julho, após o jantar, fomos visitar Pa.

Enquanto os adultos admiravam seu jardim, nós, crianças, escalávamos uma grande pedra de granito que, carinhosamente, apelidamos de "A Rocha de George Washington" - nosso minimonte Rushmore.

Quando vimos os adultos desaparecerem por entre as cercas vivas, fomos atrás deles. Estavam indo para a horta de Pa. Eu me lembro, de visitas feitas em anos anteriores, de como ele sempre mantinha tudo organizado. Os espaços entre as plantações eram perfeitos, as plantas eram bem aparadas e tudo demarcado por ervas popularmente conhecidas como cravos-de-defunto. Todos os anos, Pa cuidadosamente fixava e amarrava seus tomates e construía fossos e barreiras ao redor de suas abóboras e melões.

Até mesmo para uma criança que não gostava de verduras, sua horta era agradável de se ver: texturas variadas, folhagens viçosas, uma simetria alterada apenas pela luz do sol e pelas sombras ali projetadas.

Quando alcançamos os adultos, quase perdi o fôlego. Aquilo não era mais o protótipo da geometria com vegetais que eu esperava ver. A horta de Pa estava coberta por folhas empoeiradas do tamanho de pneus de bicicleta e por trepadeiras grossas como guidões. Ramos encaracolados estendiam-se em todas as direções. Aqui e ali, flores com formato de estrelas floresciam como papoulas alaranjadas da Califórnia. Em alguns lugares, onde a flor já tinha murchado, crescia um fruto verde do tamanho de uma bola de tênis.

Com as mãos nos quadris, Pa anunciou que ele tinha apenas "dado um tapa" no resto da produção da horta aquele, ano porque ia "entrar de cabeça" em um novo negócio: abóboras gigantes. Explicou que tinha plantado as sementes das plantas gigantes em copos de papel ("só uma semente por copo, veja bem"). Duas semanas mais tarde, transplantou a mais vigorosa muda para um solo especialmente preparado e enriquecido. Ele deu à trepadeira espaço suficiente para se espalhar - aproximadamente 56 metros quadrados - e adubou o solo com palha. -

Disse que planejava colocar folhas de papel brancas sobre as abóboras, se elas crescessem muito ultrapassando o tamanho das folhas e ficando expostas. Eu dei risada, imaginando que elas iriam parecer abóboras fantasmas assombrando o jardim ao meio-dia, em -vez de à meia-noite. Mas Pa explicou que, sem uma cobertura, a casca ficaria queimada pelo sol. Saí de fininho enquanto mamãe e Pa começaram a discutir o que colocar debaixo de cada abóbora prodígio, a fim de evitar que apodrecesse ou que ficasse danificada..

Com o resto do verão à minha frente e o início da quinta série no outono, logo me esqueci das abóboras de Pa.

Na metade de outubro, Pa nos convidou para outra visita. Assim que descemos de nossa van, ele nos cumprimentou. Alguma coisa estava diferente Pa nunca foi o tipo de vovô brincalhão, com bochechas vermelhas e olhos brilhantes. Ele não é daquele tipo que demonstra afeição, exceto pelos presentes que dá. Com seu colete de lã e um cachimbo na boca, sempre pareceu mais um professor. Mas naquele dia ele estava diferente. Parecia conter o riso. Levou-nos direto à sua horta.

Ali estavam elas. Grandes como a lua cheia. Duas abóboras gigantescas.

- Vau! - dissemos.

- Meu Deus! - mamãe disse.

Convencido de que estávamos espantados ao ver aquilo a distância, Pa nos fez chegar mais perto. Meu irmão caçula e eu pisamos por entre os ramos espinhentos e folhas que estalavam. Tocamos a casca macia das abóboras e tentamos cutucá-Ias com as pontas dos dedos. Parecia impossível removê-Ias dali. Se fossem colocadas em uma balança, creio que o ponteiro marcaria 250 quilos.

Mas foi um rabisco prateado no topo de uma das abóboras que chamou a minha atenção. Enquanto o fruto crescia, Pa riscou meu nome completo e a data de meu nascimento na casca. Na outra abóbora, o nome de meu irmão caçula e sua data de nascimento.

Eu era a filha do meio em uma grande família, e nunca imaginei que alguém soubesse quem eu era ou que me reconhecesse como pessoa; era somente parte do grupo, normalmente a irmã de um dos mais velhos. Frequentemente, sentia-me perdida ou deixada de lado. Quando descobri que Pa sabia meu nome inteiro, a data de meu nascimento e que tinha cultivado uma abóbora pensando em mim, planejando me fazer uma surpresa, gritei de alegria. Acho que até tentei abraçar o velho pão-duro ou, pelo menos, abraçar suas pernas... Tempos depois, entender quanto esforço e tempo ele havia, em segredo, dedicado àquela abóbora emocionou-me.

Aquela abóbora nos serviu de diversão e, depois, transformou-se em deliciosas tortas e doces. Ela realmente foi o presente mais inusitado que já recebi. Mais do que isso, foi a medida exata para que Pa demonstrasse sua grande generosidade e para que enchesse o coraçãozinho de uma menina com a surpresa de ser amada.

O vermelho pode ser a cor da paixão, mas, para mim, o abóbora é a cor do amor verdadeiro. Para mim, o abóbora é a cor do amor. Definitivamente.


 

ROSAS

Dr. Steve Stephen

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Era o Dia dos Namorados, e eu tentei ser um bom marido.

Como a maioria dos homens, não costumo me lembrar de datas importantes para minha esposa, mas aprendi, através dos anos, que, além do Dia das Mães e de nosso aniversário de casamento, o Dia dos Namorados é importante.

Nesse ano, finalmente fiz a coisa certa: um presente embrulhado com belos laços e fitas, um cartão, uma caixa de chocolate e seis rosas vermelhas. Entrei na cozinha, como quem não queria nada, escondendo as rosas, com uma das mãos para trás. Minha esposa e minha filha de seis anos, Brittany, estavam sentadas à mesa.

- Que dia é hoje? - perguntei, olhando para minha esposa.

- Dia dos Namorados! - responderam em uníssono.

Entreguei as rosas, enquanto dois pares de olhos se iluminaram. Com a atenção voltada para minha esposa, não percebi a alegria ser transformada em frustração no rosto de minha filha, enquanto enchia as mãos de sua mãe com os tesouros do meu coração. Lágrimas quentes encheram seus olhinhos e escorreram por seu rosto, caindo sobre a mesa.

Com um simples gesto, eu fiz minha esposa feliz - e despedacei o coração de uma menina. Gentilmente, coloquei um dos braços ao redor de Brittany e, com a outra mão, puxei uma rosa do buquê e lhe entreguei. Um sorriso iluminado encheu seu rosto.

Foi aí que aprendi que o Dia dos Namorados é um tempo de dar amor - não somente à minha esposa, mas a meus filhos também. Cada membro da família precisa sentir-se especial e amado.

Agora que temos três filhos, no Dia dos Namorados sempre fico com as duas mãos cheias de rosas: para Brittany, rosas cor-de-rosa; para Dylan, amarelas; e para Dusty, brancas. E minha esposa, que é especial como ninguém mais, ainda recebe seis rosas vermelhas.

 

 


 

O AVISO

PATRICIA BEECHER

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Meu marido e eu viajávamos para a nossa casa de campo quando vi, na estrada, três cervos que estavam prestes a atravessa-la. Como meu marido não diminuiu a velocidade, dei um leve toque em seu braço e disse:

- Querido...

Ainda assim, ele não diminuiu então, repeti em tom firme:

- Querido...!

De repente, ele freou e deu urna guinada para se desviar dos três animais. Assim que me recuperei do susto, perguntei-lhe por que ele não tinha prestado atenção a meu primeiro aviso.

- Primeiro aviso? - ele disse. - Eu pensei que você estava sendo romântica...


 

SIMPLES CAIXAS DE MADEIRA

Martha Pendergrass Templeton

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Suponho que cada um de nós guarde a lembrança de algum Natal que tenha marcado a infância mais do que qualquer outro. Para mim, foi o Natal do ano em que a fábrica Burlington, em Scottsboro, fechou. Eu ainda era bem pequena. Não sei exatamente em que ano foi, tenho só uma vaga lembrança; mas os acontecimentos daquele Natal estarão para sempre gravados em meu coração.

Com o fechamento da fábrica, papai ficou desempregado, mas nunca nos colocou a par de suas dificuldades financeiras.

Afinal de contas, as crianças vivem em um mundo inocente, em que dinheiro e empregos são blábláblá de adulto. Para nós, nada poderia destruir o entusiasmo do Natal. A única coisa que sabíamos é que nosso pai, que geralmente trabalhava por muitas horas, agora ficava muito tempo em casa. Todos os dias pareciam feriado.

Mamãe, uma dona-de-casa, agora procurava trabalho nas tecelagens locais, mas os empregos eram escassos.

Em todos os lugares, diziam a ela que não haveria vagas antes do Natal. Em uma ocasião em que voltava para casa depois de mais uma entrevista frustrante, nosso único carro quebrou. O dinheiro da rescisão de papai era tudo o que nossa família possuía. Para meus pais, o Natal traria montanhas de preocupações, muitos suspiros, lágrimas e uma torrente de orações.

Posso imaginar o que meus pais sentiram quando acharam uma saída. Juntos, tiveram dezenas de ideias. Algum tempo deve ter passado até que tomassem forma. Decidiram que ambos economizariam dinheiro suficiente para comprar uma boneca Barbie para cada uma de nós. O restante de nossos presentes, fariam com as próprias mãos, usando restos de materiais que já tinham em casa.

À noite, mãos calejadas costuravam, martelavam e pintavam. Dedos ágeis passavam vestidos e mais vestidos na máquina  de costura. Vestidos de noiva para a Barbie, camisolas, roupas para todas as ocasiões foram costuradas na velha e barulhenta máquina. Não sei onde estávamos nos momentos em que eles faziam tudo aquilo. Só sei que arrumaram tempo para doar do profundo de si mesmos aqueles presentes, e o entusiasmo do Natal voltou a nascer em nossa família.

Chegou o grande dia. O sol já estava se pondo no horizonte, quando ouvimos o inesperado barulho do motor de um carro na entrada de nossa casa. Olhamos para fora e mal podíamos acreditar. Tio Buck e tia Charlene, a irmã de mamãe e seu marido, tinham vindo da Geórgia para nos fazer uma surpresa. O carro estava abarrotado: meus três primos, minha "tia" Dean, que detestava ser chamada de tia, e meus avós. Eu, também, não pude deixar de notar os lindos pacotes de presentes que eles tinham trazido para nós. Ficaram sabendo de nossa dificuldade e decidiram vir nos ajudar.

Na manhã seguinte, a quantidade de presentes era enorme. Eu não me lembro exatamente quais eram os brinquedos, mas havia montanhas deles. Brinquedos! Brinquedos! E mais brinquedos!

E foi ali, em meio a toda aquela alegria, que papai decidiu não nos entregar seus presentes. Com todos os brinquedos que tínhamos ganho, não havia necessidade de nos dar casas de bonecas que ele mesmo fizera. Afinal, eram simples e rústicas caixas vermelhas. Com certeza, não eram tão boas quanto os presentes que a família de mamãe havia comprado para nós. Os risos encheram a casa naquela manhã, e nós nem suspeitávamos de que, escondidos em algum lugar, estivessem nossos outros presentes.

Quando mamãe perguntou a papai sobre os presentes, ele confessou o que estava sentindo, mas ela insistiu em nos entregar o que eles haviam feito para nós. Então, assim que todas as visitas foram embora, papai, com relutância, trouxe os presentes de amor para a sala.

Caixas de madeira. Caixas pintadas de vermelho, com dobradiças nas tampas para que cada lado pudesse ser aberto como uma casa. Do outro lado, havia um espaço grande o suficiente para se colocar uma Barbie. Havia também um cabide onde as roupinhas podiam ser penduradas. Do lado de fora, havia uma alça para podermos carregar a casa quando ela estivesse fechada - no estilo de uma pasta de executivo.

Embora eu não me lembre dos brinquedos que ganhei naquele dia, aquelas caixas jamais saíram de minha memória. Lembro-me da textura da madeira, do tom do vermelho, do ímã que segurava a tampa fechada, da alça e das dobradiças... Lembro-me de como as roupas ficavam delicadamente penduradas e de como eu tinha de tomar cuidado para que o cabelo da Barbie não ficasse preso ao fechar a tampa. Eu me lembro de todos os detalhes, porque brincamos com as caixas durante muito tempo.

Eu já passei por 29 natais, cada um deles com um entusiasmo único. Todos cheios de amor e de esperança. Cada um trouxe presentes estimados. Mas poucos se comparam àquelas simples caixas de madeira.

Não é de admirar que meus olhos se encham de lágrimas quando me lembro de papai, naquela fria manhã de Natal, questionando se o seu presente seria bom o suficiente.

O amor, papai, é sempre bom o suficiente.


 

ROMANCE

Bill Hybels

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Romance nunca foi meu forte. Pedi Lynne em casamento .Roa garagem de sua casa; levei minha Harley-Davidson em nossa lua-de-mel; achei que a melhor maneira de comemorar nosso aniversário de casamento seria assistindo a um vídeo do filme Rock III. Eu tinha muito o que aprender sobre romance.

Para começar, pensei em flores. Além delas, não conhecia nada mais romântico. Como uma confirmação de Deus de que eu estava na direção certa, adivinhe quem resolveu montar uma lojinha dentro do porta-malas de um carro antigo, na esquina bem em frente à nossa igreja? O vendedor de flores!

Então, sempre que eu ia para casa depois do trabalho ou das reuniões, dava uma paradinha e comprava um buquê de rosas ou de cravos e levava para Lynne.

Que marido!, eu pensava todas as vezes que pagava os três dólares pelas flores.

A primeira vez que cheguei em casa com as flores e entreguei-as a Lynne, esperando que ela contratasse uma banda marcial para tocar Viva o chefe, sua resposta foi indiferente.

_ Puxa, obrigada - ela disse. - Onde você comprou?

_ Onde comprei? - Comprei de meu amigo, o vendedor de flores que fica na esquina da Barrington com a Algonquin. Como sou um ótimo freguês, ele me dá um dólar de desconto e, se as flores estiverem murchas, o desconto é de dois dólares. Calculo que elas se recuperarão se você colocá-las na água.

- É claro... - ela disse.

Trouxe flores regularmente por algum tempo, até que a falta de entusiasmo de Lynne pelo presente me desanimou.

Algum tempo depois, em um jantar a dois, decidimos esclarecer algumas coisas que estavam nos incomodando. Até hoje fazemos isso. Vamos a um restaurante barato (além de não ser romântico, sou pão-duro) e dizemos:

- O que está acontecendo? Há alguma coisa que precisamos esclarecer? Há alguma coisa errada em nosso relacionamento?

Naquela noite, Lynne pegou a lista de reclamações e começou a ler item por item, dizendo:

- É, nesse caso, você está certa. Desculpe. Puxa, naquele também. Opa! Culpado, aqui. Culpado. Culpado. Falha minha.

Ela terminou sua lista, e eu estava uma pilha de nervos. Então, respondi:

- Sinto muito. Vou tentar melhorar.

Aí ela me disse:

- Agora é a sua vez.

Na verdade, eu tinha ido para lá sem nenhuma reclamação a fazer, mas, depois de ouvir aquela lista de supermercado, pensei que deveria dizer algo:

- Bem, tenho um problema. Você notou a ausência das flores ultimamente?

- Não - ela disse. - Nem prestei atenção.

Como ela podia dizer aquilo?

- Não consigo entender. Centenas de maridos passam por aquela esquina. Será que eles param para comprar flores? Não.

Eu paro? Sim!... E aí? Qual é seu problema?

Sua resposta deu um nó em minha cabeça. Ela me olhou bem nos olhos e calmamente disse:

- Na verdade, Bili, eu não me impressiono quando você pára naquele carro antigo com o porta-malas cheio de flores pelo qual, por acaso, você passa a caminho do trabalho para casa e compra flores murchas para mim. As flores são baratas, e o esforço é mínimo. Você não está investindo tempo nem energia para receber uma reação minha de todo o coração. Não está preocupado com o que me deixa feliz; só está fazendo o que é mais conveniente para você.

- Está certo - eu disse. - Vamos esclarecer. Você ficaria mais feliz se eu levantasse de minha mesa bem no meio do dia, jogasse fora meu plano diário de estudo, entrasse no carro e viajasse até a Barrington, onde eu pagaria o quádruplo do preço, só porque estaria escrito Barrington, uma loja de grife, na sacola? Você não se importaria se o tempo gasto para isso aniquilaria meu ritmo de trabalho? Você não se importaria se eu chegasse em casa mais tarde por correr tanto atrás de flores caras? E isso o que você está tentando me dizer? Isso a faria feliz?

Sem pestanejar, Lynne disse:

— Sim, isso me faria feliz.

Eu não podia acreditar no que estava ouvindo!

- Do que você está falando? O que está me pedindo não é prático, nem econômico, nem uma maneira eficiente de aproveitar o tempo.

- Essa é a grande definição de romance, Bili. Você está aprendendo!

 

 

 

Alegra-te com a mulher da tua mocidade;

Embriaga-te sempre com as suas carícias.

PROVÉRBIOS S. 18, 19

 


 

NAS TRINCHEIRAS

Stu Weber

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Você já deve ter ouvido a comovente história sobre a grande amizade entre dois soldados nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Dois colegas serviam juntos em meio à lama e à miséria de um deplorável campo de batalha na Europa. (Há uma versão que identifica os dois como irmãos.) Eles passaram meses nas trincheiras, no frio e na lama, sob o tiroteio dos inimigos e o comando de seus superiores.

De tempos em tempos, uma das tropas inimigas investia contra a outra e retornava às suas trincheiras para cuidar dos feridos, enterrar seus mortos e aguardar o momento de repetir o ataque.

Durante esse período, muitas amizades tiveram início em meio à desgraça. Dois soldados tornaram-se muito amigos. Dia após dia, noite após noite, medo após medo, eles conversavam sobre a vida, a família, a esperança ou sobre o que fariam quando (e se) conseguissem escapar do horror daquela guerra.

Em uma daquelas investi das infrutíferas, "Jim" tombou gravemente ferido. Seu amigo, "Bill", conseguiu retornar à relativa segurança das trincheiras. Jim ficou estendido no chão sob os clarões das explosões noturnas. Entre as trincheiras. Sozinho.

O tiroteio continuava. O perigo havia atingido o ponto máximo. Aquele lugar entre as trincheiras era o mais perigoso de todos. Mesmo assim, Bill queria ficar perto do amigo, consolá-Io, animá-Io, como só os amigos sabem fazer. O oficial encarregado não permitiu que Bill saísse da trincheira. Era perigoso demais.

Porém, assim que o oficial virou as costas, Bill saiu da trincheira.

Sem se importar com o cheiro de pólvora no ar, os abalos provocados pelos tiroteios e as batidas fortes de seu coração, Bill chegou ao local onde Jim estava.

Algum tempo depois, conseguiu levar Jim de volta para a segurança das trincheiras. Tarde demais. O amigo já estava morto. Ao ver o corpo de Jim, o oficial perguntou com ar de cinismo a Bill se "tinha valido a pena". Bill respondeu sem hesitação:

- Sim, senhor. As últimas palavras de meu amigo valeram Q risco. Ele olhou para mim e disse: "Eu sabia que você viria."


 

UM MILHÃO-MILHÃO

Debi Stack

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Papai, quanto eu custei?

Sentada sobre o baú de cedro do quarto de meus pais, eu os ouvia conversar sobre o orçamento do mês e sobre as contas - conversas tão relevantes em 1967 quanto hoje em dia. Minha cabecinha de seis anos, na época, concluiu, equivocadamente, que minha família era pobre.

Em pé, em frente à cômoda, papai olhava as contas. Ele vestia jeans desbotados, uma camiseta e um par de alpargatas brancas, manchadas de verde por tê-las usado enquanto aparava a grama de nosso jardim.

Mamãe dobrava as roupas limpas formando pilhas iguais de roupas que tinham secado ao sol. Ao ver o meu conjunto de shorts manchados, eu me lembrei do dia do piquenique.

Eles continuaram a conversa sobre dinheiro, e papai sentou-se a meu lado no baú. Puxei a pulseira de metal do relógio de papai e vi a marca do sol em seu pulso, o que me lembrava da barriga de um peixe. Pedi a ele que "mostrasse seu muque", enquanto eu pressionava seu bíceps. Nesse instante, ocorreu-me um pensamento que me atingiu como um balde de água fria: papai terá que pagar por num.

Embora a história de meu nascimento fosse a minha favorita na hora de dormir, nunca tinha considerado as contas de hospital... ou as muitas refeições que eu já fizera... ou o preço das roupas que eu vestia.

- Papai - interrompi, novamente. - Quanto eu custei?

- Deixe-me pensar... - Ele suspirou e colocou seu relógio na gaveta de sua cômoda. - Aproximadamente um milhão de dólares.

Minha alegria evaporou num instante. Um milhão de dólares.

Por minha causa, papai trabalhava em dois empregos. Por minha causa, ele dirigia um carro velho, almoçava em casa, e seus sapatos viviam no sapateiro.

Cabisbaixa, desci do baú e fui arrastando os pés até a cozinha.

Ali estava meu cofrinho, com cada centavo que eu possuía - sete dólares. Não eram cédulas, mas sete brilhantes moedas prateadas de um dólar. Uma para cada aniversário e uma para o dia em que nasci.

Abri o cofre, e as moedas caíram em minhas mãos. Sempre brincava escondido com aquelas moedas, jogando-as em uma sacola, enquanto fingia que era uma cigana ou uma princesa em ruga. Elas ficavam sempre no cofre, e eu sentia um grande prazer por saber que estavam ali.

Mas, naquele dia, o tinido de cada moeda não foi sonoro para mim.

Voltei ao quarto e nem notei se eles já tinham mudado de assunto. Puxei a camisa de papai, enquanto, com a outra mão, segurava a primeira parte do pagamento de um milhão de dólares.

- Aqui - disse fungando. - Talvez isso ajude a pagar por mim.

- O quê? - perguntou papai sem entender.

Será que ele não se lembrava do que dissera? Ele não se lembrava de quanto eu custara só de olhar para mim?

Finalmente, compreendeu o que os meus olhos cheios de lágrimas queriam dizer.

Papai ajoelhou-se e puxou-me para perto dele.

- Você não custou um milhão de dólares, mas vale um milhão-milhão de dólares. Se eu tivesse que pagar tudo isso por você, daria o dinheiro sem pensar! Agora, enxugue esses olhos e guarde o cofrinho.

Naquele momento, fiquei aliviada por papai não ter uma dívida de um milhão de dólares, mas fiquei mais aliviada ainda por não ter perdido minhas moedas prateadas.

Ainda hoje, quando me lembro ou falo desse acontecimento, meu coração se enche de satisfação. Para papai, não havia dinheiro que pudesse me comprar. Para mim, não há dinheiro que possa comprar meu pai.

Obrigada, papai. Eu amo você também.


 

VINTE MANEIRAS DE FAZER SUA ESPOSA

SENTIR-SE ESPECIAL

AI Gray

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

      I.        Convide-a para dançar quando ouvir uma música romântica.

    II.        Dê brilho no sapato que ela usa em ocasiões especiais.

 III.        Em vez de ler o jornal na hora de costume, prefira bater um papo com ela, sem pressa.

IV.        Surpreenda-a com um abraço "sem segundas intenções".

   V.        Compre uma muda de roseira e plante só para ela.

VI.        Conserte o que está quebrado em casa e mantenha tudo em ordem.

VII.        Certifique-se de que os pneus do carro estão bons e de que ele está em boas condições de rodar.

VIII.         Segure a mão dela quando estiver orando em casa com a família.

IX.        Faça uma lista de documentos importantes e de onde você os guarda.

   X.        Faça um esforço para economizar um pouco de dinheiro de seu pagamento.

XI.        Pergunte a opinião dela antes de tomar uma decisão.

XII.        Abrace-a com ternura quando, por algum motivo, ela chorar e diga-lhe que está tudo bem.

XIII.         Convide-a para sair. Planeje todo o encontro. Faça reservas, se necessário.

XIV.         De vez em quando, comam algo especial em um lugar diferente.

XV.        Não brigue por ela ter se esquecido de anotar um valor no canhoto do cheque.

XVI.         Faça a barba nos dias de folga.

XVII.        Avise-a se você for se atrasar mais de 15 minutos para chegar em casa.

XVIII.        Incentive-a a sair com as amigas.

XIX.         Lembre-se de levar um lenço limpo quando forem assistir a um filme romântico.

XX.        Diga-lhe que será sempre linda, quando ela demonstrar preocupação por envelhecer.


 

AQUELE QUE O PAI MAIS AMA

Brennan Manning

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Certa vez, um de meus professores contou-me a seguinte história:

"Tenho 12 irmãos. Um dia, quando jogava bola na rua, tive sede e entrei em casa para beber um copo de água. Meu pai tinha acabado de chegar para o almoço e estava sentado à mesa da cozinha com um de nossos vizinhos. Havia uma porta que separava a cozinha da copa, e meu pai não sabia que eu estava lá.

Então, ouvi o vizinho dizer a meu pai:

"- Joe, há muito tempo tenho uma curiosidade a seu respeito.

Você tem 13 filhos. Qual deles é o seu favorito, aquele que você ama mais?" Coloquei meu ouvido bem perto da porta torcendo para que ele dissesse meu nome.

"- É fácil - meu pai respondeu. - É a Mary, a menina de 12 anos. Ela acabou de colocar aparelhos nos dentes e está tão envergonhada que não quer mais sair de casa. E meu filho de 23 anos, Peter. Sua noiva desmanchou o noivado, e ele está arrasado. Mas o pequeno Michael é o que eu mais amo. Ele não tem talento para esportes, é totalmente desajeitado. E, é claro, a Susan é a minha menina-dos-olhos. Ela tem somente 24 anos, mora sozinha e está tendo problemas com a bebida. Eu choro por Susan. Mas acho que, de todos os meus filhos, gosto mais de..." "...e ele continuou a mencionar cada um de seus 13 filhos, nome por nome."

O professor terminou a história dizendo:

"Aprendi que aquele de quem meu pai mais gostava era o que precisava mais dele no momento. Assim acontece, também, com nosso Pai celestial: Ele ama os que mais precisam e dependem dele e que confiam totalmente nele. Ele não se importa se você é puro como João ou pecador como Maria Madalena. Tudo o que importa é a confiança nele. Quando aprendemos a confiar em Deus, entendemos o significado da vida cristã. Deus não espera que tenhamos a vida moral em ordem para começar a nos amar."


 

FLORES E ERVAS DANINHAS

Philip Gulley

Histórias Para o Coração do Homem

 

 

Uma vez por ano, minha esposa comemora seu aniversário. Desde quando a conheço, tem sido assim. Todo ano é o mesmo problema: o que oferecer a uma mulher que tem tudo? Na maioria das vezes, comprei joias. Em um dos aniversários, comprei uma pulseira de presente. Ela me disse que a joia era tão linda que não podia nem pensar em perdê-la. Por isso, deixou-a em seu porta-joias, onde está até hoje, em perfeitas condições.

Outro ano, decidi lhe dar algo que ela pudesse usar. Nosso ferro de passar estava com um barulho estranho, então pensei em comprar um novo. Pedi a opinião de minha irmã, e ela me disse que eu não deveria fazer isso, pois não seria nada romântico. Ainda bem que dei ouvidos a ela. Ferros não são românticos. Seria como dar um aspirador de pó de presente a alguém.

Fui com nossos filhos a uma loja de ferragens e compramos um carrinho de mão para ela.

Na semana anterior, Joan e os meninos estavam limpando o jardim, apanhando os galhos espalhados e colocando-os em um carrinho de mão. A carga não ficou equilibrada, e o carrinho não parava de virar enquanto Joan o empurrava. Então, comprei para ela um carrinho de mão com duas rodas. Não é para me orgulhar, mas esse tipo de consideração fez com que nosso casamento florescesse.

Sempre que Joan trabalha no jardim, chama os meninos para ajudar. Está ensinando a eles a diferença entre flores e ervas daninhas. Eles ainda não estão na escola, mas já sabem diferenciar uma erva silvestre de uma bolsa-de-pastor ou chapéu-de-frade. Joan quer que eles saibam essas coisas antes que comecem a mexer com a enxada nos canteiros de flores Embora não seja fácil ensinar, essas são lições importantes. Já. pensou passar a vida confundindo flores com ervas daninhas e ervas daninhas com flores?

Comprar um novo carrinho para minha esposa levantou outra questão: o que fazer com o velho? O pneu tinha um pequeno furo que fazia com que o ar, aos poucos, escapasse. Cada vez que usávamos o carrinho, tínhamos de encher o pneu. Se nós o usássemos por mais de uma hora tínhamos que parar e colocar mais ar dentro dele Isso já acontecia há dez anos desde que o compramos um fardo desde o primeiro dia

Então, enchi o pneu, lavei o velho carrinho, pendurei nele uma placa com a palavra Grátis e o empurrei até o meio-fio.

Ao ver um lindo carrinho vermelho brilhando ao sol, com o pneu cheio, um morador do final da rua veio até ele e o levou para seu jardim, feliz com, achado. Naquele dia, passei em frente à sua casa e vi o carrinho no jardim, cheio de galhos, com o pneu vazio. Ele balançava, e os galhos caíam. O homem começou a chutar o carrinho. Podia ouvi-lo praguejar e xingar. Aquele carrinho conseguia tirar qualquer um do sério.

Foi um peso para aquele homem desde aquele dia, como um efeito domino já que o carrinho não se equilibrava ele virou de lado e atingiu o cortador de grama, que se quebrou. Enquanto não comprava um novo, uma praga de ervas daninhas brotou e tomou conta do jardim. O homem acabou tendo que aplicar um praguicida no quintal todo. Fui oferecer ajuda, mas ele nem quis falar comigo. Tudo por causa de um carrinho de mão com uma placa de Grátis.

Em nossa vida, também pegamos algumas coisas que têm aparência de bênção e de uma verdadeira pechincha. Tomamos o mal por, bem e o bem por mal. Observo Joan ensinando a nossos filhos a diferença entre ervas daninhas e flores e espero que essas lições de jardinagem sejam o ponto de partida para que, anos mais tarde, tenham uma vida mais sábia. Espero que aprendam que não é só porque algo está na calçada com uma placa de Grátis que vale a pena.

Jesus disse que os cuidados deste mundo podem destruir uma planta. Os "cuidados" são as coisas que trazemos para a nossa vida sem avaliá-las antes. Elas prometem o bem, mas trazem o mal. São bens materiais que nos escravizam, relacionamentos que oprimem nosso espírito e carreiras que trazem um alto risco para a alma. Muitos de nós, de uma maneira ou de outra, temos um carrinho de mão com o pneu furado que nos assombra. E preciso aprender a diferença entre ervas daninhas  e flores. Também, é preciso aprender se algo deve ser deixado na calçada ou levado para casa com alegria.

 

 

 


 

SUCESSO

Histórias Para o Coração

Histórias Para o Coração do Homem 93

 

 

     Um dia, espero ter o que o mundo chama de sucesso. Então, quando alguém me perguntar:

     - Qual é o segredo para o sucesso? - simplesmente responderei.

     - Eu me levanto todas as vezes que caio.


 

EU QUERO AQUELE

Charles Stanley

Histórias Para o Coração do Homem 94

 

Ouvi a história de um fazendeiro que tinha alguns filhotes de cachorro para vender. Ele fez um cartaz e pregou no poste bem em frente ao seu jardim. Enquanto ainda colocava o cartaz, sentiu um puxão em seu macacão. Olhou para baixo e viu um garotinho com um sorriso largo e algo nas mãos.

- Senhor - disse ele -, quero comprar um cachorrinho.

- Bem - respondeu o fazendeiro -, esses cachorros são de raça e custam caro.

O menino abaixou a cabeça por uns instantes e, então, olhou novamente para o homem e disse:

- Tenho 39 centavos. Posso dar uma olhadinha?

- Claro - disse o fazendeiro.

Então, assobiou e gritou:

- Dolly! Aqui, Dolly!

A cadelinha saiu de sua casa e veio correndo, seguida por quatro bolinhas peludas. Os olhos do menino encheram-se de alegria.

Mas dentro da casinha havia uma bolinha ainda menor, que deu uma espiadela, saiu correndo, escorregou na rampa e, mancando, tentava alcançar os outros. Aquele era claramente o menor da ninhada.

O menino, encostando o rosto contra a cerca para ver melhor, gritou:

- Eu quero aquele! E apontou para o pequeno filhote.

O fazendeiro abaixou-se e disse:

- Filho, não escolha esse, pois ele nunca conseguirá correr ou brincar da maneira que você gostaria.

Ao ouvir essas palavras, o menino levantou uma das pernas da calça revelando um suporte de aço que percorria toda a extensão de sua perna e que estava preso a um sapato especial. Olhou para o fazendeiro e disse:

- Sabe, senhor, eu também não posso correr muito bem; então, ele precisará de um dono que o compreenda.


 

UM PRESENTE DE PAPELÃO

Bárbara Johnson

Histórias Para o Coração do Homem 96

 

 

Charles Darrow estava desempregado e vivia em extrema pobreza durante a Grande Depressão. No entanto, mantinha um constante sorriso no rosto e um brilho nos olhos. Não queria que a esposa, então grávida de seu primeiro filho, ficasse desanimada.

Todas as noites, ao voltar para seu pequeno apartamento depois de passar o dia inteiro em filas de desempregados, ele lhe contava histórias engraçadas sobre as coisas que tinha visto - ou imaginado.

Darrow era um homem inteligente, com ideias que faziam as pessoas rir.

Ele sabia quanto suas atitudes influenciavam a esposa. Se ele chegasse em casa aborrecido ou irritado, ela ficava abatida, e seu sorriso desaparecia. Por outro lado, se ela o ouvisse assobiar uma alegre melodia enquanto subia os muitos degraus da escada, ela escancarava a porta, corria para o parapeito e se debruçava para vê-lo subir. A alegria era o sustento do casal.

Durante a juventude, Darrow fez muitas viagens inesquecíveis com a família. Fazia desenhos dessas recordações para alimentar seu espírito, e, a partir deles, inventou um pequeno jogo em um quadrado de papelão. Nas bordas do quadrado, desenhou uma série de "propriedades" com nomes de ruas e de lugares que tinha visitado quando criança. Esculpiu pequenas casas e hotéis em pedaços de madeira, e, todas as noites, quando jogava com a esposa, fingiam ser ricos: comprando e vendendo propriedades, construindo casas e hotéis como se fossem extravagantes magnatas. Naquelas longas e escuras noites, gargalhadas enchiam o pequeno e pobre apartamento.

Quando inventou Monopólio [no Brasil, conhecido como Banco Imobiliário], o jogo que, mais tarde, foi lançado em todo o mundo pelos irmãos Parker, Charles Darrow nem imaginava que se tornaria milionário. O pequeno presente criado a partir, de papelão e de restos de madeira era simplesmente uma maneira de manter alegre o espírito da esposa gravida naqueles anos da Grande Depressão. No final, aquele presente voltou para eles em forma de muita riqueza.

Há mais de 50 anos, Monopólio [Banco Imobiliário] é vendido aos milhares

As casinhas verdes, os hotéis vermelhos, as fantásticas peças do jogo e o cartão dizendo "saída livre da prisão" representam, para mim, o exemplo da alegria compartilhada. Darrow criou um presente alegre, compartilhou-o com o mundo e este o recompensou milhares de vezes mais.

 

 

A maior coisa do mundo não do lugar onde para nós,

mas, sim, em que direção estamos indo.

OLIVER WENDELL HOLMES


 

LIÇÃO NAS CAMPINAS

Autor Desconhecido

Histórias Para o Coração do Homem 102

 

Uma antiga história do Oeste norte-americano conta como o gado reage às tempestades de inverno.

Às vezes, elas eram arrasadoras. Começavam com chuvas glaciais; a temperatura caía abaixo de zero e, então, ventos implacáveis formavam enormes montanhas de neve. A maior parte do gado virava as costas para as geladas rajadas de vento e movia-se a favor do vento até chegar às inevitáveis cercas de arame farpado. Em meio a violentas tempestades, os animais amontoavam-se contra a cerca e morriam por causa dos cortes.

Mas havia uma raça que sempre sobrevivia. Essa raça, chamada Herefords, instintivamente ia contra o vento. Esses animais ficavam um ao lado do outro, com a cabeça abaixada, enfrentando as rajadas.

Um caubói disse, certa vez:

- Quase sempre encontramos os Herefords vivos e saudáveis.

Acho que essa foi a maior lição que aprendi nas campinas: enfrente as tempestades.


 

DOIS DIÁRIOS

Steve J. Lawson

Histórias Para o Coração do Homem 103

 

Depois de muita insistência, um pai ocupado decidiu tirar um dia de folga para levar o filho para pescar. Foram só os dois. O pai deixou a mesa repleta de serviços inacabados e foi com o menino para um lago isolado. Ali, passaram o dia pescando, remando e conversando.

Durante todo o tempo, o pai só conseguia pensar nas coisas urgentes que tinha para entregar, nas ligações telefônicas que precisava fazer, nos projetos a serem concluídos, nas tarefas a terminar e nas reuniões que precisava marcar.

Anos mais tarde, os diários dos dois foram encontrados.

Ambos tinham registrado os acontecimentos daquele dia.

"Levei meu filho para pescar. Outro dia perdido." Mas, no diário do garoto, lia-se: "Passei o dia com papai. Foi um dos melhores dias da minha vida."


 

VOLTANDO PARA CASA

David Redding

Histórias Para o Coração do Homem 108

 

Eu me lembro de quando voltei para casa após servir na Marinha pela primeira vez, durante a Segunda Guerra Mundial. Nossa casa ficava tão afastada que, para caçar, tínhamos que ir para mais perto da cidade.

Por causa da saúde de papai, mudamos para lá. Eu tinha 13 anos.

Comecei a criar um pequeno rebanho de ovelhas Shropshire, aquelas totalmente cobertas de lã, com patas e focinho pretos.

Meu pai ajudava no nascimento dos cordeiros. Eu era capaz de distinguir uma ovelha da outra a qualquer distância, sem dificuldade.

Eu tinha um belo carneiro. Nosso vizinho, um pobre homem que tinha um lindo cachorro e um pequeno rebanho, queria aumentar seu rebanho com meu carneiro. Perguntou-me se eu poderia emprestar-lhe o carneiro; em troca, eu poderia escolher um filhote da ninhada de seu cachorro premiado.

Foi assim que ganhei Teddy, um grande cão pastor preto.

Teddy era meu cachorro e fazia qualquer coisa por mim. Ele me esperava chegar da escola, dormia a meu lado e, ao ouvir meu assobio, corria em minha direção, mesmo que estivesse comendo sua ração. À noite, ninguém se aproximava da casa sem a permissão de Teddy.

Durante os longos verões no campo, via minha família só à noite; mas Teddy ficava comigo o dia todo.

Quando fui convocado para a guerra, não sabia como faria para deixá-lo. Como explicar a alguém a quem se ama que você   vai partir e que não caçara mais marmotas com ele?

Voltar para casa, pela primeira vez, tinha um significado especial para mim. O último ponto de ônibus ficava a aproximadamente 22 quilômetros de minha casa. Desci do ônibus por volta das 11 horas da noite e fui a pé para casa. Perto das duas ou três horas da manhã, eu já estava a alguns metros de casa. Estava escuro como breu, mas eu conhecia cada trecho do caminho. Dê repente, Teddy ouviu meus passos e começou a latir. Assobiei uma vez. O latido parou. Em seguida, ouvi um uivo de reconhecimento e sabia que uma coisa preta estava correndo em minha direção na escuridão Logo Teddy estava em meus braços. Essa foi a melhor expressão do que significou para mim voltar para casa. O fato de Teddy não ter se esquecido de mim, lembra-me de meu Deus. Se meu cachorro, sem nenhuma explicação, continuou me amando e recebeu-me depois de tanto tempo fora, Deus não faria o mesmo?


 

NOSSA ÁRVORE DA AMIZADE

Harrison Kelly

Histórias Para o Coração do Homem 111

 

 

As amizades que duram mais são as que têm raízes mais profundas, que fazem com que os amigos sejam como irmãos.

Na terceira série, eu era aluno novo na escola. No ano anterior, minha família mudou para um bairro de Memphis, chamado Frayser. Era - um lugar de classe média, onde as pessoas valorizavam extremamente o trabalho. No entanto, os moradores dali tinham certa resistência a novos vizinhos.

Um dia, um garoto com expressão nervosa no rosto entrou em nossa sala de aula pela primeira vez. Ele se chamava Tom e tinha acabado de mudar de Nashville.

Assim como eu, também não estava gostando de ser novo na escola. Como a carteira atrás de mim era a única vazia, a professora colocou-o ali. Sabendo, em primeira mão, corno era difícil fazer amizades, dei o primeiro  passo. Logo nos tornamos grandes amigos, dentro e fora da escola.

A casa de Tom ficava a dois quilômetros da minha, perto de um grande condomínio em um dos bairros mais calmos. Eu morava em uma agitada avenida.

Embora morássemos em lugares opostos, a nossa amizade cresceu. Nós nos encontrávamos debaixo de um carvalho que ficava no estacionamento da igreja metodista.- A árvore gigantesca era lendária, com um tronco de pelo menos 1,80m de diâmetro e galhos enormes.

Nós a chamávamos de "Nossa Árvore da Amizade", porque ela parecia simbolizar nossa estima mútua.

Era um ponto de encontro. Durante o primeiro verão, íamos nos encontrar ali com nossas luvas de beisebol nas mãos. Passávamos as manhãs e as tardes juntos, despedindo-nos com a promessa de voltar no dia seguinte.

Os anos foram passando, e "Nossa Árvore da Amizade" continuava ali, vendo-nos crescer, guiando nossos passos. No outono, passávamos debaixo de suas folhas alaranjadas, a caminho da reunião de escoteiros. Com os pés apoiados em seu tronco, conversávamos sobre garotas. Ali nos encontramos, vestidos de smoking antes do baile de formatura e, depois, com nossas becas antes da colação de grau. Após a cerimônia de casamento de cada um, nós nos encontramos ali. Aquela árvore era parte de nossas vidas e de nossa amizade.

Quando nos tornamos adultos e pais, mudamo-nos de Frayser, mas ainda mantínhamos contato. Um dia, recebi um telefonema inesperado de Tom. Ele me disse que um raio tinha atingido "Nossa Árvore da Amizade" e ela tinha caído.

Derramei uma lágrima quando percebi que aquelas raízes eram, na verdade, nossas. Um símbolo de nossa infância havia ido embora e não poderia ser substituído.

Seis meses se passaram. Um dia, li no jornal a respeito de um homem que fazia lápis de madeira com significados especiais.

Enquanto lia o artigo, desejei ter ficado com um pedaço da nossa árvore. Para minha surpresa, li que aquele homem morava em Frayser. Talvez ele tivesse algum pedaço daquela árvore.

E tinha mesmo. Como a árvore tinha crescido no terreno de sua igreja, havia feito alguns lápis para membros da congregação. Disse-me que dois lápis haviam sobrado. Quase não pude me conter.

Marquei um almoço com Tom e lhe dei um dos lápis, como símbolo de nosso passado e como promessa de sempre estar por perto no futuro.

Guardei o outro para mim e, sempre que escrevo com ele, lembro-me de minhas raízes.


 

O POLICIAL E AS TOALHAS

Christopher de Vinck

Histórias Para o Coração do Homem 113

 

 

Estava em casa cuidando de meus filhos: David, de cinco anos, Karen, de três anos, e Michael, o bebê, enquanto minha esposa, Roe, trabalhava. Ela era recepcionista de uma clínica ortodôntica e, duas vezes por semana, trabalhava no turno da noite.

Logo depois do jantar, notei que Karen estava com febre alta.

Talvez devesse leva-la ao médico, pensei. Liguei para Roe, e ela concordou. Assim que desliguei o telefone, fui para a sala e encontrei Karen caída no sofá. Deitada de barriga para cima, espumava pela boca. Com os olhos revirados, ela não se mexia. Estava inconsciente. Pensei que estivesse morrendo.

Eu não sabia o que fazer. Michael ainda nem sabia andar, e David estava desnorteado. Minha vontade era sair correndo pela rua e gritar por socorro. Gritei:

- Karen! Karen! - ela não respondia.

O telefone! Chamei a polícia e a ambulância.

Comecei a correr pela casa com Karen no colo, chamando seu nome sem parar, mas ela não respondia.

Um minuto depois, liguei novamente para a polícia:

- Por favor, rápido!

Antes que desligasse o telefone, a campainha tocou. Luzes vermelhas e azuis piscavam por toda a vizinhança. Rapidamente, atendi à porta e lá, bem diante de mim, estava o policial mais alto e mais gigantesco que já vi. Podia sentir o cheiro de seu casaco de couro, e seus sapatos estavam bem lustrados.

- Não sei o que aconteceu com a minha filha. Ela não está reagindo!

- Está tendo uma convulsão - disse o policial com voz confiante. - Está doente?

- Tem febre alta! É o que sei! Ia levá-Ia ao médico.

Calmamente, o policial entrou e disse:

- Vamos colocar um pouco de água morna na banheira. Precisamos abaixar a febre.

Eu apontei para as escadas. O policial subiu, entrou no banheiro e começou a encher a banheira. Nem percebi que três ou quatro vizinhos haviam entrado em casa e cuidavam de David e de Michael. Eu também não sabia que a ambulância já estava a caminho. Tudo o que eu sabia é que um estranho estava tirando a minha filha de meus braços e, gentilmente, colocando-a na banheira.

Ajoelhei-me à esquerda do policial. Ele também se ajoelhou ao lado da banheira, derramando água sobre as costas quentes de Karen. Tinha uma arma na cintura, e seu distintivo raspava na louça da banheira.

Enquanto cuidava de Karen, o policial virou-se para mim e falou baixinho:

- Tenho uma filha de três anos também.

Karen começou a reagir. Após enxugá-Ia, joguei a toalha no chão e a envolvi em um cobertor de lã, enquanto a levava para baixo. Meus vizinhos disseram que cuidariam dos meninos. A ambulância parou bem em frente à porta de casa, e eu podia ouvir o rádio transmitindo mensagens.

Entrei na ambulância pela porta traseira com Karen em meus braços. Eu não parava de chorar.

Na sala de emergência, o médico disse que Karen havia tido uma convulsão febril, a que algumas crianças são propensas. Sugeriu que consultássemos o médico da família. Sua temperatura diminuiu, e ela melhorou.

Há uma peça teatral de Tennessee Williams, chamada A margem da Vida, em que a personagem Amanda, a mãe, diz ao filho:

- Temos que fazer o possível para nos fortalecer. Nesses tempos difíceis em que vivemos, tudo o que temos para nos sustentar é um ao outro."

Naquela noite, após colocar a minha filhinha que já se recuperara na cama, passei pelo banheiro e notei que o policial tinha esvaziado a banheira e dobrado as toalhas.

Esse policial, o meu policial, não tinha motivo algum para ser tão amável, tão interessado, tão cuidadoso; mas, como o bom samaritano, ele parou e sentiu compaixão por mim e por minha filha.

Ao contar a história do bom samaritano, Jesus nos deu um exemplo do tipo de pessoas que serão recompensadas com a paz eterna no céu: aquelas que amam o próximo sem esperar nada em troca.


 

O PREJUÍZO

Autor Desconhecido

Histórias Para o Coração do Homem 117

 

 

Muitos anos atrás, um executivo da então Standard Gil Company (que existiu entre 1870 e 1911) tomou uma decisão errada que custou a empresa mais de dois milhões de dólares. John D Rockfeller era, na época, o diretor da companhia. No dia em que a notícia vazou, a maior parte dos executivos procurava meios engenhosos de evitar Rockfeller, com medo de que a ira dele se abatesse sobre suas cabeças.

No entanto, houve uma exceção: Edward T. Bedford, um dos sócios da companhia Tinha uma reunião agendada com Rockfeller e decidiu mantê-la, mesmo sabendo que ouviria um longo discurso contra o homem que cometeu o erro.

Quando Bedford entrou na sala, o poderoso gigante do império Standard Oil estava com a cabeça curvada sobre a mesa e, concentrado, fazia anotações.

Bedford ficou parado, em silêncio, para não interrompê-lo. Depois de alguns minutos, Rockfeller olhou para ele e disse calmamente:

- Ali, e você, Bedford? Suponho que tenha ouvido sobre o prejuízo.

Bedford respondeu que sim.

- Estive pensando sobre o assunto e fiz algumas anotações antes de chamar o homem para conversar - disse Rockfeller.

Posteriormente, Bedford contou a história da seguinte maneira:

- No topo da página estava escrito: Pontos a favor do senhor.

Havia, ali, uma longa lista das virtudes do homem, incluindo uma breve descrição de três ocasiões distintas em que ele havia tomado a decisão correta, gerando lucros que superaram em muitas vezes o valor do recente erro. Nunca me esquecerei daquela lição. Nos anos que se seguiram, sempre que fui tentado a dispensar alguém, vi-me forçado a sentar e escrever uma lista com o maior número de qualidades possíveis dessa pessoa. E, todas as vezes, ao terminar o levantamento, conseguia ver a questão sob outro ângulo, e meus impulsos eram mantidos sob controle. Esse hábito tem evitado que eu cometa o erro mais dispendioso para um executivo: perder o autocontrole. Recomendo isso a qualquer um que lida com pessoas.


 

PALAVRAS ENCORAJADORAS

Barbara Johnson

Histórias Para o Coração do Homem 119

 

 

Alguém já disse que encorajar é simplesmente lembrar o outro da sua posição de responsabilidade "no jogo" da herança que recebeu.

Foi isso o que aconteceu quando um jovem, filho de uma das estrelas do beisebol, foi contratado para jogar em um dos melhores times da liga. Embora tivesse se esforçado, sua primeira temporada fora desencorajadora, e ele estava na expectativa de ser dispensado a qualquer momento. Os técnicos ficaram desnorteados com seu fracasso, pois ele possuía todas as características de um superatleta; mas parecia não conseguir colocar em prática todas aquelas habilidades. Aparentemente, não era capaz de utilizar seu potencial.

Seu futuro parecia sombrio, até o dia em que, durante o jogo, pegou o taco pela primeira vez, andou até o lugar do batedor e correu rapidamente, marcando dois pontos. O jogador que apanhava as bolas pediu um tempo e correu para o banco do lançador atrás de instruções. Enquanto estavam ocupados, o árbitro teve uma conversa casual com o menino.

O jogo recomeçou e, no lançamento seguinte, o garoto arremessou a bola para fora do estádio. Foi o ponto decisivo. Desde então, passou a jogar com uma nova confiança e força que chamaram a atenção de outro time, e ele foi convidado para fazer parte dos titulares.

No dia em que estava deixando a cidade, um de seus técnicos perguntou-lhe o que tinha causado tamanha reviravolta. O jovem respondeu que foi o comentário encorajador do árbitro, bem no momento em que sua carreira parecia ter chegado ao final.

- Ele me disse que eu o fazia lembrar das vezes em que ficou atrás de meu pai no lugar do lançador. Ele falou que eu segurava o taco da mesma maneira que papai e também me disse: "Vejo que você tem os genes dele, tem os braços de seu pai." Depois disso, sempre que dava uma tacada, eu me imaginava usando os braços de papai em vez dos meus.


 

MEU NOME É IKE

Gary Paulsen

Histórias Para o Coração do Homem 122

 

 

A maior parte da minha infância na cidade de Thief River Falls, em Minnesota, foi extremamente solitária. Problemas familiares, timidez e uma completa falta de habilidades sociais garantiram-me uma vida de solidão. Caçar não era somente a porta para um mundo maravilhoso; era minha salvação.

Desde os 12 anos, eu vivia, respirava e existia para caçar e pescar. Na época de aulas, caçava de manhã e à noite. Às sextas-feiras, entrava na mata e passava ali todo o fim de semana.

Ainda não tinha aprendido a amar a solidão como amo agora.

Via coisas bonitas, como o pôr-do-sol entre as folhagens ou um cervo se movendo pelas sombras, e eu queria apontar e dizer:

"Olhe!", mas ninguém estava lá.

Então, encontrei Ike.

Era o início da estação de caça aos patos selvagens. Levantei às 3 horas da manhã e andei quatro quarteirões, de nosso apartamento até a estrada de ferro, e atravessei a ponte da Rua Oito. Pulei o barranco até a margem do rio e fui andando em direção à mata.

Estava escuro. Depois de dois quilômetros e meio, comecei a pisar com dificuldade em um pântano sujo. Tentei subir até a margem, onde o terreno era seguro, mas a lama estava escorregadia como graxa. Caí e tentei subir novamente. Com uma das mãos, segurava a arma e, com a outra, tentava agarrar as raízes.

Consegui chegar ao topo e, de repente, algo se destacou na escuridão, chegou bem perto de meu rosto e fez “uof"!

Não fez "arf" nem grunhiu. Só fez "uof".

Por um segundo, congelei. Larguei o arbusto em que segurava e comecei a descer o barranco. Pensei: um Urdo!

Enfiei a mão no bolso para pegar alguns cartuchos e carreguei a arma. Estava mirando quando vi que não era um urso.

O que quer que fosse, tinha permanecido sentado no topo do barranco olhando para mim. Só conseguia ver sua silhueta. Era um cachorro. Um cachorro grande e preto, mas um cachorro.

Abaixei a arma e limpei a lama dos olhos.

_ Onde está seu dono? - perguntei. - O cachorro não se mexeu, e eu escalei o barranco novamente.

- Olá! Seu cachorro está aqui! - gritei.

Não havia ninguém lá.

- Então, você está perdido.

Normalmente, cães perdidos ficam amedrontados e famintos, mas esse cão labrador estava bem alimentado, e seu pêlo, bem cuidado. Ele ficou perto de mim.

_ Bem, o que eu faço com você? Você quer caçar? - perguntei animado.

Ele conhecia essa palavra. Balançou o rabo e seguiu em direção ao rio.

Nunca tinha caçado com um cão, mas comecei a segui-lo. Já estava claro o suficiente para começar, por isso preparei a arma.

Ainda não tínhamos andado 50 metros quando dois patos selvagens surgiram perto da beira do rio e começaram a atravessá-Ia.

Levantei a arma, engatilhei, mirei o pato da direita e puxei o gatilho. Ele caiu na água.

Estava acostumado a atirar nos patos sobre o rio e esperava que a correnteza os trouxesse para a beirada. Dessa vez foi diferente. Ainda podia sentir o cheiro da pólvora no ar, quando o cachorro pulou na água, começou a nadar e alcançou o pato morto. Ele, gentilmente, apanhou o pato com a boca e nadou de volta. Subiu o barranco, colocou o pato bem em minha frente e sentou.

Já estava bem claro, e pude ver que o cachorro tinha na cole ira uma etiqueta de identificação. Acariciei-lhe a cabeça – e ele deixou, de um jeito meio reservado - e puxei a etiqueta para ler o que estava escrito.

Meu nome é Ike.

Era tudo o que dizia.

- Bem, Ike, obrigado por me trazer o pato - disse enquanto via seu rabo balançar.

E foi assim que tudo começou.

Durante aquela estação, caçamos todas as manhãs. Eu atravessava a ponte, descia até o rio, e lá estava Ike. Na metade da segunda semana, tive a impressão de que estávamos juntos havia muito tempo.

Quando terminávamos de caçar, ele voltava comigo até a ponte, sentava e nada o fazia sair dali.

Tentei esperar para ver aonde ele ia, mas, quando percebia que eu não ia embora, simplesmente deitava e dormia. Uma vez, eu o deixei, atravessei a ponte e me escondi atrás de um prédio para observá-lo. Ele ficou ali até que eu estivesse fora do alcance de sua visão, virou-se e correu para o norte, em direção à mata.

Sua vida era um mistério total, mas, quando estávamos juntos, éramos amigos. Eu preparava um sanduíche extra para ele, e, quando os patos não apareciam, nós conversávamos. Isto é, eu falava. Ike ficava sentado, com a cabeça enorme apoiada em meus joelhos e seus grandes olhos marrons me olhando, enquanto eu o acariciava e lhe contava todos os meus problemas.

Nos fins de semana na mata, construí um pequeno abrigo.

Costumava ficar ali e acender uma fogueira, enquanto Ike se enrolava na ponta de meu cobertor. Muitas manhãs, ao acordar, eu o encontrava a meu lado, debaixo do cobertor molhado pelo sereno, roncando.

Parecia que Ike sempre fizera parte de minha vida. Até que, certa manhã, ele não estava lá. Por várias manhãs, eu o esperei na ponte, mas ele nunca mais apareceu. Achei que tivesse sido atropelado ou que seus donos tivessem mudado dali. Não soube mais nada dele. Lamentei e senti muita saudade de Ike.

Cresci, cometi os erros que um jovem comete. Tempos depois, entrei no negócio de cães de trenó e participei da corrida Iditarod, que cruza o Alaska.

Após a minha primeira corrida, voltei para casa, em Minnesota, com slides da corrida. Uma loja de artigos esportivos em Bemidji foi uma de minhas patrocinadoras, e, certa noite, fui convidado a passar os slides para o público.

Havia um senhor sentado em uma cadeira de rodas. Vi que, quando contei como Cookie, meu cão, tinha salvado minha vida, seus olhos se encheram de lágrimas.

Quando a reunião acabou, ele veio até mim e me deu um aperto de mão.

- Eu tive um cachorro como seu Cookie... um cachorro que salvou a minha vida.

- Você participava de corridas de trenós?

Ele balançou a cabeça negativamente:

- Não. Morava em Thief River Falls, quando fui convocado para servir na guerra da Coréia. Tinha um labrador, e nós costumávamos caçar. Até que fiquei ferido e perdi o movimento das pernas. Quando voltei do hospital, ele estava me esperando.

Passou o resto da vida a meu lado. Teria enlouquecido sem ele.

Ficava sentado horas, conversando com ele... - contou-me com lágrimas nos olhos novamente. - Ainda sinto falta dele.

Olhei para o homem e, depois, olhei pela janela da loja. Era primavera, e a neve derretia do lado de fora, mas pude visualizar um menino de 13 anos e um labrador escondidos à espera de um pato no outono.

Ele mencionou Thief River Falls e a guerra da Coréia... Sim, foi exatamente naquele lugar e naquela época.

- Seu cachorro chamava-se Ike? - perguntei.

O homem sorriu e concordou:

- Sim, você o conhecia?

Foi por isso que Ike não voltou. Ele tinha outro trabalho.

- Sim. Ele era meu amigo. - respondi.


 

DO QUE AS CRIANÇAS PRECISAM

Marty Wilkins

Histórias Para o Coração do Homem 126

 

 

As crianças de hoje realmente precisam de heróis que...

 

...joguem bola, brinquem de luta ou de casinha, porque é nisso que o coração de uma criança se apega, e heróis foram feitos para ganhar corações.

...riam muito, até que a barriga comece a doer e lágrimas corram dos olhos; pois assim nascem as mais profundas amizades e lembranças que duram por toda a vida.

...errem, mas considerem os erros oportunidades maravilhosas para aprender.

...agendem as apresentações escolares ou os jogos de futebol, pois heróis são uma importante plateia.

...amem em todo o tempo, pois o amor é um dom, não uma recompensa oferecida por um serviço bem-feito.

...olhem bem nos olhos e, atentamente, escutem, mesmo que para isso tenham de ficar de joelhos.

...admitam que estão errados e esforcem-se para fazer o que é certo.

...ouçam os que estão em necessidade e, com generosidade e doçura, digam:

- Vamos fazer algo para resolver isso agora mesmo!

...deem crédito aos outros e estimulem aqueles com quem convivem a ser bem-sucedidos em tudo o que fazem.

...transformem o amor em atitudes, compromisso e verdade, mesmo quando isso dói, porque creem que Deus pode operar milagres até mesmo no mais duro coração.

...amem ao Senhor de todo o coração, alma e entendimento e saibam que o resto são só detalhes.


 

CONTA MAIS, PAPAI

Gary Smalley e John Trent

Histórias Para o Coração do Homem 128

 

 

Em uma recente conferência, uma senhora pegou em meu braço assim que eu terminei de falar sobre a enorme necessidade que temos de receber incentivos.

- Dr. Trent, posso contar-lhe minha história? – perguntou-me. - Na verdade, é a história de algo que meu filho fez com minha neta e que ilustra o que o senhor estava ensinando sobre a importância do incentivo.

- Meu filho tem duas filhas, uma de cinco e outra de dois anos. A de dois anos é terrível, pode acreditar. Por muitos anos, meu filho convida a mais velha para passear a sós com ele, mas nunca convidou a menor. Há pouco tempo, decidiu levá-Ia, e, no primeiro passeio, foram tomar café da manhã juntos em um restaurante próximo.

- Jenny - disse o filho daquela senhora -, quero que você saiba quanto eu a amo e quanto você é especial para a mamãe e para mim. Durante quatro anos, oramos para ter você, e agora aqui está você, crescendo, e vai se tornar uma moça maravilhosa.

Temos orgulho de você!

Assim que disse isso, o pai da menina parou de falar e pegou o garfo para comer... mas nem chegou a colocá-lo na boca.

A garotinha pôs a mãozinha sobre as mãos do pai. Seus olhos se encontraram e, com uma voz macia e suplicante, ela pediu:

- Conta mais, papai, conta mais.

Ele abaixou o garfo e continuou falando de como eles a amavam e a apreciavam. Então, quando novamente pegou o.

garfo, ouviu as palavras:

- Conta mais, papai, conta mais.

Isso se repetiu por três ou quatro vezes.

Esse pai não conseguiu comer muito naquela manhã, mas a filha recebeu o alimento emocional de que ela tanto precisava.

Na verdade, alguns dias depois, correu para a mãe e disse:

- Eu sou uma filha muito especial, mamãe. Foi o papai quem disse isso para mim.


 

VOCÊ SABE QUEM É SEU PAI?

Zig Ziglar

Histórias Para o Coração do Homem 133

 

 

Há muitos anos, Ben Hooper nasceu, no sopé das montanhas do leste do Tennessee. Naquela época, meninos como Ben, filhos de mãe solteira, eram excluídos e maltratados.

Quando tinha por volta de três anos, nenhuma criança queria brincar com ele. Os pais diziam coisas absurdas, como:

- O que um garoto como aquele está fazendo ao lado de meu filho?

Era como se a criança tivesse culpa por ter nascido.

O sábado era o pior de todos os dias. A mãe de Ben ia com ele ao mercado para fazer as compras da semana. Invariavelmente, outros pais que estavam na loja faziam comentários, em voz alta, para que a mãe e a criança escutassem:

- Você tem ideia de quem é o pai dele? - diziam.

Que infância difícil!

Naquele tempo, não existia jardim da infância. Então, com seis anos, o pequeno Ben entrou na primeira série. Tinha sua própria carteira escolar, assim como as outras crianças. No recreio, ficava sentado na classe estudando, porque ninguém queria brincar com ele. Ao meio-dia, o pequeno Ben almoçava sozinho. De onde sentava, mal podia ouvir as brincadeiras das crianças.

Mas algo aconteceu no sopé das montanhas do leste do Tennessee que mudou a situação. Quando Ben tinha 12 anos, um novo pastor assumiu a pequena igreja na cidadezinha de Ben.

Quase que imediatamente, o pequeno Ben começou a ouvir comentários animadores sobre o pastor: como ele era amável e não julgava ninguém. Aceitava as pessoas exatamente como eram e, quando estava perto delas, fazia com que se sentissem as pessoas mais importantes do mundo. O pregador tinha carisma. Quando chegava perto de um grupo, de qualquer tamanho e em qualquer lugar, o ambiente até mudava: os sorrisos se abriam, as risadas aumentavam e todos ficavam animados.

Certo domingo, embora nunca tivesse entrado em uma igreja, o pequeno Ben Hooper decidiu ouvir o pregador. Chegou atrasado e saiu antes do final, porque não queria chamar a atenção.

Gostou do que ouviu. Pela primeira vez na vida, teve um pouco de esperança.

Ben voltou à igreja no domingo seguinte e nos próximos.

Sempre chegava atrasado e saía mais cedo, mas sua esperança crescia a cada domingo.

Por volta do sexto ou sétimo domingo, a mensagem foi tão envolvente que Ben ficou totalmente cativado por ela. Era como se houvesse um sinal luminoso atrás da cabeça do pregador onde se lia: "Há esperança para você, pequeno Ben Hooper, de paternidade desconhecida." Ben ficou tão envolvido pela mensagem que se esqueceu da hora e nem notou quantas pessoas haviam entrado depois que ele chegara.

De repente, o culto terminou. Ben levantou-se para sair depressa, como nos domingos anteriores, mas os corredores estavam lotados. Enquanto tentava passar pela multidão, sentiu uma mão em seu ombro. Ele se virou, levantou os olhos e deparou-se com o jovem pregador, que lhe fez a pergunta que esteve na mente de cada morador dali por 12 anos:

- Você é filho de quem?

Naquele momento, toda a igreja ficou em silêncio. Um sorriso se abriu no rosto do jovem pastor, e ele deu uma gargalhada, dizendo:

- Ah, já sei quem é seu pai. A semelhança é indiscutível. Você é filho de Deus!

O pastor acompanhou o menino até a saída da igreja e disse:

- Que herança você recebeu, garoto! Agora, vá e cuide bem dela, para que viva à altura.

 

Um amigo é aquele que entra quando todos os outros saem.

WALTER WINCHELL

 

QUANDO DEUS CRIOU OS PAIS

Erma Bombeck

Histórias Para o Coração do Homem 139

 

Quando o bom Deus estava criando os pais, começou a fazê-los com uma estrutura bem alta.

Um anjo que estava por perto disse:

- Que tipo de pai é esse? Se o Senhor vai fazer os filhos pequenos, por que criar os pais tão altos? Eles não conseguirão jogar bolinha de gude a não ser que se ajoelhem, não colocarão os filhos na cama se não se curvarem, nem beijarão uma criança sem se inclinarem.

Deus sorriu e respondeu:

- Sim, mas se eu os fizer do tamanho de uma criança, para quem elas levantarão os olhos?

Quando fez as mãos dos pais, Deus as criou grandes e fortes.

O anjo balançou a cabeça negativamente e disse:

- Mãos grandes são desajeitadas. Não conseguem lidar com fraldas, pequenos botões, presilhas em rabos-de-cavalo, nem mesmo tirar pequenas farpas das mãos pequeninas.

Deus, mais uma vez, sorriu e disse:

- Eu sei disso. Mas mãos grandes podem segurar tudo o que um garotinho tira do bolso no final do dia e são do tamanho ideal para acariciar o rosto de uma criança.

Então, Deus esculpiu pernas longas e elegantes e ombros largos.

O anjo quase teve. um ataque.

- Já estamos quase no final da semana, e o Senhor percebeu que acaba de fazer o pai sem um colo? Como ele vai fazer para segurar uma criança sem deixá-Ia cair?

Deus sorriu e disse:

- As mães precisam de um colo. Os pais precisam de ombros fortes para carregar uma bicicleta ou apoiar a cabeça de uma criança que dorme na volta de um passeio.

Deus estava bem no meio da criação dos maiores pés já vistos, quando o anjo não se conteve e disse:

- Isso não é justo. O Senhor acha que essas duas lanchas vão conseguir sair da cama bem cedo ao ouvir o bebê chorar? Acha que será possível andar num salão de festas sem esmagar pelo menos três convidados?

Deus sorriu e disse:

- Eles vão funcionar bem. Você verá. Servirão de apoio para brincar de cavalinho, afugentarão camundongos nas choupanas de veraneio e exibirão sapatos que serão um desafio calçar. Deus trabalhou a noite toda, dando ao pai poucas palavras, mas uma voz firme e cheia de autoridade, e olhos que, embora vissem tudo, permaneciam calmos e tolerantes.

Finalmente, quase como uma ideia de última hora, acrescentou as lágrimas. Então, virou-se para o anjo e disse:

- Agora, ele pode amar tanto quanto uma mãe. Satisfeito?

O anjo calou-se.


 

A PROMESSA DE UM PAI

Arthur Gordon

Histórias Para o Coração do Homem 141

 

 

Quando eu tinha13 anos e meu irmão dez, papai prometeu levar-nos ao circo. Mas durante o almoço recebeu um telefonema: um negócio urgente para resolver no centro da cidade. Meu irmão e eu já nos preparávamos para a frustração, quando o ouvimos dizer:

- Não, eu não irei. Eles terão que esperar.

Quando voltou para a mesa, mamãe sorriu e disse:

- Ora, o circo sempre volta.

- Eu sei - disse o pai -, mas a infância não.


 

O DESPERTAR

Bob Welch

Histórias Para o Coração do Homem 142

 

 

Eu estava sentado em uma antiga banheira cheia de mofo quando meu filho de 13 anos me perguntou:

- Qualquer dia você pode me levar para jogar golfe?

Eu tinha um banheiro para reformar, era outono e a previsão do tempo para aquela semana era de 100% de chuva no Oregon.

Minha vontade era de dizer não, mas respondi:

- Claro, em que você está pensando?

- Bem, talvez você pudesse pegar Jared e eu depois da aula, na sexta-feira, e nos levar para o campo de Oakway.

- Parece legal - respondi.

A sexta-feira chegou. As chuvas continuaram. Ficar em casa e reformar a banheira parecia a coisa mais sensata a fazer.

Mas, na hora combinada, tirei as roupas de pedreiro, vesti uma capa de chuva e coloquei os tacos dos meninos no porta-malas do carro.

Em frente à escola, Ryan e Jared entraram no carro. Ryan olhou-me perplexo.

- Por que você está usando chapéu de golfe, pai?

Pareceu-me uma pergunta tola, como perguntar a um mergulhador por que usava nadadeiras.

- Bem, pensei que fôssemos jogar golfe.

Houve uma pausa, como quando cai a linha do telefone.

- Mas você vai também?!

De repente, parecia que tinha levado uma pancada: não tinha sido convidado.

Treze anos de cuidados paternos passaram em segundos diante de meus olhos: o nascimento, as fraldas, as mamadeiras no meio da madrugada, as construções de castelos, as idas a jogos e acampamentos e tudo o que fizemos juntos - meu filho e eu.

Agora, eu não fora convidado. Era isso. Parecia o fim de nosso relacionamento habitual. Era como um "Adeus, meu velho, obrigado pelas lembranças. Mas já sou crescido o suficiente para dar as minhas próprias tacadas. Volte para a sua cadeira de balanço e para suas palavras cruzadas e - é claro - aqui está um cupom de desconto para o próximo frasco de vitaminas para a terceira idade".

Todas essas lembranças passaram em dois segundos por minha mente, e, agora, sobravam apenas três segundos para eu encontrar uma desculpa, dando a entender que não pretendia ir com eles.

Tinha que dizer algo. Minha vontade era falar o seguinte: Como pôde fazer isso comigo? Deixar-me de lado como um objeto que não quer mal? Nós sempre fomos unidos, e, para mim, isso era abandono.

Era um abuso. Já tinha lido e ouvido falar de coisas desse tipo.

Em 1805, Lewis virou-se para Clark e disse:

- Posso chegar até o Oregon sem você.

John Glenn passou uma mensagem de rádio à sala de controle da Missão para dizer:

- Obrigado, não preciso mais de vocês. A partir de agora, me viro sozinho.

Simon livrou-se de Garfunkel no auge do sucesso da canção "Bridge over Troubled Water" [Ponte sobre águas agitadas].

Por que as coisas não podiam ser do mesmo jeito? Eu não conseguia evitar esses pensamentos. Precisava expressar-lhe que eu estava magoado, tinha que demonstrar meus sentimentos. Reuni toda a coragem que consegui e, como uma bala, disparei tudo o que se passava em minha alma. Eu disse:

- Eu? Jogar? Imagine, você sabe que estou até o pescoço de serviço!

Dirigi em silêncio por alguns instantes, até que perguntei:

- Como você planeja pagar pelo jogo? - meu ego estava ferido, e eu o fuzilava com os olhos.

- Bem, poderia me emprestar sete dólares?

Ah, entendi. Ele não me quer, mas fica feliz em levar meu dinheiro.

- Tudo bem - respondi.

Eu os deixei no campo, desejei-lhe boa diversão e fui para casa. Meu filho estava por sua própria conta agora. Ninguém lhe ensinaria como fazer as melhores jogadas. E se caíssem raios ali?

E a hipotermia? E se fosse atropelado por um carrinho de golfe?

E quanto ao bando de jogadores competitivos que praticavam ali? Ele é tão pequeno, quem cuidará dele?

Eu dirigia sozinho para casa. Não era apenas um momento a sós, era para sempre. O laço se rompera, a vida nunca mais seria a mesma.

Entrei em casa, e minha esposa perguntou:

- O que você está fazendo aqui?

Sentia-me, naquele momento, mais como um garoto de 13 anos que foi o único da turma a não ser convidado para a festa.

Mantendo o meu ar de autopiedade, respondi:

- Eu não fui convidado.

Houve uma pausa, e, então, minha esposa começou a gargalhar. Primeiro, fiquei magoado, mas, em seguida, comecei a rir também. A situação ficou clara para mim.

Voltei à reforma do banheiro e percebi que a vida é feita de mudanças. É para isso que eu tenho preparado meu filho, não somente para um jogo de golfe sem mim, mas também para a vida no mundo sem mim, com seus próprios tacos, com sua própria fé.

Deus estava remodelando meu filho: aumentando alguns espaços, colocando uma nova peça aqui e ali. O trabalho que Deus estava fazendo era infinitamente melhor do que o meu, pois eu sempre tentava cercá-lo de todos os lados, impedindo seu crescimento.

Eu, também, quando tinha a idade de Ryan, pegava minha bolsa de tacos, colocava nas costas e ia de bicicleta para o campo de golfe Marysville, que ficava a oito quilômetros de casa.

Lembro-me de que me sentia um adulto andando pelo campo à noite, vendo homens jogando pôquer. Também não queria que meu pai estivesse ali; aquilo era coisa de meninos, e meninos têm que crescer.

Voltei para meu projeto de reforma do banheiro. Algumas horas depois, ouvi Ryan entrar em casa e reclamar com a mãe que suas tacadas não meteram a bola no buraco. Disse que as bolas se desviavam para a direita, e que o campo de golfe mais parecia um lago.

Veio me procurar, e ouvi o barulho que seu tênis encharcado fazia a cada passo que dava.

- Papai - disse - pingando de tanta água -, meu jogo foi podre.

Pode ir comigo da próxima vez? Preciso de ajuda.

Eu queria abraçá-Io, comemorar e gritar:

- Ainda sou útil! Obrigado, Deus, por deixar-me participar da obra de remodelagem dessa criança.

Mas, em vez disso, fiz um daqueles olhares de pai e, calmamente, disse:

- É claro, Ryan, a qualquer hora.


 

A VIAGEM DE CARRO

Paul Harley

Histórias Para o Coração do Homem 146

 

 

Os Bartons, de Sacramento, estavam voltando para casa debaixo de um temporal. Os pais estavam no banco da frente, e as duas meninas, no de trás.

Depois de dirigir 160 quilômetros, saíram da rodovia e pegaram uma estrada secundária. De repente, um carro que descia a montanha, com farol alto, veio em direção a eles. Pelo para-brisa molhado, o senhor Barton viu o clarão aproximar-se e jogou o carro para o acostamento. O carro derrapou e rodou na pista, enquanto o senhor Barton lutava para não perder a direção.

Finalmente, o carro parou no sentido contrário.

Quando Eloise Barton recuperou-se do susto, sua primeira preocupação foi com as crianças que estavam no banco traseiro.

Ela se virou e ouviu a filhinha de cinco anos reclamar:

- Eu estava dormindo, papai. Faz de novo!


 

OCUPADO DEMAIS

Ron Mehl

Histórias Para o Coração do Homem 149

 

 

Nunca me esquecerei do dia em que olhei pela janela da sala e vi Mark, nosso filho menor, vindo a pé da escola

debaixo de uma forte chuva. Mark estava na terceira série e tinha a permissão de ir de bicicleta para a escola, que ficava perto de casa.

Voltei da igreja para casa mais cedo naquele dia e, sentado em uma poltrona perto da janela, eu o vi caminhando com dificuldade sob a chuva torrencial. Suas roupas estavam encharcadas, e seu cabelo, grudado na cabeça. Abri a porta, e ele me olhou com um pequeno sorriso. Seu rosto estava vermelho por causa do frio.

- Oi, pai - ele disse. - Chegou cedo hoje.

- Oi, filho - respondi. - Você está encharcado até a alma. 

- É, eu sei.

- Sabe, Mark, se você tivesse ido de bicicleta, chegaria em casa mais depressa e não ficaria tão molhado.

Ele me olhou, acanhado, enquanto gotas de chuva escorriam por seu rosto.

- Eu sei, papai.

Fiquei confuso.

- Bem, filho, se você sabe, por que não fez isso?

Ele abaixou a cabeça ligeiramente, e eu entendi. Puxa, senti vontade de entrar debaixo da mesa e de me esconder. Ele me havia dito várias vezes que o pneu da bicicleta estava furado, pedindo:

- Papai, por favor, conserta para mim?

- Claro, filho - prometi. - Não se preocupe, daqui a pouco eu conserto.

Mas não consertei. Esqueci.

Ali, na entrada de casa, pingando e tremendo de frio, ele poderia ter dito:

- Eu não fui de bicicleta hoje porque alguém prometeu consertá-Ia e não o fez.

Teria todo o direito de dizer isso, mas não disse. O que falou ficou gravado no coração deste pai:

- Ah, papai, eu sei que você está muito ocupado com tantas coisas. Não queria incomodá-Io com isso de novo.

Eu pensei: Filho, deu pai não está ocupado de mais ele só é muito egoísta.

Para mim, um pneu de bicicleta não era tão importante - era só mais um item da lista de "coisas para fazer". Mas, para Mark, significava mais do que um transporte e mais do que uma caminhada na chuva; para ele, significava confiar em seu pai para suprir sua necessidade.


 

O PRIMEIRO ENCONTRO

Nola Bertelson

Histórias Para o Coração do Homem 152

 

 

Após mais de 50 anos de casamento, meu marido e eu ainda gostamos de tomar um milk-shake de chocolate juntos quando saímos. Recentemente, descobrimos uma lanchonete com uma decoração agradável, no estilo anos 1930. Seus shakes são cobertos com chantily e servidos em um copo alto, bem gelado, sobre uma bandeja com toalhinhas rendadas.

Ao tomar a primeira colherada, meus pensamentos voltaram-se para meu primeiro encontro em uma antiga lanchonete em Minnesota. Um homem alto, bonito e elegante acompanhava uma menina de sete anos e cabelos castanhos a um quiosque de madeira. A garotinha sentia-se especial, orgulhosa e crescida.

Empertigada, tentando parecer mais alta, ela se sentou à mesa diante do belo pai. Foi nesse primeiro encontro que ele pediu meu primeiro milk-shake de chocolate.

Essa lembrança me vem à mente como uma cena pintada pelo artista Norman Rockwell para a capa do jornal Saturday Evening Post.

Não é maravilhoso quando certa atmosfera, ou mesmo um sabor, é capaz de nos transportar ao passado e nos fazer reviver boas lembranças?


 

O PAI APAIXONADO

Philip Yancey

Histórias Para o Coração do Homem 153

 

 

Uma jovem cresceu em meio a uma plantação de cerejas ao norte de Traverse City, Michigan. Seus pais não aceitavam seu piercing no nariz, as músicas que ela escutava e o comprimento de suas saias. Algumas vezes, eles a repreendiam, e a menina ficava muito nervosa.

- Odeio vocês! - gritou quando o pai bateu à porta de seu quarto logo após uma discussão.

Naquela noite, resolveu executar um plano que, muitas vezes, havia mentalmente ensaiado: fugiu de casa.

Visitara Detroit só uma vez, em uma viagem de ônibus com os jovens da igreja, para assistir ao jogo dos Tigers. Os jornais de Traverse City sempre traziam reportagens assustadoras a respeito das gangues, das drogas e da violência no centro de Detroit por isso, concluiu que esse seria o último lugar em que os pais procurariam por ela. Na Califórnia sim, ou talvez na Flórida, mas nunca em Detroit.

Em seu segundo dia em Detroit, conheceu um homem que dirigia o maior carro que ela já vira. Ele lhe ofereceu uma carona, pagou o almoço para ela e arrumou um lugar onde pudesse ficar.

Deu a ela alguns comprimidos que a fizeram sentir-se tão bem como nunca antes.

Estava no caminho certo, concluiu: os pais é que não a deixavam divertir-se.

A boa vida continuou por um mês, dois meses, um ano. O homem com o carrão - ela o chamava de "chefe" - ensinou-lhe algumas coisas de que os homens gostavam. Por ser menor de idade, os homens pagavam muito bem por ela. Ela morava em uma cobertura e tinha à sua disposição o serviço de quarto. De vez em quando, pensava na família, mas eles pareciam ter uma vida tão entediante e provinciana que ela mal podia acreditar que tinha crescido em tal lugar.

Assustou-se ao ver sua foto estampada em uma embalagem de leite com os dizeres: "Você viu esta criança?" Agora, com o cabelo tingido de loiro, usando grande quantidade de maquiagem e de piercing pelo corpo, ninguém a confundiria com uma criança. Além do mais, a maioria de seus amigos havia fugido de casa e, em Detroit, ninguém costumava ser delator.

Depois de um ano, os primeiros sinais de palidez da doença apareceram, e ela ficou chocada com a mudança súbita de atitude do chefe:

- Nos dias de hoje, não dá para manter gente à toa... - ele resmungou.

E, antes que se desse conta do que estava acontecendo, já estava na rua, sem um centavo sequer. Ainda conseguiu alguns "trabalhos" à noite, mas não ganhava muito, e todo o dinheiro era gasto com seu vício.

O inverno chegou, e ela se viu dormindo na rua, encostada nas portas de metal do lado de fora das lojas. "Dormindo" não é bem o termo - uma adolescente sozinha, à noite, no centro de Detroit, nunca pode baixar a guarda. Suas olheiras aumentaram, e sua tosse piorou.

Em uma noite, ainda estava acordada e atenta ao que se passava a seu redor quando, de repente, tudo em sua vida pareceu diferente. Não se sentia como uma mulher do mundo, mas sim como uma garotinha perdida em uma cidade fria e assustadora.

Começou a chorar. Seus bolsos estavam vazios, e ela se sentia faminta. Precisava da droga.

Encolheu as pernas, tremendo debaixo do jornal que usava como cobertor. Uma lembrança, uma simples imagem, encheu sua mente: o mês de maio em Traverse City, quando milhares de cerejeiras floresciam ao mesmo tempo e seu cão de caça corria por entre as fileiras das árvores em flor, à procura da bolinha de tênis que ela atirava.

Deus, por que fugi?, disse a si mesma com uma dor que feria seu coração como uma punhalada. Meu cachorro, lá em casa, come melhor do que eu... soluçava ela, sabendo que o que mais queria no mundo era voltar para casa.

Três telefonemas, todos atendidos pela secretária eletrônica.

Nas duas primeiras vezes, desligou sem deixar uma mensagem;

na terceira, disse:

- Papai, mamãe, sou eu. Estava pensando em voltar para casa. Vou pegar o ônibus e chegarei aí por volta da meia-noite de amanhã. Se vocês não estiverem esperando por mim, bem, acho que seguirei para o Canadá.

Eram sete horas de viagem, com paradas entre Detroit e Traverse City. Durante esse tempo, ela pôde perceber as falhas em seu plano. E se os pais estivessem fora da cidade e não tivessem ouvido a mensagem? Seria melhor ter esperado mais um dia até que conseguisse falar com eles? Se eles estivessem em casa, provavelmente já a consideravam morta há muito tempo. Deveria ter-lhes dado um tempo para se recuperar do choque.

Muitos pensamentos tomavam conta de sua mente, além da preocupação com o discurso que preparara para o pai: "Papai, sinto muito. Sei que estava errada. A culpa não é sua; é toda minha. Papai, pode me perdoar?" Ela dizia essas palavras consigo mesma sem parar, como se estivesse ensaiando. Há muitos anos, não se desculpava com ninguém.

O ônibus andava com as luzes acesas desde Bay City. Pequenos flocos de neve caíam no asfalto aquecido pelos milhares de pneus que ali rodavam, fazendo subir um vapor. Ela havia se esquecido de como as noites eram escuras ali. Um cervo cruzou a estrada, e o ônibus deu uma guinada, tentando desviar-se. De vez em quando, via-se um outdoor na estrada. Uma placa indicava quantos quilômetros faltavam até Traverse City. Oh, DEUS!.

Quando o ônibus, finalmente, entrou na estação rodoviária, os freios a ar assobiaram em protesto, e o motorista anunciou no microfone:

- Quinze minutos, pessoal. É todo o tempo que permaneceremos aqui.

Quinze minutos para decidir a vida.

Ela se olhou no espelho de bolsa, penteou o cabelo e limpou o dente manchado de batom. Olhou para as manchas de nicotina nas pontas dos dedos e imaginou se os pais notariam. Se eles estivessem ali...

Desceu no terminal sem saber o que esperar. De milhares de cenas que imaginou, nenhuma se comparava ao que a aguardava.

Ali, naquele terminal rodoviário de paredes de concreto e cadeiras plásticas, em Traverse City, Michigan, estava um grupo de 40 irmãos e irmãs, tios e tias, primos, uma avó e uma bisavó para recepcioná-la. Todos usavam chapeuzinhos de festa e as sopravam apitos. Ocupando toda a parede do terminal, havia uma faixa feita em computador na qual se lia: "Bem-vinda ao lar!" Da multidão que a esperava, surge o pai. Por entre lágrimas, ela o olha e começa o discurso preparado:

- Papai, sinto muito. Eu sei...

Ele a interrompe:

- Psiu, filha. Não temos tempo para isso. Não temos tempo para desculpas. Você vai se atrasar para a festa. Há um banquete esperando por você lá em casa.


 

MEU FILHO QUE ESTÁ POR VIR

Walter S. Sparks Jr.

Histórias Para o Coração do Homem 157

 

 

Filho! Palavra simples e amada.

Meu menino! Que maravilhosa expressão.

Contamos os meses até sua chegada:

Os meses, as semanas, os dias até então...

 

Dizem que bebês pequenos desconhecidos são.

Mas você não será assim, não!

O dobro de minhas virtudes e a metade de meus defeitos terá.

E um desconhecido para mim jamais será.

 

Sua mãe é forte como ramos novos.

Você será o mais puro da família, o mais escolhido

Carne de sua carne, osso de seus ossos,

De você faremos um verdadeiro homem, não duvido.

 

Em breve, em meus fortes braços o terei.

Você, que gritará de alegria.

Orgulho simples, maravilhoso e ardente experimentarei

Por meu filho você ser, simplesmente.

 

Dormindo nos braços de sua mãe o verei,

Em seu peito aninhado.

Porque sou seu escudo, a Deus agradecerei.

Por ser capaz de os proteger, meus amados.

 

Maravilhoso é o quebrar das ondas poder ver,

E doces as fragrâncias da Primavera são.

Mas a voz silenciosa de um filho por nascer

É de Deus a mais bela criação.

 

Da voz silenciosa, ouvimos o rumor.

Sua mãe e eu a esperar...

Esperar pelo fruto de nosso amor,

Você, que logo vai chegar.

 

Um mundo maravilhoso ansiamos lhe mostrar

Com coisas incríveis por fazer.

O melhor de nós desejamos lhe dar.

Para você, meu filho, queremos viver.


 

A DURA LIÇÃO QUE APRENDI

Aaron Ruppert

Histórias Para o Coração do Homem 159

 

 

- Hora de levantar-se! - disse papai com voz bem-disposta para as 6 horas da manhã.

Levantei-me vagarosamente, nem um pouco animado para enfrentar o dia de trabalho que papai tinha planejado para mim.

Com aproximadamente cem cabeças de gado e mais de mil acres de terra, o verão era sempre atarefado na fazenda, e papai cuidava para que eu não escapasse das coisas por fazer. Ele me dizia que trabalhar muito forma o caráter de um garoto de 16 anos, mas meus amigos não trabalhavam, e todos tinham um bom caráter...

Meu trabalho para aquele dia era ceifar cem acres de feno em três campos que ficavam a um quilômetro e meio de casa. A parte boa dessa tarefa era que eu empurraria o cortador novo de papai usando o trator emprestado do vizinho, que tinha rádio e ar-condicionado. O cortador ultrapassava quase em três metros a largura do trator e podia ser colocado em posição vertical ao chão para transporte na estrada. Depois de fixar o cortador à parte traseira do trator, fui, lentamente, em direção aos campos, tentando me acostumar com o novo equipamento.

Comecei a ceifar ao redor do campo, pela parte externa, para deixar mais espaço para as voltas. Então, dividi o campo em partes para que desse voltas mais curtas e trabalhasse em áreas menores. Assim que dividi o campo, comecei a ceifar as longas fileiras.

Horas e horas se passaram, e eu continuava a ceifar, indo para a frente e para trás, levantando o cortador a uma pequena distância do chão para a pr6xima manobra. Quando já estava para terminar, coloquei minha mão sobre a alavanca hidráulica para levantar o cortador. Ao terminar a última parte do campo, fui levantar novamente o cortador, só que, dessa vez, em vez de levantá-lo poucos centímetros, a alavanca travou na posição de subida, e o cortador subia sem parar.

Sem perceber que ele estava muito alto, virei o trator para outra passada Com a virada e com o cortador no alto, o trator começou a tombar. Tudo pareceu acontecer em câmera lenta e, ainda assim, não pude fazer nada. Um segundo depois, lá estava eu, .com o trator tombado. Imediatamente, desliguei o motor e pulei pala porta aberta. Fiquei em cima daquele trator virado por alguns momentos, sem acreditar que aquilo tinha acontecido. Desci e comecei a andar de volta para casa, olhando, de vez em quando, para trás a fim de me certificar de que o trator ainda estava tombado e de que eu não estava imaginando coisas.

Meus pensamentos voltaram-se para um dilema: como contar a meu pai que, em menos de um segundo, virei um cortador de 800 dólares juntamente com o trator do vizinho de 60 mil dólares?

Finalmente, cheguei em casa, mas papai havia saído. Entrei para esperar por ele. Depois de 45 minutos, os mais longos de minha vida, papai estacionou a caminhonete na entrada da casa, e fui a seu encontro. Por minha expressão, ele sabia que alguma coisa estava errada. Perguntou-me o que acontecera, e reuni todas as forças para contar-lhe sem irromper em lágrimas.

- Vamos ver o que houve - foi tudo o que ele disse enquanto voltava para a caminhonete.

Comecei a chorar. Papai me brindou com um olhar tranquilizador e disse que tudo ficaria bem. Eu não tinha certeza disso, mas depois vi que ele estava certo. Puxou o trator para desvirá-lo e, para a nossa surpresa, os danos foram pequenos.

Por algum tempo, minha história foi a sensação da vizinhança. Todos comentavam a respeito de mim. Mas eu não tinha ideia do efeito que aquele incidente teria sobre minha vida. Quando olho para trás, vejo um garoto de 16 anos transformando-se em um homem de 16 anos. Meu pai não estava somente me dando um trabalho, mas também responsabilidade. Ele estava me ensinando a ser responsável por meus atos e a reparar meus erros. Poderia ter-me tratado como o garoto imaturo que eu era, mas tratou-me como um homem. Comecei a entender o que ele queria dizer quando falava sobre caráter.

Caráter não se adquire automaticamente com determinada idade. E algo transmitido, por aqueles a quem amamos e respeitamos. Tenho muito a aprender sobre a vida, mas é reconfortante saber que, qualquer que seja a situação que eu enfrentar, tenho não somente um pai para me ajudar; tenho também um amigo.


 

CONCEDE-ME UM FILHO

General Douglas A. MacArthur

Histórias Para o Coração do Homem 162

 

 

Concede-me um filho, ó Senhor, que seja forte o suficiente para entender quando está fraco, que seja corajoso o suficiente para admitir que está com medo; um filho que tenha orgulho e que não se curve diante de uma derrota honesta, e que seja humilde e cavalheiro diante da vitória.

Concede-me um filho cuja espinha dorsal não se dobre; um filho que te conheça - e que saiba que a pedra fundamental do conhecimento é conhecer a si mesmo.

Conduze-o, eu oro, não no caminho da facilidade e do conforto, mas sob a força e o aguilhão das dificuldades e desafios.

Permite que ele aprenda a permanecer firme na tempestade; permite que ele aprenda a ter compaixão pelos que caem.

Concede-me um filho cujo coração seja límpido, cujos objetivos sejam altos; um filho que saiba dominar-se, e que não tente dominar outros homens; um filho que aprenda a rir, mas que também nunca desaprenda a chorar; um filho que pense no futuro, sem nunca esquecer o passado.

E depois que meu filho for tudo isso, eu oro, acrescenta-lhe um pouco de senso de humor, de modo que ele possa ser sempre sério, mas que nunca se comporte de maneira muito grave. Dá-lhe humildade para que possa sempre lembrar-se da simplicidade da verdadeira grandeza, da mente aberta para a verdadeira sabedoria, da humildade da verdadeira força. E, depois, permite que eu, seu pai, me atreva a murmurar: "Minha vida não foi em vão."


 

O PACOTE DE CORDAS

Charllie Shedd

Histórias Para o Coração do Homem 163

 

 

Eu prometo que nunca direi "não" quando puder dizer "sim". Ouvimos isso com frequência. Bebês criados em um ambiente positivo desenvolvem personalidades melhores do que aqueles que ouvem constantes palavras como "não" e "pare".

Deixe-me explicar melhor. Isso tem a ver com um velho e sujo pacote de cordas. Quando nos mudamos de Nebraska para Oklahoma, nós o trouxemos. Eu as usava para amarrar sacos de alimentos e de itens variados. O pacote custou um dólar e quinze centavos. Então, eu disse:

- Phillip, você está vendo essas cordas? Não mexa nelas.

Mas ele parecia fascinado e mexia nelas sem parar.

- Não, não pode! - eu dizia, mas não adiantava.

Isso continuou por seis ou oito meses. Um dia, cheguei em casa cansado. Ali estava a garagem, que parecia terra de ninguém, cheia de cordas espalhadas por todos os lados. Aquilo me provocou. Rangi os dentes e dei um golpe em tudo aquilo. De repente, bem no meio da confusão, uma luz brilhou. Perguntei a mim mesmo:

- Para que você quer tanto essas cordas? E se Phillip quer usá-Ias?

Fui jantar naquela noite e disse a Phillip:

- Bem, sobre aquelas cordas...

Ele balançou a cabeça e murmurou:

- Sim, papai.

Então...

- Phillip, mudei de ideia - continuei. - Você pode usá-Ias quando quiser e, também, todas as ferramentas da garagem com a etiqueta "não". Posso comprar ferramentas novas, mas não posso comprar um filho novo.

Nunca vi um sorriso como aquele.

- Obrigado, papai - disse ainda sorrindo.

E, adivinhe? Ele nunca mais tocou nas cordas...


 

DESEJO

KENT HUGHES

Histórias Para o Coração do Homem 164

 

 

Você acaba de terminar uma corrida e está sentado no banco, suando e cheirando como um gambá.

Seu filho, ou talvez o filho do vizinho, senta a seu lado encosta em você e diz:

- Você está com um cheiro bom!

Este é o principal desejo do coração de um pai.

 

 


 

O PODER DE UMA IMAGEM

John Trent

Histórias Para o Coração do Homem 165

 

 

Os filmes a que assistimos afetam nossa vida não só cultural, como também pessoal. As imagens que vemos nas telas são as que carregamos quando deixamos o cinema. Elas têm enorme efeito subliminar sobre nós. Essas imagens moldam nossa compreensão a respeito do relacionamento entre marido e mulher, entre pais e filhos e entre amigos.

Considere esta imagem como um exemplo.

Marion não se parece muito com um nome masculino, mas é o nome do astro que se tornou um ícone da masculinidade para milhões de pessoas. Seu nome completo era Marion Michael Morris. Seu nome artístico era John Wayne. O Duke.

As imagens que ele deixou nas telas exerceram grande impacto na consciência masculina por mais de quatro décadas. Seus filmes projetavam a imagem de um homem independente, sem dono, que não recebia ordens de ninguém. Ele vencia com o esforço próprio. Atirava com precisão e saía a galope. Ficou famoso por algumas falas, como a do filme Os Dominadores:

- Nunca peça desculpas, senhor. Isso é sinal de fraqueza.

É claro que isso não é verdade. Mas ouvir o Duke dizer isso em uma tela gigantesca soava como verdade.

Esse é o poder de um personagem, especialmente quando esse personagem é alguém que você gostaria de ser. Mesmo que ele ou ela não diga a verdade, nós recebemos o que diz como tal, porque aquela pessoa tem grande influência. Pode ser um artista, um treinador ou um professor.

Ou um pai.

Os pensamentos a seguir são de um homem que refletiu sobre as imagens que deixou na vida do filho. Creio que ele é o tipo de homem que John Wayne gostaria de ter tido como pai.... antes de se tornar o Duke, enquanto ainda era o pequeno Marion.

 

Escute bem, filho, estou dizendo estas palavras aqui, enquanto você dorme, com esse pequeno arranhão na bochecha e esses cachos louros úmidos na testa.

Alguns momentos atrás, sentei para ler o jornal e uma onda de remorso me invadiu. Sentindo-me culpado, vim até sua cama.

Filho, estas são as coisas nas quais eu pensava:

tenho sido um pai muito nervoso. Briguei com você quando, para ir se encontrar comigo, atravessou a rua sem olhar para os dois lados. Não gostei. Eu lhe dei um castigo por não limpar os sapatos. Gritei quando jogou algumas coisas suas no chão.

No café da manhã, também falhei. Você derramou as coisas, engoliu a comida sem mastigar, colocou os cotovelos na mesa e passou uma grossa camada de manteiga no pão. Enquanto você brincava, e eu fui pegar o ônibus para o trabalho, você se virou, acenou e gritou:

- Tchau, papai.

E eu franzi as sobrancelhas e mandei você ficar quieto.

E, no final da tarde, começou tudo de novo.

Quando cheguei em casa, vi você ajoelhado jogando bolinhas de gude. Havia buracos em suas meias. Eu o humilhei na frente de seus amigos empurrando você para casa. Meias custam caro - se você tivesse que comprá-las, seria mais cuidadoso...

Você se lembra, depois, quando eu estava lendo o jornal e você entrou timidamente com um olhar triste? Eu só dei uma olhada para você, irritado pela interrupção. Você hesitou, e eu gritei:

- O que você quer?

Você não disse uma palavra, mas jogou-se impetuosamente em minha direção, me abraçou, me beijou e subiu as escadas correndo, pisando forte nos degraus.

Bem, filho, foi então que deixei o jornal de lado e um terrível sentimento me sobreveio. O que os hábitos estão fazendo comigo? Essa mania que tenho de procurar falhas ou de reprimir... Não é por não amar você; é porque espero muito de você. Eu o estava medindo com a medida de meus anos.

Há tantas qualidades em seu caráter. Não importa o que eu diga, você sempre vem, com uma espontaneidade infantil, correndo para me beijar e dizer boa-noite. Hoje, nada mais importa, filho. Estou aqui no escuro, ajoelhado e envergonhado!...

A partir de amanhã, serei um pai de verdade.

Serei amável e atencioso. Riremos e choraremos juntos. Não se preocupe, filho. Eu me lembrarei de como você é importante e de quem você é.

Lamento ter imaginado você como um homem.

Mas, ao ver você agora, filho, dormindo tão serenamente, vejo que ainda é uma criança. Ainda ontem, você estava nos braços de sua mãe, com a cabecinha aninhada em seu colo. Exigi muito de você. Exigi que você fosse um homem, filho, mas você é somente um garotinho.

Meu garotinho.

W. Livingston Larned

 

Quando você olhar para seu filhinho ou filhinha, para seu irmão mais velho ou irmã mais nova, para sua mãe doente ou seu pai idoso, para seu pastor, líder de jovens, diretor da escola ou melhor amigo, não tenha medo de se desculpar. Não fique somente ensaiando ou confessando seus erros em suas orações.

Separe um tempo para conversar com a pessoa. Não importa o que se diz por aí, desculpar-se não é sinal de fraqueza. É sinal de força.


 

MIKE E A GRAMA

Erma Bombeck

Histórias Para o Coração do Homem 169

 

 

Quando Mike tinha três anos, queria muito uma caixa de areia para brincar, e o pai dele disse:

- Lá se vai nosso quintal... Teremos crianças aqui dia e noite; elas vão jogar areia nos canteiros de flores, e os gatos farão uma sujeira. Com certeza, a grama morrerá.

A mãe de Mike disse:

- A grama aparecerá de novo.

Quando Mike tinha cinco anos, ele queria um trepa-trepa com balanças de tirar o fôlego e barras que o levassem até as alturas, e seu pai disse:

- Nem pensar, eu já vi esse brinquedo nos quintais. Eles fazem buracos enormes no chão, sem falar nos tênis das crianças, que arrancarão a grama. A grama morrerá.

A mãe de Mike disse:

- A grama aparecerá de novo.

Papai estava enchendo a piscina de plástico e, entre um fôlego e outro, advertiu:

- Você sabe o que eles vão aprontar aqui? Vão arrasar o lugar e usá-Io como plataforma de lançamento de mísseis... Espero que saiba o que está fazendo. Eles vão jogar água para todo lado, fazer um milhão de guerras de pistolas d'água, e ninguém conseguirá limpar o lixo sem se afundar na lama até o pescoço. Quando tirarmos a piscina daqui, a grama estará toda marrom...

- Ela aparecerá de novo - a mãe de Mike disse.

Quando Mike tinha 12 anos, ofereceu seu quintal para um acampamento. Enquanto montavam as barracas e fincavam as estacas, seu pai, da janela, observava.

- Por que eu não coloco as sementes de grama numa tigela de sucrilhos e dou aos pássaros para não ter o trabalho de plantar tudo de novo ? Você sabe que aquelas barracas e aqueles pés enormes vão destruir cada pedacinho de grama, não é? Não se preocupe em responder. Já sei o que você vai dizer: "A grama aparecerá de novo..." A tabela de basquete ao lado da garagem atraiu mais multidões do que as Olimpíadas. Um pequeno pedaço de grama pisoteado pode desencadear a morte de todo o gramado.

Quando parecia que as novas sementes estavam criando raízes, o inverno chegou, e os trenós deixaram enormes sulcos na neve. O pai de Mike balançou a cabeça e disse:

- Nunca pedi muitas coisas na vida... só queria ter um belo gramado...

A esposa sorriu e disse:

- A grama aparecerá de novo.

O gramado, nesse outono, estava lindo: verdinho, parecendo um tapete ao longo da entrada em que os tênis tinham pisado... da garagem em que bicicletas eram largadas... do canteiro de flores em que a garotada costumava cavar com pequenas colheres...

Mas o pai de Mike não tirou proveito algum disso. Ansiosamente, olhava além do jardim e perguntava com um pouco de apreensão na voz:

- Ele aparecerá, não é?


 

NOSSA MENINA

Max Lucado

Histórias Para o Coração do Homem 171

 

 

- Jenna, acorde! Está na hora de ir para a escola.

Ela ouvirá essas palavras milhares de vezes na vida. No entanto, foi a primeira vez nesta manhã.

Sentei-me na beirada de sua cama por alguns instantes antes de dizê-Ias. Para falar a verdade, não queria dizê-Ias. Eu não queria acordá-Ia. Uma estranha hesitação tomou conta de mim.

Sentado, ali, em silêncio, percebi que minhas palavras a despertariam para um novo mundo. Os quatro anos haviam voado e, durante todo esse tempo, ela havia sido nossa, só nossa. Mas, agora, tudo mudaria.

Na noite passada, nós a colocamos na cama como "nossa menina": propriedade exclusiva de mamãe e papai. Mamãe e papai liam para ela, a ensinavam e a escutavam. Mas, a partir de hoje, outra pessoa o faria também.

Até agora, mamãe e papai limpavam suas lágrimas e faziam os curativos. Mas, a partir de hoje, outra pessoa o faria também.

Eu não queria acordá-Ia.

Até hoje, sua vida resumia-se apenas a nós: mamãe, papai e a irmãzinha Andréa. Mas, agora, seu círculo de amizades se ampliaria: novos amigos e uma professora. Esta casa era seu mundo: seu quarto, seus brinquedos, sua balança. Hoje seu mundo começa a expandir-se. Ela adentrava os corredores da educação: pintura, leitura, cálculos... estava crescendo.

Eu não queria acordá-Ia. Não por causa da escola, pois é uma excelente escola. Não por não querer que ela aprenda, pois Deus sabe que eu quero que ela cresça, leia e amadureça. Não porque ela não queira ir. Ela só fala da escola desde a semana passada!

Não, eu não queria acordá-Ia porque não quero entregá-Ia.

Mas, de qualquer maneira, eu a acordei. Interrompi sua infância com a inevitável declaração:

- Jenna, acorde... está na hora de ir para a escola.

Levei a vida toda para me vestir. Denalyn viu o meu sofrimento e me ouviu murmurando a canção Sunrise Sunset* [Aurora, ocaso] e disse:

- Você não suportará o casamento dela.

Ela está certa.

Nós a levamos para a escola em dois carros, para que eu pudesse seguir direto para o trabalho. Pedi a Jenna que fosse em meu carro. Pensei que, dessa maneira, lhe daria um pouco de segurança paterna. Mas, na verdade, era eu que precisava de segurança.

Para alguém dedicado à arte das palavras, consegui falar somente algumas poucas. Disse a ela que se divertisse, que obedecesse à professora, e também:

- Se você se sentir só e com medo, peça à professora que ligue para mim, e eu virei buscá-Ia.

- Está bem - ela sorriu e me perguntou se poderia escutar uma fita com músicas infantis.

- Tudo bem - respondi.

Enquanto ela cantava, eu engolia a seco. Eu a observava.

Estava crescida. Seu pescocinho esticava-se ao máximo para que ela pudesse olhar por cima do painel. Seus olhos brilhavam. Suas mãos repousavam no colo. Seus pés, que mal se estendiam além do banco, estavam calçados com um par de tênis novinho, azul turquesa e rosa.

- Denalyn tinha razão - resmunguei para mim mesmo. - Nunca suportarei o casamento dela.

O que ela está pensando?, imaginei. Ela sabe que, a partir de hoje, começará a galgar os degraus da escolaridade?

Não, ela não sabia. Mas eu sabia. Quantas lousas seus olhos veriam? Quantos livros suas mãos segurariam? Quantos professores seus pés seguiriam e - engoli a seco de novo - imitariam?

Se eu pudesse, com certeza, reuniria todas as centenas de professores, instrutores, treinadores e tutores que ela terá nos próximos 18 anos e anunciaria:

- Esta não é uma aluna comum. É a minha filha! Tomem cuidado com ela!

Estacionei o carro, desliguei o motor, e minha mocinha tornou-se pequenina novamente. E foi a voz dessa menininha que quebrou o silêncio:

- Papai, eu não quero ir.

Olhei para ela. Os olhos brilhantes agora estavam temerosos.

Os lábios que cantavam agora tremiam. Fiz um esforço sobre-humano para não ceder a seu pedido. Tudo dentro de mim queria dizer:

- Está certo, vamos esquecer tudo e ir embora daqui.

Por um rápido momento, que me pareceu uma eternidade, pensei em sequestrar as minhas próprias filhas, pegar minha esposa e escapar dessas horríveis garras do progresso indo viver no Himalaia para sempre.

Mas eu sabia o que era melhor. Eu sabia que havia chegado o tempo. Eu sabia o que era certo. Eu sabia que ela ficaria bem.

Nunca imaginei que fosse tão difícil dizer:

- Querida, você ficará bem. Vamos, eu a levo no colo.

E ela ficou bem. Assim que entrou na classe, a curiosidade falou mais alto. Eu saí. Eu a entreguei. Não muito. Não tanto quanto terei que fazer no futuro, mas na medida em que fui capaz no dia de hoje.


 

MEU HERÓI

Histórias Para o Coração do Homem 175

 

 

Durante o inverno de 1965, os funcionários do Hall da Fama do Beisebol, em Cooperstown, Ohio, fizeram uma descoberta marcante e comovente.

Enquanto reformavam a zona das sessões do museu, encontraram zona fotografia escondida em uma fresta, embaixo de um expositor. O homem na fotografia tinha um taco sobre os ombros e usara um uniforme com as palavras "Sinclair Oil" (Companhia de Óleo Sinclair) estampadas no peito. Tinha zona postura gentil e amável. Havia um bilhete de um fã, escrito a caneta, grampeado junto à fotografia. Nele estava escrito:

 

Você nunca estava cansado demais para jogar: Em seus dias de folga, ajudou a construir o campo de beisebol da Pequena Liga. Você sempre foi assistir a meus jogos. É o Pai do Hall da Fama. Gostaria de compartilhar este momento com você. Seu filho, Peter.

 

Um filho, chamado Peter, descobriu uma maneira criativa de colocar o pai no Hall da Fama. Robert Lewis


 

ELES ME QUEREM POR UM MOTIVO

David Dravecky

Histórias Para o Coração do Homem 176

 

 

Desde que comecei a brincar de apanhar as bolas de beisebol que papai arremessava, esse esporte tornou-se minha vida. Era o que eu assistia na TV quando estava em casa e o que eu jogava quando estava fora de casa. Era sobre o que eu lia quando me deitava na sala ou quando pegava o jornal de domingo.

Minha vida era completamente dominada pelo beisebol e, ao jogar, dependia totalmente de meu braço. Não demorou muito para que ele chamasse a atenção da vizinhança. Quando escolhiam os times, todos me queriam.

Eles me queriam por um motivo: meu braço.

Quando me tornei adolescente, passei a chamar a atenção de toda a escola. Foi quando fiz meu primeiro arremesso e o batedor não conseguiu rebater. Meu nome começou a aparecer nas páginas de esportes e, logo, nas manchetes.

Tudo por causa de meu braço. O meu braço atraiu a atenção dos olheiros das ligas profissionais, e o que, para mim, era uma brincadeira de infância, tornou-se um meio de vida.

Minha capacidade de sustentar a família não se baseava em meu bom caráter, em minha inteligência, nem em muitas horas gastas no trabalho, mas unicamente naquilo que meu braço faria no jogo. Quanto mais pontos meu braço fizesse, mais eu valeria. Quanto mais jogos meu braço vencesse, mais as pessoas iriam me querer em seu time.

Quando conversavam comigo, ele era o centro da conversa.

- Como está seu braço hoje, Dave?

- Seu braço está pronto para hoje à noite?

- Melhor colocar um pouco de gelo no braço para evitar o inchaço.

Os meus braços eram, para mim, o que as mãos são para um pianista, as pernas para uma bailarina e os pés para um corredor.

Era por causa deles que as pessoas me aclamavam e pagavam para me ver atuando. Isso era o que me tornava valioso, pelo menos aos olhos do mundo.

Então, de repente, meu-braço se foi.

Quanto de mim se foi com ele? Quanto daquilo que as pessoas pensavam se foi com ele?

Fiquei apreensivo e questionei como meu filho reagiria ao me ver. Ele ficaria com medo? Ele ficaria triste por mim? Ele manteria distância? E minha filha? Ficaria envergonhada quando saíssemos para jantar? Como se sentiria quando as pessoas olhassem para mim? Como minha esposa se sentiria? O que ela pensaria de um homem que não consegue amarrar os próprios sapatos?

Continuaria me achando atraente ou sentiria repulsa ao ver meu corpo mutilado?

Ao voltar do hospital, percebi que tudo o que Jonathan queria era brincar de luta e jogar bola no quintal. Tudo o que Tiffany queria era me abraçar. Tudo o que Jan queria era ter o marido de volta.

Eles não se importaram se eu tinha um braço ou não.

Embora ele tivesse sido importante para a minha infância e constituísse por um tempo meu meio de vida, meu braço não significava nada para as pessoas mais importantes de minha vida.

Para eles, o mais importante era que eu estivesse vivo e em casa.


 

LIÇÕES DE UM LANÇADOR

Beth Mullally

Histórias Para o Coração do Homem 178

 

 

Meu pai sempre foi o lançador em nossos jogos de beisebol no quintal. Ele obteve essa honra por dois motivos: primeiro, porque minha irmã e meu irmão não conseguiam dominar a bola na base do batedor e, segundo, porque correr atrás de uma bola rebatida com uma perna de madeira não era seu forte. Por isso, ele ficava sob o sol forte arremessando sem parar, enquanto nos revezávamos com o taco.

Ele dirigia nossos jogos com a autoridade de um treinador dos Yankees. Era o chefe e fazia exigências. Tínhamos que combinar as jogadas fora do campo, e acho que tive de dizer "não rebatida, não rebatida, não rebatida" por mais de cinco mil vezes enquanto crescia. Tínhamos que tentar ultrapassar os limites com a bola, não importava o tipo de arremesso que ele fizesse. Aquilo era beisebol, e, por Deus, só havia uma maneira de jogar: como os Yankees.

Rebater uma bola de meu pai não era fácil. Ele não era o tipo de homem que se preocupava com questões de autoestima, tentando fazer uma criança sentir-se segura ao rebater uma bola.

Não hesitava em nos tirar de um jogo.

- Você quer jogar ou não? - perguntava quando eu reclamava de seus rápidos arremessos.

Eu queria jogar bem, e quando, finalmente, conseguia me entender com a bola - puxa! - sabia que merecia acertar. Corria pelas bases com um sorriso no rosto e me virava para papai, que estava na posição do lançador. Ele tirava as luvas, colocava-as sob O braço e me aplaudia. Para meus ouvidos, aquilo soava como uma salva de palmas no estádio dos Yankees.

Anos mais tarde, meu filho estava aprendendo com meu pai as regras do beisebol. Nessa época, papai estava arremessando de uma cadeira de rodas, porque, por uma infelicidade médica, havia perdido a outra perna.

Mas nada havia mudado. Meu filho tinha que combinar as jogadas do lado de fora do campo e bater forte na bola. Quando reclamava que o arremesso era muito rápido, ouvia o ultimato:

- Você quer jogar ou não?

Ele queria.

Meu menino tinha nove anos de idade na primavera, antes de seu avô morrer. Jogaram muito beisebol naquela estação, e a velha ladainha de queixas de que papai arremessava rápido demais continuou.

- Mantenha os olhos na bola! - papai gritava para ele.

Finalmente, em uma tacada, ele conseguiu. Acertou bem o centro da bola, e ela voou diretamente para papai. Ele tentou agarrá-Ia, mas não conseguiu, e, nessa tentativa, sua cadeira tombou para trás. Em câmera lenta, vimos a cadeira cair e ouvimos o estrondo quando as costas de papai bateram no chão.

Meu filho ficou paralisado, sem reação.

- Não pare de correr! - meu pai gritou do chão. - A bola ainda está em jogo! Corra!

Quando meu filho conseguiu chegar na primeira base, virou-se para meu pai, ainda deitado no chão, e o viu tirar a luva, colocá-la sob o braço e aplaudi-Ia.


 

AS OLIMPÍADAS DE BARCELONA DE 1992

Ivan Maisel

Histórias Para o Coração do Homem 180

 

 

Barcelona, Espanha - Jim Redmond fez o que qualquer pai faria se seu filho precisasse de ajuda. Era muito simples. Nos jogos olímpicos, a segurança é reforçada com milhares de policiais e detectores de metal. Mas nenhum local é seguro quando um pai vê o sonho de seu filho desmoronar.

- Em um minuto, eu estava correndo e, no outro, não era nada.

Caí - disse Derek Redmond, da Grã-Bretanha.

Por aproximadamente quatro anos, Derek, 26 anos, havia esperado por essa semifinal dos 400 metros. Em Seul, teve um problema com o tendão de Aquiles e, um minuto e meio antes de a corrida começar, teve de desistir.

Em novembro de 1990, Derek passou por cirurgias em ambos os tendões de Aquiles, ao todo cinco cirurgias. Mas voltou acorrer.

Nas duas primeiras provas, fez os tempos de 45.02 e 45.03, suas melhores marcas nos últimos cinco anos.

- Eu queria muito terminar o percurso nessa minha primeira Olimpíada - Redmond disse. - Estava me sentindo ótimo. Foi muito triste o que aconteceu.

Na metade da prova, Redmond caiu estirado, na raia cinco, com o tendão da perna direita rompido.

Redmond levantou-se, com muito esforço, e começou a mancar pela pista. O vencedor da corrida, o campeão olímpico Steve Lewis, já havia terminado e se dirigido para o vestiário. Havia mais outros seis corredores, mas o último corredor ainda não tinha terminado. Ele continuava a correr.

Jim Redmond (pai de Derek) estava sentado no alto da arquibancada no estádio olímpico e viu a queda repentina de Derek.

- Não precisava apresentar credenciais para prestar socorro numa emergência - Redmond disse.

Então, Redmond, proprietário de uma oficina de máquinas em Northampton, de 49 anos, correu os degraus abaixo até a pista.

- Naquele momento, eu pensava: Eu tenho que chegar até ele para que ele possa dizer que completou a semifinal.

A multidão percebeu que aquela era a corrida da vida de Derek Redmond. Por toda a arquibancada, fãs de todo o mundo se levantaram para aplaudir.

No final da volta, Jim Redmond agarrou o filho e colocou os braços ao redor dele. Derek apoiou-se no ombro direito do pai e começou a soluçar. Eles continuaram. Um dos responsáveis tentou impedir e escoltar Jim Redmond para fora da pista. Foi em vão...

Eles cruzaram a linha de chegada, pai e filho, abraçados.

 

 


 

O CAUBÓI DOS VIKINGS

Ruth Senter

Histórias Para o Coração do Homem 182

 

 

Quando é que um trabalho se torna mais importante do que as pessoas que você mais ama? Essa é uma pergunta que frequentemente, faço a mim mesma; e, de um modo inesperado, encontrei a resposta.

Seu chapéu de vaqueiro ia abrindo caminho na partida do voo 721, em St. Louis. Aquele homem, muito alto, veio andando pelo corredor do avião, acomodou sua maleta de couro legítimo no compartimento superior e sentou-se a meu lado. Via-se que não era um caubói comum.

Ele era tão frio e masculino como qualquer homem que faz um comercial de colônia pós-barba, que conhece bem seu texto e influencia todos ao redor. Eu me afundei em minha revista de bordo e tentei não prestar atenção nele. Aquele caubói com um ego duas vezes maior que seu chapéu não me fascinava. Eu não estava disposta a admirar seu jeito de ser.

- É um bom artigo? - perguntou-me em alta voz.

- Hã-hã.

- Já ouviu falar do Minnesota Vikings? Eu jogo futebol americano nesse time.

Havia algo estranho em seu tom de voz. Senti que ele tinha mais coisas para dizer. Fechei a revista e comecei a ouví-Io. Ele deu uma rápida olhada pelo corredor e, depois, para mim. Ninguém estava nos olhando. Ele parou de simular o papel que representava.

- Garoto de ouro. Já era.

Ele moveu seu dedão para baixo, como um sinal negativo, e eu pude ver um anel da Liga Nacional de Futebol Americano.

- Está vendo estes olhos? Estão vermelhos de tanto chorar.

Acabo de deixar minha esposa e meus dois filhos. Eles não me querem; me chutaram de minha própria casa. Ninguém acha que um jogador de futebol americano chora, não é?

Enquanto voávamos para Chicago, ele desabafou todos seus sonhos destruídos. Muito trabalho, horários irregulares, mudanças frequentes, sempre com a desculpa de que algum dia ele e a esposa teriam tempo um para o outro. Mas esse dia não chegou.

- Sabe, meu trabalho servia somente para satisfazer meu próprio ego. Depois de certo tempo, tornou-se tudo para mim.

Nem conseguia ouvir o que minha família tinha a me dizer. Você escreve artigos. Diga a seus leitores que, quando o trabalho deixa alguém surdo para a família, é hora de parar. Pode mencionar que fui eu quem disse isso. Devia ter percebido essas coisas antes.

Desembarcamos no terminal da United Airlines e, mesmo com o congestionamento na esteira E, ele não parou de falar.

- Você tem sua família - disse. - Agarre-se a ela, pois é o que você tem de mais valioso. O mundo fica vazio sem ela. Eu deveria ter percebido isso antes.

Tirou o chapéu de vaqueiro e entrou na limusine que o esperava para levá-lo até o centro de Chicago.

Amanhã, pensei, ele estará novamente correndo para marcar pontos no jogo.

- Diga a seus leitores - ele me pediu - que, quando o trabalho o deixa surdo para a família, é hora de parar.

Eu prometi a ele que o faria.


 

O MELHOR NATAL

Autor Desconhecido

Histórias Para o Coração do Homem 184

 

 

Havia um camarada em Skid Row totalmente arruinado, vivendo de esmolas, de dinheiro emprestado e de roubo.

Em uma noite natalina, encontrou uma nota de um dólar. Era uma fortuna para aquele homem. Começou a pensar o que deveria fazer com o dinheiro. Finalmente, decidiu comprar um drinque para celebrar a data com seus companheiros mendigos à beira-mar.

Quando estava a caminho, passou por uma loja e viu um taco de beisebol na vitrine. A recordação de como, desde a infância, desejara ter um taco como aquele ardeu em seu coração como fogo. Entrou na loja e comprou o taco com a nota de um dólar.

Desceu a rua e o deixou apoiado na porta de um orfanato.

Tocou a campainha e correu.

Aquele taco foi o presente de Natal de um pequeno órfão que amava jogar bola e nunca tinha possuído um taco. Foi seu melhor Natal.

Talvez você o conheça pelo nome que usava quando se tornou, no beisebol, o rei da corrida por todo o circuito nas grandes ligas:

Babe Ruth.

Foi provavelmente o melhor Natal do mendigo também.


 

NO BANCO

James Robison

Histórias Para o Coração do Homem 185

 

 

Lembro-me de uma época em que nosso filho, Randy, jogava extremamente bem na Liga Amadora de Beisebol. Ele tinha conseguido 500 rebatidas naquele ano, e, se não me falha a memória, foram só duas bolas para a base. Ele fazia grandes jogadas e marcava muitos pontos. Rebatia bolas a uma boa distância - boa o suficiente para ganhar bases extras na Liga Amadora. Aquele era o ano de sua vida, e eu estava orgulhoso disso.

Mesmo tendo um ano maravilhoso, Randy sempre ficava no banco, pois o treinador tentava colocar o maior número possível de meninos para jogar. Sempre educado, Randy não reclamava e até parecia satisfeito pelos outros terem oportunidade de jogar.

Parecia não se importar, mas eu me importava.

Mais de uma vez, conversei com o treinador sobre como ele poderia deixar de lado um menino como Randy, por que colocava em seu lugar meninos que não jogavam bem. Ele não queria vencer? Será que não estaria transmitindo uma mensagem errada ao deixar no banco os bons jogadores?

Na verdade, havia naquele campo alguém passando uma mensagem errada, mas não era o treinador. Minha atitude impaciente de vencer a qualquer custo é que estava atrapalhando.

Randy não gostava que seu papai ficasse tirando satisfações com o treinador, ficava nervoso e envergonhado. Perguntava-se por que o pai tinha tais reações diante de decisões. Era como uma sombra anuviando aquele ano magnífico. Bem no fundo, eu sabia que minhas atitudes o incomodavam, por isso pedi ao Senhor que me ajudasse a controlá-Ias.

Randy foi promovido para o time dos astros, e nós ficamos muito animados. Lembro-me de uma vez em que voei para casa a fim de assistir a um de seus jogos. Quando cheguei ao estacionamento e fui para o campo, vi que seu time já estava posiciona-lo, e meu coração bateu mais forte. Mas onde estava Randy? Aproximei-me dos lugares descobertos da arquibancada e pude ver Randy no banco. O que é isso?! Não faz sentido. Aquele era o menino que havia levantado o time e, agora, utava começando o jogo no banco?, pensei.

Sem sorrir, Randy viu quando tomei meu lugar. Vi a expressão de seu rosto e adivinhei o que se passava em sua mente. Ele pensava: Puxa, sei que papai está desapontado e chateado por me ver no banco. Querido Deus, por favor, não permita que ele diga nem faça nada.

Pela graça de Deus, aquele foi um dos momentos em que fiz a coisa certa. Quando vinha para o jogo, senti em meu coração que precisava, de alguma maneira, demonstrar a meu rapazinho quanto me orgulhava dele - e que ele não precisava de um grande feito para ter minha aprovação.

Cheguei, então, até a cerca, perto de onde ele estava, e vi que me olhava com um ar apreensivo.

- Randy - eu disse -, quero que saiba que papai está tão orgulhoso de ver você aí, sentado no banco, como se estivesse no jogo, rebatendo as bolas e marcando pontos. Você é meu filho e não tem que fazer nada para me agradar nem para ganhar a minha aprovação. Já tem 100% dela. Amo você, filho.

Seus olhos se encheram de lágrimas, e ele sorriu. De alguma maneira, eu sabia que tinha tocado em seus sentimentos. Em meu coração, agradeci a Deus por ter feito a coisa certa.

 

AQUI ESTÁ SEU PEIXE, FILHO

Marty Trammell

 

 

As ondas que se formavam do Estreito de Juan de Fuca pareciam brincar com o barco de 14 pés de papai. Estávamos indo em busca de salmões, em frente a um local chamado pelos moradores da região de "a caverna", próximo a Sekiu, Washington.

Até que não está ruim, pensei enquanto abria a caixa verde de papai para pegar um biscoito de pasta de amendoim. O ronco em meu estômago de dez anos, agora, estava sendo substituído pelo biscoito e pela satisfação de ver o brilho amarelado do céu a leste.

- Prepare-se, filho, eles já vão morder.

Papai colocou sua xícara de café no suporte que havia instalado no banco no último verão.

Fiquei a observá-Io procurando descobrir os segredos que os adultos nunca revelam a ninguém, mas, no entanto, passam aos filhos, como o canivete de família que me ofereceu em meu décimo aniversário. Embora eu não conseguisse entender exatamente o que papai fazia para o peixe morder a isca, sabia que a técnica que usava era a razão de seu sucesso com os salmões.

Esperei olhando fixamente para a ponta da vara de 1,80m, especial para a pesca de salmões. De repente, meu rosto ficou quente, e o barco parecia balançar muito, para cima e para baixo.

Eu segurava uma vara verde e branca, mas, ao olhar para ela, comecei a enxergar duas e, então, três... Papai observou a minha mudança de aparência com cautela.

- Oh, oh, parece que chegou a hora de alimentar o peixe.

A voz de papai parecia abafada e muito distante.

- Alimentar o peixe? - perguntei, confuso, olhando para o pacote de arenque congelado que estava a meus pés. Foi tudo o que OUVI.

Segundos depois, mais biscoitos de pasta de amendoim voaram para trás do motor de 18 cavalos.

- Você vai se sentir melhor quando parar de doer - papai me assegurou.

Suas bochechas vibravam enquanto segurava a alavanca do acelerador com a mão esquerda. Antes que eu compreendesse o que papai estava querendo me dizer, algo tentou arrancar a vara que eu segurava com meus dedos congelados.

- Olhe, um peixe! - o grito que papai deu provocou um eco.

- O que eu faço? - perguntei.

- Mantenha a ponta da vara para cima e não pare de enrolar a carretilha.

Eu enrolava o mais rápido que conseguia, enquanto papal virava o barco na direção de minha linha.

- Não consigo, pai. É muito forte.

Meus braços começaram a doer só de ficar alguns segundos lentando manter a ponta da vara no alto. Exausto, sucumbi, e a vara bateu contra a forqueta.

- Mantenha a ponta para cima, filho, você não vai perdê-Io.

O rosto de papai parecia radiante.

- Eu não consigo, papai. Meus braços estão doendo. Enrole a carretilha para mim!

Meus antebraços e pulsos pediam socorro, e o salmão continuava a mergulhar.

- Ali está seu peixe, filho.

- Mas eu não consigo manter a ponta da vara no alto, papai.

Você tem que me ajudar.

- Sim, você consegue. Ponha a perna acima do final da vara, assim você conseguirá manter a ponta fora da água.

Vi meu pai segurar a vara e rapidamente tirar a mão.

- Lá vai seu peixe, filho. Nós vamos pegá-Io. Espere para ver.

Uma nova força brotou de dentro de mim, e, 15 minutos depois, ali estava um salmão de dez quilos.

- Aqui está!

Papai largou a alavanca do acelerador e agarrou a rede. O pequeno barco balançou para o lado, fazendo com que eu batesse minhas pernas no rebite de alumínio que circundava todo o barco.

Papai me puxou pelos passadores da calça e empurrou-me para meu assento. Coloquei a extremidade da vara debaixo de minhas pernas novamente e voltei a enrolar a carretilha.

Uma volta. A força que o salmão fazia para não se render fez com que meu pulso sentisse que tinha rodado mais de um quilômetro.

Duas voltas. A linha se moveu alguns centímetros, puxando o salmão para mais perto.

Três voltas. Senti que o peixe desistira.

- Aguente firme, filho, só mais alguns minutos. Papai parecia falar mais com o peixe do que comigo.

Mais alguns minutos?, pensei. Ele não vai jogar a rede? Minhas questões se perderam no som da minha carretilha; o salmão recuperou as forças e começou a mergulhar, roubando minha vitória bem diante de meus olhos.

- De novo, não - solucei. - Nunca vou conseguir.

As dores aumentaram instantaneamente. Estava derrotado.

- Papai, eu vou perdê-Io. Você tem que me ajudar. Por favor, papal.

Tentei continuar enrolando a carretilha, mas o salmão era mais forte. A perna que apoiava a vara escapou, e eu fui lançado em direção ao oceano. Papai me agarrou e me trouxe de volta.

- Você está quase conseguindo. Ele é seu peixe, filho. Não desista.

Ele pegou a vara novamente e, dessa vez, puxou-a mais lentamente. Tentei recuperar as forças, mas não conseguia. Orei:

- Por favor, Deus, só este peixe. Prometo que irei à igreja pelo resto de minha vida e serei legal com minha irmã.

Eu sentia que Deus gostava de pescaria. Afinal de contas, tinha proporcionado a Jonas uma grande aventura. Agora, quanto à parte de minha irmã, eu não tinha certeza.

De repente, a linha ficou limpa. Foi o sentimento mais horrível que já tive. O peixe se fora. Todo o trabalho, toda a dor, para quê?

- Filho, continue enrolando! Ele está vindo direto para o barco!

A voz de papai acabou com meus lamentos, e eu enrolei o mais rápido possível. Ele voltou a puxar a linha. Papai agarrou a rede com uma das mãos e, com a outra, ajudou-me a ir para o outro lado do barco. Lançou a rede em direção à linha. Seus joelhos bateram contra a armação de alumínio, enquanto ele ajeitava a rede abaixo do barco.

O tempo que papai ficou naquela posição pareceu mais longo do que uma aula de matemática. Silêncio. De repente, seus ombros foram para trás, suas costas se esticaram, e a rede, trazendo o maior peixe que eu já vira. voou para dentro do barco.

Essa foi a primeira e única vez que fiquei em pé em nosso barco de 14 pés.

Os pescadores da região comemoraram quando me viram segurando o peixe pela guelra direita, e papai, pela esquerda. Olhei para o rosto de papai e vi o maior sorriso e as primeiras lágrimas que jamais havia visto.

Naquele dia, nosso salmão foi considerado o maior peixe da doca de Olson. Pelo menos, foi o maior que já vi. Voltei para nosso acampamento em Tretevick, no Chevy 1970 de papai, com os olhos grudados no grande peixe prateado. A dor nos braços e nas costas lembrava-me de meu feito. Mesmo sem forças, tinha enrolado a carretilha. Fiz algo que pensei que não conseguiria e, agora, tinha meu nome gravado no melhor peixe que já vira.

Minha família reuniu-se para a foto. Mamãe pegou a câmera e contou:

- Um, dois... - eu sorri, lutando para segurar o salmão no alto.

Papai colocou os braços em meu ombro e sussurrou:

- É seu peixe, filho.

NADA PARA PROVAR

Kenneth Boa

 

 

Joe Louis foi o campeão mundial de boxe na categoria de peso pesado, entre 1947 e 1949, ano em que se aposentou.

Certa vez, enquanto servia no Exército, estava dirigindo seu carro com um companheiro, quando se envolveu num pequeno acidente com um grande caminhão.

O motorista do caminhão desceu, gritando e xingando Louis, que continuou sentado no banco do motorista, sorrindo.

- Por que você não deu um bom soco nele? - perguntou seu companheiro depois que o motorista do caminhão já tinha ido embora.

- Por que deveria? - respondeu Joe. - Será que, quando alguém insultava Caruso, ele cantava uma ária?

Essa é uma das minhas ilustrações favoritas a respeito da identidade. O motorista desconhecia a verdadeira identidade da pessoa a quem estava ofendendo, pois, caso contrário, ele o teria tratado de maneira bem diferente! Por outro lado, Joe Louis sabia quem ele realmente era: o melhor lutador de boxe do mundo - e não precisava provar nada a ninguém.

O VENCEDOR

Sharon Jaynes

 

 

Era a primeira competição do ano de nosso recém-formado time de natação da escola de ensino médio. O clima, durante a viagem de três horas, era de expectativa para 48 adolescentes que só pensavam na vitória. No entanto, o entusiasmo se foi quando nossos "peixinhos" desceram do ônibus e se depararam, chocados, com os musculosos adversários.

O treinador olhou as tabelas: Com certeza, houve algum engano, pensou. Mas as tabelas só confirmavam que estavam no lugar certo e na hora certa.

Os dois times formaram uma fila ao lado da piscina. Ouviu-se o apito, as provas começaram e nosso time perdeu. Na metade da competição, o treinador Huey percebeu que não havia ninguém escalado para uma das provas.

— Está certo, time, quem quer participar da prova de 450 metros, nado livre?— perguntou o treinador.

Vários colegas levantaram as mãos, inclusive Justin Rigsbee. — Eu nadarei, treinador!

O treinador olhou para o rosto sardento do jovem e disse:

— Justin, nessa prova, você tem que dar 20 voltas pela piscina, e eu vi você conseguir somente oito.

— Eu consigo, treinador. Deixe-me tentar. O que são 12 voltas a mais?

Com relutância, o treinador Huey cedeu. Afinal de contas, pensou, vencer não é  mais importante; é competindo que se constrói o caráter.

Ouviu-se o som do apito, e, como torpedos, os adversários mergulharam e conseguiram terminar a prova em meros quatro minutos e cinquenta segundos. Os vencedores uniram-se para as comemorações, enquanto nosso grupo lutava para terminar a prova.

Depois de longos minutos, o último membro de nossa equipe saiu da água. Bem, não exatamente o último, porque Justin ainda estava lá. Ele, cansado, puxava o ar, enquanto dava braçadas, tentando lançar o corpo franzino para a frente. Dava a impressão de que, a qualquer momento, afundaria. Mas havia algo que o impelia a continuar.

- Por que o treinador não manda esse menino parar? - cochichavam os pais dos outros garotos. - Parece que ele está para se afogar, e a prova já terminou há quatro minutos.

Mas os pais não perceberam que a verdadeira prova, a de um menino que se transforma em homem, estava apenas começando.

O treinador foi até o jovem nadador, ajoelhou-se e, vagarosamente, falou com ele.

Aliviados, os pais pensaram: Finalmente ele vai tirar o menino, antes que se mate.

Para surpresa de todos, o treinador levantou e afastou-se da borda da piscina, enquanto o jovem continuava a nadar.

Um companheiro, inspirado pela coragem do amigo, foi até a lateral da piscina e o acompanhava pela raia, dizendo:

- Vamos, Justin, você consegue! Continue! Não desista!

Outro companheiro uniu-se a ele, e outro e mais outro, até que todo o time estava junto, andando pela beira da piscina e encorajando o companheiro.

O time adversário viu o que estava acontecendo e uniu-se ao coro, que contagiou todo aquele lugar. Os pais, antes preocupados, agora se levantavam, aplaudiam, gritavam e oravam. O lugar pulsava com a energia e o ânimo de todos os nadadores, que bombeavam coragem para o jovem nadador.

Tinham se passado 12 minutos desde o início da prova, quando, sorrindo, Justin Rigsbee nadou a última volta e saiu da piscina. A multidão tinha aplaudido o vencedor quando ele cruzou a linha de chegada. Mas agora, em pé, a salva de palmas para Justin foi a prova de que a maior vitória foi a dele, simplesmente por ter chegado ao final.

UMA CHANCE PARA JOGAR BEISEBOL

Desconhecido

 

 

Ernie Banks, jogador de beisebol do Chicago Cubs, que está no Hall da Fama, sempre se lembrava de como seu pai trabalhou e se sacrificou para lhe dar a chance de jogar beisebol.

Todos os dias, o pai saía antes de amanhecer e voltava quando já estava escuro.

Trabalhava tantas horas que raramente via a luz do sol.

Quando Ernie assinou seu primeiro contrato com os Cubs, ele mandou um telegrama com duas palavras para o pai: "Nós conseguimos!"

LUGARES INESPERADOS

Rochelle M. Pennington

 

 

Ao longo do tempo, tenho observado que as lições mais profundas da vida são aprendidas nos lugares mais inesperados, como uma quadra de beisebol da Liga Amadora do bairro.

O primeiro jogo da temporada de nosso filho foi marcado para uma noite no princípio de maio. Como essa liga, em particular, incluía alunos da sexta à oitava série, nosso filho mais velho já era veterano do time, e o mais novo, na sexta série, acabara de ingressar.

Como de costume, a arquibancada estava repleta de pais, quando cheguei e sentei-me na terceira fileira, contando de cima para baixo. Sentado entre um garoto com o rosto todo melado de algodão-doce e a mãe de algum jogador, chequei o placar. Já estava na quarta jogada. Prevendo que eu chegaria atrasado, os meninos me instruíram, previamente, a olhar para as posições de jogador da primeira base e de receptor. Estava prestando atenção nos dois, quando notei que Jason Voldner, era o lançador.

Jason era, sem dúvida, o garoto mais estimado do time, mas, atleticamente, sua participação limitava-se às posições da direita e ao banco de reservas - mais a segunda que a primeira, infelizmente. Com muitas horas de experiência como expectador (não só nas arquibancadas de um campo de beisebol, mas também nas arquibancadas da vida), conheço muitas versões de Jason Voldner.

Os Jasons do mundo aparecem para o primeiro treino, em um domingo pela manhã, com as luvas preparadas. Após a longa espera pela" chance de jogar bola", vão para casa com o coração pesaroso, lembrando-se do menino que conseguiu bater forte na bola e do outro que soube fazer a jogada certa.

A habilidade não existe somente para ser reconhecida, mas também para ser utilizada, fazendo com que os jogadores que se destacam tornem-se cada vez melhores, enquanto os Jasc.ms esperam sua vez de jogar. Seu tempo de jogo não é somente limitado, mas também condicional: somente se o time estiver ganhando.

Caso contrário, os Jasons simplesmente esperam pela hora de ir embora. Ali estava Jason Voldner, arremessando a bola no maior jogo de sua vida.

Percebi que "aquela mãe" a meu lado era a mãe dele.

- Que talento! - disse-lhe. - Nunca havia visto seu filho arremessar.

Com a voz tranquila, ela respondeu:

- Nem eu.

Então, ela contou-me esta história:

Há quatro anos, ela dirigiu um carro cheio de meninos, inclusive Jason, até aquela mesma quadra de beisebol para o primeiro treino da primavera. Pouco antes de anoitecer, sentou na varanda esquivando-se da chuva e aguardando outra mãe que traria os meninos de volta do treino. Assim que a raiz chegou, Jason desceu.

"Seu rosto era uma combinação de manchas de sujeira e de chuva e, embora conseguisse disfarçar para os outros, percebi que estava chateado", disse-me.

"Pensei que estava machucado", ela continuou, "mas não era esse o problema." Até o momento em que o levou para dormir, não havia descoberto o motivo de sua dor.

"Horas depois, fui acordada por fortes soluços. Era Jason. Em meio a lágrimas, conseguiu dizer algumas palavras que me fizeram entender a história: 'esperando', 'oitava série', 'cansado de jogar em posição ruim', 'oitava série'." Após acalmá-lo, ela ouviu a explicação de que Matthew, da sexta série, jogaria na segunda base "porque seu pai era o treinador"; John, da sexta série, jogaria na defesa, "porque era amigo de Matthew"; e Brian, outro aluno da sexta série, seria o novo receptor, "porque seu irmão estava no time".

'''Estava começando a me zangar e a imaginar aonde essa história iria chegar, pois Brian era meu filho mais novo. 'Não é justo, não é justo!', ele dizia." O coração de sua mãe ficou partido ao ouvir essas palavras.

Empatia não é a expressão exata para definir o sentimento de um pai ou de uma mãe numa situação assim. Deveria existir outro termo para uso exclusivo dos pais.

"Meu filho esperava que eu concordasse com ele", continuou a mãe de Jason , "mas eu tomei a dura decisão de não fazê-lo.

Temos de tomar muito cuidado quando lidamos com as emoções negativas de alguém. Concordar com o que dizem pode parecer o melhor meio de ajudar, mas, na realidade, é uma maneira de reforçar sentimentos negativos. Então, expliquei-lhe que deveria confiar nas decisões do treinador. Lembrei a ele, também, de que sempre víamos os três garotos que mencionou treinando na quadra da esquina. Disse-lhe que ser escalado para o jogo não era apenas questão de estar na sexta ou na oitava série, mas sim de muito treino e de capacitação; não era o caso de um tratamento preferencial. Ao longo da vida, ele encontraria pessoas talentosas: na quadra de esportes, na sala de aula, nos escritórios. 'Será que isso significaria a incapacidade de conseguir ter o que essas pessoas alcançaram? Claro que não. Simplesmente teria de se esforçar muito. O ressentimento, a culpa e as desculpas somente corrompem o potencial" Finalmente, naquela noite, a mãe de Jason o colocou de volta na cama, cobriu-o e lhe disse:

"- Você está desapontado porque o treinador não acredita em você, mas tem que ser o primeiro a acreditar em si mesmo. O treinador distribuiu as posições com base no que viu; se você deseja uma posição melhor, prove que é capaz." Após dizer essas palavras, ela o beijou e lhe desejou um boa noite.

A mãe de Jason, ao acabar de contar-me essa história, sorriu e disse:

- Naqueles poucos momentos, eu e Jason conversamos mais do que nas semanas seguintes, quando ele somente me deixava recados sobre a mesa da cozinha: "Fui treinar, vou provar a ele".

- Ela fez uma pausa e arrematou: - E ele conseguiu.

Sim, ao longo do tempo, tenho observado que as lições mais profundas da vida são aprendidas nos lugares mais inesperados -lugares como a quadra de beisebol da Liga Amadora do bairro, sentado na arquibancada na terceira fileira, contando de cima para baixo.

 

ARREMESSANDO A FLECHA

Stu Weher

 

 

Enquanto escrevo estas palavras, estou olhando para três flechas sobre minha mesa. Elas são diferentes uma da outra. Qualquer arqueiro notaria isso rapidamente. Porém, também são extraordinariamente parecidas.

Neste momento, estou girando uma delas em minha mão.

Sentindo o peso e o equilíbrio de sua haste. Analisando seu comprimento até as bordas arredondadas de sua extremidade sem corte. É uma flecha para alvos, uma boa flecha. Eu não perderia tempo com uma flecha de qualidade inferior. Ela tem ventoinha de plástico em lugar de penas - o tipo de flecha para ser usada nas regiões chuvosas do oeste do Oregon. Esta segunda...

sim, ela também é boa. Uma flecha para caçar. Haste lisa. Bem balanceada. Tem a extremidade mais pesada e cortante como uma lâmina. Pode-se dizer que tem a "cabeça larga". Também tem ventoinha de plástico, e é especial para se caçar no campo molhado. A terceira é o tipo de flecha que levo para as montanhas do leste, na encosta seca. É basicamente igual à segunda, mas tem ventoinha de penas pretas e cinzas.

São muito diferentes estas minhas flechas. Cada uma planejada para um impacto diferente. Cada uma planejada para um tipo diferente de alvo. Mas também são parecidas; cada uma foi desenhada, trabalhada, modelada e balanceada. Todas foram planejadas para voar. Todas foram planejadas para um alvo. Todas foram planejadas para atingir o alvo com o máximo impacto.

Todas são boas. Porém, elas não são muito melhores que o arqueiro que as prende no arco. Não são muito melhores que a força que ele emprega para arremessá-Ias. Não são muito melhores que a suavidade de seu arremesso. Por mais bem trabalhadas que elas sejam, não se pode escolher um sujeito qualquer na rua e esperar que ele arremesse uma flecha com um arco de 30 quilos e acerte a cabeça de um prego. A exatidão exige bom treinamento, boa impulsão, arremesso disciplinado.

Enquanto escrevo estas palavras, estou olhando para uma fotografia sobre minha mesa.

É a fotografia de meus três filhos: Kent, Blake e Ryan. São muito diferentes esses meus filhos. Incrivelmente diferentes. Mas também são parecidos.

Cada um foi moldado pelo Senhor Deus, no lugar secreto do útero de sua mãe. E cada um foi trabalhado, balanceado e preparado para voar dentro das quatro paredes de nossa casa.

Minhas três flechas foram desenhadas para saltar do arco e voar. Eu gosto de caçar com flechas e pretendo usá-Ias, seja para acertar um tronco de cedro ou um alce, no alto de uma montanha, em uma manhã gelada. Essas flechas não foram feitas para servir de enfeite. Nem para ficar na aljava. A aljava é apenas um meio para transportá-Ias até que estejam prontas para o arremesso.

Você vai dizer que elas foram feitas para ser arremessadas. Que foram feitas para ser acionadas. Que foram feitas para atingir um alvo.

O mesmo acontece com meus três filhos. Eles não foram planejados para ficar presos entre as quatro paredes da casa em que foram criados. Sim, o lar é um meio para modelar, endireitar e balancear esses garotos. Mas quando chegar o momento... os moços - e as moças - foram feitos para alçar voo.

CONFISSÕES A UM TREINADOR

Vickey Banks

 

 

Ele estava cansado. Tinha sido um longo dia de uma longa semana. Era o tipo de dia em que tudo o que ele queria era chegar em casa e jogar-se na poltrona com o controle-remoto da televisão na mão. Deu uma rápida olhada em sua agenda e percebeu que aquele não seria o dia - nem pensar... Naquela noite, estaria em um ginásio pequeno e abafado de uma escola de ensino fundamental. O barulho ressoaria em cada parede, enquanto um grupo animado de garotos de seis anos o aclamaria como responsável por tamanha felicidade.

Keith olhou para a mesa repleta de papéis e soltou um suspiro. Abriu a pasta e começou a organizar o trabalho para o dia.

Agora, era o momento de tirar a gravata e de colocar um par de tênis. Ele se tornaria o pai de Hayden, treinador do time de basquete Rockets.

A tarefa do treinador desse time era, principalmente, manter uma aparência de ordem e monitorar o tempo de jogo de cada garoto. Esse era o problema: eles não queriam ordem e não estavam interessados em ser monitorados! Um ou dois deles eram tão ousados que, quando Keith mandou-os para o banco de reserva, olharam com descaso e soltaram um grito. Não preciso desse estresse! - Keith pensou e sorriu para si mesmo.

Finalmente, era a vez de Matthew sentar. Ele havia sido um problema durante toda a temporada: não prestava atenção e desobedecia às ordens, como se não as estivesse ouvindo. Em mais de uma ocasião, olhou diretamente para Keith ou para o treinador-chefe e discordou totalmente das instruções. Ele não falava muito, mas fazia o que queria.

Mas, naquela noite, foi diferente. Matthew falou.

- Aquele lá não é exatamente meu pai... - disse enquanto olhava na direção do homem que o havia trazido para o jogo.

- É meu avô. Meu pai está na cadeia, porque fez algumas coisas muito más.

Keith escutou essa confissão espontânea e ficou comovido.

Não, ele não precisava desse estresse, mas talvez Matthew precisasse dele.

De repente, a descrição das tarefas de treinador de time lhe pareceram totalmente diferentes.

 

 

 

No golfe como na vida, é o dever cumprido que faz a diferença.

ANÔNIMO

INTEGRIDADE

Denis Waitley

 

 

Há algum tempo, um artigo da revista nacional de squash publicou a história de Reuben Gonzales, um dos finalistas do torneio profissional de squash. Era a primeira tentativa de vitória de Gonzales no circuito, e ele estava invicto.

Na final, no momento do último ponto, Gonzales fez uma jogada decisiva. O árbitro aceitou-a. Um dos juízes de linha afirmou que a jogada foi dentro.

Mas, depois de alguns momentos de hesitação, Gonzales virou, cumprimentou seu adversário e declarou que sua jogada não era válida, pois, antes de bater na parede, a bola tinha quicado no chão da quadra. Como resultado, perdeu a partida, deixou a quadra, e todos ficaram surpreendidos com sua atitude.

No número seguinte da revista nacional de squash, Reuben Foi matéria de capa. O artigo buscava uma explicação para esse acontecimento inédito em um circuito profissional.

Quem poderia imaginar uma atitude como essa em qualquer esporte ou empreendimento? Um jogador, com tudo oficialmente a seu favor, com a vitória nas mãos, desqualificar-se a si mesmo no ponto decisivo e perder!

Quando perguntaram a Reuben o porquê de tudo isso, ele respondeu:

- Era a única coisa que eu poderia fazer para manter minha integridade.

 

 

 

 

LEGADO - UMA TOCHA BRILHANTE

George Bernard Shaw

 

 

Quero servir bastante antes de morrer.

Quanto mais eu trabalhar, mais viverei.

Para mim, a vida não é uma vela que, rapidamente, de apaga.

Para mim, a vida é um tipo de tocha brilhante, que carrego por certo tempo, e quero fazê-la brilhar ao máximo antes de passa-la às futuras gerações

 

 

 

UM SIMPLES AÇAFRÃO

Joan Anderson

 

 

Era uma manhã de outono, e havíamos mudado para nossa primeira casa há pouco tempo. Nossos filhos estavam no andar de cima, desfazendo as caixas, e eu, pela janela, vi papai andando, de maneira misteriosa, pelo gramado da frente. Meus pais moravam por perto, e papai já tinha vindo nos visitar várias vezes.

- O que você está fazendo aí fora? - perguntei.

Sorrindo, respondeu-me:

- Estou fazendo uma surpresa para vocês.

Conhecendo meu pai, sabia que era capaz de qualquer coisa.

Como trabalhador autônomo, ele inventava muitas tranqueiras.

Certa vez, quando éramos crianças, montou um trepa-trepa utilizando rodas e roldanas velhas. Para uma de nossas festas de Halloween, inventou uma abóbora elétrica e colocou-a sobre um cabo de vassoura. Ficou escondido atrás de um arbusto e, quando os convidados chegavam, ele acendia a abóbora e a punha, de repente, na frente deles.

Algum tempo se passou desde aquele dia, e papai não tocou mais no assunto. Também me esqueci de sua surpresa. Até que, certo dia sombrio e escuro de março, olhei pela janela. Teimosos montinhos de neve ainda se espalhavam pela grama. O inverno não terminaria nunca?

E o que era aquilo... seria uma miragem? Esforcei-me para ver algo pink que parecia espetado nos montinhos. Seria aquilo um pontinho colorido no jardim, uma pequena nota de otimismo em um espaço sombrio? Peguei meu casaco e saí para dar uma olhada.

Eram açafrões espalhados caprichosamente por todo o gramado. Cor de alfazema, azul, amarelo e pink, minha cor favorita - todos balançando ao vento frio.

Papai... sorri lembrando-me da surpresa: bulbos que, em segredo, plantou naquele outono. Ele sabia que a escuridão e a melancolia do inverno me entristeciam. O que poderia ser mais perfeito para aquele momento e mais adequado às minhas necessidades?

Eu era muito abençoada, não só pelas flores, mas também por tê-Io como pai.

Os açafrões de papai floresceram, uma primavera após outra, durante uns quatro ou cinco anos, e, a cada ano, trouxeram consigo a mesma confiança. Os tempos difíceis estão terminando. Aguente mais um pouco, a luz está chegando.

Então, certo ano, a primavera chegou com somente a metade dos botões que normalmente floresciam e, na primavera seguinte, não houve mais botões.

Perdi os açafrões e, com tantas ocupações diárias e sem entender muito de jardinagem, não tomei as devidas providências.

Deveria ter pedido para papai voltar e plantar novos açafrões, mas não o fiz.

Ele faleceu repentinamente em um dia de outubro. Minha família sentiu muito a sua morte e apegou-se à fé. Eu sentia muito sua falta, embora soubesse que ele seria sempre parte de nós.

Quatro anos se passaram e, em uma sombria tarde de primavera, saí de casa sem rumo, sentindo-me deprimida. "Você está com a mesma conversa fiada do inverno", disse a mim mesma.

Todos os anos, acontecia a mesma coisa, parecia inevitável. Mas não era somente isso; aquele era o dia em que papai comemoraria seu aniversário, e eu me vi pensando nele. Não era nada incomum, pois minha família falava muito em meu pai, sempre mencionando sua fé.

Lembro-me de uma vez em que o vi tirar o casaco e dá-Io a um mendigo. Era frequente vê-lo conversar com estranhos que passavam em frente à sua loja e, se ele soubesse que essas pessoas estavam passando necessidade ou com fome, as convidava para uma refeição em casa.

Agora, não podia evitar alguns pensamentos:

Como ele está agora? Onde ele está? Existe realmente, um céu?

Senti-me culpada pelas dúvidas, mas achava que a fé era algo difícil de conseguir.

Aproximei-me da entrada de nossa casa, parei e olhei para o jardim. A grama estava barrenta, os montículos de neve cinza derretiam, e ali, balançando ao vento, estava um açafrão pink!

Como aquilo acontecera? Uma muda com mais de 18 anos, que não florescia havia uma década, voltara a florescer. Um açafrão! Meus olhos se encheram de lágrimas ao perceber o significado daquilo: Aguente firme mais um pouco, a luz já está chegando.

O açafrão pink floresceu por somente um dia, mas minha fé foi edificada por toda a vida.

A MARCA DE PAPAI

Bill Hybels

 

 

Decentemente, meu irmão e eu conversamos por uma hora, durante um almoço, a respeito das marcas que papai havia deixado em nossas vidas.

Papai não era um homem perfeito, mas era autenticamente masculino. Amava a Deus profundamente, era firme, mas também compassivo ao mesmo tempo.

Dan e eu nos lembramos das vezes que velejamos com ele no lago Michigan. Lembramo-nos das violentas tempestades com ventos de 70 quilômetros por hora. Todos os marujos costumavam voltar para o ancoradouro, mas papai sorria e dizia:

- Vamos em frente!

Conversamos sobre as sérias decisões de negócio que o vimos tomar. Estremecíamos só de lembrar sua firme mão disciplinadora, que corrigia nossos traços de rebelião. Nunca duvidamos disso. Papai era forte, durão e totalmente masculino.

Por 25 anos, passou quase todas as tardes de domingo como voluntário no hospital estadual para doentes mentais, que atendia mais de cem mulheres portadoras de deficiências. Com gentileza e paciência, dirigia o momento de louvor do culto. Somente poucas mulheres conseguiam cantar, mas ele não se importava;

sabia que aquilo fazia com que se sentissem amadas. Ao terminar o culto, ficava próximo à porta para se despedir de cada uma delas, que costumavam lhe dar um beijo no rosto.

Ainda crianças, Dan e eu tivemos o privilégio de ver nosso pai, um homem com 1,90m de altura, pesando 110 quilos, totalmente masculino, tratar aquelas mulheres com tanta gentileza a ponto de marcar nossas vidas.

Se você é pai, que tipo de marcas está deixando em seus filhos, especialmente nos do sexo masculino?

Você sabia que seus meninos o observam como pequenos falcões? Estão formando a imagem do que é ser um homem, e você é o modelo.

Espero que vejam em você um amor profundo e comprometido com Deus. Espero que vejam em você tanto a determinação quanto a gentileza. Se isso acontecer, você os serviu da maneira correta, e eles lhe serão eternamente gratos.

TROCANDO PRESENTES

Cathy Downs

 

 

Meu pai era um daqueles pregadores antigos do interior, que costumava recitar, em voz alta, versículos do púlpito da igreja batista, fazendo com que os ouvintes tremessem em seus lugares. Algumas vezes, ele recitava capítulos do livro de João sem ao menos olhar para a Bíblia em suas mãos.

Em uma tarde, depois das aulas, papai e eu estávamos no carro, a caminho da casa de uma das senhoras da igreja para fazer-lhe uma visita. Eu acabara de receber o livro de leitura da terceira série. Era meu primeiro livro de capa dura, e eu estava orgulhosa dele. Já tinha lido uma história para meu pai e começava a segunda, quando encontrei uma palavra que não conhecia. Ele resmungou algo do tipo não conseguir ler e dirigir ao mesmo tempo; então, lentamente, soletrei a palavra: "o-u-t-o-n-o". Meu pai continuou em silêncio. Nervosa, gritei:

- Você não sabe ler?

Meu pai parou o carro no acostamento e desligou o motor.

- Não, Cathy, eu não sei ler... - ele sussurrou - eu não sei ler.

Ele tomou o livro de minhas mãos.

- Eu não consigo ler nada deste livro - disse-me com tristeza na voz.

Gentilmente, papai começou a contar sobre a sua infância, como todos na família trabalhavam para sobreviver. No tempo da colheita, a escola e os livros tinham que esperar. O algodão tinha que ser carpido no verão e colhido no outono. No inverno, os animais tinham que ser abatidos e preservados. Havia muitas bocas para alimentar, e cada um tinha que dar a sua contribuição.

Para tornar a vida ainda mais difícil, meu pai tinha dois irmãos deficientes, por isso os outros tinham trabalho dobrado.

Como resultado de tantas faltas na escola, meu pai repetiu muitas séries, perdeu a motivação e, aos 16 anos, desistiu da escola.

Jamais me esquecerei da tristeza na voz de papai enquanto me contava sobre sua infância. Também, jamais me esquecerei da vergonha em sua voz quando falou sobre seu constrangimento por não ser capaz de ajudar seus cinco filhos com as lições de casa. Em nenhum momento, amei tanto meu pai.

Lembrei-me, então, de como ele lia tão bem quando estava no púlpito, quando lia capítulos inteiros de uma só vez sem esquecer uma só palavra. Foi quando percebi que homem notável ele era.

Ele ouvia mamãe ler algo algumas vezes e, então, memorizava.

Que memória incrível!

Por esse motivo, eu me tornei sua professora. Fiz uma promessa de que ensinaria meu pai a ler. Tudo o que minha professora fazia comigo na escola, eu fazia com meu pai. Eu lhe ensinava os sons e os padrões da língua exatamente como eu os aprendia.

Quando lia uma história na escola, ao chegar em casa, ensinava meu pai a lê-Ia. Quando eu tinha dificuldade com um novo conceito, aprendíamos juntos. Em troca, ele me ajudava a encontrar recursos mnemônicos para memorizar os pontos necessários para as provas. Em pouco tempo, ele aprendeu a escrever histórias e poemas simples. Logo depois, já conseguia escrever as citações e anotações necessárias para seus sermões. O momento de maior orgulho de minha vida foi quando meu pai leu a passagem bíblica - ele realmente a leu no sermão de domingo.

Meu pai nunca perdeu o fascínio pela linguagem escrita. Lia tudo o que lhe vinha às mãos. Ficou orgulhoso no verão em que conseguiu ler o "Almanaque do fazendeiro" para minha mãe e ensinou-a a plantar.

 

Em 1977, meu pai foi diagnosticado com câncer de pulmão em estado terminal e morreu nove meses depois. Durante esses nove meses, ele leu a Bíblia de Gênesis a Apocalipse. Seu momento de maior orgulho foi quando fechou a Bíblia, sabendo que era capaz de ler tudo o que estava escrito nela.

Antes de morrer, ele me agradeceu o presente que eu lhe havia dado. No entanto, não percebeu que fora ele quem me havia presenteado: eu soube que, assim como ele tinha o chamado para pastor, eu tinha o chamado para alfabetizar. Por causa de meu pai, creio que posso poupar uma criança da tristeza e da humilhação do analfabetismo. Minha carreira como professora vale a pena. Obrigada, pai.

FAZENDO O QUE NOSSO PAI DIZ

Luis Palau

 

 

Mais de 90 pessoas participavam da busca por Dominic DeCarlo, um garoto de oito anos que se perdera em um barranco de uma montanha coberta de neve. Dominic estava esquiando com o pai quando, sem perceber, saiu da pista de esqui.

A cada hora que se passava, a preocupação da equipe de busca e da família aumentava.

A madrugada aproximava-se, e nem sinal do menino. Dois helicópteros uniram-se à busca e, em 15 minutos, encontraram o rastro dos esquis. A equipe terrestre seguiu aquele rastro que, depois, transformou-se em pegadas. As pegadas iam diretamente para uma árvore, e ali estava o menino.

- Ele está ótimo! - o sargento Terry Silbaugh, coordenador da equipe de resgate, anunciou à ansiosa família e à imprensa. - Na verdade, está melhor do que nós!

A assessora de imprensa do hospital disse que as condições de saúde do menino eram tão boas que ele nem precisou ser internado.

Silbaugh explicou por que o menino estava tão bem, a despeito de ter passado a noite exposto a um frio congelador. Seu pai havia sido prudente em ensinar ao menino o que fazer, caso se perdesse. O menino confiou no pai e fez exatamente o que ele lhe ensinou.

Dominic protegeu-se de um possível congelamento dos dedos e das orelhas e, também, de hipotermia, aconchegando-se a uma árvore e cobrindo-se com seus galhos. Sendo ainda criança, nunca teria tido essa ideia sozinha. Estava simplesmente obedecendo a seu sábio e amoroso pai.

Muitas vezes pensei em Dominic. Ele é uma grande ilustração da influência positiva e salvadora que um pai pode ter sobre o filho. Meu próprio pai faleceu quando eu era somente um pouco mais velho do que Dominic. No entanto, ninguém mais teve uma influência tão profunda na direção de minha vida.

Quando garoto, praticamente idolatrava meu pai. Gostava de dizer que meu nome era "Luis Palau Jr.". Ele era o meu ideal de homem, embora fosse quieto e humilde para uma pessoa de tamanha importância na igreja e na comunidade. Seu orgulho pelo evangelho e sua ousadia em compartilhá-Io marcaram minha vida.

Meu pai era coerente: a mesma pessoa que era em casa era na igreja. Ele se levantava bem cedo nas manhãs de inverno para colocar lenha no fogão. Eu deveria estar dormindo, mas saía da cama só para vê-lo andar pela casa. Caso observasse por algum tempo, eu o veria entrar em seu escritório - um pequeno compartimento que ele construíra em uma das laterais da casa - e ajoelhar-se.

Naquele tempo, não tínhamos calefação central, por isso ele se enrolava em um cobertor ou poncho. Ele lia a Bíblia e orava antes de sair para trabalhar. Eu ainda não tinha sete anos, mas já me sentia protegido e grato por meu bom pai.

Um dia, ele me contou que lia um capítulo de Provérbios por dia e, como o livro tinha 31 capítulos e há 31 dias na maioria dos meses, ele lia repetidamente o livro durante todo o ano.

Seu exemplo ficou gravado em mim, e ainda tento praticá-Io.

Conto essa história a amigos e associados, e muitos deles fazem o mesmo.

Além dos estudos bíblicos e leituras que faço, procuro começar o dia com um capítulo de Provérbios e, muitas vezes, o leio de joelhos.

A lembrança de meu pai marcou minha vida para o bem.

Graças a Deus pelos bons pais!

O ÁLBUM DE RECORTES

Charlotte Adesperger

 

 

Após um comovente culto em memória de meu amado pai, Walter Rist, toda a família foi para nossa casa de infância para fazer companhia a mamãe. Minha mente estava repleta de lembranças de papai. Podia ver seus doces olhos castanhos e seu sorriso contagiante. Eu o via em seu 1,90m de altura, usando chapéu e casaco, pronto para ir dar aula na faculdade. Rapidamente, uma nova cena invadiu a minha mente: papai vestido com uma camiseta, jogando bola com Alberta, Wally e eu no gramado de casa. Ele balançava o taco de beisebol e rebatia nossas bolas - anos atrás.

Mas essas lembranças especiais não afastavam as negras sombras que nos separavam de nosso amado.

Mais tarde, naquela noite, enquanto rebuscava um armário, encontrei um saco de papel em que estava escrito: "Álbum de recortes de Charlotte". Curiosa, abri. Ali estava: meu álbum de recortes de adolescência. Até aquele momento, havia me esquecido completamente do que colocara naquelas páginas - gravuras de revistas coladas, boletins da igreja. Ali havia citações famosas, versículos bíblicos e poesias. Essa era eu quando adolescente - pensei -, e ali estavam os desejos de meu coração.

Então, percebi algo que nunca vira antes: a letra de papai em cada página! Senti um nó na garganta quando li as pequenas notas que papai escrevera para se comunicar comigo. Eram mensagens de amor e palavras de sabedoria. Eu não tinha a menor ideia de que ele as tivesse escrito, mas esse era o dia certo para encontrá-Ias!

Na primeira página, ele escreveu: "A vida nunca será um fardo se o amor prevalecer." Meu queixo tremeu. Eu tremi. Mal acreditava em como eram oportunas essas palavras. Continuei a folhear as páginas.

Sob uma gravura de uma noiva sendo entregue pelo pai ao noivo, papai escreveu: "Como fiquei orgulhoso de conduzi-Ia ao altar, Charlotte!" Próximo a uma cópia da oração de Jesus no Getsêmani, ele escreveu: "Com a ajuda de Deus, sempre encontrei as forças de que precisei. Ele nunca me decepcionou." Que conforto!

Vi a figura de um jovem sentado na grama, e sua cadela collie repousava a cabeça no colo dele. Embaixo dessa gravura, estava escrito: "Tive uma cadela igual a essa quando era criança. Ela foi atropelada por um carro e desapareceu. Três semanas depois, voltou para casa, mancando, com uma perna quebrada e sem o rabo. Seu nome era Queenie. Ela viveu por muitos anos, e eu a vi dar à luz sete filhotes. Eu a amava muito. - Papai." Meus olhos ficaram embaçados pelas lágrimas, enquanto lia a outra página: "Querida Charlotte, ouça seus filhos. Deixe-os ralar. Sempre que possível, pegue na mão de Bob, segure nas mãos de seus filhos, pois assim muito amor será transferido e haverá muita ternura para lembrar." Que tesouro para mim como esposa e mãe! Agarrei-me às palavras de meu pai, cujas grandes mãos gentis sempre seguraram as minhas.

Naqueles momentos, enquanto virava as páginas de meu álbum, um conforto inacreditável foi sendo gravado em minha vida. No dia em que papai foi enterrado, sua "última palavra" foi de amor. Uma surpresa tão preciosa, permitida por Deus, lançou lima luz de vitória em minhas trevas. Agora, era capaz de prosseguir, revestida de força.

DO QUE VOCÊ MAIS SE LEMBRA

Steven J. Lawson

 

 

Howard Hendricks, um de meus professores no Seminário de Dallas, há alguns anos contou uma história da qual nunca me esqueci. Era sobre dois irmãos gêmeos, ex-alunos do seminário, que um dia, depois da aula, passaram em sua sala para conversar. No meio da conversa, Hendricks lhes perguntou sobre seu pai, um líder cristão proeminente:

- Rapazes, do que vocês mais se lembram de seu pai enquanto cresciam?

Após uma breve pausa, um dos jovens disse:

- Eu nunca me esquecerei das vezes em que brincávamos de luta no chão. Mesmo quando éramos adolescentes, ele afastava os móveis e rolava conosco no chão em meio a muitas risadas.

Q outro filho refletiu e disse:

- A maior lembrança que tenho de papai foi quando eu estava no ginásio e arranjei um trabalho como entregador de jornais.

Tinha que levantar bem cedo e, quando passava pela porta do quarto de papai, podia vê-lo ajoelhado; eu sabia que ele estava orando por nós. Isso é o que mais me lembro de papai.

Então, o professor Hendricks desferiu o golpe final. Apoiou-se na mesa, ajeitou os óculos e fez uma pergunta profunda:

- E por falar nisso, de que seus filhos mais se lembrarão de vocês?

O LEGADO DO AMOR

Jane Landin Ramirez

 

 

Era uma manhã de outubro. Como sempre, eu corria para aprontar nossos filhos para a escola e para me arrumar para o trabalho. Kevin estava na segunda série, e Joe, na quinta.

Como meu marido, Sandy, tinha as manhãs livres, ele era o responsável por nosso café da manhã.

_ Papai, você pode me levar para a escola hoje? - Kevin perguntou.

- Sinto muito, filho. Seu papai vai queimar umas calorias andando de bicicleta.

Ele olhou para mim e piscou:

- Quero entrar no terno novo que mamãe comprou para mim.

Sandy acabara de ser promovido a subgerente em seu trabalho, e nós estávamos orgulhosos dele.

- Não se esqueçam, vou levar uma garota especial para jantar Fora esta noite - ele acrescentou.

Sandy sempre foi muito romântico. Ele havia me conquistado no primeiro ano colegial e, 20 anos depois, ainda me fazia corar.

- Tchau, papai. Tenha cuidado ao andar de bicicleta! - Joe lhe disse enquanto íamos para o carro.

- Até mais tarde. Amo vocês! - Sandy disse acenando para nós da porta da frente.

Deixei os meninos na escola e corri para o escritório. Minha manhã estava ocupada demais, por isso decidi trabalhar durante o almoço. Nada me impedirá de Jair daqui na hora certa hoje!, pensei.

Mas, pouco depois das 3 horas, Rose, uma colega de trabalho e amiga, entrou em minha sala.

- Jane, aconteceu um acidente - ela me disse. - Sandy está no hospital.

- É grave? Por que não me ligaram? Em que hospital ele está?

Quem telefonou para você? - perguntei em pânico.

- Acalme-se, Jane. Eu não sei se é grave. Foi o chefe dele quem me ligou. Alguém do hospital ligou para ele. Venha, levo você até lá - ela disse.

Meu coração disparou quando me aproximei do balcão de recepção da sala de emergência e perguntei por meu marido.

O atendente telefonou para alguém.

- A esposa está aqui - disse calmamente e, então, virou-se para mim e disse: - Já estão vindo conversar com a senhora. Por favor, aguarde.

- Ele está bem? Onde ele está? Posso vê-lo?

- Por favor, espere aqui, senhora. Alguém logo virá falar com a senhora.

O capelão do hospital aproximou-se e, gentilmente, conduziu-me a uma sala particular.

- Seu marido está aqui desde as 9h30 da manhã. Os enfermeiros nos informaram que ele foi atropelado quando andava de bicicleta. O médico virá para conversar com a senhora. Quer que eu avise a mais alguém?

É um pesadelo, eu já vou acordar, pensei, atordoada e sem fala.

Nesse instante, Rose entrou na sala. Sua expressão de preocupação fez com que as lágrimas que eu estava segurando escorressem por minha face. Ela me fez sentar e começou a telefonar para minha família e para nosso pastor.

- Sua irmã trará os meninos - disse-me.

O médico entrou na sala, e eu levantei, de um salto, para conversar com ele.

- Sou o Dr. Gray. Seu marido está na UTI. Temo que as notícias não sejam boas. Ele sofreu um forte traumatismo no crânio e na espinha. Tivemos que amputar sua perna esquerda para controlar a hemorragia. Ele respira com a ajuda de aparelhos, e o suprimento de sangue que seu cérebro está recebendo é de somente 2% do nível normal. Seus ferimentos foram tão graves que é um milagre ter sobrevivido. Sinto muito... não há mais nada que possamos fazer.

Minhas pernas amoleceram, e eu tive que ser amparada. Raiva e culpa me consumiam, e eu severamente os censurei:

- Ele está sozinho aqui há todo esse tempo! Por que vocês demoraram tanto a me avisar?

O capelão respondeu:

- Seu marido não portava nenhuma identificação, e a polícia tinha somente as iniciais gravadas em seu anel para descobrir quem ele era. Uma das enfermeiras, ao ver o anuário, reconheceu-o e lembrou-se de onde ele trabalhava. O chefe dele nos disse que tentaria localizá-Ia. Sinto muito pela demora.

- Por favor, deixe-me vê-lo! - disse com um nó na garganta.

- Ele está inconsciente. Seus ferimentos o desfiguraram, e ele está entubado. Essa imagem pode ser chocante - explicou o Dr.

Gray.

- Preciso vê-lo agora! - insisti.

Segui o Dr. Gray. Ao me aproximar de Sandy, lágrimas vertiam de meus olhos. Acariciei suas mãos frias e beijei sua testa.

_ Estou aqui, amor. Sinto muito por não ter chegado antes - disse carinhosamente.

Milhões de pensamentos passavam por minha mente como flechas: Estou com tanto medo... não dei o que farei sem Sandy, sinto-me Jó. Por favor, ajuda-me, Senhor. Por que isto aconteceu? Sinto-me tifo impotente... Querido Deus, por favor, poupa-o de sofrimento... Senhor, ajuda-me a ser forte para os meninos.

- Amo você - sussurrei. - Você está nas mãos de Deus agora.

Eu queria tanto que Sandy abrisse os olhos e me dissesse que tudo ficaria bem!

Nosso silêncio foi interrompido por um toque em meus ombros. Dr. Gray me pediu que o acompanhasse. Do lado de fora do quarto, havia duas outras pessoas.

- Senhora Martinez, sei que está passando por um momento extremamente difícil. - disse Dr. Gray. - Eu gostaria poder dizer-lhe de uma maneira mais fácil, mas há pouco tempo. O coração de seu marido e outros órgãos vitais não foram comprometidos pelo acidente, e aqui estão duas pessoas do banco de órgãos. Elas gostariam de conversar por alguns instantes com a senhora.

- Por favor, Dr. Gray, o senhor tem certeza de que não há esperança?

Solidário, ele respondeu-me:

- Eu desejaria lhe dizer o que a senhora quer ouvir, mas, por favor, ouça o que essas pessoas têm a dizer.

Eu nunca havia pensado sobre doação de órgãos. Sandy e eu nunca havíamos conversado sobre esse assunto, e a ideia era assustadora. Mas eu as ouvi. Gentilmente me pediram que considerasse a possibilidade de doar os órgãos de Sandy. Tudo estava acontecendo de maneira tão rápida que fiquei aliviada ao ver nosso pastor chegar.

O reverendo O'Connor seguiu-me até o quarto de Sandy.

- Sandy não vai sobreviver, e aquelas pessoas estavam conversando comigo sobre doação de órgãos. Eu não sei o que fazer...

- disse-lhe. .

- Jane, o trabalho de Sandy na igreja demonstrava sua natureza dedicada e altruísta. Lembrar-se disso pode ajudá-la a tomar a decisão. É uma escolha, por isso você não deveria tomá-la sozinha.

Os meninos sabem o que está acontecendo? - perguntou-me.

- Não, eles estão a caminho. Eu não sei como vou explicar tudo isso a eles - disse-lhe enquanto voltávamos para a sala de espera.

A sala de espera, que estava repleta, silenciou quando entrei.

Dois meninos assustados correram em minha direção.

- Onde está papai? Por que não podemos vê-lo? - ambos perguntaram.

Peguei em suas mãos e os levei ao quarto de Sandy. Eles olharam para a figura sobre a cama como se fosse um estranho.

- Papai está muito machucado. Ele foi atropelado e bateu a cabeça com muita força. Não tenham medo.

Nós nos aconchegamos em um abraço apertado, e eu comecei a falar-lhes:

- Meninos, os médicos fizeram de tudo para ajudá-lo. Nós o amamos muito, e eu sei que vocês dois querem que ele melhore.

- Sim, mamãe, mas como podemos ajudá-lo? - Kevin perguntou.

- Os médicos não podem mais ajudá-lo, e nós também não, mas há alguém que pode - eu disse.

- Deus, não é, mamãe? - Joe perguntou.

- Sim, Deus; mas, para isso, Ele precisa levar papai para o céu para ir morar com Ele - respondi.

- Mas, então, nós não o veremos mais, como o vovô - soluçou Kevin.

- Papai sempre estará conosco, Kevin. Ele está em nossos corações, e nós o amamos, precisamos deixá-Io ir para o céu, onde ele não irá mais sofrer. Vovô já está no céu, portanto papai não vai ficar sozinho lá. Algum dia, quando formos para o céu, nós os veremos novamente - expliquei.

- Vocês se lembram de como papai gostava de ajudar as pessoas? - perguntei.

- Sim, ele ajudava as pessoas mesmo quando não as conhecia Kevin completou.

- Vocês acham que papai continuaria a ajudar as pessoas se ele pudesse?- perguntei.

- Acho que sim, mamãe, mas como? - perguntou Joe.

- No céu, Deus dará um novo corpo ao papai, sem machucá-los. Por isso, ele não precisará mais desse corpo. Há pessoas que n6s poderíamos ajudar a se sentirem melhor se lhes déssemos os lindos olhos verdes de papai ou seu grande coração.

- Papai ainda nos amará se ficar sem seu coração? Ele se lembrará de nós? - Kevin questionou.

- É claro que sim. Papai sempre nos amará, não importa o que aconteça - respondi.

Após um rápido silêncio, Kevin falou:

- Vamos ajudar essas pessoas, mamãe. Papai gostaria de fazer ISSO.

Joe continuou em silêncio por mais alguns minutos. Afagando a mão do pai com suas pequeninas mãos, ele a beijou e sussurrou:

- Amo você, papai. Diga ao vovô que eu também o amo.

Então, rapidamente saiu do quarto.

O restante da família apoiou nossa decisão sem hesitar. Minhas mãos tremiam enquanto eu assinava os papéis de consentimento.

Depois de dar um tempo para a família a sós com Sandy, os cirurgiões foram trabalhar para conseguir o maior número de órgãos possível.

Enquanto minha irmã me levava para casa, pensei sobre o jantar, que não aconteceria, e sobre o terno novo, que seria usado pela primeira e última vez.

Cada carta que recebíamos do banco de órgãos amenizava a dor pela perda de Sandy. Embora as identidades dos receptores fossem mantidas em sigilo, lemos sobre o diretor de uma escola que estava a poucas horas da morte quando recebeu o coração de Sandy. Duas pessoas ficaram livres da diálise depois que cada uma recebeu um rim dele. Dois idosos receberam o dom da visão pelo transplante das suas córneas. Ler as cartas para Kevin e Joe facilitou conversar sobre nossa perda.

Dois meses após o acidente, enfrentamos o primeiro Natal sem Sandy.

- Mamãe, quem vai colocar as luzes de Natal este ano? - Kevin não parava de me perguntar.

Eu sabia que não poderia desapontar os meninos quebrando a tradição familiar de decorar nossa casa com luzes, mas eu não conseguia entrar no espírito de Natal. Até que ela chegou: uma carta do banco de órgãos de tecidos. Eu a li em voz alta, e os meninos ouviram: "Sua generosa doação iluminou a vida de cem pacientes queimados e de suas famílias, algumas com queimaduras de pele gravíssimas."

- Mamãe, papai já se foi há muito tempo e ainda está ajudando as pessoas. - Joe disse orgulhosamente.

- Mamãe, acho que essa carta aí está errada. Papai era um homem grande. Não acredito que ele só tenha ajudado cem pessoas. Ele deve ter ajudado pelo menos um milhão! - Kevin acrescentou.

Lembranças de natais passados fluíram em minha mente.

Sandy sempre se vestia de Papai Noel nas festividades natalinas. A antiga roupa de Papai Noel não precisava de muito enchimento, e suas bochechas naturais e os ho, ho, ho faziam-nos rir.

Sentiríamos muita falta dele - particularmente nesse primeiro Natal; e não só nossa família. Haveria um voluntário a menos neste ano para entregar alimentos e presentes aos necessitados e para servir os convidados na casa Ronald McDonald. Um lindo cartão solidário assinado pelos alunos de sua classe da Escola Bíblica Dominical, da igreja, refletia o amor que sentiam por seu professor. Uma das crianças escreveu: "Eu não ficarei triste porque o senhor Martinez sempre me fazia rir." O Natal é um momento alegre, refleti. Assim como aquela criança, eu me recusei a ficar triste. Sandy tocara a vida de muitos - e, até mesmo agora, seu legado de ajuda ao próximo permanecia vivo.

Eu não poderia - e não iria - desapontá-Io.

Com um novo vigor, exclamei:

- Meninos, que tal começarmos com as luzes e deixarmos papai orgulhoso de nós?

O PODER DE ESTAR LÁ

Thom Hunter

 

 

Enquanto crescia, não tive meu pai morando em casa, por isso meu alvo quando crescesse era ser pai. Não somente ser pai... Meu pai existia em algum lugar por aí. Queria ser um verdadeiro papai.

A responsabilidade número um de um pai é "estar lá", disse a mim mesmo; não perder os momentos que unem um pai a um filho. Por toda a minha vida, cataloguei os momentos que deveriam ter sido compartilhados com meu pai.

- Algum dia - comprometi-me -, desfrutarei esses momentos com meus filhos.

Certas coisas acontecem quando estamos menos preparados:

atolados de serviço, com muitos compromissos e cansados. No meio de uma enorme lista de afazeres, ouço uma pequena voz que me aponta a direção:

- Você estará lá, não é, papai?

- É claro - respondo. - Jamais perderia esse momento.

O ano de 1984 foi o mais atarefado de minha vida adulta. Foi o ano após o nascimento de nosso quarto filho e, também, o ano do primeiro piquenique de nosso filho mais velho.

Quase perdi o piquenique, envolvido com as coisas de última hora. Mas saí do escritório bem a tempo e fui voando para o parque.

Zachary estava sentado na grama, próximo à mesa de piquenique. O sol batia em seu pescoço moreno à mostra. Ele estava todo sujo de brincar no parquinho, com os cotovelos esfolados e suado. As meias caíam por cima do tênis, que já fora branco um dia. Ele estava sentado, cercado por mil... - ou pelo menos umas 75... - crianças de sete anos.

Os olhos de Zach acompanhavam algo que se movimentava na grama alta. Era um brilhante inseto dourado. A criaturinha tentava fugir, em vão, pois ele atirava montinhos de terra para bloquear seu caminho.

- Que bom! - ele disse quando me sentei a seu lado. - Fiquei preocupado, achando que o bichinho dourado iria escapar antes de você chegar. Olhe.

Ele disse antes, pensei. Zach nem imaginou que talvez eu não aparecesse, que eu pudesse ter me esquecido do piquenique da Escola Washington.

Cercado por mães, Zachary e eu comemos nossos sanduíches sentados na grama, com as pernas cruzadas e com as minhas juntas enferrujadas. Ele me apresentou a RacheI, com quem gosta de brincar. A todo instante, uma criança vinha até Zach e lhe perguntava:

- É seu pai?

Eu sempre quis perder 20 quilos, colocar uma roupa esporte e ficar musculoso para que Zach tivesse algo do que se orgulhar em mim; mas Zach olhava para mim exatamente como eu era e, com um sorriso, dizia:

- Com certeza, é meu pai.

Zachary repartia suas gomas de mascar comigo. Ele não acreditava que eu mascava chicletes quando tinha sete anos.

- Você também repartia com seu pai? - perguntava. - Eu não podia responder, por isso mudava de assunto. .

Naquela tarde, quando chegamos em casa, peguei Zachary no colo para lhe mostrar o ninho de um pássaro no alto da varanda.

Fiquei impressionado ao sentir o peso de um garoto de sete anos.

Ele colocou a mão dentro do ninho e não encontrou ovos, somente grama e penas.

- Seu pai alguma vez levantou você para deixá-Io espiar dentro de um ninho? - perguntou ele. - Mais uma vez, não pude responder.

Algum tempo depois, levei-o para dormir em seu quarto, todo decorado com heróis. Ele deitou sobre a minha barriga, e eu acariciei suas costas até que ele fechou os olhos. Somente quando ia saindo do quarto é que descobri que ele fingiu estar dormindo:

- Boa-noite, papai! - gritou.

Ao longo dos anos, tenho colecionado uma valiosa série de ocasiões em que eu "estava lá". Com frequência, falo sobre elas com meus filhos, apontando-as quando surgem as dúvidas, usando-as para fechar brechas e curar feridas. Há um grande poder nos "lembra-se de quando...", mas você só pode usá-los se os tiver praticado.

Algum dia, o filho ou a filha de Zachary lhe perguntará:

- Seu papai já levantou você para poder espiar dentro de um ninho?

Fico feliz por saber que ele terá uma resposta.

A BÊNÇÃO DE UM PAI

Morgan Cryar

 

 

Muitas manhãs, quando eu era criança, tropeçava no escuro ao andar em direção à caminhonete da família. Entrava, voltava a dormir e só acordava ao som da conversa durante uma parada a caminho das florestas de Louisiana.

Embora fosse muito jovem, ainda me lembro de que me vestia, subia na caminhonete com o papai - a pessoa mais importante da minha vida naquele tempo - e ia com ele caçar esquilos ou cervos nas primeiras horas da manhã.

Há dez anos, certa manhã, estava indo novamente à floresta para caçar com papai. Já era adulto e tinha minha própria família. Havia traçado o roteiro havia meses e tinha prometido fazer uma viagem de nossa casa, em Nashville, Tennessee, até os pântanos de Lake Charles, Louisiana, onde eu havia crescido.

Embora ainda não soubesse, essa não seria uma manhã comum, mas a manhã e~ que eu descobriria a aprovação de papai. Nessa manhã, ele me daria a sua bênção.

Quando entramos em sua velha caminhonete, ele ligou o motor, e uma música começou a tocar no toca-fitas. Conhecia bem aquela melodia e estava surpreso por ouvi-Ia na caminhonete de papai. Era minha mais recente gravação e estava sendo proclamada no silêncio da manhã. Não pude evitar e disse:

- Eu não sabia que você tinha essa fita. Você costuma ouvi-Ia?

Sua resposta me surpreendeu.

- É a única coisa que eu escuto.

Olhei ao redor e, com certeza, era a única fita cassete em sua caminhonete. Fiquei emudecido!

_ É minha favorita - disse papai referindo-se à canção que estava sendo tocada naquele momento.

Em silêncio, continuamos em direção ao lugar onde íamos caçar, e eu imaginava o que estava acontecendo. Parecia uma coisa insignificante: somente poucas palavras foram pronunciadas. Mas algo diferente estava no ar. Sentado ao lado de papai, olhei para ele de soslaio e lembrei-me de dois momentos decisivos em nosso relacionamento.

Um deles aconteceu quando eu estava na faculdade. Lembro-me de que, até então, nunca ouvira meu pai dizer que me amava.

Sabia que ele amava, mas não me lembro de tê-Io ouvido expressar isso. Era algo que ele simplesmente não fazia. Por algum motivo, ouvir essas palavras de seus lábios tornou-se importante para mim. No entanto, sabia que ele nunca tomaria a iniciativa.

Então, naquele verão, no caminho de volta para casa, decidi que iria "forçar a barra" dizendo-lhe primeiro que eu o amava.

Aí, ele teria que me retribuir. Seria simples. Somente três palavras. Pensei que haveria uma grande abertura em nosso relacionamento quando chegasse em casa e lhe dissesse: "Amo você, papai", e ele respondesse que me amava também.

Mas não foi tão simples assim. O primeiro dia veio e se foi, e eu pensei: Tenho que dizer para ele amanhã! O segundo dia veio e se foi. O dia seguinte, e mais outro dia e o próximo. Doze semanas se passaram até que o último dia de minhas férias de verão chegou. Estava frustrado por não ter dito aquelas três palavras a papai. Meu carro já estava cheio de malas e estacionado na entrada da casa. Prometi a mim mesmo que não ligaria o motor sem cumprir minha tarefa. Para alguém com um relacionamento afetivo aberto com o pai, isso parecia uma tolice, mas para mim era sério. As palmas de minhas mãos estavam suadas, e minha garganta, seca. Meus joelhos tremiam, à medida que a hora de partir se aproximava.

Tinha sido uma boa visita de verão. Havia urna tristeza geral na casa, porque eu estava voltando para a faculdade, que ficava do outro lado do estado.

Finalmente, não pude mais esperar. Abracei minha mãe, meu irmão, minha irmã e fui à procura de papai. Aproximei-me dele, olhei em seus olhos e lhe disse:

- Amo você, papai.

Ele deu um meio sorriso, colocou os braços ao redor de mim e disse o que eu mais precisava ouvir:

- Amo você também, filho.

Enquanto nos abraçávamos (outra coisa que não acontecia desde a minha infância), parecia que milhares de volts de eletricidade estavam no ar. Foi algo pequeno que mudou tudo!

Daquele dia em diante, todas as nossas conversas eram encerradas com "eu amo você, pai" e "eu amo você também, filho".

Abraços tornaram-se comuns ao nos cumprimentarmos e nos despedirmos. Aquilo resultou em um novo relacionamento entre papal e eu.

Enquanto ia com ele, naquela manhã, caçar na floresta, essa lembrança me veio à mente.

O outro momento decisivo aconteceu após a faculdade.

Lembro-me de ter aprendido em um seminário a respeito de ter a consciência limpa em relação àqueles a quem ofendemos. Isso era completamente novo para mim: admitir a culpa e pedir perdão.

Parte desse processo foi pedir a Deus que me mostrasse todas as pessoas com as quais eu precisasse me entender. Com certeza, o primeiro da lista era papai. Então, sentei-me com ele e comecei pelas piores coisas que havia feito; depois, contei as menores.

Confessei tudo o que eu sabia, as coisas que o tinham magoado desde a minha infância. E, simplesmente, perguntei:

- Pai, você me perdoa?

Como já era esperado, papai ficou embaraçado e tentou fugir:

- Ah, está tudo bem, filho.

- Para mim, é muito importante ouvir que você me perdoa - eu insisti.

Ele olhou bem para mim e disse:

- Já foi perdoado.

Aquela era a sua maneira de dizer que não tinha ressentimentos.

Imediatamente, mais uma vez, tudo mudou. A partir daquele dia, papai passou a tratar-me com um novo respeito, como um adulto, como um amigo.

No silêncio da manhã, a caminho da floresta, esses pensamentos vinham-me à memória, e o fato de papai aprovar meu chamado, meu trabalho, minha música, trazia-me tranquilidade. Não imaginava como sua bênção se tornaria tão preciosa para mim.

Uma semana depois, quando já havia voltado com minha família para Nashville, recebi um telefonema de meu irmão, Tommy, dizendo-me que papai tinha sofrido um ataque cardíaco na varanda de casa e que falecera. Ele era jovem e saudável - somente 49 anos de idade. Foi o dia mais sombrio de minha vida.

Embora minha família e eu sentíssemos muito sua perda, eu ainda tinha muito a agradecer. Desfrutei 30 anos com meu pai, alguns deles como seu amigo. Ele me estruturou para superar o desafio de criar meus próprios filhos, inclusive meu filho que nasceria seis anos depois, no Dia dos Pais.

Embora papai tenha partido, nos primeiros momentos daquela manhã, a caminho da floresta, ele havia me dado algo de grande valor para ser passado adiante: a bênção de um pai.

PREOCUPAÇÃO

Billy Graham

 

 

Alguns anos atrás, alguém deu a meu filho um dólar.

Ele o trouxe até mim e disse:

- Papai, pode guardar para mim?

Alas, alguns momentos depois, ele voltou e disse:

- Papai, é melhor eu guardar meu dinheiro.

Ele o colocou em seu bolso e foi brincar. Logo em seguida, voltou com lágrimas nos olhos, dizendo:

- Papai, perdi meu dinheiro. Por favor, me ajude a encontrá-lo!

Com que frequência também entregamos nossos fardos ao Senhor e, depois, deixamos de confiar nele, pegando os problemas de volta... Então, quando tudo fica confuso, oramos: "Oh, Senhor, me ajude, estou encrencado."

A escolha é sua. Quer confiar sua vida ao "bolso "de Deus ou quer guardá-la em seu próprio bolso?

 

 

 

Não siga por velhas trilhas: caminhe onde não há trilhas e deixe um rastro. Anônimo

 

UM ERRO PERFEITO

Cheryl Walterman Stewart

 

 

Vovô Nybakken amava a vida - especialmente quando pregava peças nas pessoas. Ele dava muitas risadas, chacoalhando o corpo grandalhão e simulando uma inocente surpresa. Mas, certo sábado, no centro de Chicago, foi Deus quem pregou uma peça em vovô, e ele não riu.

O pai de mamãe trabalhava como carpinteiro. Nesse dia, em especial, estava fazendo alguns caixotes para acomodar as roupas que sua igreja enviaria para um orfanato na China. No caminho de volta para casa, procurou por seus óculos no bolso da camisa, mas não estavam lá. Ele se lembrava de tê-los colocado ali naquela manhã, por isso voltou para a igreja. Mas sua busca foi em vão.

Enquanto mentalmente relembrava tudo o que havia feito durante a manhã, percebeu o que acontecera: os óculos haviam caído de seu bolso sem que ele percebesse e deviam ter ido parar em um dos caixotes que já estavam lacrados. Seus óculos novinhos em folha estavam a caminho da China!

Aquela era a época da Grande Depressão, e vovô tinha seis filhos. Ele acabara de comprar aquele par de óculos que lhe custaram 20 dólares. Ficou chateado só de pensar que teria de comprar um novo par.

- Não é justo - disse a Deus - enquanto dirigia para casa muito frustrado. - Tenho sido fiel a ti ofertando meu tempo e dinheiro para tua obra, e agora isso me acontece?

Vários meses se passaram, e o diretor do orfanato estava de licença nos Estados Unidos. Queria visitar todas as igrejas que contribuíram para com ele na China. Por isso, em uma noite de domingo, foi até a pequena igreja de vovô, em Chicago. Vovô e toda a família sentaram nos lugares costumeiros.

O missionário começou agradecendo a todos a fidelidade em sustentar o orfanato.

- Mas, acima de tudo - ele disse -, gostaria de agradecer os óculos que nos enviaram no ano passado. Os comunistas haviam acabado de invadir o orfanato e destruíram tudo, inclusive meus óculos. Estava desesperado. Mesmo que tivesse dinheiro, não haveria maneira de fazer um novo par de óculos. Não enxergava bem e tinha dores de cabeça diárias. Meus assistentes estavam orando muito sobre isso. Até que os caixotes chegaram. Quando nossa equipe abriu as tampas, encontrou um par de óculos por cima das roupas.

O missionário fez uma pausa e, então, continuou:

- Irmãos, quando experimentei os óculos, parecia que tinham sido feitos especialmente para mim! Quero agradecer a vocês por fazerem parte desse milagre.

Todos escutaram e se alegraram pelos óculos milagrosos; mas o missionário, com certeza, deixou a igreja perplexa, pois não havia nenhum par de óculos na lista de itens enviados.

Sentado, em silêncio, com lágrimas escorrendo pelo rosto, um carpinteiro comum descobriu que o Carpinteiro Mestre o havia usado de maneira extraordinária.

QUANDO DEUS O TOMA PELA MÃO

Ron Mehl

 

 

Pés pequenos não são os únicos que tropeçam. Um de meus amigos recentemente tornou-se avô pela primeira vez.

Pergunte a qualquer avô com quem seu netinho se parece e, sem dúvida, ele abrirá um enorme álbum de fotos ou simplesmente elogiará seu neto por horas.

Um dia, fui visitar esse meu amigo enquanto ele cuidava da netinha.

- Veja 1SS0, Ron - ele disse enquanto pegava a garotinha nos braços e a colocava em pé, no chão, encostada no sofá. Mesmo com as costas contra o sofá, pude ver que tudo o que ela conseguia fazer era ficar de pé.

Meu amigo, então, disse:

- Venha para o vovô, querida, venha para o vovô!

Aquelas perninhas gorduchas mal conseguiam aguentar seu peso enquanto ela se apoiava contra o sofá, quanto mais permitir que ela se movimentasse. Ela deu um passo minúsculo e caiu em um amontoado de pernas, fraldas e cachinhos dourados. Então, simplesmente sorriu.

Vovô também sorriu, mas um pouco embaraçado. Colocou-a novamente contra o sofá para uma nova tentativa.

- Venha até o vovô, querida. Venha, coração. Venha!

Ela queria obedecer. Tentou, mas novamente desabou no chão.

Meu amigo riu de novo, mas, dessa vez, não conseguiu disfarçar o medo de que talvez tivesse se gabado das habilidades motoras de sua netinha cedo demais.

- Talvez ela esteja cansada, vovô - eu brinquei.

Ele sorriu. Mais uma tentativa. Mais um montinho de dez meses amontoado no chão. Essa última aterrissagem foi um pouco pior do que a anterior, e a garotinha começou a chorar.

Meu amigo deu a famosa desculpa:

- Bem, acho que ela está cansada. Ontem, andou muito.

Então, fez algo que achei maravilhoso. Em vez de deixar o bebê engatinhar por si mesmo, quis dar uma mãozinha. Com suas grandes e ásperas mãos, segurou as mãos gordinhas da criança, levantou-a e colocou os pezinhos dela sobre os dele. Quando levantava o pé esquerdo, o pé esquerdo dela também se levantava, e o mesmo acontecia com o direito. Andaram pela sala com uma precisão que teria feito um sargento treinador da Marinha ficar orgulhoso. Uma expressão de segurança e de prazer iluminou o rosto da garotinha. Ela estava andando! Tinha se transformado de um bebê cambaleante em uma mocinha na passarela no concurso de MISS América. Tudo por causa das mãos e dos pés do vovô.

Ela ria com prazer e andava com orgulho; era muito novinha para perceber que seus pés apoiavam-se em pés maiores, que haviam andado muitos quilômetros; que suas mãozinhas seguravam mãos grandes, que haviam carregado fardos pesados;

que seu equilíbrio dependia do equilíbrio de um homem que marchara na lama, andara sobre o gelo e navegara por corredeiras.

Em todo o tempo, estava sendo estimulada pelo coração de um avô que supria suas necessidades e que a amava muito.

Como filhos do Pai celestial, também precisamos de ajuda ao longo da vida. Davi pensou corretamente quando escreveu: "A tua direita me susteve, e a tua clemência me engrandeceu. Alargaste sob os meus passos o caminho, e os meus pés não vacilaram" (SI 18.35-36).

O Pai celestial nos toma em suas mãos e nos levanta gentilmente.

Ele nos sustenta e aplaina nosso caminho. Ele nos livra do erro.

Tropeçaremos ou perderemos o equilíbrio algumas vezes? Certamente. Mas a Bíblia assegura-nos de que, se agarrarmos com força sua mão, nossos tropeços não resultarão em quedas desastrosas.

"O Senhor firma os passos do homem bom, e no seu caminho se compraz; se cair, não ficará prostrado, porque o Senhor o segura pela mão" (Salmo 7.23-24).

PREPARANDO-SE PARA VIAJAR

Kenneth Boa

 

 

Anos atrás, um pastor estava na fita de um posto de gasolina esperando para abastecer seu carro na véspera de um feriado prolongado.

O frentista era rápido, mas havia muitos carros na frente.

Finalmente, o frentista sinalizou para que ele fosse até uma bomba disponível.

- Reverendo - disse o jovem - sinto muito pela demora.

Parece que todo mundo espera até o último momento para se preparar para uma longa vagem.

O ministro, rindo, respondeu:

- Eu sei bem o que você quer dizer.

No meu negócio, acontece o mesmo.

PAZ

Billy Graham

 

 

O mar batia contra as rochas formando ondas gigantescas. Relampejava, trovejava, e o vento soprava; mas o pequeno pássaro dormia na fenda de uma rocha, sereno, com a cabeça sob a asa.

Isso é paz: conseguir dormir em meio a uma tempestade.

Em Cristo, podemos descansar e estar em paz, bem no meio da confusão, da adversidade e das perplexidades da vida.

As tempestades podem ser violentas, mas nosso coração descansa. Encontramos a paz... finalmente!

O CARVALHO

Max Lucado

 

 

Em uma recente viagem para minha cidade natal, separei um tempo para ir ver uma árvore. Papai a chamava de "o carvalho vivo" (com ênfase na palavra vivo). Era apenas uma mudinha, e minha mão podia dar a volta ao redor de seu tronco e ainda sobravam dedos. No oeste do Texas, o vento frio espalhava as folhas, e, naquele momento, tive que subir o zíper de meu casaco. Não há nada mais frio do que o vento em um lugar plano, especialmente em um cemitério.

- Uma árvore especial - disse para mim mesmo - com uma missão especial.

Olhei ao redor. Haviam outras árvores, conhecidas como olmeiros, que se enfileiravam ao longo do cemitério, mas não havia carvalhos. O chão estava repleto de lápides, mas não de árvores. Somente essa. Uma árvore especial para um homem especial.

Há aproximadamente três anos, papai começou a notar um enfraquecimento de seus músculos. Começou pelas mãos e, depois, nas panturrilhas, seguido pelos braços.

Ele mencionou sua condição a meu cunhado, que é médico.

Meu cunhado ficou alarmado e encaminhou-o a um especialista.

Uma bateria de testes foi realizada: exames de sangue, neurológicos e musculares. O diagnóstico: doença de Lou Gehrig. Um enfraquecimento devastador. Ninguém conhece a causa nem a cura dessa enfermidade. Só o que se sabe a respeito dela é de sua crueldade e precisão.

Olhei para baixo, para o lugar que algum dia abrigaria meu pai. Papai sempre quis ser enterrado sob um carvalho, por isso o comprou. Era uma muda especial, e ele tivera que conseguir uma autorização do conselho municipal para plantá-Ia ali (o que não era tão difícil em uma cidadezinha poeirenta onde todos se conheciam) .

Senti um nó na garganta. Outro homem teria ficado revoltado, já teria desistido. Mas papai, não. Ele sabia que seus dias estavam contados, por isso começou a colocar a casa em ordem.

A árvore era somente um dos preparativos que ele havia feito.

Ajeitou a casa para mamãe instalando um sistema de rega, uma porta de garagem automatizada e pintou o madeiramento. Atualizou o testamento, verificou as políticas de seguro e de aposentadoria, planejou seu funeral e comprou lotes no cemitério para ele e para mamãe. Preparou seus filhos com palavras de estímulo e cartas de amor. E, por último, comprou a árvore. A árvore rira (com ênfase na palavra viva).

Atos finais. Horas finais. Palavras finais.

Tudo reflete uma vida bem vivida. Assim foram as últimas palavras de nosso Mestre. Às portas da morte, Jesus também colocou a casa em ordem:

Uma última oração de perdão.

Um apelo que foi honrado.

Um pedido de amor.

Uma questão de sofrimento.

Uma confissão de humanidade.

Um chamado de libertação.

Um clamor de conclusão.

Palavras ao acaso ditas por um mártir em desespero? Não.

Palavras intencionais pintadas pelo Libertador Divino nas telas do sacrifício.

Palavras finais. Atos finais. Cada um deles é como uma janela através da qual a cruz pode ser melhor compreendida. Cada qual abre um tesouro de promessas.

- Então, foi ali que você aprendeu isso - falei em voz alta como se estivesse conversando com o meu pai.

Sorri para mim mesmo e pensei: É muito mais fácil morrer como Jesus quando de vive como ele durante toda a vida.

As horas finais estão chegando. A chama de sua vela se enfraquece cada vez mais. Ele está em paz. Seu corpo está morrendo, mas seu espírito vive. Ele não consegue mais sair da cama. Escolheu viver os últimos dias em casa. Não será por muito tempo. O vento da morte em breve extinguirá a trêmula chama.

Mais uma vez, olhei para o pequeno carvalho. Eu o toquei como se ele pudesse ouvir os meus pensamentos.

- Cresça - sussurrei. - Fique alto e forte. Você guardará um tesouro valioso.

Fui para casa e continuei pensando sobre aquela árvore.

Embora frágil, as décadas a tornariam forte. Embora pequena, os anos lhe acrescentariam forças. Seus últimos anos serão os melhores; assim como os de papai, assim como os de Jesus, nosso Mestre.

- É mais fácil morrer como Jesus quando se vive como Ele durante toda a vida. Cresça, jovem árvore, fique forte. Você guardará tesouro valioso - declarei com os olhos cheios de lágrimas.

Quando cheguei em casa, papai estava acordado. Curvei-me sobre sua cama.

- Fui ver a árvore - disse-lhe. - Está crescendo.

Ele sorriu.

NÃO DESISTA

Morris Chalfant

 

 

Há um quadro que retrata o diabo e um jovem diante de um tabuleiro de xadrez. O diabo acaba de mover uma peça, e a rainha do jovem está em xeque-mate. Derrota e desespero estão estampados em seu rosto.

Um dia, o grande gênio do xadrez, Paul Morphy, parou diante desse quadro. Ele estudou cuidadosamente a posição das peças. De repente, seu rosto iluminou-se, e ele deu um grito para o Jovem na gravura:

- Você ainda tem um movimento! Não desista, você ainda tem um movimento!

Nós, também, enfrentamos situações em que nos sentimos em xeque-mate. Não vemos uma saída. Então, o grande Mestre aproxima-se. Ele se lembra daquele dia em que orou para ser poupado da cruz:

- "Afasta de mim esse cálice" - suplicou.

A cruz parecia ser o fim de seu mundo, porém ainda havia mais um movimento. Depois da cruz, estava um sepulcro vazio e a vitória.

O mesmo Cristo é capaz de ver o triunfo que está além da cruz.

- Não desista, você ainda tem um movimento! - ele diz.

O MENINO COM PARALISIA CEREBRAL

Tony Campolo

 

 

Fui convidado a ser conselheiro de um acampamento de alunos da penúltima série. Todo mundo deveria fazer isso pelo menos uma vez na vida. A ideia fixa de garotos dessa idade, durante um bom período, é atormentar as pessoas. E, nesse caso particular, nesse acampamento específico, havia um menino que sofria de paralisia cerebral. Seu nome era Billy. E seus colegas o atormentavam.

Ah, e como o atormentavam! Quando Billy atravessava o acampamento sem conseguir coordenar os movimentos, eles se aproximavam e imitavam seus movimentos grotescos. Certo dia, eu o vi indagando como chegar a um determinado lugar.

- Qual... é... o caminho... até... a loja... de... artesanato? - ele gaguejou com a boca contorci da.

E os garotos o imitaram, gaguejando da mesma maneira.

- É... logo... ali... Billy - disseram, rindo em seguida.

Fiquei furioso.

Minha raiva chegou ao ponto máximo na manhã de quinta-feira, quando foi a vez de Billy dirigir a devocional. Eu me perguntei o que aconteceria, porque eles haviam designado Billy para ser o orador. Eu sabia que os garotos só queriam divertir-se à custa dele. Enquanto Billy caminhava com passos lentos até a frente do auditório, eu podia ouvir risadinhas vindas de todos os lados. Billy levou quase cinco minutos para proferir sete palavras:

- Jesus... me... ama... e... eu... amo... Jesus.

Quando ele terminou, houve um silêncio mortal. Olhei por cima do ombro e vi, em seguida, garotos da penúltima série gritando de alegria por todo lado. Houve um reavivamento naquele local após o curto testemunho de Billy. Em minhas viagens pelo mundo todo, encontro missionários e pregadores que dizem:

- Você se lembra de mim? Eu me converti naquele acampamento para alunos da penúltima série.

Nós, os conselheiros, havíamos feito todas as tentativas possíveis para atrair aqueles garotos para Jesus. Chegamos a trazer para dar testemunho jogadores de beisebol, cujas médias de pontos por jogo haviam melhorado sensivelmente desde que começaram a orar. Mas Deus não escolheu usar aqueles exímios jogadores e, sim, um menino com paralisia cerebral para quebrantar os espíritos arrogantes. Esse menino é uma dádiva de Deus.

 

 

O pecado te levará muito além do que pretendia andar:

O pecado te prenderá por mais tempo do que pretendia ficar.

O pecado te custará mais do que pretendia pagar.

ANÔNIMO

SE ESTIVER ESCURO

Ron Mehl

 

 

Ele era um homem forte enfrentando um inimigo além de suas forças. Sua jovem esposa ficara gravemente doente e, repentinamente, morreu, deixando o homem sozinho com a filha de olhos grandes, cabelos louros e menos de cinco anos de idade.

O culto na capela do vilarejo foi simples e com muita dor.

Depois do sepultamento no pequeno cemitério, os vizinhos daquele homem reuniram-se ao redor dele.

- Por favor, traga sua garotinha e fiquem conosco por alguns dias - alguém convidou. - Não voltem para casa agora.

Com o coração partido, ele respondeu:

- Obrigado, amigos, pelo bondoso convite, mas preciso voltar para a casa onde ela vivia. Minha menina e eu precisamos enfrentar esse momento.

Então, voltaram, o homem e a filha, para a casa que agora parecia vazia e sem vida. O homem colocou a cama da filha em seu quarto para que pudessem enfrentar juntos a primeira noite.

Os minutos se passavam, e a garotinha lutava para dormir...

bem como o pai. O que era mais dolorido para o coração de um homem do que ver uma criança soluçando por uma mãe que nunca voltará?

A noite passava, e a menina continuava a chorar. O homem forte foi até a cama da filha para consolá-Ia. Em pouco tempo, a menininha parou de chorar - por sentir pena do pai. Pensando que a filha havia dormido, o pai olhou para cima e orou:

- Pai, confio em ti, mas... está tão escuro, como se fosse meia-noite!

Ouvindo a oração do pai, a garotinha começou a chorar novamente.

- Pensei que você estivesse dormindo, querida - ele disse.

- Eu tentei, papai. Estava com dó de você. Realmente tentei, mas não consegui. Papai, você sabia que ia ficar tão escuro? Por que, papai? Eu não consigo ver você, está muito escuro.

Então, em meio a lágrimas, a garotinha sussurrou:

- Mesmo se estiver escuro, você me ama, não é, papai? Você me ama mesmo quando eu não consigo ver você, não é, papai?

Como resposta, o homem a segurou com suas fortes mãos, tirou a garotinha da cama e a trouxe para junto de si, abraçando-a até que dormisse.

Quando ela finalmente se aquietou, ele começou a orar. Fez das palavras de sua filha sua oração a Deus.

- Pai, está escuro como se fosse meia-noite. Não consigo te ver, mas tu me amas mesmo quando está escuro e eu não te vejo, não é?

 

OS PAIS DE TOMMY

Casandra Lindell

 

 

Foi um dia quente e cansativo no festival de música ao ar livre. Tommy, um garotinho de quatro anos, estava sentado em meu colo com a cabeça encostada em meu peito.

Sua mãe tinha ido levar o irmão para tomar um pouco de água.

Seu pai estava desmontando a barraca e guardando as coisas que levara para vender. Tommy e eu fomos a um lugar calmo, nas escadarias atrás do prédio. Ele estava cansado e com fome.

Olhando para as estrelas, ele me perguntou:

- Como elas foram parar lá?

- Deus as colocou no céu.

- Meu pai me disse isso, mas Deus morreu - a voz de Tommy tinha um tom de tristeza, e eu tive que sorrir.

- Sim, Ele morreu, mas depois ressuscitou.

- Ah, é verdade. Eu sempre me esqueço dessa parte - ele parecia sério observando o céu.

Então, Tommy me perguntou onde o pai estava. Eu lhe disse que estava arrumando as caixas para levar para o carro.

- Estou com saudade dele - ele me disse.

Tommy não falava como uma criança cujo pai é ausente. Eu conhecia bem esses meus amigos e sabia que seu pai passava muito tempo com os meninos - rindo, demonstrando amor e ensinando. Era fácil notar a influência dele sobre os filhos. O pequeno Tommy sentia falta do pai porque estava acostumado a falar muito tempo com ele.

Tommy e eu continuamos sentados olhando para as estrelas e conversando.

- Sabe - eu disse -, mesmo quando o papai e a mamãe não estão por perto, Deus sempre está.

Tommy ficou quieto, e, por um momento, pensei que estivesse dormindo. Então, com uma doce voz e ainda olhando para o céu, disse:

- Se Deus fosse meu papai, eu teria o melhor pai do mundo.

Novamente, sorri e disse:

- Ele é seu pai, Tommy. Ele é o Pai celestial e ama muito você, mais ainda do que seu pai. Ele prometeu que nunca o deixará.

- É mesmo... - disse Tommy. - Eu me esqueci dessa parte também.

Finalmente, pegou no sono, e eu fiquei ali, olhando para as estrelas. Pensei sobre os dois pais daquele garotinho - ambos são os melhores pais que um menino poderia ter - que riem, que amam e que ensinam. A influência deles na vida de Tommy era visível.

DUAS ORAÇÕES

Andrew Gillies

 

 

Na noite passada, meu filho confessou uma peque nina arte infantil.

Em seguida, diante de mim se ajoelhou.

E, com lágrimas nos olhos, orou:

"Querido Deus, ajuda-me a crescer para que sábio e forte como o papai eu venha a ser: Sei que tu o podes fazer."

Então, enquanto ele dormia, ao lado de sua cama me ajoelhei e meus pecados a Deus confessei.

Com a cabeça curvada, orei:

- Ó Deus, que eu seja como uma criança, como este meu filho aqui, puro, inculpável, com fé sincera, confiante em ti.

PENSANDO NA VIDA

David R. Johnson

 

 

Eu disse a Maggie que sairia por aproximadamente uma hora para resolver algumas pendências. Quando voltei para casa, ela e as meninas vieram a meu encontro no carro e me perguntaram se eu havia escutado as notícias. Disse-lhes que não. Ela me contou que um boletim: extraordinário na televisão anunciara que dois policiais de San Jose haviam sido baleados: um morreu na hora, e o outro estava em condições críticas. O noticiário não havia dado detalhes nem citado os nomes dos policiais.

Senti a adrenalina sendo lançada por todo o meu corpo. Corri para dentro de casa e peguei o telefone. Nem conseguia me lembrar do número da central e fiquei frustrado quando deu o sinal de ocupado. Continuei tentando até conseguir completar a ligação. Identifiquei-me e perguntei o que havia acontecido.

Eles me disseram os nomes dos policiais e me deram alguns detalhes do tiroteio. Senti que minhas forças se foram: um companheiro policial e amigo tinha sido morto, e outro estava gravemente ferido. .

- Qual é seu tipo de sangue? - o oficial perguntou-me. - Eles precisam de transfusões de sangue durante a cirurgia.

Eu não tinha o tipo de sangue de que eles precisavam. Desliguei o telefone sentindo-me impotente.

Os noticiários apelavam por sangue para o oficial ferido, e, logo, filas de carros estacionados se fizeram do lado de fora do hospital. Eram cidadãos e policiais de outros distritos prontos para doar sangue. Durante toda a tarde, ouvi o rádio e a televisão em busca de novas informações. O jornal das seis descreveu a cena do tiroteio e os eventos anteriores que o provocaram.

Assisti à cobertura pela televisão do local do crime. Meu coração disparou quando a câmera focalizou uma coberta amarela sobre o cadáver do policial. Debaixo dela, podia-se ver a inconfundível faixa branca na calça do uniforme. Do outro lado, um braço estendido, imóvel no chão. Aquilo não era Hollywood, era a vida real- e a morte:

A cena mudou para a cobertura ao vivo do lado de fora do hospital onde o outro policial estava sendo operado. O repórter disse que havia acabado de receber a notícia da morte do policial durante a cirurgia.

Senti-me como se estivesse sonhando, ansioso por acordar logo e ver que aquilo não era real. Mas, em meu coração, sabia que não era um pesadelo. Dois policiais estavam mortos. Não eram os primeiros a morrer em serviço em San Jose, e eu sabia que não seriam os últimos. Porém, era a primeira vez que o departamento perdia dois policiais de uma só vez, e a maneira violenta como tudo aconteceu chocou toda a cidade.

Olhei para Maggie e para as meninas e pensei se ser policial valia o risco presente em cada momento que saía de casa e i~ para o trabalho. Era justo para elas que me arriscasse todos os dias, enquanto carregava o distintivo sobre meu peito e a arma no coldre? Talvez todas a pessoas que, ao longo dos anos, me disseram que não fariam meu trabalho nem por um milhão de dólares estivessem certas. Talvez o preço de ser um tira fosse muito alto.

Mas, se fosse assim, quem seria tira? Quem estaria lá para responder aos chamados de ajuda quando os assaltantes atacavam ou quem encontraria crianças perdidas? Quem protegeria as estradas e as ruas? Quem estaria pronto a se colocar entre o criminoso e o cidadão decente? Se não fosse eu, quem seria?

Sabia que não poderia esperar que outra pessoa se tornasse um policial se eu mesmo estava relutante - especialmente por ter certeza de que ser policial era a vontade de Deus para mim.

Estava seguro de poder descansar na sabedoria de sua vontade.

O funeral dos dois policiais aconteceu seis dias depois. Alguns meses antes, eu havia sido guarda de honra no funeral de outro policial de San Jose que morrera em serviço - em um acidente de moto - e, agora, novamente, tinha a mesma função. Ainda podia me lembrar da dor que sentira pela perda durante o primeiro funeral. E lá estava eu de novo, usando meu uniforme, na mesma Igreja.

Havia, agora, dois caixões cobertos com duas bandeiras e dois companheiros mortos nas ruas que haviam jurado defender. Dois policiais se levantaram, naquela manhã, pensando que seria somente mais um dia no cumprimento do dever: ajudando pessoas, fazendo interrogatórios e aplicando multas. Para eles, talvez fosse outro dia para rir com outros policiais durante um breve intervalo da manhã; nenhum deles pensou que seu turno de trabalho terminaria em um tiroteio e que acabariam mortos.

Enquanto seguíamos os caixões até o auditório, pensei sobre minha rotina diária, todas as manhãs, antes de ir para o serviço:

estudar a Bíblia e orar; pegar o almoço e o bilhete que minha filha escreve para mim todos os dias; despedir-me de Maggie; ir para o carro e piscar as luzes três vezes como sinal de que "eu amo vocês"; então, acenar para elas e ir embora. Raramente penso na possibilidade de não voltar para casa naquela noite...

Levou cerca de 30 minutos para que 4.500 policiais de mais de 200 delegacias de toda a Califórnia entrassem na igreja. Alguns ficaram no hall de entrada, outros, do lado de fora, e outros escutaram o sermão pelos alto-falantes.

O policial capelão fez uma pregação apropriada para os dois policiais. Um policial levantou-se e prestou um tributo a seu amigo. Quando sentou, a esposa de um dos oficiais mortos foi à frente e começou a cantar:

 

Se paz, a mais doce, me deres gozar.

Se dor, a mais forte sofrer.

Oh, seja o que for, tu me fazes saber, Que feliz com Jesus sempre sou.

 

Enquanto ouvia as palavras desse hino, um dos meus favoritos, sabia que minha alma estava bem. A dor da perda ficaria presente por longo tempo, as lembranças permaneceriam, e as perguntas sobre as tragédias continuariam sem resposta, mas Deus ainda estava no controle, para sempre e sempre.

O culto terminou, e milhares de policiais passaram pelos caixões. Muitos pararam, saudaram os companheiros e saíram para esperar do lado de fora da igreja. Sendo um dos guardas de honra, ajudei a dobrar as bandeiras que seriam dadas a nosso policial chefe, que as entregaria aos familiares. Assim que o som de uma salva de 21 tiros se dissipou, foram ouvidas cornetas. As notas ecoaram pelas montanhas como se um corneteiro distante respondesse ao tributo aos mortos. Novamente, lembrei-me do adeus ao policial morto alguns meses atrás: as Escrituras foram lidas, canções foram entoadas, homenagens foram feitas, armas foram disparadas, a bandeira dobrada foi entregue, e soaram as cornetas.

Agora, as últimas lágrimas correram dos olhos e tocaram a grama como o orvalho da manhã. Em silêncio, pensei sobre a morte. Descobri que esses pensamentos aproximavam-me de Jesus, o doador e guardião da vida.

As palavras ressoaram dentro de mim: "Sou feliz com Jesus."

NO MOMENTO CERTO

Ron Mehl

 

 

Roger Simms tinha acabado de prestar o serviço militar e Restava ansioso por tirar a farda de uma vez por todas. Na volta para casa, seguiu a pé pela estrada tentando conseguir uma carona, mas sua mochila pesada era um empecilho a mais para que alguém parasse. Ao fazer um sinal com o polegar para um carro que passava, perdeu as esperanças ao ver que se tratava de um carro preto, reluzente e caro, tão novo que tinha uma licença provisória colada no vidro traseiro... um tipo de carro cujo dono dificilmente pararia para dar carona a alguém.

Porém, para sua surpresa, o motorista parou e abriu a porta do lado do passageiro. Roger correu até o carro, colocou sua mochila com cuidado no banco traseiro e sentou-se no banco de couro ao lado do motorista. Foi saudado com um sorriso amistoso de um senhor distinto, de cabelos grisalhos e pele bronzeada.

- Oi, filho. Você está de folga ou voltando definitivamente para casa?

- Acabei de servir no exército e estou voltando para casa pela primeira vez depois de muito tempo - respondeu Roger.

- Você tem sorte se estiver indo para Chicago - disse o homem sorrindo.

- Não vou para tão longe assim, mas minha casa fica no caminho. O senhor mora lá?

- Meu nome é Hanover. Sim, dirijo um negócio em Chicago.

Dito isso, eles seguiram viagem.

Depois de cada um ter contado resumidamente a história de sua vida e conversado sobre tudo o que existe debaixo do sol, Roger (que era cristão) sentiu um grande desejo de falar de Cristo ao Sr. Hanover. Mas a ideia de dar testemunho a um empresário mais velho e rico, que devia ter tudo o que queria, era um tanto assustadora. Roger resolveu esquecer o assunto, mas, quando se aproximou de seu destino, deu-se conta de que seria aquele o momento ou não teria outra oportunidade.

- Sr. Hanover - Roger começou a dizer -, gostaria de conversar com o senhor sobre uma coisa muito importante.

Roger prosseguiu falando da salvação até chegar ao ponto de perguntar ao Sr. Hanover se gostaria de aceitar a Cristo como seu Salvador. Para grande surpresa de Roger, o Sr. Hanover dirigiu-se para o acostamento. Por um instante, Roger imaginou que seria atirado para fora do carro. Em seguida, aconteceu um fato estranho e maravilhoso: o empresário curvou a cabeça sobre o volante e começou a chorar, afirmando que desejava aceitar a Cristo em seu coração. Agradeceu a Roger e disse:

- Essa foi a coisa mais maravilhosa que já me aconteceu!

Em seguida, deixou Roger em casa e seguiu viagem rumo a Chicago.

Passaram cinco anos. Roger Simms casou, teve um filho e começou a dirigir o próprio negócio. Certo dia, enquanto arrumava a mala para fazer uma viagem de negócios a Chicago, encontrou, por acaso, o pequeno cartão de visitas, com letras douradas, que o Sr. Hanover lhe dera anos antes.

Quando chegou a Chicago, Roger procurou as empresas Hanover na lista telefônica. Localizavam-se no centro da cidade, em um edifício comercial muito alto e de fina aparência. A recepcionista lhe disse que seria impossível ver o Sr. Hanover, mas, como Roger era um velho amigo, poderia conversar com a Sra. Hanover. Um pouco desapontado, foi conduzido a um elegante escritório em que havia uma senhora de uns 50 anos sentada atrás de uma enorme mesa de carvalho.

Ela lhe estendeu a mão.

- Você conheceu meu marido?

Roger contou que o Sr. Hanover havia sido muito bondoso ao lhe dar uma carona até sua casa.

Um olhar de interesse passou pelo rosto da mulher.

- Você saberia me dizer em que data isso aconteceu?

- Claro - disse Roger. - Foi no dia 7 de maio, cinco anos atrás, o dia em que fui dispensado do exército.

- E aconteceu alguma coisa especial durante a viagem... uma coisa diferente?

Roger hesitou. Deveria mencionar o testemunho que deu?

Teria havido alguma discussão entre o casal que resultou em separação ou divórcio? Porém, mais uma vez, sentiu o desejo de falar do Senhor.

- Sra. Hanover, seu marido aceitou a Cristo naquele dia. Eu lhe falei sobre a mensagem do evangelho. Ele dirigiu o carro para o acostamento e chorou. Em seguida, quis fazer a oração da salvação.

De repente, ela começou a chorar copiosamente. Depois de alguns minutos, conseguiu recompor-se para explicar o que acontecera:

- Fui criada em um lar cristão, mas meu marido, não. Orei pela salvação dele durante muitos anos e acreditava que Deus o salvaria. Mas logo após você ter descido do carro, no dia 7 de maio, ele morreu vítima de uma violenta colisão frontal. Não voltou para casa. Pensei que Deus não tivesse cumprido sua promessa. Faz cinco anos que parei de viver para o Senhor, porque o culpava por não ter cumprido sua palavra.

Eu me identifico com a Sra. Hanover. Talvez você também.

Existem longos e solitários períodos da vida em que parece que Deus simplesmente se tornou indiferente a nossos apelos ou, então, que está cansado e apático diante de nossas orações fervorosas. .

A situação é semelhante à de alguém que vê um presente sob uma árvore de Natal, muito bem embrulhado, misterioso e inacessível. À medida que o tempo passa e as esperanças diminuem, começamos a questionar se Deus tem realmente algum presente para nós.

Talvez você esteja aguardando muito tempo para que ocorra uma transformação em sua vida. Talvez esteja aguardando uma mudança em seu estado de saúde, em seus relacionamentos, em seu cônjuge, em seus filhos, em seu trabalho, em suas finanças, em sua vida espiritual e tem a impressão de que a situação não vai mudar nunca. Parece que o Natal nunca vai chegar. Parece que as luzes nunca vão brilhar. Parece que você pediu socorro ao Senhor mais de mil vezes sem jamais obter resposta.

Maria e Marta conheciam muito bem essa situação. Elas viram o irmão enfraquecer e definhar. A vida dele escapou-lhe pelos dedos como finos grãos de areia. Elas não podiam fazer nada, e o Senhor não aparecia.

Mas, de repente, Jesus chegou. E já era tarde. Mas não era tarde demais, porque o que o Senhor tinha em mente era muito maior do que os pensamentos, as esperanças e os sonhos que aquelas duas mulheres sequer imaginaram pedir.

Foi uma Coisa Muito Boa embrulhada em um Pacote Muito Ruim.

Ele próprio fez a entrega da encomenda... no momento certo.

Ele sempre faz isso.

O OLHAR FINAL

Max Lucado

 

 

- Max, seu pai está acordado.

Eu estava assistindo a um filme na televisão, um daqueles tipos de filme que nos transportam para algum lugar, em algum tempo. A declaração de mamãe parecia vir de outro mundo. O mundo real.

Virei-me para papai. Ele estava olhando para mim.

Sua cabeça era tudo o que conseguia mexer. A doença degenerativa que o havia acometido paralisou seus movimentos tirando tudo dele, exceto sua fé... e seu olhar.

Foram seus olhos que me chamaram para ir ao lado de sua cama. Eu estava em casa havia quase duas semanas, em licença especial de meu trabalho no Brasil devido à sua condição de saúde crítica. Ele dormira a maior parte desses últimos dias acordando somente quando mamãe lhe dava banho ou trocava os lençóis.

Ao lado de sua cama, havia um respirador - um metrônomo da mortalidade que lançava ar em seus pulmões através de um buraco em sua garganta. Os ossos de suas mãos estavam saltados como varetas de um guarda-chuva. Seus dedos, uma vez firmes e fortes, permaneciam fechados e sem vida. Sentei-me na beirada de sua cama e passei as mãos sobre suas costelas. Coloquei a mão em sua testa. Estava quente... quente e úmida. Passei as mãos em seus cabelos.

- O que foi, papai?

Ele queria me dizer algo. Seus olhos ansiavam por comunicar-se e recusavam-se a me deixar. Se eu olhava em outra direção por alguns momentos, eles me seguiam e continuavam me olhando.

- O que foi?

Eu já havia visto essa expressão antes. Tinha sete anos de idade, oito no máximo. Estava na beirada de um trampolim pela primeira vez, imaginando se sobreviveria ao mergulho. A prancha curvar-se sob meus 35 quilos. Olhei para as crianças atrás de mim que me apressavam a pular. Imaginei o que fariam se eu as deixasse passar à minha frente e descesse. Elas me castigariam, supus.

Então, entre o ridículo e um salto para a morte, fiz a única coisa que sabia fazer: tremi.

Em seguida, o ouvi:

- Está tudo bem, filho, venha. Olhei para baixo; meu pai havia mergulhado e esperava para me agarrar quando pulasse. Mesmo escrevendo este texto agora, ainda posso vislumbrar a expressão de seu rosto: pele bronzeada, cabelo molhado, um sorriso largo e olhos brilhantes. Seus olhos me transmitiam confiança. Ainda que ele não tivesse dito uma só palavra, seus olhos teriam, por si sós, transmitido a mensagem. Mas ele falou:

- Pule, está tudo bem!

Eu pulei.

Vinte e três anos depois, o bronzeado desapareceu, o cabelo se tornou ralo, e o rosto, cansado. No entanto, seus olhos não mudaram nada. Eram ousados. Sua mensagem também não tinha mudado. Eu sabia o que ele estava dizendo. De alguma maneira, sabia que eu estava com medo. De alguma maneira, percebeu que eu tremia enquanto fitava seu olhar profundo. E, de alguma maneira, ele, que estava morrendo, tinha forças para consolar a mim, que estava vivo.

Encostei meu rosto no dele, e minhas lágrimas molharam sua testa quente. Eu disse, em voz baixa, o que sua garganta queria dizer mas não podia.

- Está tudo bem - sussurrei. - Vai ficar tudo bem.

Quando levantei a cabeça, seus olhos estavam fechados.

Nunca mais os veria abertos novamente.

Ele me deixou com um olhar final. Uma última declaração de seus olhos. A mensagem de despedida de um capitão antes de seu barco sair para o mar. A segurança de um pai para um filho:

- Está tudo bem.


 

ACHEI VOCÊ ALI

Kathi Kingma

Histórias Para o Coração da Mãe 13

 

 

Peguei na sua mão para atravessar a rua, subir ladeiras, cruzar vales. Embora o vento soprasse, embora eu tropeçasse, você nunca me deixou cair. Algumas vezes, eu não levantava os olhos para ver seu rosto, mas via a sua mão. Era duas vezes maior que a minha. Eu tentava dar passos largos corno os seus, ser como você, mas tinha de dar dois para cada um dos seus passos. Quando minhas pernas se cansavam, você me carregava. Era divertido ver tudo lá de cima, onde eu não tinha de esforçar-me tanto para manter-me ao seu lado. Sempre me senti segura junto de você, mãe. Enquanto estivesse ali, eu sabia que as coisas dariam certo. Quando ficava com medo, procurava a sua mão e sempre a encontrava.

Quando fiquei mais velha, quis andar por minha conta. Aprendi a navegar pelos caminhos da vida, subir montes e atravessar vales. Tive um vislumbre da liberdade e independência. Você continuava ao meu lado e me ajudava a levantar quando eu caía.

Agora estou crescendo. Meu passo se iguala ao seu. Olho você nos olhos e não me canso quando andamos juntas. Você, porém, não mudou. Continua ali como apoio, como conselheira, como um amor imutável. Por sua causa, um pequenino vai correr para mim algum dia. Cheio de entusiasmo, vai andar comigo pelas ruas, pelos montes e pelos vales. Tentará dar passos grandes como os meus. Tropeçará e eu o levantarei. Vai procurar minha mão e me encontrará ali.


 

CARTA DE UMA MÃE PARA O FILHO

INICIANDO O JARDIM-DA-INFÂNCIA

Histórias Para o Coração da Mãe 17

 

 

Querido George: Quando seu irmão mais velho, seu cachorrinho e eu levamos você para a escola hoje, você não tinha ideia dos meus sentimentos.

Estava tão eufórico que guardara e tirara da mochila os lápis de cor e a tesoura de ponta redonda uma porção de vezes.

Vou sentir muita falta daquelas manhãs preguiçosas quando acenávamos para seu irmão e irmã ao saírem para a escola. Eu me sentava para tomar café e ler o jornal, dando a você revistinhas para colorir enquanto assistia Vila Sésamo.

Por ser meu filho mais novo, eu já aprendera algumas coisas quando você chegou. Descobri que os dias aparentemente infindáveis da primeira infância desaparecem como um relâmpago. Eu mal tinha piscado duas vezes e seus irmãos mais velhos estavam começando a ir à escola tão contentes quanto você esta manhã.

Sou alguém de sorte. Pude escolher se queria ou não trabalhar. Quando chegou a sua vez, os prêmios sedutores de um avanço na carreira e um salário dobrado já haviam perdido o seu encanto. Brincar nas poças d'água com você em suas botinhas vermelhas lustrosas ou "só mais uma" releitura de seu livro favorito, Frog and Toad Are Friends (A Rã e o Sapo São Amigos), tinham mais importância.

Você não foi para a pré-escola e eu não sou exatamente Maria Montessori. Espero que isso não vá atrasá-lo. Você aprendeu números, ajudando-me a contar as 'atinhas de refrigerante vazias que devolvíamos ao supermercado. (No geral conseguia convencer-me a deixar que comprasse alguma coisa gostosa com o dinheiro que recebíamos de volta.)

Não adotei o método Palmer, mas você escreve bem o seu nome na calçada com giz, em letras maiúsculas para parecer mais importante. De alguma forma aprendeu as nuanças da linguagem. Outro dia você me perguntou porque o chamo de "querido" quando estamos lendo histórias e de "Bud" quando está me ajudando com os serviços domésticos. Minha explicação da diferença entre uma atitude carinhosa e outra de camaradagem pareceu satisfazê-lo.

Tenho de admitir que uma imagem da minha pessoa enquanto você está na escola se desenvolveu em minha mente. Vejo a mim mesma atualizando todos os álbuns de fotografia e começando um romance que sempre quis escrever. À medida que o verão foi passando e brigas mais frequentes surgiram entre você e seus irmãos, fiquei à espera deste dia.

Nesta manhã então, subi com você a rampa íngreme até sua sala de aula, com uma foto do presidente em uma parede e outra do Bambi do lado oposto. Você encontrou na mesma hora o cabide para pendurar o casaco, como seu nome acima dele, e me deu um de seus abraços caracteristicamente fortes, apertados demais. Desta vez estava pronto para afastar-se antes que eu o fizesse.

É possível que algum dia você leve para o jardim-de-infância um garotinho(a) de olhos grandes como os seus e um riso espontâneo, no primeiro dia de aula. Quando voltar-se na porta para dizer até logo, ele ou ela estará tão interessado na conversa com um novo amigo que nem irá notar. Mesmo enquanto sorri, vai sentir algo quente em sua face...

E então saberá. Assinado: Amor, Mamãe!

 


 

ESTE É O LUGAR ONDE MORAM CRIANÇAS

 

 

Você talvez não encontre tudo no lugar,

Amigo, ao entrar aqui.

Mas, este é um lar onde moram crianças,

Nós as amamos muito.

Você pode encontrar marcas de dedinhos

E manchas na parede.

Quando as crianças se forem, nós iremos limpá-las,

No momento estamos jogando bola.

Há, porém, uma coisa da qual temos certeza,

Essas crianças nos foram dadas por empréstimo.

Num dia estão sempre à sua volta,

Da próxima vez em que olha, já sumiram.

Teremos então uma casa arrumada,

Quando estiverem por conta própria.

No momento, é aqui que as crianças moram, um lar amado e bem utilizado.


 

BENÇÃO DUPLA

 

 

No dia em que meu marido e eu soubemos da adoção iminente de nossa filha de nove meses, alegremente convidamos nossos melhores amigos para celebrar.

Enquanto ríamos e conversávamos no restaurante, contando a eles o que sabíamos de nossa filha que logo chegaria e por quem havíamos orado muito, percebi que um casal mais velho na mesa atrás de nós ria conosco e acenava com ar de compreensão, enquanto expressávamos nossa euforia e nervosismo.

Depois de dez anos de esterilidade, de orações, e de oito meses de aulas na escola de pais, além de trabalhos e estudos feitos em casa — estávamos jubilosos com as boas notícias. Nossa felicidade transbordava enquanto falávamos e planejávamos no restaurante.

Ao sair, o casal parou em nossa mesa.

— Parabéns, — disse a mulher, batendo em meu ombro.

— Obrigada, — respondi, grata por não estarem zangados com o barulho que fazíamos.

Ela se abaixou um pouco e disse: — Tenho vários filhos. Tenho uma neta que foi adotada há pouco por alguém. Eu nunca a vi. Vendo a sua alegria, sinto em meu coração que em algum lugar ela está sendo amada e cuidada por uma família como a sua.

Dando outra palmadinha em meu ombro, ela sussurrou: - Vou orar por você e pela sua garotinha.

Numa ocasião em que estávamos nos sentindo abençoados e transbordando de júbilo, Deus nos deu oportunidade para ser uma bênção e um consolo para outrem. Oro por essa avó, que Deus continue a dar-lhe paz e conforto sobre a neta que não conhece. E sei que meu marido e eu estávamos em suas orações naquela noite.

 

 

 

Os braços de uma mãe são feitos de ternura,

e os filhos adormecem tranquilos neles.

Victor Hugo


 

NOVA MATERNIDADE

 

Toda mãe pratica o ritual de contar dedinhos dos pés e das mãos, segurando a cabecinha em urna das mãos, acariciando o cabelo ralo, e tentando determinar qual lado da família é responsável por essas orelhas e esse nariz — todos os ritos da nova maternidade, tanto privados quanto públicos que marcam o início de um mundo inteiramente novo.  Pamela Scurry


 

CAFÉ COM URSOS POLARES

Allison Harms

Fui para a faculdade na mesma época em que meu filho começou o jardim-de-infância. Eu tinha mais tarefas de casa do que ele, mas compartilhávamos as excursões — eu acompanhei a classe dele ao corpo de bombeiros e à fazenda e ele se juntou à minha para procurar alguns fósseis e escalar geleiras. Certa vez, para uma de minhas aulas de biologia, pediram-me que visitasse o zoológico sozinha durante o período do outono. Protelei por várias semanas, esperando pelos últimos dias quentes da temporada, envolvida em nossos horários de volta à escola. Percebi finalmente que o final do semestre estava chegando e eu não tinha completado minha tarefa. Separei então um dia para a excursão ao zôo. É claro que meu filho me acompanhou.

Não era um dia típico daquela época do ano. O fim do outono e o início precoce do inverno o mantiveram deserto, exceto por meu filho e eu. Até os animais pareciam escassos. As nuvens se fecharam no céu e derramaram sobre nós gotas de chuva como agulhas de gelo. Sopros de umidade giravam em torno de nossas pernas, arrebanhando pedaços de folhas, sacos de papel, envoltórios de balas e cascas de amendoim num redemoinho de lixo que se amontoava no canto da casa dos répteis. Só algumas lâmpadas fluorescentes etéreas brilhavam lá dentro. Fomos caminhando. As fontes estavam secas, os canteiros desolados, as alamedas vazias. Patos se abrigavam do vento, retinidos junto ao lago, com as cabeças escondidas sob as asas. Ondas pequeninas batiam na praia. Enquanto andávamos, o vento enchia as abas de nossos casacos e depois as colava em nossos corpos.

O som de nossos passos alertou as gazelas que pastavam. Um grupo de cabeças pontudas, orelhas e chifres, suspensas em pose de dança, na ponta dos pés, enquanto passávamos. Ouvimos à distância o barrido dos elefantes. Os olhos amarelados do leão nos seguiram; sua cauda com um tufo de pêlos na ponta chicoteou de leve o chão. A superfície do tanque do hipopótamo reluziu, a matrona levantou o focinho, e seus olhos líquidos piscaram. A girafa empertigou a cabeça e nos fitou com ar grave.

Paramos para ver os ursos polares. Eles marchavam com passadas solenes, mas suas pernas eram comicamente curvadas, com os dedos para dentro, como os dos pombos. Tinham patas como as de cãezinhos crescidos, com garras curvas e negras. Cheiravam o ar de focinho empinado, balançando a cabeça redonda e pequena demais, de um lado para outro, soltando pelas narinas espirais de vapor contra o céu de cimento. O odor da neve era tão reconfortante para eles quanto um banho de sol para um gato doméstico.

O guardador dos animais surgiu usando botas de borracha e balançando dois baldes vermelhos. Ao avistá-lo, os ursos começaram a mergulhar no tanque, num alvoroço ruidoso, produzindo um som como o da queda de rochas numa avalanche. Eles saíram de novo, com a água escorrendo pelo corpo, como neve derretida das montanhas.

O guardador chegou até onde estávamos, meu filho e eu.

— Bom dia, — dissemos. Perguntei-lhe o que havia nos baldes.

— Peixe e melancia.

— É isso que os ursos tomam no desjejum? — indagou meu filho.

— É, — replicou o homem. Depois, abaixando-se até a altura do menino, ele disse, — Quer ajudar-me a alimentar os ursos?

— Claro! Posso mamãe?

E foi o que fizemos, atiramos nacos escuros de peixe e pedaços de melancia durante o primeiro bafejo de neve do inverno.

Em breve chegou a hora de partir. Meu filho estava cansado e eu o carreguei nos braços, com o capuz puxado sobre as orelhas, o rosto enfiado em meu ombro. Sorri para mim mesma ao pensar em quão frequentemente as "necessidades" em minha vida se transformavam em "alegrias". Eu tinha de ir ao zoológico; tinha de passar o dia com meu filho e alimentar os ursos no desjejum. Fazer o que é certo tem as suas recompensas. Eu podia lembrar-me das vezes em que cumprira uma obrigação ou uma promessa mesmo que me custasse fazê-lo, e algo novo se abrira para mim: um relacionamento, uma habilidade, um momento inesquecível. Mesmo naquele dia ventoso de novembro, eu sabia que a lembrança da nossa experiência, simples e inesperada — café com os ursos polares — nos aqueceria interiormente a cada vez que nos recordássemos dela.


 

TEMPO SÓ PARA A MAMÃE

Crystal Kirgiss

 

 

Tudo que eu queria esta manhã era uma meia hora sozinha, trinta minutos de paz e silêncio para preservar C-3 minha sanidade. Nada de mamãe-faça-isto, mamãe-preciso-daquilo, mamãe-ele-me-bateu, mamãe-derrubei-suco-no-sofá.

Apenas eu, um banho quente de espuma e nada mais.

Eu não devia sonhar tão alto.

Depois de enviar os dois mais velhos para a escola, pus o menor sentado na frente da TV e disse, — Querido, ouça com atenção. Sua mamãe vai explodir. Ela está perdendo a cabeça. Está à beira de um ataque de nervos. Tudo isto por ter filhos. Está me entendendo?

Ele acenou vagamente enquanto cantava, — O Barney e um dinossauro em nossa imaginação...

— Está bem. Se você quiser ser agora um garoto bonzinho, vai ficar aqui sentado assistindo o Barney enquanto a mamãe toma um banho gostoso, quente, pacífico, relaxante. Não quero que me perturbe. Quero que me deixe sozinha durante trinta minutos. Não quero ver ou ouvir você. Certo?

Aceno.

— Bom dia, meninos e meninas... — Ouvi o apresentador dizer na televisão. Fui para o banheiro com os dedos cruzados.

Fiquei olhando a água encher a banheira. Vi o espelho e a janela ficarem cobertos de vapor. Observei a água tornar-se azul com os sais de banho. Entrei.

Ouvi unia batida na porta.

— Mamãe. Mamãe? Você está aí, mãe?

Aprendi há muito tempo que ignorar meus filhos não faz com que vão embora.

— Sim, estou aqui. O que você quer?

Houve uma longa pausa, enquanto ele tentava decidir o que queria.

— Olhe, posso comer alguma coisa?

— Você acabou de tomar café. Não pode esperar um pouco?

— Não. Estou morrendo. Preciso comer agora!

— Está bem. Coma uma caixa de passas.

Ouvi os passos dele indo para a cozinha, ouvi enquanto puxava cadeiras e banquinhos, tentando alcançar a prateleira das passas, senti o chão vibrar quando pulou do balcão, e o ouvi correr de volta para a sala de TV.

— Oi, Susie! Você sabe de que cor é a grama...?

Toc, toc, toc.

— Mamãe? Mamãe? Você está aí, Mamãe? Suspiro.

— Sim, ainda estou aqui. O que você quer agora?

Pausa.

— Olhe...eu também preciso tomar banho.

— Queridinho, você não pode esperar até que eu termine? A porta se abriu levemente.

— Não. Preciso tomar banho agora. Estou sujo.

— Você está sempre sujo. Desde quando se incomoda com isso?

A porta abriu inteira.

— Eu preciso mesmo tomar banho, mãe.

— Não, não precisa. Vá embora.

Ele ficou de pé no meio do banheiro e começou a tirar o pijama.

— Vou entrar com você e tomar também banho.

— Não! Você não vai entrar comigo e tomar banho! Eu quero tomar banho sozinha! Quero que vá embora e me deixe em paz!

— Comecei a parecer o garotinho de três anos com quem argumentava.

Ele subiu na beirada da banheira, balançando-se cuidadosamente, e disse: — Vou entrar com você, está bem, Mamãe?

Comecei a berrar,

— Não! Não está bem! Quero tomar banho sozinha! Não quero dividir! Não quero ninguém comigo!

Ele pensou um pouco e disse,

- Tudo bem. Vou só sentar aqui e você pode ler um livro para mim. Não vou entrar, mãe, até que você acabe. — Deu-me um sorriso charmoso, de derreter corações.

Passei então minha manhã sozinha lendo, Um Peixinho, Dois Peixinhos, para um garotinho nu sentado na borda da banheira, com o queixo apoiado nos joelhos, os braços em volta das pernas curvadas, um sorriso leve nos lábios.

Por que lutar? Não demora muito até que eu tenha todo o tempo a sós que quiser. E irei então provavelmente sentir falta de não ter mais tempo-juntos.

 

 

 

Tomar a decisão de ter um filho — é importante.

É decidir para sempre ter o coração andando do lado de fora do seu corpo. Elizabeth Stone

 


 

CARTA DE AMOR PARA O MEU FILHO NÃO NASCIDO

Judith Hayes

 

 

Era um dia fragrante de verão em fins de julho. Eu andava me sentindo um tanto estranha e nauseada. Decidi então consultar meu médico.

— Sra. Hayes, tenho o prazer de avisá-la de que está grávida de dez semanas, — anunciou o médico. Eu não podia acreditar, era a realização de um sonho.

Meu marido e eu éramos jovens e estávamos casados há apenas um ano. Nos esforçávamos para construir uma vida feliz juntos. A notícia de que estávamos esperando um filho era maravilhosa e ao mesmo tempo assustadora.

Em meu entusiasmo juvenil decidi escrever "cartas de amor" ao nosso bebê, a fim de expressar meus sentimentos de expectativa e alegria. Mal podia imaginar como essas cartas de amor seriam valiosas nos anos que viriam.

Agosto 1971: Meu bebê querido, você pode sentir o amor que tenho por você enquanto é ainda tão pequeno e vive no mundo silencioso dentro de meu corpo? Seu pai e eu queremos que o mundo seja perfeito para você, sem ódios, guerras, poluição. É difícil esperar para tê-lo em meus braços dentro de apenas seis meses! Amo você. O papai também ama você, mas ele ainda não pode senti-lo corno eu, porque você está dentro da minha barriga.

Setembro 1971: Estou grávida de quatro meses e me sentindo melhor. Posso perceber que você está crescendo e espero que esteja bem e confortável. Tenho tomado vitaminas e comido alimentos saudáveis para você. Minha náusea matinal felizmente acabou. Penso em você todo o tempo.

Outubro 1972: Oh, meus períodos de melancolia. Choro tanto sem razão. Algumas vezes me sinto muito só e então me lembro de que você está crescendo dentro de mim. Sinto você mexendo, virando e empurrando. Os seus movimentos são sempre diferentes, eles me trazem tanta alegria!

Novembro 1971: Sinto-me muito melhor agora que meu cansaço e enjoos passaram. O calor intenso do verão terminou. O tempo está lindo, fresco e revigorante. Sinto cada vez mais os seus movimentos. Socos e chutes a toda hora. Que bom saber que você está vivo e sadio. Na semana passada, o papai e eu escutamos as batidas fortes do seu coração no consultório médico.

Fevereiro 2, 1972 às 23.O6h: Você nasceu! Nós lhe demos o nome de Sasha.

Foi um período longo e difícil de 22 horas de trabalho de parto e seu pai me ajudou a relaxar e manter-me calma. Estamos muito felizes em ver você, carregar você e dar-lhe as boas-vindas. Bem-vinda, nossa primogênita. Nós a amamos muito!

Sasha logo tinha um ano e começou a andar cautelosamente por toda a casa. Em seguida começou a cavalgar pôneis e a balançar ao sol no parque. Nossa pequena beldade de olhos azuis entrou no jardim-de-infância e cresceu até tornar-se uma menininha inteligente e voluntariosa. Os anos se passaram tão rápido... Meu marido e eu comentamos brincando que pusemos nossa filha de cinco anos na cama uma noite e ela acordou na manhã seguinte já adolescente.

Esses poucos anos de adolescência e rebelião não foram fáceis. Houve ocasiões em que minha garotinha bonita, mas rebelde plantava os pés no chão e gritava:

— Você nunca me amou! Você não se importa comigo, nem quer que eu seja feliz!

Suas palavras ríspidas cortavam meu coração. Onde eu teria errado?

Depois de uma das explosões zangadas de minha filha, lembrei-me subitamente da caixinha de cartas de amor guardada no armário de meu quarto. Eu as encontrei, colocando-as silenciosamente sobre a cama dela, esperando que as lesse. Alguns dias depois Sasha procurou-me, com lágrimas nos olhos.

— Mamãe, eu não sabia o quanto você me amava — mesmo antes de meu nascimento, — disse ela. — Como pôde me amar sem conhecer-me? Você me amou incondicionalmente! — Aquele momento precioso tornou-se um laço de união que ainda hoje existe entre nós. Aquelas cartas de amor empoeiradas e antigas fizeram derreter a ira e a rebelião que ela sentira.


 

PARA MEU FILHO ADULTO

 

 

Minhas mãos se ocuparam o dia inteiro,

não tive muito tempo para brincar

Com os joguinhos que você queria —

não tive muito tempo para você.

Lavei suas roupas, costurei e cozinhei;
Mas quando me trazia seus livros de figuras
e me pedia para compartilhar sua diversão,

eu dizia: — Daqui a pouco, filho.

Eu o colocava em segurança na cama à noite,

Ouvia suas orações, apagava a luz,
Depois andava de mansinho até a porta...

desejaria ter ficado um minuto mais.

A vida é tão curta, os anos correm velozes...

um menininho cresce com tamanha rapidez.

Ele não está mais ao seu lado,

para confiar seus segredos preciosos.

Os livros de figura jazem inúteis;

Não há mais jogos a serem jogados.

Nem beijo de boa-noite, nem orações a serem ouvidas —

Tudo ficou para trás.

Minhas mãos, antes ocupadas, estão agora inertes.
Os dias são longos e difíceis de preencher.
Eu gostaria tanto de voltar e fazer
As pequenas coisas que você me pediu.

 

 

A visão mais gloriosa
que podemos ver debaixo do céu
é a da maternidade digna de louvor.

George W. Truett

 


 

O QUE UMA MÃE DIZ

Robin Jones Gunn

 

 

Oh, deixe-me pegar você!
Como vai meu anjinho?
Quieta, garotinha,
Não está com sono ainda?
Não faz mal. Não chore.
Não, não. Não mexa.
Venha com a Mamãe.
Tire isso da boca, amor!
Isso não é para você.
Você não precisa mais disso.
É uma mocinha agora.
Peça à mamãe quando quiser ir ao banheiro, está bem?
Não mexa nas coisas de seu irmão.

Vá para o quarto.
Não, não pode.
Trouxe água para você.
Volte para a cama.
Recolha os seus brinquedos.
Não brinque dentro do armário.

Pode fazer um desenho para a Vovó?

Fique quieta.

Vai lembrar de trazê-lo para casa amanhã?
Tenho certeza de que ela ainda quer ser sua amiga.

Tente procurar debaixo da cama.
Você ainda não tem idade para isso.
Vai ter de pedir ao seu pai.
Onde estava quando o viu pela última vez?
Não implique com seu irmão.
Vá arrumar seu quarto. Venha pôr a mesa.
Não roa as unhas.

Você fez a tarefa de casa?

Saia do telefone. Coma as verduras.

Você é responsável por cuidar de suas coisas.

Você me avisou que era neste sábado?

Está bem — se quiser use o seu dinheiro.

Diga a ela que telefona de volta.

Experimente um tamanho maior.

Há um garoto no telefone querendo falar com você.

Você não pode usar isso na escola.

Esteja de volta na hora marcada.

Eu não dei permissão.

Volte direto para casa.

Não, eu preciso do carro esta tarde.

Você vem para casa neste fim de semana? No próximo?
O que você sabe sobre ele?
Já pensou bem no assunto?

Eu pedi porque pensei que as apreciasse.

Mas, o rosa costumava ser a sua cor favorita.

Faça o que quiser. Você decide.
Não sente em cima do véu.

Telefone quando chegar lá. Não escorregue no arroz.

Adeus, querida.

 

 

Caixa de Texto: 40Não tenho alegria maior do que ouvir
que. Meus filhos andam na verdade.

3 João 1: 4

 

NÃO MAIS BEIJOS LAMBUZADOS

Erma Bombeck

FOREVER ERMA

 

 

Uma jovem mãe escreve: “Sei que você já tratou antes da síndrome do ninho vazio, esse período solitário depois que os filhos crescem e se vão. No momento, estou envolvida até os olhos em roupas para lavar € botas enlameadas. Os dentes do bebê estão nascendo; os meninos estão brigando. Meu marido acabou de telefonar, dizendo para comermos sem ele e eu saí da minha dieta. Pode falar disso outra vez, por favor?

Posso sim. Um desses dias você vai gritar, — Por que vocês não crescem e agem como gente? — E eles farão isso. Ou, — Meninos, saiam e achem alguma coisa para fazer lá fora...e não batam a porta!

—E eles não vão bater.

Você arruma o quarto dos meninos; joga fora adesivos de para-choques, alisa as cobertas, coloca os brinquedos nas prateleiras. Os cabides no armário. Animais nas gaiolas. E dirá em voz alta. — Quero que tudo fique deste jeito, — E vai ficar.

Você prepara um jantar perfeito, com uma salada que não tenha sido beliscada antes e um bolo sem marcas de dedinhos na cobertura, e dirá, — Essa é uma refeição para as visitas. — E vai comê-la sozinha.

Você anuncia, - Quero completa privacidade no telefone.

Ninguém dançando à minha volta. Nada de equipes de demolição. Silêncio! Entenderam? — E vai tê-lo.

Não haverá mais toalhas de plástico manchadas de molho de ma­carrão. Não precisará mais de capas para proteger o sofá de traseiros úmidos. Não terá mais portões à prova de crianças para transpor no alto da escada do porão. Não achará mais pregadores de roupas debaixo do sofá. Não verá mais "chiqueirinhos" no chão da sala.

Não passará mais noites ansiosas ao lado de um inalador. Não encontrará mais areia nos lençóis nem revistas de Popeye no banhei­ro. Não haverá mais remendos pregados a ferro, elásticos para rabos de cavalo, botas apertadas ou cordões de sapato molhados cheios de nós.

Imagine. Um batom que ainda tem ponta. Nada de babá para a véspera de Ano Novo. Lavar roupa só uma vez por semana. Comer carne que não seja moída. Escovar os dentes sem uma criança no colo.

Nada de reuniões de Pais e Mestres. Nem rodízio de carros ou rádios aos berros. Ninguém lavando a cabeça às 11 da noite. Ter o seu próprio rolo de fita durex.

Pense nisso. Não receber presentes de Natal feitos de palitos de dentes e cola de papel. Não mais beijos lambuzados. Nada mais de fada que vem buscar o dente que caiu. Não ouvirá mais risadinhas no escuro. Não terá mais joelhos esfolados para curar, nem respon­sabilidades.

Só uma voz gritando, Por que você não cresce? e o silêncio respondendo, "Cresci".

 

Tradição norte-americana em que a criança guarda o dente caído debaixo do travesseiro à espera de uma fada que vai trotá-lo por dinheiro.


 

VENDO UMA À OUTRA SOB UMA LUZ DIFERENTE

Susan Manegold

Women´s World Magazine

 

 

Enquanto minhas filhas eram pequenas, gostávamos de ficar juntas, conversando e assistindo TV Quando Lauren e Carly chegaram à adolescência, porém, elas preferiam ficar em seus quartos, falando ao telefone ou ouvindo música, em vez de estar comigo — ou mesmo uma com a outra.

Eu sabia que isso fazia parte do crescimento delas; mas, embora quisesse que minhas filhas fossem independentes, desejava também que não se afastassem, e uma parte de mim sentia falta dos dias em que nos sentávamos no sofá com uma tigela de pipoca no colo.

Certa noite, enquanto o pai ainda estava no trabalho, as luzes se apagaram. — Legal! — ouvi a voz de Carly, 13, falar no quarto dela.

— Odeio isso! — Lauren, 18, gritou.

Munida de velas e lanternas fui para o quarto de minhas filhas. O de Lauren já estava iluminado pelo brilho aconchegante de uma vela. Carly e eu então entramos e em breve estávamos as três reunidas na cama de Lauren.

Carly parecia eufórica, mas Lauren fez pouco caso quando ela sugeriu, — Vamos contar histórias. — Enquanto Carly falava sobre a escola e as amigas, porém, o amuo de Lauren desapareceu. Ela se aconchegou mais a Carly e em breve as duas começaram a rir como quando eram menores.

Pude ver pelo brilho nos olhos de Carly que ela sabia que a escu­ridão nos trouxera um presente, mas me perguntei se Lauren sentia o mesmo. De repente, o telefone de Lauren tocou. — É verdade, também não temos energia aqui em casa, — disse ela à amiga. —Te­lefono para você mais tarde, estou agora conversando com minha mãe e minha irmã.

Ela também sabia! pensei. Depois de desligar, ela sugeriu. — Vamos cantar alguma coisa? — Lágrimas encheram meus olhos.

Passado algum tempo a luz voltou. — Oh, não! — as meninas lamentaram. Mas, desde então, todas nos sentimos mais próximas. Nos abraçamos mais e minhas filhas não implicam tanto uma com a outra. Em algumas noites apenas nos sentamos e conversamos. O apagão não só nos deixou no escuro; também nos deu a oportunida­de de ver umas às outras sob uma luz diferente.

 

Nenhuma nação teve um amigo melhor do que a mãe que ensinou seus filhos a orar.

 

 

Meu desejo é colocar imediatamente a experiência de cinquenta anos em suas jovens vidas, dar-lhes instantaneamente a chave dessa sala do tesouro onde cada jóia me custou lágrimas, esforços e orações. No entanto, vocês devem trabalhar para obter esses

tesouros interiores por si mesmos.

Harriet Beetcher Stowe


 

ELA TEM DEZESSEIS ANOS

GLORIA GAITHER

LET´S MAKE A MEMORY

 

 

O primeiro dia de escola só começou às 13 horas, dando então tempo para o desjejum no McDonald's e para comprar os materiais da lista. Você nos lembrou de ir ao McDonald's para o café. — Nós sempre vamos lá no primeiro dia de aula, — disse. Algo difícil de explicar agitou-se em meu íntimo quando ouvi isso. Talvez orgulho — orgulho por ainda apreciar essa tradição engraçada, ou talvez fosse prazer — prazer por você ainda preferir ficar com a família quando já tem a sua "turma". Havia também uma certa tristeza e eu não podia esquecer que aquele seria o seu último primeiro dia de escola.

Você desceu as escadas naquela manhã toda arrumada. O brilho sadio de seu bronzeado de verão e as sardas ainda aparecendo de­baixo da maquilagem, o cabelo bem penteado descorado pelo sol. — Oi, mãe, — cumprimentou, seu sorriso mostrando dentes brancos e bem alinhados. Nada mais de aparelhos ortodônticos, pensei, e não mais óculos quebrados para colar antes da aula. Lentes de con­tato e aparelhos dentários tinham valido a pena.

- Preciso tirar fotografias da formatura amanhã depois da escola, mamãe. Posso usar o carro?

- Acho que sim, — respondi. Depois lembrei você da sua promes­sa de levar sua irmã para cortar o cabelo às três horas naquela tarde. Sua carta de motorista chegara bem na hora.

A essa altura, Amy e Benji estavam prontos e entramos no carro em direção ao McDonald's. Enquanto comíamos, falamos de outros primeiros dias — o primeiro dia do jardim-de-infância, o primeiro dia da escola fundamental e aquele dia assustador na enorme escola nova. Vocês interrompiam uns aos outros com histórias de momen­tos embaraçosos, prêmios, amizades e sustos.

Depois de comermos, corremos para comprar cadernos e canetas, antes de deixar todos vocês na escola — primeiro Amy e Benji e de­pois você, — Até logo, mãe, — você disse enquanto descia do carro. A seguir parou um momento e olhou por sobre o ombro. — Mamãe... obrigada.

Era o remanescente de um beijo de adeus. A hesitação de uma menininha de cachinhos começando o jardim-de-infância. A expec­tativa de uma jovem confiante em seu destino — tudo isso mesclado naquele gesto.

— Amo você, — foi tudo que respondi, mas esperava que de algu­ma forma você pudesse ouvir com o seu coração o resto das palavras que passavam pela minha mente — palavras que diziam como você era especial para nós; palavras que lhe fariam saber como seu pai e eu ficamos ricos com a sua entrada em nossas vidas; palavras que dis­sessem quanto confiamos em você, oramos por você, agradecemos a Deus por você. Quando as portas da escola se fecharam às suas costas e você desapareceu no corredor, eu queria gritar, — Esperei Temos ainda tanto a fazer. Nunca fomos ao Havaí. Nunca fizemos um cruzeiro. O livro de poesias que escrevemos juntas ainda não foi publicado. E o dia que iríamos passar na cabana, só ficando quietas e lendo? Ou a reunião de escritores à qual planejamos comparecer em Illinois? Você não pode ir ainda...Espere! Eu sabia, no entanto, que você não podia esperar e que nunca poderíamos segurá-la, impedindo o seu progresso. Você rinha pro­messas a cumprir. Portanto, embora soubesse que aquele era umCaixa de Texto: 49 último começo, sabia também que era o primeiro dia em urna vida inteira de novos começos...e me rejubilei!


 

VISITA DOS FILHOS ADULTOS

Erma Bombeck

Forever Erma

 

 

Em tempos passados, eu era uma mãe que fazia os filhos arrumarem seus quartos, prepararem seus lanches e colocarem a roupa suja na lavanderia. Agora, quando eles vêm para casa eu deixo as regras de lado. Sou como uma zeladora esperando uma boa gorjeta. Eu os sigo pela casa perguntando, — Está com fome? Posso fazer alguma coisa por você? Tem roupa para lavar?

Como com eles quando querem comer, cozinho seus pratos fa­voritos pouco antes de me dizerem que vão sair com os amigos e fico olhando sem ação enquanto comem meio quilo de presunto cozido às três da tarde.

Minha vida muda nas visitas deles. Não tenho carro. Minha la­vadora fica ajustada no ponto de carga extragrande e só tem duas meias e uma camiseta dentro dela. O telefone toca constantemente e nunca é para mim.

No final das visitas, separamos um dia, preparamos um lanche e vamos para o aeroporto. Só depois que volto para casa é que percebo como minha vida se tornou ordeira. Gosto da quietude. O controle remoto da TV é resgatado da cesta de roupas e volta ao seu lugar na mesa do café. As caixas vazias de leite e suco são retiradas da gela­deira. As toalhas molhadas vão para a máquina de lavar. O banheiro volta aos seus padrões sadios.

É o meu mundo outra vez. Por que então estou chorando?

 

 

 

O coração de uma mãe é um abismo profundo

e lá embaixo você vai sempre encontrar perdão.

Honoré de Balzac

 


 

TRABALHO SILENCIOSO

 

 

Nada pode comparar-se em beleza, prodígio, excelência e até mesmo em divindade, ao trabalho silencioso, em moradias obscuras, de mulheres fiéis conduzindo seus filhos à honra, à virtude, e à piedade.

Henry Ward Beecher


 

TEMPORADA DO NINHO VAZIO

Joan Mills

 

 

Você se lembra de quando seus filhos armavam tendas de cobertor para dormir dentro delas? Depois pulavam durante a noite para suas camas onde ficariam a salvo dos ursos? E de como se mostravam orgulhosos e ansiosos para co­meçar o jardim-de-infância? Mas, só até o momento em que chega­vam lá? E a época em que arrumavam mochilas, muito ofendidos?

— Você não vai nos ver de novo! — gritavam, voltando logo depois por terem esquecido de ir ao banheiro?

O mesmo acontece quando têm vinte ou vinte e dois, começando a abrir caminho no mundo dos adultos. Bravatas, angústia, falsos co­meços e perigos imprevistos. Estão meio dentro, meio fora. — Adeus! Adeus! Não se preocupe, mamãe! — Eles voltam na primeira semana para pedir o rolo de pintura emprestado, um fusível e uma vassoura. Ao examinar o sótão, agarram a colcha que o cachorro comeu e as terríveis almofadas do sofá velho que têm cheiro de ratos mortos. — E isso mesmo que eu preciso! — dizem, enchendo o carro.

— Adeus! Adeus! — deixando implícito que será para sempre. Mas, aparecem sem aviso na hora do jantar, suspirando fundo ao verem os pratos familiares e substanciosos. Vão de novo embora, carregando quatros sacos de mantimentos, a frigideira elétrica e um livro de re­ceitas.

Telefonam para casa a cobrar, mas não tantas vezes quantas os pais desejariam. E as novidades deles fazem os cabelos grisalhos ficarem de pé: — Ele esqueceu de puxar o breque e disse que meu carro rolou três quarteirões, de ré, ladeira abaixo antes que fosse destruído! — Ou, — Um caso simples de último contratado, primeiro demitido, nada demais. Vendi o aparelho de som, e... — Ou ainda, — Mamãe! Todos na cidade têm isso. Esse negócio contra baratas que você coloca debaixo da pia. É...

Eu agarrava o telefone com as duas mãos naqueles dias, desejan­do poder subornar meus filhos para voltarem e dar-lhes tudo que quisessem — aulas de bateria, uma conta permanente na lanchonete, qualquer coisa. Eu lutava com um impulso inconveniente de alertá-­los mais uma vez sobre não queimar a boca, cuidado ao atravessar as ruas e o uso de meias secas em dias úmidos.

— Estou impressionada em ver como você resolve bem as coisas! — dizia em vez disso.

Os filhos vão embora e os pais se aproximam, lembrando o peso doce dos bebês em seus braços, calças remendadas, catapora, a noite do acidente, os rituais do Natal e as festas do colégio. Com orgulho saudoso e uma veia um tanto cômica, eles observam sua prole de uma distância mantida com esforço. É a temporada do ninho vazio.

Devagar, bem devagar, surgem mudanças. Algo maravilhoso pa­rece pairar sobre eles, levemente ouvido, vislumbrado em momentos iluminados. Ao visitar os filhos, os pais ficam quase certos disso.

Um filho estende uma toalha na mesa e eficientemente faz um friso perfeito em sua calça social. (Tábua de passar, a mãe pensa, fazendo um acréscimo mental na lista de compras) — Vou levar você a um restauran­te francês para jantar, — o jovem anuncia. — Já fiz reservas.

— Estou vestida adequadamente? — pergunta a mãe, com certa timidez. Ele a leva pelas ruas com uma aura de segurança. O braço rodeando levemente os ombros dela.

Ou uma filha oferece aos hóspedes de honra as duas únicas cadei­ras que possui e se acomoda numa pilha de travesseiros, como as de um harém. Ela cultivou mudas de plantas, prendeu uma porção de quadros na parede, passou três fins de semana dando um acabamento na pequena cômoda que brilha agora num quadrado de sol.

Os pais a observam com amor atônito. O quarto ganhou beleza com o seu toque. — Tudo encantador, — dizem eles. — É um verdadeiro lar.

Agora? Será agora? Sim. Algo maravilhoso realmente acontece. As gerações sorriem uma para outra, como se trocando parabéns. As crianças não são mais crianças. Os pais ficam reverentes ao descobrirem adultos.

É esplêndido, de maneiras que a minha imaginação nem começara a sonhar. Como eu podia ter adivinhado — quem diria? — que dos meus três, exatamente o tímido, iria absorver do ar uma série de competências e aparecer, conversando com total descontração, em shows de TV? Que aquele que transformou sua adolescência na Terceira Guerra Mundial, encontraria seu papel no serviço árduo e sensível de assistência a outros seres humanos? Ou que o filho que não gostava de livros e atormentava os professores, se transformaria num erudito, tolerando viver como um estudante pobre e escrevendo noite adentro?

Eu não havia suspeitado que meus jovens adultos pudessem mostrar-se tão engraçados num minuto e tão introspectivos no seguinte; tão francos e espontâneos. Ou que o fato de crescerem os inspiraria a fazer seguro de vida, comprar ternos elegantes e emprestar dinheiro aos irmãos de quem antes roubavam pirulitos. Ou que ao entrar em suas casas eu iria ouvir Mozart no toca-fitas e encontrar livros interessantes, que poderia pedir emprestados.

Há muito tempo, esperei nove meses de cada vez pata ver quem eles seriam, bebês recém-formados e admiráveis. — Oh, veja! — disse eu e me apaixonei, meus filhos são agora admiravelmente novos para mim de maneira diferente e estou outra vez apaixonada.

Minha filha e eu compartilhamos livremente o mundo complexo de nosso íntimo e todos os outros mundos que conhecemos. Co­movida, noto como os seus ritmos e gestos me fazem lembrar de sua avó ou de mim. Estamos ligadas por mistérios inconscientes e benignamente observadas por fantasmas. Viro a cabeça para olhá-la. Ela encontra o meu olhar e sorri.

Um filho atravessa todo o país de avião para gozar as férias de­pois de um ano inteiro. Ele me segue pela cozinha, abrindo as pane­las para experimentar a comida e me passando os pratos. Nos bron­zeamos ao sol. Lemos em sincronia silenciosa. Ele corre. Eu cuido das flores. Andamos pela praia, observando as ondas preguiçosas. Conversamos sem parar, e mais tarde jogamos cartas até depois da meia-noite. Estou imensamente feliz.

— As férias são suas! — digo a ele. — O que quer fazer de especial? — Isto, — responde. — Exatamente isto.

Quando meus filhos saíram de casa pela primeira vez, senti que estavam voando para o espaço exterior, seguindo uma curva de luz e tempo para lugares tão desconhecidos que meu coração iria com certeza desfalecer se tentasse segui-los. Pensei que seria o fim dos meus dias de mãe. E não aquilo que descobri que é na verdade — a melhor parte, o elo final e mais firme; o alvo e a recompensa.

 


 

OS BÓBIS

Linda Goodman

 

 

Quando eu tinha sete anos, ouvi minha mãe contar a uma de suas amigas que faria trinta anos no dia seguinte. Duas coisas me ocorreram ao ouvir isso. Eu nunca tinha com­preendido antes que minha mãe fazia aniversário; e, segunda, não me lembrava dela ter algum dia recebido um presente de aniversário.

Achei que podia fazer algo a respeito. Fui para o quarto, abri meu cofre de porquinho e tirei todo dinheiro que havia nele: cinco moedas. Isso representava cinco semanas de minha mesada. Fui en­tão até à lojinha perto de casa e falei ao dono, sr. Sawyer, que queria comprar um presente de aniversário para minha mãe.

Ele me mostrou tudo que tinha no valor de um quarto de dólar. Havia várias figurinhas de cerâmica. Minha mãe teria gostado, mas já possuía uma porção delas e era eu que tinha de espaná-las uma vez por semana. Definitivamente não serviam. Havia também caixinhas de bombons. Minha mãe era diabética, portanto eu sabia que não seriam apropriadas.

A última coisa que o sr. Sawyer mostrou foi um pacote de bóbis para cabelo. Os cabelos de minha mãe eram lindos, pretos e com­pridos, e duas vezes por semana ela os lavava e prendia. Quando ti­rava os bóbis na manhã seguinte, parecia uma estrela de cinema com aqueles cachos longos e escuros caindo como uma cascata em volta de seus ombros. Decidi então que aqueles bóbis seriam o presente perfeito para minha mãe. Dei ao sr. Sawyer as cinco moedas e ele me entregou os bóbis.

Levei-os para casa e os embrulhei em uma folha colorida da seção cômica do jornal (não sobrara dinheiro para o papel de embrulho). Na manhã seguinte, fui até minha mãe e lhe dei o pacote, dizendo, — Feliz aniversário, mamãe!

Minha mãe ficou ali espantada e silenciosa por um momento. Depois, com lágrimas nos olhos, ela abriu o invólucro de jornal. Quando encontrou os bóbis, estava soluçando.

            Desculpe, mamãe, — falei. — Não queria fazer você chorar. Só queria que tivesse um aniversário feliz.

            Oh, querida, estou feliz, — respondeu. Olhei para seus olhos e pude ver que sorria entre lágrimas. — Você sabia que este foi o primeiro presente de aniversário que recebi em toda a minha vida? — exclamou.

Ela beijou-me então no rosto e repetiu, — Obrigada, querida. — Voltou-se depois para minha irmã e disse, — Veja só! Linda me deu um presente de aniversário! — Em seguida olhou para meu pai, dizendo: — "Veja! Linda me deu um presente de aniversário!

Foi então para o banheiro para lavar o cabelo e prendê-lo com os bóbis novos.

Quando ela saiu do quarto, meu pai me olhou e disse, — Linda, quando eu estava crescendo, na fronteira (meu pai sempre chamava a casa em que vivera na infância, nas montanhas da Virgínia, de frontei­ra), não dávamos muita importância à tradição de presentear adultos em seu aniversário. Isso era algo feito somente para as crianças. A família de sua mãe era tão pobre que também não podia acompa­nhar esse costume. Ao ver como você fez sua mãe feliz hoje, vi-me obrigado a repensar todo esse assunto de aniversários. O que estou tentando dizer é que você, Linda, estabeleceu um precedente.

Estabeleci mesmo um precedente. Depois daquele dia, minha mãe recebia chuvas de presentes todos os anos: de minha irmã, meu irmão, meu pai, e eu. É claro que quanto mais velhos ficávamos, tanto mais dinheiro recebíamos e ela ganhava presentes melhores. Quando cheguei aos 25 anos, já dera a ela um aparelho de som estéreo, uma televisão em cores e um forno de microondas (que ela trocou por um aspirador de pó).

Quando minha mãe fez cinquenta anos, meus irmãos, minha irmã e eu juntamos nossos recursos e compramos algo espetacular para ela: um anel com uma pérola rodeada de pequenos diamantes. Quando meu irmão mais velho lhe entregou o anel, na festa dada em sua honra, ela abriu a caixa de veludo e olhou para a jóia que continha. Depois sorriu e mostrou aos convidados o seu presente especial, exclamando, — Meus filhos não são ótimos? — Passou em seguida o anel pela sala e foi emocionante ouvir o suspiro coletivo que se fez ouvir, enquanto o anel passava de mão em mão.

Depois da saída dos convidados, fiquei para ajudar na limpeza. Estava lavando os pratos na cozinha quando ouvi uma conversa en­tre meus pais na sala contígua. — Muito bem, Pauline, — disse meu pai, — Esse anel em sua mão é lindo. Acho que foi o melhor presente de aniversário que você já ganhou, não é?

Meus olhos se encheram de lágrimas e ouvi sua resposta: —Ted, — disse suavemente, — O anel é realmente muito bonito. Mas, sabe qual o melhor presente que já recebi? Foi o pacote de bóbis.


 

SEU CAMINHO DE AMOR

Clare DeLong

 

 

Quando olhamos pela janela da cozinha, podemos ver um caminho que vai da varanda e atravessa o gramado até a propriedade vizinha. Essa propriedade pertence à minha mãe — o caminho também é dela.

Há algum tempo, sofri um acidente de carro quase fatal. Tive nove ossos quebrados e outros ferimentos e precisava de cuidados constantes. Minha recuperação futura envolvia uma possível tempo­rada num centro de reabilitação.

Meu marido decidiu alguns dias antes de minha saída do hospi­tal, que iria levar-me para casa. O médico aprovou e o equipamento necessário foi enviado e montado no quarto de hóspedes. Wally e mamãe haviam aceito a responsabilidade de cuidar de mim 24 horas por dia.

Foi aí que o caminho dela começou. Ele veio a ser usado todos os dias durante cerca de dois meses e meio. Mamãe percorria aquele caminho nas horas de sol, chuva, neve e granizo, de manhã, de tarde e às vezes no meio da noite.

Eu o chamo de seu caminho de amor. As coisas que ela fez por mim naquele período são tantas quantas as estrelas no céu. Ela cui­dou de mim como só uma mãe poderia fazer. O amor, ternura e gentileza que me foram mostrados jamais serão esquecidos. Dezoito meses mais tarde o caminho permanece — um sinal visível do amor de urna mãe.

 

Amar e ser amada é sentir o sol da ambos os lados.

Barbara Johnson

 


 

O PRESENTE DE ANNIE LEE

Glenda Smithers

 

Começara a contagem regressiva do Natal. Nessa época do ano, a sra. Stone só admitia um controle parcial de seus alunos. Era surpreendente como um feriado tão belo po­dia transformar seus estudantes disciplinados em traquinas vivazes e ruidosos.

— Sra. Stone, derramei cola nas minhas calças novas, — choramin­gou Chris.

            Sra. Stone, minha corrente de papel não consegue rodear a árvore, — queixou-se Faye.

            Danielle está espirrando tinta por toda parte, — esganiçou uma menina de perto da pia.

Onde estavam suas aulas organizadas e rotina normal? Para onde fora a paz de espírito? Parece que haviam entrado num longo reces­so. Este recesso, temia a sra. Stone, duraria até meados de janeiro.

— Professora? — uma voz de criança chamou da mesa de ativida­des. Pisando em tiras de papel que decoravam o tapete, a sra. Stone foi até onde algumas crianças terminavam os calendários que iriam dar aos pais como presente de Natal.

            O que foi, Annie Lee? — perguntou a professora.

A menininha sacudiu para trás a cabeça de cabelos longos e ne­gros e respondeu educadamente, — Olhe, se terminar meu calendá­rio, posso levá-lo para casa esta noite? Minha mãe quer vê-lo. Ela talvez tenha de ir...

- Não, Annie Lee, — replicou automaticamente a sra. Stone. —Você leva para casa na sexta-feira, como todo mundo.

Annie Lee começou a protestar, mas a professora saiu depressa da mesa, preocupada com escovar da saia os respingos de brilho prateado.

A. sala encheu-se de repente do som pa-rum-pa-pum-pum da música "The Little Drummer Boy" (O Pequeno Tocador de Tambor). — Lavínia, por favor desligue o toca-discos! — A sra. Stone anunciou para o resto da classe, — Vamos, meninos e meninas, está na hora de limpar tudo.

- Ahhh... — Os gemidos de desapontamento esperados vieram e se foram.

Em sua mesa, a sra. Stone abriu a tampa de uma caixinha de madeira e o som da música "Noite Feliz" foi imediatamente reco­nhecida pelas crianças. Unia disposição tranquila espalhou-se pela sala enquanto escutavam.

            Shay, quer começar nosso tempo de "Narrações Orais" de hoje? — perguntou a mestra enquanto fechava a caixinha de mú­sica. O menino chegou até a frente da sala e disse, gabando-se um pouco, — Vou ganhar uma bicicleta vermelha no Natal.

A sra. Stone fechou os olhos,

Aqui vamos nós novamente, pensou, — Quero isto e quero aquilo.

Annie Lee era a seguinte a compartilhar. Seu cabelo comprido refletia o sol que entrava pela janela enquanto ia para a frente.

             Minha mãe está doente e não pode fazer os biscoitos para a festa, — anunciou.

Os olhos da sra. Stone se abriram. Não posso acreditar, A sra. Brown está usando a mesma desculpa, pensou. Ela não compareceu à reunião de pais e mes­tres ou à conferência entre professores e pais, pela mesma razão. Alguns pais tentam sempre fugir das suas responsabilidades.

Annie Lee aproximou-se da mesa da professora e da caixinha de música. Os olhos dela brilhavam e um dedo traçou ternamente a Madona e o menino pintados na tampa. — Quando minha mãe ficar boa, ela vai comprar para mim uma caixinha de música igual à sua, sra. Stone.

A professora sorriu e respondeu, — Que bom, Annie Lee, mas não poderá ser exatamente igual à minha. Veja bem, esta é muito antiga. Era de minha tataravó. Algum dia, vou dá-la a um de meus filhos.

No dia seguinte, Annie Lee levou uma fita de veludo vermelha estreita até a mesa da professora.

            Minha mãe foi para o hospital ontem, mas me deu esta fita para embrulhar o presente que fiz para ela, — disse.

            A fita é muito bonita, — falou a sra. Stone. Depois acrescentou, — Que pena que a sua mãe esteja no hospital.

            Meu pai falou que posso levar o calendário ao hospital, se a sra... —

Annie Lee começou a pedir de novo, mas a sra. Stone interrom­peu, — Eu já disse que vamos embrulhá-los amanhã e levá-los para casa na sexta-feira.

Annie Lee pareceu desapontada, mas seu rostinho alegrou-se ao lembrar do presente que tinha para a professora. — Minha mãe fez isto para a sra. — disse ela contente e colocou um marcador de livros de veludo vermelho na frente da professora. A seguir, ela voltou-se e foi embora. A professora notou que o cabelo da menina não estava lustroso como sempre naquela manhã; parecia sem brilho, embara­çado e sem pentear.

Chegou a sexta-feira. A árvore de Natal, um tanto enfeitada de­mais, foi posta no centro da sala. A sra. Stone pusera o vestido cor de cereja que usava todos os Natais e Dia dos Namorados. As crianças entraram barulhentas na sala, todas sentindo a proximidade do Natal. Mas, a cadeira de Annie Lee achava-se vazia.

Com um certo mal-estar, a sra Stone sentou-se. Ela não queria saber a razão para a ausência de Annie Lee: outro fardo acrescentado a 25 anos de frustrações acumuladas era mais do que podia supor­tar.

Como se em resposta à sua pergunta não pronunciada, um moni­tor entrou na sala e entregou-lhe uma nota dobrada. Tremendo, ela leu a nota escrita às pressas pelo diretor: "Acho que gostaria de saber que a mãe de Annie Lee Brown morreu bem cedo esta manhã".

De alguma forma a sra. Stone conseguiu atravessar o dia. Quan­do a festa terminou e as crianças tinham partido para gozar os feria­dos em casas a sra. Stone ficou sozinha em sua sala de aula e chorou. Chorou por Annie Lee, pela mãe de Annie Lee, e por si mesma — e pelo calendário que deveria levar alegria, mas não levara, e pelo mar­cador de veludo vermelho tão imerecido.

A sra. Stone deixou a escola muito tarde naquela noite. As estre­las brilhavam lá no alto do céu, iluminando o caminho para a casa de Annie Lee. Em suas mãos, a sra. Stone levava a preciosa caixinha de música como se fosse o próprio tesouro dos reis magos. Ela levantou os olhos para a estrela mais brilhante e orou para que a caixa de mú­sica ajudasse a fazer com que o Natal voltasse ao coração das duas.

O SACRIFÍCIO DE UMA MÃE

 

 

Fiquei sabendo que minha mãe, ao suspeitar, pelo rosto do médico, que a sua vida e a do filho não podiam ser ambas salvas, suplicou-lhe que poupasse a criança...Durante os meus muitos anos de existência, poucas vezes tenho agradecido a Deus pelas suas misericórdias sem agradecer-lhe por minha mãe. James M. Ludlow

 


 

FILHOS ESPECIAIS MEUS E DE DEUS

Nancy Jo Sullivan

 

 

Em uma manhã quente de julho, acordei com o barulho de – um ventilador quebrado, soprando ar úmido em meu rosto.

Isso me fez pensar sobre todas as outras coisas que haviam "quebrado" em minha vida.

Cuidar de uma filha com síndrome de Down apresenta desafios únicos. Embora a cirurgia cardíaca de Sarah e muitas outras infec­ções graves tivessem passado, enfrentávamos agora contas de hos­pital catastróficas. Além de tudo isso, o emprego de meu marido seria eliminado dentro de semanas e a perda de nossa casa parecia inevitável.

Ao fechar os olhos para fazer uma oração matutina, senti urna mãozinha puxar meu braço. — Mamãe, — disse Sarah, — Eu me a-r-r­u-m-e-i para a escola bí-bli-ca de fé-fé-ri-as sozinha!

Junto à cama estava minha filha Sarah, de cinco anos, com os olhos brilhando através de lentes grossas, numa armação cor-de-rosa. Radiante e orgulhosa, ela virou as duas mãos para cima e excla­mou, — Fiz tudo!

Notei que seus shorts vermelho-axadrezados estavam de trás para diante, com o cordão de fechar enfiada de lado na cintura. Na frente de um top verde, novo, também de trás para diante a etiqueta de preço continuava pendurada, ela escolhera meias verde e vermelha, uma de cada cor, para usar com o conjunto. Os tênis estavam nos pés errados e pusera na cabeça um boné de beisebol com o visor e o emblema contrário.

— Ar-r-anj-ei também a mochila, — gaguejou ela, enquanto eu abria o zíper da sacola para ver o que havia lá dentro. Olhei curiosa para os tesouros que ela guardara tão cuidadosamente: cinco blocos de Lego, uma caixa fechada de clipes para papel, um garfo, uma boneca de pano nua, três peças de quebra-cabeça e um lençol para berço tirado do armário de roupas de cama. Levantei delicadamente seu queixo até que nossos olhos se encontraram e disse devagar:

— Você está linda!

— O-bri-ga-da”, — Sarah sorriu, enquanto começava a rodopiar como uma bailarina. Nesse momento o relógio da sala bateu oito horas, o que significava que eu tinha 45 minutos para preparar-me, além de vestir duas crianças pequenas e um bebê.

Enquanto os minutos da manhã se dissolviam em segundos urgentes, compreendi que não tinha tempo de mudar a roupa de Sarah.

Coloquei cada criança em sua cadeirinha no carro e tentei argumentar com minha filha. — Querida, acho que você não vai precisada sua mochila para a escola bíblica de férias. Por que não deixa que ela fique no carro comigo?

— Não. Pre-ci-so dela!

Cedi então, dizendo a mim mesma que a autoestima dela era mais importante do que o que as pessoas poderiam pensar de sua mochila cheia de coisas inúteis.

 

Quando chegamos à igreja, tentei recompor a roupa de Sarah com uma das mãos, enquanto segurava o bebê com a outra. Sarah, porém, afastou-se, lembrando-me das palavras que eu dissera pela

manhã:

— N-ã-o...eu es-tou li--n-d-a!

Ao ouvir nossa conversa, uma jovem professora se aproximou de nós.

— Você está linda! — disse ela à Sarah.

Depois pegou na mão dela e me disse:

—Você pode vir buscar Sarah às 11:30. Vamos tomar conta dela.

— Ao vê-las se afastarem, eu sabia que Sarah estava em boas mãos.

Enquanto Sarah ficava na escola, eu saí com as outras duas crian­ças para fazer algumas coisas necessárias. Meus pensamentos fica­ram todo tempo tensos de ansiedade e orações desconjuntadas. Qual o futuro que nos espera? Como iríamos sustentar nossos três filhos pequenos? Perderíamos nossa casa? Essas perguntas específicas me fizeram imaginar se Deus nos amava.

Voltei à igreja alguns minutos adiantada. A porta para a capela cheia de sol estava aberta e pude ver as crianças sentadas lá dentro, em semicírculo, ouvindo uma história bíblica.

Sarah, de costas para mim, ainda agarrava as tiras de lona da mochila. O boné de beisebol, os shorts e a camisa continuavam ao contrário.

Ao observá-la à distância, senti pulsar em minhas veias uma enor­me emoção. Um pensamento me veio à mente, uma frase simples: — Amo minha filha de todo coração.

A seguir, enquanto permanecia ali, ouvi aquela voz sussurrante e consoladora que compreendi ser de Deus: — E isso que sinto por você.

Fechei os olhos e imaginei o meu Criador olhando para mim lá do alto: minha vida tão semelhante ao traje de Sarah — de trás para diante, descombinada, confusa...

— Por que você está usando essa 'mochila' cheia de ansiedade, dú­vida e medo? — eu podia imaginar Deus dizendo para mim. — Deixe que eu a carregue.

Senti que Deus não estava falando só para mim, mas a todos os que lutam com vidas que parecem de trás para diante, no avesso, e fora de controle. Todos queremos segurança financeira, ficar livres de doenças e imunes ao sofrimento inevitável que a vida nos traz. Mas, Deus nos chama para confiar em que tudo que precisamos será provido.

Nesses períodos vulneráveis de fraqueza é que devemos dar nos­sas mochilas cheias de insegurança Àquele que diz, "Você é precioso aos meus olhos e eu o amo" (Is 43:4).

Naquela noite, enquanto eu ligava novamente nosso ventilador defeituoso, agradeci a Deus por dar-me o privilégio de ser mãe de Sarah. Por meio dela, compreendi que Deus se revelara a mim de uma forma toda nova.


 

VOCÊ TEM UM MINUTO?

David Jeremiah

 

 

Uma mãe que acabara de terminar a leitura de um livro sobre como criar filhos...ficou convencida de algumas coisas que deixara de fazer como mãe. Ao sentir isso, ela subiu as escadas para conversar com o filho. Quando se apro­ximou, tudo que pôde ouvir foi o som alto da bateria que vinha do quarto do garoto. Ela queria transmitir-lhe uma mensagem, mas quando bateu na porta, sentiu-se intimidada.

- Você tem um minuto? — disse ela quando o filho respondeu à batida.

- Mamãe, você sabe que sempre tenho um minuto para você, — disse ele.

- Sabe, filho, eu...eu...gosto muito da maneira como você toca bateria.

Ele exclamou, —Você gosta? Obrigado, mãe!

Ela levantou-se e voltou a descer. Na metade do caminho, com­preendeu que não transmitira a mensagem que pretendia e retornou ao quarto dele, batendo outra vez na porta.

— É a mamãe de novo! Você tem outro minuto? — perguntou.

- Mamãe, como já disse antes, tenho sempre um minuto para você.

Ela entrou e sentou-se na cama. — Quando estive aqui antes que­ria dizer uma coisa e no fim não disse. O que pretendia dizer é que... seu pai e eu...achamos você realmente ótimo.

Ele perguntou, — Você e o papai?

— Sim, seu pai e eu.

— Que bom, mãe. Muito obrigado.

Ela saiu e estava novamente descendo, mas lembrou que faltava ainda um pedaço da mensagem, ela não dissera ao filho que o amava. Subiu então novamente e desta vez ele ouviu os seus passos. Antes que perguntasse, ele gritou. — Sim, tenho um minuto!

A mãe sentou-se na cama mais uma vez. — Sabe, filho, tentei isto duas vezes e não consegui falar. O que realmente vim dizer-lhe é que o amo, amo você de todo coração. Não se trata do papai e eu amarmos você, mas de que eu amo você.

— Mamãe, isso é maravilhoso, amo você também!

E ele deu um abraço apertado na mãe.

Ela saiu do quarto e estava no alto da escada quando o filho colocou a cabeça na porta e perguntou, — Mamãe, você tem um minuto?

Ela riu e respondeu, — Claro.

— Mamãe, — disse ele, — Você acaba de voltar de uma palestra?

 

Linguagem nenhuma pode exprimir o poder, beleza, heroísmo e majestade do amor de mãe. Ele não se encolhe onde o homem se acovarda e aumenta ainda mais onde o homem desfalece. Sobre os restos da prosperidade mundana, ele envia a radiância de sua fidelidade inextinguível como a de uma es­trela nos céus.

E. H. Chapin


 

SACRIFÍCIO DE AMOR

Kathi Kingma

 

 

Não era fácil ir a uma escola de ricaços. Fiquei observando com inveja ao ver os filhos de "ricos" dirigindo os carros esportivos dos pais e se gaban­do de onde compravam suas roupas de grife. Eu sabia que não havia condições de competir com a posição deles, mas sabia também que era um quase-crime usar a mesma roupa duas vezes no mesmo mês.

Vinda de uma família de cinco pessoas, com um orçamento aper­tado, estar na moda era fora de cogitação. Isso não me impediu de atormentar meus pais, pedindo roupas mais moderninhas. Minha mãe franzia a testa, —Você precisa delas?

— Sim, — respondia eu sem piscar, — Preciso.

Lá íamos nós então às compras. Minha mãe ficava à espera fora do provador, enquanto eu experimentava os trajes mais bonitos que podíamos comprar. Lembro-me de várias dessas viagens "necessá­rias". Minha mãe sempre ia sem queixar-se, nunca experimentando nada para si mesma, embora gostasse de olhar.

Certo dia quando, eu estava em casa, experimentei um de meus trajes e me exibi com ele diante do espelho de corpo inteiro de meus pais. Enquanto decidia que sapatos combinavam melhor meus olhos foram até o armário deles, parcialmente aberto. O que vi fez meus olhos lacrimejarem. Três blusas estavam penduradas do lado de mi­nha mãe no guarda-roupas. Três blusas que ela usara muitas vezes e estavam velhas e desbotadas. Abri mais um pouco a porta e vi algumas camisas de trabalho de meu pai, que ele estivera usando há anos. Fazia muito tempo que não compravam nada para si mesmos, embora a necessidade deles fosse maior do que a minha.

Aquele momento abriu meus olhos para ver os sacrifícios que meus pais tinham feito no correr dos anos, sacrifícios que me mos­traram o amor deles mais poderosamente do que quaisquer palavras que pudessem ter dito.

 

 

O dever nos obriga a fazer bem as coisas,

mas o amor nos leva a caprichar nelas.

Phillips Brooks

 

 


 

NATAL PERDIDO E ACHADO

Shirley Barkdale

 

 

Nós o chamávamos de Menino do Natal, porque ele veio durante essa estação de alegria, quando tinha apenas seis dias de idade. Seus olhos já brilhavam mais do que as luzes da sua primeira árvore.

Mais tarde, à medida que nossa família cresceu, ele tornou claro que era o único especializado em escolher e decorar a árvore a cada ano. Nosso garotinho apressava a estação, preparando a sua lista antes de termos terminado o peru do Dia de. Ação de Graças. Ele nos fazia cantar músicas natalinas, com nossas vozes roucas parecendo cada vez mais semelhantes às dos sapos, comparadas ao seu tom perfeito. Ele nos incentivava, guiando-nos em meio a um caos de alegria.

Então, em seu vigésimo quarto Natal, ele nos deixou tão inesperadamente como viera. Um acidente de carro numa rua coberta de neve de Denver, ao voltar para casa, para sua jovem esposa e filha pequena. Ele fizera primeiro, entretanto, uma parada na casa da família para decorar nossa árvore, um ritual que nunca abandonara. Sem o seu espírito natalino invencível, nós éramos como dançarinos inexperientes, incapazes de continuar dançando depois da música terminar. Em nossa tristeza, seu pai e eu vendemos a casa, onde as lembranças ainda perduravam em cada aposento. Mudamos para a Califórnia, deixando para trás nosso sistema de apoio de amigos e da igreja. Movimentos errados.

Eu parecia ter feito um círculo completo, voltando àqueles pri­meiros anos quando só havia meus pais e eu. O Natal sempre fora uma ocasião tranquila, atarefada, diferente daquela das casas de meus amigos, cheias de atividades e de parentes brincalhões. Prometi en­tão que algum dia me casaria, teria seis filhos e no Natal minha casa ia vibrar de energia e amor.

Encontrei o homem que compartilhou meu sonho, mas não ha­víamos contado com a surpresa da esterilidade. Destemidos, nos candidatamos à adoção, ignorando as profecias pessimistas de que urna criança adotiva não seria o mesmo que "nossa carne e sangue". Apesar da coragem, não estávamos muito esperançosos, pois a lista de espera era grande. Contra todas as dificuldades, porém, dentro de um ano ele chegou e era nosso. A natureza em seguida nos surpre­endeu outra vez e em rápida sucessão acrescentamos dois filhos bio­lógicos à família. Não tantos quantos queríamos, mas comparado com minha infância solitária, três eram urna multidão inteiramente satisfatória.

Aqueles amigos tinham razão sobre os filhos adotivos não serem iguais aos biológicos. Ele não se parecia em nada com nenhum de nós. Por meio de sua hereditariedade única, ele trouxe cor às nossas vidas com o seu dom da música, seu temperamento alegre, sua in­teligência viva. Ele nos fez parecer e agir melhor do que realmente éramos.

Nos dezesseis anos que se seguiram à sua morte, o tempo acres­centou capítulos às nossas vidas. Sua viúva casou-se e teve um filho; sua filha formou-se na escola secundária. Seu irmão casou-se e deu início à sua própria tradição cristã em outro estado. Sua irmã, urna artista, parecia contente com a carreira que escolhera. Seu pai e eu chegamos à idade da aposentadoria e no Natal de 1987 resolvemos voltar para Denver. O chamado para casa não fora muito claro; só sentíamos o desejo de uma ligação indefinida com algo que havíamos perdido e tinha de ser recuperado antes que fosse carde demais.

Chegamos a Denver no final de uma nevasca. Estradas fechadas nos obrigaram a passar pelo centro da cidade, pelo Centro Cívico, iluminado por milhares de luzes — uma cena que eu não estava pronta para ver. Esse mesmo passeio tinha sido uma das tradições favoritas de nosso Menino do Natal. Ele fora inexorável em sua insistência de que todos entrássemos no carro, com as janelas embaçadas pela nossa respiração, os pneus se esforçando para vencer a neve.

Desviei os olhos das luzes e fixei o olhar nas Montanhas Rochosas distantes, onde gostávamos de subir pelas encostas em busca da árvore perfeita. Agora, ao sopé da montanha estava a sua sepultura — uma sepultura que eu não conseguia visitar.

Uma vez instalados na casa pequena, em forma de caixa, tão diferente daquela da família onde havíamos passado a nossa vida, nos encolhemos como duas andorinhas que perderam as companheiras de migração para o sul. Enquanto fiquei ali observando as montanhas cobertas de neve certo dia, ouvi o ruído súbito dos breques de um carro e depois o toque impaciente da campainha. Ali estava nossa neta e em seus olhos cinza-esverdeados e sorriso franco, vi o reflexo do nosso Menino do Natal.

Atrás dela, carregando um enorme pinheiro, entraram sua mãe, padrasto e irmão de nove anos. Eles passaram por nós num alvoroço alegre, abriram a cidra cintilante e brindaram nossa volta. Depois decoraram a árvore e empilharam embrulhos coloridos sob os ramos.

— Vocês vão reconhecer os enfeites, — disse minha ex-nora. — Eram dele. Guardei-os para vocês.

- Eu escolhi a maioria dos presentes, vovó, — disse o garotinho de nove anos que eu mal conhecia. Quando murmurei, numa lembrança sofrida, que não havíamos armado uma árvore durante 16 anos, nossa neta, brincalhona exclamou, — Está então na hora de entrar em forma!

Todos partiram num turbilhão, empurrando um ao outro porta afora, mas não antes de pedir que nos juntássemos a eles na manhã seguinte para o culto e depois para o almoço em sua casa.

— Oh, não podemos, — comecei.

— Claro que podem, — ordenou nossa neta, tão mandona quanto o pai. —Vou cantar o solo e quero vê-los lá.

— Levem protetores de ouvido, — aconselhou o garotinho.

Nós havíamos há muito desistido dos serviços natalinos que nos faziam sofrer; mas agora, sob pressão, sentamos rigidamente no primeiro banco, lutando com as lágrimas.

Chegou a hora do solo. Nossa neta foi apressada para o centro da nave, com um roçar de saias (o pai dela teria andado com ares elegantes), e sua voz magnífica elevou-se clara e límpida, em perfeito ritmo. Ela cantou, "Noite Feliz", que nos trouxe de volta lembranças agridoces. Numa reação emocional rara, a congregação aplaudiu exultante. Como o pai dela teria se alegrado com aquele momento!

Havíamos sido alertados de que haveria "uma multidão de gente" para o almoço — mas, trinta e cinco? Uma porção de parentes encheu todos os cantos da casa; crianças pequenas, barulhentas e exuberantes, pareciam saltar das paredes. Eu não conseguia adivinhar quem era de quem, mas isso não importava. Todos pertenciam uns aos outros. Eles nos aceitaram, envolvendo-nos em alegre camaradagem. Cantamos corinhos em vozes altas, desafinadas, salvos apenas por aquela surpreendente soprano.

Em algum momento, depois do almoço, antes do pôr-do-sol de inverno, ocorreu-me que uma verdadeira família nem sempre é nossa própria carne e sangue. É um clímax do coração. Se não tivesse sido por nosso filho adotivo, não estaríamos cercados de estranhos carinhosos que nos ajudariam a ouvir novamente a música.

Mais tarde, não desejando terminar ainda o dia, nossa neta pediu que fôssemos com ela. — Eu dirijo, — disse.

— Há um lugar onde quero ir. — Ela pulou para trás do volante e com a confiança de um motorista novato, voou para o sopé das montanhas.

Ao lado da lápide achava-se uma pedra pequena, em forma de coração, um tanto fendida, pintada pela nossa filha artista. Em sua superfície descorada pelo tempo, ela escrevera: "Ao meu irmão, com amor". Na parte de cima do túmulo havia uma coroa de Natal de azevinho brilhante. Nosso filho número dois admitiu, quando perguntado, que enviava uma igual todos os anos.

No silêncio frio, mas de alguma forma confortante, não estávamos preparados para a atitude seguinte de nossa neta imprevisível. Mais uma vez, naquele dia, sua voz, tão parecida com a do pai, elevou-se em uma canção, e as encostas da montanha vibraram com o som de "Cantai que o Salvador Chegou", ecoando de lugar em lugar até o infinito.

Quando a última nota cristalina desvaneceu-se, pela primeira vez desde a morte de nosso filho, tive uma sensação de paz, da continuação positiva da vida, de fé e esperança renovadas. O verdadeiro sentido do Natal nos fora restaurado. Aleluia!

 

 

O amor não é cego; o amor vê muito mais do que parece.

O amor vê as ideias, o potencial em nós.

Oswald Chambers


 

LEMBRANÇAS PERFUMADAS

Sandra P. Aldrich e Bobbie Valentine

 

 

Enquanto Cotha Prior passava pela loja nova que vendia cosméticos e sabonetes, as barras de lavanda perfumadas 2 expostas na vitrine chamaram sua atenção. Sua filha Mônica iria gostar delas. Uma vez lá dentro, Cotha pegou a barra mais próxima e a levou ao nariz. O perfume a fez regressar à infância.

Lembrou-se de Margie, a menininha em sua classe da quinta seria que estava sempre mal vestida e cujos hábitos de higiene não eram, para falar a verdade, um de seus costumes regulares. Mesmo tão criança, Cotha sabia como a opinião de suas amigas era importante. Embora sentisse pena de Margie, não podia arriscar-se a fazer amizade com ela.

Certa tarde, então, enquanto a menina Cotha coloria um mapa em sua folha de tarefa de casa, ela mencionou casualmente Margie à mãe, que parou no meio do preparo do assado e perguntou,

— Como é a família dela? Cotha não levantou os olhos.

— Oh, bem pobre, acho eu, —foi sua resposta.

— Parece então que ela precisa de uma amiga, — disse a sra. Burnett.

— Por que não a convida para passar a noite de sexta-feira aqui em casa? Cotha encarou a mãe dessa vez,

— Aqui? Passar a noite comigo? Mas, mamãe, ela cheira mal.

— Cotha Helen, — o fato da mãe usar seus dois nomes significava que a situação estava decidida. Não havia nada a fazer senão convidar Margie. Na manhã seguinte, Cotha sussurrou hesitante o convite no final do recreio, enquanto as amigas estavam pendurando os casacos e penteando o cabelo. Margie pareceu indecisa e Cotha acrescentou, — Minha mãe disse que está bem e mandou este bilhete para sua mãe.

Dois dias mais tarde, as duas pegaram o ônibus que as levaria até em casa, enquanto Cotha tentava evitar os olhares de surpresa no rosto das amigas ao vê-las juntas. — Será que duas meninas da quinta série já ficaram mais caladas do que nós? — Cotha pensou em outras ocasiões em que fora convidada para passar a noite com uma amiga. Elas conversavam e riam o tempo todo até o ponto em que deviam descer.

Cotha tomou finalmente a iniciativa e disse a Margie, — Tenho uma gata. Ela vai ter gatinhos.

Os olhos de Margie brilharam. — Gosto tanto de gatos. — Depois, franziu a testa como se lembrando de uma memória penosa, e acrescentou, — O meu pai não gosta.

Cotha não sabia mais o que dizer e, portanto, fingiu interesse em alguma coisa fora das janelas do ônibus escolar.

As duas meninas ficaram em silêncio até que o ônibus parou em frente da casa branca com venezianas verdes.

A sra. Burnett estava na cozinha. Ela cumprimentou Cotha e Margie com afeto e depois mostrou a mesa posta com dois copos de leite e pão de banana. — Por que vocês duas não tomam um lanchinho enquanto termino o jantar? — perguntou.

— Quando acabou o pão de banana, a sra. Burnett entregou a cada criança bonecas de papel e tesouras sem ponta. Vestir as mulheres de papel em vestidos brilhantes deu a elas algo em comum para conversar. Na hora em que lavaram as mãos para jantar, as duas já conversavam entusiasmadas sobre a escola.

Depois de arrumar a cozinha, a sra. Burnett disse, — Está na hora de tomar banho antes de dormir, meninas. — Ela ofereceu então sabonetes embrulhados em papel com perfume de lavanda. — Desde que esta é uma noite especial, pensei que vocês gostariam de usar sabonetes chiques, — disse ela. — Cotha, entre primeiro e lavo suas costas para. você.

Em seguida foi a vez de Margie. Caso tenha ficado nervosa por ter uma pessoa adulta ajudando-a a tomar banho, ela não demonstrou. Enquanto a banheira enchia, a sra. Burnett derramou uma porção dupla de seu sal de banho borbulhante. — Você não gosta de banho de espuma, Margie? — indagou, como se a menina tomasse banhos assim luxuosos todos os dias.

Ela virou-se para tirar o vestido sujo de Margie e depois disse, —Vou olhar para o outro lado enquanto você tira o resto, mas tenha cuidado ao entrar na banheira. Essa marca de banho espumante faz com que ela fique escorregadia.

Uma vez que Margie entrou na água quente. A sra. Burnett se ajoelhou e passou bastante sabão na esponja de lavar antes de esfregar as costas da menina. — Oh, como isso é bom, — foi tudo que Margie disse. A sra. Burnett comentou como Cotha e Margie estavam crescendo rápido e que jovenzinhas lindas elas já eram. Ela ensaboou várias vezes a esponja e esfregou a pele cor de cinza de Margie até ficar rosada.

Enquanto tudo isso acontecia, Cotha estava pensando, — Oh, como ela pode fazer isso? Margie é tão suja. — Mas, a sra. Burnett continuou a esfregar alegremente e depois lavou várias vezes o cabelo de Margie. Uma vez que ela saiu do banho, a sra. Burnett secou suas costas e passou talco perfumado em seus ombros estreitos. A seguir, como Margie não levara roupa de dormir, a sra. Burnett pegou uma das camisolas limpas de Cotha e enfiou pela cabeça agora lustrosa de Margie.

Após colocar as duas garotinhas na cama, a sra. Burnett inclinou-se para dar-lhes um beijo carinhoso de boa noite. Margie ficou feliz. Quando a sra. Burnett sussurrou, — Boa noite, meninas e apagou a luz, Margie puxou as cobertas cheirosas até o nariz e respirou profundamente. Depois adormeceu quase na mesma hora.

Cotha ficou espantada com o fato de a nova amiga ter dormido tão rapidamente; ela estava acostumada a conversar e rir até tarde com as outras amigas. Ao som da respiração leve de Margie, Cota ficou olhando as sombras na parede, pensando sobre tudo que a mãe fizera.

Durante o banho de Margie, a mãe de Cotha não disse nada para embaraçar a menina e nem sequer comentou como a banheira ficara suja depois dela sair do banho. Apenas esfregou, cantarolando o tempo todo. De algum modo, Cotha soube que a mãe tinha lavado mais do que a pele encardida da menina.

 

Anos mais tarde, Cocha já adulta, se achava na loja de cosméticos, com o sabão perfumado ainda nas mãos, pensando onde Margie estaria agora. Margie jamais mencionara os cuidados da mãe de Cotha, mas esta notara uma diferença na garota. Margie não só começara a ir à escola limpa e apresentável por fora, como também mostrava uma centelha interior, resultado talvez de saber que alguém se importava. Durante o resto do ano escolar, Cotha e Margie brincaram no recreio e almoçaram juntas. Quando a família de Margie mudou-se no final do ano, Cocha nunca mais teve notícias dela, mas sabia que ambas haviam sido influenciadas pelo comportamento de sua mãe.

Cotha sorriu, depois pegou outra barra do sabonete de lavanda. Enviaria a mesma para a mãe, com uma carta dizendo que lembrava do que ela fizera há tantos anos — não só por Margie, mas também por Cotha.


 

UMA GRANDE DAMA

Tim Hansel

 

 

Lembro-me de quando estava na quarta série e você costumava fazer coisas como ficar acordada metade da noite para costurar urna roupa de Zorro para eu usar na festa do Dia das Bruxas. Eu sabia que você era uma boa mãe, mas não compreendia que era também urna grande dama.

Posso lembrar-me de que você trabalhava em dois empregos algumas vezes e cuidava do salão de beleza em frente da nossa casa, para assegurar que nossa família pudesse pagar as contas no fim do mês. Você trabalhava muitas horas, mas de algum modo conseguia sorrir todo o tempo. Eu sabia que era uma pessoa trabalhadora, mas não compreendia que era urna grande dama.

Lembro-me da noite em que falei com você bem tarde...de fato, era quase meia-noite ou até mais que isso, e disse que tinha de representar um rei na peça da escola no dia seguinte. Você não vacilou e fez para mim um manto real, vermelho, enfeitado de arminho (feito de algodão e marcadores pretos). Depois de todo esse esforço, eu esqueci de me virar na peça, de modo que ninguém viu o resultado final do seu trabalho. Mesmo assim, você conseguia rir, amar e apreciar até essa espécie de momentos. Eu soube então que você era o que eu já sabia há muito tempo — que grande mãe você pode ser — mas não compreendi que grande, grande dama era.

Escrevi alguns livros e as pessoas pareceram gostar. Você e meu pai ficaram tão orgulhosos que algumas vezes davam exemplares deles só para mostrar o que um de seus filhos fizera. Compreendi então que grande propagandista era, mas não que grande, grande dama você era.

Os tempos mudaram... as estações passaram e um dos maiores homens que conheci também se foi. Posso ainda Lembrar-me de você no funeral, de pé ali, destemida e orgulhosa, num vestido vermelho brilhante, lembrando às pessoas: — Como fomos abençoados e como somos gratos por "uma vida bem vivida". — Nesses momentos vi uma mulher que podia continuar grata em meio às mais difíceis circunstâncias. Estava começando a descobrir que grande, grande dama você era.

No último ano, quando você teve de ficar sozinha como nunca antes, tudo o que observei e experimente durante todos aqueles anos tomou forma de um modo totalmente novo. Apesar de tudo que aconteceu, o seu riso é agora mais rico, sua força é maior, seu amor mais profundo, e estou descobrindo realmente que grande, grande dama você é.

Obrigado por ter-me escolhido para ser um de seus filhos.

 

 

 

 

 

 

 


 

TODAS AS CRIANÇAS CHEGARAM?

 

 

Enquanto a noite se escoa,

Penso nos tempos de uma velha casa no morro,

Num quintal enorme e repleto de flores

Onde as crianças brincavam à vontade.

Quando a noite finalmente chegava,

Silenciando todo o alvoroço alegre,

Mamãe olhava em volta e perguntava,

— Todas as crianças chegaram?

Faz muito, muito tempo desde então,

E a velha casa no morro,

Não mais ressoa com os passos infantis

E o quintal está quieto, tão quieto.

Vejo, porém, tudo isso enquanto as sombras se insinuam,

E embora muitos anos se passassem

Desde então, posso ainda ouvir minha mãe perguntar,

— Todas as crianças chegaram?

Fico me perguntando se, quando essas sombras caírem

No último e curto dia nesta terra,

Quando nos despedirmos do mundo lá fora,

Cansados de nossas brincadeiras infantis,

Quando encontrarmos

Aquele que ama meninos e meninas,

Que morreu para salvá-los do pecado,

Iremos ouvi-lo perguntar como mamãe fazia,

— Todas as crianças chegaram?


 

POR QUE

Adria Dobkin

 

 

Minha mãe começou a tocar violoncelo aos 46 anos. Ela sempre quis aprender e, finalmente, na meia-idade, mãe de dois adolescentes, decidiu tomar lições. Eu a ouvi arranhar, "Brilha, Brilha, Estrelinha" e progredir lentamente para outras peças mais desafiadoras. Dizer que eu não era sua maior fã é dizer pouco.

Ela me procurava com as suas frustrações, desejando desistir, e eu me calava. Não era nada afirmativa.

Aquilo me parecia um desperdício. Tocar violoncelo não era algo que minha mãe poderia acrescentar ao seu currículo da faculdade. Ela jamais tocaria com a Orquestra Sinfônica de Londres. Eu não conseguia ver o seu objetivo.

O objetivo de minha mãe, porém, não era agradar os funcionários responsáveis pela admissão ou encantar seus colegas. Fazia aquilo apenas por fazer.

Este esforço de auto aperfeiçoamento é que resulta em uma espécie de brilho. Saber que você não fez alguma coisa especial por qualquer outra razão, mas apenas "por fazer".


 

VISTA DA MINHA JANELA

Robin Jones Gunn

 

 

Estou em casa, de volta do hospital.

Que semana difícil.

O tumor era benigno.

Estou "consertada".

Dúzias de grampos de prata prendem minha carne.

Lá fora as árvores estão começando a florescer.

O gramado é todo verde.

Pombos gorduchos andam empertigados no telhado da casa amarela de Sandra.

Um esquilinho vivaz pára a todo momento na janela do meu segundo andar. Ele levanta as patas e aperta o nariz no vidro.

Senta e observa, como uma criança espiando a vitrine de uma loja de brinquedos.

O que ele vê?

Os muitos ramos de flores?

A cesta de cartões dos amigos, desejando-me boa sorte?

O ventilador que gira no teto?

A mulher pálida, encostada em travesseiros, que o vigia?

Oh, ei-lo aqui agora

Olá, meu amiguinho peludo.

Ele arranha o vidro, olhando de um e de outro lado.

Nas linhas telefônicas atrás dele, quatro pombas desfilam no fio como se estivessem num palco.

Tudo que precisam é de guarda-sóis.

E talvez uma noz assada para cativar meu amigo de cauda peluda, para que deixe de me olhar e passe a olhar para elas.

Um corredor de camisa vermelha passa na rua, espantando as acrobatas e enviando-as para o telhado de Sandra do lado oposto da rua, onde seis delas agora caminham e arrulham.

O mundo lá fora é ocupado.

Tanta atividade.

Tanta vicia. E aqui?

Fecho Os olhos para dormir.

Para aquietar minha alma.

Para restabelecer-me.

O perigo passou.

Estou boa.

E nunca terei outro filho.

Aos 39 essas notícias não deveriam chocar-me.

Uma amiga afirmou que deveria sentir-me aliviada.

Mas, durante anos fiquei imaginando que talvez pudesse haver mais uma vida pequenina dentro de mim, esperando para nascer.

Agora é evidente que a resposta é não.

O que você está olhando sr.

Esquilo? Nunca viu uma mãe chorando?


 

O QUE REALMENTE IMPORTA

 

 

Daqui a cem anos

Não mais importa

Que tipo de carro eu dirigia

Em que tipo de casa vivia,

Quanto dinheiro tinha em minha conta bancária.

Nem qual a aparência de minhas roupas.

Daqui a cem anos, porém,

O mundo talvez seja um pouco melhor

Porque eu fui importante

Na vida de uma criança.


 

QUANDO A LUA NÃO APARECE

Ruth Senter

 

 

A lua costuma parecer geralmente mais brilhante nas noites claras de maio, no leste da Pensilvânia. Hoje, porém, ela se acha ausente. Tudo está escuro. Noto círculos castanhos sob a lâmpada no corredor quando mamãe nos recebe às duas da manhã, ao chegarmos de Illinois. Noto também círculos castanhos sob os olhos dela. Manchas que eu nunca tinha reparado antes. Pele cansada sob rugas delicadas.

Aqui está ela, minha mãe há 40 anos. Sinto um acúmulo de noites esperando a chegada dos filhos, como se os anos tivessem lançado as sombras da lâmpada sobre o seu rosto. Vejo os anos nas veias negras e azuis que exatamente nesta semana foram examinadas pelo cardiologista. Ouço os anos — como o ruído do oceano ouvido numa concha — no diagnóstico do médico. — Bandeira vermelha...coração aumentado...reduza o ritmo... — Eu olho incerta. Mamãe sempre foi uma rocha firme através dos anos. O amanhã fora uma promessa assumida — uma longa fila de casamentos na família, nas-

cimentos, formaturas, recitais de música, ordenações, Natal, Páscoa, Dia de Ação de Graças. O tempo tem sido um acontecimento e não uma sequência.

Enquanto olho para minha mãe, sinto que alguém deu corda no relógio. O tempo tem agora uma cadência. Os anos se tornaram um diferencial. A história tem um começo e um fim. Tremo no frio da madrugada. Mas, então, os braços de minha mãe me rodeiam de calor e estou em casa. Um filho de 40 anos confortado pelo toque da mãe. Não há tempo no toque, os braços acolhedores não conhecem os anos.

Ouço a chaleira assobiando, os biscoitos de chocolate recém-saídos do forno estão à espera na velha bandeja da avó Hollinger. Os biscoitos de chocolate de minha mãe e a bandeja da avó Hollinger me empurram de volta ao infinito. Tomamos chá de hortelã e rimos com uma história boba contada por meu pai. Nosso riso oculta o barulho do relógio. Não há tempo no riso. Mamãe ri mais alto que todos. Círculos negros. Círculos cansados, mas alegres. Seus filhos estão em casa.

Por um momento esqueço as veias machucadas e o tique-taque dos relógios. Estou presa a coisas que não mudam — o bom-dia de uma mãe, biscoitos frescos de chocolate, uma bandeja antiga, chá de hortelã, um relógio de lareira, e risos. Estou presa a um Deus que não muda. Conheço o Deus do tempo que está, todavia, acima do tempo. Esta noite, na face de minha mãe, vejo o estranho paradoxo do tempo e da eternidade. Um vislumbre raro do divino.


 

SOU A ORAÇÃO DE UMA MÃE

Histórias Para o Coração da Mãe 101

 

 

Sou a oração de uma mãe: Algumas vezes me vejo vestida em belíssima linguagem, costurada com as agulhas do amor nas câmaras silenciosas do coração, e outras vezes estou trajada apenas com as frases hesitantes, interrompidas por lágrimas, arrancadas como raízes vivas do solo profundo da emoção humana. Observo frequentemente a noite. Vi muitas vezes a manhã romper sobre os montes e inundar os vales de luz; o orvalho dos jardins foi removido de meus olhos enquanto eu esperava e clamava junto aos portões de Deus.

Sou a oração de uma mãe: não há linguagem que eu não possa falar; nenhuma barreira de raça ou cor faz meus pés tropeçarem. Nasço antes da criança vir ao mundo e da chegada do dia do parto. Já fiquei perto do altar do Senhor com o dom de uma vida não-nascida em minhas mãos, misturando minha voz alegre e chorosa com as orações e lágrimas do pai. Já corri à frente da enfermeira pelos corredores do hospital, orando para que a criança fosse perfeita, e fiquei surda e muda na presença da alegria diante de um pedacinho de humanidade, tão aturdida que não pude fazer nada além de roçar os dedos pelas harpas de gratidão e dizer, — Obrigada, Senhor!

Sou a oração de uma mãe: vigiei o berço; sustentei uma casa inteira enquanto esperávamos pelo médico. Já preparei um remédio e segurei um termômetro marcando 40 graus. Suspirei de alívio ao ver o suor sob os cachos de uma criança, porque a crise passara. Fiquei ao lado de uma sepultura e peguei algumas flores para levar comigo como recordação, abraçando as promessas de Deus para ficar firme e esperar até que pudesse sentir debaixo de mim os braços eternos.

Sou a oração de uma mãe: andei e me ajoelhei em cada quarto da casa, acariciei o velho Livro, sentei-me silenciosa à mesa da cozinha, e fui lançada ao redor do mundo para seguir um rapazinho que foi para a guerra. Procurei em hospitais, em acampamentos do exército e campos de batalha. Segui obstinadamente os passos de filhos e filhas na faculdade e universidade, procurando emprego na cidade grande. Estive em lugares estranhos, chegando a ir até mesmo a espeluncas e inferninhos, a clubes noturnos e bares, a vielas e ruas escuras. Andei de automóvel, de avião e de navio, procurando e protegendo, guiando, aconselhando, arrastando e puxando em direção ao lar e ao céu.

Sou a oração de uma mãe: Já enchi despensas com provisões, quando as provisões terrenas desapareceram. Cantei canções na noite, quando nada havia sobre o quê cantar, além da fidelidade do Senhor. Fiquei tão perto das promessas da Palavra que a impressão da sua verdade está fragrante à minha volta. Demorei-me nos lábios dos agonizantes, como uma trêmula melodia enviada do céu.

Sou a oração de uma mãe: Não fiquei sem resposta, embora à mãe possa ter partido, embora o lar possa ter-se desmanchado em pó, embora a pequenina lápide no cemitério esteja quase apagada. Permaneço aqui e enquanto Deus for Deus, e a verdade for verdade, e as promessas de Deus forem “sim e amém”, continuarei a implorar, a conquistar, a esforçar-me e suplicar pelos meninos e meninas cujas mães estão na Glória, pois fui designada embaixatriz pelo rei Emanuel. Sou a oração de uma mãe.

 

 

 

 

Não meça a riqueza por aquilo que possui,

mas pelas coisas que são suas e pelas quais não aceitaria dinheiro.

Anônimo


 

SUAVE CARÍCIA

Daphna Renan

Histórias Para os Corações Românticos 7

 

Michael e eu mal notamos quando a garçonete veio e colocou os pratos em nossa mesa.

Estávamos sentados em um pequeno café, escondido do barulho da Third Street, em Nova York. Nem mesmo o cheiro delicioso das panquecas doces, recém-chegadas, interrompeu nossa animada conversa. Na verdade, as panquecas ficaram mergulhadas no creme espesso por bastante tempo. Estávamos nos divertindo muito um com o outro para que essa guloseima nos interrompesse.

A troca de ideias, apesar de trivial, era entusiasmada. Rimos ao lembrar do filme que havíamos assistido na noite anterior e dos pontos de vista discordantes sobre o significado do texto que preparáramos para o seminário de literatura. Ele contou-me a respeito do momento em que dera um passo drástico em direção à maturidade, ao tornar-se Michael, recusando-se, a partir desse momento, a responder ao apelido, "Mikey". Ele tinha doze ou quatorze anos? Não conseguia lembrar, no entanto, lembrava-se que sua mãe chorara e dissera que ele estava crescendo depressa demais. Quando, por fim, mordemos as panquecas de amora, contei-lhe sobre as amoras que minha irmã e eu costumávamos colher nas visitas a nossos primos, no campo. Lembrei que sempre comia as minhas antes de voltar para casa, e minha tia advertia-me, pois comê-las dessa maneira certamente faria com que tivesse dor de estômago. É claro que nunca tive.

Enquanto continuávamos nossa agradável conversa, meus olhos voltaram-se para o outro lado do restaurante, pousando em um pequeno reservado, de canto, onde se encontrava um casal idoso. O vestido estampado da mulher parecia tão desbotado quanto a almofada em que colocara a velha bolsa. O alto da cabeça do homem era tão brilhante quanto o ovo cozido que ele mordia devagar. Ela também comia a aveia em seu prato em ritmo lento, quase tedioso.

O que chamou minha atenção para eles foi o silêncio. Pareceu-me que um vazio melancólico permeava seu pequeno canto. Enquanto o intercâmbio entre Michael e eu variava entre risos e sussurros, confissões e avaliações, o silêncio pungente do casal fez-me pensar como é triste não ter restado nada a dizer. Não haveria ainda uma página que eles não tivessem virado na história da vida deles? E se isso acontecesse conosco?

Michael e eu pagamos a conta e levantamo-nos para deixar o restaurante. Minha carteira caiu acidentalmente e, ao abaixar para apanhá-la, notei que, debaixo da mesa, a mão livre de cada um deles estava gentilmente aninhada na do outro. Tinham estado de mãos dadas todo aquele tempo!

Pus-me de pé, emocionada pelo simples, mas profundo, elo que os unia, o qual tivera o privilégio de testemunhar. A carícia suave daquele homem nos dedos cansados da esposa preenchia não apenas o que antes percebera como um canto emocionalmente vazio, mas também meu coração. O silêncio deles não era desconfortável,' como o que ameaça encher o espaço após o ponto culminante de um discurso ou ao término de uma anedota em um primeiro encontro. Não, o silêncio deles era um entendimento confortável, relaxado, o amor suave que nem sempre precisa de palavras para se expressar. Eles haviam provavelmente compartilhado as horas da manhã por longo tempo, e talvez hoje não fosse diferente de ontem, mas estavam em paz com isso e um com o outro.

Enquanto Michael e eu saíamos, pensei que talvez não fosse tão ruim se viéssemos a ser assim no futuro. É possível que fosse até bastante agradável.


 

LEMBRA-SE DE MIM?

Arnold Fine

Histórias Para os Corações Românticos 11

 

 

Num um dia gelado, quando voltava para casa, tropecei em uma carteira que alguém perdera na rua. Apanhei-a e procurei por alguma identificação, a fim de descobrir o dono. Contudo, a carteira continha apenas três dólares e uma carta amassada, que parecia estar ali havia anos.

O envelope estava gasto, e só o endereço do remetente era legível. Abri a carta, esperando encontrar alguma pista. A seguir, vi a data: 1924. A carta fora escrita havia quase sessenta anos.

A letra era feminina e bonita. O papel era azul-pálido, com uma pequena flor no canto esquerdo. Era uma carta simples, explicando ao destinatário, cujo nome parecia ser Michael, que a autora não podia mais vê-lo porque a mãe proibira. Mesmo assim, ela escreveu que o amaria para sempre.

Quem assinava era Hannah.

O conteúdo da carta era lindo, mas não havia meios para identificar o proprietário, exceto pelo nome Michael. Quem sabe se eu telefonasse para a seção de informações, a telefonista poderia encontrar o endereço do envelope na lista?

— Telefonista — disse eu —, tenho um pedido um tanto estranho a fazer. Estou procurando o dono de uma carteira que encontrei. Existe algum meio de fornecer-me o número do telefone do endereço que estava em um envelope, na carteira?

Ela sugeriu que falasse com sua supervisora, a qual após hesitar um momento, disse:

— Consta que há um número de telefone nesse endereço, mas não posso fornecê-lo.

A seguir, afirmou que, como cortesia, chamaria o número, explicaria minha história e perguntaria se permitiriam que ela fornecesse o telefone para mim. Esperei alguns minutos, e depois ela voltou à linha: — Tem uma pessoa que quer falar-lhe.

Perguntei à mulher, do outro lado da linha, se conhecia alguém com o nome de Hannah. Ela respondeu ofegante:

— Oh! Compramos essa casa de uma família, cuja filha chamava-se Hannah. Mas isso foi há trinta anos!

— Pode dar-me o endereço atual deles ? — perguntei.

— Lembro-me de que Hannah teve de colocar a mãe em uma casa de repouso há alguns anos — disse a mulher. — Talvez, se entrar em contato com os responsáveis por esse local, eles poderiam localizar a filha.

Ela deu-me o nome da casa de repouso, e telefonei para eles. Contaram-me que a senhora morrera há alguns anos, mas tinham um número de telefone, que poderia ser do local em que a filha estava morando.

Agradeci, desliguei e telefonei para o número fornecido. A mulher que atendeu, explicou-me que era Hannah quem estava agora vivendo em uma casa de repouso.

Que coisa mais sem pé nem cabeça, pensei comigo mesmo. Por que estava me esforçando tanto para encontrar o dono de uma carteira com apenas três dólares e uma carta de quase sessenta anos atrás?

Não obstante, liguei para a casa de repouso, e o homem que atendeu disse:

— É verdade, Hannah mora aqui. Embora já fossem dez horas da noite, perguntei se poderia ir vê-Ia.

 — Olhe — disse ele, com certa hesitação —, se quiser arriscar, ela talvez esteja na sala assistindo televisão.

Agradeci e fui de carro até à casa de repouso.

A enfermeira da noite e um guarda cumprimentaram-me à porta. Fomos até o terceiro andar do prédio, e a enfermeira apresentou-me a Hannah, que estava na sala.

Ela era uma senhora doce, de cabelos prateados, com um sorriso cordial e um brilho especial nos olhos. Contei-lhe sobre a carteira e mostrei-lhe a carta. No momento em que viu o envelope azul-pálido com a pequena flor no canto esquerdo, respirou fundo e disse:

— Jovem, esta carta foi o último contato que tive com Michael.

Hannah desviou os olhos por um momento e, depois, falou com voz suave:

— Eu o amava muito, mas tinha apenas dezesseis anos, e minha mãe achava que eu era muito criança. Ele era tão bonito. Parecia-se com o ator Sean Connery.

E continuou:

- Michael Goldstein era uma pessoa maravilhosa. Se o encontrar, diga-lhe que penso sempre nele.

Hesitou por um momento e, quase mordendo os lábios, disse:

- Diga-lhe que ainda o amo. Sabe -, disse ela sorrindo enquanto seus olhos começaram a marejar. - Nunca casei-me, acho que ninguém jamais pôde comparar-se ao Michael...

Agradeci a Hannah e despedi-me. Tomei o elevador para o primeiro andar e, quando cheguei à porta, o guarda perguntou:

- A velha senhora o ajudou?

Contei a ele que Hannah dera uma pista:

- Pelo menos, tenho um nome, mas acho que deixarei isso de lado por algum tempo. Passei quase o dia inteiro tentando encontrar o dono desta carteira.

Eu estava com a carteira na mão, que era de couro simples, enfeitado com um cordão vermelho na lateral. Quando o guarda a viu, exclamou:

- Espere um pouco! É a carteira do sr. Goldstein. Eu a conheceria em qualquer lugar devido ao cordão vermelho brilhante. Ele sempre perde a carteira. Devo tê-la encontrado no vestíbulo, pelo menos, três vezes.

- Quem é o sr. Goldstein? - perguntei, enquanto minha mão começava a tremer.

- É um dos veteranos do oitavo andar. Tenho certeza de que é a carteira de Mike Goldstein. Deve tê-la perdido em um de seus passeios.

Agradeci ao guarda e retornei, o mais depressa possível, ao escritório da enfermeira. Contei-lhe o que o guarda havia dito. Fomos juntos até o elevador. Orei para que o sr. Goldstein estivesse acordado. No oitavo andar, a enfermeira encarregada disse:

— Penso que ele ainda está na sala de lazer. Gosta de ler à noite. É um homem muito querido.

Fomos até o único aposento com as luzes acesas e, ali, havia um homem lendo um livro. A enfermeira foi até ele e perguntou se perdera a carteira. O sr. Goldstein, surpreso, levantou os olhos, colocou a mão no bolso de trás e disse:

— Oh! Não está aqui!

— Este senhor bondoso encontrou urna carteira e ficamos imaginando se poderia ser a sua.

Entreguei a carteira ao sr. Goldstein e, no momento, em que a viu, deu um sorriso de alívio e disse:

— É ela! Devo tê-la deixado cair do bolso esta tarde. Preciso recompensá-lo.

— Não, obrigado. — repliquei. — Mas quero contar-lhe algo. Li a carta, com esperança de descobrir quem era o dono da carteira.

O sorriso no rosto dele desapareceu de súbito:

— Você leu a carta?

— Não só a li, mas sei onde Hannah está.

Ele ficou pálido:

— Hannah? Sabe onde ela está? Por favor, diga-me — suplicou.

— Ela está ótima... tão bonita como quando a conheceu — respondi baixinho.

O homem idoso sorriu em antecipação e perguntou:

— Pode dizer-me onde ela está? Quero telefonar-lhe amanhã. Agarrando minha mão, disse:

— Sabe de uma coisa? Eu amava tanto aquela garota, que minha vida literalmente terminou quando recebi esta carta. Nunca me casei. Acho que sempre a amarei.

— Sr. Goldstein, — disse eu. — venha comigo.

Tomamos o elevador para o terceiro andar. Os corredores estavam escuros e só uma ou duas lâmpadas iluminavam o caminho para a sala na qual Hannah encontrava-se sozinha diante da televisão. A enfermeira foi até ela:

— Hannah, — disse com suavidade, apontando para Michael que esperava comigo à porta. — Você conhece este homem?

Ela ajustou os óculos, fitou-o por um momento, mas não disse palavra. Michael falou em voz baixa, quase em um sussurro:

— Hannah, sou eu, Michael. Lembra-se de mim?

- Michael, não acredito! Michael! É você? O meu Michael! — suspirou ela.

Ele aproximou-se dela lentamente, e os dois abraçaram-se. A enfermeira e eu nos afastamos com lágrimas correndo pelo rosto.

— Veja! — disse eu. — Veja como o bom Senhor trabalha. Quando as coisas têm de acontecer, acontecem.

Cerca de três semanas mais tarde recebi um chamado da casa de repouso:

— Pode comparecer domingo a um casamento? Michael e Hannah vão casar-se!

Foi um lindo casamento, ao qual todos os moradores da casa de repouso, em trajes de gala, compareceram. Hannah usava um leve vestido bege, e sua beleza encantava a todos. O terno de Michael era azul escuro, e ele parecia radiante. O casal convidou-me para padrinho.

A instituição deu-lhes um quarto particular, e se você já desejou ver uma noiva de setenta seis anos e um noivo de setenta e nove agir corno adolescentes, teria de ver esses dois. Um final perfeito para um caso de amor que durou quase sessenta anos.


 

O MISTÉRIO DO CASAMENTO

Mike Mason

Histórias Para os Corações Românticos 20

 

 

A primeira coisa que vejo, ao abrir os olhos, é a 2 manhã cobrindo com um brilho rosa os troncos das três bétulas do lado de fora de nossa janela. A lua, na mudança de fase, pendura-se entre dois troncos, deixando de ser cheia para desaparecer no ocidente. Ela tem a mesma cor pálida, cor-de-rosa claro, semelhante ao papel da casca das bétulas. Tanto as árvores como a lua parecem quase translúcidas, como se iluminadas por detrás.

A manhã, em seu todo, é translúcida. O ar prende a luz como em uma taça. Até mesmo a montanha, a mais opaca das criações de Deus, brilha com luz interior...

Essa é a cena para a qual acordo todas as manhãs, aqui onde vivo, com o acompanhamento dos sons de um rio caudaloso de montanha, espumante, azul-prateado, que enchem meus ouvidos, como a luz da aurora enche meus olhos. Todavia, isso não é tudo. Há algo mais. Algo mais empolgante do que qualquer dessas coisas estupendas e belas, algo ainda mais radiante, mais iluminado.

Minha esposa está deitada a meu lado. Eu poderia, neste momento, estender a mão e tocá-la, com tanta facilidade quanto toco a mim mesmo e, quando penso nisso, percebo que é algo mais surpreendente do que qualquer montanha ou lua. Ê ainda mais incrível do que se essa mulher fosse, em vez de minha esposa, um anjo (o que, pensando bem, ela poderia perfeitamente ser). Só há duas coisas que impedem esta situação de tornar-se tão incrível, que meu coração explodiria só de tentar compreendê-la: uma delas é que tenho acordado assim, com a mesma mulher a meu lado, centenas de vezes; e a outra é que milhões de outros homens e mulheres também têm acordado ao lado um do outro, dessa mesma maneira, no mundo inteiro, a cada dia e há milhares de anos.


 

AMOR EM UM MEDALHÃO

Geery Howe

Histórias Para os Corações Românticos 23

 

 

Como líder de seminários ouço unia porção de histórias sobre a vida e as experiências das pessoas. Certo dia, no final de uma palestra, uma mulher procurou-me para contar um fato que mudou sua vida e, em um certo sentido, tocou a minha.

 

Ela começou a contar-me:

Até cerca de dois anos atrás, eu costumava a pensar que era apenas uma enfermeira. Certo dia, ao meio-dia, estava alimentando os idosos que não conseguiam comer sozinhos. Era um trabalho difícil, cuidar de cada um, certificando-se de a comida permanecia na boca. Levantei os olhos quando um senhor idoso passou pela porta da sala de jantar. Ele descia o corredor para sua visita diária à esposa. Nossos olhos se encontraram à distância e soube, em meu coração, que deveria estar com ambos naquela hora. Minha colaboradora substituiu-me, e eu o segui pelo corredor.

Quando entrei no quarto, a esposa dele estava deitada na cama, olhando para o teto, com os braços cruzados no peito. Ele estava sentado em uma cadeira ao pé da cama, com os braços cruzados, fitando o chão. Fui até ela e disse:

— Susan, você quer compartilhar alguma coisa hoje? Se quiser, estou aqui para ouvi-la.

Susan tentou falar, mas seus lábios estavam secos e não conseguiu dizer nada. Curvei-me mais e perguntei de novo:

— Susan, se não consegue dizer com palavras, pode mostrar-me com as mãos?

Ela levantou cuidadosamente as mãos do peito e as manteve diante dos olhos. Eram mãos envelhecidas, com a pele grossa e os nós dos dedos inchados, gastas pelos anos de afazeres, atividades e vida. A seguir, pegou a gola da roupa de dormir e começou a puxá-la. Abri os primeiros botões. Ela pôs a mão dentro da camisola e tirou uma corrente de ouro comprida com um pequeno medalhão. Levantou-o, e seus olhos encheram-se de lágrimas. O marido aproximou-se. Sentando ao lado da mulher, ele colocou ternamente as mãos em volta das dela, dizendo:

— Há uma história sobre este medalhão. Certo dia, há muitos meses, acordamos cedo, e eu disse a Susan que não podia mais cuidar dela sozinho. Não podia levá-la ao banheiro, arrumar a casa e cozinhar todas as refeições. Meu corpo não aguentava mais, pois eu também envelhecera. Conversamos bastante naquela manhã. Ela disse que eu fosse tomar um café com amigos e perguntasse a respeito de um bom lugar para nós. Não voltei até a hora do almoço. Escolhemos este local, seguindo o conselho de amigos. No primeiro dia, depois de preencher todos os formulários, passar pela pesagem e pelos exames, a enfermeira disse-nos que seus dedos estavam tão inchados que teriam de cortar os anéis. Depois que todos foram embora do quarto, ficamos sentados juntos, e ela perguntou-me: "O que fazer com um anel partido e outro inteiro?". Desse modo, naquele dia, eu resolvera também tirar minha aliança. Os dois anéis eram velhos, já tinham a forma mais ovalada do que redonda. Estavam finos em alguns lugares e ainda fortes em outros. Havíamos tomado uma decisão dolorosa. Aquela foi a noite mais difícil em toda a minha vida. Pela primeira vez, em quarenta e três anos, dormimos separados. Na manhã seguinte, levei as duas alianças a um joalheiro e pedi-lhe que as derretesse. Metade do medalhão é minha aliança, e a outra metade, a dela. O fecho pertence ao anel de noivado que lhe dei quando a pedi em casamento, perto do lago, na parte de trás da fazenda, em uma noite quente de verão. Ela disse-me que já era tempo de casarmos e aceitou. No interior do medalhão está escrito, Amo você, Susan, e do outro lado, Amo você, Joseph. Fizemos este medalhão, pois temíamos que um dia não mais pudéssemos dizer essas palavras um para o outro. O homem levantou-se e prendeu gentilmente a esposa nos braços. Eu sabia que era apenas o canal, e que eles tinham a mensagem a ser transmitida. Saí sem ruído e voltei para onde tinha de alimentar os que não podiam mais comer sozinhos com um sentimento maior de bondade em meu coração.

Depois do almoço e de lidar com a papelada, voltei ao quarto deles. Ele a ninava nos braços, cantando a última estrofe de "Maravilhosa Graça". Esperei, enquanto ele a colocava na cama, cruzava seus braços e fechava seus olhos. Na porta, o homem voltou-se para mim e disse: "Obrigado. Ela morreu há pouco. Muito, muito obrigado".

Eu costumava dizer que era “apenas uma enfermeira” ou “apenas uma mãe”, mas não digo mais isso. Ninguém é apenas uma coisa. Cada um de nós possui dons e talentos. Não precisamos limitar-nos a essas definições estreitas. Sei o que posso fazer quando ouço meu coração e vivo de acordo com ele.

Quando terminou sua história, abraçamo-nos, e ela partiu. Fiquei parado à porta, cheio de gratidão.


 

A MESA

John V. A. Weaver

Histórias Para os Corações Românticos 33

 

 

Não se trata de uma mesa que valha a pena olhar. Suponho que você a consideraria apenas um móvel velho e amarelo de carvalho. Não é que não pudéssemos comprar uma mesa de mogno ou nogueira, é claro. O fato é que trinta e oito anos praticamente transformam qualquer coisa em um tesouro.

O presente de casamento do pai de Sam para nós fora essa mesa e seis cadeiras: quatro simples e duas com assento de couro.

Lembro-me, como se fosse ontem, do primeiro jantar que compartilhamos nela. Voltamos da lua-de-mel, no Canadá, em uma tarde de segunda-feira. Sam alugara, na semana anterior ao nosso casamento, a pequena casa de cinco cômodos na rua Locust.

Passamos o mês inteiro de lua-de-mel, passeando, pescando e acostumando-nos um ao outro. Eu estava preocupada com a ideia da mobília para a sala de jantar. Tinha muitas peças da casa de mamãe, e Sam trouxera outras de seu apartamento, mas nenhum de nós possuía uma mesa de jantar. Conversamos bastante a respeito. Toda a preocupação desapareceu, porém, no minuto em que entramos na sala e vimos a grande mesa amarela de carvalho, brilhante e polida, com um bilhete do pai de Sam sobre ela.

Mais que depressa fui preparar alguma coisa para comer. Não lembro o que foi.

Em breve estávamos sentados nas cadeiras, um em frente ao outro, tão perto que podíamos tocar nossas mãos.

Sam não prestou muita atenção à comida.

Ficou olhando para mim. Você sabe como os recém-casados costumam fazer. Sam também não falou nada durante um minuto. A seguir, olhou para mim e disse:

— Acho que você é a moça mais linda que conheço, Mary. Estou contente que esta mesa seja tão pequena. Ela permite que a veja melhor.

Tive de rir. E respondi:

— Seu tolinho, ela abre ao meio. Há tábuas extras no armário de louças. Podemos torná-la tão comprida quanto quisermos.

Ele pareceu meio encabulado e olhou, em volta, para as outras cadeiras. Depois sorriu:

— Acho que teremos de usar essas tábuas antes de completar nossa família, não é?

Eu quase não pude comer de tanto rir. E também fiquei vermelha.

Está vendo essa fileira de marcas perto de meu lugar? Foi Sallie que fez isso com sua colher. Ela foi a única que sempre martelou. A nossa primogênita.

Do outro lado, perto da abertura, Sam Jr. tentou gravar suas iniciais quando tinha cinco anos. Sam o surpreendeu no momento em que terminava o "S". Aquela noite, sem sombra de dúvida, foi bem quente para esse jovenzinho.

É claro que havíamos colocado uma das tábuas adicionais várias vezes, antes do Ben chegar. As crianças estavam sempre recebendo amigos. Mas Ben tornou permanente a tábua extra.

Começamos, depois, a acrescentar a segunda tábua. Outros amigos chegaram. Eu costumava dizer a Sam, que ele foi ficando cada vez mais longe de mim. Ele sempre respondia a mesma coisa:

— Meus olhos ainda estão bons. Ainda vejo como você é bonita.

Sabia que ele estava sendo sincero.

As crianças cresceram, e a mesa chegou a seu ponto máximo de comprimento. Sallie casou-se com Tom Thorpe, aos dezenove anos, e os dois moraram conosco por três anos.

Os meninos estavam na escola secundária a essa altura, e nossa família era realmente grande. As três tábuas extras mal davam conta do recado. Sam em uma cabeceira, e eu na outra, ao redor Ben, Sam Jr., Sallie e Tom — e minha primeira neta, Irene, em seu cadeirão.

Ela também tinha seu lugar marcado. Nessa época estávamos na casa grande da rua Maple, e o ruído — e a vida — e a alegria inundavam nosso lar! A mesa certamente já mostrava as cicatrizes da batalha. Olhe este lugar marrom, queimado. Foi aí que o Senador Berkeley colocou seu charuto, na noite que passou conosco.

Depois, Sam Jr. partiu para a faculdade e, pouco tempo depois, Tom e Sallie mudaram-se para sua própria casa, lá nas montanhas. Uma das tábuas foi tirada para sempre, e não tínhamos muito uso para a segunda, a não ser nos dias em que, às vezes, recebíamos visitas. Exceto nas férias, é claro.

Foi um choque para nós quando Sam Jr. deixou a faculdade, no final do terceiro ano, e viajou para o oeste, para a Califórnia. Ele não fugiu, entenda bem. Demos permissão, embora ficássemos muito desapontados por não terminar sua educação. No entanto, ele estava certo. Ganhou muito dinheiro com a venda de propriedades naquela região.

Sam Jr. veio uma vez, por cerca de uma semana, com sua esposa, Myra, e os dois filhos. E a velha mesa chegou novamente a seu comprimento máximo. Tudo pareceu muito quieto depois que eles se foram.

Ben voltou e morou conosco dois anos, antes de formar-se. Esperávamos que ficasse contente em estabelecer-se na cidade, estava indo tão bem no ramo de seguros. Esse foi, no entanto, o problema. O escritório de Nova York queria que se mudasse para lá, com o dobro do salário, e lá se foi ele. E, com Ben, a última tábua da mesa.

Isso aconteceu há um ano. Algumas vezes, penso em aceitar um pensionista. Não um bagunceiro qualquer, mas um jovem educado que precise de um bom lar. Tudo está tão quieto...

Outra noite, disse a Sam:

— A mesa está tão pequena, outra vez. Você e eu estamos praticamente grudados. Pode ver todas as minhas rugas.

Sam riu, depois estendeu a mão e, quando apertou a minha, respondeu-me:

— Minha vista também diminuiu na mesma proporção. Você me parece tão bonita como sempre. Acho que é a moça mais bela que conheço.

Mas, mesmo assim...


 

O BRILHO DO AMOR

Autor Desconbecido

Histórias Para os Corações Românticos 38

 

 

Os passageiros do ônibus observaram com simpatia enquanto a jovem atraente, com a bengala branca, subia cuidadosamente os degraus. Ela ... pagou ao motorista e, usando as mãos para sentir onde estavam os bancos, andou pelo corredor e encontrou o assento que ele lhe indicara, o qual estava vago. A seguir, sentou-se, colocou a pasta no colo e encostou a bengala na perna.

Há um ano, Susan, trinta e quatro anos, ficara cega. Devido a um erro médico, ela perdera a visão e, repentinamente, fora atirada em um mundo de sombras, ira, frustração e autocomiseração. Antes, Susan era uma mulher absolutamente independente e, agora, ela sentia-se condenada, por esse terrível golpe do destino, a tornar-se um fardo penoso para todos a seu redor.

- Como isso pôde acontecer comigo? - clamava ela, com o coração apertado de raiva.

Não importava quanto chorasse, reclamasse ou orasse, ela sabia a verdade cruel - sua visão não voltaria mais. Urna nuvem de depressão pendia sobre o espírito, antes otimista, de Susan. Atravessar o dia, agora, era um exercício de frustração e exaustão. E tudo que tinha para consolá-la era seu marido Mark.

Mark, oficial da força aérea, amava Susan de todo o coração. Quando ela ficou cega, ele a viu mergulhar no desespero e decidiu ajudar a esposa a ganhar a força e confiança necessárias para tornar-se outra vez independente. O passado militar de Mark o treinara bem para lidar com situações delicadas. Sabia, entretanto, que aquela seria a batalha mais difícil que teria de enfrentar.

Susan sentiu-se finalmente pronta para voltar ao trabalho. No entanto, como ir até lá? Ela costumava tomar o ônibus; agora, porém, tinha muito medo de atravessar a cidade sozinha. Mark ofereceu-se para. levá-la ao emprego todos os dias, embora trabalhassem em lados opostos da cidade. No início, isso confortou Susan e satisfez a necessidade de Mark de proteger a esposa cega, que se sentia muito insegura, até mesmo para desempenhar a menor tarefa. No entanto, em pouco tempo, Mark percebeu que o arranjo não estava funcionando — era caótico e dispendioso. Susan teria, novamente, de pegar o ônibus, admitiu ele para si mesmo. Só a ideia de mencionar isso a ela, já fazia com que ele se encolhesse. Susan continuava tão frágil, tão irada! Como reagiria?

Como Mark previra, Susan ficou apavorada ao pensar em entrar novamente em um ônibus.

— Sou cega! — respondeu amargamente. — Como vou saber onde estou? Sinto que você está me abandonando. O coração de Mark confrangeu-se ao ouvir essas palavras, mas ele sabia o que tinha de ser feito. Prometeu a Susan que toda manhã e tarde a acompanharia ao ônibus, pelo tempo que fosse necessário até que ela se sentisse segura. E foi exatamente isso o que aconteceu.

Durante duas semanas inteiras, Mark, com seu uniforme militar, acompanhou Susan na ida e na volta do trabalho, todos os dias. Ele ensinou a esposa a confiar em seus outros sentidos, especificamente a audição, a fim de determinar onde se achava e como adaptar-se a seu novo ambiente. Fazer ,amizade com o motorista do ônibus, ajudou-a, pois ele poderia ficar a sua espera e reservar-lhe um lugar. Isso fez com que ela risse, mesmo naqueles dias não tão bons, em que tropeçava ao sair do ônibus ou deixava cair a pasta.

Eles iam juntos pela manhã, e, após deixá-la, Mark tomava um táxi para seu escritório. Embora essa rotina fosse ainda mais cansativa do que a anterior, Mark sabia que era apenas uma questão de tempo até que Susan pudesse viajar sozinha de ônibus. Confiava nela, na Susan que conhecera antes de perder a visão, que não temia desafio algum e que nunca desistia.

Por fim, Susan decidiu que estava preparada para tentar sair sozinha. Chegou a manhã de segunda-feira e, antes de ir embora, abraçou Mark, seu companheiro temporário de viagem, seu marido e melhor amigo.

Os olhos de Susan encheram-se de lágrimas de gratidão pela lealdade, paciência e amor dele. Depois, despediu-se e, pela primeira vez, seguiram caminhos separados. Segunda, terça, quarta, quinta-feira... Cada dia foi perfeito, e Susan nunca se sentira melhor. Conseguira! Estava indo para o trabalho por conta própria!

Na manhã de sexta-feira, Susan tomou o ônibus para o trabalho como de costume. Quando estava pagando a passagem para sair do ônibus, o motorista disse: — Nossa! Como invejo você!

Susan não tinha certeza se ele estava falando com ela, ou não. Afinal de contas, quem invejaria uma mulher cega que se esforçara tanto para encontrar coragem para sobreviver neste ano que passara? Curiosa, perguntou ao motorista:

— Por que está. dizendo que me inveja?

O homem respondeu:

— Deve ser tão bom ser cuidada e protegida como você. Susan não tinha idéia do que ele estava falando e, outra vez, perguntou:

— O que você quer dizer? O motorista respondeu:

— Todas as manhãs, a semana inteira, um cavalheiro distinto, com uniforme militar, fica na esquina, observando você quando desce do ônibus. Ele verifica se atravessa direito a rua e vigia até que entre no prédio de seu escritório. Depois sopra um beijo, faz uma saudação e vai embora. Você é mesmo uma mulher de sorte.

Lágrimas de felicidade correram pelas faces de Susan, pois, embora, não pudesse vê-lo, ela sempre sentira a presença de Mark. Era afortunada, muito afortunada. Ele dera-lhe um presente mais poderoso do que a visão, um dom que não necessitava ver para crer — o dom do amor, que ilumina onde antes só havia escuridão.


 

O SEGREDO DA AVÓ

Autor Desconhecido

Histórias Para os Corações Românticos 43

 

 

Até o casal mais dedicado passa, às vezes, por tempestades. Uma avó, ao celebrar suas bodas de ouro, contou, certa vez, o segredo de seu longo e feliz casamento:

— No dia em que casei, decidi fazer urna lista de dez defeitos de meu marido, os quais, pelo bem de nosso casamento, eu esqueceria. Nunca cheguei a fazer a lista. Mas, toda vez que meu marido fazia algo que eu não gostava, dizia a mim mesma: Sorte dele, esse é um dos dez.


 

LEVI E O DIA DOS NAMORADOS

J. Stephen Land

Histórias Para os Corações Românticos 46

 

 

Quando Levi Carpenter, à véspera do ano novo, em 1919, pediu Letitia (Letty) McCluskey em casamento, disse:

— Escolha um dia especial [para nosso enlace], para que me lembre dele sempre.

Ela escolheu 14 de fevereiro.

Naquele ano, de 1920, caiu trinta centímetros de neve em Fayetteville, Tennessee, no Dia dos Namorados. Letty disse para Levi:

— Vamos adiar o casamento por uma semana, para que todos os convidados possam vir.

Levi não concordou. Estava convencido de que o Dia dos Namorados era a data certa, com neve ou não. O casamento, ao qual só estavam presentes cinco pessoas, foi transferido apressadamente da igreja para o salão da casa ministerial.

O arranjo de flores, os refrescos e os trajes formais, devido ao fato de as estradas estarem intransitáveis, não chegaram e, portanto, foram deixados de lado. Todavia, como em um passe de mágica, Levi chegou com um buquê de rosas cor-de-rosa para a noiva. Quando indagado a respeito de onde conseguira as flores, respondeu que "tinha bons contatos". Mais de quarenta anos depois, contou-me (a mim, seu bisneto) que a mulher do ministro as apanhara em sua estufa de plantas.

Na ocasião em que cheguei ao mundo, Levi e sua esposa do Dia dos Namorados tinham mais de sessenta anos. Como eu não morava muito distante deles, via-os quase todo fim de semana. Eu sabia, portanto, que logo após o Dia dos Namorados, sem falta, um enorme buquê de rosas cor-de-rosa estaria sobre a mesa de mogno no vestíbulo. E isso não era tudo. Levi, perto do vaso, deixava, também, sua tentativa anual de artesanato: um grande floco de neve feito, com esmero, de papel cortado. Junto dele havia um bilhete: "para Letty, minha namorada nesses quarenta e quatro anos". As palavras não mudavam ano após ano, apenas o número de anos. Todavia, o desenho dos flocos de neve era sempre diferente.

Aos nove anos, descobri uma gaveta no armário de louças onde cada floco de neve de aniversário fora guardado, com amor e carinho, começando com o primeiro em que se lia: "para Letty, minha namorada de um ano inteiro". Levy, carpinteiro, considerado taciturno e nada emotivo, mostrava, uma vez por ano, seu coração para todos.

Certo dia, Levi fez-me sentar e, pacientemente, ensinou-me como dobrar e cortar os flocos de neve de papel. No entanto, após pouco tempo, minhas tentativas mostraram-se mais frustrantes do que artísticas. Meus esforços resultaram em coisas que mais pareciam ninhos de rato do que flocos de neve. Tive, até mesmo, dúvidas se meu bisavô queria realmente que eu aprendesse o segredo.

Ele parecia gostar de ser o único na família com pendor artístico. Sabia que Claude, seu irmão rico, havia levado a mulher ao Caribe, em uma excursão, no Dia dos Namorados e dera-lhe um colar de pérolas, a caminho de lá. Claude, entretanto, só podia comprar presentes. Levi sabia fazer flocos de neve, e cada um era uma lembrança de seu dia de núpcias e da moça com quem se casara.

No dia 14 de fevereiro, ninguém chegou a dizer-me: "Este é um grande dia para seus bisavós". Mas eu sabia que era. Só me lembro de tê-los visto beijar-se no Dia dos Namorados, quando meus pais e eu chegávamos, bem no momento em que Levi dava à esposa o floco de neve e as rosas.

Quando ela percebia que estávamos olhando, seu rosto ficava vermelho enquanto saía correndo da sala, dizendo: "Levi, seu atrevido!". Mas não convencia ninguém.

Alguns anos depois, Levi deu a Letty um floco de neve em que escrevera: "para Letty, minha namorada nestes 56 anos". Ninguém teve certeza se Letty vira esse último. Estava viva e consciente, mas sob tanta medicação que só pôde acenar com a cabeça, quando Levi levantou o floco de neve para mostrá-lo. Ele o colocou na mesa, ao lado da cama no hospital, junto ao vaso de rosas cor-de-rosa.

Levi tomou meu braço — fato raro — quando deixamos o quarto. Depois de dar alguns passos pelo corredor, ele disse: "Garoto, vá buscar aquele floco de neve. As enfermeiras ou faxineiras são bem capazes de jogá-lo junto com o lixo".

Recuperei o floco de neve, sabendo que Levi pretendia levá-lo para casa, colocá-lo no armário de louças, com os outros. Se Letty voltasse para casa, ele o mostraria a ela.

No Dia dos Namorados seguinte, Levi e eu fomos ao cemitério levando um buquê de rosas cor-de-rosa. A neve caía levemente, e ele removeu o manto branco que estava sobre as duas lápides. Colocou as rosas no vaso do túmulo e, depois, hesitou, voltando a repô-las no vaso de vidro em que as levara.. Ele disse:

— Isso é tolice, garoto. Não adianta deixar essas flores neste lugar, onde ninguém as verá.

Deu um suspiro fundo e falou:

— Ela as verá, onde quer que estejam. Vamos voltar em abril. Estou pensando em plantar uma roseira aqui, se a igreja não se importar.

— Rosas cor-de-rosa? — perguntei.

— Claro, o cor-de-rosa é uma cor bonita. Olhe, pegue estas flores e as coloque de novo no carro. — disse ele.

Peguei o vaso, tentando não olhar para seu rosto, sabendo que tentava reprimir uma lágrima e que seria ainda mais difícil, se ele soubesse, que estava observando. Sentei-me no carro, segurando o vaso de rosas. Depois, vi Levi tirar alguma coisa do bolso do casaco e colocá-la dentro do vaso de pedra. Parecia um pedaço de papel, mas eu não tinha certeza.

A neve começara a cair mais forte, e Levi voltou arrastando os pés.

— Acho, que desta vez, cairá uma nevasca bem grande. Vamos embora. — disse ele.

Eu sabia, que a única coisa, que ele não diria era exatamente aquilo que estava em sua mente. A nevasca, com certeza, o lembraria daquele dia, há cinquenta e sete anos. Aos quinze anos, eu ainda não havia experimentado um coração partido; mas sentado junto a meu bisavô, estava suficientemente perto para sentir o dele.

No ano seguinte, tirei carteira de motorista. Era a primeira vez em que ia ao cemitério da família sozinho. Não havia neve naquele Dia dos Namorados, apenas um frio cinzento, pesado.

A roseira que Levi e eu havíamos plantado, florescera com exuberância durante o verão. No entanto, parecia triste naquele dia, assim como o resto do cemitério. A data da morte de Levi fora gravada em sua lápide, quatro meses antes.

No Natal, meus pais colocaram algumas flores de seda no túmulo, e elas ainda estavam lá. E pensei, que estavam fora da estação agora.

Enquanto removia-as do vaso de pedra, algo chamou minha atenção. Quase invisível entre os seixos no fundo do vaso, vi uma pontinha de papel branco. De alguma forma, depois de um ano de neve, chuva e vento, o último floco de neve de Levi continuava intacto.

Apanhei-o, pensando em colocá-lo com os outros pertences de meus bisavós, no porão da casa de meus pais.

Mas o papel não era uma lembrança para mim. Era o presente de aniversário de Levi. Precisava ficar exatamente onde se encontrava.


 

ESPÍRITO ALEGRE

Autor desconhecido

Histórias Para os Corações Românticos 52

 

 

Como vão os negócios, Eben? — perguntou Martha.

O velho estava lavando-se no tanque, depois de um dia de trabalho. E responde:

— Tudo bem, Martha, tudo bem.

— A loja está parecendo a mesma? Nossa! Como eu gostaria de estar lá outra vez, ainda mais com o sol brilhando tanto! Como estão as coisas, Eben? insistiu Martha.

— A loja nunca mais foi a mesma depois que você saiu, Martha.

Um leve rubor subiu ao rosto de Martha. Algum dia, a mulher fica velha demais para comover-se com os elogios do marido?

Por muitos anos, Eben e Martha cuidaram de sua lojinha de aviamentos, mas um dia Martha ficou doente e foi levada ao hospital. Passaram-se meses. Agora, ela estava de volta a sua casa, mas suas forças nunca mais voltariam — nunca mais poderia ser a feliz parceira na lojinha deles.

"Queria tanto ver de novo a loja" — pensou Martha, certa tarde. "Se tiver bastante cuidado, acho que posso ir até lá. Não é tão longe assim."

Levou muito tempo até que ela conseguisse ir até o centro, mas finalmente chegou à ruazinha em que se situava a loja. De repente, parou. Não muito longe, na calçada, viu Eben. Uma espécie de tabuleiro pendia de seu pescoço. O tabuleiro tinha algumas embalagens de botões de colarinho, de alfinetes e vários pacotes de cordões de sapato. Ele apregoava sua mercadoria em voz trêmula.

Martha apoiou-se na parede de um prédio, ali perto. Olhou para a lojinha. Suas janelas estavam cheias de frutas. A seguir, compreendeu o que acontecera. À loja fora vendida para pagar as despesas com o hospital. Voltou-se e foi embora tão depressa quanto suas pernas fracas permitiam.

“Ele ficaria tão magoado se eu descobrisse!” — pensou e lágrimas começaram a correr por suas faces. Pensou: “Ele manteve isso em segredo e, agora, esconderei isso dele. Nunca saberá que eu sei”.

Naquela noite, quando Eben voltou, cansado e com frio, Martha repetiu a pergunta diária

— Como vão os negócios, Eben?

-  Melhores do que nunca, Martha, — foi a resposta animada, e Martha orou para que Deus o abençoasse pelo seu espírito alegre e seu amor por ela.


 

PERSEVERANÇA

Frank L. Stanion

Histórias Para os Corações Românticos 55

 

 

Quando o mundo adoece, é tão bom saber

Que você é fiel e ainda me ama.

Sentir, quando o sol desaparece no céu,

Que a luz continua brilhando em seus olhos amados.

Olhos lindos, que me são mais caros

Do que toda a riqueza do mundo.

E mais precioso, é sentir você junto de mim,

Quando a vida e seus sofrimentos parecem difíceis de suportar.

Sentir, quando tropeço, o aperto sublime,

De sua mão terna e confiante na minha.

Tão bela mão, mais querida

Do que qualquer coisa na terra.

Algumas vezes, querida, o mundo segue o caminho errado,

Pois Deus dá tristeza junto com seu dom de alegria.

Pobreza também, mas seu amor é para mim,

Mais importante do que as riquezas e o ouro.

Amor maravilhoso, até que a morte nos separe,

Ele é meu — como você é — minha doce namorada!

 


 

BEN E VIRGÍNIA

Gwyn Williams

Histórias Para os Corações Românticos 56

 

 

Em 1904, um acampamento da estrada de ferro para engenheiros foi montado perto de Knoxville, Tennessee. O acampamento da L & N tinha tendas para os homens, fogueira para aquecê-los, um bom cozinheiro e o mais moderno equipamento de levantamento topográfico disponível. Na verdade, trabalhar como engenheiro civil recém-formado para a estrada de ferro, na virada do século, só apresentava urna desvantagem: falta de mulheres jovens.

Benjamin Murrell era um desses engenheiros. Ben, homem alto, reticente, com senso de humor calmo e grande sensibilidade em relação às pessoas, gostava da vida nômade da estrada de ferro. Sua mãe morrera quando tinha apenas treze anos, e essa perda precoce fez com que se tornasse um homem solitário.

Ben, como todos os outros homens, algumas vezes, ansiava por uma companhia feminina, mas guardava esses pensamentos para si mesmo e Deus. Em um dia de primavera, particularmente memorável, uma notícia maravilhosa espalhou-se pelo acampamento. A cunhada do chefe faria uma visita! Os homens só sabiam três coisas a seu respeito: tinha dezenove anos, era solteira e bonita. No meio da tarde daquele dia, eles não conseguiam falar de outra coisa. Os pais a estavam enviando para fugir da febre amarela que grassava nos estados sulinos, e, dentro de três dias, a jovem chegaria. Alguém achou uma foto dela, que foi passada em volta com grande seriedade e grunhidos de aprovação.

Ben observou a preocupação dos amigos com um sorrisinho malicioso. Caçoou da bobice deles por causa de urna garota que nem sequer conheciam.

— Olhe para ela, Ben. Dê só uma olhada e diga que não está interessado — retorquiu um dos homens.

Entretanto, Ben sacudiu a cabeça e foi embora rindo.

Nos dois dias seguintes, os homens acharam difícil concentrar-se. O trem chegaria na manhã de sábado, e eles discutiram seus planos detalhadamente. Os vinte homens tomaram banho, alisaram o cabelo com brilhantina e prepararam-se para estar todos lá, para receber o trem, e dar à jovem um acolhimento do qual não se esqueceria tão cedo. De acordo com o plano deles, ela olharia para o grupo, escolheria o mais bonito deles e teria um namorado instantâneo. Que o melhor homem vencesse. E cada um deles estava determinado a ser esse homem.

Os colegas estavam preocupados demais para observar o rosto de Ben, quando, pela primeira vez, viu a foto de Virgínia Grace. Não notaram como ele aninhara o retrato nas mãos como se fosse um tesouro perdido, ou quando o contemplara por longo tempo. Não perceberam a expressão em sua face ao olhar primeiro para as feições delicadas e, depois, para o acampamento cheio de homens, percebendo subitamente que eram seus rivais. Não viram Ben entrar em sua tenda, pegar uma mochila e deixar o acampamento enquanto o sol avermelhado se escondia atrás de urna montanha distante.

Bem cedo na manhã seguinte, os homens do acampamento da estrada de ferro L & N estavam reunidos na estação ferroviária. A família de Virgínia, que fora esperá-la, revirou os olhos e esforçou-se para não rir, mas sem sucesso.

Os rostos estavam vermelhos, devido à falta de costume de barbear-se, e a combinação de seus perfumes baratos era quase insuportável. Vários tinham até parado para colher buquês de flores silvestres pelo caminho.

Por fim, o apito do trem foi ouvido, e a composição ansiosamente esperada parou na estação. Quando a pequena e vivaz queridinha do acampamento desceu à plataforma, um suspiro coletivo escapou de seus prováveis pretendentes.

Ela era ainda mais bonita do que na fotografia.

A seguir, o coração de cada homem afundou-se em desespero. Pois, à frente deles, segurando o braço de Virgínia, com ares de proprietário e rindo de orelha a orelha, estava Benjamin Murrell. Pela maneira como ela inclinou a cabeça e sorriu para ele, os outros souberam que seus esforços tinham sido em vão.

— Como você fez isso? — perguntaram, mais tarde, os amigos para Ben.

— Olhe, — disse ele, — eu sabia que não tinha chance com todos vocês malandros em volta. Teria de chegar até ela primeiro, caso quisesse ser notado, por isso, andei até a estação seguinte e peguei o trem. Apresentei-me como membro do comitê de recepção de seu novo lar.

— Mas a estação seguinte fica a trinta e quatro quilômetros! — alguém exclamou incrédulo. — Você andou trinta e quatro quilômetros para pegar o trem dela? Essa caminhada levaria a noite inteira!

— Levou mesmo, — afirmou Ben.

Benjamin Murrell namorou Virgínia Grace e, depois, eles casaram-se. Tiveram cinco filhos e enterraram um, que morreu aos doze anos. Não acho que tentaram construir o tipo de romance "felizes para sempre", que algumas revistas femininas afirmam ser tão importante. Não estabeleceram também ter um encontro permanente às sextas-feiras. Na verdade, Ben ficava tantas vezes longe de casa, devido a seu trabalho de engenharia, que um de seus filhos tinha um mês de idade quando ele o viu pela primeira vez. Ben não levava Virgínia a restaurantes caros, e o presente mais romântico que lhe deu foi um, ocasional, vidro de azeitonas. Se Virgínia alguma vez comprou uma camisola sedutora e correu pela casa para que ele a alcançasse, esse segredo permanece enterrado com ela até hoje.

O que sei é que eles trabalharam juntos em seu relacionamento, sendo fiéis, tratando um ao outro com consideração e respeito, tendo senso de humor, criando os filhos no conhecimento do amor do Senhor e amando-se, mesmo que, algumas vezes, em circunstâncias bem difíceis.

Sou um dos bisnetos de Ben e Virgínia. Ele infelizmente morreu quando eu era criança, portanto, não me lembro dele. Na (apelido de Virgínia) morreu quando eu tinha quase doze anos, e ela, oitenta e cinco anos. Quando a conheci, era uma mulher bem idosa que precisava de ajuda para locomover-se com um andador e tinha as costas curvadas pela osteoporose. Suas juntas doloridas estavam inchadas pela artrite e sua visão prejudicada por um início de glaucoma.

Contudo, às vezes, aqueles olhos embaçados brilhavam e dançavam com a vivacidade da jovem, que meu bisavô conhecera. Eles dançavam, em especial, quando ela contava sua história favorita. A história de ter sido tão bela que, certa vez, após ver uma fotografia sua, um acampamento inteiro fora esperar o trem para disputar sua atenção. À história de como um homem andara trinta e quatro quilômetros, a noite inteira, para encontrar a mulher de seus sonhos e declarar-se a ela.


 

ROMANCE A LONGO PRAZO

Ruth Bell Graham

Histórias Para os Corações Românticos 62

 

 

Minha mãe tivera um derrame há vários anos, além de ficar confinada a uma cadeira de rodas, a fala também fora afetada. Meu pai levantava frequentemente às quatro da manhã para fazer seu estudo bíblico e período de oração, dedicando, depois, o resto do dia a minha mãe.

Eu ficava à disposição para ajudar no que fosse possível, levando, muitas vezes, o jantar para eles e trazendo mamãe para ficar comigo quando meu pai tinha de afastar-se por vários dias.

Certa manhã quando fui até lá para ver corno estavam, encontrei papai de joelhos na frente de mamãe, ajudando-a a calçar as meias.

Meu pai, ultimamente, tinha dificuldade para levantar e abaixar. Ele, que fora atleta em sua juventude e sempre se mantivera na melhor forma física, tinha agora um dedo do pé ulcerado, o qual se recusava a sarar, em vista de ser um quase-diabético e ter perdido a circulação na perna esquerda.

Ele olhou para mim, por sobre os óculos, dando-me seu costumeiro sorriso de boas-vindas.

— Sabe — disse, voltando a ajudar mamãe -, estes são os dias mais felizes de nossas vidas. Cuidar de sua mãe é meu maior privilégio.

O bom de tudo isso era saber que estava sendo sincero.


 

O PRESENTE DOS MAGOS

O. Henry

Histórias Para os Corações Românticos 66

 

 

Um real e oitenta e sete centavos. Isso era tudo. E mais sessenta centavos em moedas. Centavos poupados, um ou dois de cada vez, ao pechinchar com o merceeiro, o verdureiro e o açougueiro, até ficar com o rosto enrubescido devido à suposição silenciosa de avareza, implícita nessas negociações. Della contou três vezes. Um real e oitenta e sete centavos. E o Natal era no dia seguinte.

Não havia realmente nada a fazer a não ser jogar-se no sofá gasto e chorar. Foi o que Della fez. O que lhe trouxe a reflexão moral, de que a vida é feita de soluços, suspiros e sorrisos, com predominância dos suspiros.

Enquanto a dona da casa está gradualmente saindo do primeiro para o segundo estágio, observemos um pouco aquele lar. É um apartamento alugado, com mobília, por oito reais por semana. Não era exatamente um cortiço, mas com certeza a equipe de combate à mendicância teria quase certeza disso.

No vestíbulo do prédio havia uma caixa de cartas, que jamais recebia cartas, e um botão elétrico para abrir a porta, que dedo mortal algum podia ser persuadido a tocar. Ao lado do botão elétrico fora afixado também um cartão com o nome, sr. James Dillingham Young.

O "Dillingham", havia sido escrito em um antigo período de prosperidade, em que o sr. Dillingham recebia trinta reais por semana. Agora, quando a renda baixara para vinte reais por semana, as letras de "Dillingham" pareciam borradas, como se estivessem pensando seriamente em transformar-se em um modesto e despretensioso "D". Contudo, sempre que o sr. Dillignham Young chegava em casa e entrava em seu apartamento, era chamado de Jim e recebia muitos abraços da sra. James Dillingham Young, já apresentada a você como Della. E tudo isso, na verdade, era muito bom.

Della parou de chorar, arrumou o rosto e empoou-o com o pó compacto. Ela ficou à janela, espiando apática um gato cinzento andando em cima de uma cerca cinzenta que havia em um quintal cinzento.

O dia de Natal seria no dia seguinte, e ela só tinha um real e oitenta centavos para comprar um presente para Jim. Tinha poupado o que pudera, por meses, e essa quantia fora tudo que conseguira. Vinte reais por semana não duram muito. As despesas tinham sido maiores do que calculara. Elas sempre são. Só tinha essa pequena quantia para comprar um presente para o marido. Passara horas planejando algo apropriado para ele. Algo fino e raro — algo, pelo menos, digno da honra de ser propriedade de Jim.

Havia um tremó entre as janelas da sala. Você talvez já tenha visto um tremó em um apartamento desse tipo. Urna pessoa bem magra e ágil pode, observar seu reflexo em uma rápida sequência de tiras longitudinais, ter uma ideia bem acurada de sua aparência. Della, por ser esbelta, havia dominado a arte.

Ela saiu de repente da janela e ficou diante do espelho. Seus olhos brilhavam, mas sua face perdera a cor em vinte segundos. Soltou rapidamente o cabelo, deixando-o cair em todo seu comprimento.

Os James Dillingham Young tinham dois bens dos quais muito se orgulhavam. Um deles era o relógio de ouro de Jim, herança de seu pai e de seu avô. O outro era o cabelo de Della. Se a rainha de Sabá morasse no apartamento do outro lado do poço de ventilação, Della deixaria algum dia o cabelo pendurado à janela para secar, só para diminuir o brilho das joias e dos presentes de Sua Majestade. Se o rei Salomão fosse o zelador, com todos seus tesouros empilhados no porão, Jim tiraria o relógio cada vez que passasse, só para vê-lo arrancar a barba de inveja.

O lindo cabelo de Della caía ao seu redor, ondulado e brilhante como uma cascata de águas castanhas. Chegava abaixo dos joelhos e quase servia de vestido para ela. Logo prendeu-o outra vez, nervosa e rapidamente. Hesitou por um momento e ficou ali parada, enquanto uma lágrima ou duas caíam no tapete usado.

Vestiu a velha jaqueta marrom e pôs um velho chapéu. Ela, com um flutuar de saias e os olhos ainda cintilando, voou pela porta e desceu as escadas até a rua.

Ela deteve-se defronte uma porta com um tabuleta, em que estava escrito: Madame Sofronie, Produtos de Todo Tipo para Cabelos. Della subiu correndo as escadas e parou ofegante, procurando acalmar-se. A mulher, corpulenta, branca demais e fria, mal parecia a "Madame Sofronie" do anúncio. — Quer comprar meu cabelo? — perguntou Della.

— Eu compro cabelos — disse a mulher. — Tire o chapéu e vamos ver a aparência deles.

A cascata castanha, ao ser solta, ondulou-se.

— Vinte reais — disse a mulher, levantando a massa pesada com mão prática.

— Corte-os depressa e dê-me o dinheiro — pediu Della.

Oh, as duas horas seguintes voaram em asas cores-de-rosa. Não preste atenção à. metáfora reavivada. Ela estava desmontando todas as lojas para comprar o presente de Jim.

Por fim, encontrou o presente ideal. Fora certamente feito para ele, e ninguém mais. Não havia nada assim em qualquer das lojas e ela as havia revirado de alto a baixo. Era uma corrente curta de platina, com desenho simples e distinto, na qual percebia-se o valor só pelo material, e não pelos ornamentos exagerados — como todas as coisas boas devem ser. Era digna até do Relógio. No momento em que a viu, ela soube que devia ser do marido. Era a cara dele. Discrição e valor, a descrição aplicava-se ao marido e à corrente. O presente custou vinte e um reais, e ela voltou depressa para casa com os oitenta e sete centavos restantes. Com essa corrente em seu relógio, ele poderia olhar, sem embaraço, a hora em qualquer lugar. Jim, por mais fino e bonito que fosse o relógio, algumas vezes, olhava furtivamente as horas, pois usava uma velha tira de couro no relógio, em vez de corrente.

Quando Della chegou em casa, sua animação deu lugar à prudência e à razão. Pegou o ferro de enrolar cabelo e, ligando o gás, começou a trabalhar para amenizar a devastação causada por sua generosidade, acrescida de seu amor por Jim. E essa é sempre uma tarefa difícil — caros amigos — uma tarefa monumental.

Em quarenta minutos, sua cabeça estava coberta de cachinhos curtos, que a faziam parecer maravilhosamente com urna colegial cabulando aula. Ela olhou para seu reflexo no espelho por longo tempo, cuidadosamente e com olhos críticos.

— Se o Jim não me matar, — disse a si mesma, — antes de olhar-me pela segunda vez, dirá que pareço urna corista de Coney Island. Mas, o que me restava fazer? Oh, o que podia comprar com um real e oitenta e sete centavos?

Às sete horas, o café estava pronto, e a frigideira sobre o fogão preparada para cozinhar as costeletas.

Jim era. pontual. Della pôs a corrente na mão dobrada e sentou-se no canto da mesa, perto da porta pela qual ele sempre entrava. A seguir, ouviu seus passos na escada do primeiro andar e empalideceu por um momento. Ela tinha o hábito de fazer orações curtas para as coisas simples do dia e, portanto, nesse momento sussurrou: "Por favor, Deus, faça com que ele pense que ainda sou bonita".

A porta abriu-se, Jim entrou e fechou-a. Parecia magro e muito sério. Pobre rapaz, com apenas vinte e dois anos e tinha de sustentar uma família! Precisava de um casaco novo e estava sem luvas.

Jim parou, tão imóvel quanto um cão de caça farejando uma codorna. Seus olhos estavam fixos em Della e havia neles uma expressão, que ela não conseguiu decifrar, e isso a aterrorizou. Não era ira, surpresa, reprovação, horror, nem qualquer dos sentimentos para os quais se preparara. Ele simplesmente ficou a olhá-la com aquela expressão peculiar no rosto.

Della levantou-se, foi até o marido e disse:

— Jim, querido, não olhe para mim desse jeito. Eu cortei o cabelo e o vendi porque não poderia suportar o Natal sem lhe dar um presente. Ele crescerá de novo. Você não se importa, não é? Tive de fazer isso. Meu cabelo cresce depressa. Jim, diga: 'Feliz Natal e vamos ser felizes. Você não sabe o presente lindo que comprei para você.

— Você cortou o cabelo? — perguntou Jim, com esforço, como se não conseguisse entender esse fato patente, mesmo após o choque inicial.

— Cortei e vendi — disse Della. — Você não gosta mais de mim? Eu sou eu, mesmo sem o cabelo, não é?

Jim olhou à volta da sala com ar curioso.

— Está dizendo que seu cabelo se foi? — exclamou ele, com um ar quase idiota.

— Não adianta procurá-lo — respondeu Della. — Vendi, está feito! É véspera de Natal, querido. Seja bom para mim, pois eu o vendi por você. Talvez os cabelos de minha cabeça possam ser contados — continuou ela séria, mas docemente —, porém, ninguém jamais poderia calcular meu amor por você. Jim, posso fazer as costeletas?

Jim pareceu sair rapidamente de seu transe. Ele envolveu sua Della nos braços. Por dez segundos, observemos discretamente um objeto qualquer em outra direção. Oito reais por semana ou um milhão de reais por mês — qual a diferença? Um matemático ou um sábio dariam a resposta errada. Os magos levaram presentes valiosos, mas este presente não estava entre eles. Esta afirmativa obscura será esclarecida mais tarde.

Jim tirou um pacote do bolso e o colocou sobre a mesa.

- Não se engane a meu respeito, Della - disse ele. - Não acho que haja nada em um corte de cabelo, ou em um xampu, que possa fazer com que eu goste menos de minha garota. Mas se abrir esse pacote verá porque, há pouco, saí um tanto dos eixos.

Della, com dedos brancos e ágeis lutou com a fita e o papel. A seguir, ela deu um grito de alegria exuberante e, depois, houve uma rápida mudança, tipicamente feminina, para lágrimas histéricas e lamentos, sendo necessário que Jim usasse, de imediato, todos seus poderes para consolá-la.

Ali estavam "os pentes". O jogo de pentes, para ser usado nos lados e atrás dos cabelos. Della o havia cobiçado, por muito tempo, em uma vitrine da Broadway. Pentes lindos, de tartaruga, com pedras preciosas nas beiradas. Ela sabia que eram pentes muito caros, e seu coração havia ansiado por eles sem a menor esperança de possuí-los. Ela, agora, os tinha, mas as tranças que seriam adornadas com os cobiçados pentes tinham desaparecido.

Ela os apertou contra o peito e, por fim, conseguiu levantar os olhos marejados e sorrir, dizendo:

- Meu cabelo cresce tão depressa, Jim! - disse Della, como um gatinho chamuscado e, a seguir, pulou e gritou, - Oh, oh!

Jim não tinha visto ainda seu lindo presente. A esposa mostrou-lhe, cheia de contentamento, a corrente que estava na palma da mão aberta. O metal precioso parecia cintilar, como um reflexo de seu espírito luminoso e ardente. E Della disse: - Não é maravilhosa, Jim? Procurei em toda a cidade para achá-la. Você, agora, terá de olhar as horas cem vezes por dia. Dê-me seu relógio, quero ver como ela fica nele.

Jim, em vez de obedecer, caiu sentado no sofá, pondo as mãos atrás da cabeça e sorrindo.

— Della — disse ele —, vamos guardar nossos presentes de Natal por algum tempo. São bonitos demais para usá-los no momento. Vendi o relógio para comprar seus pentes. E acho que, agora, você deve pôr as costeletas no fogo.

Os magos, como você sabe, eram homens sábios, muito sábios, que levaram presentes para o Menino na manjedoura. Eles inventaram a arte de dar presentes no Natal.

Como eram sábios, seus presentes foram, sem dúvida, sábios também, possivelmente com o privilégio de ser trocados em caso de duplicação.

 

Contei, aqui, de modo falho, a crônica rotineira de duas crianças insensatas em um apartamento, em que sacrificaram, um pelo outro, os maiores tesouros de sua casa. Contudo, gostaria de dizer para os sábios de hoje, em poucas palavras, que de todos os que deram presentes, Della e Jim foram os mais sábios. Os que dão e recebem presentes como os deles, são sábios. Eles, em qualquer lugar, são os mais sábios. São os magos.


 

AMOR NO TITANIC

Jim Priest

Histórias Para os Corações Românticos 75

 

Enquanto passeavam pelo convés do luxuoso transatlântico, eles eram a verdadeira imagem do romance.

Andavam de braços dados, com as cabeças juntas, compartilhando histórias, segredos e sorrisos.

Pelo que as pessoas podiam ver, o casal estava muito apaixonado. Debaixo da superfície, onde ninguém podia ver, havia, porém, algo mais. Algo que os olhos não podiam contemplar, os ouvidos não podiam ouvir e as mentes não podiam compreender.

Abaixo da superfície havia um compromisso profundo e permanente que os unia com mais força e mais estreitamente do que as águas que sustentavam o navio em que se achavam, construído para não afundar.

Seus nomes? Isidor e Ida Strauss.

Havendo imigrado para a América, eles tinham começado do zero, poupando ao máximo, abrindo caminho naquele novo mundo e tornando seu nome conhecido.

Com suor e lágrimas, conseguiram construir uma pequena loja de mercadorias na cidade de Nova York, à qual deram o nome de Macy's'. Enquanto passeavam pelo Titanic, naquele dia de abril em 1912, gozavam as férias muito merecidas. Gostavam da companhia um do outro.

Sem que soubessem, aquele seria o último dia de sua vida juntos.

A 14 de abril de 1912, tarde da noite, o Titanic — o navio feito para não afundar, cruzando o Atlântico em sua viagem inaugural — bateu em um iceberg e começou a soçobrar. Os icebergs, como se sabe, só mostram uma porção de seu todo, a maior parte de sua massa imponderável fica abaixo da

superfície do oceano.

Dentro da água, onde nenhum olho podia ver, nenhum ouvido podia ouvir, mente alguma podia calcular sua profundidade e tamanho. À medida que o navio começou a inclinar-se e a encher-se água, a vida dos que estavam a

bordo sofreu uma transformação.

Alguns correram em busca de segurança. Outros, valentemente, prestaram auxílio a quem precisava de ajuda.

Isidor e Ida Strauss andaram calmamente pelo convés, avaliando a situação antes de, finalmente, aproximar-se de um bote salva-vidas. A sra. Strauss começou a subir no barco, mas mudou de ideia no último minuto.

Ela voltou-se para o marido e disse:

— Vivemos juntos há muitos anos. Onde você for, eu vou.

Os membros da tripulação ouviram suas palavras e tentaram, sem sucesso, fazê-la reconsiderar. Não quis ouvi-los.

Um tripulante voltou-se para o velho sr. Strauss e disse:

— Tenho certeza de que ninguém se oporia a que um senhor de sua idade entrasse no barco.

Ele mostrou-se, porém, tão teimoso quanto a esposa.

— Não vou antes dos outros homens.

Depois disso, a questão foi encerrada. Um não iria sem o outro e, portanto, nenhum deles entraria no bote salva-vidas.

A sra. Strauss aproximou-se da criada, que estava a salvo no bote salva-vidas e disse-lhe:

— Leve o meu casaco de peles. Não precisarei mais dele.

O velho casal andou alguns passos, até uma cadeira no convés e sentou-se para aguardar o inevitável.

Os Strauss, da mesma forma que o iceberg, tinham mais debaixo da superfície do que poderia ser visto por um observador casual. É verdade que mostraram seu amor mútuo, mas essa era apenas a parte visível. Debaixo da superfície, havia um compromisso sólido entre eles que nada, nem mesmo a ameaça de morte, poderia abalar.

 


 

À MELHOR NORA DE NOSSA VIDA

Eugene S. Geisler

Histórias Para os Corações Românticos 79

 

 

Jo, você lembra-se, quando, pela primeira vez, chamou-me “Marido Amigo”? Foi há muitos anos, no início de nosso casamento. Não senti que fosse especialmente extraordinário ser chamado assim. Afinal de contas, o que se espera de um marido ou de uma esposa? Agora, porém, que estou velho e você continua dizendo isso, o título cresceu muito em significado para mim.

Passamos por muitas coisas juntos e sobrevivemos a todas. Esperamos que o cuidado um pelo outro continue. Nossa ternura é mais preciosa do que nunca devido a nossa maior necessidade mútua.

Após trinta e cinco anos de casamento, você escreveu: “Meu Marido Amigo”, e eu tinha vinte anos quando o conheci. Nada sei de seus primeiros anos, mas a pessoa que era aos vinte e oito anos despertou meu imediato interesse. Não houve constrangimento nem tensão e, desde o primeiro encontro, ficamos amigos. E permanecemos amigos até hoje.

Há alguns dias, discretamente, celebramos quarenta e cinco anos de casados. Foi, de fato, um dos melhores aniversários, não foi? Você, no dia seguinte, chamou-me para o lado, embora não houvesse ninguém à volta que pudesse ver-nos ou ouvir-nos. Confidenciou-me, a seguir:

— Desde que casamo-nos e, depois, quando você foi para o exterior, e em todos esses outros anos, eu sempre quis comprar uma aliança de ouro para você. Você a usará?

Estou aqui sentado, com minha aliança de ouro brilhando para mim. Está comigo há menos de quarenta e cinco horas, mas tem o tamanho certo e parece que a possuo já há quarenta e cinco anos. E, na outra vez em que deixei um bilhete para você, no balcão da cozinha, deliciei-me ao assinar:

“Marido Amigo, com aliança”.

Estou dizendo banalidades? Ou talvez não seja necessário falar nada? Marido e esposa amigos durante quarenta e cinco anos devem saber o que o outro está pensando. Sentar-se, ao final de um período tão longo de tempo, juntos e em silêncio, torna-se uma espécie de virtude, um som agradável, uma linguagem de presença. Você diria que, às vezes, ficamos inclinados a chamá-la de “a hora mais feliz de nossa vida”?

Nossos filhos, há cinco anos, resolveram reformar a sala de estar transformando-a em um aposento só para nós dois. Fomos apanhados de surpresa e ficamos inseguros em relação à oferta.

Você sabe que os que estão envelhecendo não gostam de mudanças. Mas, era um presente de Natal, amorosamente ofertado por nossos filhos.

A sala era comprida, um tanto estreita, dando para o sul, e, na frente, tinha uma grande janela panorâmica. Do lado estreito, à leste, fica a biblioteca. Você tem ali a bergère que sempre desejou e passa muito tempo lendo, sentada nela.

A leitura é seu passatempo, grande parte de seu entretenimento, sua terapia e seu refúgio.

Minha bergère, combinando com a sua, fica do outro lado da sala, no canto, perto do fogão. Ela é minha base de operações. Um sofá contra a parede, do lado oposto à janela, permite-nos receber, às vezes, visitas agradáveis.

Ficamos aqui, um de frente para o outro, em lados opostos da sala — você, a maior parte do tempo, na biblioteca, e eu, que sou o tipo de pessoa que levanta e senta, entra e sai, fico somente a metade do tempo no meu canto.

Entre nós dois, entretanto, muito acontece aqui. Oramos juntos e normalmente tomamos o desjejum e almoçamos neste espaço. Interrompemos um ao outro com coisas a contar, sugestões a oferecer, pensamentos a compartilhar, piadas para rir e até discussões que começam e se interrompem.

Temos consciência de nossa necessidade mútua, nosso carinho um pelo outro, nossas promessas de cuidar um do outro, tarefa reserva para aquele de nós que tiver condição para isso quando a hora chegar Pedimos ao Senhor, algumas vezes, para que pudéssemos morrer em datas próximas. Agradecemos todos os dias a Deus por estarmos juntos.

Entre as pessoas pelas quais mais oramos, agora, estão os “idosos e os enfermos” e, outro dia, tivemos de acrescentar a nossa oração: “Entre os quais encontramo-nos hoje”. Nenhum de nós, na verdade, está assim tão velho ou tão enfermo para que tenhamos de falar muito sobre esse assunto. Sabemos, porém, que a hora está chegando — o fim das coisas que amamos juntos. Ser honesto sobre o que nos aguarda não nos distrai dos momentos fugazes de paz e serenidade de espírito, a antecipação das coisas boas que

nos aguardam na presença do Senhor.


 

CORES

AUTORA ANÔNIMA

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Como eu não sabia se minha neta já havia aprendido a identificar cores, decidi fazer um teste com ela. Eu apontava uma figura e perguntava qual era a cor: Ela sempre acertava. Achei aquela brincadeira divertida e continuei. Depois de algum tempo, ela dirigiu-se para a porta e disse com ar de sabedoria:

— Vovó, acho melhor você tentar descobrir sozinha!

 


 

CAMINHADA MATINAL

Autor desconhecido

Histórias Para o Coração da Mulher 13

 

 

Seis horas. Duas mulheres usando agasalhos saem para a caminhada matinal. Enquanto caminham, elas conversam sobre pessoas importantes: maridos, filhos, colegas de trabalho. De vez em quando, urna toca no ombro da outra, para, olha para a companheira e ri. Um senhor bronzeado de cerca de 70 anos, usando chapéu de esquiar de cor alaranjada e fluorescente, passa por elas, sorri e diz:

— Vocês duas parecem estar dançando balé juntas. E é verdade. Como amigas. elas estão dançando em sincronia: ouvindo, transmitindo ânimo, lançando desafios entre si.


 

NORMAN E NORMA

Dra. Bettie B. Young

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Eu vou ajudar você — disse o garotinho, esticando-se para segurar a mãozinha de Norma entre as suas. — E nunca mais vou deixar ninguém rir de você.

Observamos, admiradas, aquela comovente cena de compaixão —muito rara, pensamos. para um menino de nossa idade.

Era o primeiro dia de aula no jardim de infância. Envergonhada demais para pedir à professora para usar o banheiro e tímida demais para usá-lo sem permissão, a pequenina Norma, de cinco anos, estava chorando, sentada em sua carteira, por ter molhado a roupa.

Não demorou muito para que todos os outros alunos a ouvissem choramingando e olhassem em sua direção. Alguns riram abertamente, porque acharam graça da situação embaraçosa em que ela se encontrava. Outros se limitaram a dar uma risadinha, sem dúvida aliviados porque o fato aconteceu com ela, não com eles. Porém, um garotinho corajoso chamado Norman não riu. Ele levantou-se, atravessou a classe, olhou para ela e disse carinhosamente:

— Eu vou ajudar você. — Estávamos todos sentados e só ele em pé, portanto sua presença tinha um porte majestoso. — E nunca mais vou deixar ninguém rir de você — ele afirmou com segurança.

Minha coleguinha ergueu a cabeça, olhou para Norman e sorriu, com ar de admiração. Aquele ato de bondade abrandou seu constrangimento; ela deixou de sentir medo e não estava mais sozinha. Encontrara um novo amiguinho.

Continuando a segurar a mão dela, o pequenino herói virou-se, olhou para os colegas e perguntou educadamente:

– E se isso tivesse acontecido com um de vocês?

A sábia professora continuou sentada diante da classe, observando em completo silêncio.

Nós, alunos e alunas, ficamos imóveis, em parte por causa da enorme tensão e ansiedade causadas pelo drama daquele momento, e também porque havíamos acabado de presenciar um ato de heroísmo que não fomos capazes de demonstrar. Aprendemos quão preciosa é a bondade.

Em seguida, o garotinho complementou:

– Nunca mais vamos rir dela, certo?

Intuitivamente, sabíamos que estávamos na presença da coragem em pessoa, e a atitude de Norman foi um exemplo para nós.

 

Nota do editor: Norma nunca se esqueceu de Norman, nem ele dela. A amizade entre ambas está completando 36 anos.

 

 

 

Não tenha pressa para escolher um amigo,

E tenha menos pressa ainda para mudar de amigo.

EN A IN RAN LIN


 

UMA CESTA DE FLORES — E DE PERDÃO

Sue Dunigan

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

— Ei, você sabia? Hoje é primavera – avisou minha irmã. – Você se lembra das cestas que costumávamos fazer com papelão e papéis coloridos?

Recordações da infância e sensações agradáveis tomaram conta de mim quando me lembrei da época em que minhas irmãs e eu percorríamos a vizinhança entregando cestas – não exatamente perfeitas – cheias de flores da primavera. Colocávamos essas preciosidades feitas à mão na frente das casas, batíamos na porta e corríamos com a maior velocidade que nossas pernas permitiam. Era delicioso ficar olhando por trás de um arbusto e ver nossos vizinhos abrindo a porta e pegando aquele presente colorido, sem saber quem o havia deixado ali.

Eu me lembro particularmente da primavera do ano em que estava na quinta série. Tive um problema que envolveu uma de minhas amigas mais queridas. Ela morava em frente à minha casa e íamos juntas para a escola quase todos os dias desde a primeira série.

Pam era um ano mais velha do que eu, e seus interesses estavam começando a diferençar dos meus. Uma nova família havia-se mudado recentemente para nossa cidadezinha, e Pam estava passando cada vez mais tempo na casa desses novos vizinhos. Eu me sentia rejeitada.

Quando minha mãe perguntou se eu ia levar uma cesta do dia da primavera à casa de Pam, respondi com raiva:

— Claro que não!

Minha mãe parou o que estava fazendo, ajoelhou-se e me abraçou, dizendo que eu não devia me preocupar, que teria muitas outras amigas ao longo da vida.

— Mas Pam sempre foi minha melhor amiga — eu choraminguei.

Minha mãe alisou-me os cabelos, enxugou minhas lágrimas e me disse que as circunstâncias mudam e que as pessoas mudam. Ela explicou que uma das melhores coisas que um amigo pode fazer pelo outro é dar-lhe a chance de crescer, de modificar-se e de transformar-se naquilo que Deus quer que ele seja. Ela também me falou que, às vezes, isso significa entender que nossos amigos têm o direito de passar tempo em companhia de outras pessoas.

Ela prosseguiu dizendo que eu precisava perdoar Pam por ela ter-me magoado — e que eu poderia demonstrar perdão oferecendo a ela uma cesta no dia da primavera.

Foi uma decisão difícil, mas resolvi oferecer uma cesta a Pam. Fiz a mais bela cesta de flores que pude com muitos enfeites amarelos, porque essa era a sua cor favorita. Pedi a minhas duas irmãs que me ajudassem a carregar a cesta de perdão. Escondidas em nosso lugar de costume, vimos Pam erguer a cesta, encostar o rosto nas flores e dizer bem alto para que pudéssemos ouvir:

— Obrigada, Susie! Pensei que você não fosse me perdoar!

Naquele dia, tomei uma decisão que mudou minha vida: resolvi abraçar bem forte minhas amigas no meu coração, mas sempre afrouxar minhas expectativas em relação a elas, de modo a dar-lhes espaço para crescer e se modificar — com ou sem mim.


 

NOVOS AMIGOS

Teri Leinbaugh

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Assim que chegamos à nossa nova casa em Kentucky, meu filho Jason, de sete anos, decidiu conhecer a vizinhança. Ele retornou depois de uma hora apregoando que havia feito novos amigos.

— Que ótimo! São garotos ou garotas? — perguntei.

— Um garoto e uma garota — ele respondeu.

— Isso é bom demais — eu disse.

— Que idade eles têm?

— Mãe — respondeu meu filho, um tanto melindrado. — Seria uma grande grosseria perguntar a idade deles.

Fiquei atônita diante daquela reação. Cerca de uma hora depois, ele voltou.

— Mãe! — meu filho gritou através da porta de tela. — Descobri a idade de meus novos amigos. A garota tem 65 anos e o garoto tem 70.

 

 

AMIGOS NUNCA ESQUECEM

Penso em minhas amigas como se elas fossem anui jangada construída com nossas próprias nulos. Estamos no meio de um imenso mar; remando lado a lado, movimentando firmemente os braços. Às vezes, faço parte da jangada, ajudando outras pessoas a encontrarem um porto seguro; às vezes, necessito entrar na jangada até que as tempestades cessem e eu possa enxergar o caminho para nadar até à praia. A jangada se afasta quando não é necessária, mas nunca desaparece de vista, nunca esquece.

BEVERLY LOWREY


 

LIÇÕES APRENDIDAS NA VARANDA

Philip Gulley

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Quando eu estava na quarta série, ofereceram-me o emprego de entregador de jornais. O salário não era grande coisa, mas eu sabia que um emprego ajudaria a desenvolver meu caráter, portanto aceitei a oferta. Ter bom caráter era importante para os alunos da quarta série. Meu aprendizado começou no primeiro dia de trabalho. Um cliente que estava pagando sua conta perguntou-me se eu queria um conselho.

— Claro — eu disse.

— Fique longe das mulheres de temperamento explosivo.

Uma de minhas clientes chamava-se Sra. Stanley. Ela era viúva e não parecia ter temperamento explosivo, portanto eu me demorava um pouco mais em sua varanda durante minhas entregas. Ela me via apontar rio início da rua e, enquanto eu pedalava ladeira acima até chegar à sua casa, já havia uma deliciosa garrafa de coca aguardando por mim. Eu me sentava e sorvia o líquido enquanto ela falava. Era assim que nos entendíamos — eu bebia o refrigerante, ela falava.

A viúva Stanley gostava de falar de seu falecido marido, Roger.

— Roger e eu fizemos compras no supermercado esta manhã — ela dizia.

A primeira vez que ouvi isso, levei um susto e a coca entrou pelo meu nariz. Aqueles eram tempos em que coca era apenas refrigerante (e não droga) e quando ela entrava pelo nariz cia gente não era crime nenhum, apenas um pouco desconfortável.

Voltei para casa e contei a meu pai que a Sra. Stanley falava do Sr. Stanley como se ele ainda estivesse vivo. Meu pai disse que talvez eia se sentisse solitária e que eu deveria limitar-me a ouvir, balançar a cabeça afirmativamente e sorrir. Talvez esse procedimento pudesse ajudar a resolver o problema dela. Foi o que eu fiz. Imaginei que essa seria a maneira de desenvolver meu caráter. Meu pai tinha razão. Depois de alguns verões, ela pareceu ter-se contentado em deixar seu marido descansar em paz no Cemitério do Sul.

Nos dias de hoje, teríamos recomendado um psiquiatra à Sra. Stanley. Mas, na época, tudo o que ela possuía era uma cadeira de balanço na varanda e os ouvidos de um entregador de jornais, o que aparentemente lhe bastava.

Desisti de meu emprego de entregador de jornais logo após ela ter abandonado aquele antigo hábito. Ingressei no lucrativo serviço de cortador de grama. Não vi a viúva Stanley durante vários anos. De repente, nossos passos se cruzaram no jantar beneficente anual da Igreja Cristã. Ela estava cm pé atrás de uma mesa servindo purê de batata e parecia radiante. Quatro anos atrás, "subornava" o entregador de jornais com um refrigerante para ter alguém com quem conversar; agora, estava cercada de amigos. Seu marido havia morrido, mas a vida continuava. Ela vivia em comunidade, e seu rosto irradiava amor.

A comunidade é muito importante; às vezes, ela nos cura de um problema e nos torna uma pessoa melhor do que seríamos, se vivêssemos sozinhos.

Hoje eu moro na cidade. Minha varanda consiste de uma laje de concreto. E meu entregador de jornais é uma senhora chamada Edna que tem três filhos pequenos e uma motocicleta de 12 anos. Todos os dias, ela me pergunta corno estou. Quando não respondo "bem", ela insiste até descobrir o motivo. Edna é uma senhora bondosa, e, às vezes, finjo que tenho um problema só para que ela se demore mais um pouco. Ela sempre viveu em uma cidade grande, mas isso não a impedia de saber o significado de comunidade.

Comunidade é mais um estado de espírito que uma localidade.

Nós a encontramos quando alguém pergunta como vamos e faz essa pergunta porque se interessa por nós, não porque está sendo pago para isso.

Dois mil anos atrás, um presbítero da igreja chamado Pedro nos deu a receita para vivermos em comunidade. "Acima de tudo, porém", ele escreveu, "tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados" (1 Pedro 4.8). Isso significa que, quando amamos uma pessoa, precisamos ser cegos aos defeitos dela.

Foi mais ou menos isso que meu pai me falou sobre a viúva Stanley. Às vezes, basta movimentar a cabeça afirmativamente e sorrir.

Os psiquiatras dão a esse tipo de comportamento o nome de "síndrome da negação", mas nos tempos em que eu entregava jornais o nome era "compaixão".


 

TEMPOS PASSADOS COM AMY

Lisa Latham Green

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Conheço Amy desde o jardim de infância. Ela é minha melhor amiga desde o segundo grau. Amy ensinou-me a dividir números deixando à mostra as fases do cálculo. Fomos crismadas no "mesmo dia e madrinhas de casamento uma da outra. Recebemos diplomas e compramos nossas primeiras casas simultaneamente — casas adquiridas em Los Angeles com o mesmo financiamento gigantesco.

Compartilhamos nossas esperanças e nossos sonhos por meio de cartas. Quando tomei conhecimento da gravidez de Amy ao receber seu cartão de Natal, telefonei imediatamente para ela e contei que também estava grávida. Nós duas estávamos com receio de dar a notícia por telefone — uma com receio de magoar a outra por ter tido a bênção de engravidar primeiro.

Eu deveria dar à Luz 25 dias antes de Amy, por meio de parto natural, pelo método Bradley. Amy optou pelo método Lamaze. Quando ela me ligou na véspera de eu dar à luz, contei-lhe que já estava em trabalho de parto e que foi muita gentileza dela telefonar para saber notícias minhas. Ela me disse carinhosamente que estava telefonando para comunicar o nascimento de sua filha, Rebecca Anne, no dia anterior.

Emily Catherine nasceu no dia seguinte. Nossas primogênitas nasceram com dois dias de diferença. O batizado de Emily, uma cerimônia íntima incluindo a presença de Amy e de sua pequenina família, foi marcado para um mês depois. Foi um reencontro após dois meses de separação. Amy emagrecera depois do parto. Eu não. Pelo fato de ter ainda alguns meses de licença-maternidade, Amy sugeriu que passássemos aquele período juntas. Aceitei e liguei para ela no dia seguinte. Foi, então, que começaram meus "tempos passados com Amy".

Esses tempos foram muito especiais. Só eram cancelados por motivo de enfermidade. Alternávamos nossas visitas semanais, percorrendo cerca de 50 quilômetros de carro no trânsito de Los Angeles — uma hora e meia só de ida, mas valia a pena. Na época dos "tempos passados com Amy" a louça e as roupas sujas aguardavam até que eu retornasse. Eu partia com o coração feliz, uma sacola cheia de fraldas e um sorriso no rosto. Voltava para casa exausta da viagem (quando faltava cerca de meia hora para chegarmos, &Mb/ e eu ficávamos presas no trânsito, e ela chorava o restante do percurso), mas eu me sentia renovada, pronta para a tarefa de cuidar de uma criança na semana seguinte.

Amy e eu visitávamos a biblioteca juntas, dávamos passeios de "buggy" pela vizinhança, tirávamos fotografias e filmávamos com câmeras de vídeo e íamos ao shopping. Desenhávamos macacões com motivos natalinos e os costurávamos para as crianças, Passávamos a maior parte do tempo com nossas filhinhas e conversando.

Meu marido foi transferido para Austin, Texas, distante cerca de 2.500 quilômetros da casa de Amy, mas nós não perdemos o contato. Por meio de ligações telefônicas, Amy e eu continuamos a compartilhar o susto causado por uma bronquite, as experiências com forno e fogão e a alegria de ver nossas filhas crescendo. Embora meus "tempos passados com Amy" sejam restritos hoje a simples telefonemas em horas extravagantes, eles ainda são muito importantes para a edificação de minha vida.


 

MÃEZINHAS AO LONGO DA VIDA

Cassandra Lindell

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

A carta era curta e ia direto ao assunto. Eu nunca havia sido tão agredida moralmente por alguém que acreditei ser minha amiga íntima. Chorando, telefonei para Sue. Fomos colegas de escola, e ela rapidamente passou a ser como uma irmã para mim.

— O que houve? — ela perguntou.

— Recebi uma carta. Posso ir até aí?

— Claro.

Chorei durante todo o percurso até a casa dela. As palavras da carta rodopiavam em minha mente, magoando-me profundamente. Eu não entendia as acusações. A perplexidade alimentava meu sofrimento.

Quando cheguei, entreguei a carta a Sue sem dizer uma só palavra e sentei-me no sofá enquanto ela a lia. A expressão de seu rosto passou de curiosidade para perplexidade, de sofrimento para raiva desmedida, enquanto ela acariciava o gatinho de pêlos fofos enrolado em seu colo. Por diversas vezes, ela suspirou fundo e movimentou a cabeça negativamente. Aquilo já era um conforto: eu tinha medo de que as palavras da carta pudessem ser verdadeiras.

De repente, Sue dobrou as páginas e levantou-se, segurando o gato em um dos braços e uma manta no outro.

— Não sei aonde essa pessoa quer chegar, mas conheço essas coisas.

Sue colocou a manta em meu colo.

— Você está precisando de um agasalho.

Sue colocou o gato em cima da manta.

— E está precisando de um gatinho.

Sue sentou-se a meu lado, passou o braço ao redor de meu ombro e puxou-me para perto dela.

— E você está precisando de uma mãezinha. Pode chorar.

Carinhosamente, ela absorveu meu sofrimento, enquanto as lágrimas corriam por meu rosto. O gatinho ronronava em meu colo. A manta me aquecia. Minha amiga me abraçava com força. Até hoje, sinto-me confortada ao lembrar-me da cena.

Outra amiga minha dá a esses momentos de ternura o nome de "mãezinhas". Seja qual for nossa idade, nunca deixamos de necessitar de uma mãe, mesmo quando ela não está presente. Algumas mães nunca cuidam dos filhos, outras talvez estejam fora quando telefonamos, e outras já não estão mais conosco. Mas todos nós ainda necessitamos de uma "mãezinha" ao longo da vida, de uma pessoa amiga que se preocupa conosco.

 

 

 

Amigo é...

Alguém que compreende seu passado,

Acredita em seu futuro

E o aceita da maneira como você é.

AUTOR DESCONHECIDO


 

MÃOS DE AMIGAS

Jane Kírkpatrick

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

O vento forte do inverno a fustigava quando ela atravessou a porta do salão. Diante dela, havia mulheres sentadas e costurando. Os dedos cansados e enrugados das mulheres emendavam retalhos do passado dela recortados em pequenos quadrados: a roupa velha de uma criança, a cortina do quarto, a toalha de mesa florida (depois de ter cortado e jogado fora o pedaço manchado de morango que seu marido deixou cair). Dezenas de lembranças iam sendo emendadas uma após a outra.

Naquele dia, as mulheres fizeram a emenda final, com bordas perfeitas, e depois prenderam o recheio, com pontos miúdos, atrás de cada peça acolchoada. Por fim, costuraram o forro de uma só cor. O acolchoado, agora pronto. a manteria protegida dos ventos do inverno.

O que a conforta são as memórias, os retalhos que marcam o passado emendados pelas mãos laboriosas de amigas e colocados sobre um forro resistente. Cercadas de ternura, recordamos essas lembranças, deixamos que elas nos alimentem, nos aqueçam e nos proporcionem o sono necessário; quando o dia amanhecer, já descansadas, poderemos empurrar o acolchoado de lado, ainda embaladas pela sensação de conforto.

Nesses dias difíceis, eu lhe ofereço meu conforto. Que as lembranças que você deseja saborear continuem a seu redor, emendadas por mãos de amigas.


 

O DOM DE CONVERSAR

Lynn Roger Petrak

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Embora me recomendasse não conversar com estranhos, minha mãe sempre fazia isso. Na fila do caixa. Examinando as maletas em Marshall Field. Dentro do elevador, quando todos estavam olhando firme para os botões. Nos aeroportos, nos jogos de futebol e na praia.

Sou grata por ter seguido seu conselho apenas quando se tratava de estranhos com aspecto ameaçador. Creio que sou boa nisso.

O hábito de minha mãe de puxar conversa com pessoas que estivessem perto dela talvez me faça sorrir hoje, mas chegou a ser constrangedor em meus áureos tempos de adolescência.

— Este também é o primeiro de Lynn — ela confidenciou a uma mulher que fazia compras para sua filha na seção de sutiãs de uma loja de departamentos de nossa cidade.

Pensei em correr e esconder-me debaixo de um roupão de banho de veludo, mas, em vez disso, sussurrei entre os dentes, com o rosto ardendo de vergonha:

— Mãããããe!

Só me senti um pouco melhor quando a mãe da garota disse:

— Estamos tentando encontrar um para Sarah, mas todos são grandes demais.

Ninguém reagiu quando minha mãe fez uma observação e tentou dar início a uma breve discussão. Algumas pessoas lançaram-lhe um sorriso amarelo e afastaram-se. Outras não lhe deram a mínima atenção. Sempre que eu estava em sua companhia nessas situações, percebia que minha mãe ficava um pouco magoada, mas ela encolhia os ombros e seguíamos nosso caminho.

Na maioria das vezes, eu me afastava. Quando voltava, lá estava ela conversando com alguém. Houve ocasiões em que fiquei preocupada, receosa de tê-la perdido na multidão, mas, de repente, eu ouvia sua risada costumeira e um comentário deste tipo:

— Sim, sim, eu também.

Nesses bate-papos espontâneos, minha mãe ensinou-me que neste nosso mundo, que é grande demais — ou pequeno demais, a escolha é sua —, existe tempo para nos comunicarmos. Ela me disse que nós, mulheres, temos uma sagacidade especial, apesar de não sermos todas iguais. Existem laços que nos unem na maioria das coisas deste mundo. Talvez seja por isso que gostamos mais de papel que de plástico, que uma malha azul-marinho seja sempre uma boa compra ou que o hino nacional ainda nos cause arrepios.

Uma das últimas lembranças que tenho de minha mãe, quando ela estava hospitalizada e prestes a falecer de câncer no seio, que reduziu seu peso para 38 quilos, foi seu sorriso fraco enquanto ela conversava com a enfermeira sobre a melhor maneira de plantar bulbos de tulipa. Permaneci em silêncio perto da porta do quarto, querendo chorar e, ao mesmo tempo, presenciando sua expressão de amor e entusiasmo. Ela ensinou-me a ver primavera no rosto das outras pessoas. Nunca me esquecerei disso, principalmente agora quando me viro para alguém e digo:

— Você não acha lindo quando...


 

LIGUE PARA UM AMIGO

Susan Schoenberger

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Na porta de minha geladeira, há uma lista presa por um ímã em formato de círculo. Eu poderia tirá-la dali, porque já memorizei os números de telefone anotados nela, mas eu a guardo para minha segurança. Trata-se de uma lista extraordinária, que me faz lembrar que a vida é imprevisível e nem sempre tão ruim como imaginamos. Alguém tem de ganhar na loteria.

Certo dia, no verão de 1992, quando meu filho tinha seis meses de idade, recebi uma carta. Era escrita à mão, uma carta do tipo que gostamos de encontrar em meio a uma montanha de correspondência inútil. Eu a li três vezes.

A remetente, A. J. Blye, era mãe de dois filhos e se mudara recentemente da Califórnia para Baltimore. Ela conseguiu nosso nome e endereço no serviço de fraldas que utilizávamos e dizia que tinha uma ideia.

Ao lembrar-me do fato, fico surpresa por meu lado racional não ter suspeitado de que uma tal A. J. poderia fazer parte de uma quadrilha de sequestradores. Mas a carta tocou no ponto certo: eu estava de licença-maternidade e começando a me dar conta do quanto era difícil encontrar novas amizades que se dispusessem a fazer-me companhia enquanto eu misturava cereais de arroz em uma tigela. Eu nunca fui o tipo de pessoa que bate na porta de alguém e se apresenta surgindo daí uma longa amizade.

Mas A.J. era.

Em um sábado, meu marido e eu caminhamos alguns quarteirões até a casa dela e conhecemos sete casais da vizinhança, cujos filhos ainda usavam fraldas. Em poucas horas, organizamos uma cooperativa de babás e fizemos um acordo de revezamento. Às sextas-feiras à noite, dois casais tomariam conta de todas as crianças para que os outros seis casais pudessem sair de casa.

Saí de lá com minha lista de telefones.

A princípio, os números não me diziam nada. Eram tão frios como acontece quando conversamos com uma pessoa desconhecida do outro lado da linha. Fiquei um pouco nervosa e em dúvida se deveria telefonar para algum deles. Eu receava ligar em hora errada ou falar com alguém que não tinha certeza de se a tal cooperativa havia sido uma boa ideia.

De certa forma, todos confiamos um no outro antes de nos conhecermos realmente. Além do mais, eu achava que os casais que estavam dispostos a deixar seus filhos comigo poderiam ser confiáveis para cuidarem do meu. Porém, a amizade entre nós levou tempo para se firmar.

Todas as sextas-feiras à noite, eu conhecia um pouco mais as pessoas de minha lista, quando tropeçávamos em brinquedos espalhados ou quando saíamos juntos em nossos dias de folga. Os números de telefone tornaram-se familiares. Eram quase discados automaticamente, e todas as crianças e mães passaram a ser pessoas especiais — uma espécie de parentes, já que os meus eu não tinha por perto.

Aquela lista modificou minha vida. Eu me dei conta disso em um dia de verão ao almoçar na companhia de três mães e de quatro crianças. Pedaços de cachorro-quente e migalhas de batatas fritas espalhavam-se pelo chão enquanto conversávamos sobre livros, cinema e dentição. Compreendi que eu. teria gostado daquelas pessoas como amigas mesmo se elas não tivessem filhos.

Hoje, quando olho para o papel manchado de suco preso na porta da geladeira com o ímã circular, vejo o que me une a meus vizinhos. Morei em vários lugares desde que saí da faculdade — cinco cidades em nove anos — e nenhum deles me fez sentir em casa. Mas por que a casa de minha mãe era um verdadeiro lar? Não era por causa das Fotografias emolduradas, nem do piano ou da lareira. Era por causa da lista de número de telefones à qual ela podia recorrer todas as vezes que necessitasse de uma amiga para planejar uma festa, transmitir otimismo a um de seus quatro filhos ou simplesmente bater um papo no meio da noite.

Minha lista é poderosa, porque posso fazer uso dela imediatamente e pela segurança que me dá. Se eu organizar uma Festa, alguém comparecerá.

Houve um tempo em que tal lista poderia surgir naturalmente caso as crianças crescessem em seus respectivos bairros, casassem ali mesmo e tivessem filhos. E os avós provavelmente ficariam por perto, prontos para tomar conta dos netos uma vez por semana.

Mas isso ficou cada vez mais raro. Dos 16 adultos de nosso grupo, apenas dois foram criados em Baltimore e ainda têm família por lá.

A lista, presa na porta da geladeira, tem cumprido seu papel. Significa que estou em casa.


 

O DIA DA MUDANÇA

Doris Hier

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Minha amiga Jeri atirou as bugigangas restantes na última caixa. Ela não estava nem um pouco empolgada com aquela mudança. Não havia nada errado com a nova casa, a não ser o fato de localizar-se "do outro lado da cidade". Os amigos aconselharam a família a trancar as portas, coisa que não tinha o hábito de fazer.

No dia da mudança, os carregadores receberam instruções de trancar a casa entre uma viagem e outra — até a última! Em uma das idas e vindas, esqueceram de trancar a porta. A família entrou cuidadosamente na casa e constatou que alguém havia estado ali naquele curto período de tempo.

Os intrusos deixaram um cartão de visita. Sobre o balcão da cozinha havia um bule de café recém-coado, um bolo de chocolate, um vidro grande de pimenta e todos os ingredientes necessários para uma refeição de "boas-vindas ao bairro".

 


 

A FINA ARTE DE ACENAR

Joël Freeman

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Meu marido acena para todas as pessoas. Ele atribui essa tendência à época que passou em uma pequena ilha na costa de Rhode Island. Lá, as únicas pessoas que não acenavam para você eram os turistas —e, certamente, você não queria ser confundido com um deles. Além disso, meu marido acha que o aceno é um ato de boa educação e que até mesmo a pessoa mais mal-humorada se sentirá melhor depois de receber um cumprimento sincero.

Foi por isso que, quando mudamos de uma casa na mata para uma casa à beira da estrada principal, continuamos com nosso costume de acenar todas as vezes que um carro conhecido passava por ali. Uma sensação de boa vizinhança exigia que agíssemos assim.

Meu marido e eu nos revezamos diante da porta de nossa casa com nossa filha, enquanto ela aguarda o ônibus escolar. Ela está na segunda série. Todos os dias, as mesmas pessoas passam de carro pela estrada a caminho do trabalho ou da escola. Há, por exemplo, um pequeno veículo rosa que chamamos de carro da Barbie, uma na da década de 1970 coberta de massa cinza usada para remendar partes amassadas do chassi, à qual damos o nome de "hippiemóvel". Alguns motoristas dão um largo sorriso e acenam para nós como se fôssemos velhos conhecidos. Outros agem discretamente, movimentando levemente a cabeça. Se deixamos de acenar, eles fingem estar arrumando os cabelos ou coçando a testa.

Eu compreendo essa hesitação. Por ser diferente de meu marido, não me sinto disposta a acenar para qualquer pessoa. Certa vez, enquanto estávamos fazendo um de nossos passeios para conhecer a vizinhança, descobrimos uma estrada secundária interessante que servia de atalho até um lago. Tivemos de reduzir a velocidade consideravelmente para fazer uma curva acentuada. Logo depois da curva, tivemos a surpresa de avistar uma senhora idosa sentada em uma cadeira sobre um gramado do outro lado do lago. Quando passamos por aquela senhora, ela acenou para nós. Ficamos sabendo que ela se senta ali diariamente e acena para todos os carros que passam. Sempre achei que ela devia ser um pouco excêntrica ou solitária. Mas isso é pura suposição, porque ela aparenta ser muito feliz. Às vezes, receio que as pessoas também pensem que sou excêntrica se eu começar a acenar para todos os carros que passam por nossa casa. Afinal, permaneço muito mais tempo em casa que meu marido!

Talvez você se surpreenda ao saber quantas pessoas passaram a acenar para nós. Algumas acompanham o gesto com um toque de buzina, o que nos deixa muito felizes. Nossos amigos da cidade que vêm nos visitar e descansam conosco na varanda também começaram a levantar automaticamente a mão para cumprimentar as pessoas dentro dos carros. Eu sempre digo a esses visitantes amigos que eles aprenderam a fina arte de acenar.

Ontem fui ao correio. Na fila formada no saguão, um pouco à minha frente, estava um homem para quem eu tenho acenado quase que diariamente nos últimos quatro anos. Ele ouviu minha filha pequena balbuciando e virou-se para trás.

— Como vão vocês? Puxa, como essa menina está crescendo depressa! — ele me disse, sorrindo para minha filha.

— Claro que está! Preciso cuidar dela o tempo todo — repliquei.

— Eu sei. Ei, aquele novo terraço ficou ótimo!

— Obrigada, também gostamos muito.

— Tenha um bom dia. Prazer em vê-la.

— Da mesma forma! Até logo!

O mais curioso de tudo é que nunca fomos apresentados um ao outro.


 

SURPRESA NO PARQUE

Sara (Candy) DuBose

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Como um poderoso ímã, o sol quente e agradável da tarde já estava atraindo Sara para fora de casa, quando suas filhas de oito e dez anos se aproximaram Fazendo-lhe um pedido.

— Por favor, mamãe, podemos ir ao parque?

— Claro, por que não? — respondeu Sara, com um sorriso que iluminou seu olhar.

Depois de prepararem alguns sanduíches, elas partiram. Os gigantescos carvalhos e as nogueiras do Oak Park formavam um ambiente perfeito — um lugar para brincar, meditar e refrigerar a alma.

Em breve, DeAnn e Cherie estavam dizendo a Sara onde parar, perto dos balanços e das barras para escalar. Sentada em um banco e observando as duas acrobatas, Sara sentiu que aquele seria um dia especial, um dia de aventuras e descobertas.

Pouco depois, um menino de cerca de nove anos chegou e resolveu balançar e subir nas barras também. A princípio, houve aquela costumeira reação de "você brinca lá, e eu aqui", mas depois de um certo tempo os três começaram a revezar-se para dar impulsos no balanço e brincar de pega-pega. Sara não conseguia ouvir a conversa deles, mas todos pareciam estar gostando daquele delicioso dia de verão. Satisfeita ao ver que as filhas estavam se divertindo com um novo amigo, Sara pegou um livro e começou a ler.

— Mamãe! — chamou DeAnn. — Você pode vir até aqui?

Sara deu um longo suspiro, colocou o livro na bolsa e dirigiu-se para a área coberta de areia onde as crianças brincavam. Cada criança segurava uma varinha comprida, e DeAnn apontou para uma mensagem escrita na areia com letras grandes: "Não ouço e não falo, meu nome é Dan."

DeAnn e Cherie haviam escrito seus nomes embaixo do de Dan. As meninas ficaram sérias quando Dan entregou sua varinha quebrada a Sara.

Tentando não exagerar na reação, Sara pegou-a e escreveu a palavra Mãe embaixo do nome das filhas. Um largo sorriso surgiu no rosto de Dan — um sorriso que parecia vir do fundo do coração.

Por alguns instantes, todos ficaram olhando para a areia. De repente, um pensamento veio à mente de Sara. Acima dos quatro nomes, havia espaço suficiente para mais um. Sara pegou novamente a varinha de Dan e escreveu a palavra Deus. Em seguida, apontou para o céu.

Dan sorriu novamente, com os olhos brilhando. Ele fez um movimento afirmativo com a cabeça, apontou para o céu e para seu coração. Insatisfeito porque sua mensagem ainda não estava completa, Dan pegou a varinha e desenhou um grande círculo ao redor dos nomes e esticou o braço para tocar em cada pessoa.

Foi uma cena linda. Quatro pessoas — na verdade, quatro crianças —, e todas dentro do círculo de um Deus de amor. Foi realmente um dia de aventuras e descobertas.


 

MAS EU NÃO TENHO NINGUÉM!

Susan Alexander Yates e Allison Yates Gaskins

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Era o Dia das Mães. Um dia de comemoração, um dia de homenagem e um dia em que nossos filhos esquecem nossas falhas e nos dizem que somos maravilhosas. Um dia para homenagear as nossas mães.

Deveria ter sido um dia alegre, mas para Jay e Heather, sentados sozinhos no restaurante, foi um dia de tristes lembranças de perdas. Já tendo entrado na casa dos 40 anos, eles haviam desistido de ter filhos. Naquele dia, Heather era quem mais sentia a perda que sua esterilidade representava. Observar uma jovem família na mesa ao lado dando presentes para a mãe não ajudou em nada.

— Não é justo — ela murmurou, enquanto remexia a comida. — Eles estão muito felizes porque têm alguém.

Seu marido, Jay, tentou animá-la, mas também tinha uma sensação de perda. Ele atravessara um ano difícil em razão da morte da mãe. Seus sogros e seu pai haviam morrido tempos antes. Agora eles estavam sozinhos e sem filhos para consolá-los.

Talvez não tenha sido boa ideia trazer Heather para almoçar fora, ele pensou. Devíamos ler ficado em casa.

Jay recostou-se na cadeira e começou a olhar ao redor. Seus olhos pousaram em uma mesa no canto. Duas senhoras idosas saboreavam em silêncio uma salada. Uma delas fez o coração de Jay dar um salto. Os cabelos brancos e crespos emolduravam um rosto levemente achatado e um nariz longo e reto. Atônito, Jay achou que o perfil daquela senhora lembrava o de sua mãe. Em seguida, ele olhou para a outra senhora, também idosa.

- Heather ele disse — veja aquelas duas senhoras comendo sozinhas. Elas têm mais ou menos a idade que nossas mães teriam se estivessem vivas. Será que elas têm filhos?

Heather olhou de relance para as duas senhoras e ficou em silêncio por alguns instantes.

— Elas parecem estar completamente sozinhas — disse Heather.

— Eu gostaria de saber se...

De repente, o rosto de Heather iluminou-se.

— Jay — ela disse —, vamos pagar o almoço delas. Mas não deixe que elas saibam. Será o nosso presente de Dia das Mães para elas.

Entusiasmado pela mudança de humor da esposa, Jay chamou a garçonete e explicou que eles queriam pagar o almoço das duas senhoras em homenagem ao Dia das Mães, sem que elas soubessem de quem partiu o presente.

A garçonete concordou em colaborar com aquela surpresa. Jay e Heather aguardaram o que aconteceria a seguir. Quando as senhoras pediram a conta, foram informadas de que alguém já havia pago. Era um presente em homenagem ao Dia das Mães.

Jay e Heather observaram de longe o ar de surpresa e satisfação que surgiu naqueles rostos enrugados. Mas elas insistiram. Queriam saber quem havia pagado a conta.

— Quem poderia ter feito isso? — elas perguntaram.

A pobre garçonete não conseguiu mais guardar segredo e apontou na direção de Jay e Heather.

As duas senhoras dirigiram-se rapidamente à mesa deles. Agradecendo profusamente ao casal, as duas perguntaram se eles gostariam de sentar-se à mesa com elas. Depois das apresentações e de contarem brevemente a história de cada um, iniciou-se uma grande amizade, que prosseguiu no decorrer do ano. Essa amizade se fortaleceu um ano depois, no Dia das Mães, quando Jay e Heather levaram suas novas "mães" para jantar fora e comemorar em "família"!


 

LIGAÇÃO INTERURBANA

Barbara Johnson

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Li a respeito de um homem que ligou para sua esposa da cabina telefônica de um aeroporto. Quando as moedas dele terminaram, a telefonista o interrompeu para dizer que lhe restava apenas um minuto. O homem apressou-se para encerrar a conversa com a esposa, mas, antes que eles tivessem tempo de despedir-se, a linha caiu. Com um suspiro, o homem pôs o fone no gancho e começou a sair da minúscula cabina. De repente, o telefone tocou. Imaginando que fosse a telefonista solicitando a colocação de mais moedas, ele pensou em não atendes-. Mas alguma coisa lhe disse para pegar o fone. Era, de fato, a telefonista. Mas ela não queria mais moedas. Tinha um recado para ele.

— Depois que o senhor desligou, sua esposa disse que o amava — contou a telefonista. — Achei que o senhor gostaria de saber.


 

MÚSICA DE AMOR

Corrie Franz Cowart

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Às vezes, descobrimos laços comuns que ligam uma geração a outra. Às vezes, algum símbolo traz à vida a história da família. Quando me sento para tocar o piano de meu avô, tenho essa sensação. Ouço-o tocando canções de ninar para minha mãe, sinfonias arrebatadoras de Beethoven para minha avó e músicas alegres para dançar. O piano de vovô Lester é um símbolo de amor permanente.

Lester, filho de um pastor de uma pequena cidade, não nasceu em um lar de família abastada. Em vez de dinheiro, ele recebeu uma sólida educação, na qual aprendeu os valores da autoconfiança e da determinação incessante e encontrou alegria nos aspectos criativos da vida. Enlevado por seu amor à música, Lester cortava lenha para pagar aulas de piano com um professor.

Para o vovô Lester, os anos da Depressão americana significaram o fim dos estudos na faculdade e o fim de sua carreira musical. Ele estava com 30 anos quando se casou com sua namorada, Frances, e os dois deram início à doce harmonia doméstica de um pequeno lar e uma família.

O interesse de Lester por música nunca cessou. Sempre que podia, ele ouvia e estudava os grandes compositores clássicos. Não tinha, contudo, muitas oportunidades de exercitar seus talentos. Com muitas contas para pagar e a perspectiva de aumentar a família, a aquisição de um piano não era fácil nem apropriada.

Em 1942, ele foi convocado para a guerra e enviado para lutar na Europa. Todos os dias, em meio aos horrores da guerra, Lester encontrava tempo para escrever à sua querida Frances. Sentia saudades dela e do "homenzinho". Era assim que ele chamava seu filho recém-nascido na "pequena mansão", um título pomposo dado à sua casa modesta. Aquela correspondência, tão valiosa e cuidadosamente guardada, era lida e relida por Frances, que todos os dias aguardava, ansiosa, a chegada da próxima carta.

Lester enviava todo o dinheiro que podia para sustentar sua jovem família, e Frances trabalhava meio período corno enfermeira para complementar o orçamento. Economizando aqui e ali, ela comprava apenas o suficiente para as necessidades básicas, orando continuamente pela proteção do marido.

Um dia, no mês de março de 1946, depois que a guerra terminou e a Europa voltou a ser um lugar seguro para viver, Lester retornou ao seu lar e para os seus familiares na "pequena mansão". Para sua surpresa, uma dádiva de amor o aguardava. Todos os cheques que ele enviara para alimentar sua pequena família haviam sido cuidadosamente economizados para comprar um presente que alimentaria sua alma. Frances, renunciando ao próprio conforto, poupara quase tudo a fim de comprar um piano para seu amado esposo. Tratava-se, na verdade, de uma espineta [antigo instrumento de cordas semelhante ao cravo], mas para Lester era o melhor e o mais belo piano de concerto do mundo.

Embora vovô Lester e vovó Frances já tenham partido deste mundo, cada nota deste instrumento transmite o amor que ambos sentiam um pelo outro e por mim. É uma música que atravessa os mares, as gerações e transpõe a morte.


 

O INGREDIENTE SECRETO DE MARTHA

Roy J. Reiman

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Ben irritava-se todas as vezes que entrava na cozinha. O motivo era aquela pequena lata na prateleira acima do fogão de Martha. Provavelmente, ele não a teria notado nem se irritaria, se Martha não lhe tivesse dito repetidas vezes para não tocar ali. O motivo, ela dizia, era que a lata continha uma "erva secreta" de sua mãe. Como não havia maneira de repor o conteúdo da lata, Martha preocupava-se, porque Ben ou qualquer outra pessoa poderia pegar a lata para espiar lá dentro e derrubá-la acidentalmente, espalhando o valioso conteúdo no chão.

A lata não tinha uma aparência bonita. Era tão velha que parte da cor vermelha original e das flores douradas havia desbotado. Era fácil notar que a pessoa sempre a segurava no mesmo lugar todas as vezes que a retirava da prateleira e a destampava.

Não eram só os dedos de Martha que deixaram marcas na lata. Havia também as deixadas pelos dedos de sua mãe e de sua avó. Martha não tinha muita certeza, mas achava que sua bisavó também usara a mesma lata e a mesma "erva secreta".

Ben só sabia que logo após ter-se casado com Martha, sua sogra trouxe a lata e disse à filha para usar o conteúdo com o mesmo amor que ela o usara.

Martha obedeceu fielmente à mãe. Ben nunca viu a esposa cozinhar sem tirar a lata da prateleira e salpicar um pouco da "erva secreta" sobre os ingredientes. Mesmo quando ela assava bolos, tortas e biscoitos, ele a via adicionando uma pitada da tal erva antes de levar as assadeiras ao forno.

Fosse qual fosse o ingrediente da lata, Ben considerava Martha a melhor cozinheira do mundo. E essa opinião não partia apenas dele. Todos os que comiam em sua casa teciam grandes elogios às prendas culinárias de Martha.

Mas por que ela não permitia que Ben tocasse na lata? Teria realmente receio de que ele derrubasse o conteúdo? E como seria aquela tal "erva secreta"? Era tão fina que todas as vezes que Martha a salpicava sobre a comida que estava preparando, Ben não conseguia determinar a textura. Ela, evidentemente, devia usar uma quantidade mínima, porque não havia meios de repor o conteúdo.

De algum modo, Martha conseguira prolongar o conteúdo da lata durante 30 anos de casamento. Ele nunca deixou de ser eficiente em seu resultado, ou seja, dar água na boca. Ben sentia-se cada vez mais tentado a olhar dentro da lata só por uma vez, mas nunca se atreveu a isso.

Um dia, Martha adoeceu. Ben levou-a ao hospital, onde ela passou a noite. Quando ele voltou para casa, sentiu uma grande solidão. Martha nunca dormira fora de casa. E, quando chegou a hora do jantar, ele não sabia o que fazer. Martha adorava tanto cozinhar que ele nunca se preocupou em aprender como preparar um prato.

Ao entrar na cozinha para ver se havia alguma coisa na geladeira, a lata na prateleira chamou-lhe a atenção. Parecia um ímã atraindo seus olhos. Ele desviou o olhar, mas a curiosidade foi maior e o atormentava.

O que haveria na lata? Por lua ele não podia tocar nela? Como seria a tal "erva secreta"? Quanto restava?

Ben desviou o olhar novamente e retirou a tampa de urna grande fôrma de bolo no balcão da cozinha. Ah!... havia mais da metade de um dos deliciosos bolos de Martha. Ele cortou um pedaço grande, sentou-se à mesa da cozinha e, logo depois da primeira mordida, seus olhos voltaram a fixar-se na lata. Que mal haveria em dar uma espiada? Por que Martha guardava tanto segredo a respeito daquela lata?

Ben deu outra mordida na fatia do bolo e lutou consigo mesmo — deveria ou não? Durante mais cinco mordidas, ele continuou a pensar no assunto, olhando firme para a lata. Finalmente, não conseguiu resistir.

Atravessou lentamente a cozinha e retirou cuidadosamente a lata da prateleira, receando que o pior acontecesse — derrubar o conteúdo enquanto estivesse espiando ali dentro.

Ele pousou a lata no balcão e tirou a tampa com o máximo cuidado. Estava morrendo de medo! Quando finalmente conseguiu enxergar o interior da lata, Ben arregalou os olhos, surpreso —ela estava vazia... havia apenas uma folha de papel dobrada no fundo.

As mãos grandes e ásperas de Ben tiveram dificuldade para alcançar o papel. Ele o pegou com cuidado por uma das pontas, retirou-o lentamente e abriu-o sob a luz da cozinha.

Havia uma anotação rabiscada no papel, e Ben imediatamente reconheceu a grafia da mãe de Martha. As palavras eram estas: "Martha, em tudo o que você fizer, adicione uma pitada de amor."

Ben engoliu seco, recolocou tudo no lugar e voltou a saborear o bolo. Agora, ele entendia perfeitamente por que a "erva secreta" era tão saborosa.

 

 

Amai-vos de coração uns aos outros ardentemente.

1 PEDRO 1.22

 


 

AMOR SEM REPRESSÃO

Charles R. Swindoll

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Anne Morrow era tímida e delicada como uma borboleta. Não era insensível, nem tola ou incompetente, apenas uma criatura sossegada e modesta. Seu pai era embaixador no México, quando ela conheceu um jovem aventureiro em visita à fronteira do sul a serviço do Departamento de Estado dos Estados Unidos. O jovem viajava para promover a aviação. Por onde quer que passasse, atraía a atenção de muita gente. Imagine que ele havia ganhado 40 mil dólares por ter sido o primeiro a atravessar o Atlântico pelo ar! O valente piloto e a tímida princesa apaixonaram-se perdidamente.

Quando passou a chamar-se Sra. Charles Lindbergh, Anne poderia ter sido facilmente ofuscada pela sombra do marido. Mas não foi o que aconteceu. O amor que os uniria nos 47 anos seguintes foi um amor sólido, maduro, posto à prova por meio de triunfos e tragédias. Eles nunca tiveram a tranquilidade do anonimato em meio à multidão. O nome Lindbergh não lhes permitia tal regalia. Fosse qual fosse o lugar, o marido de Anne sempre era notícia, estava sempre em evidência... um verdadeiro herói nacional. Porém, em vez de tornar-se uma pessoa ressentida ou um rosto ignorado dentre uma multidão de admiradores de seu marido, Anne Morrow Lindbergh sobressaiu-se como uma das autoras mais conhecidas dos Estados Unidos, uma mulher extremamente respeitada por seus próprios méritos.

Como? Deixemos que ela mesma nos dê a receita para o sucesso de sua carreira.

O amor profundo é a grande força libertadora e o sentimento mais comum que liberta... O ideal é que o homem e a mulher apaixonados deem liberdade um ao outro para que ambos conheçam mundos novos e diferentes. Eu não fui exceção à regra. O simples fato de sentir-me amada foi inacreditável e modificou meu mundo, meus sentimentos em relação à vida e a mim mesma. Adquiri confiança, força e praticamente um novo caráter. O homem com quem eu ia me casar acreditava em mim e no que eu era capaz de fazer, e, por conseguinte, descobri que podia fazer mais do que imaginava.

Charles tinha urna extraordinária confiança em Anne. Conseguia enxergar o potencial escondido sob a timidez dela. Ele sabia que, no mais profundo íntimo da esposa, havia uma riqueza de sabedoria, uma reserva inesgotável de capacidade. Protegida pelo amor do marido, ela sentiu-se livre — independente — para descobrir e desenvolver sua capacidade, conhecer os próprios sentimentos, cultivar suas habilidades e sair daquele casulo de timidez, transformando-se em uma linda e delicada borboleta, cuja presença engrandeceria um grande número de vidas muito além do círculo formado pela sombra de seu marido. Ele a incentivava a voar por conta própria e a admirava por isso.

Será que o comportamento dela sugeria o de uma esposa intempestiva, independente, do tipo que quer fazer tudo "à sua maneira"? Estou deixando essa impressão? Se assim for, não estou me comunicando claramente. Seria uma descrição completamente equivocada de Anne Morrow Lindbergh. Lembre-se, ela era uma borboleta... não um falcão.

Não tenha dúvida, essa senhora tinha um vínculo inseparável de amor com seu marido. Na verdade, foi no conforto desse amor que ela adquiriu confiança para voar mais alto, muito além de seu mundo limitado e modesto. Estamos falando de raízes e de asas, do amor de um marido, um amor forte o bastante para transmitir confiança e, ao mesmo tempo, generoso para ceder. Suficientemente próximo para poder abraçar e, ao mesmo tempo, solto para deixar-se enlevar. Magnético o suficiente para prender e, ao mesmo tempo, magnânimo a ponto de dar asas... sem ataques de ciúme quando alguém aplaudia o talento dela e admirava sua competência. Charles, o homem seguro de si, deixou de lado a rede de caçar borboletas para que Anne, a mulher tímida, pudesse bater as asas e voar.


 

O CANDELABRO PERDIDO

Bruce McIver

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Foi um dos maiores casamentos realizados em Wilshire. Quinze minutos antes do horário marcado para a cerimônia, o estacionamento da igreja estava lotado de carros, e urna multidão de convidados acotovelava-se no saguão, aguardando ser conduzida a seus lugares. Era o tipo de ocasião que agrada ao coração do pastor.

Mas ainda faltavam 15 minutos para o início da cerimônia.

Exatamente às 19 horas, as mães dos noivos se sentaram, e a organista deu os primeiros acordes triunfais da marcha nupcial. Era o sinal para que eu entrasse no templo pela porta lateral perto do púlpito e assumisse a direção do feliz evento. De repente, ouvi uma voz vinda do fundo do salão.

— Ainda não, pastor. Não abra a porta. Tenho um recado para o senhor.

Virei para trás e, sob a iluminação fraca, avistei a auxiliar da florista caminhando em minha direção o mais rápido que podia. Sua velocidade não bateu nenhum recorde. Por estar no oitavo mês de gravidez, ela sentia enorme dificuldade para atravessar o salão, andando pesadamente. Estava quase sem poder respirar quando finalmente se aproximou de mim.

— Pastor —ela disse, ofegante —, não encontramos o candelabro que o senhor deveria usar no encerramento da cerimônia. Procuramos por toda parte, e nada... O que vamos fazer? Percebi imediatamente que tínhamos um grande problema nas mãos. O casal de noivos solicitara que houvesse um candelabro na cerimônia nupcial. Havíamos ensaiado essa parte várias vezes —passo a passo. O candelabro, composto de três castiçais, deveria ser colocado perto do púlpito. As mães dos noivos seriam conduzidas à frente, cada uma portando uma vela acesa. A seguir, elas se dirigiriam até o candelabro e colocariam as velas nos castiçais laterais. No decorrer da cerimônia, as velas acesas pelas mães deveriam queimar-se lentamente. A vela do centro permaneceria apagada. Depois de proferidos os votos, a noiva e o noivo acenderiam a vela do centro. Esse gesto simbolizaria a união das duas famílias, bem como a luz do amor de Deus sobre o novo casal.

Gostei muito dessa parte quando a ensaiamos. Destaquei um versículo especial da Bíblia que planejava ler no momento em que os noivos acendessem a vela do centro. Tudo sairia perfeito.

Foi o que pensamos.

Os acordes vindos do órgão soavam cada vez mais alto, enquanto eu continuava no salão contíguo ao templo. Sabia que a organista deveria estar olhando por cima do ombro esquerdo, imaginando onde estaria o pastor.

— Não se preocupe — eu disse à perplexa florista. — Vamos "dar um jeito". Corto essa parte da cerimônia e improviso o final.

Após ter dito essas palavras, abri a porta, entrei no templo e, com um sorriso forçado, resmunguei baixinho:

— O que vou fazer agora?

O noivo e seus padrinhos acompanharam-me. A noiva surgiu na ala esquerda do templo. Quando a primeira dama de honra chegou à frente, ela cochichou alguma coisa para mim.

Meu olhar de perplexidade sinalizou que eu não havia entendido.

Ela cochichou novamente, abrindo bem a boca e enfatizando cada sílaba. Apesar do som da música, consegui entender pelos movimentos labiais que a moça estava dizendo:

— Vá em frente com a cerimônia do candelabro.

— Mas... como? — murmurei por entre os dentes e com o mesmo sorriso forçado.

— Vá em frente — ela cochichou, gesto.

A primeira parte do casamento transcorreu sem problema.

Todos estavam radiantes de alegria assistindo àquele feliz evento — todos, com exceção da dama de honra que me transmitiu o recado. Quando olhei em sua direção para saber se havia alguma novidade sobre o candelabro, ela estava impassível e com a boca fechada. Evidentemente, não havia nenhuma novidade.

Continuamos a cerimônia. Li uma passagem de 1 Coríntios 13 e enfatizei a importância do amor e da paciência para a edificação do casamento. Pedi aos noivos que dessem as mãos e comecei a falar dos votos que eles Fariam. Tudo transcorria perfeitamente. Eu estava começando a sentir-me melhor, mas ainda precisava encontrar uma maneira de encerrar o culto. No momento, contudo, a preocupação era com os votos e as alianças.

— John, você aceita esta mulher como sua legítima esposa e promete amá-la?...

— É a coisa mais engraçada que já vi — interrompeu a noiva. cochichando alto.

O noivo ficou embaraçado. Desviei a atenção para a noiva e vi que ela olhava firme para a sua direita, em direção ao órgão, que se encontrava na frente do templo. Não era só ela que olhava naquela direção. Os padrinhos e todos os convidados também! Mil olhos concentravam-se em urna figura movimentando-se à minha esquerda. Eu sabia que ela se movimentava, porque as cabeças e os olhos de todos a acompanhavam, como se Fosse uma imagem em câmera lenta.

O alvo das atenções era a auxiliar da florista. Ela havia-se esgueirado pela porta ao lado do órgão e estava andando de gatinhas atrás da grade que separava o local reservado ao coro da igreja, dirigindo-se ao centro da plataforma onde eu me encontrava. A querida senhora, carregando uma criança no ventre, pensou que ninguém a veria através da grade. Mas seu traseiro estava à mostra, um pouco acima da grade. Ela segurava uma vela acesa em cada mão. Para piorar as coisas, ela não percebeu que sua silhueta — uma sombra grande, "grávida" e em movimento — se projetava na parede atrás do piso elevado, reservado ao coro.

Todos dentro da igreja passavam pela agonia de ter de reprimir uma gargalhada, tendo como válvula de escape lágrimas histéricas com que sufocavam o riso, enquanto tentavam manter a compostura. Duas ou três madrinhas da noiva sacudiam o corpo com tanta força que as pétalas de seus buquês caíram no chão.

Para mim, foi um alívio quando os votos foram feitos e eu consegui dizer estas palavras em tom mais ou menos solene:

— Vamos curvar a cabeça e fechar os olhos para uma oração especial.

Este era o sinal para a solista cantar a "Oração do Senhor". Aproveitei o momento para olhar ao redor e ver o que estava acontecendo.

— Psiu! Psiu!

Virei um pouco a cabeça, olhei para baixo e vi uma vela acesa sendo empurrada através da folhagem atrás de mim.

— Pegue esta vela — disse a insistente florista.

A solista continuava a cantar: "...o pão nosso de cada dia dá-nos hoje..."

— Psiu! Agora pegue esta aqui — soou a voz atrás de mim, e uma segunda vela me foi passada através da folhagem.

".. assim como nós perdoamos aos nossos devedores..."

Eu estava começando a entender que atuaria como um candelabro humano. Lá estava eu, com uma vela em cada mão, e a Bíblia e as anotações enfiadas debaixo do braço.

— Onde está a terceira vela? — cochichei tentando fazer-me entender, enquanto a solista cantava: "...mas livrai-nos do mal..."

— Entre os meus joelhos — respondeu a florista. — Daqui a pouco, eu a entregarei ao senhor.

Foi então que a noiva explodiu em uma gargalhada. Vários padrinhos fizeram o mesmo. As últimas notas da "Oração do Senhor" foram abafadas pelos risos a meu redor.

Aquilo era demais para mim. Alguém teria de levar adiante a cerimônia e tentar concluí-la, com ou sem candelabro. Decidi que faria o possível para isso: equilibraria três velas, uma Bíblia e as anotações. Meu problema complicou-se, porque duas velas estavam acesas e, em breve, a terceira também estaria.

Eu enfrentava um verdadeiro dilema, do tipo que exige ação criativa — e imediata. Não havia nada no Manual do Pastor que mencionasse situação semelhante. Isso também nunca foi mencionado no seminário como atribuição de um pastor. Eu devia agir por conta própria.

Entreguei uma vela à noiva. Ela ria tanto que as lágrimas escorriam por seu rosto. Entreguei a outra ao noivo, que estava começando a questionar tudo o que eu lhe dissera no ensaio a respeito da cerimônia. Minhas afirmações do tipo "não haverá nenhum problema", "vamos realizar a cerimônia sem nenhum contratempo e "relaxe e confie em mim" pareciam ter caído no vazio.

Eu segurava a última vela. Os noivos deveriam acendê-la ao mesmo tempo, com as velas que tinham nas mãos. Milagrosamente, conseguimos concluir aquela parte, apesar das mãos trêmulas e das lágrimas provocadas por risos contidos. Agora havia três velas acesas.

Com voz suave e tranquilizadora, sussurrei:

— Está ótimo. Agora, cada um de vocês deve soprar sua vela.

Meu Deus, pensei, apesar de tudo, vamos conseguir chegar ao fim.

Aquele pensamento veio à minha mente segundos antes de a noiva, ainda descontrolada pelo riso, aproximar a vela da boca para soprá-la, esquecendo-se de que estava usando um véu de náilon sobre o rosto.

Puf!

O véu transformou-se em fumaça e quase desintegrou-se.

Felizmente, a noiva não sofreu queimaduras.

Apenas alguns fios da sobrancelha foram atingidos.

Através do buraco formado pelo que sobrou do véu, ela lançou-me um olhar de espanto. Eu não tinha mais o que dizer para tranquilizar a noiva, o noivo e ninguém mais. Basta!, pensei.

Desprezando minhas anotações a respeito da conclusão da cerimônia, peguei as três velas e as soprei. Depois, olhando através da fumaça das velas apagadas, fiz um sinal à organista para tocar a música de saída... já! Vamos sair daqui! Rápido!

O que aconteceu em seguida não passa de uma vaga lembrança em minha mente.

Mas eu ainda empalideço quando um casal de noivos comenta sobre a "maravilhosa ideia de usar um candelabro" na cerimônia.


 

LIÇÕES DE VIDA APRENDIDAS

COM UM CASAL DE PERIQUITOS

Viekie Lynne Agee

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Recentemente, meu marido e eu estávamos andando por um shopping center perto do horário de encerramento do expediente, quando decidimos visitar uma loja de animais de estimação. Enquanto passávamos pelas gaiolas de poodles e lulus-da-pomerânia, gatos malhados e tartarugas, nossos olhos captaram uma cena que imediatamente nos encantou: um lindo casal de periquitos. Diferentes de todos os outros que encontramos lá, aquele casal parecia realmente apaixonado. Eles ficaram juntinhos durante todo o tempo em que os observamos. Nos dias que se seguiram, não consegui tirar da mente a imagem daquelas duas aves encantadoras. Admirei a dedicação de ambos e senti que a presença deles era inspiradora.

Aparentemente, aquelas aves causaram o mesmo efeito em meu marido, porque logo após nossa visita ao shopping, de chegou mais tarde do trabalho carregando uma linda gaiola com as duas preciosas criaturinhas dentro e as apresentou como novos membros da família. Durante dias, tentamos dar nomes a eles, talvez de algum casal famoso, como, por exemplo, Ricky e Lucy, George e Gracie ou Wilma e Fred. Finalmente, optamos por Ozzie e Harriet* — em homenagem aos tempos em que o amor e a união entre os casais não eram apenas um compromisso, mas um modo de vida. E foi com isso em mente que observei os periquitos e fiz as seguintes observações sobre o amor e a vida.

1. Se você passa muito tempo olhando no espelho, é fácil perder o equilíbrio.

2. Mantenha sempre uma expressão agradável no rosto, mesmo que sua gaiola necessite de limpeza.

3. Se seu (sua) companheiro (a) quiser dividir o poleiro com você, ceda-lhe o lugar.

4. As verdadeiras delícias da vida só surgem depois de você ter quebrado algumas cascas de ovo.

5. São necessárias duas pessoas para haver aconchego.

6. Às vezes, seu (sua) companheiro (a) consegue ver coisas tão pequenas que você nem sequer sabia que possuía.

7. Cantar atrai mais afeição do que gritar.

8. Somente quando suas penas ficam eriçadas é que suas verdadeiras cores aparecem.

9. Brinquedos demais podem distrair a atenção.

10. Quando você tem amor no coração, qualquer pessoa a seu redor encontra alegria em sua presença.

 

Personagens de seriado da TV norte-americana exibido décadas atrás.


 

MÃE SÁBIA

Autor Desconhecido

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Uma mãe que tinha muitos filhos foi entrevistada pelo repórter de um jornal. Ele perguntou:

Qual o filho que a senhora mais ama?

Sua resposta revelou a mãe sábia e carinhosa que ela era:

—Amo mais aquele que está longe de casa até que ele retorne; aquele que está doente até que ele sare; aquele que está magoado até que a mágoa desapareça; e aquele que está perdido até que ele seja encontrado.

 

 

 


 

HERÓIS E HEROÍNAS

William E. Barton

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Aproximaram-se de mim um homem e uma mulher, ou um Marido e sua Esposa Legítima, e eles disseram:

— Estamos cansados um do outro.

— Por que isso está acontecendo? — perguntei.

— Nossa vida passou a ser corriqueira. Já fomos Herói e Heroína um para o outro, mas agora não somos Mais — responderam eles.

E eu repliquei:

— Napoleão não parecia um herói para Josefina depois que ela o viu com os Suspensórios pendurados nas costas; nem Joana D'Arc parecia uma heroína ao segurar os Cabelos da Frente na boca, enquanto prendia para cima, num coque, o resto dos fios.

— Mas ele era um Herói, e ela era uma Heroína — eles disseram.

— Os Heróis e as Heroínas não parecem heróis o tempo todo — eu disse. — César não parecia herói quando atirava os chinelos bem longe, para debaixo da cama, e tinha de puxá-los com um guarda-chuva; mas são coisas necessárias, até mesmo para Heróis e Heroínas.

E eu disse à mulher:

— Quando o Bebê estava doente, oito anos atrás, este teu Marido não te ajudou a cuidar dele dia e noite?

— Ajudou — ela disse. E eu disse ao homem:

— Quando perdeste metade de teu dinheiro em Negociatas Tolas, ela não ficou grudada em ti como um Carrapicho, não te animou sem nunca reclamar, dizendo: "Eu não falei?"

— É verdade — ele disse.

— Ajoelhem-se os dois — eu disse. E eles ajoelharam-se.

— Dêem as mãos — eu disse.

E eles obedeceram.

E orei a Deus suplicando pelos dois até eles começarem a derramar lágrimas de Lembranças e de Amor.

E dei um tapinha nas costas deles e disse:

— Eu te concedo o título de Herói; eu te concedo o título de Heroína. E me despedi deles. E, depois disso, eles viveram felizes.


 

NO FUNDO DO CORAÇÃO

AUTOR DESCONHECIDO

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Ao ensinar redação criativa para uma clame de ensino fundamental, eu encerrei a aula com uma pergunta:

- COMO você sabe que sua avó o ama? Um menino levantou a indo com entusiasmo. Quando lhe dei permissão para falar, ele respondeu:

- Sei que minha avó me ama quando olho dentro dos olhos dela e, bem lá no fundo, consigo per seu coração.


 

CÍRCULO DE AMOR

Jeannie S. Williams

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Quando Joey tinha cinco anos, sua professora do jardim de infância pediu aos alunos que fizessem um desenho de alguma cosa que eles amavam. Joey Fez um desenho de sua família... e, depois, traçou um grande círculo com lápis vermelho ao redor das figuras. Desejando escrever uma palavra acima do círculo, Joey levantou-se e foi até a mesa da professora.

— Professora — ele perguntou —, como a gente escreve...?

Antes que ele pudesse concluir a pergunta, a professora lhe disse para voltar a seu lugar e não interromper mais a aula. Joey dobrou o papel e guardou-o no bolso.

Quando voltou para casa naquele dia, Joey se lembrou do desenho e tirou-o do bolso. Ele alisou-o sobre a mesa da cozinha, pegou um lápis da mochila e olhou para o grande círculo vermelho. Sua mãe estava atarefada preparando o jantar, e ele queria terminar o desenho antes de mostrá-lo a ela...

— Mamãe, como a gente escreve...?

— Joey, você não vê que estou ocupada agora? Vá brincar lá fora... e não bata a porta — ela lhe disse.

Joey dobrou o desenho e guardou-o no bolso. Naquela noite, ele tirou novamente o desenho do bolso. Olhou para o grande círculo vermelho, correu até a cozinha e pegou um lápis. Ele queria terminar o desenho antes de mostrá-lo a seu pai. Joey alisou as dobras e colocou o desenho no chão perto da poltrona reclinável do pai.

— Papai, como a gente escreve...?

— Joey, estou lendo o jornal e não quero ser interrompido. Vá brincar lá fora... e não bata a porta.

Joey dobrou o desenho e guardou-o no bolso. Sua mãe encontrou o papel no dia seguinte enquanto separava as roupas para lavar. Enrolados no papel, havia uma pedrinha, um pedaço de barbante e duas bolinhas de gude que Joey encontrara enquanto brincava fora de casa. Ela atirou tudo no lixo sem abrir.

Quando Joe tinha 28 anos, sua filha Annie fez um desenho. Era um desenho de sua família. Joe riu quando a pequena Annie, de cinco anos, apontou para uma figura alta, de forma indefinida, e disse;

— Este aqui é você, papai!

Annie também riu. Joe olhou para o grande círculo vermelho feito por sua filha ao redor das figuras e começou a passar o dedo lentamente sobre o círculo.

— Eu já volto — disse Annie, descendo do colo do pai.

Ela retornou com um lápis na mão. Joe empurrou um pouco o desenho de lado para acomodar sua filhinha no colo.

Annie posicionou a ponta do lápis perto do topo do grande círculo vermelho. — Papai, como a gente escreve amor? — ela perguntou.

Joe abraçou a filha e conduziu sua mãozinha, ajudando-a a formar as letras. — Amor se escreve com as letras T...E...M...P...0 — ele respondeu.


 

SÓ UM BEIJO!

Ann Platz e Susan Wales

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Os médicos advertiram o Sr. Baumann e sua esposa que ele corria sério risco de sofrer um ataque cardíaco. Mas, quando ele sofreu o ataque, a Sra. Baumann não estava preparada. Assustada, com medo e em pânico, ela acompanhou o marido na ambulância, chorando e implorando a Deus que o salvasse.

Quando chegaram ao hospital, os enfermeiros tiveram de afastar a Sra. Baumann do marido para que os médicos pudessem examiná-lo. Depois que eles conseguiram estabilizar o coração de seu marido, a Sra. Baumann correu até o telefone para avisar cada um de seus sete filhos. Com lágrimas de exaustão e alívio, ela contou que o pai deles havia sofrido um ataque cardíaco, assegurando-lhes que sua condição no momento era estável.

Porém, quando retornou ao quarto do marido, a Sra.. Baumann levou um susto. Ela viu dois enfermeiros debruçados sobre o Sr. Baumann. Ele estava entubado e ligado a máquinas e monitores, com aqueles característicos zumbidos e bips. O rosto dele estava vermelho, e ele respirava com dificuldade.

— O que vocês fizeram com meu marido? — ela perguntou, chorando.

Um dos enfermeiros explicou, da maneira mais amena possível, que ele havia sofrido um derrame de grandes proporções.

Um derrame! Depois de um ataque cardíaco! A Sra. Baumann não conseguiu controlar as emoções. Dominada pelo sofrimento e cega pelas lágrimas, levantou a cabeça do marido do travesseiro, segurou-o nos braços, gritou seu nome e beijou-o na boca.

Naquele exato momento, o médico entrou no quarto e perguntou, com voz firme:

— Sra. Baumann, o que a senhora está fazendo? Ela virou-se para o médico e devolveu a pergunta, com raiva:

— Eu é que pergunto, doutor. O que o senhor fez com meu marido?

O médico balançou a cabeça de um lado para o outro e deu uma risadinha. — Sra. Baumann, este homem não é o seu marido!

Por um instante, a Sra. Baumann ficou tão atordoada que não conseguiu falar. Em seguida, ela olhou com mais atenção para o homem deitado no Jeito.

— Ele... ele... não! — ela gritou, com o rosto vermelho de vergonha. — Oh, não! Oh, não!

Um enfermeiro conduziu a aflita Sra. Baumann ao corredor.

— Por que aquele homem não me empurrou? — ela perguntou.

— Porque ele sofreu um derrame. Não pode falar nem se mexer — respondeu o enfermeiro.

A Sra. Baumann suspirou fundo.

— Agora ele deve estar querendo saber por que uma mulher estranha o beijou!

Assim que entrou no quarto do marido, a Sra. Baumann aproximou-se do leito dele e o beijou. Ainda muito abalada, ela contou-lhe o sucedido:

— Ele tinha tantos tubos e... e... eu espero não ter prejudicado aquele homem, Bernie!

O Sr. Baumann sorriu e disse à esposa que o homem devia estar se sentindo melhor do que nunca. A Sra. Baumann decidiu descer até a capela para orar por Bernie e pelo homem que ela havia beijado — e talvez prejudicado!

Alguns dias depois, o médico passou pelo quarto do Sr. Baumann antes de dar-lhe alta. — Sra. Baumann — ele disse —, achei que a senhora gostaria de saber que seu marido e meu paciente do outro lado do corredor tiveram uma recuperação milagrosa. A senhora acha que foi por causa de minha eficiência como médico, por causa de suas orações ou por causa de seus beijos apaixonados?

— Foi por causa... por causa... — ela disse, sem graça.

- Acho que foi por causa das três coisas! — complementou o médico, piscando o olho.


 

MINHA NORA

Autor Desconhecido

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Não encontro palavras para expressar

Meu agradecimento a ti, Senhor, por minha nora querida —

Essa moça, em parte mãe, porque sabe amar,

Em parte menina, em parte mulher decidida,

Que um dia meu filho encontrou

E por ele se apaixonou.

 

Eu o entreguei a ela, porque ao longo da vida

O preparei para unir-se a essa moça querida.

Jamais os prenderia com um amor egoísta,

Porque não há egoísmo que resista

A um amor tão grande, que deve ser livre e solto

Como o vento que sopra e o mar revolto.

Querido Deus, agradeço-te de todo o coração

Esta mulher encantadora e esta abençoada união.


 

O PROGNÓSTICO

Rochelle H. Pennington

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Uma jovem mãe, que contraiu um tipo de câncer com possibilidades de tratamento, retornou do hospital para casa consciente de sua aparência física e da perda de cabelos causada por exposição à radiação. Assim que ela se sentou em uma cadeira na cozinha, seu filho apareceu na porta e começou a analisá-la com ar de curiosidade.

Quando a mãe começou a tentar dizer alguma coisa para ajudar o filho a compreender o que ele estava vendo, o menino correu e sentou-se no colo dela. Ele encostou a cabeça no peito da mãe e permaneceu ali, sem se mexer.

— Um dia, talvez logo, eu vou voltar a ter a aparência de antes e vou melhorar — ela disse.

O menino continuou sentado, pensativo. Com a franqueza de uma criança de seis anos, ele disse:

— O cabelo está diferente, mas é o mesmo coração de antes.

A mãe não precisou esperar pelo “um dia, talvez logo” para melhorar. Ela já estava bem melhor.


 

O ESPÍRITO DE HOSPITALIDADE

Emilie Barnes

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

O “salão” era minúsculo, apenas um cômodo extra atrás da loja, Mas a toalha de mesa era impecável, com velas acesas, flores de cores vivas e chá exalando um aroma agradável. Acima de tudo, o sorriso era sincero e acolhedor sempre que minha mãe fazia um convite do tipo “venha até os fundos da loja para tomar uma xícara de chá”.

Quantas vezes a ouvi dizer aquelas palavras quando eu era criança! Mas eu não entendia o significado que aquele gesto teria sobre mim.

Atravessamos anos difíceis depois que meu pai faleceu. Minha mãe e eu vivíamos em três cômodos atrás de sua pequenina loja de roupas, Ela atendia as clientes, fazia ajustes nas peças e cuidava da contabilidade até altas horas da noite. Eu ficava em casa – planejando o cardápio, fazendo compras, cozinhando, limpando, lavando roupa. Também ia à escola e aprendia a cuidar da loja.

Às vezes, eu me achava uma Cinderela - trabalhando, trabalhando, trabalhando. E a garotinha que havia em mim aguardava a chegada do Príncipe Encantado para levá-la a seu castelo. Lá, eu moraria em um enorme palácio bem cuidado e teria criadas a meu dispor. Usaria roupas elegantes c receberia reis e rainhas que se encantariam diante de minha beleza e sabedoria e me ofereceriam presentes em profusão.

Mas, enquanto aguardava esse dia, eu tinha muito serviço a fazer. E, embora eu não soubesse, já estava recebendo um presente mais valioso do que receberia no castelo. Porque, ao contrário da Cinderela, eu tinha urna mãe carinhosa que compreendia o verdadeiro significado de compartilhar e de ser feliz — urna mãe que iluminava a vida de outras pessoas com o espírito de hospitalidade.

Nossas clientes aprenderam rapidamente que, além de roupas elegantes e do serviço impecável, minha mãe também lhes oferecia um ouvido amigo. Quase sempre, elas acabavam confidenciando suas mágoas e problemas com ela. E, inevitavelmente, seguia-se o convite:

— Venha tomar uma xícara de chá.

Minha mãe conduzia as clientes ao nosso cômodo principal, que servia de sala de visitas durante o dia e de quarto à noite. Ela estendia rapidamente uma toalha limpa na mesa, acendia uma vela, colocava um arranjo de flores, se possível, e aquecia o chá. Se houvesse biscoitos ou bolo de banana em casa, ela também os servia. Não havia nenhum requinte, mas o carinho que ela dispensava aquecia os corações em uma noite fria.

A disposição de minha mãe em repartir com os outros sua vida, sua casa, seu alimento e seu amor era um dom verdadeiramente excepcional. Ela o transmitiu a mim, e tenho o privilégio de transmiti-lo a outras pessoas. Como é bom ter também um espírito de hospitalidade!

 

Trate as pessoas como se elas fossem o que deveriam ser e ajude-as a se transformarem naquilo que poderiam ser.

GOETHE


 

DIPLOMA COM LOUVOR

Jean Marie Laskas

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Conheci Eileen, a esposa de meu irmão John, quando eu tinha sete anos. Naquela época, ela ainda era solteira. Eileen era uma linda moça de 19 anos com exóticas mechas loiras nos cabelos que deixavam meus pais preocupados. Gostei dela desde a primeira vez que jantou em casa.

Isso foi nos tempos das refeições formais. Eileen derrubou duas ervilhas no colo, depois mais duas e mais uma. Ela pensou que ninguém tinha visto. Quando o jantar terminou, eu lhe disse:

— Eu vi que você derrubou as ervilhas, mas não vou contar para ninguém.

Depois de 31 anos, é a primeira vez que estou revelando esse fato.

Não há nenhum problema em contar, porque ela me autorizou durante uma conversa por telefone, quando estava perto de seu 500 aniversário. Eileen descreveu como se sentia ao completar 50 anos. Com a mente em ótimas condições, ela disse, apesar de sentir que minhas irmãs e eu a havíamos superado intelectualmente. Houve ocasiões em que ela se sentiu excluída.

Para minhas irmãs e para mim, a ordem natural das coisas era cursar o ginásio e depois a faculdade. Mas Eileen precisou trabalhar, enquanto John cursava medicina. Tempos depois, ela entrou na faculdade, mas desistiu no terceiro ano. Na época, ela já tinha filhos bebês e optou por ser mãe em período integral. Nunca se viu uma mãe tão feliz.

— E você nunca soube quanto eu sofri — ela disse.

Contou-me sobre o anel de formatura que ganhou antes de abandonar os estudos. Ela o usou durante anos mas, um dia, decidiu tirá-lo do dedo.

— Uma mulher reconheceu o anel e quis saber quando eu me formei — explicou Eileen. — Eu disse a ela que ainda não havia me formado. Aí, ela perguntou por que eu usava o anel. Ela está certa, eu pensei. Estou fingindo ser alguém que não sou.

Poucos anos atrás, Eileen começou a falar em voltar para a escola. Ela não fez muito alarde disso. Não dei muita importância ao fato.

Hoje eu entendo. A quebra de urna promessa feita a nós mesmos pode ser insignificante para as outras pessoas, até imperceptível. Mas ela é como um grão de areia em nossos olhos.

Assim, Eileen inscreveu-se para fazer dois cursos na faculdade que ela havia abandonado 18 anos antes. No primeiro dia de aula, voltou a usar o anel. Comprou livros, informou-se sobre as datas das provas e pensou: Não vou conseguir de jeito nenhum.

Ela tirou um A e um B.

No semestre seguinte, inscreveu-se para fazer cinco cursos e comprometeu-se a escrever uma tese sobre Charles Dickens. Foi bem em todos e formou-se na primavera passada. Ela disse que não se sentia tão feliz assim desde os 19 anos.

A felicidade, ela explicou, não foi apenas por causa da formatura na faculdade. Ela me contou que seus filhos Joe e John preparavam o jantar quando ela estava na faculdade. Alyson, a filha, limpava a casa para que a mãe pudesse estudar. E seu marido, John, ajudou-a nas aulas de química. E sabem quem revisou sua tese? O filho mais novo, Tom, que na época estava na oitava série.

Foi por causa de sua família, e não apesar dela, que Eileen venceu. E este círculo de trabalho voluntário fez com que seus 50 anos fossem a idade mais feliz de sua vida.

 

(Reproduzida com permissão da Reader´s Digest, edição de abril de 1997.)


 

AS POINSÉTIAS

Louise Carroll

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Havia muitas poinsétias na igreja este ano, e elas eram volumosas e bem vermelhas. Como nossa classe da escola dominical se reunia na frente da igreja, o assunto principal girou em torno dessas plantas.

— São muito lindas!

— Acho que nunca vi nenhuma planta mais bonita.

E, depois, a pergunta:

— Por que sempre enfeitamos aqui com poinsétias no Natal?

Millie disse:

— Porque elas são muito belas.

Annie disse:

— Porque elas se parecem com o Natal. São verdes e vermelhas.

Bill aventurou-se a dar uma explicação:

— Talvez por causa de alguma antiga superstição que foi esquecida.

Porém, a maioria das respostas foi:

— Não sei.

Tia Jennie, que é mais sábia que todos nós, disse:

— Deus pode usá-las para um bom propósito.

No culto da véspera de Natal, as poinsétias enfeitaram toda a frente da igreja, o púlpito e os parapeitos das janelas. Certamente foram colocadas ali para dar mais beleza à cerimônia.

Na manhã de Natal, as poinsétias pareciam mais bonitas ainda. O pastor McNulty comunicou à congregação que as pessoas que haviam doado as poinsétias para enfeitar a igreja poderiam levá-las para casa depois do culto. Mas sabem como ele disse isso?

— Quem levar embora uma poinsétia, estará ajudando as senhoras que cuidam das plantas.

Bettie, de sete anos, cutucou sua irmã Bonnie e cochichou eufórica:

— Você ouviu? Ouviu? Ouviu? Agora temos um presente de Natal para dar à mamãe.

— Que bom, Bettie. Eu orei para que a gente conseguisse um presente para ela.

Bastou um olhar bondoso, mas firme, da Srta. Nelson para silenciar as duas meninas.

Depois do culto, minha amiga Ethel Foi encarregada de colocar as poinsétias em sacos plásticos para protegê-las do frio e do vento forte. Quando a maior parte das pessoas já havia saído, as duas meninas aproximaram-se de Ethel. Minha amiga reconheceu Bettie e Bonnie como as filhas de Judy, uma mãe solteira que estudava e trabalhava. Judy não frequentava a igreja, mas levava Bettie e Bonnie para participar dos trabalhos.

Bonnie, a filha mais velha de oito anos, disse com firmeza a Ethel:

— Vamos dar nossa poinsétia a mamãe como presente de Natal.

A congregação era pequena, e Ethel, encarregada de cuidar de poinsétias e de outras coisas da igreja e que gostava de anotar tudo, sabia, mesmo sem checar suas anotações, que Judy e suas filhas não haviam comprado nenhuma planta.

Ethel sorriu e disse:

— Sua mãe vai ficar muito feliz com esse presente tão lindo. Escolhendo a poinsétia mais volumosa e vermelha que encontrou, Ethel colocou-a no saco plástico e entregou-a a Bonnie. Quase pulando de alegria, as duas meninas atravessaram correndo a porta do templo.

Depois que todos foram embora, Ethel sentou-se no banco da frente por alguns instantes para pensar. Havia ainda algumas poinsétias, e ela as levaria a uma casa de repouso na segunda-feira.

Que interessante, pensou Ethel, o pastor McNulty não deixou muito claro o assunto das poinsétias. Do jeito que ele falou, parecia haver uma para cada pessoa que desejasse levá-la para casa. Ethel sorriu. Por que temos poinsétias na igreja no Natal? Tia Jennie tinha dado uma boa explicação:

— Deus pode usá-las para um bom propósito.

 

 

Planta ornamental semelhante ao bico-de-papagaio.


 

TEMPO DE OFERECER

Mary Pielenz Hampton

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Uma tarde, quando eu tinha cerca de 18 anos, saí de casa e caminhei quatro quarteirões até o centro da cidade, na esperança de encontrar alguém ou alguma coisa que me animasse. Encontrei uma amiga trabalhando em uma loja, e o dia dela foi pior que o meu. Ao sair de lá, passei por uma banca de flores ao ar livre que estava vendendo os primeiros narcisos da estação. Sua cor brilhante destacava-se, formando um contraste dramático com o tom cinzento das ruas e do céu. Comprei meia dúzia deles, na certeza de que alegrariam meu quarto.

No caminho de volta para casa, parei e ofereci dois narcisos à amiga, esperando animá-la. Um pouco mais adiante, avistei um andarilho despreocupado que fez um comentário sobre as flores. Também ofereci-lhe um narciso.

Na última esquina antes de chegar à minha casa, havia uma loja diante da qual eu passava todos os dias a caminho da igreja e da escola. Eu quase sempre cruzava com um homem que trabalhava ali. Sua voz forte destoava do corpo frágil preso a uma cadeira de rodas. Seu cumprimento era sempre caloroso e amigo, mas eu me sentia intimidada e, geralmente, dizia uma palavra ou outra e seguia apressada o meu caminho.

Naquele dia, meus pés me levaram a atravessar a faixa de pedestres e a entrar na loja antes que eu tivesse tempo de detê-los. Dirigi-me ao balcão e ofereci os três narcisos restantes a ele, dizendo:

— São para o senhor, porque estes narcisos animam as pessoas, e o senhor sempre tem uma palavra de ânimo.

Ainda sem acreditar no que eu havia feito, dei meia-volta e saí antes que ele tivesse tempo de agradecer.

Quando percorri o último quarteirão até minha casa, eu me sentia outra pessoa. Mesmo sem as flores que comprei para me animar, o brilho que partiu de dentro de meu coração iluminou meu caminho como se o Sol tivesse rompido as nuvens. O simples ato de oferecer a alguém alguma coisa que eu desejava para mim modificou minha maneira de ser. Já não me sentia intimidada por causa do homem da loja da esquina. Eu acabara de ter a noção de que podia ser uma pessoa generosa.

 

 

Plante uma palavra de amor bem no fundo do coração de uma pessoa.

Regue-a com um sorriso e uma oração e veja o que acontece.

MAX LUCADO


 

P.S. EU AMO VOCÊ

H. Jackson Brown Jr.

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

No decorrer dos anos, minha mãe tem escrito centenas de cartas à minha irmã e a mim. A parte de que mais gostamos é o P.S. que ela inclui no final de cada uma. Em poucas palavras, ela nos incentiva e inspira com observações sutis, frases bem-humoradas e conselhos carinhosos. Aqui está uma amostra dos P.S. mais apreciados por nós. Apesar de alguns terem sido escritos há mais de 40 anos, eles ainda são válidos e verdadeiros.

Y.S. A respeito de sua nota D em biologia, vou dizer apenas que, às vezes, um susto vale mais que um bom conselho. Eu amo você, Mamãe

Y.S. O tio Henry descobriu que está mesmo ficando velho, porque na semana passada ladrões arrombaram seu carro e roubaram o toca-fitas, mas deixaram as fitas. Eu amo você, Mamãe

P.S. Grandes homens mostram sua grandeza pela maneira como tratam os homens menos valorizados. Eu amo você, Mamãe

P.S. Alguém me perguntou o que fiz na semana passada. Pensei por alguns instantes e respondi: "Algumas explorações." Fiquei satisfeita com minha resposta. Eu amo você, Mamãe

P.S. Seu pai define um homem honesto como alguém com quem podemos jogar xadrez por telefone. Eu amo você, Mamãe

P.S. Seu pai diz que a inflação não arruinou tudo. Ainda podemos usar uma moeda de dez centavos como chave de fenda. Eu amo você, Mamãe

P.S. Vi uma tabuleta com a palavra FIDO' na traseira de um furgão estacionado em um posto de gasolina. Perguntei ao motorista se era o nome de seu cão. "Oh, não", ele respondeu. "É só para me lembrar que, quando alguém é grosseiro comigo na estrada, eu devo apenas dizer: "Esqueça e vá em frente." Bom conselho. Eu amo você, Mamãe

P.S. Seja mais esperto que as outras pessoas — mas não diga isso a elas. Eu amo você, Mamãe

P.S. Quando não houver nada importante ou interessante para dizer, não deixe que ninguém o convença a falar. Eu amo você, Mamãe

P.S. Lembre-se da regra de ouro (fazer aos outros aquilo que desejamos que eles nos façam). E lembre-se de que é sua vez de praticá-la. Eu amo você, Mamãe

Minha irmã e eu mal podemos esperar pela chegada de novas cartas.

 

Iniciais de "Forget It and Drive On" (Esqueça e vá em frente).


 

OBRIGADA PELO MILAGRE, MINHA IRMÃ

Jann Mitchell

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Querida irmã Sally,

Esta é uma carta de agradecimento que está sendo mostra ao público porque — conforme você diz — pode levar esperança a outras pessoas.

Quando a deixei no centro de reabilitação em meados de novembro, uma semana e meia após seu segundo derrame, aos 46 anos de idade, você estava paralisada do lado esquerdo, confinada ao leito, sem saber exatamente o que estava acontecendo. Os médicos disseram que você ia morrer ou, na melhor das hipóteses, passar o resto da vida com graves sequelas no cérebro.

Obrigada por provar que eles estavam errados.

Oh, que alegria eu senti quando você e nossa irmã mais nova, Jill, foram ao meu encontro no aeroporto em meados de janeiro, apenas dois meses depois! Lá estava você em pé, querida, apoiando-se em uma bengala, cabelos recém-cortados e arrumados e lágrimas correndo pelo rosto. Será que você estava chorando mais do que eu?

Chegamos à conclusão de que você poderia ficar algumas horas sozinha até que seu filho retornasse da escola e seu marido chegasse do trabalho. Aqueles poucos dias nos mostraram que você venceria qualquer obstáculo e me ensinaram muitas coisas.

É claro que você ficou com o braço esquerdo mais fraco e um pouco surda. Você tem dificuldade para pronunciar algumas palavras e confunde-se quando falamos rápido demais, mas continua a mesma pessoa, com inteligência aguçada, delicioso senso de humor, ponderação, generosidade e doçura de alma. Quanta gente gostaria de estar tão inteira quanto você!

E agora enxergamos um novo lado tímido e, às vezes, medroso de nossa irmã do meio, que preferia ficar em casa, ao passo que Jill e eu gostávamos de nos aventurar e de nos meter em encrencas. Obrigada por seu exemplo de coragem, firmeza e habilidade para dar um pass6 por vez diante de situações tão difíceis.

Eu a vi exercitar-se várias vezes ao dia para fortalecer o braço esquerdo: empilhando dados ou xícaras de papel, movimentando um prato de papel ao redor da mesa em forma de oito, pegando com dificuldade clipes de papel e pequenos parafusos para colocá-los dentro de uma xícara. Eu vi você digitar números no caixa automático para pegar seu extrato bancário, tendo, às vezes, de digitar tudo novamente por ter-se confundido. Eu me sentia envergonhada quando tinha preguiça de levantar-me da cama.

Obrigada pelas risadas. Quando você ia ao laboratório uma vez por semana para fazer exame de sangue, dizia que tinha um encontro marcado com "os vampiros". Ao ver as fotografias que tirei de você no hospital, com todos aqueles tubos, você disse: "Meu cabelo não estava nada bonito naquele dia!" Você é um exemplo de força de vontade.

As visitas que lhe fizemos a seu escritório nos deram a oportunidade de ver corno seus colegas gostam de você (coisa que em geral só se descobre depois que a pessoa morre). Alguns contaram que você os ajudou muito quando seus parentes sofreram derrame. Mulheres falaram de seu entusiasmo e generosidade quando tiveram bebês ou adotaram urna família no Natal. Que dose transbordante de amor!

Em várias ocasiões, você se desculpou por "estar atrapalhando". Sabe, querida Sally, que estamos muito agradecidas por poder retribuir-lhe um pouco de seu amor? Quem mais, a não ser você, daria presentes de Natal em janeiro — presentes comprados antes do derrame e que precisaram ser colocados em sacos de papel porque você não tinha condições de embrulhá-los para presente?

Obrigada por mostrar-me o que é verdadeiramente importante — e por ter dito que desistiu de reclamar com seu filho adolescente quando ele deixava o quarto desarrumado. "Eu costumava preocupar-me com coisas insignificantes, como, por exemplo, ser gorda", você dizia. "Gordura não é problema. Ter saúde é a coisa mais importante do mundo."

Vou lembrar-me disso na próxima vez que subir em uma balança.

E obrigada também pela lição de generosidade em relação a si própria. Quando você vestia a blusa do avesso e chamávamos sua atenção para isso, você não se aborrecia consigo mesma como costumamos fazer quando alguma coisa não sai bem. Você simplesmente dizia: "Opa, vesti a blusa do lado errado!" e a virava do lado certo.

Eu tenho o dom da palavra, mas você diz coisas mais bonitas. Ao ler todas as cartas enviadas por meus leitores depois que lhes escrevi sobre seu derrame, você disse entre lágrimas: "Essas pessoas são muito simpáticas, não?" E, enquanto tomava chocolate, você fez este comentário: "Estou muito feliz por não ter morrido. Eu ia sentir muita saudade de vocês."

Nós também íamos sentir muitas saudades de você, Sally. Mas quero que você saiba de uma coisa: por mais dolorosa e frustrante que essa experiência tenha sido para você e para todos os que se preocupam com seu bem-estar, ela foi rica em amor e aprendizado. Estou muito grata por isso.

Por sua causa, de agora em diante vou ser mais paciente com a pessoa que estiver andando devagar à minha frente ou tentando calcular o troco. Não sabemos o que levou essa pessoa desconhecida — pai, mãe, irmão ou irmã de alguém — a ter esse tipo de problema.

E estou feliz por você ser minha irmã. Minha irmã capaz de tantos milagres. Eu a amo,

Janny


 

OI, MEU NOME É JOEY!

Evelyn Petty

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Acredite ou não, eu estava aguardando com ansiedade as 11 horas que ficaria a bordo de um avião. Havia dois motivos. O primeiro, e mais importante, era que eu estava a caminho de Londres para visitar nossa filha e nosso genro; nove meses haviam decorrido desde nossa última visita, e eu sentia uma saudade enorme deles. Segundo, eu estava exausta tanto no físico como na mente. As cinco horas até Washington, D.C., e depois mais seis até Heathrow pareciam insuficientes para eu descansar e esquecer minha agenda frenética. Eu esperava dormir durante a maior parte do vôo. O último romance de John Grisham estava em cima dos outros objetas de minha bagagem de mão, aguardando que eu o lesse nas poucas horas em que estivesse acordada.

Atravessando o corredor com dificuldade, comecei a procurar minha poltrona. Um menino de olhos vivos cumprimentou-me com um largo sorriso.

— Oi, meu nome é Joey! Aposto que este lugar é o seu! — ele disse, pulando para o assento perto da janela. Tentei dar um tom de doçura à minha voz e disse:

— Não, acho que...

Mas, ao olhar para meu cartão de embarque, constatei que o menino estava certo. A mãe dele devia ser aquela senhora sentada do outro lado do corredor. Posso trocar de lugar com ela, pensei.

Depois de alguns instantes, percebi que minha viagem não seria conforme eu esperava. Além de estar viajando sozinho, Joey não parou de falar desde o momento em que me cumprimentou. Ele era um menino de seis anos, sorridente, loiro, de olhos azuis e esperto. Quando a comissária de bordo piscou para mim, comecei a perceber que meu descanso "já era". Ansiando por um vôo tranquilo conforme eu imaginara, tentei não dar atenção a Joey, mas ele fazia uma pergunta atrás de outra na tentativa de puxar conversa. Deu certo.

Assim que o avião afastou-se do portão, perguntei-lhe para onde ele estava indo. O largo sorriso desapareceu enquanto ele me contava que estava voltando para Richmond, Virginia, onde morava com o pai.

— Fiquei duas semanas em Portland com minha mãe. — Depois de uma longa pausa, ele prosseguiu. — Eu queria morar com ela. — Lágrimas começaram a correr por seu rosto. — Gosto muito de minha mãe e não queria ir embora.

Quando o avião ganhou altitude, meu único pensamento era se as cinco horas seriam suficientes para eu confortar o coração de um menino de seis anos.

Não me lembro de tudo o que eu disse, mas logo em seguida ele mudou de assunto. O sorriso voltou, e lemos juntos, brincamos e colorimos desenhos. Enquanto saboreávamos torradas francesas com salsicha e muito molho, Joey falava tudo o que lhe vinha à mente. Em certo momento, ele disse, com ar inocente:

— Eu gosto de cerveja. Minha mãe e o namorado dela me deixaram experimentar um pouco.

Eu expliquei a Joey, com firmeza, por que ele não devia tomar cerveja ou qualquer outra bebida alcoólica, pensando o tempo todo: Que tipo de vida está reservada para este menino?

Depois de mais ou menos quatro horas de vôo, Joey começou a ficar sonolento. Tirou os sapatos, deixando-os no chão perto de mim, deitou a cabeça em meu colo e dormiu. Lágrimas sufocavam-me, enquanto eu orava por ele. Joey conseguira um lugar em meu coração.

Depois de algum tempo, notei a presença da comissária de bordo curvada sobre nós com duas caixas de lanche e um olhar dando a entender que queria conversar comigo. Ela agradeceu-me tudo o que eu havia feito por Joey e abaixou a voz ao dizer que tinha sido encarregada em Portland de cuidar dele durante a viagem.

— A mãe dele atirou em minhas mãos a passagem e o documento do filho e foi embora com três sujeitos. Ela nem sequer deu um beijo de despedida em Joey!

O verdadeiro caráter da mãe de Joey estava começando a tomar forma para mim. Que sonhos passariam pela cabeça daquele menino loirinho, sonhos que tentavam transformar a vida real em algo mais suportável?

Logo a seguir, o piloto avisou que devíamos atar os cintos de segurança para a aterrissagem. Peguei duas barras de chocolate das caixas, enquanto a comissária se afastava para atender os outros passageiros. Passei o cinto de segurança ao redor de Joey. Quando as rodas bateram na pista, ele arregalou os olhos.

— Estamos em Washington, D.C. — eu disse onde seu pai vai se encontrar com você, Joey. Tenho algo para você. — Mostrei-lhe as duas barras de chocolate. — Uma é para você; a outra, para seu pai.

Ele endireitou-se na poltrona e deu-me um forte abraço.

— A senhora é a mulher mais linda que eu conheci! — ele exclamou. — Não me esquecerei da senhora pelo resto da vida.

Nem eu de você, pensei, sorrindo sobre seu ombro e piscando para estancar as lágrimas. Vou orar por você, Joey, todas as vezes que eu vir um menino sozinho em um avião. Todas as vezes que eu vir uma barra de chocolate. Todas as vezes que ler sobre uma criança que está pagando a preço por ter pais irresponsáveis.

Enquanto eu fazia a conexão para o próximo vôo, senti tristeza por aquela criança, mas também gratidão a Deus por Ele ter-me concedido o privilégio de dar carinho a alguém tão carente de amor e atenção. Joey vai fazer parte de minha vida para sempre.


 

COM A AJUDA DE UMA CRIANÇA

Liz Curtis Higgs

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Karyn, do Missouri, estava tentando ajudar seus filhos a desenvolver a autoestima. Quando os ouvia depreciando-se ("Sou um idiota", "Sou feia", "Não consigo fazer nada certo"), ela fazia um sinal com a mão, e eles mudavam imediatamente a atitude para "Sou muito esperto, sou talentoso, posso fazer tudo o que desejar, gosto muito de mim". Certa manhã, enquanto aprontava-se para uma palestra na comunidade, ela começou a revisar mentalmente as atividades do dia.

— Um pensamento começou a martelar minha mente — ela conta. — A reunião está marcada para as 9h30 ou para as 8h30?

Eu iria me lembrar do horário, com certeza. Mas a dúvida persistia. Saí do chuveiro e telefonei para minha coordenadora. O marido dela disse: "Faz tempo que Cyndi saiu. A palestra começou uma hora atrás." Meus temores transformaram-se em realidade. Como eu poderia ter cometido tal negligência? Gritei para meus filhos: "Peguem suas roupas e vistam-se rápido! Temos de sair já!"

— Enquanto eu me maquiava, murmurava para mim mesma: "Sou uma idiota. Não mereço essa responsabilidade. Que tolice pensar que..." Correndo de um lado para o outro censurando-me, meu filho mais novo aproximou-se de mim, segurou carinhosamente meu rosto, olhou dentro de meus olhos e disse: "Você é muito bonita, muito esperta, tem muito talento, pode fazer qualquer coisa que quiser e nós amamos você!"


 

INTERRUPTORES DE LUZ

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Palavras de incentivo proferidas por pais e mães são como interruptores de luz, Dizer uma palavra de incentivo no momento certo na vida de uma criança é como acender a luz de um cômodo repleto de possibilidades.

Gary SMALLEY E JOHN TRENT

 


 

NÃO É O MEU ESPORTE FAVORITO

Betty J. Johnson

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

- Ei, garotos! Levantem-se e mãos à obra. Hoje vou inscrever vocês no time de beisebol.

Foi assim que uma jovem mãe chamou seus filhos trigêmeos.

Os irmãos sonolentos desceram a escada cambaleando, sentaram-se nos banquinhos com os cotovelos apoiados na mesa, segurando o queixo com as mãos, à espera do café da manhã, e disseram:

— Queremos um pouco de cereal, por favor.

Depois de resmungar por cinco minutos, Riley, o mais sincero de todos, choramingou:

— Mãe, por que eu tenho de jogar? Você sabe que beisebol não é o meu esporte favorito. Gosto de jogar futebol e hóquei.

Sabendo que Riley era tímido e ficava ansioso diante da perspectiva de uma nova atividade, a mãe sugeriu:

— Tente jogar beisebol durante um ano com Nate e Kit, por favor. Se, depois disso, você continuar achando que não é o “seu esporte favorito”, não vou insistir no próximo ano. Tudo bem?

— Tudo bem — murmurou Riley.

Três semanas depois, no dia do primeiro jogo, Riley resmungou o tempo todo a caminho do campo de beisebol.

— Eu disse que esse não era o meu esporte favorito, mãe — ele justificou-se, — Eu preferia não ter sido inscrito.

Durante a primeira parte do jogo — em que as equipes se alternam no ataque e na defesa — havia um loirinho usando uma camiseta amarela grande demais para seu tamanho rondando a primeira base. De repente, o primeiro batedor arremessou uma bola e ela atingiu o solo perto de Riley. Riley abaixou-se, rebateu a bola e correu para a base. O batedor seguinte fez um drible para o lançador, que arremessou a bola para Riley. Riley ajeitou a luva, pegou a bola e tocou a base.

Ele virou-se para a arquibancada, olhou para sua mãe, tocou a ponta do boné, abriu um largo sorriso desdentado e levantou o polegar.

No caminho de volta, os três meninos, eufóricos, riam e falavam o tempo todo. Quando chegaram perto de casa, Riley aproximou-se do banco da frente, encostou a cabeça no ombro da mãe e disse:

— Ei, mãe, aposto que você não sabia que eu podia jogar tão bem na primeira base, não?

— Bom, Riley, achava que você poderia jogar, mas não sabia que jogava tão bem — ela disse.

— Nem eu, mãe — ele cochichou. — Nem eu.

 


 

O BOLO MAIS LINDO QUE JÁ VI

Ellen Javernick

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Era o bolo mais lindo do mundo. Na época, eu tinha sete anos, mas ainda me recordo muito bem dele. Minha mãe e eu o preparamos juntas. Eu quebrei os ovos e medi o açúcar. Untei as fôrmas cuidadosamente para que os bolos não grudassem. Batemos muito bem a massa. Não queríamos que ficasse granulosa. Minha mãe colocou as assadeiras no forno. Ajustei o marcador de tempo. Minha mãe subiu a escada para dobrar as roupas, e eu fiquei sentada na cozinha fazendo um cartão de aniversário para meu pai. O bolo era para ele e teria de ficar perfeito.

O marcador de tempo ainda não havia tocado, mas eu não podia esperar mais. Abri o forno para dar uma espiada. Os bolos estavam lindos — crescidos no centro e dourados nas bordas. De repente, ouvi minha mãe descendo a escada. Sentindo uma dose de culpa por ter aberto o forno antes da hora, fechei-o com força. Fiz isso no momento errado. Os bolos ainda estavam crus e murcharam. Quando minha mãe abriu a porta do forno alguns minutos depois, nossos lindos bolos pareciam sopa dentro da tigela.

Comecei a chorar copiosamente. Nossa linda surpresa estava arruinada!

— Vamos ver se podemos dar um jeito — minha mãe disse enquanto eu soluçava. — O que podemos fazer com esses bolos tão esquisitos? — Ela começou a preparar o glacê.

— A camada branca vai dar um aspecto melhor — ela prosseguiu. Em seguida, desenformou os bolos sobre um tabuleiro deixando-os esfriar. — Veja como eles ficaram bonitos depois de tirados das assadeiras.

Tive de admitir que pareciam bonitos, mas apontei para a parte afundada no centro.

— Você tem razão — minha mãe disse. — Vou tirar essas partes.

Nós duas provamos um pedaço e concordamos que estava delicioso.

— Mas o aspecto continua horrível — insisti.

Minha mãe não desanimou.

— Vá pegar algumas margaridas lá fora — ela disse —, enquanto eu monto os bolos e passo o glacê.

Quando retornei com as flores, o bolo coberto com glacê estava com uma aparência razoável.

— Agora — disse minha mãe, pegando um vidro de geleia no armário —, vamos colocar as margaridas no buraco do centro. Veja? O que você acha?

— É o bolo mais lindo do mundo — eu disse.

Nunca me esquecerei da lição aprendida com minha mãe. A vida nem sempre é feita de bolos dourados e crescidos ou de dias perfeitos. Porém, temos de superar os fracassos; enfrente-os e transforme-os em sucessos, quer você tenha sete ou 77 anos.

 

 

Sempre é cedo demais para desistir:

Nunca é tarde demais para começar.

ANÔNIMO

 

 

Os sorrisos são para a humanidade o mesmo que a luz do Sol é para as flores. Parecem insignificantes, mas, quando espalhados ao longo da vida, fazem um bem extraordinário.

JOSEPH ADISSON

 


 

UMA ESTRELA NA MAÇÃ

James Dobson

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Há pais que vêem os filhos como suas "estrelas" favoritas, mas certa mãe que eu conheço diz carinhosamente que seus filhos são a "estrela" da maçã.

Certo dia, ao cortar uma maçã ao meio, no sentido horizontal, em vez de cortá-la em gomos, essa mãe descobriu uma coisa curiosa. As pequeninas sementes no centro da maçã formavam uma estrela perfeita de cinco pontas. Ela nunca tinha visto isso antes, porque sempre cortava a maçã em gomos.

Existe aqui uma analogia com as crianças que me deixa intrigado. Quase todos nós olhamos para essas criaturinhas, às quais damos o nome de filhos, da mesma maneira, ano após ano — e deixamos de enxergar as qualidades de caráter que elas possuem. Talvez não estejamos vendo a "estrela" no cerne dessas vidas que começam a desabrochar.

Se tentarmos enxergá-las com outros olhos daqui em diante, é provável que passemos a conhecer uma nova e maravilhosa dimensão da personalidade delas que não vimos antes. Faça uma tentativa! Comece a ver seus filhos por um novo ângulo.

Existe, eu afirmo, uma estrela escondida dentro de cada menino e de cada menina.


 

AMOR APAIXONADO

Elisa Morgan e Carol Kuykendall

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

- Vou embora para casa!

A frase partiu de Madeline, uma menina de quatro anos que estava brincando na calçada, duas casas abaixo, com os amiguinhos da vizinhança. Sharon, sentada nos degraus da frente de sua casa, levantou os olhos da revista que estava lendo e viu a filha correndo em sua direção. A menina sentou-se no degrau perto da mãe, cruzou os bracinhos roliços ao redor do corpo e fez beicinho, conforme era seu costume quando estava decidida a não chorar.

— Eles não gostam de mim — ela disse à mãe. — Não querem que eu brinque com eles.

Suas palavras foram seguidas por lágrimas, que corriam por suas bochechas angelicais.

— Conte-me o que aconteceu, meu amor — disse Sharon passando o braço ao redor da filha.

Madeline disse, com voz entrecortada por soluços sentidos.

— Jacob não me deixou pegar a lanterna dele! Disse que sou criancinha e que vou quebrar a lanterna! Ele é muito mau, mamãe! Eu não sou criancinha!

Exausta depois dessa explosão de raiva, ela aninhou a cabeça no braço da mãe.

Sharon acariciou os cabelos de Madeline. Era muito doloroso ver sua filha ser rejeitada e mal compreendida daquela maneira. Ela sabia que, como mãe, não poderia impedir as mágoas e ofensas que sua filha sofreria no mundo. Talvez pudesse amenizar o impacto com amor e incentivo.

Colocando Madeline no colo, Sharon ajeitou carinhosamente os cabelos da filha para trás e beijou-a na testa. Em seguida, colocou-a sobre seus joelhos, segurou-lhe as mãos e fixou o olhar naqueles olhos grandes e tristes.

— Madeline, você sabe que é uma menina maravilhosa? — ela perguntou.

Madeline balançou a cabeça negativamente e passou a mão nos olhos para enxugar as lágrimas.

- Madeline, você é a menina mais linda deste mundo! Eu adoro este seu narizinho. — Sharon tocou-o de leve. — Eu adoro estas bochechas rosadas. — Ela as acariciou. — Eu adoro estes olhinhos e estas orelhinhas. beijou os olhos e as orelhas da filha. — Eu adoro você, desde a cabeça até os dedinhos dos pés. — Ela beijou a cabeça de Madeline e afagou seus pezinhos calçados com sandálias. — Eu adoro seu coração, sua bondade, suas ideias engraçadas, seu espírito doce e generoso.

Madeline parou de chorar e fitou a mãe com os olhos arregalados. Ela inclinava a cabeça mais para a frente após cada frase, ria enquanto a mãe a beijava e acompanhava atentamente cada palavra. Com a alma sedenta de afeto, ela abriu os braços, como um filhote de passarinho, para receber o carinho da mãe.

Finalmente, Sharon apertou a filha de encontro ao peito. — Oh, Madeline — ela exclamou. — Eu sou apaixonada por você !


 

CONVERSANDO COM MEUS MENINOS

John Trent

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Todas as vezes que falamos sobre o assunto da comunicação em Família, vem-me à memória uma cena de nossa casinha quando eu cursava o ensino médio. Eu me recordo do que meu irmão gêmeo e eu fazíamos quando voltávamos para casa depois de nossas saídas à noite.

Fosse qual fosse a hora, às 23h30, nos fins de semana comuns, ou às 2 horas da madrugada, quando havia baile no colégio, entrávamos no quarto da mamãe, deitávamos em sua cama, um de cada lado, e contávamos o que havia acontecido.

Às vezes, ficávamos ali, no escuro, conversando durante horas. Mamãe parecia estar ouvindo um aparelho de som estéreo, com um filho gêmeo de cada lado, rindo, recordando, reclamando, sonhando acordados, conversando sobre nossos planos, esperanças, medos e experiências.

Embora eu não tenha certeza de se uma pessoa mais sensível já teria se dado conta disso antes de nós, chegou o dia em que começamos a perceber que a mamãe precisava Levantar-se cedo na manhã seguinte, a fim de trabalhar para sustentar a família. Talvez ela preferisse não ser despertada quando voltávamos para casa tarde da noite. Certo dia, mencionei isso a ela e jamais esquecerei sua resposta:

— John — ela disse. — Eu sempre posso voltar a dormir. Mas não poderei conversar sempre com os meus meninos.


 

O SEGUNDO VIOLINO

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Alguém perguntou ao maestro de uma grande orquestra sinfônica qual era o instrumento que ele considerava mais difícil de tocar.

— O segundo violino — respondeu o maestro. — Posso ter um grande número de primeiros violinistas, mas se não encontrar alguém que toque o segundo violino com entusiasmo... vou ter problemas. Se não houver um segundo violino, não haverá harmonia! Autor Desconhecido

 


 

BILHETINHOS DE AMOR

Dale Hanson Bourke

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

- Então, foi você que começou toda essa confusão! — disse-me uma senhora bem-vestida quando eu me apresentei. Olhei para ela sem demonstrar reação alguma. Em pé, no meio da sala de aula de nossos filhos, eu não fazia ideia do que ela estava falando.

— Os bilhetinhos - ela explicou. — Estou falando dos bilhetinhos nas lancheiras dos alunos. Por causa de seu filho, todas as crianças agora também querem esses tais bilhetinhos.

De queixo caído, ouvi a senhora falar, sem imaginar que alguém tivesse tomado conhecimento dos bilhetinhos que eu colocava todos os dias na lancheira de Chase. Aparentemente, ele devia tê-los mostrado a seus colegas, que também pediram bilhetinhos às suas mães.

Em geral, eu escrevia os bilhetinhos para meu filho tarde da noite, antes de dormir, ou logo cedo no dia seguinte, antes que alguém acordasse. Com os olhos turvos de sono, eu fazia desenhos ou escrevia frases simples, de fácil compreensão para Chase. Esses bilhetinhos eram a minha maneira de ajudá-lo a atravessar o longo dia na escola. Minha intenção era transmitir-lhe ânimo na hora do lanche e fazê-lo lembrar-se de que ele era uma pessoa especial.

Agora, eu me dava conta de que os bilhetinhos faziam uma grande diferença para Chase, Ele se sentia tão feliz que os mostrava aos colegas. E todos queriam sentir-se especiais como ele.

Todas as noites, quando esvaziava a lancheira de Chase, eu encontrava o bilhetinho do dia, com marcas de dedos engordurados.

Eu sorria, imaginando a expressão dele ao ler o bilhetinho enquanto comia o lanche.

Certo dia, encontrei na lancheira apenas migalhas de pão e uma cenoura comida pela metade.

— Onde está o bilhetinho, Chase? — perguntei.

Ele olhou para mim um pouco sem graça.

— Desculpe-me, mãe. Eu dei o meu bilhetinho ao Jimmy.

— Por quê?

— Ele nunca recebeu nenhum bilhetinho. Achei que podia dar o meu a ele — respondeu Chase, olhando-me de lado, à espera de minha reação.

Ele ficou aliviado quando me curvei e o abracei. A mãe de Jimmy era solteira e trabalhava horas a fio para sustentar a família. Fiquei orgulhosa por meu filho ter passado seu precioso bilhetinho ao Jimmy. 

— Você é um garoto especial — eu lhe disse.

— Eu sei.

Não tive outra reação a não ser rir. Eu havia imaginado que Chase necessitava de um bilhetinho por dia para lembrar-se de que era especial. Mas era ele quem estava fazendo seus colegas se lembrarem de que eram especiais. E o mais importante de tudo era que ele também estava me lembrando disso.

 

 

Os faróis não tocam sinos nem disparam armas para chamar atenção para sua luz... eles simplesmente brilham.

AUTOR DESCONHECIDO


 

VOVÓ BRAND

Paul Brand

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Há uma pessoa que se sobressai acima de todas as outras que exerceram influência em minha vida: minha mãe, conhecida como vovó Brand. E eu me refiro a ela dessa maneira com muito carinho e amor. Ao chegar à velhice, minha mãe já havia perdido grande parte de sua beleza física. Ela foi uma jovem muito bonita — tenho fotografias dela para comprovar —> mas sua beleza clássica desapareceu. As condições inóspitas de vida na Índia, aliadas a quedas por fraqueza nas pernas e suas lutas contra o tifo, disenteria e malária reduziram-na a uma figura magra e corcunda. Os anos de exposição ao vento e ao Sol enrijeceram a pele de seu rosto, dando-lhe um aspecto de couro, e causaram rugas tão profundas e extensas como eu nunca vi em nenhum outro ser humano. Ela sabia muito bem que sua beleza desaparecera havia muito tempo e, por esse motivo, recusava-se terminantemente a ter espelhos em casa.

Aos 75 anos, enquanto trabalhava nas montanhas do sul da Índia, minha mãe levou uma queda e fraturou o quadril. Ficou caída a noite inteira no chão, sofrendo dores, até que um trabalhador a encontrou na manhã seguinte. Quatro homens a transportaram montanha abaixo em uma maca feita de corda e de madeira e a colocaram dentro de um jipe, que rodou quase 250 quilômetros por estradas esburacadas. (Ela já havia feito essa viagem após ter caído do cavalo, de ponta-cabeça, em uma trilha rochosa na montanha, e também já havia sofrido uma leve paralisia abaixo dos joelhos.)

Logo a seguir, programei uma visita à minha mãe em sua casa de taipa nas montanhas a fim de convencê-la a parar de trabalhar. Na época, ela só conseguia andar com a ajuda de duas varas de bambu mais altas que ela, fincando as varas no chão e levantando as pernas a cada passo doloroso, para impedir que seus pés paralisados arrastassem no chão. Apesar disso, ela continuou a viajar a cavalo e a acampar em povoados longínquos para pregar o evangelho, tratar dos enfermos e extrair os dentes podres dos camponeses.

Cheguei munido de argumentos convincentes para que ela se aposentasse. Não era seguro morar sozinha em um lugar tão distante, tendo de viajar durante um dia inteiro para encontrar assistência médica. A falta de equilíbrio e as pernas paralisadas representavam-lhe um risco constante. Ela já havia sofrido fraturas nas vértebras, nas costelas e no fêmur, pressão nas raízes dos nervos da coluna dorsal, concussão no cérebro e infecção grave na mão.

- Até mesmo as pessoas mais sadias do mundo precisam aposentar-se quando chegam aos 70 anos — eu disse, com um sorriso.

— Que tal a senhora morar perto de nós, em Vellore?

A vovó Brand refutou meus argumentos por achá-los absurdos e repreendeu-me. Quem daria continuidade ao trabalho? Não havia outra pessoa nos limites da montanha que pudesse pregar, curar feridas e extrair dentes.

- De qualquer modo - ela concluiu -, de que adiantaria preservar meu velho corpo cansado se ele não for usado onde Deus necessita de mim?

E ela continuou lá. Dezoito anos depois, aos 93 de idade, ela deixou, com relutância, de montar seu pônei, porque estava caindo com muita frequência. Os dedicados camponeses indianos começaram a transportá-la de uma cidade para outra em uma rede. Depois de mais dois anos de trabalho missionário, ela morreu, com 95 anos. Foi enterrada, a seu pedido, em cova rasa e enrolada em um lençol usado - sem caixão. Ela abominava a ideia de gastar madeira preciosa em caixões. E gostava do simbolismo de retornar seu corpo físico à terra ao mesmo tempo em que seu espírito era libertado.

Uma das últimas e mais fortes lembranças que guardo de minha mãe está no povoado das montanhas que ela amava, talvez na última vez que a vi em seu ambiente — sentada em um muro baixo de pedra que circunda o povoado e cercada de gente por todos os lados. Todos estão ouvindo o que ela tem a dizer sobre Jesus. Eles movimentam a cabeça em sinal de incentivo e fazem perguntas profundas, querendo aprender mais. Os olhos úmidos de vovó estão brilhando, e, em pé a seu lado, posso visualizar o que ela deve estar enxergando através da vista enfraquecida: rostos com ar compenetrado olhando com absoluta confiança e afeição para aquela mulher que eles aprenderam a amar.

Apesar de minha relativa juventude é vigor e de meus conhecimentos especializados na área de saúde e em técnicas de agricultura, sei que jamais teria condições de atrair esse tipo de devoção e amor que ela conseguiu atrair. Eles estão olhando para um rosto marcado pelas rugas, mas sua pele enrugada torna-se diáfana e ela irradia um espírito fulgurante. Para eles, ela é linda.

Vovó Brand não precisava de um espelho feito de vidro e cromo polido; ela possuía os rostos cintilantes de milhares de camponeses indianos. Sua imagem física debilitada tinha uma só finalidade: tornar a imagem de Deus mais reluzente, como se ela própria fosse um farol.

 

 

A melhor maneira de acabar com um mau hábito é abandoná-lo de vez! ANÔNIMO


 

AS ROUPAS DE ROBERT

Dr. James Dobson

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Por falta de liderança dos pais, algumas crianças tornam-se extremamente  irritantes e rebeldes, principalmente em locais públicos. Talvez o melhor exemplo tenha sido o de um menino de dez anos chamado Robert, que era paciente de meu bom amigo, o Dr. William Slonecker. O Dr. Slonecker dizia que os funcionários da pediatria detestavam os dias em que Robert tinha consulta marcada com ele. O menino atacava literalmente a clínica, destruindo aparelhos, pastas de arquivo e telefones. Sua mãe limitava-se a sacudir a cabeça passivamente, com ar desconcertado.

Durante um exame físico, o Dr. Slonecker notou cáries profundas nos dentes de Robert. O menino precisava ser levado a um dentista. Mas a quem ele atribuiria tal honra? Recomendar um paciente como Robert significaria o fim de um relacionamento profissional. Finalmente, o Dr. Slonecker decidiu encaminhá-lo a um dentista mais velho, que, conforme diziam, sabia lidar com crianças. A cena que se seguiu faz parte de um dos clássicos momentos da história do conflito humano.

Robert chegou ao consultório dentário preparado para a guerra.

— Sente-se nesta cadeira, rapaz! — disse o dentista.

- De jeito nenhum! — replicou o menino.

— Filho, eu lhe disse para sentar-se nesta cadeira, e é o que estou esperando que você faça.

Robert olhou firme por alguns instantes para seu oponente e disse:

— Se você me obrigar a subir naquela cadeira, vou tirar toda a roupa.

O dentista disse com toda a calma:

— Pode tirar, filho.

Imediatamente, o menino tirou a camisa, a camiseta, os sapatos, as meias, e olhou para o dentista com ar desafiador.

— Tudo bem, filho — disse o dentista. — Agora sente-se na cadeira.

- Você não ouviu o que eu disse — esbravejou Robert. – Eu disse que, se você me obrigar a sentar naquela cadeira, vou tirar toda a roupa.

— Pode tirar, filho.

Robert tirou a calça e a cueca e ficou totalmente nu diante do dentista e de seu assistente.

— Agora, filho, sente-se na cadeira.

O menino obedeceu e sentou-se, comportando-se convenientemente durante o tempo todo. Depois que as cáries foram eliminadas com o motor e os dentes obturados, ele recebeu ordens de descer da cadeira.

- Agora me dê as minhas roupas — disse o menino.

— Sinto muito — replicou o dentista. — Diga à sua mãe que suas roupas vão ficar guardadas aqui esta noite. Ela poderá vir buscá-las amanhã.

Você é capaz de imaginar o susto da mãe de Robert quando a porta da sala de espera foi aberta e lá estava o seu filho com o rosto ardendo de vergonha, nu como veio ao mundo? A sala estava lotada de pacientes, e Robert e sua mãe tiveram de passar por eles. Seguiram até o elevador e, depois, ao estacionamento, sem fazer caso dos risos das pessoas.

No dia seguinte, a mãe de Robert voltou ao consultório para buscar as roupas do filho e pediu para falar com o dentista. No entanto, ela não foi até lá para protestar. Esta foi sua reação:

— O senhor não sabe como eu gostei do que aconteceu aqui ontem. Robert tem-me chantageado durante anos com essa história de tirar a roupa. Sempre que estamos em lugares públicos, como, por exemplo, em supermercados, ele começa a me fazer exigências absurdas. Se eu não compro o que ele quer, ele ameaça tirar toda a roupa. O senhor foi a primeira pessoa que não se intimidou com essa ameaça, doutor, e o impacto. que isso causou sobre Robert foi incrível!


 

SEMEANDO AMOR

Gladys Hunt

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Nossos vizinhos da pequena casa ao lado eram terríveis. Além de mexeriqueiros e maledicentes, também eram barulhentos e briguentos. Os filhos tinham o hábito de apropriar-se dos bens alheios — uma forma gentil de dizer que não passavam de um bando de delinquentes juvenis. Coletivamente, eram um espinho na carne da vizinhança.

Perto de nosso terreno e fazendo sombra na janela da cozinha deles, havia um pessegueiro tão maltratado como nunca se viu. Quando chegava a primavera, a velha árvore retorcida conseguia, com grande esforço, reunir todas as suas forças para produzir algumas folhas e algumas flores. Na época apropriada, as flores transformavam-se em minúsculos pêssegos verdes e duros que nunca chegavam a amadurecer. Os pêssegos só serviam para uma coisa — ser atirados longe. E você pode adivinhar quem os atirava e onde... Sempre tinha sido assim. A árvore era tão improdutiva que mamãe decidiu cortá-la e colocar flores em seu lugar.

Não demorou muito para que sua decisão chegasse aos ouvidos dos vizinhos. Eles pediram a ela que não cortasse a árvore, porque aquela era a única que havia para dar sombra à sua cozinha. A cozinha tinha teto plano e ficava exposta ao Sol inclemente de Illinois. Seria uma cena tentadora ver aqueles malandros sufocando no calor da cozinha... Havia até certa justiça poética nisso; eles nos irritavam com tanta frequência que poderíamos ser induzidos a ver um elemento profético naquela situação. Mas mamãe era cristã e acreditava que devia agir como tal, Ela disse:

- Claro que vou deixar a árvore lá.

E foi o que ela fez.

Quando a primavera chegou naquele ano, uma coisa maravilhosa aconteceu com aquela árvore. Os velhos galhos secos desapareceram e começaram a florescer. As flores transformaram-se em nossos velhos e conhecidos pêssegos — pequeninos, verdes e duros — e, depois. maravilha das maravilhas, amadureceram e tornaram-se frutos doces e deliciosos.

Saboreamos todos os pêssegos que pudemos. Mamãe distribuiu alguns aos vizinhos, inclusive aos desagradáveis, e preparou vidros de conserva em quantidade suficiente para durar até o ano seguinte.

Depois de alguns meses, os vizinhos mudaram-se dali. Não estou sugerindo que haja qualquer relação entre o que aconteceu, estou apenas relatando os fatos. Bem, eles se mudaram, e naquele ano, ou no seguinte, a árvore morreu.

A árvore nunca havia produzido bons frutos antes; e nunca mais voltou a produzi-los: foi só naquele ano. Sei que alguns de vocês estão pensando - a árvore teria produzido frutos mesmo que mamãe não tivesse sido tão bondosa; deve ter havido algo em relação ao clima naquele ano ou a algum elemento químico agindo de modo especial. Não sei por que aquilo aconteceu; não estou afirmando nada. Mas de uma coisa eu sei: se ela tivesse retribuído o mal com mal, nada teria acontecido, porque não haveria árvore, e um menino teria perdido uma bela experiência e uma das lições mais profundas de sua vida.

Mamãe teve a oportunidade de revidar, mas, ao contrário, semeou amor e recebeu como recompensa uma maravilhosa colheita. Houve a colheita da árvore, mas também houve uma colheita no coração dela, no meu e no de muitas outras pessoas.


 

ELA ERA UMA MULHER LINDA

Sandy Snavely

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Enquanto eu revia algumas fotografias antigas, deparei com a foto de uma jovem na praia. Seu rosto parecia familiar. Fixei o olhar nela por alguns instantes e levei um susto ao reconhecer aquela moça atraente, pulando as ondas, sem nenhuma ruga no rosto. Era eu. Uma tristeza momentânea tomou conta de meu coração, enquanto eu pensava na rapidez com que o tempo havia passado e na inflexibilidade do processo de envelhecimento.

Alguns rostos são facilmente esquecidos, mas há um que nunca se apagou de minha memória. Foi um dos rostos mais belos que já vi.

Eu a conheci em uma casa de repouso, onde eu conversava com os pacientes idosos que lá moravam para distraí-los. À medida que eu passava de quarto em quarto, minha peruca colorida, meus sapatos grandes e moles e meu nariz vermelho de palhaço formavam um estranho contraste com as cruéis consequências da velhice. Ali, em um daqueles quartos minúsculos, descobri a mulher que redefiniu a imagem que eu tinha a respeito da beleza.

Seu corpo frágil estava amarrado nas grades de um leito de hospital. Longos fios de cabelo, brancos como a neve, emaranhavam-se sobre o travesseiro de algodão que servia de apoio para sua cabeça. O rosto magro, de pele branca como marfim, revelava os contornos de suas bochechas e queixo delicado. Com seus dedos esguios, ela puxou meu rosto para perto do dela. Foi então que nossos olhos se cruzaram e o reflexo de sua alma atraiu minha atenção. Com o ouvido perto de seus lábios, eu a ouvi cantar para mim o final da história de sua vida: “Jesus, Jesus, oh! como eu te amo.”

Havia uma delicada firmeza em suas palavras. Senti-me pequenina ao lado dela, com meu tolo disfarce. Pensei estar ali para levar alegria às pessoas cujas vidas se aproximavam do fim. Mas foi ela que me proporcionou alegria.

Seu cântico foi o testemunho de uma mulher, cujo encanto ainda residia no coração de um corpo que rapidamente se deteriorava. Involuntariamente, ela deixou um legado de beleza que ainda entoa uma serena mensagem ao meu coração.

As fotografias servem apenas para contar uma parte da história, mas nosso coração revelará o verdadeiro valor de nossa vida. Talvez um dia, quando meus filhos crescerem, eles também vão folhear nossos velhos álbuns de fotografias. Espero que eles se sintam atraídos não por aquela jovem de rosto liso pulando as ondas, mas pelo rosto maduro da mulher que eles conheceram como mãe.

Naquele dia, espero que eles enxerguem um pouco mais além do rosto envelhecido nas fotos e digam:

— Ela era uma linda mulher.

 

 

Nunca fale mal de alguém, a menos que seja alguma coisa tão grave que as outras pessoas se sintam no dever de escondê-la.

WILLIAM PENN


 

O CORAÇÃO DE PAPEL

Gigi Graham Tchividjian

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Nossas vozes elevaram-se diante da intensidade da discussão.

Estávamos trocando palavras que não queríamos. Expondo assuntos que não eram relevantes. Revivendo mágoas passadas, esquecidas mas nunca perdoadas.

Nenhum de nós tinha a intenção de transformar uma simples discussão em um debate acalorado.

Era tarde, e nós dois estávamos cansados. Muito cansados. Stephan e eu havíamos atravessado um longo dia de estresse, tensão e pequenas crises. Todos os dias, eu me via puxada para dez direções diferentes: filhos, roupas para lavar, compras no supermercado, prazos para cumprir, amigos pedindo conselhos, cartas necessitando de respostas e o telefone que não parava de tocar. Eu me sentia abatida e exausta além da conta.

Stephan também havia atravessado um dia difícil, lidando com homens e mulheres cujas vidas estavam desmoronando. Ao chegar em casa, depois de uma hora preso no trânsito, ele encontrou os filhos querendo sua atenção, uma lista de pacientes para quem precisava telefonar e uma pilha de contas para pagar. Passamos o início da noite esforçando-nos para não gritar, tentando controlar nossos nervos em frangalhos.

De repente, uma desavença insignificante acelerou o processo de descontrole.

Quando já estávamos aos gritos, a porta de nosso quarto foi entreaberta. Lentamente. Silenciosamente. Uma mãozinha esgueirou-se pela fresta e colocou alguma coisa na porta. Imediatamente, a mãozinha sumiu e a porta foi fechada. Curiosa, eu me levantei para investigar. Preso na porta com fita adesiva havia um pequeno coração de papel pintado de vermelho, com as seguintes dizeres: “Eu amo a mamãe e o papai”.

Anthony, nosso filho de oito anos, estava fazendo sua parte em prol da paz na família.

De repente, lembrei-me do versículo: “Um pequenino os guiará” (Isaías 11.6). Lágrimas de vergonha molharam meu rosto. Stephan e eu olhamos um para o outro, ambos arrependidos por termos permitido que nossas emoções exacerbadas tomassem conta de nós e prejudicassem nosso lar.

Nem sequer me lembro sobre o que Stephan e eu estávamos discutindo quando o pequeno Anthony colocou um coração de papel na porta de nosso quarto.

Mas resolvemos deixá-lo colado ali como um lembrete para nós.

 

 

As pessoas mais queridas de nossa comunidade parecem ser aquelas que nunca se lembram de nada mau a nosso respeito.

ANÔNIMO


 

UMA TRADIÇÃO DE NATAL

Pat A. Carman

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Tentando manter a tradição, nosso escritório procurou uma família que necessitasse de assistência para comemorar o Natal. Entramos em contato com várias agências e igrejas e encontramos uma família, composta de oito pessoas, que havia atravessado não apenas um, mas vários anos de infortúnios. Eles moravam em uma cidadezinha do Oregon, no sopé das montanhas das Cascatas, e sofreram várias tragédias pessoais nos dois anos anteriores que os deixaram totalmente abalados financeiramente. O Natal deles seria magro e triste, Mas o que lhes faltava em bens materiais era compensado pelos fortes vínculos familiares e pelo amor que os unia.

Durante um mês, fomos ajuntando os presentes embrulhados em papéis coloridos e colocamos as doações em dinheiro dentro de uma lata decorada. Divertimo-nos muito enquanto fazíamos compras para a mãe, o pai e os seis filhos, imaginando a expressão deles na manhã de Natal quando abrissem os presentes! Para os meninos, compramos luvas grossas de inverno para os dias de neve, quando eles tivessem de ir a pé à escola, e miniaturas de aviões para serem montados quando não pudessem sair de casa por causa do frio. Para as meninas menores, compramos bonecas e bichinhos de pelúcia. Para a mais velha, que já era adolescente, compramos um vidro de perfume e um relógio. O pai ganharia um suéter novo para esquiar. Queríamos que ele se lembrasse de afastar-se um pouco de seu trabalho no estúdio para se divertir nas encostas das montanhas da vizinhança. E, para a mãe, compramos um jogo de mesa com motivos natalinos. A compra dos presentes para a família inteira nos deu muita alegria. Compramos também os ingredientes para a ceia de Natal.

Evidentemente, a família não poderia saber quem eram os Papais Noéis, Combinamos com o pastor da pequenina igreja rural frequentada pela família para que ele entregasse nossos presentes alguns dias antes do Natal. Enviaríamos os pacotes para ele de nossa cidade, que ficava cerca de 200 quilômetros distante, e permaneceríamos no anonimato.

Nossa euforia foi aumentando enquanto aguardávamos “o resto da história”, mas nenhum de nós foi capaz de adivinhar o que realmente aconteceria. Mais tarde, descobrimos que não fomos os únicos personagens dessa história.

Na sexta-feira anterior ao Natal, a mãe da família voltou mais cedo para casa após o trabalho. Ela trabalhava como programadora de computadores em uma cidade vizinha e anunciou, com grande alegria, que seu patrão lhe dera uma gratificação de Natal no valor de US$ 309. O marido ficou feliz com a notícia. Agora eles tinham dinheiro para comprar presentes de Natal para os filhos! Juntos, fizeram uma lista, procurando combinar o “querer” com as “necessidades”. Na semana seguinte, faltando dois dias para o Natal, eles fariam as compras. A gratificação viera em boa hora!

No domingo, a família compareceu ao culto da igreja sentindo um grande alívio. No momento da oração, ficaram sabendo que um de seus amigos da congregação estava prestes a ser submetido a uma cirurgia. Ele estava desempregado e não poderia pagar as despesas médicas, e não havia o que comer em casa. Conhecendo o desespero que seus amigos deviam estar sentindo, eles se condoeram diante daquela triste situação. Assim que retornaram para casa, fizeram uma "reunião de família” e decidiram entregar a gratificação de Natal a seus amigos. Comida e despesas médicas eram mais importantes que brinquedos de Natal.

Algumas horas depois dessa decisão, o pastor foi fazer uma visita à família. Antes que o pastor tivesse tempo de explicar o motivo da visita, eles contaram que gostariam de doar o dinheiro ganho e pediram-lhe que entregasse o cheque à família necessitada. O pastor ficou surpreso diante de tanta generosidade e concordou em entregar o cheque, desde que todos o acompanhassem até seu carro. Atônitos, eles concordaram com o pedido. Quando atravessaram o portão da casa, eles viram o carro do pastor abarrotado de presentes de Natal — presentes que lhes enviamos como expressão de amor natalino. Que Natal esplêndido foi aquele para todos nós!

A RESPOSTA DE MADRE TERESA

Dr. Paul Brand e Philip Yancey

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Uma mulher simples chamada Madre Teresa recebeu o Prêmio Nobel da Paz por seu trabalho em Calcutá entre os membros das castas inferiores da índia. Sabendo que não podia salvar a índia inteira, ela procurava socorrer os menos favorecidos, os que estavam morrendo. Quando os encontrava, no meio de montanhas de lixo nos becos de Calcutá, ela os levava para seu hospital e os cercava de amor. Eles eram cuidados por mulheres sorridentes, que tratavam de seus ferimentos, limpavam camadas de sujeira de sua pele e os envolviam em lençóis macios. Os mendigos, geralmente fracos demais para falar, arregalavam os olhos diante de tanta generosidade que lhes era oferecida tão tarde na vida. Será que morreram e foram para o céu? Qual o motivo desse repentino zelo — dessa sopa quente e substanciosa que lhes era colocada na boca com uma colher?

Um jornalista de Nova York — trajando um elegante terno com colete e acompanhado por um câmera — confrontou Madre Teresa com urna série de perguntas. Ele parecia satisfeito ao fazer aquela inquisição mordaz. Por que ela gastava seus recursos limitados com pessoas para as quais não havia mais esperança? Por que não cuidava de pessoas com possibilidades de reabilitação? Qual era a média de casos bem-sucedidos apresentada por seu hospital, uma vez que a maioria dos pacientes morria em questão de dias ou semanas? Madre Teresa olhava para ele em silêncio, absorvendo todas as perguntas, tentando descobrir por trás daquela fachada de repórter de sucesso que tipo de homem faria tais perguntas. Por não ter respostas que o satisfizessem, ela disse meigamente:

— Essas pessoas têm sido tratadas a vida inteira como cães. A maior enfermidade delas é saber que são desprezadas. Será que elas não têm o direito de morrer corno anjos?

 

 

 

Senhor,

Eu renuncio ao meu desejo

De receber elogios humanos,

De contar com a aprovação de meus colegas,

De sentir necessidade de reconhecimento público.

Eu, deliberadamente, deixo tudo isso de lado ir*,

E me contento em ouvir teu sussurro:

"Muito bem, meu servo bom e fiel”.

Amém.


 

O DONO É QUEM ACHOU

Faith Andrews Bedford

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Quarenta anos atrás, em uni dia quente de agosto, senti ela primeira vez a sensação de ser rica. Minha mãe precisava de leite, e eu me propus a ir de bicicleta até o povoado para comprá-lo.

Quando passei pela escola, as balanças do playground estavam imóveis e silenciosas; as gangorras reluziam sob o Sol quente da tarde. Em breve, aquele lugar silencioso estaria ecoando risadas e gritaria. As gangorras começariam a ranger, e as balanças voariam em direção ao céu, com as correntes entrechocando-se e tinindo após cada impulso dado pelas crianças. Dentro de pouco mais de um -mês, minhas irmãs e eu atravessaríamos os enormes portões de pedra, com nossos sapatos reluzentes, segurando firme os cadernos novos. Eu havia passado para a sexta série, a última da escola, e faria parte da patrulha de segurança.

Quando cheguei ao povoado, pedalei com mais rapidez. Eu havia economizado algum dinheiro para comprar os cavalinhos da vitrina da loja da Sra. Bridges e estava ansiosa para ver se eles ainda encontravam-se ali. Faltavam apenas US$ 4.25 para comprá-los.

Logo adiante, avistei a loja de brinquedos e lá estava a família equina na vitrina. O garanhão preto apoiado nas patas traseiras: a égua palomino com a cabeça abaixada como se estivesse pastando; o potro em pé com expressão alerta. Eu vinha imaginando havia muito tempo corno aquele trio ficaria em cima de minha escrivaninha; cortaria grama todos os dias e a colocaria embaixo do focinho da égua.

Ainda sonhando com os cavalinhos, quase passei com a bicicleta por cima de um monte de papéis. Curvei-me e vi que se tratava de um maço de dinheiro e peguei-o. Deve haver centenas de dólares aqui, pensei, talvez milhões! Virei a esquina pedalando rápido em direção à mercearia e quase atropelei nosso vizinho, o Sr. Peabody.

- Veja! — eu disse, sacudindo o maço de notas no ar. — Veja só o que eu achei!

— Bem, bem, bem — disse o Sr. Peabody. — Foi um achado e tanto. Mas você precisa tomar mais cuidado com essa bicicleta, mocinha — ele repreendeu-me, fingindo estar zangado.

— Sim, senhor — eu disse afobada e afastando-me, dessa vez um pouco mais devagar. Apoiei a bicicleta em uma árvore e corri até a mercearia. Inquieta, enquanto aguardava na fila para pagar, encostei a garrafa de leite gelado no rosto, sentindo urna sensação agradável. Pedalei firme em direção à loja de brinquedos e, no caminho, avistei o lugar mágico onde havia encontrado o dinheiro. A rua ainda estava vazia. Não havia ninguém por perto.

Entrei apressada na loja de brinquedos. O sininho instalado na parte superior da porta tocou forte, e a Sra. Bridges virou-se para trás sobressaltada.

— Que susto, Faith! — ela exclamou, levando a mão à garganta. — O que houve?

— Nada — eu disse, com um sorriso amarelo, balançando as cédulas alegremente. — Vim comprar os cavalinhos. Acho que tenho dinheiro suficiente aqui.

— Parece que sim. Vamos contá-lo.

A Sra. Bridges contou lentamente três notas de dez dólares e uma grande quantidade de notas de um dólar.

— Aqui há US$ 47, querida — ela disse, surpresa. — Na semana passada, você me disse que havia economizado oito dólares.

— É verdade — eu disse. — Mas agora estou rica!

A Sra. Bridges sorriu, retirou os cavalinhos da vitrina e colocou-os em uma sacola. Peguei a sacola e atravessei correndo a porta, agradecendo por cima do ombro.

A garrafa de leite sacolejava em minha bicicleta, enquanto eu pedalava rápido até minha casa. Abri a porta da cozinha com força no momento em que minha mãe desligava o telefone.

— Mãe, encontrei um maço de dinheiro! — gritei, abraçando-a eufórica.

— Eu sei — ela disse em voz baixa.

— Sabe? Como?

— Estava falando com o Sr. Peabody ao telefone. Ele me contou que colidiu com você no povoado. Senti o rosto arder quando me lembrei que quase passei por cima dele.

— Ele me contou que você encontrou esse dinheiro. Depois me contou que conheceu a senhora que o perdeu.

O calor do dia desapareceu. Um calafrio percorreu minha espinha.

— Não — eu murmurei, com os olhos lacrimejando. — O dinheiro é meu.

— Faith, Faith — disse minha mãe, puxando-me para perto de si. — O Sr. Peabody contou que, quando saiu do banco, viu uma mãe com seu filhinho procurando aflita alguma coisa na calçada em frente à companhia de eletricidade. Ele perguntou se ela havia perdido alguma coisa e ficou sabendo que ela havia colocado o dinheiro para pagar a conta de luz em um dos bolsos e o dinheiro para pagar a mercearia no outro. Quando foi pagar a conta de luz, o dinheiro havia desaparecido. O funcionário disse que ia mandar cortar a energia elétrica de sua casa se ela não pagasse a conta. Ela estava desesperada. O Sr. Peabody disse que foi bom ter-se encontrado com ela.

— Não, não foi — choraminguei, escondendo o rosto no ombro de minha mãe.

— Vamos lá — ela disse, dando-me um tapinha de leve. — Você precisa parar de chorar. A senhora está vindo para cá. O Sr. Peabody contou a ela onde nós moramos.

— Mas eu achei o dinheiro — gritei, afastando-me de minha mãe. — O dono é quem achou.

Minha mãe olhava firme para mim.

— E tem mais — eu solucei, apertando a sacola de encontro ao peito. — Comprei três cavalinhos com uma parte do dinheiro.

— Bem disse minha mãe serenamente, acariciando meus cabelos —, acho que você vai ter de devolvê-los.

Fungando, concordei com relutância que ela estava certa. O dinheiro não era meu. Não era mesmo. Eu não havia feito nada para ganhá-lo. A alegria de ter os cavalinhos começava a desaparecer. A sacola pesava em minhas mãos.

Quando ouvi uma batida de leve na porta, parei de chorar e lavei o rosto com água fria. Ouvi a mulher perguntar:

— É a Sra. Andrews? Acho que sua filha encontrou o dinheiro que eu perdi. Não eram US$ 47? Dei uma espiada e vi minha mãe abrindo a porta de tela.

— Sou eu mesma — ela respondeu. — Entre. Você deve estai-cansada de tanto andar. Aceita uma limonada?

A mulher assentiu com a cabeça. Seu vestido de tecido fino estava grudado no corpo por causa do calor. Com uma das mãos, ela segurava uma sacola da mercearia. A outra estava apoiada no ombro de um menino magrinho. Eu estava atrás deles na fila do caixa da mercearia.

Minha mãe me viu.

— Esta é Faith — ela disse, fazendo um gesto para que eu me aproximasse. — Foi ela que encontrou o seu dinheiro.

— Em frente à companhia de eletricidade? a mulher perguntou. Assenti com a cabeça.

— Eram US$ 47?

— Sim — respondi lentamente, entregando-lhe o restante do dinheiro, mais os oito dólares de meu cofrinho. Uma expressão de alívio tomou conta de seu rosto pálido como se fosse um raio de sol após a chuva.

— Muito obrigada — ela disse. — Eu estava apavorada. Não sabia como conseguir o dinheiro para pagar a conta de luz.

— Não está tudo aí... — murmurei, embaraçada.

— Como assim? — ela quis saber, sem entender.

— Gastei uma parte dele — eu disse, de cabeça baixa.

— Ora —ela riu. — Eu planejava dar-lhe cinco dólares de gratificação por ter encontrado meu dinheiro e o guardado para mim. Você gastou tudo isso?

Sacudi a cabeça.

— Não, senhora. Gastei só US$ 4.25.

— Aqui está — ela disse, depositando três moedas de US$0.25 em minha mão. — Este é o resto da gratificação.

O menino olhou para mim com ar assustado.

Minha mãe e a senhora sentaram-se na sala de visitas bebericando limonada e conversando sobre assuntos variados: o tempo, a feira rural, o início das aulas. Ensinei o filho dela a jogar xadrez chinês.

De repente, ouvi a senhora dizer:

— William vai cursar a primeira série este ano.

— Sério? — perguntei a ele.

O menino movimentou uma das peças e assentiu com a cabeça timidamente. Parecia orgulhoso e assustado.

— Pegue isso — eu disse, colocando uma de minhas moedas em sua mão. — Você vai precisar comprar alguns lápis coloridos.

Eu me sentia sábia e magnânima ao mesmo tempo. Afinal, havia sido rica por alguns momentos. E agora que tinha conseguido comprar os cavalinhos, tudo estava perfeito.

O dia estava começando a esfriar quando William e sua mãe foram embora. Em pé no jardim, eu os vi seguindo rua abaixo. Peguei um pouco de grama fresca para meus cavalinhos.

Pouco antes de virar a esquina, William gritou despedindo-se de mim e agradecendo-me. Com uma das mãos segurando a da mãe, ele acenou com a outra. Ele apertava firme a moeda. Achei que ele não confiava em seus bolsos.

 

 

Se você estiver enrolado demais, é sinal de que está com muita roupa.

JANE ANN CLARK


 

MARGARET DE NOVA ORLEANS

Sara Cone Bryant

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Se um dia você visitar a bela cidade de Nova Orleans, certamente alguém o levará para conhecer o antigo centro comercial, onde há bancos, lojas e hotéis, e lhe mostrará uma estátua erguida em 1884 que permanece até hoje em uma pequena praça daquela cidade. Trata-se da estátua de urna mulher, sentada em uma cadeira baixa, com os braços ao redor de uma criança aninhada em seu colo. A mulher não é nem um pouco bonita. Usa sapatos comuns e grossos, vestido simples, xale pequeno e um boné. Ela é robusta e de baixa estatura, e seu rosto tem o formato quadrado à semelhança dos irlandeses. Seus olhos, porém, nos fitam como os de nossa mãe.

Trata-se da estátua de uma mulher chamada Margaret. Seu nome completo era Margaret Haughery, mas ninguém em Nova Orleans se lembra de seu sobrenome. É como se ela fosse uma irmã querida, à qual nunca nos referimos pelo nome completo. Ela é apenas Margaret. A história dela nos diz por que as pessoas lhe fizeram um monumento.

Quando Margaret era bebê, seus pais morreram, e ela foi adotada por um jovem casal tão pobre quanto seus pais. Morou com eles até a idade adulta. Casou-se e teve um bebê. Logo a seguir, seu marido faleceu e o bebê também. Margaret ficou sozinha no mundo. Era pobre, mas também era forte e batalhadora.

O dia inteiro, de manhã até à noite, ela passava roupas em uma lavanderia. E todos os dias, enquanto trabalhava perto da janela, ela via as crianças de um orfanato nas proximidades trabalhando e brincando. Depois de algum tempo, uma grande epidemia tomou conta da cidade matando muitas mães e muitos pais. O orfanato recebeu mais crianças, em número superior ao de sua capacidade. Elas precisavam de um amigo ou de uma amiga. Você deve estar-se perguntando como uma pobre mulher que trabalhava em urna lavanderia poderia ajudar crianças órfãs. Mas foi o que Margaret fez. Ela resolveu falar com as Irmãs que dirigiam o orfanato e disse que ia doar-lhes parte de seu salário e trabalhar para elas.

Margaret empenhou-se mais ainda no trabalho de passadeira e conseguiu economizar parte de seu salário. Com essa economia, ela comprou duas vacas e um carrinho de entregas. Todas as manhãs, ela saía com o carrinho para entregar leite a seus clientes e, no caminho, pedia sobras de comida em hotéis e em casas de pessoas ricas. A comida era levada para as crianças famintas do orfanato. Naqueles tempos difíceis, a comida angariada por Margaret era, quase sempre, a única refeição do dia para as crianças.

Parte do dinheiro que Margaret ganhava a cada semana era doada ao orfanato, e após alguns anos a quantia aumentou consideravelmente. E Margaret sabia lidar tão bem com as finanças que, apesar de suas doações, ela conseguiu comprar mais vacas e ganhou mais dinheiro ainda. Com esse dinheiro, construiu uma casa para os bebês órfãos, à qual ela dava o nome de "casa dos meus bebês".

Depois de algum tempo, Margaret teve a oportunidade de adquirir uma padaria e passou de entregadora de leite a padeira. Transportava o pão da mesma maneira que o leite — em seu carrinho. E continuou doando dinheiro ao orfanato. De repente, iniciou-se uma grande guerra, a Guerra Civil. Em meio a todos os problemas, enfermidades e medos daquela época, Margaret continuou a fazer as entregas dos pães em seu carrinho, em quantidade suficiente para reparti-los com soldados famintos e para vender parte deles. Apesar de todas as dificuldades, ela ganhou dinheiro para construir uma grande fábrica de pães assim que a guerra terminou. A essa altura, todos os habitantes da cidade a conheciam. As crianças a amavam. Os negociantes sentiam-se orgulhosos dela. Os pobres recorriam a ela para pedir conselho. Ela costumava sentar-se ao lado da porta aberta de seu escritório, trajando um vestido de algodão e um pequeno xale, e sempre oferecia uma palavra de esperança a todos, ricos ou pobres.

Um dia, Margaret morreu. E, quando chegou o momento da leitura de seu testamento, as pessoas descobriram que, apesar de todas as suas doações, ela conseguiu economizar uma grande soma de dinheiro — USS 30.000! — e deixou toda essa quantia para ser repartida entre vários orfanatos da cidade. Para Margaret, o fato de o dinheiro ser doado a crianças brancas ou negras, judias, católicas ou protestantes, não Fazia nenhuma diferença. Ela sempre dizia:

— São todos orfanatos e têm a mesma finalidade. E saiba de uma coisa. Aquele magnífico e sábio testamento foi assinado com uma cruz no lugar do nome, porque Margaret não sabia ler nem escrever!

Quando souberam da morte de Margaret, os habitantes de Nova Orleans disseram:

— Ela foi a mãe dos órfãos. Foi amiga daqueles que nunca tiveram amigos. Sua sabedoria era maior do que a aprendida na escola. Jamais vamos nos esquecer dela.

Eles ergueram uma estátua de Margaret, da mesma maneira que ela costumava ficar à porta de seu escritório. E a estátua permanece lá até hoje, em memória do grande amor e da grande fortaleza e simplicidade que foi Margaret Haughery, de Nova Orleans.


 

DEIXE SUA LUZ BRILHAR!

Cheryl Kirking

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Hora de dormir! — eu disse, tentando sair do quarto de meus . trigêmeos. Eu já havia contado três histórias, ouvido três longas orações e dado um beijo de boa-noite em três ursinhos, um coelhinho e um canguru. Também havia trazido três copos d'água e feito três viagens ao banheiro.

— Mas mamãe — disse Bryce —, eu tenho uma coisa importante para contar a você!

— Durma! — eu repliquei com firmeza.

— Mas mamãe, é uma coisa muito importante mesmo... venha até aqui!

— O que é, Bryce? — eu perguntei.

— Você precisa vir até aqui — ele insistiu.

— O que é, Bryce? — repeti a pergunta, ajoelhando-me ao lado de sua cama.

Segurando meu rosto com suas mãos macias e gorduchas, ele fitou-me nos olhos e cochichou:

— Mamãe, nunca esconda a sua luz debaixo de um cesto.

Eu lhe garanti que não faria isso.

— Ele está falando sobre o alqueire — explicou Sarah Jean, do outro lado do quarto. — A professora da escola dominical disse que alqueire é parecido com um cesto.

— É verdade. — Era a voz de Blake, vinda da terceira cama. — Cantamos sobre isso — ele disse, entoando, entusiasmado, o corinho "Minha pequena luz eu vou deixar brilhar'", acompanhando com gestos a frase "Não esconda sua luz debaixo do alqueire... NÃO!"


 

ASAS

Katherine G. Bond

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Miranda Jane Lonneker, de dez anos e oito meses, olhava fixamente para os aeromodelos pendurados no teto do quarto de seu irmão. Empoleirado em seu ombro, o pintassilgo Chester acompanhava o olhar dela.

George não queria a presença da irmã em seu quarto, principalmente quando ele estava ausente.

— A culpa é dele — disse Miranda a Chester. Se tivéssemos comprado presentes de Natal na loja de R$ 1,99.

George havia se esquecido dessa tradição anual. Havia resolvido sair com a “turma”, a última diversão para encerrar o ano de 1936. Ela quis ir também, mas os amigos de George lançaram-lhe “aquele olhar”.

— Talvez em outra ocasião, irmãzinha - disse George.

— Outra ocasião... — ela repetiu, zangada.

Chester encostou a cabeça sedosa no rosto dela parecendo entender. Dois verões atrás, ela havia salvado Chester do gato do vizinho. Sua asa ferida ficou torta depois de curada, e agora ele voava de maneira estranha, como se estivesse fazendo uma acrobacia.

Miranda tocou o Curtiss Jenny, um avião biplano de dois lugares, modelado à mão. Era seu favorito, apesar de estar sem asas. George ainda estava aguardando a chegada delas.

No quinto aniversário de George, seu tio, um político em campanha na zona rural, o levou para dar uma volta em um Jenny na companhia do pai, enquanto a mãe estava distraída.

Alguém tirou uma fotografia no momento do pouso: George dando gritos de satisfação, erguendo a mão fechada; a mãe com ar zangado. Depois daquele glorioso vôo, a mãe nunca mais permitiu que o marido e George voassem. Dois meses depois, George disse que o governo havia proibido o Jenny de voar por falta de segurança.

O tio presenteou George com aquele modelo do Jenny, prometendo que traria as asas na próxima viagem. Mas nunca houve a próxima viagem.

Em todos os seus aniversários, George aguardava o "tio piloto" e falava tanto dele que um dia a mãe exclamou:

— Seu tio é um louco varrido!

George nunca mais falou do "tio piloto". Mas o Jenny continuou pendurado acima da cômoda de George, como se fosse um pássaro preso por um clipe.

George contou tantas vezes a Miranda sobre o dia em que se apaixonou pelo avião que ela também foi tomada por essa paixão.

Secretamente, ela acalentava o sonho de voar, como Amélia Earhart, mas a mãe dizia que isso não era apropriado para uma dama.

Talvez Miranda não estivesse triste por George ter-se esquecido da troca de presentes.

— Ele nunca me daria o que eu quero de verdade — ela disse a Chester, girando a hélice de Jenny. — Ele nunca me daria este aqui.

Naquele exato momento, George entrou no quarto.

— Miranda, sua chorona, tire as mãos do meu Jenny!

Miranda sentiu o rosto arder.

— Além de me seguir por toda parte, você passou agora a mexer em meus aviões todas as vezes que eu saio de casa.

Miranda saiu correndo do quarto com Chester agarrado ao seu ombro.

Talvez George tivesse esquecido o presente, mas ela e Chester não se importariam. Miranda esperava que o irmão ficasse sem graça quando ela entregasse o presente dele.

O jardim estava coberto por poças de lama. Não houve neve no Natal, apenas o céu cinzento da região Noroeste. O portão estava pendurado por uma dobradiça; a tinta descascou um pouco mais assim que Miranda o abriu para sair. A grade descascada causava certo embaraço à mãe, mas tinta e ferragem custavam dinheiro.

Chester ia voando atrás de Miranda quando ela passou pela estação ferroviária.

— Olá!

Miranda olhou ao redor.

— Você se chama Miranda, não?

A voz vinha de um homem com chapéu de palha sentado na calçada da estação. Um de seus olhos era azul da cor do céu, e o outro, de vidro. Ele estava cortando alguma coisa com um canivete.

— Olá, senhor — disse Miranda, lembrando-se das boas maneiras. — Acho que não sei o seu nome.

— Meu nome? — ele disse, olhando para o céu. — É Jack, senhorita. Eles costumavam me chamar de Jack Valentão, mas agora sou só Jack.

— Prazer em conhecê-lo, Sr... Jack. — O nome não lhe dizia nada, mas ele a chamara de Miranda. — O senhor é daqui da redondeza?

— Pertenço ao lugar que o trem me levar. Belo passarinho esse aí. Como se quisesse ver o homem mais de perto, Chester deu um gorjeio e pousou no joelho de Jack. Jack empinou a cabeça e imitou o passarinho.

— Você não está pensando em vendê-lo, está? — ele perguntou.

— Vender Chester? Seria mais fácil eu vender meu irmão.

Jack riu. Chester pulou para sua mão.

— O senhor tem jeito para lidar com passarinhos — disse Miranda, apoiando-se no outro pé. — Chester não costuma ficar perto de pessoas estranhas.

— Os pintassilgos são meus favoritos. Mas este aqui tem algo especial. — Jack passou o dedo na asa torta de Chester. — Talvez porque temos alguma afinidade.

Jack entregou o passarinho a ela. Miranda pegou-o na palma da mão e colocou-o dentro do casaco.

— Acho melhor eu ir embora — ela disse.

— Também acho. — Jack voltou a trabalhar com o canivete. — Mas não se esqueça de contar a seu irmão George que Jack voltou.

Miranda parou.

— George não é um irmão muito bonzinho — ela deixou escapar.

— Ah! — O olho sadio de Jack brilhou. — É isso que ele está querendo — disse o homem, levantando a peça na mão.

Eram as asas!... as asas do avião biplano... as asas do Jenny!

Miranda respirava ofegante.

— Como o senhor sabia? Posso levar as asas?

— Bem, senhorita, essas asas têm um preço. Sim, há sempre um preço para as asas.

— Quanto?

Era muito importante que ela possuísse algo que George tanto queria.

— Quanto você está disposta a pagar?

Pergunta estranha. Miranda foi pega de surpresa. Tirou algumas moedas do bolso. Vinte e sete centavos. Jack sacudiu a cabeça negativamente.

— Não é suficiente.

Miranda irritou-se.

— É tudo o que eu tenho! Limpei o porão um dia inteiro para ganhar esse dinheiro.

— Ah, mas você pode ganhar mais um pouco. — Ele movimentou as asas do avião diante de seu olho sadio. — Quando você voa, não existe mais nada. Só você e o céu. Imagine. Essas asas são fortes o suficiente para se caminhar por cima delas e você está saindo da cabina. Está muito frio, e o vento é forte. Você está se equilibrando para sobreviver. O terreno abaixo estende-se como se fosse um manto, e você quer gritar de alegria. É uma coisa maravilhosa.

Miranda imaginou Jack em pé na asa do Jenny, e a multidão embaixo prendendo a respiração de susto. Ela sentia o mesmo em relação a George: como se ele estivesse em pé na asa acima dela, como se nunca mais pudesse descer.

Jack colocou as asas de lado.

— Você está chorando, senhorita.

Chester encostou a cabeça na face molhada de Miranda.

— O que aconteceu com seu olho? — ela perguntou.

— Digamos que o Jack Valentão não existe mais. — Ele olhou para o céu. — Mas o que houve com seu irmão George? Parece que você não quer que ele voe.

Miranda ergueu a cabeça, assustada.

— Não, eu... não é nada disso. Nem sei se ele gosta de mim.

— Ah, Srta. Miranda, o fato de um homem querer voar não significa que ele nunca vá aterrissar.

Um homem. Seu irmão ainda não era um homem. Ela queria que ele a ajudasse a construir seus castelos e pegar minhocas para Chester. Mas ele só queria estar com os amigos ou no quarto com a porta fechada.

— Eu tive uma irmã — disse Jack. — Ela gostava de mim tanto quanto você gosta de George. Ela gostava tanto de mim que me colocou dentro de uma gaiola, e eu só conseguia enxergar as grades.

Miranda sentiu o coração de Chester batendo.

— E o que o senhor fez?

— Eu voei para longe — ele disse em voz baixa. — Voei para bem longe.

Miranda olhou para as asas do Jenny. As asas têm um preço, Jack dissera. Ela engoliu seco.

— Vamos fazer uma troca? — ela perguntou. beijando as penas macias de Chester. — Trocar asas por asas?

Chester voou para o ombro de Jack, como se o seu lugar Fosse ali.

— Venha passar o Natal conosco? — ela disse impulsivamente. —Ninguém deve ficar sozinho no Natal.

Jack acariciou Chester.

— Não estou mais sozinho, estou? Muito obrigado, Miranda, mas eu já fiz o que tinha de Fazer por aqui.

Ele colocou as asas nas mãos dela, despediu-se e entrou na estação.

Quando Miranda levou o presente para George, seus olhos arregalaram-se. Ele pegou as asas como se elas tivessem sido retiradas de uma arca do tesouro.

— Como você conseguiu?

— Eu comprei — ela disse — de Jack.

— O tio Jack voltou? Onde ele está?

— Na estação, ele... Acho que ele vai partir no trem noturno.

George olhou para o relógio e atravessou a porta correndo.

Quando George e o viajante entraram em casa, as colheres que a mãe segurava caíram no chão.

— Jack... — ela disse em voz baixa, com os olhos brilhando.

George atravessou a sala e colocou uma caixa no colo de Miranda. Ela levantou a tampa. Lá estava, envolto em uma flanela, o Jenny sem as asas.

Miranda não conseguiu falar. Ela começou a rir. George também riu, uma risada forte quase igual à de um homem. De repente, ela entendeu o significado do amor verdadeiro. O amor dá asas para a pessoa voar.


 

MARCAS DE DEDOS

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Às vezes, você se aborrece

Porque ainda sou criancinha

E sempre deixo marcas de dedos

Nos móveis da casa inteirinha.

Mas estou crescendo dia a dia

E logo adulta vou ser

E essas marcar de dedos

Vão todas desaparecer.

Agora deixo uma marca bem especial

Pra você nunca esquecer

Como eram meus dedinhos

Antes de eu crescer.

 

 

Escrito em uma placa por nossa neta,

com a marca de seus dedinhos quando tinha cinco anos.


 

VEJA TODAS AQUELAS ERVAS DANINHAS!

Cindy Rosene Deadrick

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

(A beleza está nos olhos de quem vê”, diz o antigo ditado, e quem me lembra disso é minha filhinha de três anos, quando vibra de alegria diante de nosso jardim florido exageradamente repleto de dentes-de-leão.

— Girassóis! — ela grita.

Eufórica, ela chama a irmãzinha de dois anos para ajudá-la a fazer um buquê para a mamãe. De mãos dadas, correm de um lado para o outro no jardim, sem saber por onde começar. Cada botão é tão sedutor quanto o seguinte. Depois de alguns minutos, elas voltam segurando um punhado de caules retorcidos com pontas douradas e os colocam na palma de minha mão.

— São para você colocar em sua mesa, mamãe, dentro de um vaso com água, para que elas não morram de sede — aconselha-me a mais velha.

Eu não tenho coragem de contar às minhas filhas que os tesouros que elas acabaram de encontrar só estão no jardim porque o pai delas aplicou o inseticida errado para matar as ervas daninhas.

— Aposto que vamos ter muito mais flores quando voltarmos para casa à noite — ela me diz, sem conseguir conter a empolgação.

Minha filha não faz ideia das centenas que ainda vão aparecer. Os dentes-de-leão têm uma forma de multiplicar-se que desafia a lógica. Em pouco tempo, nosso terreno inteiro de 8.000 metros quadrados será invadido por um mar de tonalidade amarela, sem um palmo sequer de grama visível. E nossos amigos vizinhos estarão nos censurando secretamente por termos contaminado o quarteirão inteiro com uma invasão de flores amarelas. O órgão de fiscalização da cidade provavelmente vai querer fazer um pôster de nossa família para exibi-lo em sua campanha sobre o "Controle das Terríveis Ervas Daninhas".

No decorrer da semana seguinte, minhas duas filhinhas continuarão vibrando ao desenvolver seus talentos para cuidar do jardim, no início de cada manhã, colhendo dentes-de-leão e oferecendo-os de presente a uma série de pessoas a quem elas amam: o papai, a vovó, a babá e até mesmo o cão vira-lata da família. A casinha do cão nunca esteve tão bonita como agora, enfeitada com urna profusão de flores amarelas.

Em nosso percurso rotineiro até a cidade, minhas pequenas espiãs da Patrulha Dentes-de-leão gritam de alegria ao ver um jardim repleto dessas flores intrusas. Felizes por terem tido a sorte de encontrar outros canteiros com essa erva daninha, elas pedem que eu pare o carro para que possam colher mais flores.

Em sua infinita capacidade de apreciar a vida, minhas duas filhas vão, aos poucos, modificando minhas atitudes. Por que não parar o carro para que elas colham mais dentes-de-leão?, eu penso. Quem disse que os seres humanos não devem apreciar certas variedades de flores? A ideia deve ter partido de alguma companhia de produtos químicos procurando aumentar as vendas contra ervas daninhas. Mas a alegria que sentimos diante dessa cor vibrante, depois de um inverno longo e cinzento, não deveria ser diminuída só porque alguém, que se autodenomina árbitro da natureza, decretou que um tapete de cor dourada estraga a beleza de um jardim bem cuidado.

Enquanto meu marido conversa com o especialista em produtos químicos de nossa cidade, tentando descobrir o que deu errado com seu meticuloso plano de controlar as ervas daninhas, eu decidi participar da euforia de minhas filhas. Meu dia de trabalho é colorido por cinco flores amarelas, ainda em botão, piscando para mim de dentro de um pequeno jarro sobre minha mesa, e eu sinto uma alegria renovada, como a de uma criança, ao ver toda essa beleza natural à minha volta. Estou determinada a ser menos impulsiva e a observar os simples prazeres que a natureza tem a nos oferecer. Outro dia, quando minha filha encheu o bolso de pedrinhas polidas que encontrou perto de nosso portão, ela me disse que havia achado diamantes. E eu acreditei nela.


 

BÊNÇÃO DE DESPEDIDA PARA A FACULDADE

LINDA E. SHEPHERD

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

Até hoje, você esteve perto de mim. Agora que você começou a entrar na fase adulta, rodeado de livros e descobrindo novos mundos, eu o libero. Mas antes deixo-lhe esta oração: Progrida não apenas nos estudos, mas especialmente no conhecimento de Deus.

Eu não estarei por perto quando você cair Mas Deus o levantará. quando eu não puder: Dependa dele e aprenda a confiar nele. Você não está sozinho. Sabendo disso, meu ninho vazio não parecerá tão vazio assim. Meu coração elevar-se-á nas alturas quando você estiver alçando vôo.

 


 

O PEDIDO EMBAIXO DE MEU TRAVESSEIRO

Robin Jones Gunn

Histórias Para o Coração da Mulher

 

 

As duas crianças estavam na escola quando descobri algo que me daria o direito de ter um pedido atendido. Enquanto eu arrumava os armários do quarto de meu filho, encontrei uma caixa pequena, sem nenhuma identificação, na prateleira superior. Coloquei-a na beira da cama. Ela escorregou, derrubando todo o seu conteúdo no chão. A primeira coisa que vi foi um pequenino tênis azul. "Seu primeiro par de tênis de corrida", meu irmão havia escrito no cartão que acompanhava o presente. Peguei o tênis incrivelmente pequeno e segurei-o na palma da mão. Não pude deixar de fazer uma comparação. Tirei de dentro do armário um tênis de marca conceituada, odor forte, tamanho adequado para um menino graúdo. Coloquei um perto do outro. O contraste era impressionante.

Naquela noite, prestei atenção nos pés de meu filho de nove anos quando ele chegou para jantar. Observei seus pés sob a mesa enquanto ele fazia os deveres de casa. Continuei a observá-los quando ele subiu a escada. No momento em que o acomodei na cama, segurei seu pé direito e dei urna boa examinada. Não cabia mais na palma de minha mão.

Depois que as crianças já estavam dormindo, peguei o tênis pequenino que eu havia escondido entre minhas meias naquela tarde. Ninguém viu quando encostei aquele minúsculo objeto ao rosto e o escondi debaixo do travesseiro.

Ross e eu fornos dormir algumas horas depois. Enrolei-me no cobertor perto de meu marido e passei a mão entre o lençol e meu travesseiro. O tênis ainda estava lá. Segurei-o com força, fechei os olhos, prendi a respiração e fiz um pedido. Qual foi o meu pedido? Jamais vou revelá-lo. Mas ele tem alguma coisa a ver com os pezinhos que cabiam naqueles tênis minúsculos.


 

DO TAMANHO CERTO

Ver. Morris Chalfant

 

 

Na véspera do Dia das Mães, um menino, segurando o dinheiro com a mão bem fechada, entrou em uma loja de departamentos para fazer uma compra. Timidamente, aproximou-se de uma vendedora.

— Quero comprar um presente para minha mãe. — Um pouco constrangido, ele complementou: — Uma combinação.

— Que manequim ela usa?

Ele hesitou.

— Não entendo nada de manequins.

— Ela é alta? Baixa? Gorda? Magra?

O menino respondeu prontamente:

— Minha mãe é do tamanho certo!

A resposta foi tão firme que a vendedora embrulhou uma combinação número 36. Na segunda-feira, a mãe do menino foi até a loja para trocá-la pelo número 52! O tamanho não significava nada para o menino; a mãe havia conquistado seu coração!


 

DEIXANDO PARTIR...

Linda Andersen

 

 

Nem claro nem escuro — era aquele delicioso momento do dia entre a tarde e à noite. A natureza parecia prender a respiração, enquanto o dia enrolava-se aos poucos no manto da noite. Minha janela emoldurava as silhuetas alaranjadas das tranquilas colinas, anunciando o fim do dia. Nuvens fofas de contornos reluzentes despediam-se do Sol com um abraço. A cena me fez lembrar o caloroso abraço de "adeus" de minha filha Dawn, algumas horas antes. Ser mãe tem seus momentos.

Lembro-me de ter pensado: É hora de preparar o jantar. Talvez eu devesse usar esses momentos para pensar em meu trabalho ou escrever uma carta — qualquer coisa menos contemplar o pôr-do-sol. As esposas não têm tempo para contemplar o pôr-do-sol, não é verdade? Bem, desta vez eu não teria pressa. O Sol se põe apenas uma vez por dia e em breve iria embora — da mesma forma que minha filha.

Minha vida e a de Dawn também estavam atravessando aquele momento do dia entre o entardecer e o anoitecer. Com 18 anos, ela era metade mulher, metade criança. A mãe que existe em mim gostaria de saber se todas as filhas são tão voláteis e velozes como o dia que se esvai. Dawn parece ter algum poder mágico: em um momento está comigo e, de repente, não está mais.

Tonalidades diferentes de amarelo pontilhavam as nuanças vermelhas e brilhantes que coloriam nosso gramado, enquanto o dia transformava-se em noite. Cada minuto assemelhava-se a uma pincelada, dando um novo colorido à paisagem. Acontecia o mesmo entre Dawn e mim. Mudanças. Mudanças constantes. Uma filha empoleirada na beira do ninho, batendo as asas para voar.

Eu não queria que a paisagem mudasse. Queria, quase que em desespero, preservar a variedade de cores e formas, pintadas com tanta maestria na tela diante de minha janela. Queria pintar tudo de dourado e esconder em um lugar só meu. Assim, eu poderia pegar a tela e apreciá-la sempre que desejasse.

Os tons alaranjados do Sol continuavam a fundir-se formando matizes que iam do dourado ao roxo, passando pelo rosa. O dia chegara ao fim. Um soluço subiu-me à garganta. O pôr-do-sol havia desaparecido!

Lembro-me de ter dado um longo suspiro e voltado, com relutância, aos pensamentos apreensivos que teimavam em povoar minha mente. Quando Dawn partiu naquele dia, minhas palavras soaram ocas:

— Você vai voltar para o jantar!

Ela respondera com firmeza:

— É claro que eu não vou voltar para o jantar!

O clima entre nós ficou tenso. Ela estava se afastando novamente. A dor foi semelhante à de um esparadrapo sendo arrancado com força. Não foi a primeira vez. E não seria a última.

Ainda enlevada pela beleza estonteante do início do anoitecer, lembrei-me de uma cena ocorrida muito tempo antes. Eu era uma jovem mãe, sentada na classe de primeiro ano, observando Dawn fazer uma brincadeira com os dedinhos diante de uma turma de crianças com olhos arregalados. Seus olhos brilhantes procuravam os meus para ter a certeza de que eu a estava vendo. Seus lábios abriram-se em um largo e caloroso sorriso.

Mais uma vez, as lembranças reproduziram um incidente quase esquecido: mamãe e papai saindo de casa sem Dawn. Ela, com dois anos, mal alcançava o parapeito da janela. Lágrimas rolavam por seu rosto vermelho por causa do esforço. Ela sempre queria nos acompanhar. Seus pais saíram apressados, impacientes com a fase difícil que a filha estava atravessando, sem se dar conta de que um dia sentiriam saudades dessa época.

Uma última lembrança passou-me pela mente. Dawn no início da adolescência. Sempre apressada.

— Oi, mãe. Até logo, mãe.

Sempre se afastando. Era o início de um caminho sem volta. De repente, dei-me conta de que, se eu desejasse continuar a ter minha filha, deveria soltá-la.

As cortinas da noite desciam com a ajuda de uma mão invisível, cobrindo o horizonte e anunciando o fim de mais um dia e a chegada de outro. Eu ainda me vejo acompanhando o traçado do parapeito da janela com os dedos e tomando a firme decisão de soltar as amarras entre nós.

Dawn sorria na fotografia em cima da lareira. Sorri para ela, sacudindo a cabeça. A seguir, conversei em voz alta com a fotografia, falando de minha decisão.

— Chega de puxá-la para o meu lado, filha. Não posso mantê-la junto a mim da mesma forma que não posso impedir o pôr-do-sol. Você e o pôr-do-sol são estranhamente lindos e estranhamente remotos. Às vezes, você é inatingível, outras, afetuosa e palpável... ilusória como um raio lunar. Será que você é as duas coisas ao mesmo tempo? É feita para dar alegrias e sonhos... e depois partir? Se isso for verdade, siga em frente. A vida é assim mesmo. Abra seu caminho por conta própria, minha menina. Talvez essa permissão para partir seja o último laço que nos une. Você, assim como o pôr-do-sol, retornará em outra forma, em outro tempo, no tempo certo... depois de ter sentido o gosto da liberdade e de ter voado com as próprias asas.

E foi o que ela fez. E foi bom demais.

 

 

 

Quero Deus, Eu nunca achei que cor-de-laranja combinasse com eixo até ver o pôr-do-sol que fizeste na terça-feira.

MARGARET


 

O PRESENTE DE MEU FILHO

DaLinda Blevins

 

 

No ano passado, meu marido, Troy, e eu levamos nossos filhos para comprar um presente de Natal para Dylan, sobrinho de Troy. Minha filha, Da  Cylla tinha 11 anos, e meu filho, Klintt, seis. Os dois já sabiam o que Dylan "necessitava". Ele acabara de fazer aniversário.

Percorremos a seção de brinquedos tentando decidir o que comprar para uma criança que possuía tudo. Vimos cubos de madeira e quebra-cabeças. Nada atraiu minha atenção, a não ser um brinquedo chamado Sr. Pateta. Peguei a caixa na prateleira e vi, na parte inferior, a faixa etária para a qual o brinquedo se destinava. Dylan ainda não se enquadrava naquela faixa. Comentei com meu marido e meus filhos que era uma pena não podermos oferecê-lo a Dylan, porque eu sempre quis ter um quando era pequena e nunca consegui. A bem da verdade, não me lembro de ter visto esse brinquedo fora da caixa.

Optamos por presentear Dylan com cubos de madeira.

Dois dias depois, estávamos colocando os presentes debaixo da árvore.

Da Cylla e Klintt contaram quantos cada um receberia. Klintt ficou muito triste ao ver que não havia nenhum para mim. Ele não sabia que faltavam alguns presentes para serem embrulhados e que outros estavam sendo classificados por tamanho.

Na tarde do dia seguinte, Troy levou as crianças à mesma loja para comprar o meu presente. Klintt voltou para casa muito feliz, mas não contou nada. Guardou o segredo por duas semanas até a manhã do dia de Natal.

Ele insistiu para que eu abrisse o meu presente em primeiro lugar. Era uma caixa lindamente embrulhada. Quando a abri, lá estava o Sr. Pateta! Os olhos de meu filho brilhavam de orgulho. — Aqui está o presente que você sempre quis, mamãe.

 

 

É verdade que houve ocasiões no passado em que proferi esta frase em tom de maldição: "Tomara que seus filhos sejam iguais a você." Ainda digo as mesmas palavras, só que agora elas de transformaram em uma bênção: "Tomara que seus filhos sejam iguais a você."

RICHARD ISRAEL


 

HORA DE DORMIR

Autor Desconhecido

 

 

Depois de colocar seus filhos na cama, uma mãe vestiu calças compridas velhas e uma blusa bastante folgada e foi lavar a cabeça. As crianças começaram a fazer algazarra no quarto, e ela foi perdendo a paciência. Finalmente, enrolou uma toalha na cabeça, irrompeu no quarto dos filhos e os obrigou a voltarem para cama depois de repreendê-los severamente. Enquanto saía do quarto, ela ouviu o filho de três anos balbuciar com voz trêmula:

— Quem era aquela mulher?

 


 

EU FUI ESCOLHIDA

Susan Alexander Yates e Allison Yates Gaskins

 

 

Chegara a hora de dormir, e eu não estava muito disposta a ir para a cama. Sabia que mamãe alisaria os lençóis e se deitaria a meu lado. Eu me aconchegaria em seus braços, e ela acariciaria meus cabelos dizendo que eu era uma criança bastante especial e muito amada. Se não fosse tarde, e mamãe não estivesse cansada demais, eu ouviria A História antes de orarmos juntas.

Eu nunca me cansava de ouvi-la contar A História. Tratava-se de urna história muito especial, porque era sobre a minha vida. Fui uma criança adotada. Mamãe começava a história assim:

 — Durante muito tempo, seu pai e eu sempre quisemos ter um bebê. Oramos continuamente para que eu ficasse grávida e tivesse um bebê. Mas, depois de vários anos sem que isso acontecesse, começamos a compreender que Deus tinha algo melhor para nós. Ele decidiu que nos daria um bebê muito especial — um bebê cuja mãe não tivesse condições de cuidar dele. Deus queria que os pais daquele bebê fossem tão especiais quanto o próprio bebê. Adivinhe quem era aquele bebê especial? Você!

— Mamãe, conte mais sobre o dia em que você me adotou.

— Bem, Tucker — ela prosseguia —, aquele foi o dia mais feliz de minha vida! Tudo começou quando o telefone tocou e uma voz do outro lado da linha disse: "Sra. Freeman, seu bebê acabou de nascer. É uma linda menina. A senhora gostaria de vê-la?"

— Liguei para seu pai no escritório. Ele veio correndo para casa e fomos rapidamente até o hospital. A princípio, ficamos do outro lado

do vidro onde estavam todos os bebês recém-nascidos, olhando firme para eles, tentando adivinhar qual era você! Depois de percorrermos com os olhos todos os bercinhos, lá estava você na última fileira. Você virou a cabeça, olhou para nós e pareceu sorrir!

— Não víamos a hora de levá-la para casa e apresentá-la à nossa família e aos amigos. Quando chegamos em frente ao portão, havia uma "multidão" de amigos com presentes nas mãos, ansiosos por conhecer nosso bebê. Você tem sido uma bênção para nós. A melhor-coisa que seu pai e eu fizemos na vida foi adotar você!

Mamãe empolgava-se todas as vezes que contava A História. Nunca se cansava de repeti-la, e eu nunca me cansava de ouvi-la. Desde o início, ela me fez sentir que ser adotada era uma coisa muito especial e que eu havia sido escolhida.

Quando eu estava no sétimo mês de gravidez, minha mãe veio visitar-me em um daqueles dias em que eu me sentia extremamente desconfortável. O bebê não parava de chutar. Enquanto eu gemia e levava a mão ao ventre, minha mãe disse:

— Deve ser uma coisa maravilhosa sentir o chute de um bebê na barriga.

De repente, eu me dei conta de que minha mãe nunca sentira um bebê no útero.

— Mãe — eu disse —, coloque as mãos em minha barriga. Quero que você sinta sua neta.

A expressão de alegria estampada no rosto de minha mãe enquanto ela sentia a neta dar pontapés dentro de meu útero foi preciosa demais para mim. Compreendi que tinha condições de oferecer à minha mãe uma dádiva que ela nunca pôde sentir pessoalmente. Ela me deu tantos presentes ao longo da vida, e, finalmente, eu pude repartir um momento tão especial com ela.


 

TIRANDO FOTOGRAFIAS COM O CORAÇÃO

Vickey L. Banks

 

 

Foi um momento extraordinário no final de um dia comum. Eu estava atravessando o corredor de minha casa quando me deparei com a cena mais encantadora que já tinha visto: meu filho de três anos escovando os dentes. Não, a cena não era encantadora pelo fato de meu filho Park estar escovando os dentes; era encantadora pelo jeitinho dele naquele momento. Mesmo com a ajuda de seu banquinho surrado, ele ainda precisava ficar na ponta dos pés para conseguir enxergar-se no espelho. Vestido apenas com urna minúscula camiseta branca e cueca de "menino grande", ele esticava tanto o corpo que os pequenos músculos de sua perna se destacavam. Ele parecia tão pequenino, tão inocente, tão puro!

Parei no lugar em que estava. Olhando para ele, eu me dei conta de que um dia aquele precioso garotinho seria maior do que eu. Poderia até levantar-me do chão! Permaneci ali, sem me mexer, apreciando aquele momento maravilhoso, tentando gravar na memória a cena de meu filho na ponta dos pés.

Pensei em pegar minha câmera fotográfica para registrar o momento para sempre, mas não consegui afastar-me dali. Fiz o que outras mães têm feito ao longo dos séculos. Tirei uma fotografia com o coração.


 

A ORAÇÃO DE UMA MÃE

Angela Thole

 

 

Senhor,

Quando eles rabiscarem as paredes, ajuda-me a enxergar um arco-íris!

E, quando eu já tiver dito a mesma coisa cem vezes, dá-me paciência para repeti-la outras cem!

E naqueles dias terríveis em que tenho de dizer-lhes para se comportarem de acordo com a idade que têm, ajuda-me a lembrar que eles estão fazendo exatamente isso!

E, por falar em idade, Senhor, quando eu começar a perder a paciência, ajuda-me a me comportar de acordo com a minha!

E quanto ao resto, Senhor — marcas de dedos nas paredes, narizinhos escorrendo, quartos desarrumados, papel higiênico desenrolado, videoteipes destruídos e brinquedos quebrados ajuda-me a lembrar disto: Um dia, eu vou desejar muito que esses tempos voltem!


 

O NINHO DE SEGURANÇA

Ruth Senter

 

 

Mais cedo ou mais tarde, todos os pais deparam-se com a formatura de ensino médio do filho ou da filha. Eu me encontro nessa situação, mas não sei se estou preparada.

Enquanto seguimos pela estrada, contornando as imensas rochas vermelhas e brancas que se elevam na encosta oriental das Montanhas Rochosas, recebo, inesperadamente, uma lição sobre como aprender a renunciar.

Avisto o ninho no momento em que fazemos a curva na base de uma das gigantescas paredes de pedra. O semicírculo de gravetos parece estar equilibrado no ar, preso à rocha por um fio invisível. Estico o pescoço e olho para cima. Gostaria de ter levado meus binóculos.

— Aquele ninho tem pelo menos cem anos — diz-me o guia. — Uma quantidade enorme de filhotes de águia nasceram ali e viveram ali. Ouvi dizer que os gravetos utilizados para construir o ninho dariam para lotar a carroceria de um caminhão.

Faço uma análise mental a respeito de meu conhecimento sobre as águias. Sei que a união desses pássaros é por toda a vida. A mãe e o pai se revezam para chocar os ovos e cuidar dos filhotes. Mas meu conhecimento não incluía a existência de ninhos de segurança.

— Você está vendo aquele ninho pequeno embaixo do maior? —pergunta o guia. — Chama-se ninho de segurança. Quando os filhotes são forçados a sair do ninho com cerca de 12 semanas de idade, suas asas ainda não têm força suficiente para um vôo longo. A mamãe e o papai águia constroem o ninho de segurança para aparar o filhote, caso ele venha a cair. É chegada a hora de abandonar o ninho, mas o amparo está logo abaixo.

Permaneço em silêncio diante da enorme sabedoria da águia. O guia não faz ideia do impacto que suas palavras me causaram.

Amparo. Sim, é isso! Amparo divino. É chegada a hora de nossa Jori abandonar o ninho. Não posso impedir seu desejo de voar, da mesma forma que não posso impedir o andamento do calendário até o dia da formatura.

Será que as asas de minha filha estão suficientemente fortes? Oro para que estejam. Tenho me esforçado para isso. Mas, mesmo depois de tudo o que foi dito e feito, ainda não tenho muita certeza.

Há, porém, o "ninho de segurança" — o amparo de Deus ao longo da vida. Sinto-me tranquila por saber que existe um ninho de segurança. O dia da formatura chegará e passará. O primeiro dia de aula na faculdade chegará e passará. Nosso lar não será mais o local onde Jori mora.

Mas Deus está preparando um amparo — seu ninho de segurança — para a viagem de minha filha rumo à vida.


 

ELA SEGUROU SUA MÃO

Carla Miar

 

Ela segurou sua mão quando ele nasceu num dia ensolarado de abril.

Ela segurou sua mão no primeiro dia de aula corajosamente, dali ela partiu.

Ela segurou sua não e derrotou o medo que havia em todo lugar:

Ela segurou sua mão e deu-lhe um beijo quando ele contou que ia se casar.

Ela segurou sua mão quando ele se orgulhava do choro da filhinha recém-nascida.

Ela segurou sua mão quando a garota se afastou querendo viver a própria vida.

Agora, ao ver a alma da mãe partir; é ele quem lhe segura a nulo.

Apesar de saber que ela está se despedindo,

Ele a segura dentro do coração.

 

 


 

LEMBRANÇAS

 

Gosto muito da palavra lembrança. É o oposto de negligência, rejeição e esquecimento. Os momentos especiais são guardados na arca do tesouro de nossas memórias e tornam-se lembranças do coração. Alice Gray


 

LEMBRE-SE

Max Lucado

 

 

Se você já participou de uma cena como esta, sabe que jamais a esquecerá.

Dentro da casa, há um quarto silencioso. A fotografia da festa do colégio tirada na última primavera está na mesinha de cabeceira. Pendurado no quadro de avisos, um crisântemo seco, lembrança da festa anual da escola. Do lado de fora da casa, um carro abarrotado. O porta-malas e o banco traseiro estão cheios de roupas, livros e um aparelho de som. Tudo o que estava no quarto foi colocado no carro. Quem vivia naquele quarto está agora se aprontando para pegar o carro... e ir para a faculdade.

Os pais e o filho (cu a filha) estão atônitos diante do momento. O que houve com o tempo da infância? Quem fez os anos passarem tão rapidamente? Como pode ser, se ontem essa criança estava correndo pela casa, brincando com carrinhos e massas para modelar? Veja só agora, Ele está tão alto. Ela, tão bonita. A criança cresceu.

A criança crescida está igualmente espantada. A estrada diante de si parece longa e solitária. Existe segurança dentro das paredes de sua casa. Proteção. Amparo. Aqueles apelos em favor da independência, proferidos recentemente, não são ouvidos agora.

- Diga uma palavra, pai, e eu fico.

— Se você me pedir, mãe, cu não vou embora.

Mas o pai e a mãe conhecem a vida. Sabem que o amor deixa livre a pessoa amada. Sabem que o treinamento terminou. O sinal tocou. A classe foi dispensada. As aulas práticas começaram.

Os pais e o filho ou a filha hesitam ao lado do carro. Não há mais tempo para ensinar novas teorias. Não há mais tempo para incutir valores ou construir alicerces. Existe apenas uma palavra que pode ser dita — lembre-se. Lembre-se de quem ama você. Lembre-se do que é importante. Lembre-se do que é certo e do que é errado.

Lembre-se.


 

A CONCHA DE MINHA AVÓ

Faith Andrews Bedford

 

 

Acima de minha lareira, há um quadro de uma menina com uma concha de mar na mão, Ela a segura contra a luz, e os raios de sol atravessam sua estrutura, conferindo um tom rosa acetinado à lisa superfície interna. Seja qual for a estação do ano, a luz do Sol pintada no quadro traz a luminosidade do verão para dentro de meu estúdio.

Ao olhar para à pintura, eu me lembro de sua história. A menina está posando para seu pai, um pintor. Ela sente os braços pesados, o pescoço dolorido e anseia por um pouco de descanso.

— El, El, olhe dentro da concha — murmura o pai, e ela se lembra do grande privilégio de posar para ele, da grande procura dos quadros dele por muita gente. — Só mais um pouquinho — ele promete — e vamos fazer uma pausa para o chá.

Eleanor era minha avó, e o quadro — um daqueles dos quais seu pai não abriu mão — tem sido passado de geração a geração. Pelo que me lembro, a concha pintada no quadro ficava em cima da escrivaninha de minha avó. No inverno, quando a neblina gelada do mar chegava à praia, minha avó segurava a concha contra a lâmpada, e seu tom rosado brilhante voltava a aquecê-la com o calor do verão.

Vovó encontrou a concha na praia rochosa de uma pequena ilha no Maine, onde se localizava a casa de verão de sua família. Após a névoa prateada da manhã ter-se dissipado, ela corria em companhia de suas irmãs e de seu irmão pelas campinas empinando pipa colhendo flores silvestres ou catando lá dos carneiros selvagens da ilha que ficavam presas nos arbustos. As crianças procuravam amoras pretas e, em companhia do pai, observavam os pássaros. Ele lhes ensinava os nomes dos pássaros e o cântico de cada um. Depois do chá, exploravam as praias extensas à procura do tesouro do pirata. Foi em uma dessas aventuras que vovó encontrou a concha, polida pelas ondas do mar, alvejada pela luz do Sol. Seguindo o exemplo de gerações anteriores, ela levava a concha ao ouvido para escutar o barulho do mar.

Na época em que minha mãe nasceu, vovó já havia deixado para trás aquela casa na ilha e encontrado uma nova residência de verão para seus filhos. Eles passavam horas navegando em pequenos barcos, cavalgando pôneis através dos pântanos e pegando conchas na praia de areia branca que circundava a Baía de Cape Cod. Em sua nova casa, vovó recriou várias coisas de sua amada infância: espalhou sementes de flores silvestres nas campinas, delimitou a área do terreno e plantou amoras pretas. Da varanda, ela avistava o rio de maré e os gaviões-pescadores fazendo seus ninhos no alto dos pinheiros.

Quando nós, os netos, começamos a chegar, ela separou uma parte do jardim para sentirmos a alegria de plantar verduras, legumes e flores. Como ficávamos orgulhosos quando colocávamos sobre a mesa de refeições um prato de rabanetes — raízes redondas e vermelhas, lavadas e escovadas — plantados por nós! A mesa ficava ainda mais bonita com os vasos cheios das flores também plantadas por nós. Vovó nos ensinou como chamar os pássaros e nos contou que, com a chegada do verão, eles voltavam para os bosques e campinas de propriedade dela, da mesma forma como nós fazíamos. E ela nos permitia ouvir o barulho do mar em sua concha.

No outono, quando minha família e eu retornávamos para nossa casa no meio-oeste, eu sentia saudade dos ruídos da praia. O grito das gaivotas pairando acima do mar e o sibilo do vento eram tão vívidos que eu parecia sentir a presença deles. O odor penetrante do ar marinho era substituído pela fumaça das folhas queimadas. Porém, minha maior saudade era das marés e da tranquilidade do local. Minha avó sabia disso.

Em determinado ano, logo após o Dia de Ação de Graças, o carteiro trouxe uma caixa grande postada em Massachusetts. Mamãe a escondeu no lugar secreto onde da guardava todas as caixas que chegavam no mês de dezembro. Na manhã de Natal, abri o presente de minha avó e vi, embrulhada em papel de seda, a delicada concha rosada e branca. Peguei-a e levei-a ao ouvido. Lá estava o mar, com seu barulho característico. Lá fora, a neve caía mansamente pela janela, mas na concha, encostada em meu ouvido, as ondas batiam na praia em um dia de verão.

Nesse ano, ganhei uma netinha. Seu nascimento anuncia o início de uma nova geração. Quando ela vier me visitar, vou segurar a concha perto de sua orelhinha, e ela ouvirá o som que sempre atraiu as mulheres de nossa família para o mar. É o som do coraçãozinho dela.

 

 

Ao fazer unia retrospectiva de uma vida, você descobrirá que os momentos em que viveu realmente foram aquele,' nos quais fez coisas com espírito de amor.

HENRY DRUMMOND


 

A MESA

John V. A. Weaver

 

 

Não, não é uma mesa muito bonita de se ver. Apenas um velho móvel amarelo de carvalho, você diria. Não estou afirmando que não tínhamos condições de comprar uma mesa de mogno ou de nogueira. É que... bem, 38 anos transformam qualquer coisa em um tesouro.

Nós a ganhamos do pai de Sam quando nos casamos. A mesa e as seis cadeiras — quatro com assentos comuns, duas com assento de couro.

Eu me lembro como se fosse ontem da primeira refeição servida nela. Estávamos voltando de nossa lua-de-mel no Canadá na tarde de uma segunda-feira. Sam havia alugado uma casa de cinco cômodos na Locust Street uma semana antes de nosso casamento.

Durante todo o mês em que passamos descansando, pescando e nos acostumando a viver juntos, eu me preocupei pensando como faríamos para mobiliar a sala de jantar. Eu havia feito um bom negócio com os móveis da casa de minha mãe, e Sam levara os de seu apartamento, mas faltava a mesa de jantar. Conversamos muito sobre isso. A preocupação, porém, terminou no momento em que entramos na sala e vimos a mesa de carvalho — amarela e bem polida — acompanhada de um bilhete de papai Graham.

Consegui arrumar alguns ingredientes e preparei uma refeição para nós. O que foi servido, não importa.

Não demorou muito e lá estávamos nós, sentados nas cadeiras, um em frente ao outro, tão próximos que nossas mãos podiam se tocar.

Sam não prestou muita atenção na comida. Mantinha os olhos fixos em mim. Você deve saber como os recém-casados se comportam. Ele ficou calado por alguns instantes. De repente, virou-se para mim e disse:

— Acho que você é a garota mais linda do mundo, Mary. Estou feliz por essa mesa ser tão pequena. Assim, posso vê-la mais de perto.

— Ora, seu bobo — eu disse, rindo —, ela é elástica. As tábuas extras estão no armário das louças. Podemos deixar a mesa do tamanho que quisermos!

Ele olhou para mim e depois para as outras quatro cadeiras, com um ar maroto. Em seguida, deu um sorriso malicioso.

— Bem — ele disse —, acho que não vamos demorar muito para usar aquelas tábuas e aumentar a mesa.

Eu ri e quase engasguei com a comida. Sim, e corei também.

Você está vendo aquela fileira de marcas fundas e arredondadas perto de meu lugar? Foi Sallie quem as fez com sua colher. Ela era a única que sempre batia a colher no mesmo lugar. Ela foi a primeira.

Agora olhe um pouco mais adiante, perto da abertura — é ali que Sam Jr. tentou gravar suas iniciais quando tinha cerca de cinco anos. Sam o pegou no momento em que ele estava terminando o "S". O tempo esquentou para aquele menino nessa noite, posso garantir.

Evidentemente, tivemos de colocar uma das tábuas extras em algumas boas ocasiões antes do nascimento de Ben. As crianças estavam sempre trazendo amigos para casa. Depois de Ben, a tábua extra nunca mais foi retirada.

Algum tempo depois, colocamos a segunda tábua. Mais amigos, é claro. Sam começou a sentar-se cada vez mais longe de mim, eu lhe dizia. Ele fazia o mesmo comentário.

— Minha visão continua ótima — ele dizia. — Ainda posso ver como você é bonita.

E ele parecia sincero.

As crianças cresceram, e a mesa teve de ser aumentada até o tamanho máximo. Sallie casou-se aos 19 anos com Tom Thorpe; eles moraram conosco durante três anos.

Na época, os meninos estavam cursando o ensino médio, e posso lhe dizer que éramos uma grande família. Mesmo com as três tábuas extras, a mesa continuava pequena. Sam em uma das extremidades, e eu na outra, mais Ben, Sam Jr., Sallie e Tom — e minha primeira netinha, Irene, sentada no cadeirão.

Ela também tinha um lugar fixo. Naquela época, estávamos morando em uma casa grande em Maple, onde havia barulho, vida e felicidade! A mesa passou por muitas batalhas. Veja aquela marca marrom. Foi ali que o senador Berkeley pousou seu charuto quando jantou conosco.

Bem, em seguida Sam Jr. foi para a faculdade, e pouco depois Tom e Sallie compraram uma casa em Heights. Uma das tábuas foi retirada definitivamente, e a segunda não tinha muita utilidade, a não ser quando havia visitas esporádicas. E, a não ser nas férias, é claro.

Foi um choque para nós quando Sam ,Jr. saiu da faculdade no final do terceiro ano e foi morar na Califórnia. Ele não fugiu de casa, você entende. Não lhe demos autorização, apesar de nosso desapontamento por ele não ter terminado o curso. Mas ele estava certo. Ganhou uma montanha—de dinheiro trabalhando lá como corretor de imóveis.

Ele vem nos visitar uma vez por ano e fica uma semana ou pouco mais com Myra, sua esposa, e dois filhos pequenos. Aí, a velha mesa tem de ser esticada ao máximo. Tudo fica quieto demais depois que eles vão embora. Ben voltou e ficou conosco durante dois anos após sua formatura. Esperávamos que ele se instalasse na cidade, porque estava indo bem trabalhando com seguros de vida. Mas o problema foi exatamente esse. O escritório de Nova York o chamou, pagando o dobro, e ele foi. E a última tábua foi retirada da mesa.

Isso já faz um ano. Às vezes, penso em alugar um dos quartos da casa. Não para um fulano ou fulana qualquer, mas para um moço ou uma moça que necessite de um bom lar. O silêncio é tão grande...

Uma noite dessas, comentei minha ideia com Saro.

— Meu Deus! — eu disse. — A mesa voltou a ser pequena. Você fica muito perto de mim. Enxerga todas as minhas rugas.

Sam riu, esticou o braço e apertou a minha mão.

— Meus olhos já estão um pouco baços — ele disse. — Você continua linda como sempre. Acho que você é a garota mais linda do mundo.

Apesar de tudo...


 

MEIAS COR-DE-ROSA E CAIXAS DE JOIAS

Allison Harms

 

 

Hoje cedo, meu marido e eu demoramos um pouco mais em  nosso ritual do café da manhã.

Emma, nossa filha de quase dois anos e meio, vestida com urna blusinha vermelha e short de algodão azul, terminou sua panqueca primeiro. Limpei suas mãozinhas e seu rosto, enquanto David retirava o babador e a bandeja do cadeirão. Nós dois voltamos a nos sentar, enquanto Emma saía correndo para pegar seus tênis na área de serviço.

Quando ela voltou, eu disse:

— Você já é uma moça, querida, sabe vestir-se sozinha. — Eu ainda me surpreendia diante do interesse dela em escolher as próprias roupas e sua habilidade para vestir-se sozinha. Essas características de minha filha haviam se desenvolvido recentemente e passaram a fazer parte de sua personalidade. — Agora, vá para seu quarto e pegue um par de meias, por favor.

— Estou indo! — ela disse animada, correndo novamente.

Depois de alguns instantes, ela voltou com as meias, um par cor-de-rosa.

— Boa escolha, Emma! — eu disse.

Ela rodopiou pela mesa, dançando feliz e segurando as meias. Chamou nossa atenção para a fivela que havia prendido sozinha no cabelo. Eu a coloquei no colo e comecei a ajudá-la a calçar as meias cor-de-rosa.

Meu marido piscou, incrédulo. Eu sabia que a combinação de cores escolhida por Emma cor-de-rosa, azul e vermelho, com uma fivela verde-limão no cabelo — o deixara um tanto desnorteado.

— Você vai permitir que ela saia assim?

Eu sorri.

— Você vai permitir que ela faça caixas de joias com sobras de madeira?

Rimos juntos, lembrando-nos da história.

Quando tinha cerca de oito anos, David encontrou algumas sobras de madeira na garagem. Eram triângulos recortados dos degraus da escada do porão que seu pai havia instalado recentemente. David não resistiu ao ver aquelas tábuas; sua criatividade veio à tona. Ele decidiu montar, por conta própria, uma caixa de joias para sua mãe.

David ainda se lembra de ter ficado completamente absorto durante a montagem da caixa de joias. Nivelada, quadrada e firme — essas eram as regras para lidar com madeira que ele aprendera com o pai, observando-o enquanto consertava móveis, colocava a cerca no lugar e instalava a escada. E David fez uma obra de arte e amor que era nivelada, quadrada e firme — de acordo com a habilidade de um menino de oito anos usando sobras de madeira. Ele sentiu-se feliz por criar um presente que tinha orgulho de oferecer. O presente expressava o amor que ele nutria peia mãe.

Hoje, ao fazer uma retrospectiva, David descreve o presente como "um caixote de madeira, um caminhão com removedor de neve", não uma caixa de joias. Ele diz que a peça não se parecia em nada com uma caixa; assemelhava-se mais a um bloco de madeira e era muito pesado.

— Meus pais nunca me disseram que a caixa era feia — dizia David.

Eles consideravam a caixa de joia um verdadeiro tesouro e incentivaram suas ideias criativas. O pai dele começou a guardar sobras de madeira na garagem e mostrou a David e aos outros filhos como usar as ferramentas, convidando-os a construírem o que desejassem. A mãe deixou a caixa de joias exposta durante anos. O martelo usado por David havia entortado os pregos em todas as direções, de modo que a mãe teve de colocar uma toalhinha embaixo da caixa para evitar riscos na cômoda, o primeiro móvel que ela havia comprado.

Com o passar do tempo, a caixa de joias foi levada ao sótão para fazer companhia a outros pertences da família; David acha que vai herdar a caixa de seus pais. Um dia, Emma, a filha de David, segurará aquela caixa de joias nas mãos e verá como a criatividade é estranha, como os olhos de um adulto enxergam a tentativa de uma criança que deseja expressar amor. Em seguida, ela ouvirá a história. E espero que ela se lembre-se de que seus pais a incentivaram a manifestar seus talentos, que apreciavam muito.

Mas, por ora, Dave estava esticando o braço para amarrar os tênis de Emma.

— Está bem — ele disse. — Chega de reprimir manifestações de _ . criatividade. — Em seguida, ergueu a cabeça e piscou para mim. —Você tem uma toalhinha?

 

 

 

A felicidade entra sorrateiramente por uma porta

que você não sabia que havia deixado aberta.

JOHN BARRYMORE


 

TEMPESTADE DE NEVE NO TEXAS

Luci Swindoll

 

 

Desde a infância, sempre tive certo talento teatral. Minha família era extremamente expansiva e extrovertida, e nos divertíamos com nossas maneiras excêntricas. Acho que, quando não existe aparelho de TV em casa, as famílias tendem a criar os próprios show., domésticos. Era o que fazíamos... o tempo todo. Mas, por considerar-me uma "atriz", adquiri confiança dentro de casa para exibir meus talentos em outros lugares. Aquilo foi um erro!

Eu devia ter uns sete ou oito anos e estava voltando da escola para casa em uma tarde quente, carregando uma pilha de livros, quando me senti aborrecida com aquela rotina diária. Decidi "representar" que estava no meio de uma violenta tempestade de neve, lutando para sobreviver. De uma forma ou outra, eu me saí bem! Os livros escolares tornaram-se um escudo para proteger meu rosto de uma súbita nevasca. Segurei-os diante de mim à medida que cambaleava, caindo uma ou duas vezes, imitando o tempo todo o barulho do vento com a boca. Durante um minuto ou pouco mais, a cena pareceu real, mas, no auge da representação, quando olhei para cima tentando saber a que distância eu estava do abrigo, avistei a varanda da casa de meus vizinhos. Estavam todos lá, sentados em completo silêncio, olhando para mim, tentando entender o que se passava na cabeça da menina da casa ao lado.

Naquele momento, eu queria que o chão se abrisse para eu desaparecer, mas isso não aconteceu. Quando suas gargalhadas quebraram o silêncio, o medo tomou conta de mim. A bem da verdade, mortificada era uma palavra suave para o que eu sentia. Abaixei a cabeça e corri para casa. Só voltei a aparecer em público semanas depois, e a rotina de voltar para casa depois da escola retornou a seus padrões de normalidade. Nunca mais houve uma tempestade de neve em uma tarde quente no Texas.

Alguns anos depois daquele episódio constrangedor, meus pais matricularam-me em um curso de elocução com um excelente professor de Houston que havia tido uma carreira brilhante nos palcos de Nova York. Eu adorava aquelas aulas. Elas foram muito proveitosas para mim, embora eu imagine que meus país me matricularam naquele curso para salvar o nome da família.

Eu diria que, por herança genética, o meu amor pelas artes era inevitável. Quando faço uma retrospectiva de minha vida, vejo minha avó materna, professora de piano durante 33 anos, tocando por satisfação pessoal ou acompanhando os cânticos de seus filhos e netos. Meu avô, quando jovem, tocava trompete em uma pequena orquestra. Ambos participaram, ao longo dos anos, de muitos programas musicais na igreja e na cidade do Texas onde moravam, e juntos transmitiram aos filhos o amor pela música.

Uma de minhas tias — a irmã mais nova de mamãe — além de ser uma artista por talento e aprendizado, também é uma excelente pianista. Minha mãe adorava cantar e especializou-se em canto nos tempos de faculdade. Costumávamos cantar em dueto na igreja, ela como soprano, e eu como contralto. Às vezes, meus dois irmãos juntavam-se a nós e formávamos um quarteto: Chuck como tenor, e Orville como baixo.

Ainda me lembro, ao rebuscar recantos minha memória, da cena de nós três, quando crianças, em pé na escada de uma lanchonete, cantando para que o proprietário e os clientes nos oferecessem sorvetes de graça. Quanto mais versos cantávamos, mais sorvetes ganhávamos! Penso que meu pai nos considerava substitutos da família von Trapp [personagens do filme A Noviça Rebelde]. Ele adorava nos levar em excursões, sempre recebendo elogios pelo talento e intrepidez de sua prole. Cantávamos para quem quisesse ouvir e, conforme me lembro, ficávamos completamente à vontade diante do público. Era divertido, e, afinal, o objetivo de receber duas ou três bolas de sorvete nos incentivava a cantar qualquer música que soubéssemos de cor.


 

TESOUROS SIMPLES

Garnet Hunt White

 

 

Mamãe aceitava minhas amigas como elas eram, e minhas migas a amavam por isso. Elas gostavam da maneira como mamãe ouvia seus problemas e dos conselhos que dava sem fazer sermões.

Mamãe transformava coisas simples em preciosidades, fossem elas roupas, abjetos de artesanato ou refeições.

Houve um incidente, quando eu tinha 12 anos, que me fez gostar ainda mais de mamãe. Até aquela época, eu a aceitava sem me dar conta do quanto ela era importante para mim.

Mabel, que tinha quase 13 anos, convidou-me para passear em Bill's Creek com Olive, Irene e Esther. Nós, garotas de 12 anos, planejávamos fazer um piquenique e almoçar na margem do riacho. No entanto, eu me esqueci de avisar minha mãe sobre o almoço.

Todas nós morávamos ao longo da estrada Red Hill Dirt. Minha casa era a última antes do riacho. Quando as garotas chegaram para me buscar, Mabel disse:

— Não se esqueça do queijo e dos biscoitos. Abaixei a cabeça e corei. O sangue começou a latejar em minhas têmporas. Eu havia esquecido de contar a mamãe sobre o queijo e os biscoitos.

— Mãe, posso levar alguma coisa para a gente comer? — perguntei timidamente.

— Eu não tenho nada apropriado para um piquenique — ela disse. — Você precisa levar alguma coisa fácil de carregar.

— Temos queijo e biscoitos suficientes para todas — assegurou-me Mabel enquanto saíamos para nossa aventura naquela tarde.

Quando chegamos ao riacho, Mabel colocou a comida na areia, perto da margem.

Entramos no riacho e começamos a bater as mãos na água fria que vinha de uma fonte. Apesar de segurarmos nossas saias acima dos joelhos, a barra dos nossos vestidos ficou encharcada. A água fria nos pés e nas pernas fez nosso queixo tremer naquele dia de verão.

Meu pé escorregou em uma pedra; caí dentro da água gelada. Tremendo da cabeça aos pés, corri em direção à areia para receber um pouco do calor do Sol.

Em seguida, as garotas começaram a tremer de frio e saíram da água para aquecer-se também.

— Vejam! — gritou Olive. — Nosso almoço. Os biscoitos estão boiando e o queijo está molhado.

Apesar de famintas, não conseguimos comer os biscoitos encharcados. Mastigamos o queijo em silêncio.

De repente, ouvimos um ruído atrás de nós e viramos para ver quem estava chegando. Era mamãe!

— Achei que vocês estavam com fome — ela disse. — Trouxe uma cesta de comida.

Mamãe entregou a cada uma de nós dois biscoitos quentes recheados com bacon, alface e tomate. Ela comeu o lanche conosco, mas não o devorou tão depressa como nós.

— Aposto que nem o presidente está comendo uma comida tão deliciosa — disse Esther.

— Sra. Hunt, este é o lanche mais gostoso que já comi — disse Irene à minha mãe.

— Os biscoitos estão bons demais — interveio Olive. — Eu poderia comer uma dúzia deles!

- A senhora sabia que estávamos tão famintas quanto um cão de caça — disse Mabel.

— Garnet — disse Irene, sorrindo para mim —, sua mãe é uma preciosidade.

Todas nós sabíamos o trabalho que deu para ela preparar aquelas guloseimas. Mamãe teve de acender o fogão para esquentar o forno a uma temperatura ideal para assar os biscoitos; depois, teve de ficar debruçada sobre o calor do fogão para fritar o bacon para nós.

— Sra. Hunt, o que podemos fazer para ajudar a senhora? —perguntou Mabel. — Já sei! Vamos até sua casa para lavar a louça.

— Já está tudo lavado — disse mamãe. — Limpei tudo antes de sair.

Não demorou muito para chegar a hora de ajuntar tudo e voltar para casa. — Vamos acompanhar a senhora e carregar a cesta — disse Olive alcançando minha mãe e pegando a cesta na qual ela havia trazido os sanduíches.

Vi, pela primeira vez, que minhas amigas davam muito mais valor à minha mãe do que eu. Naquela tarde de verão, elas me fizeram compreender como minha mãe era preciosa.

Anos mais tarde, quando tínhamos aparelhos eletrodomésticos em casa, eu pensei em minha mãe debruçada sobre o fogão quente, fritando bacon em uma tarde de verão e aguardando os biscoitos dourarem. Hoje, me pergunto se conhecia todas as dificuldades que ela enfrentou por minha causa durante minha infância.

Quando essas lembranças tão doces me vêm à mente, entendo por que mamãe é um tesouro guardado dentro de meu coração.


 

MINHA MÃE É R.N.

Marilyn Martyn McAuley

 

 

Sempre tive orgulho por minha mãe ser R.N. [sigla em inglês para enfermeira registrada], e minhas amigas de infância sabiam disso. Quando eu queria valorizar meus conhecimentos sobre alguma doença estranha, eu as fazia lembrar que minha mãe era R.N. O que mais elas poderiam acrescentar?

Não bastava dizer que minha mãe era enfermeira. Eu conhecia muito bem a graduação das enfermeiras. Na década de 1940, havia a P.N. [sigla em inglês para enfermeira prática] e a R.N. Minha mãe nunca me falou disso. Aprendi enquanto brincava e ouvia a conversa dela com suas amigas enfermeiras. Descobri que a R.N. tinha mais estudos e, portanto, era mais bem paga, apesar do ganho não ser condizente com sua capacidade e seu empenho no trabalho.

Mamãe estabelecia normas para ela e para as enfermeiras que trabalhavam sob sua supervisão, e quem se beneficiava eram os pacientes. Ela era competente, compassiva e criativa em sua profissão. . Sei disso porque ela cuidou de mim quando contraí as doenças  comuns da infância. Essas experiências deram-me absoluta certeza de sua competência e assimilei tudo o que ela me ensinou sobre saúde e higiene.

Apenas uma vez, ela exagerou para impedir que eu ficasse doente. Foi durante a Segunda Guerra Mundial, quando papai estava lutando no Pacífico Sul. Eu estava na segunda série e levei para casa um da professora dizendo que nossa classe esteve exposta ao vírus da catapora. Sim, se você acha que naquele dia a guerra mudou do Pacífico para nossa casa, tem razão. Minha mãe ordenou que eu tirasse toda a roupa e entrasse no banho. Observei com preocupação enquanto ela enchia a banheira de água quente. Quando o vapor começou a subir, ela tirou a tampa de um pequeno frasco marrom de desinfetante e despejou algumas gotas na água? Ela usava aquele líquido mágico em tudo e agora o estava usando em mim! Assustada, comecei a pular e a chorar.

— Mamãe, mamãe, não quero que você me desinfete!

O método dela provou ser muito eficiente — só tive catapora aos nove anos.

Mamãe assinava um jornal sobre enfermagem chamado R.N. Um dia, minha amiga vizinha viu o jornal e me perguntou o que significava R.N. Mamãe e suas amigas sempre mencionavam apenas as iniciais, e eu tinha de usar a imaginação para saber o que significavam. Com toda a sabedoria de meus oito anos, informei, com orgulho, à minha amiga que o significado era Enfermeira Verdadeira [em inglês, Real Nurse]. Fazia sentido para mim. Também nunca me preocupei em querer saber o que P.N. significava!

Naquela noite, contei à minha mãe a conversa que tive com minha amiga. Ela começou a rir.

— E você disse o quê?

— Que R.N. significa Enfermeira Verdadeira.

Foi então que aprendi que R.N. significa Enfermeira Registrada. Bem, para minha mente infantil, registrada não era uma palavra tão marcante quanto verdadeira. A partir da terceira série, procurei adquirir mais conhecimento e nunca dispensar informações. Em meu coração, mamãe continuou a ser minha enfermeira verdadeira... e a melhor de todas!


 

IRMÃ ROSALIE

Philip Gulley

 

 

Quando eu tinha seis anos, minha mãe começou a trabalhar como professora em um colégio católico na cidade vizinha à nossa. O colégio localizava-se junto à igreja católica. Quando ela foi construída, alguém pendurou um enorme símbolo de peixe na parede externa. Durante vários anos, imaginei que minha mãe trabalhava em uma peixaria ou casa de artigos para pesca.

As outras professoras eram freiras. Uma delas, chamada Irmã Rosalie, era uma mulher robusta e brincalhona. Ela lecionava para o primeiro ano. Isso foi no tempo em que o jardim de infância não era obrigatório, portanto para muitos alunos a Irmã Rosalie foi sua primeira professora. Até hoje, há pessoas naquela cidade que endireitam o corpo e juntam as mãos em atitude de oração quando veem uma freira chegar.

No verão, quando completei sete anos, meu irmão David foi operado de hérnia. A Irmã Rosalie foi tomar conta de nós, enquanto meus pais estavam no hospital. Ficamos muito preocupados, principalmente depois de meu irmão Glenn ter dito que David se recuperaria no sofá da sala durante uma semana e teria permissão para assistir a todos os programas de TV. Achando que estávamos preocupados por causa da saúde de David, a irmã Rosalie resolveu assar um bolo para nós.

Brincávamos no jardim quando ouvimos um estrondo abafado dentro da casa. A porta de tela dos fundos foi aberta com Força, e nossa gata saltou para fora com o pelo e os bigodes chamuscados. A Irmã Rosalie apareceu cambaleando atrás da gata e agarrando a cruz pendurada no pescoço. Suas meias estavam rasgadas e grudadas nas pernas.

Nosso fogão vinha apresentando problemas. A luz piloto apagava sozinha. Minha mãe costumava abrir a porta e arejar a cozinha. Só depois disso é que ela riscava um fósforo para reacender o fogão. Infelizmente, ela se esqueceu de passar essas instruções à Irmã Rosalie. Quando a freira acendeu o fósforo na cozinha cheia de gás, o fogão explodiu pelos ares.

O ano era 1968. Algumas pessoas lembram-se de 1968 como o ano das rebeliões em Chicago que causaram rebuliço de âmbito nacional. Os moradores da Rua Martin lembram-se de 1968 como o ano em que uma freira que assava um bolo quase fez explodir nosso quarteirão inteiro. Encontramos a gata no dia seguinte escondida dentro de uma caixa, tão amarfanhada quanto os manifestantes que protestavam contra a guerra em Chicago. Nós a levamos para casa, mas ela nunca mais voltou a ser a mesma. Sempre que uma freira vinha nos visitar, a gata se escondia em um canto e choramingava, atormentada por lembranças felinas.

Vários anos após aquela explosão, a Irmã Rosalie deixou de lecionar e tornou-se capelã do hospital da cidade. Hoje, quando um membro de nossa Sociedade de Amigos adoece, eu o visito no hospital onde ela atua. No caminho até o quarto, passo pela sala dela, enfio a cabeça na fresta da porta e grito:

— Bum?

Depois, conto a suas colegas o que aconteceu em 1968. Tenho a impressão de que a Irmã Rosalie deseja que eu arrume um emprego bem longe da cidade.

Todos os anos, as freiras do colégio católico realizam uma reunião na casa de meus pais. Na parede da sala de jantar, há uma fotografia da família tirada em 1968. A Irmã Rosalie olha para a fotografia, vira-se para minha mãe e diz:

— É assim que eu me lembro de seus filhos.

E eu me lembro dela em pé na varanda dos fundos, com os cabelos chamuscados e as meias grudadas nas pernas...

Acho que a Irmã Rosalie é a primeira santa que conheci depois de minha avó Norma. Tenho estudado muito sobre santos. Santos são pessoas cujo amor a Deus os leva a fazer coisas que são consideradas perigosas. Essa descrição é bem apropriada para as pessoas que cuidam de crianças.

Certa vez, quando eu estava no hospital, vi a Irmã Rosalie confortando um paciente, segurando-lhe a mão e orando com ele. Naquele dia, eu não gritei "Bum!" Limitei-me a observar urna santa em ação e lembrei-me de 1968, quando o mundo inteiro parecia estar em polvorosa, menos a vovó e a Irmã Rosalie.

Meus pais mantiveram aquele fogão por mais dez anos. Tempos depois, a grelha, testemunha muda daquele ano turbulento, despencou. A Irmã Rosalie, porém, continua firme como um carvalho. É isso que a fé fundamentada na bondade é capaz de Fazer.

 

 

Cada momento do ano tem anta beleza própria... uma pintura que nunca foi vista antes e jamais será vista novamente.

RALPH WALDO EMERSON


 

UMA NOTA DE DEZ DÓLARES

Don Haines

 

 

Quando eu era menino, minha avó morava a um quilômetro e meio de distância. Da cozinha de sua casa na fazenda, ela distribuía leite, biscoitos, conselhos, sabedoria e amor. De sua conta bancária, vinha sempre uma nota de dez dólares no Natal.

Eu não era o único neto favorecido entre os muitos que ela possuía. Minha avó repartia tudo igualmente, quer fosse dinheiro quer amor. Cada criança sentia-se especial. Nenhuma era deixada de fora.

A maioria das pessoas tem lembranças de suas avós, e geralmente há uma particularidade que traz essas recordações de volta. Para mim, é uma nota de dez dólares.

Certa ocasião, meu primo e eu fugimos de uma tarefa que nosso avô tinha nos mandado fazer. Embrenhamo-nos na inata e fomos parar perto de um ninho de vespas. Nosso avô não teve piedade de nós.

— Vocês dois deviam ter ficado cuidando da plantação de feijão. — Esse foi seu único comentário.

Minha avó, porém, aplicou pacientemente uma pasta de bicarbonato de sódio em cada ferroada das abelhas, enquanto enxugava nossas lágrimas.

— Os meninos, às vezes, fazem coisas erradas — ela disse, sorrindo. — Mas eles continuam sendo bons garotos.

Essa é uma das lembranças que me vem à mente todas as vezes que vejo uma nota de dez dólares.

Minha avó era uma mulher forte e tranquila, que dirigia uma casa onde todos sempre se sentiam bem recebidos e protegidos. Nada de mau ou de feio conseguia penetrar as paredes da casa de vovó. Qualquer criança com problema era sempre convidada a entrar para conversar. Ela ouvia atentamente todas as histórias tristes. Em seguida, após dizer algumas palavras bem escolhidas, tirava a carga do problema de cima dos ombros do jovem abatido. Hoje, eu me dou conta de que ela já havia passado por muitos problemas que costumava ouvir. Talvez tenha sido por isso que seus conselhos eram sempre mais valiosos que uma nota de dez dólares.

Embora ajudasse outras pessoas a lidar com o sofrimento, ela nunca falava dos seus. Vim a saber, por intermédio de minha mãe, que o primeiro filho de vovó morreu quando era bebê. Sua filha, a segunda da prole, morreu aos 21 anos, uma semana depois do casamento. Uma de suas irmãs cometeu suicídio. Muitas pessoas teriam se tornado amargas diante de tantas perdas. Ela devia sofrer internamente, mas nunca deixou transparecer. Eu me lembro de minha avó como uma senhora bondosa, gentil e positiva. Ela ofereceu amor e segurança todos os dias de sua vida. E em cada Natal... uma nota de dez dólares.


 

RECORDAÇÕES DE CASA

Emma Stewart

 

 

Quando eu era criança, morava perto de uma floresta. A estrada, com destino indefinido, serpenteava por entre arbustos de framboesa e de Flores silvestres, ao longo da encosta de uma montanha, onde o ar ficava impregnado do agradável aroma dos loureiros e das flores das madressilvas. A estrada passava ao lado de um terreno cercado com arame farpado. Era ali que Preta, a nossa vaca, pastava. Ao lado da cerca, havia uma profusão de violetas grandes e perfumadas.

Quando a estrada se cansava de serpentear, e eu me cansava de andar, chegávamos sempre ao mesmo lugar. Os imensos buxos tinham porte altivo e elegante, como se fossem soldados guardando uma humilde casinha, o lugar mais perto do céu — meu lar.

Tratava-se de uma moradia de dois pavimentos, necessitando urgentemente de uma nova demão de cal. A casa tinha telhado de zinco pintado de vermelho vivo, da cor de morango maduro, que trepidava quando o vento soprava forte. A glicínia, uma trepadeira ornamental, agarrava-se com força às colunas da varanda, e a porta de tela enferrujada rangia alto quando alguém a abria.

O piso era simples, coberto apenas com um ou outro tapete de crochê feito por minha avó. O teto alto tinha como enfeite apenas algumas teias de aranha. A lareira era decorada com um despertador-calendário que estava em férias havia anos. Em um dos cantos, sobre o aparador, via-se um lampião de querosene com o globo enegrecido pela fumaça.

Preso à chaminé, havia um velho aquecedor de ferro fundido, trincado em um dos lados, que nos proporcionava uma temperatura agradável nos dias gelados de inverno. Havia também uma caixa de serragem de carvalho.

Durante o verão, usávamos um leque de folha de palmeira para nos proporcionar uma leve brisa. Já o pavimento superior possuía ventilação própria vinda do 'bálsamo-de-gileade", uma árvore cujas folhas balançavam com o vento permitindo a entrada de uma brisa agradável através das janelas dos quartos.

Fazíamos as refeições na pequena cozinha, que ficava no quintal. afastada da casa. A cozinha parecia uma geladeira no inverno e uma fornalha no verão.

Tínhamos um velho e feio fogão escuro, urna enorme mesa quadrada, geralmente coberta com uma toalha de motivos florais e algumas cadeiras de madeira com espaldar redondo. Um balde contendo água tirada de um poço coberto de musgo ficava sobre uma mesinha perto do fogão e, ao lado dele, uma "caneca" feita de meia casca de coco. A eletricidade ainda não havia encontrado o caminho de nossa casa.

Mas nossa comida era boa. Nada pode ser comparado aos biscoitos assados em nosso forno, ao pernil frito mergulhado em molho avermelhado, ao repolho boiando na gordura do pernil e ao bolo de manteiga coberto com glacê de chocolate feito em casa. Minha mãe ia até a varanda da cozinha e nos chamava quando a refeição estava pronta.

Eu passava grande parte do tempo deitada em uma rede, embaixo das velhas árvores de galhos retorcidos. Também passava horas balançando no quintal, recebendo o ar fresco e os raios de sol no rosto, mergulhada em devaneios agradáveis. Aquela era a minha ideia de recreação. Eu não sabia o que significava solidão.

Mamãe, uma pessoa encantadora de meigos olhos castanhos, era alta, magra e empertigada. Seus longos cabelos negros eram enrolados em forma de coque na nuca. Ela estava sempre atarefada cozinhando, andando de um lado para o outro, alimentando as galinhas, lavando roupa em um velho tanque ou tirando água de um poço de quase cinco metros de profundidade. Porém, ela ainda encontrava tempo para me fazer carinhos e costurar roupinhas para minhas bonecas.

Papai trabalhava o dia todo com um arado puxado por uma mula e um cavalo, revolvendo a terra e tirando capim seco e palha do caminho. Havia odor de terra fresca por toda parte. Quando um corvo crocitava ao longe, papai o imitava e tentava afugentá-lo.

Às vezes, após o jantar, íamos à casa de um vizinho ou, então, ficávamos sentados conversando ou ouvindo música tocada em uma vitrola movida a manivela. A vida era simples para nós, mas era boa.

Daquela época para cá, o mundo mudou muito — e eu também. Apesar de todo o progresso, o amor continua a ser a grande força na terra. Aprendi isso com meus pais muitos anos atrás. Foi o amor que fez uma humilde casa no campo ficar parecida com o céu.


 

OS PONTOS QUE UNEM

Linda Sunshine

 

 

Minha avó acreditava que podemos saber muitas coisas obre uma mulher por meio dos trabalhos manuais que ela faz com agulhas, principalmente se olharmos o avesso.

— O avesso mostra tudo — ela dizia.

De uma forma ou outra, a história das mulheres de minha família pode ser contada por meio de trabalhos manuais.

Minha avó fazia trabalhos de crochê — miúdos, parecidos com flocos de neve — com fio muito fino de algodão que emendava, transformando-os em peças grandes. Cada peça demorava anos para ficar pronta. Minha avó era uma mulher forte e disciplinada, cuja espinha dorsal, sempre ereta, jamais tocava o espaldar de sua cadeira. Ela impunha uma postura correta e padrões de comportamento para si e para os outros da casa. No trabalho dela. não havia lado direito nem avesso. Ambos eram perfeitos.

Tenho uma peça rendada que vovó fez para minha tia. Mesmo depois de quase 30 anos, o trabalho continua firme. As partes foram juntadas com tal precisão que não se vêem emendas. Da mesma forma que minha avó, a peça se recusa a desgastar-se.

Minha mãe, por outro lado, é menos rigorosa com seu trabalho. Ela gosta do desafio de levar adiante projetos aparentemente impossíveis — quadros bordados do tamanho de uma parede (um deles copiado da capa do primeiro livro que publiquei quando ainda era jovem) ou malhas de lã enormes, tricotadas com agulhas bem finas. No momento, ela está tricotando uma malha tão complicada que cada carreira de pontos é diferente da outra, com tirinhas de couro enroladas no fio de lã. Será uma obra de arte, mas, como todos os trabalhos de minha mãe, depois de pouco tempo de uso os fios ficarão pendurados e haverá buracos no lugar onde os pontos não foram tricotados com firmeza. O avesso das malhas feitas por minha mãe são uma mixórdia, porque ela trança fios longos por trás da peça para ganhar tempo. Ela trabalha rapidamente para completá-la e, em seguida, começa outra. Na pressa, ela não pára para prender os fios soltos.

Minha irmã, a mais talentosa de nós, cria desenhos próprios e os executa nos mínimos detalhes. Ela sabe acompanhar as receitas e não gosta de cortar caminho para terminar mais depressa. Mamãe e eu pedimos ajuda a ela todas as vezes em que nos atrapalhamos com um ponto complicado de tricô. Só ela tem paciência para entender a receita, por mais difícil que seja.

Você jamais encontrará uma falha em uma almofada ou malha feita por minha irmã. Ela é a única da família capaz de desmanchar uma manga inteira se descobrir que houve um erro no punho, mesmo que só possa ser visto quando a malha estiver do avesso. Mamãe e eu brincamos com ela, mas, ao mesmo tempo, sabemos que é exatamente esse perfeccionismo que confere a seu trabalho a qualidade que falta no nosso. Não é de admirar que os livros de bolso sobre crochê, escritos por minha irmã, sejam vendidos por centenas de dólares nas lojas especializadas.

Quanto a mim, não tenho paciência para seguir as receitas. Minha rebeldia aflora quando sou forçada a fazer o que me mandam sempre acho que posso encontrar um caminho mais fácil para completar o trabalho. Geralmente estou errada. Cometo muitos erros e tenho a tendência de desprezá-los (imaginando que ninguém vai notar ou que a maioria das pessoas é educada demais para dizer alguma coisa).

Mas, apesar das mangas nem sempre terem o mesmo comprimento, os avessos de minhas malhas são quase tão perfeitos quanto os de minha irmã. Deve ser por causa de minha avó que eu valorizo tanto a perfeição. E deve ser por causa de minha mãe que tenho essa tendência em acreditar na minha criatividade. Eu me esforço para arrematar bem a peça. Consequentemente, o avesso de minhas malhas tem, quase sempre, uma aparência melhor que o lado direito.

Quando meu sobrinho Adam nasceu, mamãe, minha irmã e eu começamos a trabalhar freneticamente fazendo casaquinhos, malhas, túnicas, jaquetas — a criança teve tudo o que podia ser feito com agulhas de tricô. Na época em que ele tinha cinco anos, suas roupas de tricô eram suficientes para vestir todos os alunos de sua classe no jardim de infância.

Se empilhássemos todas essas malhas, você teria uma noção de como são as mulheres de minha família. As malhas são tributos de nossa devoção, nosso amor e nossa compulsão mútua. Sim, aquelas malhas dizem muito sobre nós, principalmente se Forem viradas do avesso.


 

A ROSA

Nancy I. Pamerleau

 

 

Quando eu era pequena e usava rabo-de-cavalo, entrei em uma dessas antigas lojas de artigos de pechincha, com soalho  range e cheirando a pipoca e doces baratos. Eu estava à procura de um presente para o Dia as Mães. Depois de examinar cuidadosamente os artigos que minha pequena mesada podia comprar, escolhi uma rosa vermelha de plástico. Escondi-a em meu quarto, compus um poema para a data especial e entreguei o presente à minha mãe.

Depois da morte dela, encontrei a rosa, já desbotada e empoeirada, mas ainda no vaso de cristal sobre uma bandeja de prata. Foi somente naquela época que me dei conta do quanto a rosa significava para ela. Mamãe a guardou por 30 anos. O Natal que se seguiu à morte dela foi muito triste. Não havia mais a tradicional ceia familiar preparada por ela, a mesa farta decorada com motivos natalinos, e seu amor generoso, principalmente com os netos.

Para consolar-me, meu marido comprou vários presentes especiais que estavam um pouco acima de nossas posses. Depois de abrir todos, eu continuava muito triste. De repente, vi o presente oferecido por meu filho de seis anos.

— Eu escolhi este presente sozinho, mamãe — ele disse com orgulho, estendendo o braço para entregar-me.

Dei um largo sorriso e senti um enorme conforto ao aceitar aquele tesouro. Um anjo devia ter sussurrado ao ouvido de meu filho quando ele fez aquela escolha. Era uma rosa vermelha artificial.


 

O NHANDI DE NATAL

Elizabeth Silanee Ballard

 

 

Nhandi: arbusto verde, com frutos de sabor acre, ovado pela família Norbert coma "árvore de Natal" em cima de uma mesa. Paul Norbert.

Nhandi: arbusto verde muito bonito com frutos de sabor acre. Deve ficar no quintal e, definitivamente, NÃO é muna árvore de Natal. Anne Norbert.

Anne e Paul tiveram a primeira rusga conjugal no dia 15 de dezembro, três meses apôs o casamento. Durante semanas, Anne confeccionou delicados enfeites de renda e queria comprar a primeira árvore de Natal para sua casa, uma árvore especial da qual eles sempre se lembrariam.

— Já temos nossa árvore de Natal — disse Paul, dirigindo-se ao quintal para pegar o nhandi.

— Um arbusto? — ela perguntou. rindo, achando que ele devia estar brincando.

 — Um arbusto dentro de um vaso preto de plástico?

Mas Paul não estava brincando.

— A família Norbert sempre teve um nhandi no Natal. Acho que eu devia ter-lhe contado antes, mas nunca me preocupei, porque se tratava de uma tradição nossa desde que eu tinha 12 anos. Chegou a hora de comemorarmos essa tradição juntos, e não vou abrir mão do nhandi.

O rosto dela enrubesceu. Ah, o nhandi já estava sendo levado para dentro da casa. Foi colocado no quintal no dia seguinte ao casamento, quando Paul trouxe suas coisas do apartamento que dividia com seus dois irmãos. Por mais bonito que fosse, não era uma árvore de Natal. Não era o que ela desejava para pendurar os enfeites feitos à mão, e os galhos eram frágeis demais até para sustentar o cordão com as minúsculas luzes brancas.

— E por quê?

— Preste atenção. Anne — ele disse. — Papai morreu quando Davey tinha dois anos, e mamãe sacrificou-se muito nos três anos seguintes. Logo após, ela ficou doente.

Anne ouviu a explicação de que Julia, a mãe de Paul, gastava tantas horas de trabalho na fábrica de meias por causa da sua enfermidade, que seu ganho para sustentar os três filhos desaparecia rapidamente. As despesas médicas passaram a ser prioridade, enquanto ela tentava desesperadamente ficar curada.

— Aquele foi o primeiro ano que não tivemos uma árvore de Natal — contou Paul, puxando Anne para perto de si. — Randy tinha oito anos, Davey cinco e eu 12. Eu estava muito aborrecido. Queria uma árvore de Natal. Todos os meus amigos tinham uma árvore, e eu estava zangado por não poder ter uma também. Uma semana antes do Natal, mamãe voltou para casa depois de uma visita ao médico e me contou que necessitava ser operada e que seria internada no dia 26 de dezembro. Ela esperava ter conseguido trabalhar algumas horas extras, mas não foi possível. "Vou precisar de sua ajuda, Paul, para preparar um Natal especial este ano", ela dissera ao filho mais velho.

Ressentido, Paul ouviu a ideia da mãe e ajudou-a a arrancar o nhandi plantado no quintal e colocá-lo no vaso preto de plástico.

— Eu sempre gostei muito desse arbusto — sua mãe dissera. — Minha avó tinha nhandis plantados no quintal de sua casa na Carolina do Norte e sempre havia frutinhas vermelhas na época do Natal. Você está vendo quantas frutinhas há no nhandi? Ele vai ficar lindo se você e seus irmãos colocarem mais alguns enfeites.

Paul pensou nas árvores altas com enfeites brilhantes e estrelas que seus amigos descreviam. O nhandi não poderia substituir uma árvore de Natal.

— Tentamos enfeitá-lo para ficar parecido com uma árvore de Natal. Randy e Davey divertiram-se muito. Davey era muito pequeno para lembrar-se das árvores de Natal que tivemos no passado, e Randy gostava muito de agradar às pessoas, portanto não fez nenhuma pergunta a respeito do nhandi. Eu fui o único que detestei a árvore.

Julia deixara claro que compreendia a raiva e o desapontamento de Paul, mas prosseguiu sua tarefa de colocar algumas roupas em uma sacola para levar ao hospital e preparar comida suficiente para os filhos até sua volta para casa.

— Na manhã da véspera de Natal, percorremos os seis quarteirões até a igreja. Nós, os meninos, ficávamos impacientes todas as vezes que tínhamos de parar um pouco para minha mãe descansar. Quando finalmente chegamos aos degraus de pedra cinza da igreja, minha mãe me disse para ficar do lado de fora com meus irmãos até ela voltar.

Depois de algum tempo, Paul começou a ficar ansioso. As pessoas estavam chegando para assistir ao culto especial das crianças e para ver a encenação da festa de Natal no gramado da igreja.

— Meus irmãos estavam inquietos e começaram a discutir. Fiquei preocupado imaginando que chegaríamos atrasados ao culto. Além disso, eu estava zangado por ter de ficar lá fora com eles; assim, resolvi procurar a mamãe.

Paul percorreu todas as dependências da igreja até que ouviu a voz de sua mãe, falando baixo e chorando. Era algo que ele nunca a vira fazer.

- ... e... bem, se alguma coisa acontecer comigo, os meus meninos...

O coração de Paul batia forte enquanto ouvia a mãe falar.

— Meu filho mais velho, Paul... bem. ele tem-me ajudado muito desde que fiquei doente. Eu...

— Foi só naquele momento que fiquei sabendo que minha mãe estava muito mais doente do que eu imaginava e também muito preocupada conosco. Saí da igreja sem ser visto e disse aos meninos que não consegui encontrá-la. Quando ela voltou, estava sorrindo. Randy e Davey não notaram os olhos dela inchados e ainda lacrimejando. Entramos todos no templo para assistir ao culto de Natal das crianças como se nada tivesse acontecido.

Paul não tinha ideia de quando os presentes seriam entregues, mas na manhã seguinte havia vários pacotes em cima da mesa perto do nhandi. Um presente para cada um deles oferecido por Julia e outros por amigos da igreja.

— Ganhei dois presentes — disse Paul, sorrindo ao lembrar-se do fato. — Um jogo e um livro de histórias de mistério. Eu os guardo até hoje.

Julia deitou-se no sofá, sorrindo, enquanto os meninos gritavam de alegria ao abrir os pacotes embrulhados com papéis coloridos. Ela havia preparado o desjejum favorito deles — chocolate quente com fruto do baobá.

— Mais tarde, naquela manhã, a professora de escola dominical de Randy trouxe uma enorme bandeja com peru, molho e uma sacola de guloseimas que não comíamos havia muito tempo. Depois que Randy e Davey foram para a cama naquela noite, mamãe me deu uma caneta e um papel e pediu-me que escrevesse uma carta de agradecimento aos crentes de nossa igreja por eles nos terem proporcionado aquilo tudo em tão curto espaço de tempo, porque ela estava impossibilitada. Mamãe dormiu no sofá da sala, vendo as pequenas luzes piscando no nhandi. Eu me sentei à mesa da cozinha e passei a limpo a carta que ela me ditara, para que ficasse bem legível. No dia seguinte, ela foi internada e nunca mais voltou para casa. Aquela foi a primeira "árvore" de Natal de que Davey se recorda e foi a última que tivemos com mamãe. Viemos para a Carolina do Norte a fim de morar com a tia Violei, que gostava muito de nós e nos ajudou a atravessar aquele primeiro ano de solidão e medo. E, acima de tudo, ela entendeu por que, no Natal seguinte, insistimos em decorar o nhandi que havíamos trazido de casa. Eu a amo, Anne, mas isso é uma coisa da qual não vou abrir mão.

Anne assentiu com a cabeça, impossibilitada de falar, enxergando agora um pouco além do simples arbusto o amor de uma mãe que partira havia tanto tempo e que deixara três filhos para trás, todos possuindo aquela mesma força e ternura. Julia deixou para eles um legado de amor, que agora incluía Anne e os filhos de Paul e Anne que ainda estavam por chegar — crianças a quem eles contariam todos os anos a história do nhandi de Natal.

 


 

LINHAS DE PRATA E AGULHAS DE OURO

Faith Andrews Bedford

 

 

No canto do quarto de minha filha, há uma caminha de boneca coberta com uma minúscula colcha cor-de-rosa. Esse foi o meu primeiro trabalho de costura feito com retalhos de urna colcha grande que minha avó havia costurado para sua cama.

Quando eu era menina, achava que minha avó sabia fazer qualquer coisa. Eu admirava uma blusa na vitrina de uma loja e, na semana seguinte, já estava usando uma igual. Os guarda-roupas de minhas bonecas eram dignos de uma princesa.

Para uma criança como eu, a caixa de costura da vovó era uma arca do tesouro: carretéis de linhas coloridas enfileirados em ordem, tesouras que cortavam em ziguezague guardadas em um pequeno estojo de couro vermelho, alfinetes de cabeças coloridas espetados em uma almofada vermelha. O melhor de tudo era a caixa de botões. Havia botões de todos os tipos: quadrados imitando diamantes, de madeira com flores azuis, enfeitados com corações de estanho e uma grande quantidade de botões de madrepérola tirados de camisas velhas para serem reaproveitados. Minha avó não desperdiçava nada.

Na década de 1950, todas as meninas precisavam cursar uma matéria chamada Economia Doméstica. A sala de aula tinha fileiras de máquinas de costura pretas e reluzentes com gavetas cheias de objetos misteriosos de metal. Aprendíamos a encher urna carretilha, fazer costuras rebatidas e dominar a fundo a tarefa mais difícil de todas — pregar zíper.

Depois disso, aprendemos a fazer de tudo, desde apoios para vasos até aventais e saias pregueadas. As roupas eram exibidas na feira de moda da primavera. Enquanto eu desfilava na passarela com minha blusa vermelha do tipo chemisier, vi o rosto orgulhoso de vovó e sorri. Só ela sabia que eu havia costurado e descosturado o zíper três vezes.

Quando meus pais me deram uma mesada para comprar roupas. descobri que, no lugar de uma saia pronta, eu podia comprar tecido para fazer três saias. Lindos vestidos de baile podiam ser recriados, porque minha avó me ensinou a fazer as adaptações. Passei das roupas comuns para as roupas de grife. Porém, na pressa de terminar um vestido, eu cometia erros. Certa tarde, ao me ver em prantos por causa de um colete de veludo que ficou totalmente arruinado, minha avó me ensinou a dominar a arte de dar um passo ou dois por vez. As etapas, desde cortar e marcar com alfinetes até terminar a peça, foram muito importantes em minha adolescência. Minha concentração para conseguir emendar uma parte na outra desviava os meus pensamentos das ansiedades comuns aos adolescentes, tais como provas de biologia, namorados ou testes para artes dramáticas.

Os vestidos de baile deram lugar a roupas de trabalho e, finalmente, ao vestido de noiva. Vovó ajudou-me a colocar na mala a minha roupa de lua-de-mel feita em casa: uma saia longa e uma blusa franzida para eu usar ao lado da lareira em nossa residência de inverno. Para o novo apartamento, eu fiz todas as capas da mobília.

Quando nosso primeiro filho nasceu, aprendi a fazer aplicações em tecido: barquinhos e trenzinhos para enfeitar suas roupas de praia. A chegada de duas meninas transformou-se em oportunidade para bordados e pregueados. Enquanto elas dormiam de dia, a silenciosa disciplina de costurar passou a ser uma terapia para mim. Compreendi que os ensinamentos de minha avó abrangeram todas as áreas de minha vida, porque ela me ajudou a ver a plenitude da criatividade que se estendeu além das agulhas e das linhas.

Vovó morreu há muitos anos, mas seus ensinamentos perduram até hoje. Quando meus alhos cresceram e quiseram coisas que não podiam comprar ou que eram difíceis de encontrai', eles também descobriram o prazer criativo da costura. Nosso filho alpinista, assustado com o preço de uma calça especial para escalar montanhas, costurou uma para si. Nossa filha mais velha comprou roupas baratas em uma loja e fez algumas alterações para que se tornassem peças de criação própria. A mais nova aprendeu a arte de combinar estampas de tecidos e passou a criar roupas exclusivas.

Já tenho netas. Enquanto costuro vestidos para elas, eu me dou conta de que essas roupinhas são costuradas com a mesma linha que minha avó me deu, a linha que une gerações — a linha do amor.


 

DINAMISMO

 

 

Ela era bem idosa, mas jovem no espírito. Apesar de necessitar de muletas e de cadeira de rodas para se locomover, era muito dinâmica. Era dona de uma bem-sucedida empresa imobiliária, atuava no conselho da cidade e colaborava regularmente com obras assistenciais de vários tipos.

Certo dia, uma nova amiga perguntou-lhe o que havia acontecido para que ela andasse de cadeira de rodas.

— Paralisia infantil — ela respondeu. — No início, fiquei quase completamente sem movimentos.

— É evidente que sua incapacitação ainda é bem séria — disse a amiga. — Como você a enfrenta e consegue fazer tudo o que faz?

— Ah — ela disse, com um sorriso —, a paralisia nunca chegou a atingir meu coração nem minha cabeça. 

Autor Desconhecido


 

MARGARET E SUAS MOEDAS

Philip Gulley

 

 

Todas as manhãs de segunda-feira, meu amigo Jim e eu tomamos o café da manhã no Bob Evans' e contamos histórias de guerra. Jim é pastor de uma igreja próxima ao centro da cidade, suas histórias têm muito mais conteúdo que as minhas.

Certa manhã, ele me falou de Margaret, uma viúva de 80 anos que frequenta sua igreja. Ela mora em uma casa de repouso e sai de casa uma vez por semana para fazer compras no supermercado. Jim é diz que Margaret é uma senhora meiga, embora nem sempre tenha É sido assim. Ela contou a Jim que, na juventude, não era uma boa pessoa, mas Deus a modificou lentamente. De vez em quando, Deus constrói uma casa do dia para a noite, mas, quase sempre, coloca apenas um tijolo por dia. No caso de Margaret, foi assim que Ele agiu.

Alguns anos atrás, Margaret achou que Deus tinha uma missão para ela na igreja. Orou nesse sentido, e, após algum tempo, o Senhor lhe disse para economizar todas as suas moedas para as crianças da igreja. Margaret esperava uma missão maior, mas não reclamou. É necessário iniciar de um ponto qualquer, ela explicou a Jim. Todos os anos, no Natal, pegava suas moedas, no valor aproximado de dez dólares, e as oferecia à igreja, dizendo que se destinavam às crianças, não para serem gastas em almofadas para os bancos do templo.

Certa tarde, uma senhora que morava no fundo do corredor foi visitá-la e notou o vidro de maionese em que Margaret guardava suas moedas. Ela perguntou para que se destinavam, e Margaret contou que eram para as crianças de sua igreja.

— Eu não frequento nenhuma igreja — disse a senhora. — Posso guardar as minhas moedas e oferecê-las às crianças da sua?

— Sinta-se à vontade! — disse Margaret.

Pouco tempo depois, 30 pessoas da casa de repouso estavam guardando moedas para as crianças.

Todas as quartas-feiras, os velhinhos pegavam o ônibus da casa de repouso e dirigiam-se ao supermercado. Depois de percorrerem todos os corredores com suas cadeiras de rodas, fazendo suas compras, eles postavam-se em fila no caixa, colocavam as mercadorias na esteira rolante e observavam os preços aparecendo no monitor.

Quando o caixa avisava qual era o total, os velhinhos contavam o dinheiro, uma nota por vez. Depois, pediam o troco em moedas e também as contavam uma por vez. Os outros clientes na fila reviravam os olhos, impacientes. Eles não sabiam que a obra de Deus estava em andamento.

No Natal do ano seguinte, as mulheres tiraram as moedas dos vidros — 20.000 no total — e as levaram para a igreja. As crianças se surpreenderam com a festa de Natal daquele ano e saíram com os bolsos abarrotados de moedas.

Quando souberam quem estava por trás daquela oferta, os meninos e as meninas quiseram visitar a casa de repouso e cantar hinos de Natal para os velhinhos. Jim os levou no Azulão, o ônibus da igreja. As crianças reuniram-se no salão de refeições, e Jim ficou observando, sentado na última fila. Na frente dele, estava uma das senhoras da casa de repouso. Jim não a conhecia, nunca à vira. Ela estava explicando a um visitante o que se passava ali.

- Essas crianças são de nossa igreja e vieram nos visitar. Ficamos muito amigos delas.

Na semana seguinte, um dos homens da casa de repouso faleceu. Jim realizou a cerimônia fúnebre ali mesmo na casa de repouso, que rapidamente vem se transformando em uma extensão da igreja.

Tudo isso. vejam só, começou com Margaret orando em seu quarto, suplicando que Deus lhe desse uma missão. Hoje ela admite que ficou um pouco decepcionada quando Deus lhe disse para economizar moedas. Ela esperava algo mais grandioso. Não queria começar apenas guardando moedinhas. Foi então que refletiu sobre sua vida e percebeu que, às vezes, Deus constrói casas assentando apenas um tijolo por dia.

 

 

ORAÇÃO MATINAL

 

Até este momento do dia, Senhor; agi corretamente. Não fiz  mexericos, não perdi as estribeiras, não fui ganancioso, rabugento, egoísta nem ignóbil. Estou muito feliz por isso. Mas daqui a alguma minutos, Senhor, vou sair da cama, e daí em diante vou necessitar de muita ajuda. Amém.


 

UMA HISTÓRIA PARA SERVIR DE EXEMPLO

Ann Wells

 

 

Meu cunhado abriu a última gaveta da cômoda de minha irmã e encontrou um pacote embrulhado em papel macio. Ele jogou fora o papel e entregou-me a combinação. Era uma delicada peça de seda, feita à mão e enfeitada com renda fina. A etiqueta de preço, registrando um valor astronômico, ainda estava presa à combinação.

— Jan a comprou na primeira vez que fomos a Nova York. Faz pelo menos uns oito ou nove anos. Ela nunca a usou. Estava guardando para uma ocasião especial. Bem, acho que a ocasião chegou. — Ele pegou a combinação de volta e colocou-a em cima da cama com outras roupas que estávamos levando para a funerária. Suas mãos demoraram-se um pouco sobre o tecido macio. De repente, ele fechou a gaveta com força e virou-se para mim.

— Nunca guarde nada para uma ocasião especial. Todos os dias de vida são especiais.

Eu me lembrei daquelas palavras durante o funeral e nos dias que se seguiram, quando ajudei meu cunhado e minha sobrinha a cuidarem de todas aquelas tarefas tristes que somos forçados a fazer após uma morte inesperada. Pensei neles no avião em que eu viajava de volta para a Califórnia, ao retornar da cidade do meio-oeste onde a família de minha irmã mora. Pensei em todas as coisas que ela não viu, não ouviu, nem fez. Pensei nas coisas que ela havia feito sem se dar conta de que eram especiais.

Ainda penso nas palavras de meu cunhado, e elas modificaram minha vida. Estou lendo mais e espanando menos os móveis. Sento-me na varanda e admiro a paisagem sem me preocupar com as ervas daninhas do jardim. Passo mais tempo com minha família e meus amigos e menos tempo em reuniões de negócios. Sempre que possível, a vida deve ser um acontecimento para saborear, e não para suportar. Agora estou tentando identificar e apreciar esses momentos.

Não estou mais "economizando" nada; usamos nossas porcelanas e cristais em todos os eventos especiais... tais como quando a dieta para emagrecer surtiu efeito, quando conseguimos desentupir a pia, quando nasce o primeiro botão da camélia...

Uso meu melhor blazer para ir ao supermercado e sinto-me bem. Minha teoria é que, se eu aparentar ser rica, poderei gastar alegremente 28 dólares e 49 centavos em um pacote cheio de guloseimas sem pestanejar. Não guardo mais meu melhor perfume para dias especiais; afinal, os balconistas das lojas e os caixas dos bancos têm olfato tão bom quanto o de meus amigos companheiros de festa.

As expressões "um dia" e "um dia desses" estão perdendo a vez em meu vocabulário. Se alguma coisa merece ser vista, ouvida ou feita, quero vê-la, ouvi-la e fazê-la de imediato. Não sei ao certo o que minha irmã teria feito se soubesse que não estaria aqui no dia de amanhã, coisa que sempre consideramos garantida. Acho que ela teria telefonado para os membros da família e para alguns amigos mais chegados. Teria ligado também para alguns ex-amigos para desculpar-se por brigas no passado. Gosto de pensar que ela teria saído para jantar no restaurante chinês, o seu preferido. Estou apenas conjeturando... jamais saberei.

As pequenas coisas que não fiz me deixariam com raiva caso eu soubesse que minhas horas estavam contadas. Raiva por ter deixado de visitar bons amigos com quem eu me encontraria... um dia. Raiva por não ter escrito cartas que eu intentava escrever... um dia desses. Raiva e arrependimento por não ter dito mais vezes a meu marido e a minha filha quanto eu os amo. Eu me esforço muito para não adiar, não reter, não guardar nada que possa proporcionar alegria e felicidade à nossa vida.

E, todas as manhãs, quando abro os olhos, digo a mim mesma que é um dia especial.

Cada dia, cada minuto, cada respiração é realmente... uma dádiva de Deus.


 

TUDO É MEU

Bonnie Shepherd

 

 

Faltando apenas duas semanas para o Natal, o último lugar onde eu desejava estar era no hospital recuperando-me de uma cirurgia. Aquele seria o primeiro Natal de nossa família em Minnesota, e eu queria que fosse memorável, mas não dessa maneira...

Durante semanas, não fiz caso da dor do lado esquerdo, mas ela piorou. Fui consultar um médico.

— Cálculos biliares — ele disse, examinando o raio-X. — Em número suficiente para fazer um colar. Você precisa ser operada imediatamente.

Apesar de meus protestos de que aquela era a pior época para ser hospitalizada, a dor lancinante do lado convenceu-me a concordar com a cirurgia. Meu marido, Buster, garantiu-me que tomaria conta de tudo na casa. Liguei para algumas amigas pedindo carona para meus filhos. Outros milhares de coisas — assados para o Natal, compras e enfeites — teriam de esperar.

Lutei para abrir os olhos depois de ter dormido grande parte dos dois dias no hospital após a cirurgia. Quando fiquei mais alerta, olhei ao redor e vi algo semelhante a uma floricultura repleta de plantas natalinas. Poinsétias vermelhas e buquês de flores enfileiravam-se sobre o parapeito da janela. Cartões empilhados aguardavam para ser abertos. Na mesinha de cabeceira, havia uma pequena árvore com enfeites confeccionados por meus filhos. Na prateleira acima da pia, eu vi uma dúzia de rosas vermelhas enviadas por meus pais, que moram em Indiana, e uma agenda enfeitada com velas natalinas oferecida por uma vizinha. Emocionei-me diante de tanto amor e atenção.

Talvez não seja tão mal assim estar hospitalizada na época de Natal, eu pensei. Meu marido contou-me que os amigos prepararam refeições para nossa família e ofereceram-se para cuidar de nossos quatro filhos.

Do lado de fora da janela, a neve pesada transformava nossa pequena cidade em um cartão postal de inverno. As crianças adorariam ver isso, pensei enquanto imaginava todas elas vestidas com roupas grossas e fazendo bonecos de neve no quintal ou patinando no rinque ao ar livre da Escola Garfield.

Será que eles incluíram Adam, nosso filho deficiente físico, nas brincadeiras?, pensei. Aos cinco anos de idade, Adam acabara de aprender a andar sozinho, e eu me preocupava imaginando como andaria no gelo e na neve com seus tornozelos franzinos. Será que alguém o levou para dar uma volta de trenó na escola?

— Mais flores!

A voz da enfermeira interrompeu meus pensamentos, quando ela entrou no quarto carregando um belo arranjo de flores. Entregou o cartão e abriu espaço para colocar o arranjo entre as poinsétias no parapeito da janela.

— Acho que vamos ter de mandar a senhora para casa — ela brincou. — Não temos mais espaço aqui.

— Por mim, tudo bem — eu disse.

— Ah, eu já ia me esquecendo!

A enfermeira pegou mais cartões do bolso e colocou-os na bandeja. Antes de sair do quarto, ela puxou a cortina verde que separava um leito do outro para proporcionar privacidade aos pacientes.

Enquanto eu lia meus cartões, ouvi alguém dizer:

— Gostei das flores.

Ergui os olhos e vi que a senhora do leito ao lado havia empurrado um pouco a cortina para enxergar melhor.

— Gostei das flores — ela repetiu.

Minha companheira de quarto era uma mulher franzina, de 40 e poucos anos, com síndrome de Down. Ela era miúda, tinha cabelos crespos e grisalhos e olhos castanhos. A camisola de hospital estava desamarrada e, quando ela inclinou o corpo para a frente, deixou as costas expostas. Eu queria amarrá-la para ela, mas ainda estava ligada ao soro intravenoso. Ela olhou para minhas flores, com admiração infantil.

— Meu nome é Bonnie — eu disse. — E o seu?

— Ginger — ela respondeu, revirando os olhos para cima e apertando os lábios depois de falar. — O doutor vai dar um jeito no meu pé. Vou ser operada amanhã.

Ginger e eu conversamos até a hora do jantar. Ela me falou do local onde morava em companhia de outras pessoas e de seu desejo de poder voltar para casa a tempo de participar da festa de Natal. Ela não mencionou a palavra família, e eu não perguntei. A todo instante, ela voltava a mencionar a cirurgia programada para a manhã seguinte.

— O doutor vai dar um jeito no meu pé.

Naquela noite, recebi várias visitas, inclusive a de meu filho Arfam. Ginger conversou alegremente com eles, contando a cada um sobre as flores que recebi. Mas ela passou a maior parte do tempo olhando para Adam. Depois que todos saíram, Ginger repetiu várias vezes, como fez a respeito das flores:

— Gostei de seu filho Adam.

Na manhã seguinte, Ginger foi levada à sala de cirurgia, e a enfermeira veio ajudar-me a dar um pequeno passeio pelo corredor. Foi bom poder andar sozinha.

Voltei logo para o quarto. Quando atravessei a porta, o contraste marcante entre os dois lados do quarto assustou-me. A cama de Ginger estava arrumada, aguardando sua volta. Mas ela não havia recebido nenhum cartão, nenhuma flor, nenhuma visita. Meu lado estava completamente florido, e a pilha de cartões com votos de recuperação me fez lembrar de quanto eu era amada.

Ninguém enviou flores ou cartões para Ginger. A bem da verdade, ninguém sequer ligou para ela ou a visitou.

Será que vai acontecer o mesmo com Adam um dia?, pensei. Imediatamente, tirei da mente aquele pensamento.

Já sei, eu decidi. Vou oferecer a ela algumas de minhas flores.

Fui até a janela e escolhi o arranjo de flores vermelhas com ramos de azevinho. Este arranjo ficaria muito bonito em nossa mesa de Natal, pensei, recolocando a peça no lugar. Que tal as poinsétias? Então, eu me dei conta de que o vermelho vivo das poinsétias conferiria um toque especial à entrada de nossa casa construída na virada do século. E, é claro, não vou abrir mão das rosas enviadas por meus pais, porque não vou vê-los neste Natal, pensei.

As justificativas continuaram: as flores estão começando a murchar; minha amiga que a ofereceu ficaria ofendida; eu poderia enfeitar minha casa com esta aqui quando voltasse. Eu não consegui repartir nenhuma. Voltei para a cama, aplacando minha culpa com a decisão de ligar para a floricultura do hospital na manhã seguinte, quando a loja abrisse, e pedir que entregassem algumas flores a Ginger.

Quando Ginger retornou da cirurgia, uma funcionária de avental listrado lhe trouxe uma pequena guirlanda verde de Natal com um enfeite vermelho. A funcionária a pendurou na parede branca acima da cama de Ginger. Naquela noite, eu recebi mais visitas. Apesar de estar-se recuperando da cirurgia, Ginger cumprimentou todas as pessoas e mostrou-lhes sua guirlanda de Natal.

Na manhã seguinte, após o desjejum, a enfermeira retornou para dizer a Ginger que ela ia voltar para casa.

— A van já está a caminho para vir buscar a senhora — ela disse.

Eu sabia que Ginger voltaria para casa a tempo de participar da festa de Natal. Fiquei feliz por ela, mas senti-me culpada quando me lembrei de que a floricultura do hospital só abriria dali a duas horas.

Olhei mais uma vez ao redor do quarto e vi minhas flores. Será que eu deveria oferecer uma delas a Ginger?

A enfermeira encostou a cadeira de rodas ao lado da cama de Ginger. Ginger ajuntou seus pertences e pegou o casaco que estava pendurado no armário.

— Gostei muito de conhece-la, Ginger — eu lhe disse.

Minhas palavras eram sinceras, mas eu continuava a sentir-me culpada por não ter levado adiante minhas boas intenções.

A enfermeira ajudou Ginger a vestir o casaco e a sentar-se na cadeira de rodas. Em seguida, ela retirou a pequena guirlanda da parede e entregou-a a Ginger. Quando elas se viraram em direção à porta, Ginger disse:

— Espere!

Ginger levantou-se da cadeira de rodas, caminhou com passos trôpegos até minha cama e colocou delicadamente a pequena guirlanda em meu colo.

— Feliz Natal — ela disse. — A senhora é uma pessoa muito bondosa.

Em seguida, deu-me um grande abraço.

— Obrigada — murmurei.

Não consegui dizer nada enquanto ela voltava para sua cadeira de rodas e saía do quarto.

Segurei a pequena guirlanda nas mãos, com os olhos úmidos. O único presente de Ginger, pensei. E ela o ofereceu a mim.

Olhei para a cama dela. Aquele lado do quarto voltou a ficar vazio e sem nenhum enfeite. Ao ouvir o som da porta do elevador se fechando, entendi que Ginger possuía muito mais coisas do que eu.

 

 

Eu gostaria muito de transferir minha experiência de 50 anos para vocês, meus jovens, e contar-lhes o segredo contido naquela arca do tesouro, em cada joia que me custou lágrimas, lutas e orações, mas vocês devem trabalhar sozinhos para adquirir esses tesouros da alma.

HARRIET BEECHER STOWE


 

PAIXÃO POR ARTESANATO

Patsy Clairmont

 

 

Eu faço objetos de artesanato. Não, espere um pouco, não me expliquei muito bem... Eu possuo objetos artesanatos. Tenho uma profusão de linhas para trabalhos com agulhas e fios de lã retorcidos para fazer xales. Tenho livros de receita surrados de tanto serem lidos e relidos. Amostras de material, fios para confeccionar flores, pincéis de pintura, decalques, pistola para aplicar cola quente (o melhor amigo de todos os artesãos) - e mais um sem-número de artefatos - saúdam-me todas as vezes que abro meu armário.

Sempre que inicio um novo projeto, penso: Vou terminar isso aqui, tenho certeza. Já tentei de tudo, desde pintura a óleo, arranjos de flores, acolchoados e scherenschnitte (arte alemã de cortar papel), até rufo.

Rufo? Essa arte exige que você enrole tiras de papel estreitíssimas na ponta de uma agulha. Depois de enroladas, você cola a extremidade da tira com um aplicados da grossura de um palito de dente para que ela não se solte. Com uma pinça, coloca-se a espiral formada sobre um desenho preso a uma prancha de isopor, prendendo-a no lugar com um alfinete. Em seguida, recomeça-se todo o processo de enrolar a tira na agulha.

Você deve estar imaginando quantas agulhas enroladas são necessárias para terminar uma peça. Depende do tamanho do desenho. Eu escolhi um delicado floco de neve para não me cansar do trabalho.

Quando comecei a montar o floco de neve, pensei: Vou fazer um para cada uma de minhas amigas e colocai-lo do lado de fora do pacote de presente de Natal que oferecerei a elas. Depois de cinco horas de trabalho e um progresso mínimo, reconsiderei: Vou oferecer  um destes somente as minhas melhores amigas e colocá-lo dentro de cada pacote de presente que oferecerei a elas.

Uma semana depois, eu me dei conta de que nenhuma de minhas amigas mereceria tanto esforço; apenas algumas pessoas da família receberiam essas preciosidades - e mais nada. Resolvi que só lhes daria os flocos de neve se prometessem colocá-los em exposição, protegidos por um vidro, na parte mais movimentada da casa... durante o ano inteiro.

Depois de trabalhar por 15 horas em meu projeto, decidi que esse trabalho seria o primeiro e o último que eu faria - e que o guardaria para mim.

 

 

O melhor usa que se pode fazer da vida gastá-la

com algo que dure mais que ela.

WILLIAM JAMES


 

O SORVETE

Joe Lomusio

 

 

Uma turista estava na fila para comprar um sorvete de massa na Thrifty Drug de Beverly Hills. Para sua surpresa e perplexidade, quem entrou no local e postou-se atrás dela na fila era nada mais nada menos que Paul Newman! Apesar de aturdida, ela decidiu que manteria a compostura. Comprou o sorvete, deu meia-volta e saiu.

No entanto, para seu espanto, ela se deu conta de que havia saído sem o sorvete! Depois de aguardar alguns instantes até o local esvaziar-se, ela entrou novamente para reclamar o sorvete. Ao aproximar-se do balcão, a turista notou que o sorvete não estava no pequeno receptáculo circular. Ela continuou ali por um momento imaginando o que poderia ter acontecido. De repente, alguém deu-lhe um educado tapinha no ombro. Ela virou-se e deu de cara com — sim, você adivinhou — Paul Newman! O famoso ator perguntou se era o sorvete que ela estava procurando. Ao ouvir a resposta afirmativa, ele disse que ela o havia colocado dentro da bolsa!


 

QUADRO PERFEITO

Ann Campshure

 

 

Logo depois da cidade, já fazendo parte do cenário do campo, vê-se uma antiga roda de vagão de trem encostada a um pilar prestes a apodrecer. O mato ameaça tomar conta das flores silvestres que crescem perto de sua base. No topo do pilar, há urna velha caixa de correspondência amassada, cuja porta sustenta-se no lugar apenas por uma dobradiça enferrujada.

Dentro, protegidos em seu ninho de galhos secos, quatro pequeninos azulões aguardam impacientemente a refeição. A cautelosa mãe está empoleirada no galho de um arbusto retorcido que se sobressai do outro lado da abertura da caixa de correspondência.

Quando olhei pela primeira vez para o quadro, não gostei do que vi.

— Cinco dólares? — eu cochichei ao ouvido de minha amiga Grace. — Eu não daria nem 50 centavos por ele.

No entanto, havia alguma coisa que me intrigava naquela cena; fui levada a olhar para ela novamente.

Ao examinar o quadro mais de perto, notei que a mãe azulão havia escolhido o local do ninho com muito cuidado. Naquele local precário, seus filhotes estariam protegidos do Sol e da chuva, enquanto ela e seu companheiro procuravam comida. Aquela pequenina ave não estava preocupada com o que seus vizinhos poderiam pensar ou se seu ninho passaria pelo teste de controle de qualidade.

Eu não pude deixar de comparar sua maneira de administrar o lar com a minha. Tenho tentado durante anos encontrar o ponto de equilíbrio entre uma casa malcuidada e uma perfeição inatingível.

Depois de reformar nossa casa cerca de dez anos atrás, decidi conservá-la de modo a ter a aparência de um lugar perfeito, como essas casas que encontramos nas páginas de uma revista de decoração. Mas não foi o que aconteceu.

Nosso velho cão pastor alemão continuou a soltar tufos de pêlo branco que se amontoavam ao longo dos rodapés como flocos de neve levados pelo vento.

Depois, compramos um novo fogão à lenha, que proporcionava um ambiente agradável e aconchegante, mas, com o passar do tempo, ele deixou nosso lindo teto cheio de fuligem.

E as crianças... bem, continuaram sendo crianças!

Um dia, depois de ouvir meu estardalhaço e minhas reclamações sobre o estado de nossa casa, meu marido me perguntou:

— Afinal, o que você quer: uma casa ou um lar?

Eu detesto quando ele tem razão, principalmente se é sobre algo que eu já deveria saber de cor!

Suas palavras não me saíram da mente durante dias. Foi quando vi o quadro dos azulões. Acreditei que Deus estava sugerindo que eu modificasse minhas atitudes e minhas prioridades. Vencendo os últimos resquícios de hesitação, paguei o preço e levei o quadro para casa. Depois de tirar o pó da moldura de madeira, pendurei-o onde eu poderia vê-lo diariamente e ser desafiada por sua mensagem tão simples: A casa não faz o lar.

Isso aconteceu anos atrás, e eu gostaria de dizer que aprendi a lição de uma vez por todas. Porém, de vez em quando, eu ainda me vejo lutando com as prioridades, quando se trata de escolher entre uma casa limpa e arrumada e as necessidades de minha família.

No sábado passado, Kerri, minha neta de dez anos, passou o dia em casa. Durante a manhã, enquanto eu limpava a casa e lavava roupas, ela passou o tempo lendo, desenhando cavalos e transformando nosso quarto extra em seu escritório particular.

Logo após o almoço, ela cansou de ficar sozinha. As crianças da casa ao lado haviam saído, o vovô estava trabalhando e chovia lá fora.

- V o vó, você quer jogar comigo? — perguntou Kerri.

Ansiosa por terminar minhas tarefas do dia, recusei seu convite. Eu precisava cuidar daquela pilha de roupas. Ao dirigir-me à lavanderia, passei pelo quadro dos azulões. Ele já fazia parte integrante da sala e eu quase não o notava mais, porém ele me chamou a atenção naquele sábado.

Quatro minúsculos pares de olhos pareciam fitar os meus, implorando para que eu reconsiderasse. Eu quase podia ouvir a pergunta de meu marido: "Afinal, o que você quer: uma casa ou um lar?"

De repente, me dei conta de que as roupas sempre necessitariam de minha atenção, mas um dia aquela garotinha pararia de me convidar para jogar com ela.

Quando a tarde chegou ao fim, eu havia perdido várias partidas do jogo para minha neta, e a roupa ainda estava na secadora, mas eu sabia que não poderia ter encontrado melhor maneira de usar meu tempo.

 

 

A felicidade chega quando entrelaçamos aquilo que

gostaríamos de ter com aquilo que temos.

CLARE DELONG


 

UMA ORAÇÃO PARA QUEM ESTÁ ENVELHECENDO

Autor Desconhecido

 

 

Senhor, tu sabes que estou envelhecendo.

Não permitas que eu tenha a ideia fixa de falar de mim o tempo todo.

Liberta-me da mania de querer endireitar a vida dos outros.

Impede-me de repetir detalhes infindáveis. Dá-me rapidez para que eu seja objetivo.

Fecha a minha boca quando eu estiver propenso a falar de minhas dores e de meus sofrimentos. Eles estão aumentando com o passar dos anos, e meu desejo de falar deles aumenta a cada dia.

Torna-me solícito mas não abelhudo; prestativo mas não dominador.

Ensina-me a gloriosa lição de que, às vezes, posso estar errado.

Depois de ter adquirido uma enorme bagagem de sabedoria e experiência, parece uma pena eu não poder usá-la totalmente. Mas tu sabes, Senhor, que meu desejo final é ter alguns amigos.


 

POR TRÁS DE UM DESENHO RÁPIDO

Joni Eareckson Tada

 

 

Meu professor de artes, um excelente artesão, contou-me uma história comovente a respeito dos benefícios da diligência no trabalho.

Muitos anos atrás, havia um famoso artista japonês chamado Hokusai, cujas pinturas eram cobiçadas pela realeza. Um dia, um nobre pediu ao artista que fizesse uma pintura de seu precioso pássaro. Ele deixou o pássaro com Hokusai, e  artista disse ao nobre para retornar depois de uma semana.

Sentindo falta do pássaro, o nobre estava ansioso por retornar ao estúdio do artista no final da semana, não apenas para recuperar sua ave favorita, mas também para ver a pintura. Quando lá chegou, o japonês pediu-lhe humildemente que retornasse depois de duas semanas.

As duas semanas transformaram-se em dois meses — e, depois, em seis meses.

Um ano mais tarde, o nobre irrompeu no estúdio de Hokusai, recusando-se a esperar mais e exigindo o pássaro de volta e a pintura. Hokusai, conforme o costume japonês, curvou-se diante do nobre, retornou à sua mesa de trabalho e pegou um pincel e uma grande folha de papel feito de palha de arroz. Em poucos instantes, Hokusai desenhou o pássaro, sem nenhum esforço, exatamente como ele era.

O proprietário do pássaro ficou atônito diante da pintura.

Em seguida, disse com raiva:

— Por que você me fez esperar um ano se podia ter aprontado a pintura em tão pouco tempo?

— O senhor não entendeu — replicou Hokusai.

Ele levou o nobre a um cômodo onde as paredes estavam cobertas de pinturas do mesmo pássaro. Nenhuma delas, contudo, expressava a graça e a beleza do último trabalho. Só depois de muita luta e esforço foi que surgiu a obra de arte de Hokusai.

O ponto que meu professor de artes queria atingir estava claro. Nada que tenha valor verdadeiro ou duradouro é conseguido com facilidade.

 

 

O dia de hoje é o amanhã com o qual você

tanto se preocupou ontem, e tudo está bem.

ANÔNIMO


 

OS CHINELOS FELPUDOS

Barbara Johnson

 

 

É muito bom ter disposição para rir de si mesma e não dar atenção às suas pequenas falhas. Todos nós cometemos erros e não devemos nos levar muito a sério. Uma das melhores soluções que encontrei é adotar o "método do chinelo felpudo", uma filosofia de vida que todos nós devemos praticar.

Uma amiga enviou-me um par de chinelos felpudos, e eu os uso de vez em quando, principalmente quando começo a pensar que sou importante ou "quase famosa". Existe alguma coisa naqueles chinelos que mantém minha cabeça no lugar e, além disso, eles me fazem lembrar de que não vou me deixar abater, aconteça o que acontecer. Pode até parecer tolice, mas eu me divirto e desfruto a vida. O sofrimento desaparece, as frustrações somem e os problemas se afastam quando estou usando meus chinelos felpudos.


 

O SEGREDO DE VERNA

Linda Andersen

 

 

Fila mora sozinha em um apartamento minúsculo no segundo  andar, em cima de uma loja de quinquilharias castigada pelo tempo e de um posto de gasolina em decadência. Durante anos, ninguém morou ali. Verna Bok é viúva há 40 anos, Foi o que me contaram certo domingo após o culto. Essa senhora franzina, sem condução própria, não falta aos trabalhos da igreja (quando está bem) e tem sempre um sorriso nos lábios. Ao vê-la chegar e sair, apoiada em uma bengala, eu me pergunto qual é o seu segredo.

As persianas das janelas de Verna estão ligeiramente tortas, e o prédio em que ela mora parece deserto e esquecido. Uma única bomba de gasolina continua impassível, de frente para a estrada, como se fosse um homem barrigudo, de meia-idade, sem nada para fazer a não ser observar os carros que passam. A velha bomba, desbotada pelo Sol, não tem sido útil à nossa pequena comunidade há muito mais tempo que alguém possa imaginar. O preço da gasolina ainda consta: 31 centavos o galão — como se nunca tivesse havido inflação —, fazendo-nos lembrar do tempo em que nossa pequenina cidade rural se vangloriava de seu comércio "ativo", suficiente para manter a estrada principal em pleno movimento. Verna lembra-se muito bem daqueles tempos. Agora, o comércio desapareceu, abandonando a cidadezinha de Forest Grave e Verna à própria sorte para envelhecerem juntas. Mas Verna Bok não é uma pessoa de ficar sentada esperando a velhice chegar, foi o que logo descobri.

Certa noite em que eu estava recebendo a visita de alguns vizinhos, tive um impulso de incluir Verna.

— Que ótimo! — ela disse, feliz, pelo telefone. — Foi muito bom você ter ligado. Eu até iria se estivesse bem.

Fazia duas semanas que Verna estava doente e sozinha naquele minúsculo apartamento. Fiquei com pena dela.

— Você deve estar se sentindo terrivelmente sozinha, Verna — eu disse.

— Sozinha? — O tom de voz era de surpresa. — Oh, não — ela murmurou, rindo. — Eu nunca estou sozinha. — (Tive a impressão de que estava prestes a descobrir alguma coisa.) — Tenho minhas boas lembranças, e elas me fazem companhia... e meu álbum de fotografias também. E, é claro, eu cuido dos filhos de Ruth.

— Como assim? — perguntei antes de me lembrar que Verna tinha uma vizinha chamada Ruth.

— Bem — ela replicou —, Ruth está criando oito meninos sozinha desde que se divorciou, e ela precisa trabalhar. Eu preparo o jantar deles todas as noites. Faço isso há anos. Assim, eu tiro uma preocupação dos ombros dela e tenho alguma coisa útil para fazer. Ah, os meninos me mandaram flores no Dia das Mães. Eles são como filhos para mim.

Agora eu tinha certeza de que aquela mulher era uma pessoa especial. Comecei a compreender o segredo de seu exuberante vigor de juventude.

Verna aprendera uma coisa que a maioria das pessoas leva a vida inteira para descobrir, e ela encontrou isso a poucos metros de sua casa. Sem andar à procura da felicidade, ela mantinha-se ocupada, preenchendo o vazio da vida das outras pessoas.

Certa manhã, depois de algumas semanas, ao cumprimentar Verna na igreja, meu marido comentou com ela sobre o lindo casal de cardeais que ele vira na árvore de nosso quintal.

- Verna — meu marido enfatizou —, eles são tão lindos que você nem imagina! Os olhos dela brilharam, e seu sorriso familiar iluminou-lhe o rosto.

— Ah, sim — ela disse, dando unia risadinha. — Saiba que eu ouvi um cântico muito lindo esta manhã. — Verna apontava o dedo para dar ênfase ao que dizia. — Eu me levanto cedo todos os dias para poder apreciar tudo. Gosto de ver o pessoal das casas vizinhas acordando. Sim, é verdade, há muita coisa para ser vista... muita coisa. Aprecio tudo o que Deus faz, tudo, sabe?

O segredo estava finalmente revelado.

Verna, você se levanta cedo para ver a maior parte do que todos nós não enxergamos, não fazemos caso ou não apreciamos, porque estamos muito ocupados. Você engrandece todas as coisas que Deus coloca em seu pequeno mundo. Você pinta um arco-íris ao redor de cada pequenino evento, até mesmo do cântico matinal de um passarinho. Não devemos sentir pena de você, Verna. Nem um pouco. Você não tem tempo para sentir pena de si mesma. Você está sempre muito atarefada dando graças a Deus e apreciando tudo o que Ele lhe concede.

Continue assim, Verna. Sua maneira alegre de ver as coisas está trazendo a luz de Deus a muitas vidas — inclusive à minha.

 

 

Separe um tempo para rir. O riso a música da alma.

ANÔNIMO


 

SUBINDO NAS ALTURAS

Rochelle M. Pennington

 

 

Gramps sempre gostou de falar desde que nasceu, e, quando chegou à casa dos 80 anos, essa característica estava mais aperfeiçoada pela prática. Conversas banais sempre o mantiveram no centro das atenções, exatamente onde ele gostava de estar.

Seus passeios diários pela cidade o levavam a lugares previsíveis: o correio, o café, a loja de ferragens, a mercearia — e quase sempre nessa ordem. Pelo fato de preferir receber as notícias diretamente das pessoas e não dos jornais, ele conseguia saber tudo o que queria dos habitantes da cidade. Retornava para casa no meio da tarde satisfeito por estar a par dos acontecimentos do mundo: das notícias recentes, das notícias já vencidas e do que ficava a meio caminho entre o novo e o vencido.

Hoje não foi um dia diferente dos outros. Gramps fez sua última parada na mercearia para comprar pão antes de ir para casa. Foi quando ele as avistou: pessoas novas na cidade. Uma mãe e suas duas filhas pequenas acabavam de contornar o corredor da loja. Não havia nada mais interessante para Gramps do que iniciar uma conversa com alguém que ele nunca vira antes. Esquecendo-se de que estava ali para comprar pão, Gramps passou de Cliente da Mercearia para Especialista em Relações Públicas. Em menos de oito minutos, os "estrangeiros" já conheciam todos os detalhes da cidade, depois de Gramps ter tomado conhecimento de que eles haviam-se mudado recentemente para lá, que moraram anteriormente na Elm Street, uma rua afastada do centro de Cape Cod, que estavam comemorando o aniversário do pai naquela tarde e que vieram comprar balões de gás para a festa.

— Não digam! Uma festa de aniversário! — exclamou Gramps, animado, juntando-se à euforia da família em antecipação à festa.

Sempre prestativo, Gramps os levou até os fundos da loja onde estavam localizados os balões e o cilindro de hélio. A família escolheu balões de todas as cores, que foram inflados e amarrados com elásticos.

— O papai vai adorar isso! — gritaram as crianças, felizes.

Logo a seguir, Gramps e a pequena família estavam prontos para sair da loja. O caixa onde Mabel trabalhava estava aberto, e eles se dirigiram para lá: primeiro as meninas saltitantes em seus vestidos cor-de-rosa, depois a mãe carregando uma bolsa branca. Logo atrás, Gramps com seu pão. Mabel, mãe de sete filhos e que também costumava comprar dúzias de balões para a família — alguns dos quais duravam dias e a maioria simplesmente subia e desaparecia de vista —, sentiu-se no dever maternal de fazer-lhes algumas recomendações.

— Que lindos balões vocês compraram! São tantos que acho que serão capazes de levantar vocês duas do chão, como Mary Poppins! — Risadas. — É melhor vocês segurarem os balões com força. Com bastante força. Gramps me contou que vai haver uma festa de aniversário na casa de vocês. Todos nós queremos que esses balões cheguem lá, certo?

Quatro mãozinhas gorduchas seguraram os barbantes dos balões com mais força ainda.

Gramps e Mabel despediram-se da família que saía da loja.

— Divirtam-se! Segurem os balões com força! Voltem mais vezes!

Gramps colocou o pão na esteira rolante e continuou a observar a mãe e as filhas através da grande janela vidro. Assim que elas saíram de debaixo do enorme toldo da loja, as quatro mãozinhas se abriram e os balões subiram.

— Oh, não — gemeu Gramps, atravessando a porta correndo com a velocidade de uma estrela cadente.

Quando as alcançou, ele continuava lamentando o que havia acontecido, mas ninguém lhe deu atenção. Suas palavras foram abafadas pela reação normal das crianças ao verem balões subindo nas alturas: gritos, risos, mãozinhas batendo palmas e pezinhos pulando de alegria, enquanto os balões dançavam no céu, em completa liberdade. Apesar de ser uma reação natural — uma reação previsível —, aquelas meninas pareciam ter uma alegria a mais. Ah, a alegria da juventude, pensou Gramps.

Tocando de leve no ombro da mãe, Gramps estava prestes a oferecer-se para comprar outros balões para as meninas.

— Que pena! — ele disse. — Os balões foram comprados para o pai delas.

A jovem mãe, tocando de leve no ombro de Gramps, respondeu:

— Ele vai recebê-los daqui a pouco... no céu.

Nunca — nem antes nem depois — Gramps participou de uma festa de aniversário tão esplêndida.

 

 

O segreda felicidade mio está no que você gosta de fazer; mas em aprender a gostar do que precisa fazer.

REI GEORGE V


 

SÓ PORQUE EU AMO VOCÊ

Suzanne F. Diaz

 

 

Em um lindo dia de primavera, almocei ao ar livre, sentada em um banco à sombra de uma árvore frondosa. Eu estava sozinha, mas foi bom passar alguns momentos fora de meu local de trabalho, como se estivesse fazendo um piquenique.

Ultimamente, tenho refletido sobre a minha solidão, após vários anos de divórcio e de uma mudança radical de vida. Terminei de criar meus filhos sozinha e estive ocupada demais tentando sobreviver no mundo do trabalho da década de 1990. Talvez por isso eu não encontrei um novo companheiro, alguém com quem pudesse compartilhar minha vida e meu amor. Nunca voltei a fazer parte do grupo de solteiros, sempre dominado por um número maior de mulheres (e mulheres jovens, por assim dizer) do que de homens. Eu me mantive ocupada com as atividades de minha filha adolescente ou visitando meus filhos mais velhos e meu novo neto, além de envolver-me com os trabalhos em grupo da igreja.

No escritório, havia um bom número de mulheres casadas, que, às vezes, recebiam flores dos maridos no local de trabalho. Os buquês geralmente vinham acompanhados de um cartão, dizendo que as flores foram enviadas “só porque eu amo você”. Eu admirava as flores, mas admirava ainda mais os sentimentos que havia por trás delas. Por ter vivido infeliz dentro de um casamento de muitos anos, eu nunca me acostumei a ganhar nada que indicasse que eu era amada. Eu almejava receber flores e invejava aquelas mulheres.

Comecei a fazer minhas refeições naquela mesa improvisada de piquenique. De repente, senti alguma coisa cair em minha cabeça. Era uma flor despencando em direção à grama. Olhei para cima e vi que a árvore enorme sob a qual eu estava sentada tinha a copa repleta de graciosas flores vermelhas, penduradas quase ao alcance de minha mão, Eu não as havia notado, porque não olhara para cima.

Imediatamente percebi que estava sendo agraciada com flores, lindas flores de Alguém que me amava. Deus não ia deixar-me sem um símbolo de seu amor! Subi em um pequeno muro de tijolos e colhi algumas flores. Levei-as para minha mesa de trabalho e as coloquei em uma jarra de vidro. Foi maravilhoso olhar para as flores enquanto eu trabalhava. Elas me fizeram lembrar durante o dia que Deus quis me dar flores só porque Ele me amava.


 

O LINÓLEO VERMELHO

Margaret Jensen

 

 

Eu ia acompanhar papai em uma viagem missionária!

E Mamãe colocou uma caixa em meu colo e acenou despedindo-se de mim com lágrimas nos olhos. Papai ligou o motor do Modelo T.

Estávamos de partida para Birch Hills, Saskatchewan, onde ele armou uma tenda.

— Preste atenção, Margaret!

Eu prestei!

Os lavradores ficaram em pé, segurando o chapéu com suas mãos rudes, para pedir as bênçãos de Deus sobre as reuniões na tenda. As estacas foram fincadas no solo, quando papai anunciou que, um dia, haveria uma igreja ali com uma torre alta elevando-se em direção ao céu!

Eu ouvi atentamente!

Anos mais tarde, eu me dei conta de que, além das estacas fincadas no solo, aquelas pessoas fervorosas também haviam fincado as estacas de sua fé na igreja da comunidade, e presenciei quatro gerações de pessoas piedosas adorando a Deus em um lindo templo.

Aquele também foi o verão no qual me apaixonei pelo filho do fazendeiro.

Eu tinha 12 anos.

Nunca mais o vi, porque papai recebeu um “chamado” para Chicago.

Papai acenou com a carta, demonstrando grande euforia.

— Mamãe, mamãe, veja... Chicago!

Papai adorava aquela cidade, a cidade do vento. Ele havia estudado na Universidade de Chicago e sentia-se parte do barulho e do burburinho da grande cidade. Vacas, galinhas, esterco, plantações e colheitas foram o cenário de sua vida quando ele era criança — mas foi a cidade grande que o cativou.

Mamãe adorava as campinas!

Ela pegou da mão dele a carta da Primeira Igreja Batista Norueguesa da Praça Logan.

— Não, esta não pode ser a vontade de Deus!

Eu tinha certeza de que se desencadearia uma tempestade.

Ninguém ousava desafiar papai!

— Por quê? - ele perguntou, olhando para mamãe sem acreditar

no que acabara de ouvir.

- Porque Deus jamais haveria de querer que eu abrisse mão de meu linóleo vermelho. Levei muito tempo para economizar um dólar. Deus jamais haveria de querer que eu desistisse dessa minha preciosidade.

Mais tarde, eu me dei conta de que o linóleo vermelho era, de fato, uma preciosidade. Ele cobria o buraco por onde o vento soprava — e também a mancha causada de tanto esfregar o local. Ele também servia para embelezar a pequena casa e proporcionar um pouco de conforto nas noites frias de inverno. Combinava com o fogão polido e com as cortinas brancas engomadas que emolduravam as vidraças reluzentes. (Mamãe engomava as cortinas no quartinho do quintal.)

Era maravilhoso quando nos sentávamos perto de mamãe na cadeira de balanço, mergulhando um torrão de açúcar em seu café e ouvindo as canções que ela cantava e as histórias que contava.

O linóleo vermelho era mesmo uma preciosidade.

Papai permaneceu calado. Não riu daquelas “tolices”, Ele conhecia mamãe.

— Sim - ele disse. — Precisamos orar.

- Sim —respondeu mamãe. — Se alguém vier comprar esta casinha

sem a placa de “Vende-se” e oferecer um dólar pelo linóleo... aí eu vou saber que foi da vontade de Deus!

— Sim, mamãe, vamos orar!

Papai estava feliz, Ele tinha certeza de que Deus enviaria o anjo Gabriel para convencer mamãe.

Mamãe tinha certeza de que ninguém compraria à casa sem a placa de “Vende-se”. Ela adorava o vento que soprava nas campinas. Aquele era o seu lar — um jardim — com seu linóleo vermelho. Ela sentia-se abençoada.

Certo dia, uma senhora parou para conversar com mamãe, enquanto ela cuidava do jardim.

— Estou procurando uma casinha como esta. Ela está à venda?

— Oh, não!

De repente, mamãe se lembrou.

— Entre para tomarmos uma xícara de café.

Enquanto mamãe coava o café, a senhora notou o linóleo vermelho.

— É lindo — disse mamãe. — Paguei um dólar por ele.

Assim, aconteceu o que papai queria. Mamãe tinha muito medo dos gângsteres de Chicago, e seus cinco filhos ficavam com o nariz encostado nas vidraças cobertas de fuligem para ver o mundo lá fora. Nunca mais ela retornou às campinas.

Mamãe dizia:

- Não olhe para trás.

Mas hoje, quando olho para trás, vejo a fidelidade de Deus em cada geração.

Sete filhos e seus cônjuges levantaram-se e chamam mamãe de “abençoada”.

 

 

 

A BÍBLIA

 

Este livro o manterá afastado do pecado.

Ou o pecado o manterá afastado deste livro.

John Bunyan


 

NENHUM CACO DESPERDIÇADO

Gigi Graham Tchividjian

 

 

Um turista que passeava por um povoado europeu parou para observar um artesão especialista em ornamentar porcelana com fios de ouro.

Ele observou o artesão pegar um de seus trabalhos mais belos, um vaso delicado, e examiná-lo atentamente. Depois de alguns minutos, um leve sorriso de satisfação brotou nos lábios do artista.

A peça de artesanato era perfeita. O tamanho e a forma tinham dimensões exatas; a obra de arte era bem elaborada e delicada. De repente, para o grande susto do turista, o artesão pegou um martelo e esmigalhou a peça.

— Por quê? — gritou o homem, aturdido, quando finalmente conseguiu recuperar o fôlego. — Por que você fez isso?

O artesão olhou para o turista e explicou.

— Veja, meu amigo — ele disse —, o valor desse vaso não está em sua perfeição. Não está na obra de arte, nem em seu tamanho ou seu formato, por mais belo que ele possa ser. Não, o valor está no fato de que agora eu vou juntar estes cacos novamente. Com ouro!

O mesmo acontece com a nossa vida. O valor de nossa vida não está na perfeição que vemos ou na falta dela... não está naquilo que fizemos ou deixamos de fazer... não está em nosso trabalho, por mais árduo que tenha sido... não está em nossos esforços, por mais sinceros que tenham sido... não está na esperança de que receberemos uma segunda chance para nos redimir.

Não, o valor de nossa vida está no fato de que Deus não desperdiça nada. Ele pega todos os cacos de nossa vida, até mesmo os mais miúdos e imperfeitos, e os junta novamente com seu sangue, que é infinitamente mais precioso que o ouro.

 


 

A MAIOR NECESSIDADE DO HOMEM

Roy Lessin

 

 

Se a maior necessidade do homem fosse conhecimento,

Deus nos teria enviado um professor.

Se a maior necessidade do homem fosse saúde física,

Demo nos teria enviado um médico.

Se a maior necessidade do homem fosse dinheiro,

Deus nos teria enviado um financista.

Se a maior necessidade do homem fosse divertimento,

Deus nos teria enviado um humorista.

das a maior necessidade do homem era perdão,

E foi por isso que Deus nos enviou um salvador.


 

ANJOS, PINTURAS E TAPETES

Patsy Clairmont

 

 

Certa vez, fui persuadida a fazer um curso de artesanato para produzir anjos de madeira. O modelo de anjo feito pelo instrutor (arte primorosa) era maravilhoso. O meu (arte de segunda categoria) parecia mais um anjo de uma gangue de motoqueiros...

Meu anjo não chegou a ser terminado por falta de algumas partes celestiais. Ele tinha apenas uma asa e faltava o halo. Hoje, ele está no fundo de uma caixa do porão de minha casa, ainda aguardando o momento de brilhar. Que ele descanse em paz.

Cheguei a frequentar um curso de pintura e recebi nota A. Finalmente encontrei uma coisa na qual posso ser bem-sucedida, pensei. Mas, quando levei um de meus projetos para casa - uma tela de natureza morta com maçãs dentro de uma tigela -, minha amiga pensou que eu tivesse pintado um pavão.

Perguntei à professora como eu havia conseguido tirar uma nota À em seu curso.

— Por ter comparecido todas as semanas — foi a resposta.

Ela devia ter o dom da misericórdia.

Meu marido, Les, e eu começamos a tecer um tapete 25 anos atrás. Quase chegamos à metade; juntos, tecemos menos de cinco centímetros por ano e devemos terminá-lo por volta do ano de 2012. Talvez você queira ser o primeiro de nossa lista de presentes.

Quando penso que gosto mais de começar a fazer alguma coisa do que de terminá-la, começo a sentir-me culpada. Mas não estou sozinha nessa história. Algumas boas almas poderiam cobrir centenas de quilómetros com seus trabalhos artísticos que ficaram esquecidos.

Quando afasto uma caixa de material de artesanato para abrir espaço para meu mais recente interesse, dou graças a Deus por Ele não ter desistido de mim — uma obra em andamento — como faço com meus inúmeros projetos. Posso confiar em sua promessa: "Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus" (Filipenses 1.6).

Hummmmm... que belo versículo! Como será que ele ficaria bordado em ponto de cruz?

 

 

Tenha coragem para lidar com as grandes tristezas da vida e paciência para lidar com as pequenas; e, depois de ter cumprido laboriosamente sua tarefa diária, vá dormir em paz. Deus continua. acordado.

VICTOR HUGO


 

A CADEIRA NA VARANDA

Ethel L. Lewis

 

 

Mamãe e suas flores. Penso que ela seria capaz de pegar um galho seco e fazê-lo brotar. Não era fácil fazer qualquer coisa brotar nas areias do sudoeste do Texas, a não ser grama e mato. Porém, de uma ou outra forma, mamãe conseguia manter vivas algumas flores. Hoje, quando faço uma retrospectiva, penso que descobri seu segredo.

Morávamos em urna fazenda, e, se você não conhece nada a respeito da vida no campo, é lá que a gente se levanta cedo, tira leite da vaca e faz trabalhos de todos os tipos. No campo, há sempre alguma coisa para fazer. Houve uma época em que eu acordava antes de todos da casa, isto é, antes de todos, menos de mamãe. Eu gostaria de saber se ela dormia. Eu me levantava e atravessava a cozinha na ponta dos pés em direção à porta dos fundos, imaginando ser a primeira a sair da cama. Mas, assim que eu abria a porta de tela e punha um pé para fora, lá estava mamãe, sentada em uma cadeira de madeira que ela havia comprado, cantarolando hinos e lendo a Bíblia. Ela olhava para mim e sorria.

Alguns anos atrás, recebi um telefonema urgente para que eu voltasse para casa. Mamãe havia sofrido um sério ataque cardíaco e estava entre a vida e a morte. Papai havia falecido alguns anos antes. Liguei para o hospital, e a enfermeira colocou o fone junto ao ouvido dela.

— Mamãe, estou a caminho para vê-la. Você estará aí quando eu chegar? — perguntei.

— Estarei aqui esperando por você — ela respondeu.

A enfermeira disse que ela estava com um lindo sorriso no rosto. Quando cheguei ao hospital, ela já estava bem melhor e pronta para voltar para casa. Mas, como suas condições exigiam atenção especial, voltei ao Texas e fui buscá-la para morar comigo.

Nos três anos seguintes, os laços que nos uniam se intensificaram e passaram a ser cada dia mais preciosos para mim. Mamãe sentava-se no jardim nas primeiras horas da manhã e lia sua Bíblia. Sabendo que ela gostava muito de flores, eu costumava surpreendê-la com uma planta que encontrava por acaso e que ela apreciava.

Quando seu estado de saúde piorou, ela não podia sair da cama para cuidar das plantas, e eu não tinha sido agraciada com seu dom. Eu tentava cuidar delas, fazendo o que minha mãe me dizia. Mas penso que as plantas sabiam que meu toque não era igual ao de minha mãe. Elas perderam o viço e murcharam. Eu lutava, e elas também lutavam. Mamãe dizia sempre:

— Espero que o Senhor permita que eu cuide do jardim dele quando for para o céu.

Eu sabia que ela sentia falta de cuidar das flores.

Em um dia frio de fevereiro, o Senhor chamou mamãe para morar com Ele. Levamos seu corpo ao mesmo local no sudoeste do Texas onde fui criada. Ela foi enterrada ao lado de papai. Depois de uma semana, voltei de carro para minha casa em Dallas. Eu estava anestesiada pelo sofrimento, mas sabia onde ela estava e quase podia ouvi-la dizer: "Estarei aqui esperando por você."

Quando cheguei, encontrei a casa gelada, e eu estava ansiosa por acender a lareira. Foi, então, que me lembrei. No dia em que mamãe faleceu, eu havia colocado as flores no quintal para receberem um pouco da luz solar, na intenção de levá-las para dentro à noite, da maneira como sempre fazia. Mas, na confusão dos preparativos para o funeral e do sofrimento, eu me esqueci delas. Meu coração ficou pesaroso. Elas devem ter congelado e morrido de frio, pensei.

Abri as cortinas, triste demais por ter de lidar com as flores de mamãe. Mas, para minha surpresa, todas as plantas estavam carregadas de flores e de botões. Os galhos quase se arrastavam no chão por causa do peso de tantas flores lindas.

Ri e chorei ao mesmo tempo. Eu sabia que era a maneira de Deus me dizer que mamãe estava atarefada fazendo o que ela mais queria... trabalhando no jardim dele. E eu sei que todos os dias, nas primeiras horas da manhã, ela está sentada em uma cadeira na varanda do céu, rodeada de flores perfumadas e com um lindo sorriso no rosto.


 

A ORAÇÃO DE UMA CRIANÇA

Corrie ten Boom

 

 

Uma mãe que conheci contou-me que viu seu filhinho sentado em um canto da sala, dizendo:

— A-B-CD-E-F-G...

— O que você está fazendo? — ela perguntou.

- Mamãe, você me disse que eu preciso orar, mas nunca orei na vida e não sei como fazer. Estou recitando o alfabeto inteiro para Deus, pedindo que Ele faça uma boa oração com essas letras.


 

COM SABOR DE CHÁ

Ruth Bell Graham

 

 

Em um de seus livros, F. W. Boreham conta a história de uma senhora escocesa idosa que morava sozinha e era muito pobre.

Porém, ela ofertava à igreja o dízimo do pouco que possuía. Quando não tinha condições de assistir ao culto, ela aguardava a visita de um diácono que já buscar sua oferta. O diácono sabia muito bem que aquela senhora era muito pobre, mas sabia também que ela se sentiria profundamente ofendida se ele não passasse em sua casa para pegar o dinheiro; assim, tomava o cuidado de não falhar.

Certo dia, ele chegou à casa dela no final da tarde.

A idosa Mary estava sentada perto da janela tomando chá.

— A oferta está sobre a prateleira da lareira — ela disse, depois de cumprimentá-lo. — O senhor aceita uma xícara de chá?

O diácono sentou-se. Quando Mary lhe entregou a xícara, ele olhou dentro e exclamou, surpreso:

— Ora, Mary! Há apenas água nesta xícara!

— Eu sei! — ela disse. — Mas Deus a deixa com sabor de chá!


 

A ALEGRIA DO PAI

Robin Jones Gann

 

 

Hoje, o vento convidou a mim e às crianças para sairmos à caça dele. Aceitamos o convite. As árvores, dançando como ciganas com joias nos cabelos, riam acima de nós, enquanto caminhávamos felizes pela rua. Os bolsos de minha jaqueta começaram a encher-se de tesouros do outono, colocados ali por dois pares de mãozinhas.

Depois de retornarem à casa aquecida, as crianças, ofegantes e com as bochechas vermelhas, despejaram seus tesouros em cima da mesa da cozinha, felizes com suas descobertas. Em meio a vários raminhos e a uma profusão de pedras, o pequeno Ross havia encontrado urna concha de caracol — sem o caracol. Rachel exibiu algumas folhas de árvore cor de âmbar e pegou a maior para usar como leque. Observei enquanto eles trabalhavam, colocando em ordem as bolotas de carvalho, as pedras, as folhas e os ramos para fazer um centro de mesa. As crianças conversavam em voz baixa, perdidas no mundo dos sonhos, magnetizadas diante daquele punhado de enfeites criados por Deus.

A cena me fez lembrar de meus tempos de infância. Eu costumava levar tesouros para minha mãe e os espalhava sobre o balcão da cozinha. Certa tarde, ela não fez caso das pedrinhas brancas e dos gerânios amassados, mas fixou a atenção em uma folha cinzenta e um pouco estragada. Eu quase havia deixado aquela folha na sarjeta por achá-la feia e inútil.

Mamãe passou os dedos pelas laterais da folha e virou-a em direção à janela da cozinha. Os suaves raios coloridos do Sol iluminaram a folha. Para meu grande espanto, enquanto mamãe girava a folha entre os dedos, a cor cinzenta foi, aos poucos, transformando-se em um lindo tom azul-prateado. Um "milagre" comum.

Procurando palavras para me expressar, compartilhei aquele momento maravilhoso com meus filhos, contando-lhes que eles eram um tesouro para Deus. Eu queria que eles sentissem naquele momento a alegria do Pai, que compreendessem como Ele se rejubila em ajuntar as coisas comuns deste mundo para levá-las ao aconchego de seu reino, como Ele pode transformar farrapos em diamantes.

Acima de tudo, eu queria que meus filhos soubessem que seus jovens corações não são simples enfeites para servirem de brinquedo, e sim joias raras e preciosas nas mãos do Rei.

Eles olharam para mim com ar inocente, confusos diante de meu discurso veemente. Será que eu também havia olhado para minha mãe da mesma maneira? Talvez essas verdades infinitas não possam ser ensinadas, pensei. Podem ser apenas colecionadas, examinadas, arrumadas e, finalmente, guardadas como tesouros. E esse processo leva uma infinidade de dias repletos de milagres comuns.


 

DORA

Sue Duffy

 

 

— Meu telefonema é a respeito da senhora que apareceu no jornal de hoje - eu comecei a dizer.

- Eu gostaria de me apresentar como voluntária. Eu não costumava responder a artigos dessa natureza. Era muito mais fácil fazer uma pausa, orar pelos menos favorecidos e continuar a leitura do jornal. Mas, desta vez, o Senhor parecia dizer: "Vá."

Ela era uma viúva idosa, quase cega. Sua casa não tinha água corrente, o banheiro havia afundado por causa do piso apodrecido, e a varanda estava se separando da casa. Também havia ratos. Um vizinho zeloso, que descobrira a situação caótica daquela senhora idosa, havia organizado uma força-tarefa para consertar a casa, e o jornal noticiara o acontecimento.

Na manhã seguinte, entrei na sala de estar de uma casa que um dia havia sido suntuosa. As portas em estilo francês da sala de jantar estavam penduradas nas paredes manchadas. Janelas altas, um cômodo ensolarado e duas lareiras "evocavam", com orgulho, algum importante construtor perdido no passado. Os móveis estragados estavam enfeitados com flores de plástico empoeiradas em cima de toalhinhas amareladas e bugigangas compradas em lojas de pechincha.

Quando entrei no quarto, quase não a enxerguei. Ela estava em pé, encostada na parede. Olhos desfocados por trás de lentes grossas movimentavam-se rapidamente como se estivessem buscando um sentido para o que viam. Cabelos encaracolados e grisalhos caíam sobre seu rosto pálido. Seu corpo estava curvo, e sua estrutura era franzina. Suas roupas estavam rasgadas e manchadas.

O nome dela era Dora. Tinha 79 anos.

Tentei conversar com ela, mas fui tomada por um súbito sentimento de piedade. De repente, a voz de Deus parecia murmurar em meus ouvidos: Ela é minha filha. Você deve anuí-la. É por isso que você está aqui.

- Dora, você permite que eu volte amanhã para pintar as paredes da casa? - eu perguntei, em voz alta e devagar, como se estivesse falando com uma pessoa um pouco surda.

O que há de errado comigo?, eu me censurei. A última coisa de que essa senhora necessitava era ser ofendida por uma benfeitora.

- Por mim, tudo bem - ela disse, em voz baixa.

No dia seguinte, enquanto raspava a tinta dos vidros de uma janela alta, eu me perguntava como seria possível viver com tanta falta de recursos. Que existência patética, eu estava pensando quando ouvi Dora entrando no quarto.

- Obrigada pela ajuda - ela disse. - Acho que não tenho conseguido cuidar bem de minha casa.

Ela parecia lúcida.

- Há quanto tempo a senhora mora aqui? - perguntei.

- Mais ou menos 35 anos.

- Acho que a cidade mudou muito. - Uma pobre tentativa de continuar a conversa.

- Hoje de manhã, eu li no Wall Street Journal uma notícia sobre a bolsa de valores do Japão - ela disse repentinamente.

- Como assim? O que ela disse?

- A bolsa de valores do Japão - ela prosseguiu. - Acho fascinante acompanhar a subida e a queda das ações ao redor do mundo.

Sem saber o que dizer, calei-me por alguns instantes.

- A senhora lê o Wall Street Journal? - perguntei, incrédula.

— Leio — ela respondeu. — Leio também o New York Times. Eu compro esses dois jornais em braile.

Fiquei feliz por ela não poder ver a expressão de meu rosto.

— É incrí... quero dizer, é maravilhoso. Eu não sabia que esses dois jornais eram editados em braile.

Mas eu estava pensando: Néia posso acreditar que a senhora tenha algum interesse no Wall Street Journal e muito TM 'MJ que compreenda o que lê.

— Ah, sim. A Comissão dos Cegos me envia todos os meses os livros e as revistas de minha preferência. Uma das revistas publica minhas poesias.

— Publica suas poesias?

Eu já havia descido da escada. Quem é esta pessoa que me deste para cuidar, Senhor? O que significa isso?

Naquele dia, concentrei-me mais em Dora do que no pincel. Eu estava muito constrangida para fazer perguntas em demasia e não queria mergulhar de maneira tão profunda em seu intelecto. Mas ela estava ansiosa por falar. Devia fazer muito tempo que ela não tinha uma oportunidade assim para conversar com alguém.

Dora falou sobre as tribos nómades do Oriente Médio e sobre a maneira como os beija-flores se alimentam.

— Existe muita coisa para aprender neste mundo — ela disse. —Tento estudar uma coisa diferente por dia.

Ela me perguntou se eu gostava de beisebol. Dora não perdia nenhum jogo pelo rádio e sabia a média de rebatidas da maioria dos jogadores da liga de beisebol.

— Você sabe alguma coisa sobre coqueluche? — ela perguntou mais tarde naquele mesmo dia.

Depois, o assunto mudou para a política russa. O conhecimento jorrava com força de seu reservatório mental.

Enquanto eu trabalhava, Dora recitou suas poesias. Eram delicadas, profundas e ternas.

Falta de recursos? Foi isso o que pensei desta mulher? Incapaz de cuidar de si mesma? Na verdade, ela não tinha condições de manter sua casa. Mas seu conhecimento era meticulosamente aprimorado.

Depois de terminada a pintura da casa, não pude ausentar-me por muito tempo. Dora necessitava de mim — para levá-la ao médico, para buscar frutas no mercado, para apagar a luz do forno, para comprar pilhas para seu rádio relógio, para ajudá-la a lavar roupas. Mas, na realidade, eu é que necessitava dela e de sua maneira de encarar a vida.

Que ironia, pensei, eu conseguir enxergar tantas coisas por meio dos olhos quase cegos dessa mulher. Nela, eu via alegria desvinculada de circunstâncias — um espírito sem compromisso com o elogio dos outros.

Quando duas casas históricas da região foram abertas para os turistas, levei Dora para ver, quanto fosse possível, as ricas tapeçarias, quadros, antiguidades e jardins. Por não ser totalmente cega, ela tinha condições de reconhecer formas, desenhos e cores.

Ela sentiu a grandeza da casa e absorveu-a com gratidão. Tocou cada peça. Trajando uma roupa de cores variadas, que não combinavam entre si, e um boné vermelho e branco, ela apoiou-se em meu braço enquanto eu a levava de cômodo em cômodo. Os olhares das pessoas eram implacáveis. Fiquei feliz por Dora não poder vê-los.

Dora não está muito certa a respeito de Jesus. Já leu muitos escritos contraditórios. Mas a orientação que Paulo nos dá em Colossenses é clara: "Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas."

Ajudar Dora a distinguir entre o que é Falso e o que é verdadeiro constitui um desafio para mim. Oro pedindo a orientação de Deus.

Recentemente, quando Dora foi levada para uma casa de repouso por ter fraturado o quadril, eu li para ela O refúgio secreto. A autora, Corrie ten Boom, falou ao coração de Dora de uma forma que eu não conseguia. Dora assustou-se diante dos horrores da crueldade nazista. Chorou por Corrie e Betsy, quando elas lutaram para levar a luz de Jesus à escuridão do campo de concentração.

Foi difícil para Dora acreditar que aquela história era verdadeira. Mas, depois, ao ouvir a voz de Corrie ten Boom na fita cassete que lhe ofereci de presente, Dora exclamou, surpresa:

— Ela e' real.

Não existe fita cassete com a voz do Senhor. Mas, quando oro por Dora, tenho certeza de que Ele falará com ela, e ela finalmente exclamará:

— Tu és real.

Agora compreendo a curiosa necessidade que senti de ligar naquela manhã para o número mencionado no jornal. Por certo, o Senhor teria cuidado de Dora sem mim. Mas quanta coisa eu teria perdido se Ele tivesse me deixado de fora!

 

 

Não comece o concerto sem antes afinar seus instrumentos.

Inicie cada dia na companhia de Deus.

JAMES HUDSON TAYLOR


 

CONSOLADOR

Joni Eareckson Fada

 

 

Uma avó muito especial contou-me recentemente uma experiência que teve com sua netinha:

O telefonema de minha filha do pronto-socorro assustou-me. Minha neta, Robin, que acabara de completar seis anos, havia caído de um brinquedo no pátio da escola ferindo gravemente a boca. Fui buscar suas irmãs na escola e passei uma tarde agitada e tensa, cuidando das crianças, enquanto aguardava que minha filha retornasse com Robin.

O médico suturou a boca da menina com oito pontos internos e seis externos. Enquanto as irmãs menores corriam para os braços da mãe, Robin sentou-se na grande poltrona da sala de estar. O rosto inchado modificou sua fisionomia, e os fios de seus cabelos compridos estavam grudados com sangue seco. Ela parecia frágil e desamparada. Aproximei-me dela com o máximo cuidado, porque Robin é uma criança tímida e reservada.

— Você deseja alguma coisa, querida? — perguntei.

Ela olhou firme para mim e respondeu:

— Quero um abraço.

Eu também!, pensei, aninhando-a em meu colo. Mas a quem deve uma avó exausta recorrer e como? Enquanto eu a embalava carinhosamente, as palavras da Bíblia em João 14.16 vieram-me à mente: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, fim de que esteja sempre convosco."

E eu lhe fiz um pedido tão simples e direto quanto o de Rabin. E, da mesma forma, senti seus braços firmes envolvendo nós duas.

Assim como aquela avó, frequentemente ansiamos por um abraço consolador durante nossos momentos de cansaço, de angústia e de confusão.

Existe algo a respeito do Espírito Santo que eu amo.

Sabemos que a Bíblia chama o Espírito, dentre outros nomes, de Conselheiro, e certamente Ele também é o nosso Intercessor. Aprendemos que Ele é nosso Instrutor, Guia e o Espírito da Verdade. Ele, ainda, nos faz lembrar de tudo o que Jesus disse e revela-nos o Pai. Ele nos convence de que somos pecadores. Ele faz muitas coisas. Mas há uma de que mais gosto...

Ele é nosso Consolador.

Se você estiver triste hoje, não pegue o telefone para conversar com um amigo. Busque os braços firmes do Espírito. Ele tem vários nomes, porém o mais importante para hoje é que Ele é seu Consolador. Ele está pronto para abraçar meninas machucadas, vovós tristes, papais preocupados... e você também.

Você está dizendo que faz muito tempo que não sente aquele abraço divino?

Deve fazer muito tempo que você não pede.


 

GUARDE ISTO PARA MIM

Autor Desconhecido

 

 

Guarde isto para mim."

Qual a criança que já não disse isso,

Colocando um tesouro na mão de sua mãe,

Com a recomendação rigorosa de que ela deve guardá-lo

Em lugar seguro até sua volta?

A criança sabe que, com a mãe, o tesouro estará seguro;

Nenhuma preocupação ou medo toma conta de sua mente.

E, despreocupada, ela volta a brincar.

Se as crianças podem ser tão confiantes, por que nós

Também não colocamos nas mãos de Deus nossos tesouros,

Nossas esperanças, ambições, necessidades e aqueles que amamos?

Deixe tudo isso em seus braços carinhosos,

E diga com o coração jubiloso:

"Guarde isto para mim."

 


 

UM BOM CORAÇÃO COMO APOIO - Augustus J. Bullock

Mais do que eu pensava, meu pai ajudou-me a manter o equilíbrio. Quando ainda estava em fase de crescimento, ficava constrangido ao ser visto com meu pai. Ele sofria de grave deficiência física e era muito baixo. Quando caminhávamos, apoiava a mão em meu braço para se equilibrar. As pessoas nos olhavam muito. Eu me contorcia por dentro diante dessa atenção indesejada. Se meu pai algum dia notou isso, nunca o demonstrou.

Era difícil coordenar nossos passos - os dele vacilantes, os meus impacientes - e por essa razão não falávamos muito no caminho. Mas quando saíamos, ele sempre dizia: "Ande em seu ritmo. Vou procurar adaptar-me a ele."

Nossa caminhada normal limitava-se a ir até o metrô ou voltar dele, pois essa era sua condução para o trabalho. Ele ia trabalhar mesmo doente e a despeito do mau tempo. Quase nunca faltava e chegava ao escritório mesmo quando outros não conseguiam. Uma questão de orgulho.

Quando o solo estava coberto por neve ou gelo, era-lhe impossível andar, mesmo com ajuda. Nessas oсаsiões, minhas irmãs ou eu o puxávamos pelas ruas do Brooklyn, Nova York, num trenó até a entrada do metrô. Uma vez lá, ele se agarrava ao corrimão até alcançar os degraus mais baixos, mantidos livres do gelo pelo ar quente do túnel. Em Manhattan, a estação do metrô ficava no subsolo do prédio do escritório dele, e só precisava tornar a sair quando se encontrava conosco a caminho de casa.

Atualmente, quando penso nisso, fico assombrado diante da coragem necessária a um homem para submeter-se a tal indignidade e estresse - sem amargura ou queixas.

Nunca falava de si como objeto de piedade, nem demonstrava qualquer inveja dos mais afortunados ou caраzes. O que procurava nos outros era um "bom coração" e, se o encontrava, seu dono lhe parecia bom.

Hoje, mais velho, acredito que seja esse um bom padrão para julgarmos as pessoas, embora ainda não saiba exatamente o que é um "bom coração". Entretanto, percebo quando não demonstro ter um.

Sem poder exercer muitas atividades, meu pai ainda assim procurava participar. Quando um time de beisebol, jogando em terreno baldio, ficou sem dirigente, ele assumiu a chefia. Era apreciador e entendia de beisebol. Levou-me muitas vezes ao estádio para ver os jogos. Gostava de ir a festas e bailes, onde se divertia só de ficar sentado, observando.

Em certa ocasião, houve briga numa festa na praia. Todos se esmurravam. Não lhe agradava ficar sentado observando, mas não conseguia manter-se de pé sem ajuda na areia mole. Frustrado, começou a gritar: "Luto com qualquer um que queira se sentar comigo!" Ninguém quis. No dia seguinte brincaram com ele dizendo ser a primeira vez que um lutador era instado a levar um nocaute antes mesmo de começar a luta.

Hoje sei que participava de certas experiências indiretamente, através de mim, o filho homem. Quando eu jogava bola (mal), ele também "jogava". Quando entrei na Marinha, ele também "entrou". E quando eu ia para casa, de licença, ele fazia questão de que eu visitasse seu escritório.

Ao me apresentar, na verdade estava dizendo: "Este é meu filho, mas também sou eu, e eu poderia ter feito isso também, se tudo tivesse sido diferente." Essas palavras nunca foram pronunciadas em voz alta.

Ele já se foi há muitos anos, porém penso muito nele. Pergunto-me se teria sentido minha relutância em ser visto com ele durante nossas caminhadas. Se sentiu, tenho pena de nunca lhe ter dito o quanto me arrependi, como fui indigno, como o lamentei. Penso nele quando reclamo de acontecimentos triviais, quando invejo a boa sorte de outros, quando não tenho "bom coração".

Nessas ocasiões, imagino-me pousando a mão em seu braço, para recuperar meu equilíbrio, dizendo: "Ande em seu ritmo. Vou procurar adaptar-me a ele.


 

O HOMEM QUE VENCEU O CÂNCER

A MARINHA talvez tenha maior significação para o Capitão-de-Corveta Edwin Miller Rosenberg do que para qualquer outro marinheiro atualmente em serviço. Ele falou sobre a Marinha num tom de incontido entusiasmo, quando o visitei a bordo do destroier Vogelgesang, do qual é comandante. Enquanto escutava sua incrível e sugestiva história, eu o estudava; bela cabeça, corpo bem proporcionado, olhos resolutos. Ninguém poderia suspeitar que ali estava um homem que, aos 32 anos de idade, havia derrotado quatro investidas do câncer. Milagre? Não no modo de ver de Rosenberg.

Desde criança ele desejava tornar-se oficial de marinha e durante todo o tempo de escola preparou-se para entrar na Academia Naval dos Estados Unidos. Não tinha influência, mas procurou aproximar-se de todas as pessoas importantes da sua cidade. Passou horas em salas de espera, escreveu cartas, conseguiu ser apresentado a chefes políticos e congressistas. Após vários anos de sua ardorosa campanha, a cidade acabou convencendo-se de que não seria patriótico deixar de mandá-lo para a Academia Naval. Rosenberg saiu oficial poucos dias depois de Pearl Harbor e foi designado para servir no Omaha, onde ele era o mais novo dos guardas-marinha. Em três anos de combate, aprendeu bem a sua função; tudo quanto dizia respeito ao navio fascinava-o. diz ele, “é ser um bom oficial de marinha, e eu sabia que isso significava aprender tudo sobre a Marinha, inclusive as coisas do ar.” O Comandante Rosenberg deixou o Omaha e foi para o Texas, a fim de iniciar um treinamento de voo.

Tinha-se casado em 1942, e sua mulher foi com êle. Rosenberg estava terminando o curso em Pensacola, quando, numa manhã de domingo, foi acometido por violenta dor de estômago. Tinha febre de 40 graus, o lado direito do abdome estava vermelho e inchado, e a dor era aguda.

O diagnóstico provisório, no dispensário naval, foi de febre ondulante. Mas ao cabo de dez dias a febre baixou, a inchação desapareceu e ele voltou aos voos de treinamento.

Em janeiro de 1945, recebeu o brevet. Entretanto, durante uma corrida de obstáculos, levou uma pancada na região inguinal e o ataque que sobreveio foi ainda mais grave que o primeiro. Teve febre alta, dores lombares, náuseas. Agora sabia que era um homem doente, mas estava resolvido a não ser posto fora de ação. Estava embarcado no porta-aviões Rudyerd Bay quando terminou a guerra. Sofrendo dor intensa e constante, não podia ficar direito em pé e vinha perdendo peso e energias. O médico de bordo estava preocupado, mas Rosenberg quis permanecer no navio enquanto este continuasse em serviço.

O Rudyerd Bay foi encostado em 1946, sendo Rosenberg internado no Hospital Naval Chelsea, em Boston. Dois dias depois, os cirurgiões retiraram-lhe um tumor do lado direito. Contaram-lhe então a amarga verdade. O tumor da virilha era maligno e tinham encontrado outro num rim. Iam proceder a uma cistoscopia para apurar a sua natureza.

- A simples menção da palavra “dor”, diz Rosenberg, imediatamente penso naquele cistoscópio. Com certeza é com aquele instrumento que eles veem quem tem fibra e quem não tem.

Depois da cistoscopia, um médico da Marinha veio ao quarto de Rosenberg.

- O que lhe vou dizer não é fácil de ser dito, começou ele. Mas acredito que você gostaria de ouvi-lo à queima-roupa. Aquele seu tumor do rim é canceroso. Acho que você não tem mais de umas duas semanas de vida. Em casos como o seu, emprega-se a radioterapia. Vamos mandá-lo para o Hospital Naval de Brooklyn, onde são especialistas em câncer.

Mais tarde, o médico voltou para perguntar a Rosenberg se ele desejava assistência jurídica para fazer testamento.

Naquela tarde, Rosenberg foi carregado para uma sala de aulas, a fim de ser apresentado como um caso de “câncer com todas as probabilidades de ser fatal”. O professor afirmou: “Jovens como este não podem ter mais que umas duas ou três semanas de vida.”

- Quando voltei para meu quarto, eu estava ficando louco, diz Rosenberg. Mandei chamar o médico. “A meu ver, quem tem de decidir sobre a esperança de cura sou eu, e não a medicina. Façam tudo que puderem e deixem a esperança por minha conta. O senhor diz que a irradiação é a única possibilidade - então que venha esse raio X, para eu poder voltar ao serviço ativo. Que diabo de medo é esse que assalta todo o mundo, assim que ouve a palavra câncer?”

“Eu sei como você se sente,” replicara o médico, “e você tem razão: não convém perder tempo; vamos fazer uma aplicação de raio X antes de você ir, esta noite, para o Hospital de Brooklyn. Mas é melhor deixar bem claro o seguinte: ainda que você vença o câncer, nunca ficará apto para continuar na Marinha. Nenhum doente de câncer jamais o conseguiu.”

“Vamos deixar a preocupação para hora dela, replicou ele.” Quando o médico saiu do quarto, Rosenberg curvou a cabeça e orou em silêncio e com fervor. Porque ele sempre tem encontrado forças na oração.

- Ninguém deve tentar avaliar a esperança de outra pessoa, diz ele, antes de lhe ouvir as orações.

A ORAÇÃO é uma força tão real quanto a força da gravidade. Como médico, tenho visto homens ficarem curados de doenças e tristezas pelo sereno esforço da oração, depois de terem fracassado todas as demais terapêuticas. Somente na oração alcançamos aquela completa e harmoniosa comunhão do corpo, mente e espírito que dá ao frágil ser humano a sua inabalável força. - Dr. Alexis Carrel, autor de О Homem, Esse Desconhecido

Nas semanas seguintes, em Brooklyn, Rosenberg foi submetido a irradiações constantes. Todos os dias lhe injetavam corante no rim para poderem estudar o câncer. Depois de cada aplicação ele passava muito mal. Nem uma única vez deixou de falar com franqueza sobre a doença com sua mulher, que estava sempre ao seu lado. Nem foi chamado advogado algum para pôr em ordem os seus negócios.

Em três meses foi conseguido o “milagre”. Os médicos ficaram maravilhados diante das chapas radiográficas, que mostravam que o tumor maligno havia desaparecido. Rosenberg sentia-se muito bem.

Pediu para voltar ao serviço ativo, mas a orientação seguida pela comissão encarregada do assunto, no hospital, consistia em incluir na lista dos reformados permanentes os doentes de câncer. Insistiu ele:

- Estou bem. Deem-me uma oportunidade de recomeçar a vida onde eu havia parado.

A comissão fez uma concessão: ele tiraria uma licença de 30 dias e depois se estudariam os resultados de um minucioso exame físico. Terminada a licença, ele compareceu ao hospital, confiante na sua boa forma. Mas os médicos da Marinha encontraram um novo câncer - no pescoço. Quando voltou para o hospital a fim de fazer o tratamento de raio X, a vela da esperança de Rosenberg, com o pavio da oração, ardia com o mesmo brilho. O tumor canceroso foi contido, depois diminuiu aos poucos, e acabou sendo eliminado.

Dessa vez, entretanto, a comissão não transigiu. Assim sendo, em setembro de 1946 Rosenberg apelou para a comissão de reforma, em Washington.

“Sou um oficial de marinha bom demais para estar reformado”, argumentou. “Se eu viver apenas um ano, pelo menos a Marinha terá tido um ano de serviços meu sou então ficará pagando o meu soldo de reformado sem receber nada em troca.”

A comissão afirmou que não poderia basear-se numa possibilidade tão fraca. As estatísticas davam a Rosenberg uma expectativa de seis meses de vida.

- Aproveite os últimos dias para passar com a família, disseram-lhe.

- Que sou eu, uma estatística ou um ser humano? perguntou ele.

A comissão ficou compadecida. Ele devia submeter o assunto à autoridade máxima, a Junta de Medicina e Cirurgia. As seis semanas seguintes Rosenberg passou-as praticamente nas salas da Junta. Finalmente, conseguiu falar com um capitão que o aconselhou a ir para a Florida e deitar-se na praia.

- Eu não posso ficar esperando a morte sentado por aí, disse ele.

A sua perseverança deu resultado. Foi enviado ao Hospital Bethesda para um exame geral. Se passasse, poderia voltar à ativa.

Rosenberg orou como nunca tinha orado. No Hospital Bethesda, sofreu outra cistoscopia e foi submetido a uma longa série de provas. Os exames revelaram -pela quarta vez - câncer, na região do primeiro.

Ainda desta feita, Rosenberg não desanimou. Em março de 1947, ele teve alta novamente. Mas sabia que a reforma que lhe haviam impingido era definitiva. Tinha sido uma dolorosa batalha. E ele perdera.

Alugou uma casa em Anápolis e conseguiu um lugar de professor numa escola particular. Um ano depois tinha arranjado para lecionar marinhagem e navegação na Academia Naval. Todo ano, por oсаsião do aniversário de sua reforma, ele escrevia uma carta ao Secretário da Marinha, contando-lhe que se encontrava em muito boa forma е pedindo para voltar ao serviço ativo.

Mas isso somente poderia acontecer mediante uma lei especial.

Durante semanas a fio, Rosenberg compareceu ao Senado. Um dia, durante uma pausa dos trabalhos, ele ficou conhecendo o Senador Hickenlooper, que, ao ouvir a sua história, lhe prometeu apresentar o projeto de lei.

A 10 de julho de 1950, o original do projeto foi apresentado ao Comitê das Forças Armadas do Senado. Perguntaram a Rosenberg se queria fazer alguma declaração.

- Sr. Presidente, começou ele, numa voz quase embargada pela emoção, a Marinha é a minha vida e a minha alma. Não há mais nada no mundo que eu tenha vontade de fazer. Não acho direito que o país sustente um homem sadio para ele ficar sendo um inútil, e penso que, com a minha volta ao serviço ativo, o país terá conseguido um competente oficial de marinha. Tenho fé que, com o auxílio de Deus, ainda poderei, como tanto desejo, prestar mais uns 30 anos de serviço.

O projeto acabou passando no Senado. Rosenberg repetiu exaustivamente o processo de firme persuasão para conseguir que fosse aprovado pela Câmara. A lei foi sancionada em 22 de agosto de 1950.

Depois de completar cursos de recapitulação, Rosenberg voltou ao serviço ativo, a bordo de um destroier que, quando o entrevistei, tinha retornado a Norfolk.

- Sinto-me bem e sou um homem feliz, disse-me ele. Tenho aqui em Norfolk uma bela casa, uma esposa encantadora e um filho de quatro anos. E estou embarcado num dos melhores navios em serviço.

Quando os jornais veicularam a história de minha cura, recebi montanhas de cartas vindas do mundo inteiro. Todos queriam saber que processo de cura do câncer eu tinha usado. Escrevi a cada uma dessas pessoas: creia em você mesmo e em Deus; esse é o processo de cura, se quiser chamá-lo assim. O homem que desespera é uma vítima; o que não perde a esperança pode triunfar. Quando eu estava no Hospital Naval de Brooklyn, conversei com centenas de doentes que ali chegavam aguardando a morte, aterrorizados por uma palavra: câncer.

Eu lhes perguntava se sabiam orar, prosseguiu, e quando não sabiam eu orava com eles e os ajudava a aprender. Bem cedo levantaram o seu moral e o câncer passou a ser apenas uma doença. Alguns daqueles homens morreram, mas muitos viveram, talvez porque se tinham tornado mais fortes do que o seu medo. Naquela manhã em Chelsea, em que o médico sugeriu que eu solicitasse assistência jurídica para pôr em ordem os meus negócios, se eu tivesse chamado um advogado, sei que hoje não estaria vivo.


 

GLENDA E BRENDA – Dezembro 1998

 

Conhecendo Brenda. Seleções Dezembro 1998.

Uma grave infecção no canal vertebral atacou as irmãs gêmeas Glenda e Brenda quando tinham 6 meses de vida. Glenda morreu, e Brenda ficou para sempre mutilada. Brenda não sabia ou não podia gatinhar e muito menos andar. Os únicos sons que produzia eram guturais. Seus dedos cravavam-se nas palmas das mãos e seus membros eram retorcidos uns sobre os outros.  Mais incrível ainda é que Brenda, mesmo assim era muito bonita. Tinha olhos azuis, cabelos louros, macios e finos como fios de seda. Sua pele convidava ao toque- parecia coberta por talco perfumado. Quando sorria, usando os poucos músculos que podia controlar, o rosto se iluminava pela inocência. Eu pergunto: É fácil amar alguém assim? Mas Brenda era muito amada. Ela era o centro de sua família. As irmãs mais velhas aprenderam a carregá-la nos quadris e sempre à tardinha percorriam o pasto atrás de sua casa. Seus primos, vizinhos, com o rosto sujo de tanto brincarem, sempre lhe beijavam na face, e ela respondia com um sorriso. Ela não falava, mas era eloquente. Quando seu pai voltava do trabalho, carregava-a do berço para sua espreguiçadeira favorita lá na sala, e conversavam sobre o dia de ambos. Ela apenas o escutava, não podia encorajá-lo com perguntas nem responder com seus pensamentos, mas seus olhos nunca se afastavam do rosto dele. Ela escutava com todos os átomos de seu ser. Depois que ele morreu, Brenda passou meses olhando para a cadeira do pai, ao se aproximar a hora em que ele deveria chegar do trabalho. Vendo que não aparecia, gemia baixinho, exibindo seu pesar para todos ouvirem. Era impossível para seus parentes saberem quão pouco ela sabia ou entendia. 2 + 2= 4? Que morava num planeta chamado Terra, que girava em torno do Sol? Talvez. Mas que era amada e apreciada por pais, irmãs, tios e tias, e primos, ela sabia!

Quem a conheceu entendeu que a maior necessidade do ser humano que é a de ser compreendido e compreender é mais do que falar ou ouvir. Os médicos diziam que Brenda nunca chegaria à adolescência. Mas ela viveu até os 34 anos. Ela mostrou que todos nós ansiamos por amor e aceitação – e que florescemos quando os recebemos.